Por que a Sorbonne decidiu sair do ranking universitário do Times Higher Education?

A principal universidade da França se concentrará em infraestruturas participativas, abertas e gratuitas para “reivindicar a propriedade” de seus dados, diz seu presidente

Créditos da foto: Universidade Sorbonne 

Por Juliette Portala para “Science Business”

A Universidade Sorbonne, na França, planeja deixar o ranking do Times Higher Education (THE), adicionando seu nome a um número crescente de universidades que rejeitam listas que colocam uma instituição em confronto com a outra. Segundo seu presidente, a maioria desses rankings são “caixas-pretas”, cujos métodos não apenas levantam questões éticas, mas também não conseguem abranger a amplitude e a diversidade das contribuições universitárias.  

“Ao decidir parar de enviar nossos dados para a THE, estamos abandonando este ranking específico, mas nossa crítica aos principais rankings universitários internacionais é global”, disse Nathalie Drach-Temam, reitora da Universidade Sorbonne, à Science|Business. “Esses rankings, baseados em indicadores quantitativos selecionados e reunidos em uma única pontuação, não foram elaborados para avaliar pesquisas nem refletir a amplitude e a profundidade das missões das instituições de pesquisa e ensino superior.”

Do ranking Quacquarelli Symonds (QS), sediado no Reino Unido, ao US News and World Report (USWR), os rankings universitários têm como objetivo mensurar o desempenho de uma instituição de ensino superior e como seu desempenho e qualidade se comparam aos de seus pares. Estudantes em potencial recorrem a eles em busca de orientação, e governos e investidores baseiam suas decisões de financiamento de pesquisa neles.  

Mas cada vez mais instituições estão optando por não participar das tabelas de classificação universitária, como parte de um movimento mais amplo para que universidades e pesquisadores sejam julgados pela qualidade, e não pela quantidade. No final de 2022, as faculdades de direito de Yale, Harvard e Columbia abandonaram a USWR; alguns meses depois, as principais universidades de pesquisa da Coreia do Sul convocaram um boicote ao ranking QS; mais recentemente, a Universidade de Zurique decidiu abandonar o THE.

“Esses rankings são [. . .] caixas-pretas que operam em um sistema fechado”, disse Drach-Temam. “Os dados em que se baseiam não são compartilhados, a metodologia é parcialmente disseminada, o que significa que esses rankings não são reproduzíveis e não podem ser questionados pelas universidades envolvidas, que, portanto, não podem se apropriar totalmente deles.”  

A Universidade Sorbonne é membro da Coalizão para o Avanço da Avaliação em Pesquisa, criada para defender metodologias de avaliação mais sólidas. Seu Acordo sobre a Reforma da Avaliação em Pesquisa afirma que evitar o uso de rankings globais “ajudará a comunidade científica e as organizações de pesquisa a recuperar a autonomia para moldar as práticas de avaliação, em vez de terem que se submeter a critérios e metodologias definidos por empresas comerciais externas”.

Metodologias tendenciosas

Os rankings globais baseiam-se em critérios tão diversos quanto ex-alunos ilustres e renda da indústria, mas seus críticos consideram que eles ainda promovem uma visão de sucesso institucional muito limitada e injusta. Além de ignorarem muitas das contribuições de uma universidade para a sociedade, tendem a negligenciar a diversidade de seu contexto social, econômico e político.

“Eles não conseguem refletir nossas políticas de inclusão, desenvolvimento sustentável ou diálogo entre ciência e sociedade, por exemplo”, disse Drach-Temam. “Sua metodologia, ao focar em periódicos de língua inglesa, favorece certas disciplinas, enquanto as ciências sociais e humanas, cujos métodos de publicação e idiomas de disseminação são mais diversos, acabam sendo prejudicadas.” 

Ela também disse que algumas metodologias levantam preocupações científicas e éticas. 

Outro risco é que as universidades podem estar inclinadas a tomar medidas temporárias e superficiais para melhorar sua classificação em vez de se concentrarem na melhoria da qualidade a longo prazo, prejudicando o propósito principal dessas classificações.

Esses problemas levaram a Rede Internacional de Sociedades de Gestão de Pesquisa a criar a iniciativa More Than Our Rank para instituições acadêmicas, a fim de mostrar que o sucesso das universidades vai além de sua posição no ranking. 

No entanto, Drach-Temam reconheceu a importância da THE por permitir que as universidades abandonassem seu ranking, uma opção não disponível para os rankings de Xangai e QS. A Universidade Sorbonne também faz parte do CWTS Leiden Ranking, que, segundo ela, não agrupa critérios muito diferentes em uma única pontuação, tem uma metodologia aberta e permite que as universidades meçam sua taxa de acesso aberto.

Infraestruturas de dados abertos 

A Universidade Sorbonne também decidiu deixar o Web of Science, um banco de dados de citações baseado em assinatura operado pela empresa de análise Clarivate, “principalmente porque não nos parecia mais possível confiar em dados proprietários e fechados para gerenciar nossa pesquisa, muito menos para sua avaliação”, disse Drach-Temam.

Assim como os rankings, ela constata que esses bancos de dados tendem a priorizar periódicos em inglês e não fazem referências corretas a publicações de literatura e humanidades, especialmente em francês. “Uma parte considerável e particularmente rica da atividade da nossa universidade é, portanto, simplesmente ignorada nesses bancos de dados”, disse ela. 

A Universidade Sorbonne agora planeja se concentrar em infraestruturas abertas e participativas, como o OpenAlex, que oferece acesso gratuito a publicações acadêmicas. “Além das questões financeiras, apoiar essas infraestruturas também significa nos envolver em sua governança e fazer com que nossa voz seja ouvida em suas diretrizes e projetos”, destacou Drach-Temam.

A universidade francesa já está representada no conselho consultivo da OpenAlex.

A ideia, para Drach-Temam, não é substituir uma ferramenta por outra, mas “mudar o paradigma e dar às universidades e instituições de pesquisa os meios para recuperar a propriedade de seus dados [e] torná-los acessíveis à sociedade”.


Fonte: Science Business

A dupla alienação do professor universitário

O desafio, hoje, é reconstruir sentidos para o trabalho docente e para a linguagem universitária. É preciso recusar a naturalização do cansaço e da perda do tempo partilhado. É necessário desobedecer ao mandato da eficiência que apaga a escuta, a dúvida e a sensibilidade

Imagem: Gül Işık

Por João dos Reis Silva Junior* para o “A Terra Redonda”

1.

A crise vivida pela universidade pública brasileira transcende os números do orçamento, a precarização das estruturas ou a mera falta de reconhecimento social. O núcleo desse processo reside em uma experiência dilacerante e pouco nomeada: o professor universitário, tornado figura central de uma engrenagem contraditória, é capturado por uma dupla alienação que esvazia tanto o sentido de seu trabalho quanto a potência de sua palavra.

No plano mais visível, a alienação material do docente revela-se na sobrecarga, nos múltiplos vínculos, nas tarefas que jamais se encerram. A sala de aula invade o lar, as plataformas digitais sequestram o tempo de descanso, os relatórios substituem o exercício pleno da reflexão.

O professor se multiplica em funções: orientador, pesquisador, executor de projetos, gestor de si e dos outros – quase sempre sem tempo para ser, de fato, mestre. A cada ciclo de avaliações, novas metas são impostas. A cada edital, renova-se a promessa de reconhecimento que nunca se realiza. O resultado é o acúmulo silencioso do cansaço, da frustração, da sensação de ausência nos espaços de afeto.

