Rio Paraíba do Sul será tema de conferência na Universidade de Lisboa nesta 6a. feira

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Atendendo a um convite do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (cE3c), o professor titular do Laboratório de Ciências Ambientais (LCA) da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), Carlos Eduardo de Rezende, irá proferir uma conferência sobre os estudos que seu grupo de pesquisa vem realizando no Rio Paraíba do Sul desde 1993 quando a universidade começou oficialmente suas atividades em Campos dos Goytacazes.

A conferência intitulada “Results of a long-term project in a medium size basin: the Paraíba do Sul case apresentará os resultados coletados ao longo de quase 3 décadas em um das bacias hidrográficas mais densamente povoadas e .  do Brasil.  Entre os aspectos a serem abordados estão as flutuações temporais dos principais processos biogeoquímicos que ocorrem ao longo da calha principal do Paraíba do Sul até a sua chegada na plataforma continental.

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Além disso, no tocante às chamadas dimensões humanas das mudanças ambientais ,  serão apresentados os resultados  acerca das avaliações dos impactos socioeconômicos das mudanças no uso da terra sobre os ecossistemas naturais existentes no Paraíba do Sul, especialmente nas áreas de manguezais.

É importante frisar que este tipo de avaliação de longo prazo das principais bacias hidrográficas brasileiras é raro, o que aumenta ainda mais a relevância dos estudos realizados por Carlos Eduardo de Rezende e seu grupo de pesquisas no Paraíba do Sul.

Universidades também sob ataque em Portugal, mas com dirigentes com disposição para defendê-las

Estando para um período sabático na Universidade de Lisboa, não pude perder a oportunidade de assistir à aula inaugural para o ano acadêmico de 2018/2019. Apesar do grande momento do dia ter sido reservado para a última aula dada na universidade pelo presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, que está se aposentando compulsoriamente por estar completando 70 anos, o principal político do dia coube ao reitor da Universidade de Lisboa, o professor António Cruz Serra.

cruz serra

Para trocar em miúdos o pronunciamento que o reitor deu para uma plateia que reuniu altas autoridades do governo federal português e membros do corpo diplomático que atua na capital portuguesa expressou uma dura crítica à forma com que o ensino superior está sendo tratado em Portugal.

O reitor começou criticando a política de interiorização adotada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (MCTES), manifestamente pouco avisada”, que implicou na diminuição de vagas nas universidades públicas de Lisboa e do Porto, sem que tenha alcançado um crescimento mínimo nas universidades do interior e das ilhas, o que teria resultado numa aritmética desequilibrada, com 1.066 vagas retiradas às universidades e politécnicos das duas maiores cidades portuguesas, e um ganho de apenas 98 novos alunos distribuídos pelas 31 instituições das áreas (Algarve, ilhas, interior, Coimbra, Aveiro e Minho) que deveriam ser beneficiadas pela política do MCTES. O resultado, segundo António Cruz Serra, será o aumento da procura de jovens talentosos por vagas em universidades privadas.

Outra área sensível que foi abordada pelo reitor foi o que ele considera um ataque planejado contra a autonomia universitária das universidades públicas, e que se traduz na asfixia financeira e a intervenção no processo de recrutamento de pessoal, o qual impede que o recrutamento de profissionais seja feito com base no mérito. Nesse sentido, o reitor criticou “muitas medidas legislativas recentemente tomadas em total desconsideração pela autonomia universitária”, começando por aquela de que resulta “a contratação sem concurso do seu pessoal docente e investigador”. Tudo isso resultaria numa inaceitável precarização das condições de funcionamento da Universidade de Lisboa, e a criação de barreiras para que a instituição possa cumprir suas obrigações estratégicas para com o desenvolvimento nacional português.

