Inauguração da nova sede da UFF em Campos: uma conquista que merece celebração

Recebi o convite acima da professora Ana Maria Almeida da Costa, diretora do campus da Universidade Federal Fluminense (UFF) em Campos dos Goytacazes, e não posso deixar de constatar que essa é uma importante conquista não apenas para a comunidade universitária da instituição, mas também para a cidade de Campos dos Goytacazes.

O fato inegável é que a inauguração das novas instalações representará um passo importante para a consolidação do campus da UFF em nossa cidade, possibilitando que haja as condições necessárias para o desenvolvimento pleno das capacidades acumuladas em seu corpo docente que até hoje exerciam suas atividades de ensino, pesquisa e extensão que não eram as ideais.

Para a cidade de Campos dos Goytacazes, a elevação das condições de funcionamento da UFF é uma oportunidade de ouro para que o conhecimento gerado em uma instituição altamente qualificada possa ser assimilada na forma de políticas públicas que colaborem para a resolução dos grandes desafios sociais e ambientais que pairam sobre o nosso horizonte, especialmente no tocante à miséria absoluta em que uma parte significativa dos campistas ainda vive.

Como professor de outra instituição pública,a Uenf, tive a oportunidade de contribuir pontualmente com a consolidação do Departamento de Geografia da UFF-Campos como membro de várias bancas de concursos públicos realizados para formar o seu corpo docente. Alguns dos aprovados naqueles concursos são hoje parceiros nas variadas atividades que compõe a vida universitária.  Por isso, desejo que a nova casa da UFF-Campos seja o que eles tanto esperaram e lutaram para que se tornasse realidade.

Muito sucesso à UFF-Campos e que sua comunidade universitária possa trilhar um brilhante caminho a partir dessa inauguração. 

 

LEEA 25 anos, uma trajetória coletiva de construção do conhecimento dentro da UENF

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Este ano se completam 25 anos da minha chegada na Universidade Estadual do Norte Fluminense, o que combina com a criação do Laboratório de Estudos do Espaço Antrópico (LEEA) no Centro de Ciências do Homem (CCH).  Esses períodos se combinam porque logo na minha chegada recebi a permissão do então diretor do CCH, o renomado antropólogo peruano Luís Guillermo Lumbreras, para dar os primeiros passos na instalação de um laboratório de pesquisas que nascia com a tarefa de realizar tarefas que transcenderiam ao escopo de uma única disciplina.

Com isso em mente, como primeiro chefe do LEEA, consegui atrair pesquisadores que vinham de áreas distintas como História, Estudos Urbanos, Sociologia e Planejamento. Com base nas primeiras chegadas de professores, o LEEA pode rapidamente se constituir como um espaço diverso e pronto para atacar algumas questões candentes da realidade regional.

Uma das características singulares do LEEA é que seus pesquisadores sempre estiveram envolvidos no tripé ensino-pesquisa-extensão, dando um fôlego renovado não apenas para a consolidação do laboratório, mas do próprio centro em que está alojado. Com isso, pudemos instalar uma forma de construção que sem medo de imodéstia ajudou o CCH a sair da condição de isolamento em que se encontrava dentro da UENF, possibilitando um crescimento consistente e relativamente livre de disputas mais acirradas.

A trajetória atual do LEEA é de seguir na trilha que foi iniciada em 1998, sendo que a minha expectativa é que possamos continuar atuando naquilo que a região de entorno mais precisa que é de formação de recursos humanos com capacidade não apenas de refletir sobre a realidade, mas também de propor mudanças naquilo que se entende precisa ser mudado.

Como toda pessoa que já envolveu na construção de qualquer projeto, vejo hoje que minha presença dentro dele está em vias de se esgotar, já que a minha aposentadoria já se encontra (salvo alguma nova mudanças nas regras) ao alcance do olho. Isso, longe de me desanimar, serve como estímulo para que os próximos anos sejam tão instigantes como foram os 25 anos anteriores.

Longa vida ao LEEA, ao CCH e à UENF enquanto universidade pública, gratuita e de qualidade!

O silêncio da Uenf sobre o centenário de Darcy Ribeiro como síntese e oportunidade

darcy-ribeiroO antropólogo, historiador, sociólogo, escritor Darcy Ribeiro (Foto: Divulgação/Fundação Darcy Ribeiro)

Em 2022 será celebrado o centenário de uma das mentes mais profícuas e irrequietas da historia recente do Brasil, o antropólogo, historiador, e escritor mineiro Darcy Ribeiro.  Para celebrar essa efeméride, várias instituições já começaram a organizar celebrações, a começar pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) que fez de 2022 um ano de celebração da obra e do pensamento de Darcy.

