E o dia da justiça ainda não chegou para Cícero Guedes

cicero

Ontem o julgamento do acusado de ser o mandante do assassinato do assentado e importante liderança da agricultura familiar do Norte Fluminense terminou com o veredito de inocência. 

Não tenho como opinar sobre como se deu o julgamento porque não estava na sala do juri, mas acho peculiar que o juri tenha levado em torno 25 minutos para absolver um réu para um caso que levou longos seis anos para ser julgado. 

Tamanho descompasso entre a ligeireza do júri e a lerdeza da justiça de levar o acusado a julgamento é, por outro lado, típico de um sistema onde os pobres definitivamente não possuem o mesmo sistema de garantias que os mais abastados.

Interessante notar que se o acusado de ontem foi inocentado, caberão dois desdobramentos para o caso do assassinato (pelas costas) de Cìcero Guedes: a polícia reiniciar as suas investigações que o júri considerou equivocadas ou a busca de correção da decisão de ontem em segunda instância.

Desconfio que o caminho a ser tomado (caso seja possível) é o da busca de correção da decisão do júri em segunda instância. Até lá, fica evidente que não há como achar natural que um caso tão rumoroso continue em aberto, sem que o culpado ou culpados sejam devidamente punidos pelo assassinato de Cícero Guedes.

Em justiça à memória do Cícero, esse caso não pode ficar jogado pelas calendas como se a vida e a luta dele não tivessem o significado amplo que tiveram. Deixar o assassinato sem a devida punição será incentivar a continuação do extermínio físico de todos aqueles que, partindo da origem e condições de vida em que Cícero viveu, ousaram e ousam sonhar por um país que não seja tão cruel com os pobres. 

E esse país que seja mais justo e menos desigual requer a realização de uma ampla reforma agrária que possa iniciar as necessárias transformações estruturais que o Brasil demanda para almejar ser uma Nação livre e soberana.

Cícero Guedes, presente!

Finalmente é chegada a hora de se fazer justiça a Cícero Guedes

cicero

Cícero Guedes foi assassinado em janeiro de 2013, agora o acusado de ser o mandante do crime finalmente vai a julgamento
Assassinado no dia 25 de janeiro de 2013, o assentado e liderança inequívoca no Assentamento Zumbi dos Palmares, Cícero Guedes, era o que eu chamo de uma força da natureza dada era sua energia e disposição para a ação coletiva. A sua envergadura avantajada e o vozeirão inconfundível o tornavam uma figura difícil de se perder na multidão. Mas a vida nunca foi fácil para quem após uma infância dura em Alagoas, foi submetido a trabalho análogo à escravidão em Campos dos Goytacazes onde chegou buscando emprego no corte de cana.
Pessoalmente considero que o assassinato de Cícero Guedes representou um duro golpe contra as ações voltadas para ampliar a auto-organização dos assentamentos existentes no Norte Fluminense, na medida em que liderava as ações para a implantação de estruturas coletivas de comercialização que livrassem os assentados da dependência dos atravessadores, bem com os esforços para adoção de sistemas agro-ecológicos que diminuíssem a dependência de agrotóxicos e outros insumos químicos.
É importante notar a relação desenvolvida por Cícero Guedes com o cotidiano da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), e que se deu de forma intensa nas diferentes dimensões da vida universitária. Uma que não é que costumeiramente destacada foi a transformação do lote que Cícero e sua família ocupavam no Assentamento Zumbi dos Palmares em um laboratório avançado para a realização de pesquisas e ações de extensão relacionadas ao desenvolvimento de sistemas agroecológicos. Nesse aspecto particular, Cícero não era um simples objeto de pesquisa, mas um sujeito entusiasmado com as possibilidades trazidas pela disseminação da agroecologia por assentados da reforma agrária. Como uma sabedoria oriunda das suas lutas, Cícero sempre dizia que queria que a geração de renda não estivesse separada da sustentabilidade ambiental dos assentamentos.
Como se não fosse suficiente transformar o seu lote em unidade experimental e de demonstração, Cícero trabalhou muito para que a Uenf fosse uma parceira no processo de educação política dos agricultores assentados do Norte Fluminense. Graças a esse esforço, pudemos sediar diversos eventos organizados pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e seus parceiros dentro do campus Leonel Brizola. Pensando em retrospectiva, vejo como o período em que convivemos com Cícero foi enriquecedor para a cultura universitária, na medida em que para ele nos obrigava a pensar a realidade em formas que normalmente a universidade tem dificuldade de fazer, buscando principalmente criar interações entre a teoria e a prática.
Agora passados quase 7 anos do assassinato de Cícero, neste 7 de novembro finalmente acontecerá, em Campos dos Goytacazes, o julgamento do acusado de ser o mandante do crime. Este julgamento tem um caráter especialmente importante, não apenas pela oportunidade de fazer justiça para Cícero, mas também por recolocar em cena o local onde ele foi assassinado, a famigerada Usina Cambaíba em cujos fornos teriam sido cremados diversas vítimas do regime militar de 1964.
Para marcar essa data foram organizadas uma série de atividades que são mostradas abaixo.
Vigília Justiça Para Cicero🚩
📌7/11 Local Praça São Salvador Campos dos Goytacazes.
6:00 Praça São Salvador Café Coletivo: todxs trazer uma colaboração para o Café.
7:00 as 9:00 Panfletagem Especial Brasil de Fato /
Construir 5 grupos
Rodoviária velha, Terminal, Pelourinho, São Salvador, Beira Rio, Mercado Municipal.
9:30 Reconcentração no Fórum na Tenda central.
10:00 a 11:00 Oficina de Produção de cartazes, pirulito e Faixas
Leitura Coletiva da edição especial do Jornal Brasil de Fato
11:00 Mística
11:30 Abertura das Falas. ( Movimentos, Sindicato amigos e parceiros do MST)
13:30 Almoço MST-CPT
14:00 Encerramento Simbolico as 14hr