Enquanto governo e mineradoras dançam tango da impunidade, o espectro da destruição sobrevoa MG

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Abordei ontem aqui neste blog, o ensaio do tango da impunidade que o governo Dilma e as mineradoras estão ensaiando para que o TsuLama da Samarco não receba a pesada punição financeira que o incidente demanda ( Aqui!).

Pois bem, as imagens abaixo vindas do site UOL e dos jornais Estado de São Paulo e  O Tempo dão conta de que as ” negociações” estão caminhando em favor de desobrigar a Samarco (leia-se Vale e BHP Billiton) de começaram a pagar pelos casos imensuráveis que o TsuLama está causando na bacia do Rio Doce e na região costeira do Espírito Santo.

Dessas imagens a minha favorita é a manchete da edição desta 4a .feira do jornal O Tempo que diz “União alivia Samarco de pagar R$ 20 bilhões”.  É que essa manchete expressa tão bem o conteúdo das “negociações” em curso que nem é preciso ler sequer a matéria que a mesma anuncia.

Mas quem clicar na imagem da matéria do mesmo jornal O TEMPO publicada ontem verá a frase lapidar do ministro da Advocacia Geral da União, Luis Inácio Adams, explicando o raciocínio em se aliviar a Samarco (leia-se Vale e BHP Billiton) de arcarem com suas responsabilidades. É que segundo Adams, a multa poderia matar o paciente (no caso a Samarco). O problema aqui é que o paciente que deveria ser salvo é outro, o Rio Doce. Mas na ânsia de livrar a cara das mineradoras, sequer a mísera multa de R$ 250 milhões imposta pelo IBAMA logo após a eclosão do TsuLama em 05.11.2015 foi recolhida. 

Mas enquanto o Estado brasileiro e as mineradoras dançam o tango da impunidade, duas matérias publicadas também no dia de hoje pelo site UOL e pelo jornal Estado de Minas mostram que o espectro da destruição causado pela combinação de negligência das mineradoras e leniência do Estado (seja ele representado na forma de governo federal ou estadual) continua fazendo com que o espectro da destruição continue bailando sobre os céus de Minas Gerais.

E o que vemos é que não apenas há um enorme risco potencial de que a montanha de rejeitos ainda presa em Bento Rodrigues escape, aumentando dramaticamente a dimensão do TsuLama, mas que já existe pelo menos um caso de outra barragem de rejeitos que se rompeu nos últimos dias em Minas Gerais. E essa bem próxima da cidade de Belo Horizonte.

Essa situação toda exigirá respostas bem mais duras para impedir que as dezenas barragens em condição considerada crítica explodam em diferentes partes do território mineiro. O problema é que a reação dificilmente partirá do Estado e das mineradoras.  Simples assim!

Mais lama a caminho do rio Doce

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O grande volume de chuvas na região de Mariana levará mais lama para o rio Doce nos próximos dias. A denúncia foi feita pelo biólogo Dante Pavan. Em sua página no Facebook, ele postou fotos mostrando que a lama retirada do leito do rio Gualaxo, pela Samarco, após a tragédia que devastou Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo, está novamente sendo engolida pelas águas por negligência da própria empresa.

FONTE: http://mundovastomundo.com.br/18919-2/

TsuLama da Samarco: Governo Dilma e mineradoras ensaiam o tango da impunidade

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Desde que o TsuLama da Mineradora Samarco (Vale + BHP Billiton) eclodiu em Mariana (MG) e devastou o Rio Doce e partes do litoral capixaba, o governo federal e dos estados de Minas Gerais e Espírito Santo vem ensaiando um belo tango da impunidade.

As características desse tango entre governantes e importantes financiadores de suas campanhas eleitorais ficou evidente por um lado com a demora de Dilma Rousseff de ir visitar as áreas destruídas pelo TsuLama da Samarco e, por outro, pela celeridade de Fernando Pimentel de realizar uma coletiva de imprensa na sede da Samarco para declarar basicamente que a empresa também era vítima do evento que sua negligência tornou possível.