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Curiosamente a última das universidades criadas por Darcy Ribeiro, a Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) se mantém até aqui em relativo silêncio (para não dizer absoluto silêncio) sobre o que fará ao longo de 2022 para celebrar a obra do homem que esteve no centro da criação de um modelo institucional que se tem provado revolucionário, ainda que adotado muito aquém do planejado.

Atribuo esse esquecimento não a um simples lapso de memória, mas a um grande desconhecimento por parte da atual reitoria da Uenf de quem foi Darcy Ribeiro, e do significado da herança posta por ele na forma de um marco que repousa relativamente discreto na entrada do campus Leonel Brizola em Campos dos Goytacazes.  Neste marco está escrito que “o governador Leonel Brizola fez erguer esta Universidade Estadual do Norte Fluminense para que no Brasil floresça uma civilização mais bela, uma sociedade mais livre e mais justa, onde vive um povo mais feliz“. É esse destino manifesto ensejado por Darcy Ribeiro que esse esquecimento do seu centenário mais afronta, o que, me acreditem, não chega a ser surpreendente por ser “distraída”.

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A minha expectativa é que defrontada com o anúncio da celebração que a Uerj fará pela vida e obra de Darcy Ribeiro, a reitoria da Uenf se mova para tardiamente e coloque algo no calendário para marcar o centenário do fundador da universidade que nasceu após intensa mobilização da população de Campos dos Goytacazes.  Entretanto, ainda que isso ocorra, penso que os que entendem minimamente a importância da Uenf para a educação dos filhos da classe trabalhadora devam se organizar para realizar atividades que celebrem não o Darcy Ribeiro morto, mas esmiuçar as causas de sua infindável inquietação, que estão mais vivas do que nunca em uma sociedade brasileira que é ainda menos livre, mais injusta e infeliz do que quando Darcy Ribeiro ainda estava vivo em 1997.

De forma objetiva, é preciso celebrar o Darcy Ribeiro irrequieto e explosivo que, em vida, criou não apenas a Uenf, mas também os CIEPS e a Universidade Nacional de Brasília (UNB). É desse Darcy que precisamos neste momento agudo da história brasileira. Certamente ele não estaria “batendo pau” para governantes que agem conscientemente para destruir a parte revolucionária do seu legado.

Viva o centenário de Darcy Ribeiro! Viva a Uenf! Viva a universidade pública, gratuita e democrática!

Pós-verdade e carteiradas de identidade

Condenações e condescendências na universidade pública

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Pedra Sorridente, de Hirotoshi Ito, e a resposta de Benamê Kamu Almudras aos seus críticos: “O que denuncio é a escandalosa quebra de ética representada pela abdicação do dever de ensinar CRÉDITO: SMILEY STONE _HIROTOSHI ITO_@ITOHIROTOSHI_2015

Por Benamê Kamu Almudras*

Poucos textos têm a sorte de Parece revolução, mas é só neoliberalismo: ser corroborado tanto pelas reações positivas quanto pelas negativas que suscita. As críticas a esse meu artigo (publicado na piauí_172, de janeiro) partiram sobretudo dos setores da direita e da esquerda cujas profundas semelhanças eu assinalei sob o nome de neoliberalismo cultural. Em seus ferozes ataques, esses inimigos íntimos fizeram uma performance conjunta e aberta daquilo que denunciei como uma santa aliança contra a educação pública e seus professores.

Chamei de esquerda neoliberal os sujeitos que ostensivamente defendem causas progressistas, mas as deturpam através de uma perspectiva cultural neoliberal, em que o individualismo, o utilitarismo, o mercado e o consumo são os parâmetros da vida social. Discuti essa atitude sobretudo ao tratar do crescente número de estudantes universitários que, por entenderem a educação pública como objeto de consumo, manipulam pautas coletivas legítimas e importantes de forma oportunista, para obter benefícios privados. Isso dá aos professores universitários duas opções: ou se comportam como serviçais dos alunos, ou são acusados de serem opressores.

As reações dos mencionados setores da direita e da esquerda a meu texto escancararam a cultura neoliberal, autoritária e anti-intelectualista que compartilham. Uma pós-graduanda expressou exemplarmente a proximidade dos dois lados nos posts em redes sociais em que me chamou de racista e confessou: “Prefiro um racista de direita do que de esquerda e progressista. O de direita eu já sento o pé no peito.”

Vários estudantes deram ótimas ilustrações de outras atitudes que eu critiquei. Um deles escreveu no Twitter que meu texto lhe causava “preguiça” e que ele chegava a imaginar seus professores, “aqueles porcos, se masturbando lendo isso”. Outra aluna, em meio a vários posts em que reclamava de ter de ler textos de quarenta páginas e escrever outros de dez páginas, tuitou que meu artigo era uma “aberração”. Antes que alguém me chame de racista de novo, observo que ambos são brancos.

