Der Spiegel informa que Vale tem 8 barragens sob risco de rompimento em Minas Gerais

Depois de Brumadinho, TÜV Süd alerta para perigo de rompimento em outras de barragens da Vale

Após o rompimento mortal em Brumadinho, a TÜV Süd  colocou suas próprias medidas sob dúvida. Informações obtidas pela SPIEGEL indicam que mais oito barragens estão sob risco “preocupante” de rompimento.

Dammbruch in Brasilien

Rompimento de barragem em Brumadinho (MG).

Por Von Hubert Gude, Claus Hecking e Stefan Schultz para a “Der Spiegel”

Depois que a barragem explodiu em Brumadinho, no Brasil, causando provavelmente mais de 300 mortos, a TÜV Süd alertou as autoridades brasileiras e a mineradora Vale sobre novos desastres. Outras oito barragens da Vale são consideradas “preocupantes” em uma investigação preliminar, sete das quais são “particularmente preocupantes”, segundo uma carta datada de 12 de março. O Spiegel tomou conhecimento desse fato com várias fontes.

Assim como Brumadinho, as oito barragens de alto risco estão localizadas no estado de Minas Gerais: a leste e sul da capital, Belo Horizonte. Eles estão ligadas a cinco minas de minério de ferro  (Fábrica, Timbopeba, Cauê, Gongo Seco e Abóboras), todas operadas pela empresa Vale (ver mapa abaixo).

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No dia 25 de janeiro,  a barragem I da mina de ferro Vale do Corrégo do Feijão, perto da cidade de Brumadinho, rompeu. O deslizamento de terra matou pelo menos 216 pessoas; e mais 88 estão desaparecidas até hoje.

Nos meses que antecederam o acidente, os funcionários brasileiros da TÜV inspecionaram mais de 30 barragens da Vale, incluindo as de Brumadinho, que haviam certificado como estáveis. Após  o rompimento da barragem em Brumadinho, a TÜV Süd contratou especialistas externos para revisar todos os relatórios e reavaliar os dados de medição. A carta de advertência é um resultado dessas investigações.

Como dados da autoridade de mineração brasileira mostram que a Spiegel viu, sete das oito represas de alto risco identificadas têm um potencial de dano “alto”. Em quatro represas, uma população de 1000 pessoas ou mais pode ser afetada em uma emergência. Três barragens têm uma capacidade maior que a da barragem de Brumadinho.


Nota para informantes

Se você tiver mais referências a possíveis erros que possam ter levado ao rompimento da barragem em Brumadinho, entre em contato com os autores Claus Hecking e Stefan Schultz e Hubert Gude.  As suas informações e todas as informações pessoais são cobertas pela proteção de informantes e serão tratadas confidencialmente.


Três semanas e meia após o desastre de Brumadinho, a TÜV SÜD afirmou que a “incerteza havia aumentado” quanto ao fato de que o sistema de testes existente “oferecer informações confiáveis sobre a estabilidade das barragens” e se o mesmo oferece “adequadamente protege as pessoas e o ambiente dos sérios riscos impostos por barragens que estejam acima da sua capacidade estrutural”.

Seguindo uma solicitação da Spiegel para avisar a Vale e as autoridades, a organização de testes com sede em Munique disse que o grupo de especialistas questionou os métodos usados ​​nas oito cepas de alto risco. O resultado é preliminar.

O quão sério o judiciário brasileiro está levando a advertência do TÜV Süd ficou claro no processo de fechamento da represa Doutor, perto da cidade de Ouro Preto. Ali, um tribunal civil ordenou que se parasse completamente a operação da Mina Timbopeba associada a esta barragem. A barragem de Doutor contém cerca de três vezes mais resíduos do que a barragem de Brumadinho, cuja mina produz cerca de doze milhões de metros cúbicos de minério de ferro por ano em operação normal.

A Vale disse que eles seguiram a ordem do judiciário. No entanto, a barragem foi inspecionada por especialistas da autoridade nacional de minas em 14 de março. Estes não teriam encontrado “anomalia relevante” que pusesse em risco a segurança.