O trabalho docente, antes experiência de partilha, vira travessia solitária e marcada pela culpa: quantos jantares, quantos momentos com os filhos, quantas conversas fiadas são sacrificadas para atender a demandas institucionais que se renovam ao infinito.

Ao lado desse esgotamento objetivo, há uma alienação menos visível e ainda mais corrosiva: a expropriação da linguagem do próprio professor. O docente vê-se obrigado a comunicar-se com um léxico estranho, marcado pelo idioma dos editais, das métricas e das autoavaliações compulsórias. A palavra, que deveria ser espaço de invenção e de pensamento, é domesticada pela lógica do desempenho.

Relatórios, artigos e projetos são formatados para caber nas exigências institucionais e para pontuar em rankings que pouco dialogam com a experiência real da sala de aula e da pesquisa crítica. O docente aprende, não sem sofrimento, a apagar sua voz – e a falar segundo as regras do jogo. Perde-se, aí, o sabor do inesperado, da dúvida, do tropeço criativo, da escuta autêntica.

A universidade atual demanda professores que entreguem resultados, que ajustem sua prática à gramática da eficiência e do empreendedorismo. A experiência docente, assim, é recodificada: o gesto de ensinar converte-se em performance, o tempo de leitura é substituído pela ansiedade do próximo prazo, a orientação transforma-se em gerenciamento de trajetórias.

O professor é pressionado a transformar vocação em produtividade, criatividade em produto, dúvida em plano de metas. Quando o reconhecimento chega, ele já é moeda simbólica para outra competição. Quando falha, o fracasso é vivido como defeito pessoal, nunca como sintoma de um ambiente hostil.

2.

Essa dupla alienação – do trabalho e da palavra – não é vivida de modo uniforme. Ela se intensifica nos segmentos mais vulneráveis: docentes temporários, mulheres, negros, jovens, professores das regiões periféricas ou do interior. Esses grupos sofrem ainda mais o impacto das políticas de precarização e são frequentemente responsabilizados por sua própria exclusão.

O sofrimento, em vez de mobilizar solidariedade, é internalizado como culpa. O adoecimento físico e mental é tratado como infortúnio individual, nunca como parte de um projeto institucional que sacrifica pessoas para manter a engrenagem em funcionamento.

Apesar desse quadro adverso, há resistências. Mesmo nos interstícios de um sistema que impõe a obediência e sufoca a imaginação, alguns gestos escapam à captura: a aula que desacelera, a pesquisa que se recusa a caber nos formulários, a orientação que acolhe o silêncio, a escrita que ousa errar. Pequenas insubordinações persistem – e nelas, ainda pulsa a possibilidade de uma universidade mais aberta ao humano, menos entregue ao algoritmo.

O desafio, hoje, é reconstruir sentidos para o trabalho docente e para a linguagem universitária. É preciso recusar a naturalização do cansaço e da perda do tempo partilhado. É necessário desobedecer ao mandato da eficiência que apaga a escuta, a dúvida e a sensibilidade.

Isso só será possível se o professor recuperar, no exercício de sua palavra, a coragem do inacabado, da pausa, da hesitação – elementos que não cabem nos relatórios, mas sustentam toda experiência de pensamento autêntico.

A dupla alienação, portanto, não pode ser superada apenas por reformas administrativas ou pela ampliação de recursos. Trata-se de resgatar o sentido do comum, de revalorizar a linguagem como território de invenção, de fortalecer laços de solidariedade e crítica no cotidiano universitário.

Enquanto o ofício de ensinar for visto apenas como um número a ser preenchido, um índice a ser perseguido, a universidade continuará sendo campo de sofrimento e não de formação. Somente quando a fala do professor recuperar seu poder de nomear o mundo – mesmo que tropeçando, mesmo que hesitando – será possível inaugurar outros modos de existir e pensar na universidade capturada.

*João dos Reis Silva Júnior é professor titular do Departamento de Educação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Autor, entre outros livros, de Educação, sociedade de classes e reformas universitárias (Autores Associados[https://amzn.to/4fLXTKP]

Referências


BAMBIRRA, Vânia. O capitalismo dependente latino-americano. Rio de Janeiro: Graal, 1978.

DOS SANTOS, Theotonio. A teoria da dependência: balanço e perspectivas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.

MARINI, Ruy Mauro. Dialética da dependência. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1973.

OLIVEIRA, Francisco de. Crítica à razão dualista: o ornitorrinco. São Paulo: Boitempo, 2003.

SILVA JÚNIOR, João dos Reis. |Universidade Inacabada: Razão e Precariedade. Campinas. Editora Mercado de Letras, 2026.


Fonte: A Terra é Redonda

Ao “publicar ou perecer”, precisamos acrescentar “IA ou morrer”?

 A revolução da cointeligência está remodelando silenciosamente o que significa excelência acadêmica – e quem pode alcançá-la, afirma Jakub Drábik

Fonte: sompong_tom/Getty Images 

Por Jakub Drábik para o “Times of Higher Education”

Há uma sensação particular de desânimo com a qual muitos centro-europeus certamente estão familiarizados. Ela surge quando, ao ouvir um acadêmico britânico ou americano em uma conferência ou seminário, você percebe que, não importa quantos livros leia ou quão sólidas sejam suas ideias, você nunca falará ou escreverá em inglês com tanto estilo ou confiança quanto eles.

Fluência nativa na língua franca acadêmica, educação de elite e imersão precoce nas normas acadêmicas lhes dão um tipo de vantagem estrutural — uma com a qual os outros aprendem a conviver, mas que raramente conseguem superar.  

Ou assim eu pensava.

Ultimamente, tenho experimentado IA (Inteligência Artificial) generativa – não para terceirizar meu pensamento, mas para aprimorar a forma como o comunico. O resultado? Minha escrita ficou mais rápida, clara e precisa. É uma sensação estranha: ainda sou eu, mas com uma espécie de exoesqueleto intelectual.

Minha experiência — que certamente está longe de ser única — levanta uma questão desconfortável: a regra de ouro da sobrevivência acadêmica — publicar ou perecer — foi agora complementada por outra — IA ou morrer?  

Não quero dizer que a IA substituirá os acadêmicos (pelo menos, espero que não). Mas ela pode remodelar fundamentalmente a excelência acadêmica, como ela é alcançada e quem tem o direito de apresentar um desempenho de alto nível. E isso merece uma análise mais aprofundada.

Uma das mudanças mais visíveis trazidas pelas ferramentas de cointeligência é a redistribuição silenciosa do trabalho cognitivo. Tarefas que antes exigiam um esforço meticuloso – reformular frases incômodas, traduzir ideias para o inglês acadêmico, elaborar esboços – agora podem ser semiautomatizadas. Clareza e velocidade não estão mais vinculadas apenas à habilidade pessoal ou à fluência linguística, mas à fluência com que você consegue direcionar e moldar a produção de grandes modelos de linguagem. E se o que atualmente chamamos de “excelência” é, em parte, a capacidade de produzir textos claros e persuasivos com eficiência, então a excelência tem o potencial de ser compartilhada de forma mais equitativa. 

No entanto, o impacto da IA ​​na equidade tem limites. Acadêmicos em instituições com poucos recursos podem ter dificuldades para acessar os mesmos benefícios. O mesmo pode acontecer com aqueles que trabalham em idiomas pouco suportados pelos modelos tradicionais de IA. E aqueles que não têm proficiência técnica ou que se incomodam com a ausência de normas claras para o uso da IA ​​também podem ficar para trás.