Certos intelectuais, também demonstrando atitudes neoliberais, aproveitaram o impacto público de meu ensaio para escrever textos e posts críticos que lhes rendessem corações no queridômetro da lacrosfera e, de quebra, lhes permitissem fazer propaganda de seus trabalhos. Uma professora, ao refutar que tivesse escrito meu artigo (devido à caça à bruxa escondida sob meu pseudônimo, muita gente, em várias universidades do país, foi levada a negar ser Benamê Kamu Almudras), aproveitou para elogiar as “675 páginas pacientes” de sua tese e criticar a debilidade empírica das minhas “675 linhas apressadas”. O que ela ostenta como vantagem é o mínimo que se pode esperar de uma tese: que seja mais longa, elaborada e científica que um artigo jornalístico.

Mesmo os detratores de meu texto reconheceram a ótima acolhida que ele teve, quando manifestaram seu terror e enojo perante as inúmeras manifestações de apoio e endosso recebidas por ele. Significativamente, todas essas reações positivas vieram de pessoas progressistas e de esquerda. Até onde sei, direitistas, conservadores e similares não o elogiaram e, se o compartilharam, foi para atacá-lo.

Também eu me surpreendi – sem terror e sem enojo, é claro – com a extensão e a diversidade das reações positivas ao texto. Docentes e discentes de diversos níveis, áreas do conhecimento, identidades étnicas e raciais, gerações e regiões do país – e inclusive de outros países – aplaudiram a descrição acertada de uma realidade que conhecem bem. Um passeio pela internet pode facilmente corroborar o que digo. Mas, como muitos não terão tempo, interesse ou abertura de espírito para tal passeio, facilito seu trabalho dando uns poucos exemplos, retirados sobretudo do Twitter.

O/a jornalista gremista dono/a do perfil @veronalandia afirmou: “[O texto] resume meus 6 anos de atuação em comissão de ética. Denúncias falsas, tentativa de coerção de professores, e estudantes se achando no reclame aqui.” O perfil @Vadilson_Vix, doutorando em química na Universidade Federal do Espírito Santo, comentou: “Tive alunos que achavam que eu tinha a obrigação de aprová-los, e não queriam estudar conteúdos complexos. O artigo é uma síntese do que ocorre em sala de aula Brasil afora.”

Já no Facebook, uma poeta residente em Roraima escreveu: “Como professora dedicada à causa identitária e muitas vezes acusada de autoritária, me senti completamente representada.” Vários depoimentos indicam que a situação que descrevi causa estragos até no número de pessoas que resistem na profissão. O perfil @MoreiraTalvez tuitou: “Excelente texto. Algumas afirmações vêm ao encontro de meu questionamento sobre o valor de continuar na docência em universidade pública.”

A dramática situação não é exclusiva às universidades, pois diversos professores do ensino médio também relataram que sofrem há anos com situações similares às que descrevi. Para minha surpresa, o artigo foi positivamente citado até como contraponto a Felipe Neto, que, convertido em grande pensador contemporâneo, criticou a obrigatoriedade da leitura de Machado de Assis nas escolas, a pretexto de proteger adolescentes do autoritarismo sádico de seus professores. Não posso senão concordar com o comentário feito pelo perfil atleticano-goianiense @Pedrow_pe: a posição do youtuber “é exemplo perfeito de Parece revolução, mas é só neoliberalismo”.

Não cito tantas manifestações de apoio para me vangloriar. Afinal, ao contrário dos que assinaram textões, textos e textinhos me atacando, não aumentarei minha popularidade nem engordarei meu currículo com a controvérsia que provoquei. Faço esse resumo da repercussão de meu artigo para responder a uma das acusações mais recorrentes a ele. Tal como Donald Trump quando ouvia verdades inconvenientes, muitos acadêmicos, ao lerem meu texto, gritaram: “Fake news!” Para usar uma imagem menos repulsiva, se algum de meus críticos fosse capaz de parodiar Gregório de Matos, ele diria que meu texto de três Fs se compõe: falsidades, fofocas e fantasias.

Subjacente a essa acusação está um empiricismo ingênuo há muito ultrapassado. Pelo menos desde a publicação de A Lógica da Descoberta Científica, de Karl Popper, em 1934, sabemos que a base da validade de um argumento não reside no método pelo qual se chegou a ele, mas na avaliação posterior de seus efeitos. Acusações como “trata-se de um amontoado de anedotas que ninguém pode saber se são verdadeiras” foram usadas contra muitas teorias e ideias logo corroboradas. Ótimo exemplo é a ideia que o médico Ignaz Semmelweis defendeu em meados do século XIX, de que a higienização das mãos reduzia a mortalidade de pacientes. Ridicularizada em sua época por ser baseada em observações casuais, essa descoberta tem hoje o seu valor e a sua importância reconhecidos como incontestáveis.