Em pelo menos duas outras barragens, a Minervino e a Cordão Nova Vista, um juiz ordenou que a Vale não deposito mais rejeitos até novo aviso. As duas represas estão próximas à cidade de Itabira, que possui mais de 100 mil habitantes.

Até mesmo a próprio Vale respondeu ao alerta vindo da Alemanha – e em cinco das barragens de alto risco mencionadas acima parece ter reassentado alguns moradores particularmente vulneráveis a um eventual rompimento das mesmas.


Este artigo foi originalmente publicado em alemão pela revista “Der Spiegel” [Aqui!]

Alerta em Nova Lima por causa do risco iminente de rompimento de barragem da Vale

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No dia 24 de fevereiro publiquei uma análise visual realizada pelo arquiteto Frederico Lopes sobre a situação preocupante em que se encontrava a mina de Mar Azul da mineradora Vale em Nova Lima (MG), em função de manifestações físicas semelhantes às que ocorreram na barragem do Córrego do Feijão em Brumadinho antes do seu rompimento.

Na noite desta 4a .feira (27/03), a Defesa Civil e a Coordenadoria Estadual de Defesa Civil (Cedec) de Nova Lima decidiram elevar a condição de risco de rompimento da barragem do sistema de barragens da Mar Azul para o nível 3, o que equivale à possibilidade de que o rompimento seja iminente.

Se este rompimento ocorrer, cabe lembrar a caracterização feita por Frederico Lopes Freire no sentido de que  o risco de rompimento estava associado à “erosão, falta de drenagem, entrada de águas e nenhuma distância entre a linha das águas superficiais e a parede da barragem. Tudo agravado pela evidencia provida pela drenagem em concreto, demonstrando a destinação original da barragem.

Em outras palavras, a Vale mais uma vez sabia do que estava sendo plantado em Nova Lima e nada vez para impedir a catástrofe que agora parece mais próxima do que nuncaE, não nos esqueçamos que houver o rompimento o destino desse material será a a bacia do Rio Doce. 

Abaixo notícia publicada pela Rádio Itatiaia de Belo Horizonte sobre o risco de rompimento da barragem da Vale em Nova Lima.

Barragem da Vale em Macacos tem nível elevado para risco iminente de rompimento

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A Prefeitura de Nova Lima, por meio da Defesa Civil, e Coordenadoria Estadual de Defesa Civil (Cedec) decidiram elevar para o nível 3, risco iminente de rompimento, a situação da barragem B3/B4 (Mina Mar Azul), que pertence à Vale e está localizada na região central do distrito de São Sebastião das Águas Claras, mais conhecido como Macacos, em Nova Lima, na Região Metropolitana de Belo Horizonte.

Em nota, a Vale informou que não haverá a necessidade de novas evacuações. No dia 16 de fevereiro deste ano, cerca de 200 pessoas foram retiradas de casa em Macacos após a elevação do nível de risco da barragem de 1 para 2.

Ainda de acordo com a mineradora, a elevação do risco de 2 para 3 ocorreu porque auditores independentes não emitiram as Declarações de Condição de Estabilidade da barragem. A orientação para a mudança do nível de alerta partiu da Agência Nacional de Mineração (ANM).

A sirene de autossalvamento deverá ser acionada entre esta quarta (27) e quinta-feira (28), seguindo protocolo do Plano de Ação de Emergência de Barragens de Mineração.

Outros detalhes da situação serão esclarecidos em uma entrevista coletiva com o tenente-coronel Flávio Godinho, coordenador adjunto da Defesa Civil, na noite desta quarta-feira, em Macacos.

Esta reportagem foi originalmente publicada [Aqui!]

Crise em Barão de Cocais: Vale sabe do risco de rompimento desde o início de março

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Desde os rompimentos ocorridos em Mariana e Brumadinho, não chega a ser nenhuma novidade que há um padrão de ocultação nos problemas de estabilidade que ocorrem em barragens de rejeitos por parte das direções das mineradores. Entretanto, uma matéria assinada pela jornalista Rafaela Mansur para o jornal “O Tempo” informa que a Vale  tinha conhecimento dos riscos de rompimento da barragem Sul Superior em Barão de Cocais (MG) estava com problemas desde o início deste mês.