Em relação a essas normas, todos parecem concordar que o autor deve permanecer responsável pelo conteúdo, independentemente do nível de IA envolvido. Mas não há consenso sobre como integrar essas ferramentas ao processo de escrita ou como – ou mesmo se – reconhecer sua contribuição.  

Na minha opinião, a alfabetização em IA deve ser tratada não como um acréscimo técnico, mas como uma competência acadêmica essencial – a par da alfabetização informacional ou da avaliação de fontes. Algumas universidades, especialmente no Reino Unido e nos EUA, já aceitaram isso e estabeleceram programas de alfabetização em IA para ajudar colegas mais cautelosos ou sobrecarregados a acompanhar os pioneiros – a iniciativa da Universidade Estadual do Arizona é frequentemente citada.

Mas outras instituições, particularmente na Europa Central e Oriental, permanecem hesitantes, ainda considerando o uso da IA ​​como suspeito ou até mesmo antiético. Alguns periódicos e conselhos de ética também têm se mostrado cautelosos. E em meio a tanta incerteza, a política não oficial passou a ser: use se quiser, mas não fale sobre isso em voz alta – pelo menos, não em reuniões.

Mas se aceitarmos, como devemos, que o uso da IA ​​é inevitável, precisamos lidar com a questão fundamental do que, exatamente, ainda é “nosso” no trabalho que produzimos quando a formulação, a estrutura e até mesmo parte da estrutura intelectual são cogeradas com a IA.  

Como argumentaram filósofos da tecnologia, como Shannon Vallor ou David J. Gunkel , o conhecimento coproduzido desafia a estrutura profundamente individualista da autoria, na qual se baseia o prestígio acadêmico. Talvez também precisemos repensar os conceitos de originalidade e até mesmo de contribuição intelectual.

Centrá-los em síntese, julgamento e direção pode fazer sentido, mas não tenho respostas. Aliás, nem tenho certeza se compreendo completamente o terreno em que estamos entrando. Mas se não mantivermos os olhos abertos e nos envolvermos com as implicações de para onde estamos indo – éticas, pedagógicas e institucionais –, podemos descobrir que não apenas a distribuição, mas o próprio significado da excelência acadêmica já mudou, enquanto ainda estamos discutindo se deveria mudar.

Jakub Drábik é professor de história na Universidade Anglo-Americana de Praga e pesquisador sênior no Instituto de História da Academia Eslovaca de Ciências


Fonte: Times of Higher Education

A ciência dos EUA sobreviverá ao Trump 2.0?

O presidente Donald Trump e seu governo destruíram agências científicas, encerraram programas de pesquisa e cancelaram bilhões de dólares em bolsas para universidades. Quais são os impactos a longo prazo para os Estados Unidos e o mundo?

Texto cinza sobre fundo escuro listando os títulos de diversas bolsas de pesquisa. Algumas frases são destacadas em vermelho, branco e azul, como prevenção de pandemias, saúde pública e ciclones tropicais. A palavra "cancelado" é sobreposta em grandes letras pretas.

Uma seleção de bolsas de pesquisa que foram canceladas pelo governo Trump. Fontes: Bolsas da NASA: Casey Dreier ( go.nature.com/44TVTKA ); Bolsas do NIH/NSF: Noam Ross e Scott Delaney ( go.nature.com/3GQDENL e go.nature.com/42RKBYD )

Por  Jeff Tollefson , Dan Garisto &  Heidi Ledford para a Nature

Em apenas três meses de seu segundo mandato, o presidente dos EUA, Donald Trump, desestabilizou oito décadas de apoio governamental à ciência. Seu governo demitiu milhares de cientistas, paralisando grande parte da pesquisa do país e interrompendo muitos ensaios clínicos. Ameaçou cortar bilhões em financiamento de universidades de pesquisa americanas e cancelou mais de 1.000 bolsas em áreas como mudanças climáticas, câncer, doença de Alzheimer e prevenção do HIV.

O desmantelamento de instituições científicas e de grande parte do ecossistema de pesquisa levou um número crescente de pessoas, dentro e fora da área de pesquisa, a se perguntarem como a ciência sobreviverá a Trump. Em março, cerca de 1.900 membros das Academias Nacionais de Ciências, Engenharia e Medicina dos EUA, que representam os principais cientistas do país, publicaram uma carta aberta, declarando: “Estamos enviando este SOS para soar um alerta claro: o empreendimento científico do país está sendo dizimado.”

Em uma pesquisa com leitores da Nature realizada em abril, 94% dos quase 1.600 entrevistados disseram estar preocupados com o futuro da ciência no país. E a mesma proporção afirmou que as políticas científicas do governo Trump terão efeitos negativos no mundo. Embora a pesquisa não tenha incluído uma amostra estatisticamente representativa, ela apresenta uma visão das preocupações de uma ampla gama de pesquisadores (veja “Efeitos Trump”).

Efeitos de Trump: Resultados de uma pesquisa da Nature na qual os leitores foram questionados sobre suas opiniões sobre as políticas científicas do governo do presidente dos EUA, Donald Trump. A grande maioria expressou preocupação com os impactos na ciência dos EUA, em suas carreiras e no mundo.

Fonte: Análise de dados da pesquisa da Nature , abril de 2025

Especialistas em política científica alertam que os danos causados ​​pelo governo Trump podem atrasar os Estados Unidos por décadas. “Muitos dos impactos danosos serão extremamente difíceis de reverter e levarão muito tempo para se recuperar”, afirma John Holdren, consultor científico do ex-presidente dos EUA Barack Obama, que agora é especialista em política científica na Harvard Kennedy School, em Cambridge, Massachusetts.

Planos presidenciais

Os Estados Unidos se tornaram a principal superpotência científica após a Segunda Guerra Mundial, por meio de investimentos federais sustentados em pesquisa e desenvolvimento. Isso levou a inovações e tecnologias essenciais à vida moderna, como a internet, o mecanismo de busca do Google, o GPS e a ressonância magnética (RM). Em 2024, o governo federal investiu cerca de US$ 200 bilhões em pesquisa e desenvolvimento, com cerca de metade destinada a projetos relacionados à defesa.

Antes de sua posse, Trump disse que seu governo iria “liberar avanços científicos, garantir o domínio tecnológico dos Estados Unidos e inaugurar uma Era de Ouro da Inovação Americana!” Seu Departamento de Eficiência Governamental, liderado pelo bilionário Elon Musk , justificou seus cortes generalizados de verbas e demissões em massa em agências como o NIH como esforços para erradicar o desperdício, a fraude e o abuso, embora não tenha apresentado evidências disso.

Muitas das ações do governo refletem sugestões feitas no Projeto 2025 , um projeto para uma segunda presidência de Trump desenvolvido pelo think tank conservador Heritage Foundation, em Washington, D.C. Um de seus quatro objetivos centrais é “desmantelar o estado administrativo”, que inclui milhares de funcionários de agências como o NIH, a National Science Foundation (NSF) e a Agência de Proteção Ambiental. Os autores do Projeto 2025 acusam esses funcionários federais de desperdício, corrupção e “propaganda consciente” — linguagem que o governo Trump tem usado para explicar suas ações.

Uma longa fila de funcionários do Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS) do lado de fora do prédio depois que o governo Trump demitiu funcionários.

Funcionários formaram fila em frente ao departamento de saúde dos EUA enquanto este começava a cortar milhares de empregos. Crédito: Kevin Lamarque/Reuters

Alguns conservadores há muito questionam o valor dos investimentos federais em pesquisa fundamental, e essas visões ganharam força entre alguns industriais de tecnologia moderna, afirma William Press, cientista da computação da Universidade do Texas em Austin. A ideia de que o setor privado pode compensar a falta de recursos ganhou força à medida que o governo Trump trabalha para reduzir os investimentos públicos em ciência. Press considera isso um experimento arriscado. “Haverá muitos atropelamentos.”