Depois tivemos manifestações pífias da ministra do Meio Ambiente Izabela Teixeira e da sua ajudante de ordens e presidente do IBAMA, Marilene Ramos. Somado tudo o que essas duas autoridades disseram, a impressão que ficou é que a coisa no Rio Doce e no litoral capixaba não era tão feia quanto as redes sociais pintavam.

Ainda tivemos a manifestação de um pesquisador contratado pelo Ministério do Meio Ambiente que foi na imprensa nacional e internacional anunciar que a ressurreição do Rio Doce ocorreria num prazo de até 5 meses (Aqui!)

Toda esses fatos colocados juntos apontam para a submissão do Estado brasileiro em relação às duas mineradoras, Vale e BHP Billiton, que são as efetivas proprietárias da Mineradora Samarco.

Mas agora, em meio a pesadas chuvas e mais material do TsuLama chegando no Rio Doce, vemos uma etapa mais objetiva desse tango da impunidade que combina dois passos: 1)  a ação da Vale para impedir que sua empresa seja obrigada a pagar as multas determinadas pela justiça e 2) a entrada em campo do governo Dilma para chegar a um acordo “por fora” da justiça que certamente jogará qualquer desembolso de recursos por parte da Vale e da BHP Billiton para um cenário fictício.

Há que se ressaltar que este tango não é algo de ocasião, pois é dançado toda vez em que um grande incidente ambiental acontece no Brasil. A diferença é que agora Estado e corporações tentam esse tango para escapar dos tribunais que ameaçam, provavelmente por causa da dimensão do problema, ter uma ação mais diligente e rápida.

Além disso, é preciso considerar a possibilidade de que  esta volúpia em chegar a um valor para este tal fundo de reparação se deva à possibilidade que as dimensões ambientais e sociais tornem a quantia de R$20 bilhões uma pechincha.

Fortes chuvas na bacia do Rio Doce aumentam risco de ampliação da catástrofe iniciada pelo TsuLama da Samarco

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Ao contrário de que alguns “especialistas” anunciaram o início do período das chuvas não está causando uma diminuição dos riscos associados à erupção do TsuLama da Mineradora Samarco (Vale + BHP Billiton) no distrito de Bento Rodrigues em Mariana (MG). É que depender do imponderável para corrigir o drama iniciado pela negligência das mineradoras é como atrair a primeira lei de Murphy (aquela que diz que não há nada tão ruim que não possa piorar).

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Como mostra o mapa sinótico acima, a intensidade aguda das chuva ao longo da bacia hidrográfica do Rio Doce está potencializando uma combinação desastrosa entre o afogamento da sua calha pelos rejeitos da Samarco com a quantidade elevada que está vindo dos diferentes tributários. A combinação desses dois componentes está causando uma série de alertas pela Defesa Civil de Minas Gerais por causa da possibilidade de inundação de várias cidades.

Para não deixar dúvidas dos efeitos dessa combinação de fatores negativos, posto abaixo duas páginas do Boletim Extraordinário que foi emitido hoje pelo Sistema de Alerta Hidrológico da Bacia do Rio Doce que é mantido pela Companhia de Pesquisas de Recursos Minerais (CPRM).

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As informações postadas pela CPRM confirmam a sinergia negativa entre o aumento da pluviosidade e a consequente elevação das cotas de diversos rios, bem como um esperado aumento no nível de turbidez ao longo da calha principal do Rio Doce até a sua foz em Regência no Espírito Santo. Ainda que nem toda a elevação da turbidez no Rio Doce esteja sendo causada pela chegada de mais material associado ao TsuLama da Mineradora Samarco, o fato que não pode se desprezar é que o aumento da pluviosidade está sim contribuindo para que mais lama que escapou da barragem do Fundão consiga se mover para fora dos locais onde o material se assentou inicialmente.

E mais do que nunca, a pergunta que não quer calar: como será que anda a estabilidade das estruturas que restaram em Bento Rodrigues? É que a pior combinação possível ainda não se realizou e que seria a destruição das barragens que ainda estão precariamente segurando os rejeitos da Samarco e da Vale desde a explosão da barragem do Fundão no dia 05/11/2015.