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A confirmação deste conhecimento foi verificada pelo Ministério Público Estadual de Minas Gerais em e-mails trocados entre funcionários da Vale que tinham conhecimento de alterações na estabilidade da barragem, o que indicaria o potencial para rompimento.

Ainda que a Vale continue negando a gravidade da situação na barragem Sul Superior, o fato é que agora medidas tardias para orientar a população para rotas de fuga estão sendo tomadas, o que poderia ter sido feito antes e de forma mais organizada e racional.

Este caso reforça a necessidade de que o processo de controle da condição de estabilidade das barragens não fique sob controle das mineradoras, pois está evidente que no caso da Vale o reconhecimento de rompimento das barragens é deixado para quando a situação é praticamente irreversível, evitando assim custos com tentativas de contenção das barragens e com o estabelecimento de estruturas que diminuam a velocidade e o alcance do espalhamento dos rejeitos.

Em assim fazendo a Vale aumenta o ônus econômico e ambiental dos rompimentos de barragens sob sua responsabilidade.

 

 

Rio Doce, tem mais uma morte anunciada

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Desde o dia o8 de fevereiro, quando se anunciou que a barragem (ou barragens) do complexo de Gongo Seco está em condição de rompimento, uma sirene (não as da Vale) deveria ter soado nos governos estaduais e municipais de Minas Gerais e Espírito Santo. Mas tanto os governadores Romeu Zema (MG) e Renato Casagrande (ES) preferiram gastar tempo precioso com as articulações pró-contrarreforma da previdência proposta pelo ministro Paulo Guedes, e nenhuma medida de urgência aparentemente foi tomada para impedir mais um assassinato do Rio Doce.

É que em meio às declarações da mineradora Vale sobre não haver razões para pânico já que os moradores dos arredores imediatos foram removidos de suas residências, essa aparentemente calma serve apenas para acalmar os ânimos dos detentores de suas ações.

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A verdade é que não motivo algum para calma caso a barragem (ou barragens) de rejeito da mina Gongo Soco, pois ali estão estocados algo em torno de 10 milhões de metros cúbicos do mesmo tipo de rejeito que escapou em Mariana e Brumadinho, e equivalente ao que escapou da mina do Córrego do Feijão. E mais, como no caso de Mariana, não se trata de atingir uns poucos moradores dos arredores, mas cidades inteiras que estarão no rastro da lama que deverá escapar de Gongo Soco, sendo que a primeira cidade a ser atingida será Barão de Cocais (ver primeira imagem abaixo).

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Mas Barão de Cocais será a primeira de uma série de cidades vizinhas que receberão o grosso do impacto de uma eventual onda de lama (Tsulama, como eu já batizei) já que logo abaixo estão as cidades de Santa Bárbara e São Gonçalo do Rio Abaixo (ver imagem abaixo).

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Mas o detalhe que deveria estar incomodando tanto os governadores Romeu Zema e Renato Casagrande como dezenas de prefeitos de cidades que estão localizadas à jusante da barragem que ameaça romper em Gongo Soco é o fato de que um eventual Tsulama em Gongo Soco irá desembocar novamente no Rio Doce que ainda nem começou a se recuperar dos impactos causados pelo rompimento da barragem de Fundão em Mariana (ver imagem abaixo).

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E mais ainda, como Gongo Soco é apenas umas das muitas minas em condição de estabilidade duvidosa cujo rompimento enviaria novas ondas de lama para o Rio Doce, a verdade é que não há motivo para que se minimize o que está acontecendo neste momento em Barão de Cocais. A verdade é que estamos assistindo a mais uma morte anunciada do Rio Doce, enquanto as autoridades constituídas permitem mais uma vez que a Vale dite a narrativa dos acontecimentos e estabeleça um controle do território que dificultará qualquer acompanhamento independente dos impactos de mais essa tragédia anunciada.