Um porta-voz do Escritório de Política Científica e Tecnológica da Casa Branca disse à Nature que o presidente “delineou as prioridades científicas e tecnológicas do governo para garantir que o domínio americano continue na próxima geração”.

Mas dezenas de cientistas entrevistados pela Nature desde a posse de Trump afirmam que as ações do governo estão desmantelando a ciência americana em vez de aprimorá-la. “Não é que não haja coisas que se possa fazer para melhorar o financiamento da ciência”, diz Pamela Herd, socióloga da Universidade de Michigan em Ann Arbor, que estuda políticas de saúde e burocracia. O que o governo Trump está fazendo corre o risco de matar “a galinha dos ovos de ouro” que é a ciência americana, diz Herd.

Em algumas agências, a intenção parece ser “cortar até que não consigam mais cumprir sua missão”, diz Rachel Cleetus, pesquisadora de políticas climáticas da Union of Concerned Scientists em Cambridge, Massachusetts. Ela aponta para as demissões no Serviço Nacional de Meteorologia (NWS), que prejudicaram suas operações e capacidades de previsão. Se o NWS não pudesse funcionar, seria mais fácil dissolver a agência por completo, o que abriria caminho para que serviços meteorológicos privados assumissem seu lugar, diz Cleetus. “Eles querem privatizar muitos desses bens públicos essenciais.”

Mas é improvável que pesquisas fundamentais massivas e dispendiosas sejam substituídas, alertam especialistas em políticas públicas. “Ninguém tem a capacidade do governo federal”, diz Herd. “Você está produzindo pesquisas, mas também está treinando a próxima geração de cientistas. A indústria privada não pode fazer isso.”

Em particular, o governo fornece fundos cruciais para pesquisas fundamentais que visam construir conhecimento, mas não são necessariamente conduzidas com uma aplicação prática em mente (veja “Gastos em inovação”). Essas pesquisas podem levar anos ou até décadas para semeadura de uma nova tecnologia, e muitos estudos de ciência fundamental jamais chegarão a esse ponto, afirma Ufuk Akcigit, economista da Universidade de Chicago, em Illinois. Isso torna arriscado para as empresas investirem em um estágio tão inicial. Em vez disso, elas frequentemente esperam até que a aplicação de uma descoberta se torne clara para então financiar os estágios finais de desenvolvimento, afirma ele.

Gastos com inovação: gráfico de linhas mostrando o apoio do governo federal dos EUA à pesquisa fundamental de 1952 a 2022. Os gastos aumentaram substancialmente durante décadas, mas permaneceram praticamente estáveis ​​desde 2020, quando ajustados pela inflação.

Fonte: Centro Nacional de Estatísticas de Ciência e Engenharia ( https://go.nature.com/4JTAN8F )

Estripando a ciência federal

Uma das ações mais claras e imediatas que o governo Trump tomou para remodelar a ciência foi cortar a vasta rede de cientistas e especialistas que trabalham para o governo federal. Em 2020, cerca de 280.000 cientistas e engenheiros faziam parte da força de trabalho federal de 2 milhões de pessoas que agora está sendo reduzida. Nos primeiros três meses, o governo Trump cortou milhares de empregos em agências científicas como o NIH, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), a Administração de Alimentos e Medicamentos (FDA), a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional e o Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia, embora seja difícil calcular os números exatos porque os departamentos não os divulgaram.

Por conta própria, o Departamento de Saúde e Serviços Humanos, que inclui o NIH, o CDC e a FDA, anunciou que demitiria cerca de 10.000 funcionários. Muitos dos que foram demitidos de agências científicas são pesquisadores ou funcionários que apoiam a pesquisa. Nas discussões sobre o orçamento de 2026, o presidente e o Congresso prometeram fazer cortes ainda maiores na força de trabalho federal.

Cientistas do governo estão acostumados com oscilações orçamentárias e esforços de redução de pessoal, mas acadêmicos dizem que o grau de hostilidade e a escala dos potenciais cortes de força de trabalho tornam este momento diferente.

Pesquisadores entrevistados pela Nature afirmam que treinar uma nova geração de recrutas leva tempo, em parte devido às realidades institucionais únicas inerentes à função de cientista governamental: os pesquisadores precisam entender os procedimentos governamentais, bem como o contexto administrativo e estatutário do seu trabalho. “A destruição é tão generalizada e severa que simplesmente não será possível voltar ao que era antes”, afirma Blake Emerson, pesquisador de direito administrativo da Universidade da Califórnia, em Los Angeles.

“O que as pessoas precisam entender sobre o longo prazo é que, quando você demite pessoas e desmantela projetos, não é possível recriar tudo isso no momento em que se tem uma nova administração”, diz Holdren. “Você perdeu o ímpeto. Perdeu o conhecimento, e reconstruí-lo pode levar anos ou décadas.”

Ataques a universidades

Universidades em todo o país estão cambaleando enquanto enfrentam uma enxurrada de medidas agressivas do governo, incluindo investigações federais, ameaças de cortes massivos de verbas, cancelamento de bolsas de pesquisa, ordens para eliminar iniciativas de diversidade e prisões de alguns estudantes e acadêmicos estrangeiros. Embora o governo não tenha divulgado informações completas sobre o encerramento de bolsas, pesquisadores já contabilizaram mais de 1.000 até agora, apenas no NIH na NSF e na NASA .

Em risco com todas essas mudanças, afirmam os pesquisadores, não está apenas uma geração de cientistas, mas o futuro da parceria de décadas entre o governo e o ensino superior, que foi concebida para promover a ciência e fomentar a inovação para o bem público. Em 2023, as universidades americanas gastaram cerca de US$ 109 bilhões em pesquisa e desenvolvimento, com quase US$ 60 bilhões vindos do governo federal.

Um dos maiores testes ocorrerá nos próximos meses, quando o Congresso analisar a proposta do governo Trump para o orçamento de 2026, que certamente exigirá cortes sem precedentes nos investimentos em ciência e inovação federais. Durante o primeiro governo Trump, os republicanos se uniram aos democratas na defesa contra cortes em larga escala na ciência, mas a atual maioria republicana até agora se alinhou às políticas e prioridades de Trump.

“A ideia de que o setor privado intervirá magicamente para substituir o financiamento governamental para a ciência demonstrou ser completa e empiricamente equivocada”, afirma Robert Atkinson, economista e presidente da Information Technology and Innovation Foundation, um think tank de política científica em Washington, D.C. Atkinson afirma que o objetivo final do governo Trump parece ser uma instituição científica federal 30% a 40% menor do que a atual, “e para eles simplesmente não importa quais sejam os efeitos disso sobre a ciência, a inovação, a competitividade e o crescimento econômico”.

Ainda não está claro qual será o tamanho do orçamento federal para ciência em 2026, mas as universidades de pesquisa também podem sofrer bastante em outras frentes, afirma Tobin Smith, vice-presidente de política científica e assuntos globais da Associação de Universidades Americanas (AAU), que representa dezenas das principais instituições de ensino superior do país e tem sede em Washington, D.C. Smith aponta para uma série de mudanças propostas no financiamento que reduziriam substancialmente a capacidade das universidades de realizar pesquisas, como reduções nos custos indiretos cobertos pelo governo para que as universidades possam implementar bolsas federais concedidas a pesquisadores acadêmicos.