 

Mistério resolvido em Mariana: desde 2013 Samarco sabia que barragem podia desabar

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Desde o dia 5 de Novembro uma debate que eu considero estéril ocorreu sobre se teria havido ou não um acidente na barragem do Fundão operada pelo Mineradora Samarco (Vale + BHP Billiton) em Mariana (MG). Desde os primeiros dias após o início do TsuLama me alinhou com aqueles que viram a negligência e a ganância corporativa como a real causa do incidente que destruiu vidas e colocou o Rio Doce numa condição de coma profunda. 

Eis que hoje a Rede Globo colocou no programa “Fantástico” uma matéria mostrando que apurações do Ministério Público de Minas Gerais possui documentos que mostram que a Samarco sabia do risco de desabamento da barragem do Fundão desde 2013 (Aqui!).

Essa veiculação no Fantástico já foi ecoada pelo jornal Valor Econômico que dá maiores detalhes sobre a investigação realizada pelo MPMG (Aqui!)

A matéria do Valor Econômico informa que um documento da Polícia Federal obtido pelo “Fantástico” mostrou que em Setembro de 2014, a Samarco (Vale + BHP Billiton)  foi alertada sobre a presença de trincas na estrutura da barragem do Fundão, as quais caracterizavam um início de movimento de escorregamento do maciço da pilha[de rejeitos.

Em palavras curtas, os dirigentes da Samarco sabian que a barragem poderia romper, e não adotou as medidas técnicas necessárias para impedir a explosão da barragem, o que acabou acontecendo no fatídico dia 5 de Novembro de 2015, quase um ano depois do alerta. 

Agora que essa etapa da disputa retórica sobre as causas do incidente de Mariana está superada, vamos ver como fica esse caso.  Mas o mínimo que se espera é que as multas bilionárias sejam de fato cobradas das mineradoras, e que a população de Mariana e de todas as cidades atingidas pelo TsuLama não sejam deixadas à mercê do destino, como, aliás, está acontecendo até agora.

Entrevista no Programa Faixa Livre sobre as crises de Mariana e da Uenf

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No dia 13 de Janeiro de 2016 tive a oportunidade de conceder mais uma entrevista ao economista Paulo Passarinho no Programa Faixa Livre que é levada ao ar pela Associação de Engenheiros da Petrobras (Aepet) 

 Nessa entrevista conversamos sobre as tragédias causadas pelo TsuLama da Mineradora Samarco (Vale + BHP Billiton) e pela política de sucateamento do (des) governo Pezão contra as universidades estaduais do Rio de Janeiro.

Abaixo segue a entrevista em sua íntegra.

Engenheiro que projetou barragem diz que Samarco sabia dos riscos

A imagem abaixo reproduz parcialmente uma reportagem de autoria do jornalista Estêvão Bertoni que foi publicada neste sábado (16/01) pelo jornal Folha de São Paulo e traz informações que tornam irrefutável a negligência da Mineradora Samarco (Vale +BHP Billiton) no rompimento da barragem do Fundão em Mariana (MG).

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A matéria é interessante porque traz informações técnicas prestadas pelo engenheiro Joaquim Pimenta de Ávila, projetista da barragem e também responsável pela sua manutenção até 2012, e que teriam sido prestadas à Mineradora Samarco que. por sua vez, decidiu ignorar as informações que davam conta do risco objetivo do rompimento que acabou ocorrendo em 05.11.2015. 

Para mim o maior mérito desta matéria é acabar de vez com a falsa polêmica de se o que ocorreu em Bento Rodrigues foi acidente ou não.  É que diante do que está exposto, o evento do TsuLama foi um incidente que ocorreu, principalmente, pela postura negligente da Mineradora Samarco e das duas corporações que a controlam, a Vale e a BHP Billliton.

Para quem quiser ler a matéria completa, basta clicar Aqui!