O interessante é que há vários meses o arquiteto Frederico Lopes Freire, que traçou nas imagens acima o trajeto dos rejeitos que podem escapar de Gongo Soco, vem tentando alertar autoridades e representantes de empresas sobre os graves riscos que pairam sobre o Rio Doce em cujas margens ele vive. Até agora, os alertas de Lopes Freire caíram em ouvidos mocos e insensíveis.  Vamos ver como ficarão aqueles que se fingiram de surdos quando ele tentou avisar se o pior acontecer.

Rompimento é iminente na barragem de rejeitos da Vale em Barão de Cocais

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Sirene da barragem de Barão de Cocais é acionada e alerta sobe para nível mais crítico

Redação, Rádio Itatiaia

Foto: Reprodução/TV Globo

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A sirene da barragem da mina de Gongo Soco, localizada em Barão de Cocais, na Região Central do estado, tocou na noite desta sexta-feira. De acordo com a Defesa Civil de Minas, o nível de segurança da estrutura, que pertence à Vale, passou de 2 para 3, quando já há o risco iminente de rompimento.

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Barragem Sul Superior recebe rejeitos da mina de Gongo Soco da mineradora Vale em Barão de Cocais (MG).

No entanto, não será necessário fazer a evacuação do entorno da área, já que cerca de 500 moradores da região já foram retirados de casa no dia 8 de fevereiro, quando foi acionado o nível 2 da barragem. Na ocasião, foi esvaziada as áreas das comunidades de Socorro, Tabuleiro e Piteiras por determinação da Agência Nacional de Mineração (ANM), após uma consultoria avaliar que a barragem não era estável.

A Defesa Civil estadual marcou uma entrevista coletiva para as 23h desta sexta-feira, em Belo Horizonte, para dar mais detalhes da situação da barragem em Barão de Cocais.


Esta matéria foi originalmente publicada pela Rádio Itatiaia [ Aqui!]

 

O lucro antes das pessoas: documentos alegam que executivos da BHP foram advertidos sobre represa mortal em Bento Rodrigues

Por Lia Tomson para o “The Sidney Morning Herald”

Executivos seniores que trabalham para gigantes de mineração, BHP e Vale, estavam cientes de problemas significativos na represa Samarco, sua joint venture, anos antes da mesma estourar, causando um dos piores desastres ambientais do Brasil, alegam documentos judiciais. 

O colapso da barragem de rejeitos da Samarco em 2015 matou 19 pessoas e derramou cerca de 40 milhões de metros cúbicos de lodo em 600 quilômetros de rio, causando o caos econômico e ambiental e destruindo as localidades de Bento Rodrigues, Paracatu de Baixo e Gesteira. 

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Cruzes lembram os mortos do desastre da barragem da Samarco na agora deserta vila de Bento Rodrigues, no Brasil.  Por LUCAS GODOY

Documentos judiciais, incluindo atas de reuniões da diretoria e relatórios de especialistas sugerem que os executivos e membros da diretoria da Samarco, incluindo a BHP e diretores nomeados pela Vale, sabiam de problemas crescentes com a estrutura da barragem e estavam cientes de avaliações adversas de risco anos antes do colapso. 

No entanto, os diretores não realocaram áreas habitadass a jusante, incluindo Bento Rodrigues, apesar do conselho expressar repetidamente preocupações sobre a barragem e pedindo informações sobre os custos de realocação.

Os documentos fazem parte de um processo criminal contra 21 funcionários e diretores da Samarco, que os promotores federais brasileiros acusam de homicídio culposo e crimes ambientais. Indivíduos acusados  incluem os ex-indicados da BHP ao conselho da Samarco, Jimmy Wilson, Margaret Beck, Jeff Zweig e Marcus Randolph. 

O Sr. Wilson e o Sr. Randolph já atuaram no comitê de gerenciamento de grupo da BHP, mas não trabalham mais na empresa. 

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O desastre de 2015 matou 19 pessoas e espalhou cerca de 40 milhões de metros cúbicos de lodo pelas comunidades brasileiras.