A citação sobre “um amontoado de anedotas” vem de uma carta que saiu na piauí_174 (março), na qual um antropólogo censura a revista por ter publicado meu artigo e lança mão de uma carteirada meritocrática e gerontocrática: ele é professor “há quarenta anos (seis deles como titular)”. É decepcionante que um antropólogo, sério ou não, ataque meu texto por usar “anedotas que ninguém pode saber se são verdadeiras”, uma vez que palavras semelhantes a essas costumam ser usadas (injustamente, creio) por intelectuais de áreas vizinhas para atacar toda a disciplina em que ele trabalha.

Basta lembrar de um clássico da antropologia brasileira, A Utopia Urbana, de Gilberto Velho, livro fundamentado em conversas, em sua maioria privadas, algumas literalmente de corredor, que pouca gente ouviu. Ninguém pode ir ao prédio em que Gilberto Velho fez sua pesquisa, na mesma época em que ali viveu, nem ter as mesmas conversas que ele teve. Mas isso é irrelevante. O que fez A Utopia Urbana ter seu valor reconhecido foram suas ideias originais e sua utilidade para entender fenômenos que vão muito além daquele edifício – que como eu, aliás, só é conhecido pelo seu pseudônimo, Estrela.

De forma semelhante, as reações positivas e negativas que relatei evidenciam que o quadro descrito em meu artigo pode ser inverossímil, mas nada tem de irreal. Aliás, invejo os bem-aventurados que, como o tal professor titular, pensam viver em um mundo verossímil. Há pouco de verossímil, por exemplo, na história, infelizmente real, de um presidente que exibe seu escárnio de machão enquanto se nega a combater uma mortandade sem precedentes em seu país. O mundo de hoje confirma cada vez mais a frase de Dostoiévski: “A verdade verdadeira é sempre inverossímil.”

Igualmente inverossímil é a história, também real, do professor francês que foi decapitado ano passado por causa da mentira de uma menina de treze anos que, para justificar sua suspensão por faltas, acusou-o de fazer declarações islamofóbicas. Tal brutalidade seria inverossímil mesmo no Brasil, país que, segundo pesquisa divulgada em 2019 pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), lidera o ranking mundial de violência de estudantes contra professores.

Esses argumentos valem também como resposta a acusações mais longas e polidas de que meu texto está cheio de fake news. É o caso de Uma visão nebulosa e conservadora (piauí_174, março), réplica assinada por quatro professores da Universidade Federal do ABC (UFABC). Esse texto afirma que minha análise, por não citar nomes de pessoas e locais nos casos que relata, é “nebulosa” – e não se refere a um berço de estrelas.

O que a réplica vê como nebuloso advém do meu respeito a dois princípios éticos fundamentais: a proteção e a segurança das fontes, no jornalismo, e dos sujeitos pesquisados, na prática científica. Os ataques que recebi eram esperados e justificam plenamente os cuidados que tomei para proteger a mim e às pessoas envolvidas nos casos relatados. Como escreveu no Facebook o professor Edimilson Rodrigues, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, “pelo teor das reações negativas, acho que o autor do texto foi até comedido nas suas apreensões provocativas. No alvo.”

E, mais uma vez à semelhança dos clamores trumpistas de fake news, a réplica dos quatro professores atribui a mim uma falha que é dela. Para me descrever como uma pessoa preconceituosa contrária à democratização da educação, a réplica acumula, parágrafo após parágrafo, falsidades e distorções sobre o que escrevi. Por exemplo, ao contrário do que a réplica afirma, meu artigo não “cala” sobre políticas governamentais neoliberais e seus efeitos sobre a educação; não desvincula o neoliberalismo cultural de uma crítica do capitalismo; não critica o diálogo construtivo entre alunos e professores; não sugere que estudantes cotistas têm desempenho inferior ao de não cotistas; e definitivamente não critica, sequer implicitamente, as políticas de ação afirmativa.

No afã de me acusar, a réplica recorre não apenas a mentiras descaradas, como também a truques verbais desonestos. Em certa frase de meu texto, eu me refiro à esquerda neoliberal como o “outro lado” da direita neoliberal autoritária. A réplica cita tal frase como se por “outro lado” eu me referisse à esquerda em geral, e não apenas àquela que chamo de neoliberal, e como se eu me colocasse no lado oposto a ela. A charlatanice dessa acrobacia é superada pela mirabolância do ilusionismo maniqueísta com que a réplica tenta pintar a ideia de “neoliberalismo cultural” como uma versão contemporânea do mito da “democracia racial”.

Outro ato circense malsucedido da réplica é o salto mortal que tenta dar quando cita uma frase minha sobre o mérito de estudantes para afirmar que defendo a “meritocracia, ideologia que transforma privilégios de classe, raça e gênero em mérito individual dos… privilegiados.” Ora, se esse delirante salto de lógica, do mérito à meritocracia, estivesse certo, então seria correto dizer que todos os que acreditam em Deus se apegam à teocracia, que todos que reivindicam o apoio popular são democratas, e que todos que respeitam os idosos apoiam a gerontocracia.