 

Justiça Global lança relatório de inspeção sobre desastre socioambiental em Mariana

Bento Rodrigues, destruída no crime cometido pela Samarco / Foto: Daniela Fichino

A Justiça Global lança nesta quinta-feira (14) o relatório “Vale de Lama – Relatório de inspeção em Mariana após o rompimento da barragem de rejeitos do Fundão” sobre as violações de direitos humanos decorrentes do maior desastre da história da mineração no país: o rompimento da barragem operada pela Samarco (Vale/BHP). O relatório aborda situações de grave violação ao direito à vida, à água, à moradia, ao trabalho, à saúde e ao meio ambiente, para as quais empresas e Estado têm falhado em fornecer respostas rápidas e efetivas. São também relatadas situações de hostilidade e criminalização de defensores e defensoras de direitos humanos e movimentos sociais.

O relatório aborda as características da operação da Samarco na região, que vinha em processo de expansão de suas atividades nos últimos anos. Trata ainda das deficiências de procedimentos de prevenção e segurança da empresa, sobretudo em seu Plano de Ações Emergenciais (PAE), que excluía a realização de simulações com as comunidades em caso de emergência e não contemplava a participação efetiva da população de comunidades situadas próximas das barragens. As deficiências dos procedimentos de alerta também foram ressaltadas pelos moradores das localidades entrevistados pela Justiça Global nas visitas em campo.

Foram igualmente constatados inúmeros impactos psicossociais entre os atingidos pelo rompimento da barragem de rejeitos. Aos sintomas de mal estar físico, como vômitos e diarreia, soma-se o trauma decorrente da violência vivenciada com a chegada da torrente destruidora de rejeitos. Diversas pessoas perderam também a sua fonte de trabalho e renda, seja porque suas criações e plantações foram completamente arrasadas, seja porque dependiam dos rios da região para abastecer o rebanho e os cultivos.

Do ponto de vista legal, o relatório aborda as estratégias de desresponsabilização adotadas empresas acionistas.Vale e BHP Billiton, duas das três maiores mineradoras do mundo, ocultam-se sob o manto de outra personalidade jurídica (a Samarco Mineração) para não assumir suas obrigações no campo dos direitos humanos. Enquanto a BHP Biliton aposta na estratégia de “desresponsabilização operacional”, comportando-se apenas como um investidor da Samarco, as declarações dos diretores da Vale vão além e ignoram as suas operações de descarga de rejeitos na barragem rompida, realizadas enquanto empresa autônoma. A estratégia das empresas é tratar este desastre sem precedentes no âmbito da responsabilidade social corporativa, aderindo a ações voluntárias que resguardem sua imagem e valor de mercado.

Para a advogada Raphaela Lopes, da Justiça Global, o desastre ressaltou a necessidade de ampliar o debate sobre responsabilização de empresas e do Estado em desastres como o de Mariana. “Situações como essa expõem a fragilidade das garantias fundamentais da população quando passam por situações calamitosas. A análise desse caso no relatório busca exatamente contribuir com esse debate, para que os mecanismos de precaução e de resposta sejam mais eficientes, evitando ao máximo violações de direitos como vimos no caso da Samarco, que é controlada pela Vale e pela BHP”. Veja o relatório aqui (ISSUU) ou aqui (Google Drive)

FONTE: http://global.org.br/programas/justica-global-lanca-relatorio-de-inspecao-sobre-desastre-socioambiental-em-mariana/

Antes tarde do que nunca: PF indicia Samarco e Vale pelo incidente de Mariana

Quase chegando aos terceiro aniversário do TsuLama causado pela Mineradora Samarco (Vale + BHP Billiton) no distrito de Bento Rodrigues em Mariana (MG), a Polícia Federal finalmente indiciou a Samarco e sua dona, a Vale, bem como a empresa de consultoria VogBR que concedeu laudo atestando a estabilidade da barragem de Fundão.

Um dos indiciados pelos crimes ambientais cometidos pelas mineradores é o diretor presidente da Samarco, Ricardo Vescovi, que agora terá de responder na justiça pelo maior incidente ambiental da história da mineração no mundo.

