A palestra de António da Nóvoa na Uenf acabou em aplausos de pé. Mas sua mensagem contundente e desafiadora foi entendida?

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No encerramento das festividades dos seus 24 anos, a comunidade universitária da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) foi brindada com a presença do professor António Sampaio da Nóvoa da Universidade de Lisboa que ofereceu aos presentes com duas coisas tão básicas quanto fundamentais: uma crítica contundente aos descaminhos enfrentados pelas universidades na atual conjuntura histórica e uma visão de que elas podem cumprir um papel fundamental na produção de respostas às crises agudas que marcam o atual momento histórico.

Na parte da crítica, o professor Nóvoa, que foi reitor da Universidade de Lisboa onde liderou um complexo processo de transição para fortalecer as estruturas de produção de conhecimento universitárias em ferramentas para que Portugal superasse um agudo processo de crise econômica, não deixou pedra sobre pedra.  Ele atacou não apenas o produtivismo acadêmico, o abandono da ligação entre ensino e pesquisa, a predominância de propostas empresariais para a geração de recursos para as universidades, e a insistência de que universidades funcionem ancoradas na lógica predominante em empresas capitalistas.

Ao fazer isto, ele  colocou em questão a ideologia que está sendo aplicada há várias décadas sobre as universidades brasileiras. É que independente de quem esteve governando o Brasil, essa tem sido a lógica de fundo que vem sendo aplicada, inclusive nas universidades estaduais do Rio de Janeiro.  A partir dessa ideologia é que se justifica a implantação de sistemas de valoração que sobrepõe a produção de múltiplas publicações de um mesmo autor, sem que haja qualquer contribuição ao avanço do conhecimento. Para a ciência, especialmente uma em processo embrionário de desenvolvimento como é o caso da brasileira, não há ameaça maior do que a adoção de uma lógica que privilegia a quantidade sobre a qualidade. E os resultados disso já foram abordados por mim diversas vezes nas postagens sobre a disseminação do que eu convencionei chamar de “trash science“.

Mas, como o professor Nóvoa também mostrou, essa supervalorização da produção de quantidade resulta também no abandono do ensino, já que muitos professores se veem mais como pesquisadores do que educadores. Ao fazer isso, a presença na sala de aula passa a ser vista como uma coisa onerosa e pouco importante. O problema é que, como foi o caso da Uenf em seu nascedouro, não há nada que dinamize mais a produção científica do que a presença integral dos professores e dos estudantes em ambientes em que eles possam interagir diretamente. 

Outro aspecto importante, e que resulta da aplicação da lógica da ciência enquanto commodity é de que se perde a perspectiva de que nem sempre o conhecimento gerado pode ser aplicado imediatamente ou ser apropriado rapidamente pelo mercado. Esse ponto é especialmente crucial porque é a lógica que vem sendo aplicada no Brasil, e no mundo, de que só são financiadas pesquisas que mostrem sua capacidade de “se vender” para o mercado.   

Entretanto, o professor Nóvoa mais do que apontar para as deformações existentes, ofereceu uma série de receitas para que as universidades se coloquem no centro das disputas que estão colocadas a partir da retomada do seu papel criador. E aí é que mora o problema, pois aqui mesmo na Uenf vejo que a ideologia de mercado que o professor Nóvoa atacou está bem implantada. Disto decorre o fato inescapável que a atual crise serve, entre outras coisas, para obscurecer a necessidade urgente de que a prevalência das métricas e da submissão à lógica do mercado sejam, pelo menos, seriamente questionadas.

Para mim a maior demonstração de que teremos uma dura batalha para ser vencida se quisermos abraçar a visão oferecida pelo professor Nóvoa foi o simples fato dele ter sido aplaudido de pé. É que depois dele simplesmente desmantelar os mitos a que muitos se agarram todos os dias para justificar o funcionamento “normal” da Uenf,  a última coisa que eu esperava era que a maioria da plateia presente o aplaudisse de pé por mais de um minuto. Depois disso, o professor Nóvoa ainda recebeu um tratamento digno de um pop star com direitos a selfies e tudo o que as estrelas têm direito.  Já eu saí de lá com o sentimento de que temos ainda um longo caminho a percorrer para que nossas universidades, a Uenf inclusa, possam atingir o tipo de visão que ele nos ofereceu.  A começar pela responsabilidade pública que precisamos ter com o Brasil e com a cidade de Campos dos Goytacazes.

2 pensamentos sobre “A palestra de António da Nóvoa na Uenf acabou em aplausos de pé. Mas sua mensagem contundente e desafiadora foi entendida?

  1. Rodrigo Rosselini disse:

    Ao relatar o caso português o professor Nóvoa também nos mostrou como é importante ter instituições sólidas na sociedade civil. Apesar da crise econômica e política a universidade, a educação básica e a saúde públicas continuaram a funcionar com qualidade, oodendo contribuir para retirar o país da crise. Por aqui essas instituições estão contaminadas e morrendo por inanição. Enquanto por lá a universidade é vista pelo governo e pelo povo como um patrimônio, por aqui ela é encarada como um fardo pelo primeiro e incompreendida pelo segundo.
    De fato, temos muito o que caminhar nessa luta.

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