Wilson está agora na cooperativa de produtores de grãos CBH, enquanto Randolph passou a presidir a Boart Longyear, com sede nos EUA. Beck, 33 anos, veterana da BHP, deixou a empresa no mês passado. 

Vários executivos da Samarco, a empresa, a BHP Billiton Brasil e a Vale também foram cobrados. Espera-se que as acusações sejam fortemente contestadas com a BHP publicamente prometendo se defender firmemente no caso. 

As atas de reuniões realizadas em Perth, Londres, Melbourne, Dubai e no Brasil, e obtidas pela The Age e pelo Sydney Morning Herald, sugerem que a diretoria da Samarco estava ciente dos problemas logo após o início da operação da barragem no final de 2008. 

Minutas de uma reunião de julho de 2009 com a presença do Sr. Randolph e outro representante da BHP, John Slaven, observa  que o conselho estava “preocupado com a eficácia da solução proposta” para consertar as infiltrações na represa. 

O conselho nomeou uma equipe da Vale para supervisionar a investigação da Samarco e relatar suas descobertas. 

Esse relatório foi apresentado em Melbourne mais tarde naquele ano.  O conselho, incluindo os representantes da BHP, Sr Randolph, Slaven e Ian Ashby, foi informado de que os vazamentos foram causados  por uma falha de construção, a remediação tinha começado e havia planos para reiniciar as operações. O conselho aprovou o relatório, mas os problemas persistiram. 

Slaven disse que deixou o conselho em 2010 e se recusou a comentar assuntos sujeitos a processos judiciais, assim como Randolph. Ashby e outros diretores não responderam aos pedidos de comentários. Nem o Sr. Slaven nem o Sr. Ashby foram acusados. 

Preocupação constante 

Em 2011, um painel independente do Conselho de Revisão do Rejeito recomendou à diretoria que a Samarco melhorasse a barragem e comunicasse um plano de emergência às localidades próximas. 

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Apenas restaram ruínas do agora inundada e verde Bento Rodrigues. Por LUCAS GODOY

A diretoria então solicitou que a Samarco “avaliasse o custo e as implicações da realocação de comunidades a jusante” e investigasse soluções alternativas para armazenar resíduos de mineração, dados seus planos de expandir a produção da mina e, assim, aumentar o volume de resíduos.  

É crucial que a Samarco “mantenha o foco nos riscos catastróficos identificados, tomando as medidas necessárias para evitá-los”. 

Outro apelo para que a Samarco converse com as comunidades locais sobre planos de emergência e instale uma sirene de alerta voltou em 2013. Um relatório técnico encomendado pelas autoridades estaduais como parte do processo de renovação da licença operacional da empresa tornou um plano de emergência condicional para aprovação “dado a presença de [nas proximidades] Bento Rodrigues “. 

Mas uma sirene não foi instalada e os moradores locais dizem que os exercícios nunca ocorreram, embora a licença tenha sido concedida. 

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“Segurança, saia da área quando a sirene soar”. Um sistema de sirene e sinais de rota de evacuação foram instalados apenas em Bento Rodrigues, Brasil, após o desastre da barragem de 2015.  Por LUCAS GODOY

O conselho, que se reuniu em Dubai naquele ano, foi registrado como enfatizando que “os rejeitos ainda eram um ponto de grande preocupação, especialmente considerando as necessidades futuras de armazenamento”. Eles solicitaram um plano de contingência na reunião seguinte.  

As atas e reuniões subseqüentes não registram tal discussão.  Dois anos depois e quatro meses antes da falência da barragem, dois inspetores externos e um funcionário da Samarco novamente observaram vazamentos adicionais.

O equipamento de monitoramento mostrou que a classificação de risco da barragem estava em 1,3, excedendo uma classificação de referência de 1,5, que era o mínimo para evitar falhas. Mesmo assim, os consultores do VOGBR emitiram um relatório declarando a barragem estável. Os promotores apontam para isso como uma “declaração falsa e enganosa de estabilidade”.