O reitor António Cruz Serra também apontou para a necessidade de se repensar o sistema de avaliação das universidades públicas, considerado por ele como sendo muito rígido. O problema seria que o atual sistema de avaliação possui elementos que não tem a ver necessariamente com a mensuração da qualidade do ensino, e que podem contribuir para o enfraquecimento da capacidade das universidades formarem profissionais com as devidas competências que suas carreiras demandam. Sobre esse aspecto, veja o que diz o reitor da Universidade de Lisboa no vídeo abaixo.

Em uma crítica ao processo de “Hollywoodização” de Lisboa enquanto centro turístico internacional, o reitor analisou os impactos que estão ocorrendo na vida dos estudantes em função do forte encarecimento de aluguéis. Para contrapor a isso, a Universidade de Lisboa estaria tomando providências para um aumento na oferta de alojamentos estudantis, com a construção de novas unidades e a renovação de outras já existentes.  No quesito de ampliação de instrumentos acadêmicos já existentes, o reitor foi particularmente aplaudido quando anunciou a ampliação de bibliotecas, segundo ele com recursos próprios da instituição.

Trocando em miúdos tudo o que foi dito, o que transparece é que a precarização das universidades públicas não é um mérito único do Brasil, e que este processo possui um alcance internacional, especialmente naqueles países que estão mais na periferia do Capitalismo. Entretanto, diferente do Brasil e da maioria dos reitores brasileiros, o que assisti ontem foi ao pronunciamento de um reitor que se posiciona como o líder que a conjuntura demanda, e não como um passivo agente do estado que, quando muito, se resigna a tocar as coisas do jeito que é possível.

Voltando à aula magna do presidente de Portugal, ela transcorreu de forma a dar-lhe o final de carreira merecido a quem passou a vida labutando dentro de uma universidade pública. Isto, entretanto, não o poupou de ser cobrado pela imposição de taxas escolares (aqui chamadas de “propinas”) que os estudantes consideram caras e inadequadas para uma universidade pública (ver imagem abaixo).

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Como professor de uma universidade pública brasileira que agoniza pelas mãos de um (des) governo que afundou o Rio de Janeiro numa crise agônica, não posso deixar de notar similaridades entre os problemas que acontecem na Universidade de Lisboa e na Uenf. Entretanto, a diferença crucial parece ser que os dirigentes aqui, ou pelo menos o reitor, se coloca como um agente da universidade nas tratativas com o Estado, e não o contrário. E mais ainda, sem medo de emitir suas opiniões publicamente e na frente de quem formula as políticas criticadas. Isso convenhamos, já é uma grande diferença em relação ao que temos no Brasil e, em especial, nas universidades estaduais do Rio de Janeiro. Aliás, uma monumental diferença. 

Aduenf divulga entrevista com o Prof. António Nóvoa, ex-reitor da Universidade de Lisboa

ADUENF apresenta entrevista com o Prof. António Nóvoa

Em meio ao processo de greve de professores e servidores  técnico-administrativos da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), a Associação de Docentes realizou uma importante entrevista com o Prof. António Nóvoa, educador e ex-reitor da Universidade de Lisboa.

A experiência portuguesa ganha relevância neste momento na medida em que as universidades portuguesas sofreram um forte impacto da crise econômica imposta pelas receitas neoliberais impostas pela troika e souberam responder com medidas que mantiveram a sua integridade institucional. Neste contexto, a entrevista do Prof. António da Nóvoa traz algumas indicações de como se fez o enfrentamento da crise econômica e de seus impactos no cotidiano das universidades. 

Abaixo postamos a entrevista em sua íntegra.

 FONTE: http://aduenf.blogspot.com.br/2017/09/aduenf-apresenta-entrevista-com-o-prof.html

A palestra de António da Nóvoa na Uenf acabou em aplausos de pé. Mas sua mensagem contundente e desafiadora foi entendida?

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No encerramento das festividades dos seus 24 anos, a comunidade universitária da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) foi brindada com a presença do professor António Sampaio da Nóvoa da Universidade de Lisboa que ofereceu aos presentes com duas coisas tão básicas quanto fundamentais: uma crítica contundente aos descaminhos enfrentados pelas universidades na atual conjuntura histórica e uma visão de que elas podem cumprir um papel fundamental na produção de respostas às crises agudas que marcam o atual momento histórico.