É como eu sempre digo, pode não parecer, mas já é muito. Agora, vamos esperar que a coisa não fique só no indiciamento, e que as punições ocorram pelos responsáveis por esse que é, sem sombras de dúvidas, um crime ambiental de graves consequências sociais e ambientais.

PF indicia Vale, Samarco, executivos e técnicos por tragédia em Mariana

Entre os indiciados está o diretor-presidente Ricardo Vescovi. Outros seis profissionais foram responsabilizados pelo rompimento.

 Do G1 MG
Diretor-presidente da Samarco, Ricardo Vescovi, na saída de depoimento na Delegacia de Meio Ambiente, em BH (Foto: Pedro Ângelo/G1)
Diretor-presidente da Samarco, Ricardo Vescovi, está entre os indiciados pela Polícia Federa

A Polícia Federal informou na tarde desta quarta-feira (13) que indiciou a Samarco, a Vale(dona da Samarco), a empresa VogBR – consultoria que emitiu o laudo que atestou a estabilidade da barragem de Fundão – e sete executivos e técnicos por crimes ambientais provocados pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana

Segundo a corporação, entre os indiciados está o diretor-presidente da Samarco, Ricardo Vescovi. Também foram indiciados o coordenador de monitoramento das barragens, a gerente de geotecnia, o gerente geral de projetos e responsável técnico pela barragem de Fundão, o gerente geral de operações, o diretor de operações, e o engenheiro responsável pela declaração de estabilidade da barragem em 2015 da empresa que atestou a estabilidade das barragens

De acordo com a Polícia Federal, eles foram indiciados por causar poluição em níveis que “resultem ou possam resultar em danos à saúde humana, ou que provoquem a mortandade de animais ou a destruição significativa da flora”, como previsto no artigo 54 da Lei de Crimes Ambientais

A barragem de Fundão se rompeu no dia 5 de novembro de 2015, destruindo o distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, e afetando Águas Claras, Ponte do Gama, Paracatu e Pedras, além das cidades de Barra Longa e Rio Doce. Os rejeitos também atingiram mais de 40 cidades na Região Leste de Minas Gerais e no Espírito Santo. O desastre ambiental, considerado o maior e sem precedentes no Brasil, deixou 17 pessoas mortas e duas desaparecidas

A polícia especificou cargos, mas, não mencionou os nomes dos indiciados em nota enviada a imprensa. A corporação também não especificou a que crimes as empresas e os profissionais foram responsabilizados

Em nota, a Samarco afirmou que não concorda com o indiciamento dos profissionais “porque até o presente momento não há uma conclusão pericial técnica das causas do acidente”.

A Vale disse que não vai comentar o indiciamento da empresa.

A VogBR a empresa informou que não foi comunicada oficialmente e que, por enquanto, não iria se pronunciar.

A Polícia Federal investiga crimes ambientais relacionados ao rompimento da barragem de Fundão, como a devastação do Rio Doce, que é um bem da união. A corporação informou que outros indiciamentos podem ocorrer durante a investigação. 

A investigação sobre as mortes está sob responsabilidade da Polícia Civil de Minas Gerais.

FONTE: http://g1.globo.com/minas-gerais/desastre-ambiental-em-mariana/noticia/2016/01/pf-indicia-vale-samarco-executivos-e-tecnicos-por-tragedia-em-mariana.html

Mariana: a história de um desastre anunciado

O que o pior desastre ambiental da história do Brasil nos fala sobre o custo real da privatização.

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A devastação em Minas Gerais, Brasil. Foto: Bruno Alencastro

Por Ian Steinman

(Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site Jacobin Aqui! e a tradução para o português é de minha responsabilidade ).

Em 5 de novembro, uma represa usada como um depósito de rejeitos de propriedade da Mineradora Samarco rompeu, causando uma inundação de lama tóxica e de água que matou doze pessoas, feriu muitas mais, e destruiu completamente a o distrito de Bento Rodriguez no Brasil. Os resíduos do derramamento passaram a envenenar o Rio Doce, um grande rio que liga o interior de Minas Gerais do Brasil à costa leste do Espírito Santo.