Ao mesmo tempo, diz Smith, o governo Trump adotou a visão de que o financiamento federal para universidades é um privilégio que deve ser estendido somente se as instituições aderirem a certas demandas políticas. Ele cancelou ou suspendeu bilhões de dólares em bolsas e contratos para universidades, incluindo Harvard, Columbia , Princeton, Cornell, a Universidade da Pensilvânia e outras, devido a questões políticas, como protestos estudantis e atletas transgêneros. Pelo menos uma instituição agora reagiu: os líderes da Universidade de Harvard anunciaram em 14 de abril que não atenderiam às demandas do governo Trump, que horas depois disse que congelaria US$ 2,2 bilhões em bolsas para Harvard. A universidade está atualmente processando o governo Trump.

Tudo isso representa uma ameaça sem precedentes às universidades e seus resultados financeiros, afirmam muitos líderes de pesquisa. “A retirada de financiamento para pesquisa por motivos alheios à pesquisa estabelece um precedente perigoso e contraproducente”, afirmou o conselho da AAU em um comunicado no final de março.


Fonte: Nature

Os escritórios que investigam violência sexual nas universidades dos EUA operam a portas fechadas. Uma pesquisadora entrou dentro deles

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Por Alex Walters para o “The Chronicle of Higher Education” 

Há muito debate público sobre o Título IX , mas os escritórios do campus que investigam reclamações sob a lei tendem a trabalhar a portas fechadas. Um livro que será lançado em breve pretende abri-los.

Para On the Wrong Side: How Universities Protect Perpetrators and Betray Survivors of Sexual Violence (University of California Press), Nicole Bedera recebeu um nível incomum de acesso aos procedimentos do Título IX em uma grande universidade pública, que ela não nomeia. Bedera participou de reuniões, leu arquivos de casos e entrevistou os alunos e funcionários que relataram agressão sexual, aqueles que enfrentaram acusações e administradores encarregados de lidar com os casos.

Muitos dos reclamantes que Bedera apresenta não buscaram as investigações incrivelmente onerosas que ela detalha. Eles queriam acomodações para aulas ou moradia, mas acabaram em procedimentos complexos que foram projetados para proteger a instituição e tendiam a produzir resultados favoráveis ​​ao acusado, argumenta Bedera.

Isso é prejudicial para estudantes que se apresentam sobre violência sexual e esperam que suas faculdades tomem medidas, disse Bedera ao The Chronicle . Alguns estudantes vivenciam “traição institucional”, um termo sociológico que descreve como a falta de apoio de uma instituição viola a confiança. Estudantes que dizem ter sofrido traição institucional, escreve Bedera, “relatam sintomas traumáticos semelhantes aos das vítimas que foram estupradas duas vezes”.

As conclusões sombrias do livro são temperadas com uma apresentação esperançosa das reformas propostas. “A violência sexual no campus é um problema social persistente — mas não porque seja impossível de resolver”, escreve Bedera. Por exemplo, ela disse, as faculdades podem dar aos alunos que relatam agressão sexual mais agência em como as investigações do campus avançam. Embora seja um livro acadêmico, ela acredita que é acessível a administradores e alunos que passam por processos do Título IX.

Bedera conduziu o estudo para sua dissertação na Universidade de Michigan em Ann Arbor, onde obteve um Ph.D. em sociologia. O livro será lançado em outubro. Ela falou com o The Chronicle sobre sua experiência inserida em um escritório do Título IX, equívocos sobre violência sexual no campus e o papel dos professores em apoiar alunos que sofrem danos. A conversa foi editada para maior clareza e extensão.

Os casos que você analisa neste livro são diferentes dos cenários estereotipados — você chama isso de “estupro em festa” — que as pessoas imaginam quando ouvem sobre o Título IX e a violência sexual no campus. Quais são alguns equívocos que você gostaria de corrigir sobre essas questões?

Essa narrativa de estupro em festa universitária tem um bode expiatório muito conveniente com essa ideia de que, “Se você escolher beber, isso é o que pode acontecer com você.” Muitos de nós que passamos tempo em campi conversando com administradores de faculdades sobre violência sexual sabemos que a conversa rapidamente se transforma em, “Se ao menos pudéssemos fazer essas crianças beberem menos.” E isso realmente ignora a raiz do problema, que não é o álcool, mas a desigualdade, o sexismo e a misoginia.

Mas, de forma mais ampla, o Título IX não é apenas sobre violência. Uma das coisas que me surpreendeu foi o quanto do trabalho diário do escritório é sobre outras formas de discriminação sexual. Coisas como tratamento diferenciado entre homens e mulheres em cenários específicos, e apenas o tipo de assédio sexual comum. Acho que tanto foco nessa história sobre estupro em um cenário de festa faz com que todo o resto pareça não ser tão ruim, pelo menos como os administradores viam. Porque se eles pudessem estar respondendo a estupro ou violência de parceiro com risco de vida, qualquer outra coisa nesse continuum de dano parecia indigna de intervenção escolar para alguns.

Muitos dos casos no livro são focados em estudantes de pós-graduação e pesquisadores no local de trabalho. Como essas dinâmicas são diferentes de estudantes de graduação?

Ao entrevistar alunos de pós-graduação para este projeto, o grau em que a violência e a facilitação da violência pelo corpo docente foram aceitas realmente me impressionou. Poderia parecer que não havia nada que pudesse ser feito, que se você se apresentasse, poderia perder seu financiamento, ou seu laboratório, ou acesso a toda a educação que você está aqui para obter. Então, a realidade é que a violência que está afetando os alunos de pós-graduação é muito mais difícil de responder com o sistema do Título IX.

Na verdade, há pesquisas da última década ou mais que dizem que estudantes de pós-graduação podem estar em maior risco de violência sexual do que estudantes de graduação. Uma das coisas alarmantes dessa pesquisa é que os perpetradores geralmente são docentes, e isso é realmente difícil para as universidades confrontarem.

Você também argumenta que muitos dos casos no livro levantam questões interseccionais que vão além da discriminação de gênero. Isso é algo em que as pessoas deveriam pensar?

Quando falamos sobre violência sexual, violência sexual no campus em particular, há uma centralização em mulheres brancas e heterossexuais. Mas elas são, na verdade, a minoria das vítimas. [O pseudônimo] Western University é uma instituição predominantemente branca, mas o número de sobreviventes no meu estudo que são mulheres brancas heterossexuais é inferior a 20%.

Muito do que nos permite dormir à noite depois que a violência sexual acontece, e então nada acontece, é essa intersecção com racismo, homofobia e capacitismo. Essas instituições como um todo valorizam menos os alunos que foram vítimas, não apenas em seu gênero, mas em suas identidades como um todo.

Por que você acha que as pessoas não ouvem muito sobre o espectro mais amplo de casos do Título IX e quem está envolvido?

Quando os sobreviventes perderam a confiança na capacidade de suas instituições de ajudá-los, eles perderam a confiança em muitas instituições sociais. A maioria dos sobreviventes que entrevistei nunca tentou entrar com um processo ou ir à imprensa. Eles nem sonhariam com isso porque era difícil confiar em outras instituições.

Também há barreiras reais para se apresentar, e é aí que entra a questão da interseccionalidade. A ideia de que há alguém com uma agenda e recursos que pode conseguir um advogado ou encontrar um bom jornalista não se encaixava muito bem quando a vítima era uma mãe solteira de 35 anos que estava realmente focada em levar os filhos à escola.

Estabelecemos que o livro é uma leitura um tanto sombria, mas fiquei impressionado com a forma como cada seção termina com muita esperança. Você acha que um leitor é muito otimista ou ingênuo se terminar este livro sentindo que os desafios que cercam as respostas das faculdades à agressão sexual são solucionáveis?