Tamanhas inverdades e distorções podem indicar três tipos de falha: um grave problema de interpretação de texto, uma grave desonestidade intelectual, ou as duas coisas combinadas. O erro dessa réplica é monumental. Só não é possível decidir se ele é da ordem do entendimento, da ordem da ética, ou de ambas.

Não estou julgando nem acusando os autores da réplica, mas avaliando seu texto e seu argumento. A réplica, por sua vez, acusa “o autor” de meu artigo de várias falhas pessoais: “o autor” sofre de “incapacidade de lidar com as transformações da universidade”; “o autor” conduz uma “cruzada restauradora” (gostei, esteticamente, da reciclagem da imagem que usei originalmente, “cruzada autoritária”); “o autor” é conservador e, pelo jeito, racista. Essa confusão entre autor e texto e essa necessidade de personalizar ideias também são sinais do empobrecedor neoliberalismo cultural que assola parte da intelectualidade brasileira. Argumentos e discussões valem cada vez menos; o que importa são indivíduos cujas falas podem e devem ser avaliadas pelo escrutínio de suas características pessoais. Não interessa debater ideias, mas julgar – ou, melhor, condenar – pessoas. Todo debate pode hoje, de repente, tornar-se um julgamento sumário.

Uma versão escancarada dessa posição apareceu em um post de Facebook segundo o qual “essa pessoa [eu] simplesmente interdita o debate uma vez que não podemos saber quem ela é, qual sua produção bibliográfica, campo de debate, experiência docente. Nada. Ficamos só com os argumentos.” Quem escreve é um doutorando em ciências humanas, que dá um belo exemplo de pensamento neoliberal: deve-se avaliar um texto não por seus argumentos, mas pela produtividade de seu autor!

Diversas reações a meu artigo discutiram a questão racial – inclusive elogiosamente, como a de Cristovam Buarque, publicada no site da piauí. Essa questão não aparecia em meu texto como tema central, mas como uma das pautas sociais justas que são privatizadas. Se ela tem certa proeminência em meu artigo, é por sua imensa importância e por ser frequentemente instrumentalizada pelo consumismo neoliberal.

Aos que sofrem de pânico negacionista diante de casos reais que ofendem seus preconceitos – a exemplo dos que temem e combatem vacinas de eficácia comprovada – recomendo que saltem os cinco próximos parágrafos, em que, para explicar melhor as ideias de meu artigo, forneço mais detalhes sobre episódios que comentei ali.

Começo pelo relato sobre o “motim” de estudantes contra um professor por causa da carga de leitura. Dos catorze pós-graduandos matriculados na disciplina, apenas cinco se rebelaram, todos eles brancos cis e graduados em prestigiosas universidades paulistas. Destes cinco, três eram homens e nenhum era cotista. Na turma havia também dois estudantes negros e cinco graduados em outros estados da federação – e nenhum deles participou da revolta. Se alguém entendeu que esses consumidores rebeldes eram oprimidos ou excluídos social ou racialmente, sinto muito, mas meu texto não justificava essa leitura. Longe de ter relação com a expansão do acesso ao assim chamado ensino superior, o motim teve a cara do tradicional privilégio branco.

Meu artigo também discutiu a calúnia de uma mestranda contra seu orientador. Ela não frequentou a disciplina em que estava matriculada, não apresentou o seminário obrigatório, não escreveu o trabalho final e não respondeu a repetidas tentativas de contato. Reprovada, acusou o professor de racismo, adicionando outra mentira: que ele a havia expulsado do programa (de pós-graduação, não de televisão).

Alguns detratores de meu artigo disseram que esse episódio exemplifica a resistência docente a ações afirmativas. Por isso agrego que o professor caluniado, entusiasta da diversificação racial na universidade, havia incentivado e ajudado a citada aluna a entrar no mestrado. A disciplina que ele lecionou e que ela não frequentou era sobre racismo, colonialismo e capitalismo; a maior parte da bibliografia era escrita por autores não brancos. Notem a ironia que tanto revela sobre a cultura condenatória brasileira: Felipe Neto, um youtuber branco, exige que um autor negro deixe de ser leitura obrigatória, mas não é tachado de racista; já um professor branco é atacado como racista porque exige que seus alunos leiam autores negros. Parece que, para muita gente, o racismo de alguém se mede por seu rigor acadêmico.