60 milhões de metros cúbicos de águas residuais têm sufocado a vida no interior e no entorno do rio Doce. Mais de um quarto de milhão de pessoas ficaram sem água potável. Comunidades inteiras, vilas e cidades espalhadas ao longo do Rio Doce e nas áreas vizinhas encontram seus meios de subsistência e de futuros ameaçados.

As causas exatas da quebra de segurança ainda estão sob investigação, pontos de informação, entretanto, lançados recentemente no sentido de um projeto de construção que era para ligar a barragem com outra represa nas proximidades, quintuplicando o tamanho da instalação.  A Samarco tem mantido que as águas não teriam sido contaminadas com material tóxico, e que os rejeitos não representam qualquer ameaça para as pessoas ou o ambiente. O governo tem apoiado em grande parte essas alegações.

No entanto um teste recente mostrou níveis de arsênico e mercúrio mais de dez vezes acima do limite legal.  O escritório do Alto Comissariado para Direitos Humanos da ONU também criticou os relatórios da Samarco e declarou que as respostas apresentadas pelo Governo Federal e pela empresa como sendo inadequadas.

Enquanto a verdadeira escala do desastre ainda é desconhecida, os efeitos devastadores serão sentidos para os próximos anos. A responsabilidade por esta catástrofe não reside apenas com a Samarco, mas também as tendências econômicas destrutivas das últimas décadas, a privatização da coproprietária da Samarco, a mineradora Vale, e a conivência generalizada entre as classes dominantes e as corporações da mineração.

Uma tendência global no sentido do desastre

O desastre vem em meio a uma grande crise econômica no Brasil, que afetou profundamente a indústria de mineração. A queda global no valor dos recursos de materiais como o ferro tem contribuído para a desaceleração econômica do Brasil.

As empresas de mineração têm respondido à crise demitindo trabalhadores e concentrando-se em medidas de corte de custos. 2.097 trabalhadores na indústria de mineração do estado de Minas Gerais foram demitidos no primeiro semestre de 2015. No Espírito Santo, um dos estados através do qual o Rio Doce passa no caminho para a costa, a empresa-mãe da Samarco, a Vale demitiu mais de quatro mil trabalhadores.

Enquanto a Samarco alega que as lagoas de rejeitos passaram pela inspeção do governo em julho e foram considerados seguras, o método que a empresa está usando para depositar resíduos em águas locais represadas é uma solução barata e arriscada. No Chile, onde os terremotos são uma ameaça constante, muitas empresas de mineração dependem de técnicas de armazenamento seco que custam dez vezes mais.

A construção de áreas de armazenamento à base de água a partir do zero em terra virgem também seria mais segura, mas custaria o dobro. Isso não é nada comparado com a morte, deslocamento e devastação afetando o ambiente e as comunidades ao longo do rio Doce. No entanto, para uma empresa capitalista, especialmente sob pressões recessivas, o método mais barato possível sempre prevalecerá.

Este tipo de desastre não é exclusivo para o Brasil e o mundo em desenvolvimento. É na verdade parte de uma tendência global na indústria de exploração mineira para falhas técnicas de armazenamento de resíduos à base de água cada vez mais numerosas e catastróficas. Um relatório da Lindsay Bowker e David Chambers mostra uma tendência crescente para falhas mais “sérias” e “muito graves” começando na década de 1960 e aumentando até o presente.

Quando as empresas se recusam a optar por estruturas de alto custo, técnicas de armazenamento mais seguras, e reparos eles se voltam para soluções improvisadas, que muitas vezes expandem o armazenamento e despejam muito além dos limites inicialmente previstos e concebidos.  Ao analisar a segmentação dos mercados financeiros da indústria e as tendências de investimento, o relatório conclui que há “uma relação clara e irrefutável entre as mega tendências que espremem fluxos de caixa para todos os mineiros em todos os locais, e esta tendência indiscutivelmente clara para as falhas de cada vez maior consequência ambiental.”.