Não. Quando eu saía do campo e estava falando sobre algumas descobertas, as pessoas me perguntavam: ‘Você está tão deprimida? Você sente que é impossível seguir em frente?’ Mas eu sentia o oposto.

O que me causa angústia é que as soluções são conhecidas. Sabemos o que temos que fazer para acabar com a violência de gênero. Até certo ponto, até mesmo as políticas que as escolas têm seriam um grande passo se elas realmente as seguissem. O problema é que não houve disposição para fazê-lo.

As soluções sobre as quais você fala no livro podem ser promulgadas em um campus individual se ele tiver a liderança certa? Ou é um problema político para legislaturas estaduais e regras federais?

É mais uma questão política do que para os campi. As universidades têm um interesse real em manter seu poder sobre o crime no campus, então seria ingênuo esperar que elas liderassem a mudança. Por exemplo, é benéfico para uma universidade poder decidir os resultados de um caso de má conduta sexual contra o professor mais prestigiado que traz muito dinheiro de bolsa e atenção para a escola.

O período estudado no livro coincide com as regras do Título IX da era Trump. Agora temos novas regulamentações da administração Biden. À medida que a eleição se aproxima, o que você está observando?

Independentemente do resultado da eleição, acho que precisa haver um esforço real para restaurar muitos dos direitos que Trump tirou dos sobreviventes. O governo Biden não foi longe o suficiente para restaurar esses direitos.

Uma coisa que me surpreendeu, ao falar sobre este livro e trabalhar neste projeto, é quantos sobreviventes ainda estão pensando sobre o que aconteceu com eles nos campi universitários. Este tipo de trauma, traição institucional, deixa uma marca para toda a vida da mesma forma que a violência em si deixa uma marca para toda a vida. Então, acho que há muito interesse em mudar as coisas e pode haver muita vontade política aí.

Há mais alguma coisa que você acha importante e que não mencionamos?

Sim. O que eu gostaria que os professores fizessem para melhorar as coisas para seus alunos?

Professores são meio que personagens secundários no livro. Não entrevistei nenhum, a menos que fossem parte de um caso. Dito isso, os sobreviventes que entrevistei falaram muito sobre professores. Eles controlavam muito de suas vidas.

Há uma suposição de que o corpo docente deve ser capaz de lidar com suas salas de aula como quiser, e isso é promissor e perigoso. É perigoso porque alguns estavam dificultando muito as coisas para as vítimas, denunciantes e testemunhas. Mas é promissor porque, com tão pouca supervisão, o corpo docente que quer fazer o certo pelos sobreviventes pode, com certeza.

Seria muito útil para os professores pensarem em oferecer não apenas uma acomodação padrão, mas ter uma discussão real sobre o que realmente será mais útil para a educação do aluno.


Fonte: The Chronicle of Higher Education

A rebelião contra os rankings nos EUA será acompanhada por instituições da América Latina?

rankings-996x567Escolas de ciência, educação e medicina de universidades como Harvard, Stanford e Columbia começaram uma revisão em relação aos rankings universitários. Crédito da imagem: Hippopx, imagem de domínio público.

Aliás, as críticas aos rankings não são uma surpresa. Pode-se dizer que nasceram quase ao mesmo tempo que os próprios rankings nos anos de 1980 até se tornarem globais. A novidade desta vez é que algumas das escolas mais bem classificadas lideram a taxa de rejeição.

Hoje existe uma grande variedade de rankings com diferentes critérios e grande influência. Entre os internacionais mais populares figuram o de Shanghái (criado em 2003), o QS World University Ranking (2004) e o Times Higher Education Supplement (2010) .

Holden Thorp, editor-chefe do grupo Science, em um recente editorial sobre o fenômeno catalogado nos rankings como “uma tirania” e comemorou a decisão tomada por vários centros acadêmicos de rejeitar os rankings.

“A melhor alternativa educacional para alguns alunos não é a mesma para outros. Uma das melhores coisas sobre o ensino superior é que existem tantas opções.”

Holden Thorp, editor chefe do grupo Science

Em entrevista para SciDev.Net via e-mail, Thorp comentou que o “melhor seria que os rankings desaparecessem por completo” porque geram, muitos problemas.

Um é que as classificações numéricas sofrem de falsa precisão. Existe realmente uma diferença entre o N° 10 e o N° 11 nas classificações dos programas de pós-graduação?, pergunta Thorp em seu editorial.

O outro problema é que os rankings recompensam aquelas escolas que melhoram as medidas ao admitir estudantes que tiveram as vantagens de uma melhor educação pré-universitária e preparação para exames.

Thorp insiste que “a melhor alternativa educacional para estudantes não é a mesma para outros. Uma das melhores coisas da  educação superior é que existem muitas opções”.

Um dos casos mais chamativos desta investida contra os rankings foi protagonizada pela Universidade de Columbia (EEUU). Tudo começou em fevereiro de 2022 quando um de seus professores de matemática, Michael Thaddeus, publicou em um blog um documento em que expôs inconsistências nos dados apresentados pela instituição US News & World Report , o mais popular dos rankings criado nos EUA em 1983.

Dados como o tamanho das aulas de graduação, gastos com instrução e o nível educacional dos professores, conforme sua investigação, foram alterados para favorecer a valorização do ranking. O escândalo veio a público em setembro de 2022, e a Columbia University caiu do 2º ao 18º lugar neste ranking.

Para Nina Faraoni, docente da Universidade de Granada (Espanha) e autora da tese de doutorado Reputação y rankings universitarios: análisis de sus debilidades y aplicaciones , publicada em 2022, é interessante que “que sejam algumas das universidades norte-americanas as que decidiram não mais aparecer nos rankings, quando são elas as que tradicionalmente estão melhor posicionadas”. Na sua opinião, esta posição pode ser um sintoma da enorme pressão e competição entre elas.

Diana Lucio Arias, diretora do Departamento de Ciência da Informação da Universidad Javeriana na Colômbia, acredita que um grande problema com os rankings é que “homogeneízem” os sistemas universitários, anulando assim a diversidade que que existem em contextos sociais como os latino-americanos.

“Qualquer universo mais diverso é melhor. Necessitamos respostas das universidades a distintas demandas sociais”, comentou a SciDev.Net .

Mario Albornoz, investigador principal do Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas da Argentina na área de políticas de ciência e tecnologia e co-autor da investigação  Rankings de universidades: qualidade global e contextos locais, disse ser um “defensor dos indicadores de ciência e tecnologia e de educação superior” e afirmou não estar “contra os rankings”.

No entanto, Albornoz opinou que os rankings distorcem a realidade ao escolher alguns indicadores em detrimento de outros. “Na Argentina há universidades que fazem um esforço muito grande para melhorar nos rankings. Mas esse não é um esforço necessariamente acadêmico, mas sim de relações públicas com as empresas que organizam os rankings”, acrescentou.

Albornoz considera que um elemento central nesta discussão é que os rankings não levam em conta os contextos locais das diversas universidades.

Existe um ranking ideal? Albornoz acredita que tal vez não, mas o que deve ser capaz de dar conta da relação das universidades com seus contextos locais.

Andres Molano, diretor do Instituto Colombiano para a Avaliação da Educação (ICFES), comentou ao SciDev.Net por telefone que “me agrada que a ideia de rankings como listas ordenadas desapareça”, mas alertou que isso não pode ser traduzido em uma claudicação antes do esforço de buscar formas de melhorar a qualidade educacional.