O episódio da calúnia é um exemplo evidente do estrago causado pela manipulação oportunista de pautas coletivas progressistas. Essa mestranda perdeu a rara oportunidade de conhecer e discutir textos sofisticados sobre questões raciais, escritos por autores negros, para reivindicar, dedo em riste e com o vigor e brilho típicos de um reality show, seu suposto direito de ser aprovada em uma disciplina sem cursá-la. É certo que a esmagadora maioria dos alunos cotistas não tem esse tipo de atitude. Mas também é certo que, praticados por pessoas de todos os fenótipos, atos de privatização desse tipo, como a mentira da menina francesa sobre a islamofobia de seu professor, em vez de corrigir velhas injustiças coletivas, apenas criam novas injustiças individuais.

Meu texto não tem “por alvo preferencial”, como alega a réplica dos quatro professores, “os estudantes que trazem para a sala de aula o debate de questões raciais”. O que esse evento mostra é uma aluna fugindo tanto da sala de aula quanto do debate de questões raciais promovido por seu professor. O alvo de meu texto são atitudes como as dessa moça, verdadeiras carteiradas de identidade oportunistas que vetam debates e castigam a educação.

Volto a esses episódios para reiterar que meu texto não pode nem deve ser lido como um ataque às ações afirmativas e à inclusão de grupos tradicionalmente excluídos. Ao contrário, ele defende a democratização da universidade contra uma das maiores ameaças que ela sofre hoje: sua transformação em mera questão numérica, em desculpa para o ataque ao ensino e ao aprendizado, em instrumento de obtenção de benesses individuais, em arma contra os professores que mais as defendem.

Uma visão nebulosa e conservadora afirma que meu texto “busca lançar em uma zona de desconfiança não apenas os estudantes, em especial os oriundos da terceira onda de democratização, como também os professores que defendem que essa democratização não se resume à presença física daqueles alunos”. Não é verdade. Meu texto tem exatamente a mesma preocupação que a desses docentes – grupo, aliás, em que me incluo. Minha discordância com alguns de meus colegas não é sobre princípios, mas sobre métodos. Para usar termos utilitaristas mais claros para alguns, a discordância não é sobre fins, mas sobre meios.

Se queremos uma verdadeira inclusão educacional e social de grupos desprivilegiados, não podemos abdicar da tarefa profissional e cívica de educar os universitários vindos desses grupos como a todos e quaisquer estudantes. Isso significa ensinar a todos os alunos quais textos são imprescindíveis e por quê, discutir esses textos com eles de maneira bem-informada e dialógica, compartilhar com eles nossas experiências e conhecimentos, e, sim, avaliar o mérito de cada um deles.

Como já adiantei, defender a importância do mérito na educação não significa endossar a falaciosa ideologia da meritocracia. Mesmo as ações afirmativas envolvem alto grau de avaliação de mérito. É por mérito que selecionamos alguns alunos dentro da gigantesca população discriminada, marginalizada e oprimida. Se incluir mais pessoas desprivilegiadas significa abolir a avaliação de mérito, teremos de admitir e aprovar todas as pessoas que se interessem por um diploma, inclusive todos os privilegiados. Teremos também de abolir aquele importante instrumento de democratização da docência baseado no mérito, os concursos públicos.

A anulação do mérito implicaria a maximização do quadro que meu artigo denunciou: a transformação do direito à educação em direito ao diploma; do diálogo entre docentes e discentes em obstrução ao ensino; e da democratização da educação em redução do rigor acadêmico. Tal condescendência, além de humilhar aqueles a quem diz beneficiar, significa o fim do dever profissional do docente, que é ensinar.

Aos colegas que pensam que professores são necessariamente opressores e que a autoridade docente é por definição autoritária, pergunto: por que seguem em tão odiosa profissão?

Aos que persistimos na docência, coloco outras perguntas. Quem democratiza mais a educação? São os professores que ensinam o mesmo a todos os alunos, mantêm o mesmo nível de exigência e os avaliam de forma igualitária? Ou são os professores que, por receio de carteiradas retaliativas ou por desastradas boas intenções, distribuem notas, aprovações e diplomas como se fossem esmolas para expiar culpas?

Eu poderia dizer que os professores do segundo grupo são covardes que fogem de problemas e, às vezes, cedem a verdadeiras chantagens de alunos-consumidores. Mas, ao contrário dos que me acusam de covardia por usar um pseudônimo, sei que não me compete julgar o caráter alheio. O que diriam meus críticos sobre um autor de textos tão corajosos como George Orwell, que usou esse pseudônimo por medo do fracasso?

Meu pseudônimo é como a máscara que usamos nesta pandemia: protege quem a usa e protege outras pessoas. Não é por acaso que governantes autoritários também chamam de covardes quem pratica o distanciamento social e usa máscara. Que, na controvérsia sobre meu uso de pseudônimo, a palavra “covarde” e suas variantes tenham sido tão usadas para me atacar, e que quase ninguém tenha mencionado a ética subjacente à minha decisão, são outros espantosos sintomas da cultura neoliberal-autoritária compartilhada por partes da direita e da esquerda.