A crise causada pelas falhas no despejo de resíduos parece muito com a crise geral do investimento capitalista na produção. Não é lucrativo investir em grandes reparações, técnicas de armazenagem seguras, ou novas minas tecnicamente mais avançadas.

Diante da crise de sobreprodução desencadeada pela queda global nos preços do minério, as empresas procuram extrair o máximo possível de instalações de mineração existentes. No entanto, empurrando a extração até o ponto de ruptura tem consequências desastrosas para comunidades inteiras, regiões e ecossistemas.

Os custos de limpeza e prejuízos econômicos e ambientais em longo prazo nunca são apoiados integralmente pela empresa – muitas vezes ela própria uma filial usada por grandes corporações para evadir a responsabilidade – mas em vez disso são repassados para os governos locais e nacionais.

No Brasil, essa tendência é exacerbada como os custos da adoção de medidas de segurança ou mesmo operando legalmente, muitas vezes superam  as multas simbólicas impostas a empresas que violam a lei. As multas aplicadas à Samarco são de longe algumas das maiores aplicadas no Brasil, mas ainda estão muito aquém do esmagador custo econômico ambiental, e humano deste desastre provocado pelo homem.

A Vale foi uma vez uma empresa de mineração nacional e vista como fundamental para o desenvolvimento da economia brasileira e da independência nacional. Mas a empresa estatal foi privatizada em 1997 sob a administração neoliberal de Fernando Henrique Cardoso em uma venda amplamente considerada como tendo desvalorizado substancialmente a empresa.

O seu preço de venda de 3.14 bilhões de dólares omitiu o valor de suas patentes, direitos minerais, reservas, e estoque em outras empresas. Embora incluídas na infraestrutura, muitas minas foram excluídas na avaliação do preço da Vale. No dia em que a venda foi finalizada milhares de manifestantes entraram em confronto com a polícia na frente da sede da empresa no Rio de Janeiro com protestos semelhantes em todo o Brasil.

Hoje, a empresa tem um valor estimado de mais de 53 bilhões de dólares e se estabeleceu- como uma multinacional global com uma reputação a ser superada. Por trás da ilusão de solidariedade Sul-Sul, as operações internacionais da empresa são tão ruins quanto e muitas vezes ainda piores do que as práticas das multinacionais europeias e americanas.

A Samarco, a empresa formalmente responsável pelo desastre, é por si só é uma joint venture de propriedade da Vale e da multinacional anglo-australiana BHP Billiton.

A cumplicidade do PT

Enquanto a Vale pode ter sido privatizada sob a liderança neoliberal de Cardoso e o direitista PSDB, os novos proprietários da empresa rapidamente encontraram parceiros dispostos no Partido dos Trabalhadores do ex-presidente Lula da Silva e da atual presidente Dilma Rousseff. Esforços legais para desafiar a privatização sobre irregularidades na venda da Vale não receberam nenhum apoio do PT que, em vez disso, abraçou a empresa, a indústria de mineração, e os bancos que controlam e financiam grande parte da indústria da mineração.

Apenas em 2014, a Vale investiu R$ 8.25 milhões nas campanhas eleitorais do PT e R $ 23.55 milhões para o PMDB – um aliado PT que controla o Ministério de Minas e Energia, bem como o Departamento Nacional de Produção Mineral.  A campanha de reeleição de Dilma Rousseff contou com R$ 14 milhões em doações da Vale – superando de longe os R$ 2,7 milhões que foram para o candidato da oposição de direita, Aécio Neves-, bem como outros R$ 14 milhões a partir de outras mineradoras.

Uma das maiores acionistas da Vale é o Banco Bradesco. Joaquim Levy, principal ministro econômica de Dilma e arquiteto de programas de austeridade recentemente implementados, trabalhou anteriormente como diretor do Bradesco. O Bradesco registrou um lucro recorde de R$ 4.47 bilhões, no segundo trimestre de 2015, um crescimento de 18% em relação ao ano anterior. O setor bancário como um todo tem visto um crescimento sem precedentes e as taxas de lucro sob a administração do PT, e os bancos têm sido um parceiro disposto do governo.