É importante reconhecermos que precisamos medir. Mas para isso devemos descobrir o valor que cada instituição agrega aos seus estudantes. Dessa forma, é desejável que existam sistemas que permitam comparar universidades que recebem populações de estudantes semelhantes e meditar sobre o suporte em seus processos de aprendizagem.

“Temos que encontrar um sistema alternativo. Estou interessado em descobrir intelectualmente esse sistema na América Latina. Um sistema de avaliação que considere as características de nosso continente, que tem outro sistema referencial, que não se compara, por exemplo, com Cambridge”, enfatizou Albornoz.


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Este artigo foi produzido pela edição de América Latina e Caribe de  SciDev.Net [Aqui!  ].

Universidades públicas como centros ideológicos da extrema-direita, mais um produto do Neoliberalismo a la Bolsonaro

bolsonarismo universidade

Mais do que atacar o ensino superior público do ponto de vista financeiro, o governo Bolsonaro buscou atacar a “ideia de universidade para todos”

As universidades públicas brasileiras são corriqueiramente apresentadas por políticos e militantes da extrema-direita como supostos ninhos ideológicos da esquerda. Como professor de uma universidade pública há exatos 25 anos, a minha experiência é que qualquer imputação de que as universidades públicas são dominadas pelo pensamento de esquerda não passa de uma cortina de fumaça, na medida em que o oposto é a condição verdadeira.

Essa tendência direitista das universidades brasileiras tem várias razões históricas, a começar pela sua formação tardia, mas principalmente pelo processo de remoção forçada de intelectuais que foi pelo regime militar de 1964, e que alcançou figuras importantes como Florestan Fernandes e Darcy Ribeiro, apenas para começo de conversa.

Como alguém que estudou na UFRJ ao longo da década de 1980 me acostumei a ver figuras como o então poderoso ministro de Minas e Energia, César Cals, caminhando tranquilamente pelos corredores do Instituto de Geociências para onde se dirigia atrás de orientações. Além disso, sabíamos que muitos professores que haviam entrado na instituição ao longo da década de 1970 o tinham feito menos por seu brilhantismo intelectual, mas mais por suas ligações com o regime militar.

Mas o período mais recente da história da universidade brasileira está sendo marcado por uma aproximação explícita de parte da comunidade universitária aos ideários da extrema-direita, não sendo raros os casos de professores e servidores não docentes que apoiaram explicitamente as medidas anti-universidade adotadas pelo governo Bolsonaro. Esses segmentos são uma espécie de inimigo dentro de casa, na medida em que normalmente se colocam à margem de tarefas triviais para depois questionarem a validade de estatutos básicos que existem para impedir a perseguição ideológica e a inabilitação de pesquisas que não sejam pró-mercado.

Nas últimas eleições presidenciais ouvi vários relatos de professores e servidores que agiram de forma despudorada para impor o voto no ex-presidente Jair Bolsonaro. Não foi possível dar publicidade a isso porque os que foram alvos dessa ação não queriam ter seus nomes expostos por medo de sofrerem ainda mais repressão e atitudes de coação.

Por isso tudo, não há porque se surpreender com o surgimento de imagens e fotografias de servidores de universidades públicas participando do quebra-quebra que ocorreu no último domingo em Brasília (ver imagem abaixo). Essas mesmas figuras já estavam praticando atos semelhantes em suas instituições, ainda que de forma mais velada. Mas agora que estão tendo suas imagens e ações mostradas nas redes sociais, a pergunta que fica é sobre como serão tratados pelas direções de suas universidades. Mas dada a imposição de dezenas reitores biônicos pelo governo Bolsonaro, ao menos nas universidades federais, tenho pouca esperança de que essas pessoas sofram quaisquer punições.

universidades bolsonaristas
Mas uma coisa clara, a extrema-direita está bem plantada dentro das universidades públicas, ainda que de forma minoritária e atuando pelas beiradas, o que não quer dizer que seus membros possam ser menosprezados ou subestimados. Assim, uma das tarefas que se abrem para o próximo período é a realização de um debate claro sobre o grau de “bolsonarização” não apenas das práticas docentes, mas também da ingerência que o pensamento de extrema-direita já tem na formulação de conteúdos e na imposição de ideias anti-científicas no ensino superior brasileiro. Dentro dessa discussão, há que se cobrar que o novo governo faça uma imediata reversão de várias medidas impostas pelo governo Bolsonaro para impedir o debate crítico dentro da Educação brasileira, o que não está, de forma alguma, resumido às universidades.

Uma dica para o presidente Lula e seu ministro da Educação: acabem logo com o “Novo Ensino Médio” que é um dos exemplos mais avançados do pensamento acrítico por onde a extrema-direita pode se reproduzir, juntamente com outros projetos educacionais em curso desde o golpe parlamentar-judicial-midiático que culminou no impeachment da presidenta Dilma Rousseff, que tem por objetivo reduzir substancialmente a carga horária de disciplinas que possam contribuir para um modelo educacional crítico e emancipatório.

No enfrentamento da pandemia, os trânsfugas da esquerda são aliados preferenciais do negacionismo

Tránsfugas

Em meio ao debate sobre a volta às aulas presenciais, em meio ao agravamento da disseminação da variante “ômicron” que é considerada como mais nociva às crianças e não vacinados, tenho visto posicionamentos vindos de dentro das fileiras acadêmicas que se assemelham muito ao que vejo saindo do interior da redes de robôs negacionistas que comandam a sabotagem contra os esforços para acabar com a pandemia da COVID-19 no Brasil.

Entre as pérolas ditas por esses “intelectuais” é uma que equivale  a ação dos sindicatos docentes que cobram a cobertura vacinal de docentes e estudantes como condição para a volta às aulas presenciais como um exemplo de preguiça sindical.  Além disso, como cobertura desse “bolo” ainda aparecem frases de efeito como “já passou a hora de voltarmos às aulas presenciais” que, não raramente, são ditas por profissionais cuja presença em sala de aula é, digamos, rara.

Como alguns desses membros das fileiras acadêmicas já tiveram alguma pretensão de serem de “esquerda”,  não posso deixar de considerar que muitos dessas figuras estão jogando o papel de trânsfugas em meio a uma guerra contra um vírus assassino, apenas para explicitar a sua ojeriza ao papel dos sindicatos na defesa da segurança de seus membros, mesmo que discursivamente adotem um tom crítico do status quo. Nesse sentido,  essas figuras acabam ocupando por opção própria o papel de colunas preferenciais de sustentação do negacionismo oficialista que continua jogando pesado contra o acesso às vacinas contra a COVID-19, seja pela disseminação de propagandas pagas com o dinheiro público para disseminar o medo e a negação, seja pela demora na compra e disseminação das mesmas.

A questão é que em minha experiência de mais de duas décadas como docente de uma universidade pública,  já vi várias vezes, esses mesmos trânsfugas ocupando a cabeça das filas que se formam para auferir os direitos conquistados pelas lutas organizadas pelos sindicatos e pelos “membros preguiçosos” da sua própria categoria. Penso que seria mais coerente que depois combater a ação organizada dos sindicatos, se negassem a receber o fruto das lutas organizadas por eles.  Entretanto, a partir do que vivenciei no meu próprio sindicato, parece mais fácil que esses trânsfugas, mesmo após atrasarem as mensalidades sindicais, continuem se refestelando com os frutos  da luta alheia.

Então qual é o moral da história? É que os pós-pandemia demandará um devido ajuste de contas com aqueles que escondidos pelo verniz acadêmico estão atuando para desmantelar os instrumentos de resistência da classe trabalhadora brasileira. Sem esse ajuste me parece que continuaremos a ter que conviver não apenas com os bolsonaristas raiz, mas com um séquito de ex-esquerdistas que com seus discursos bonitos dão sustentação ao Bolsonarismo.