O que me preocupa e denuncio não é a covardia de ninguém. É a escandalosa quebra de ética representada pela abdicação do dever de ensinar – e de avaliar. Aprovar alunos que não se esforçam, conceder diplomas não merecidos, eliminar e facilitar exames, não lecionar conteúdos essenciais e não cobrar seu aprendizado, tudo a pretexto de não excluir ninguém, são, infelizmente, práticas corriqueiras que podem contribuir para a boa avaliação de um programa de pós-graduação por órgãos federais. Mas, definitivamente, não contribuem para maior inclusão educacional e social. Pior que isso, essas práticas dão aos alunos-consumidores um presente traiçoeiro: a ilusão de que receberam uma formação. A condescendência na educação é uma imensa mentira discriminatória, que quer aprovar e dar diplomas a todos, mas educar a poucos.

Devo deixar claro que de forma nenhuma penso que os alunos que menos se dedicam aos estudos ou mais exigem privilégios individuais são os que entraram na universidade graças à democratização do ensino. Minha experiência pessoal como docente coincide totalmente com o que diz a réplica de meus colegas: a performance de alunos cotistas não é inferior à de não cotistas. E digo mais: a maioria de meus alunos vindos de grupos desprivilegiados é mais séria e capaz que a maioria dos brancos egressos de escolas privadas e de elite.

É a certeza de que alunos oriundos de grupos tradicionalmente excluídos não deixam nada a dever aos de grupos privilegiados que me faz insistir na importância de ensinar o mesmo conteúdo e exigir o mesmo alto nível de todos. Fazer o contrário, como quer o condescendente neoliberalismo de esquerda, perpetua e incrementa desigualdades ao oferecer um ensino de pior qualidade a pessoas cujo mérito não tem nada de inferior. Baixar o nível do ensino justamente quando se democratiza a universidade é uma cruel perversidade. É como dizer aos novos convidados para uma festa que eles são muito bem-vindos, mas que a comida, a bebida, a música e a conversa já acabaram.

*BENAMÊ KAMU ALMUDRAS, Sob pseudônimo, é docente de graduação e de pós-graduação em uma universidade pública de São Paulo.

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Este foi originalmente publicado pela revista Piaui [Aqui!].

Sou uma testemunha viva do poder transformador da universidade pública

Defender seu caráter gratuito é minha obrigação

Há quem não entenda o papel das universidades públicas e gratuitas na vida de estudantes pobres. Pois bem, mexendo em coisas pessoais guardadas numa mala durante uma pintura da casa onde moro, encontrei o certificado de ex-morador do Alojamento de Estudantes da UFRJ, assinado pelo senhor Alberto Claudio dos Santos.

ex morador aló

Este certificado mostra mais do que meu tempo de moradia, pois o aprendizado que tive lá carreguei até comigo. Por ser devedor das futuras gerações é que não posso deixar de me indignar com os partidos políticos que querem negar a outros jovens pobres, a mesma oportunidade que me foi dada pela UFRJ e pelo seu alojamento estudantil.

E quem me vê hoje como professor universitário detentor de um título de doutor numa boa universidade estadunidense, pode até querer me apontar com um exemplo de que a chamada meritocracia capitalista funciona.  Nada mais longe da verdade, pois se não fosse pelo investimento feito em mim pelo Estado e muitas pessoas que se solidarizam com o meu esforço ao longo dos meus anos de formação universitária, eu certamente não teria conseguido alcançar o que alcancei.

A verdade nua e crua é que quem corta gastos em investimentos em educação pública sabe bem o que faz para a imensa massa de jovens pobres, que é decretar uma vida longe da plenitude de oportunidades que é reservada aos filhos das elites brasileiras.

Por isso, defender as universidades públicas é uma obrigação de todos aqueles que querem um futuro melhor para a imensa maioria da população brasileira que, na maioria das vezes, só passa pelas universidades para construir prédios, limpar o chão e proteger os que lá estão.

E, sim, negue seu voto a quem vier com propostas que coloquem em perigo o caráter gratuito das universidades públicas. A começar pelo senhor Geraldo Alckmin que já declarou que irá instalar a cobrança de mensalidades nos cursos de pós-graduação!

Injustiças: A universidade pública merece ser apontada como espaço de ‘concentração de renda’?

UNB2

Por Fred Coelho*

Peço licença aos leitores para comentar o editorial do jornal O GLOBO de domingo (“Crise força o fim do injusto ensino superior gratuito”). Pelo assunto me ser caro como profissional e como cidadão, proponho alguns contrapontos para pensarmos o tema. O texto já parte de um sofisma no seu próprio título. Passa ao leitor a ideia de que há uma injustiça na premissa do ensino superior público: muitos podem pagar por aquilo que é oferecido de graça. Quem trabalha hoje em dia na universidade não pode concordar com tal ideia. E como cidadão informado não dá para dizer que, em um quadro de crise fiscal, uma das prioridades para melhorar o país está nos problemas do ensino superior gratuito.