Em Minas Gerais, o epicentro do desastre, do PT Fernando Pimentel está servindo como governador. Longe de usar a crise como uma oportunidade para impor regulamentações mais rígidas, ele e os deputados PT, em vez disso correu para aprovar um projeto de lei que já foi defendido pelo PSDB de Aécio Neves, que acelera o licenciamento ambiental para as empresas de mineração. O que emerge em nível estadual e nacional é uma teia de cumplicidade e apoio em que o PT tem sido muitas vezes partido de escolha da Vale para garantir e defender seus interesses econômicos.

Além disso, sob a pressão da crise econômica e profundamente afetado pelos escândalos de corrupção, há agora uma grande proposta para privatizar grandes seções da Petrobras, a companhia petrolífera estatal brasileira. A Petrobras tem avançado com um plano para vender US $ 15 bilhões em ativos até o final de 2015, com mais vendas para vir em 2016 e além. O custo estimado do escândalo de corrupção Lava Jato tem sido até agora de US$ 6 bilhões e, juntamente com a queda nos preços do petróleo, deixou a empresa altamente endividada e enfrentando uma grave crise.

Os trabalhadores da Petrobras têm tentado resistir a esta tendência de privatização. OS trabalhadores da Petrobras encerraram recentemente uma das maiores greves na história recente em que os trabalhadores em muitos locais ocuparam plataformas e locais de trabalho, bem como desafiaram as tentativas do burocracia sindical para acabar logo com a greve. A oposição ao plano de privatização foi uma grande demanda da greve e uma fonte de desilusão generalizada com o governo do PT.

No entanto, o principal sindicato responsável por representar os trabalhadores da Petrobras está profundamente ligado à gestão da PT e Petrobras. O descontentamento expresso na greve foi substancial, mas ainda muito aquém do tipo de movimento operário de massa que seria necessário para bloquear a proposta venda ativos.

A ameaça de privatização em curso e tanto futuro não só representa uma questão importante para os trabalhadores da Petrobras, mas potencialmente representa uma ameaça ambiental substancial. Se setores privatizados da indústria de petróleo e gás seguirem o mesmo caminho da Vale, a consequência provável será ainda a ocorrência de mais desastres ambientais.

Lutando de volta

O desastre de Mariana mostra o dano irreparável que as empresas capitalistas causam sobre o meio ambiente, e que as tendências de crescimento em toda a indústria de mineração são para a adoção de técnicas cada vez mais arriscadas e prejudiciais. Modelos empresariais em indústrias de risco ambiental, como a mineração, tendem a socializar os riscos terríveis de extração enquanto privatizam os benefícios financeiros.

No entanto, ao defender a propriedade estatal é importante, mas está longe de ser suficiente. A crise da Petrobras e sua crescente tendência para a privatização em si foi impulsionado pela pilhagem dos seus ativos pelo partido governante, o PT, e seus aliados. A capacidade dos partidos do governo e aliados para roubar Petrobras em conluio com empresas privadas e gestão da empresa é uma fraqueza de seu caráter estatal e controlado pelo Estado.

A oposição de direita até agora tem sido capaz de usar os escândalos de corrupção para empurrar para posterior privatização. Rousseff e o PT tem-se avançado a privatização parcial da Petrobras pela venda de ativos como uma solução para os enormes custos da corrupção e do aprofundamento da crise econômica.

No rescaldo do desastre há uma oportunidade política para dar um golpe contra todo o projeto de privatização. A única alternativa que os partidos do governo têm para oferecer o Brasil é mais privatização em ritmo mais lento ou mais rápido, com mais desastres ambientais com uma certeza para o futuro.

Contra a corrupção estatal e corporativa, a esquerda deve retomar o velho slogan de nacionalização sob o controle operário – não apenas como uma demanda de trabalho, mas também uma necessidade ambiental. Com uma crise na Petrobras e crescente ódio popular contra a Vale, a gestão dos trabalhadores representa a única alternativa real a um futuro dominado pelos lucros privados e a socialização da devastação.