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Uma mulher coberta de lama, ajoelha-se ao lado da palavra “assassinos”, durante um protesto diante do escritório do Rio de Janeiro da mineradora brasileira Vale, no mês passado. Por AP

Na última reunião do conselho antes do colapso da barragem, realizada em Perth em 8 de agosto de 2015, a ata registra uma recomendação de um estudo para potencialmente elevar ainda mais a parede da barragem para “atrasar as exigências de uma nova barragem … até 2023”.

 Em 5 de novembro, a barragem rompeu com consequências semelhantes às piores avaliações de risco da joint-venture. 

O promotor federal brasileiro José Adácio Sampaio disse ao The Age e ao The Sydney Morning Herald no ano passado que estava confiante em garantir as condenações. 

“A acusação é que eles sabiam dos riscos. Eles sabiam que poderia explodir”, disse ele. “Eles deveriam ter tomado medidas para evitar o crime; em vez disso, aumentaram a produção ”.

Um porta-voz da BHP disse que a empresa “não tinha motivos para acreditar que o pessoal da BHP sabia que a barragem estava em risco de romper”. “Nós rejeitamos imediatamente as acusações criminais contra a empresa e seus funcionários e continuaremos em nossa defesa e apoio aos indivíduos afetados”, afirmou. 

Um comunicado da BHP disse que os sistemas de monitoramento e alarme em todos os locais foram revisados e que “todas as instalações de armazenamento de rejeitos significantes possuem planos de resposta a emergências”. 

O principal advogado da Phi Finney McDonald, Brett Spiegel, disse que a empresa está “ansiosa para manter a BHP responsável” por meio da ação coletiva do Impiombato em Melbourne. 

A ação alega que a BHP sabia dos riscos em pelo menos setembro de 2014 “e nem informou o público, nem tomou as medidas necessárias para impedir o colapso da barragem”. 

O desastre custou à joint venture cerca de US $ 2 bilhões em compensação até o momento, além de multas e perdas de produção. Um processo civil adicional de US $ 55 bilhões, movido por promotores brasileiros, está suspenso até 2020.

No mês passado, outra barragem de rejeitos da Vale entrou em colapso matando cerca de 300 pessoas, também sem que alarmes fossem acionados.

O último desastre colocou a Vale e todas as suas operações em alerta. Ele também colocou novas licenças, incluindo a que a Samarco espera obter para reiniciar as operações este ano.

No fim de semana, o diretor-presidente da Vale, Fabio Schvartsman, e vários outros executivos seniores renunciaram, depois que promotores estaduais e federais recomendaram sua remoção na noite de sexta-feira.

Em seus anúncios de resultados este mês, o presidente-executivo da BHP, Andrew Mackenzie, disse que “estamos comprometidos em aprender com isso”.

“Vamos agir com muito mais cuidado e atenção para garantir que nossos funcionários e comunidades não estejam em perigo”.


Esta reportagem foi originalmente publicada em inglês pelo jornal australiano “The Sidney Morning Herald” no dia 04 de março de 2019 [Aqui!]

As lições não aprendidas e suas consequências arriscadas de Mariana e Brumadinho

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O site UOL produziu uma vídeo bastante ilustrativo sobre a realidade em que se encontra o sistema de monitoramento das barragens de rejeitos distribuídas pelo território nacional, e as lições não aprendidas com as Tsulamas  da Samarco (Vale +BHP) e da Vale em Mariana e Brumadinho (ver abaixo).

 

Mas o que fica ainda mais evidente neste vídeo é que os riscos trazidos pela forma de construção e manutenção de diques construídos a montante são compensados por taxas de lucro ainda maiores para as mineradoras.

Outra coisa que fica evidente nesse vídeo é que a proposta de autolicenciamento se somará à condição de fato que impera atualmente que é da autofiscalização. O problema é que a ocorrência das Tsulamas de Mariana e Brumadinho torna evidente que um dos principais gatilhos para estes dois incidentes foi o despreparo causado pelo controle estrito que as mineradoras possuem hoje do processo de fiscalização.