Na parte da crítica, o professor Nóvoa, que foi reitor da Universidade de Lisboa onde liderou um complexo processo de transição para fortalecer as estruturas de produção de conhecimento universitárias em ferramentas para que Portugal superasse um agudo processo de crise econômica, não deixou pedra sobre pedra.  Ele atacou não apenas o produtivismo acadêmico, o abandono da ligação entre ensino e pesquisa, a predominância de propostas empresariais para a geração de recursos para as universidades, e a insistência de que universidades funcionem ancoradas na lógica predominante em empresas capitalistas.

Ao fazer isto, ele  colocou em questão a ideologia que está sendo aplicada há várias décadas sobre as universidades brasileiras. É que independente de quem esteve governando o Brasil, essa tem sido a lógica de fundo que vem sendo aplicada, inclusive nas universidades estaduais do Rio de Janeiro.  A partir dessa ideologia é que se justifica a implantação de sistemas de valoração que sobrepõe a produção de múltiplas publicações de um mesmo autor, sem que haja qualquer contribuição ao avanço do conhecimento. Para a ciência, especialmente uma em processo embrionário de desenvolvimento como é o caso da brasileira, não há ameaça maior do que a adoção de uma lógica que privilegia a quantidade sobre a qualidade. E os resultados disso já foram abordados por mim diversas vezes nas postagens sobre a disseminação do que eu convencionei chamar de “trash science“.

Mas, como o professor Nóvoa também mostrou, essa supervalorização da produção de quantidade resulta também no abandono do ensino, já que muitos professores se veem mais como pesquisadores do que educadores. Ao fazer isso, a presença na sala de aula passa a ser vista como uma coisa onerosa e pouco importante. O problema é que, como foi o caso da Uenf em seu nascedouro, não há nada que dinamize mais a produção científica do que a presença integral dos professores e dos estudantes em ambientes em que eles possam interagir diretamente. 

Outro aspecto importante, e que resulta da aplicação da lógica da ciência enquanto commodity é de que se perde a perspectiva de que nem sempre o conhecimento gerado pode ser aplicado imediatamente ou ser apropriado rapidamente pelo mercado. Esse ponto é especialmente crucial porque é a lógica que vem sendo aplicada no Brasil, e no mundo, de que só são financiadas pesquisas que mostrem sua capacidade de “se vender” para o mercado.   

Entretanto, o professor Nóvoa mais do que apontar para as deformações existentes, ofereceu uma série de receitas para que as universidades se coloquem no centro das disputas que estão colocadas a partir da retomada do seu papel criador. E aí é que mora o problema, pois aqui mesmo na Uenf vejo que a ideologia de mercado que o professor Nóvoa atacou está bem implantada. Disto decorre o fato inescapável que a atual crise serve, entre outras coisas, para obscurecer a necessidade urgente de que a prevalência das métricas e da submissão à lógica do mercado sejam, pelo menos, seriamente questionadas.

Para mim a maior demonstração de que teremos uma dura batalha para ser vencida se quisermos abraçar a visão oferecida pelo professor Nóvoa foi o simples fato dele ter sido aplaudido de pé. É que depois dele simplesmente desmantelar os mitos a que muitos se agarram todos os dias para justificar o funcionamento “normal” da Uenf,  a última coisa que eu esperava era que a maioria da plateia presente o aplaudisse de pé por mais de um minuto. Depois disso, o professor Nóvoa ainda recebeu um tratamento digno de um pop star com direitos a selfies e tudo o que as estrelas têm direito.  Já eu saí de lá com o sentimento de que temos ainda um longo caminho a percorrer para que nossas universidades, a Uenf inclusa, possam atingir o tipo de visão que ele nos ofereceu.  A começar pela responsabilidade pública que precisamos ter com o Brasil e com a cidade de Campos dos Goytacazes.