Pare de descrever ensino como uma ‘carga’

As universidades deveriam recompensar o ensino mais do que os resultados da pesquisa, diz Peter Copeland

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Os estudantes não são um fardo para as universidades, argumenta Peter Copeland. Crédito: Getty

Por Peter Copeland para a Nature

Acadêmicos universitários são frequentemente questionados: “O que você ensina?” Embora alguns respondam tocando em algum aspecto de sua especialidade, muitas vezes a resposta mais honesta seria “o mínimo possível”.

A fonte dessa atitude é fácil de ver na linguagem acadêmica: o ensino, em particular o ensino de graduação, é muitas vezes referido como uma ‘carga’ – implicitamente, um fardo – e a recompensa por suportá-lo é muitas vezes pequena em comparação com outras responsabilidades , como pesquisa ou administração.

Apesar de já terem sido estudantes, a maioria dos acadêmicos das universidades de pesquisa começa suas carreiras focando não no ensino, mas na pesquisa. Eles entendem que a maioria das avaliações de posse terá pouco a ver com o que acontece na sala de aula. Espera-se excelência em pesquisa, mas o padrão para o ensino é menor e a ligação entre as duas atividades geralmente é fraca.
Quando comecei minha carreira acadêmica, há mais de 30 anos, aspirava ao meu trabalho atual não pelo desejo de ensinar, mas por uma aspiração de entender o mundo de novas maneiras por meio da minha ciência. Não aconteceu muita coisa no início da minha carreira para modificar esse ponto de vista; para mim, o ensino era um obstáculo ao trabalho acadêmico ‘adequado’: a pesquisa.

A cultura institucional parecia concordar comigo. Não recebi nenhuma instrução formal sobre como ensinar, mas foram oferecidos workshops destinados a me ajudar a obter mais financiamento externo. Isso gerou certa tensão em minha sala de aula, porque me parecia que, embora esperasse que eu gastasse um bom tempo preparando e ministrando meus cursos, esse trabalho não importaria em minhas avaliações. Os alunos puderam sentir essa tensão. No entanto, a situação melhorou quando percebi que a melhor maneira de ensinar é relaxar, e que eu poderia relaxar porque a instituição não estava prestando muita atenção – então minha carreira não estaria em risco se eu cometesse um erro em sala de aula. Perceber que os únicos que precisavam estar satisfeitos éramos eu e meus alunos me ajudou a me acalmar. O ‘fardo’ foi aliviado e comecei a encarar o ensino como uma oportunidade.

À medida que fiquei mais confortável, comecei a discutir minha pesquisa nas aulas de graduação ao lado do material padrão do curso. Isso deu aos alunos mais interesse em uma parte da universidade que muitas vezes é opaca para eles e, como resultado, vi melhores perguntas e mais engajamento. Também deu um impulso à minha pesquisa. Convidar até mesmo os alunos mais novos para um lugar na minha mesa de pesquisa me forçou a ver as questões de novas maneiras. Isso me ajudou a valorizar mais a educação que eu estava oferecendo. Também me ajudou a contribuir – tanto em laboratório quanto em campo – para minha disciplina por meio de colaborações que poderiam não ter acontecido tão facilmente de outra forma, com o benefício adicional de transformar colegas de outras universidades em amigos.

Ironicamente foi só quando aceitei que ensinar não era valorizado que me tornei um professor melhor. No entanto, este pode não ser o melhor caminho para todos. Quanto à questão de como melhorar o ensino nas universidades de pesquisa, a instrução formal em pedagogia pode não ser a ferramenta mais eficiente, embora provavelmente não faça mal. Talvez tudo o que seja necessário é que os reitores enviem a mensagem de que se seu ensino não está aprimorando sua pesquisa e vice-versa, você não está fazendo nenhum dos dois corretamente. Motivar as pessoas com o que elas já valorizam é mais fácil do que fazê-las se importar com outra coisa. Vincular melhor ensino a pesquisa aprimorada pode ser mais motivador do que explicar aos acadêmicos que seus programas de pesquisa podem não existir sem alunos de graduação para ajudar a pagar as contas.

Os acadêmicos em geral e os administradores universitários em particular devem parar de pensar e se referir ao ensino como uma ‘carga’. Para ajudar a normalizar essa abordagem, recomendo que, após uma avaliação rigorosa do ensino e da pesquisa, as promoções e aumentos salariais sejam baseados na menor das duas avaliações. As universidades deveriam encorajar a grandeza, mas deveria ser impossível ser considerado um grande professor se não for bom tanto no ensino quanto na pesquisa. Essa mentalidade melhoraria as universidades da maneira mais ampla. Quando os acadêmicos explicam o que sabemos e não sabemos de nossa pesquisa de alto nível, os alunos ficam mais bem informados e novas pesquisas também podem ser geradas. Todos ganham. Todos faríamos bem em lembrar que os alunos não são um peso para carregar: pelo contrário, eles podem elevar nosso trabalho.

doi: https://doi.org/10.1038/d41586-022-00145-z

Este é um artigo da Nature Careers Community, um lugar para os leitores da Nature compartilharem suas experiências e conselhos profissionais. Postagens de convidados são incentivadas.

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Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pela Nature [Aqui! ].

COVID-19: se as universidades estão fechadas, por que as escolas estão abertas?

pergunta

O jornal “Terceira Via” decidiu fazer uma matéria muito curiosa a partir de uma premissa ainda mais curiosa envolvendo a decisão das instituições de ensino superior da cidade de Campos dos Goytacazes de não retomar as aulas presenciais. É que segundo os redatores do “Terceira Via”, se crianças estão tendo aulas em meio a uma pandemia letal, por que jovens adultos não podem também (ver imagem abaixo)?

escolas abertas

Eu que convivo há um ano e meio com aulas virtuais e noto a angústia que se apossou dos meus estudantes em não poderem estar frequentando o campus da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), já que a maioria deles reconhece que isso seria um convite à contaminação em um país em que menos de 45% da população completou a rotina vacinal.

Assim, a pergunta que o “Terceira Via” deveria estar se fazendo é sobre como as aulas estão sendo ministradas em escolas municipais, na medida em que quem escreveu a referida matéria não se deu ao trabalho de fazer um levantamento mínimo sobre casos de infecção pelo coronavírus na rede municipal de ensino, tanto entre profissionais de educação quanto entre os estudantes cujos pais optaram por enviar os seus filhos às aulas presenciais.

O curioso é que no dia de hoje o mesmo “Terceira Via” noticiou o falecimento de mais um empresário campista em função da COVID-19. Aliás, eu já perdi a conta de quantos proprietários de estabelecimentos comerciais de Campos dos Goytacazes já morreram em função das complicações causadas pela infecção causada pelo SARS-Cov-2.  Sobre isso, não me lembro de ter lido matéria do Terceira Via.

Se estivessem dispostos a contribuir para a educação da população sobre os riscos de menosprezar as regras de isolamento social e do uso de equipamentos de proteção individual, os editores da Terceira Via iriam gastar o tempo dos seus repórteres com informação e não com tentativas mal enjambradas de pautar os dirigentes de instituições de ensino superior para atender os interesses de sabe-se lá quem.

Eu aproveito para devolver a questão proposta pelos redatores do Terceira Via: se as universidades não estão abertas para diminuir a possibilidade de mais casos de COVID-19, por que raios as nossas crianças estão sendo encurraladas em aulas presenciais?