Não manejo com intimidade números e, mesmo podendo misturar alhos e bugalhos, acho importante citar aqui alguns pontos sobre quem onera o Estado. Alguns especialistas na questão tributária apontam distorções que, com ajustes, poderiam ajudar em muito a questão fiscal. Temos, por exemplo, valores alarmantes dos devedores da Dívida Ativa. Reproduzindo uma matéria do GLOBO on-line em 13 de junho deste ano, lemos que os dez maiores devedores para a União somam débitos de mais de R$ 100 bilhões. Semana passada, artigos em diferentes jornais mostraram que só Laodse Denis de Abreu, um (agora ex) diretor da Fiesp, deve R$ 6,9 bilhões. Ainda nessas matérias da última semana, lemos que 13,5 mil devedores são responsáveis por uma dívida (com nuances de pagamentos que não cabe aqui esmiuçar) de R$ 812 bilhões. Se aumentar impostos é uma “via esgotada”, não valeria pressionar em editoriais quem os deve?

No mesmo texto, lemos a seguinte perspectiva: seus impostos estão sendo mal gastos para que ricos façam cursos perdulários e se formem usando o dinheiro público. Um argumento forte como esse precisa de números nacionais em todos os níveis do ensino público para comprová-los (e não apenas um dado antigo sobre a USP). Além disso, mesmo as boas instituições privadas sabem que não podem tratar alunos apenas como consumidores. Pois uma universidade vai muito além dos custos relativos a uma sala de aula e um diploma. Ela é pesquisa, ensino e tem impacto comunitário. Suas atividades envolvem uma gama de saberes e trabalhadores, cumprem obrigações sociais, engendram cadeias produtivas e criam patentes. Ela precisa ser, justamente, um espaço simultâneo de formação e pensamento crítico, não apenas de produção imediata de lucro (como se afere o valor financeiro de um saber?). Ela propicia um tempo fora da velocidade neurótica e da mentalidade estreita de que educação “presta serviço” e por isso deveria ser medida estritamente por desempenho. Isso está corroendo a vida universitária brasileira em algumas áreas.

Outro ponto que impressiona é o argumento de que privatizar cursos públicos seria uma forma de colaborar para sairmos da “maior crise fiscal” da nossa História republicana. Por que a gratuidade da universidade deve ser o alvo disso? Por que não debater profundamente a origem da desigualdade apontada, isto é, o abandono histórico da escola pública pela sociedade? Por que não falar dos salários ridículos dos professores de escolas públicas? Por que não valorizar dados que mostram as cotas raciais e sociais como instrumento efetivo de inserção dos alunos de escola pública na universidade? Não vale levar em conta matéria do G1 de fevereiro deste ano dizendo que 88,2% dos alunos que entraram no curso de medicina da Unicamp vieram da escola pública? Isso não indica que as universidades brasileiras estão mudando? Por que não entrevistam pessoas que têm experiências discentes e docentes em universidades públicas para saberem realmente o que está acontecendo, as mudanças radicais do perfil dos alunos rumo à maior popularização de seus cursos?

Em 2015, o orçamento total do MEC para as universidades federais foi de R$ 30,2 bilhões, segundo fonte oficial. Os custos anuais da atividade parlamentar no Brasil (com todas as assembleias e câmaras de vereadores) ultrapassam os R$ 20 bilhões. Em 2013, a despesa total em pessoal do poder judiciário foi de R$ 55 bilhões. Isenções fiscais federais redundam em valores astronômicos não sendo recolhidos pela União — e sem retornos comprovados. O atual governo interino, contrariando as exigências de rigor fiscal que este jornal fez dia sim outro também ao governo anterior, já liberou mais de R$ 30 bilhões em novas despesas. Entendem o tamanho do problema? É a universidade pública que merece ser apontada como um espaço de “concentração de renda” e de “gritante injustiça social”? Discutir amplamente a universidade brasileira, aferir seus procedimentos acadêmicos, discutir novos financiamentos é uma coisa — em uma democracia, o Estado precisa passar pelo escrutínio da sociedade. Outra coisa é propagar a ideia de que a universidade gratuita, com seus problemas muito menores do que suas vantagens e sua missão cívica, é uma das culpadas pelo buraco em que nos metemos.

 

*Frederico Coelho  (Fred Coelho) é pesquisador, ensaísta e professor de Literatura Brasileira e Artes Cênicas da PUC-Rio. 

FONTE: http://oglobo.globo.com/cultura/injusticas-19790713#ixzz4Fe22w87z