Belo Monte: renovação de licença sem mudanças na sua governança é assinar catástrofe, alertam especialistas

BM Bori

O desvio de água do rio Xingu pela usina de Belo Monte (PA) deixou a região de Volta Grande com menos de 30% de sua vazão natural anual

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Optar pela renovação da licença da hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, vencida em 2021, sem mudanças expressivas na governança e operação das barragens seria o semelhante a assinar pela continuidade de uma catástrofe ambiental e humana na região. O alerta, publicado em artigo de perspectiva na revista científica “Perspectives in Ecology and Conservation” na sexta (24), é de pesquisadores de dez instituições, entre elas, o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), a Universidade Federal do Pará (UFPA), a Universidade de São Paulo (USP), o Instituto Socioambiental (ISA) e o Ministério Público Federal (MPF) de Altamira, no Pará.

Além de sugerir mudanças na governança de Belo Monte, os especialistas defendem que hidrelétricas com 10 MW ou mais de capacidade instalada não devem mais ser construídas na região amazônica.

O trabalho contextualiza os impactos da usina hidrelétrica de Belo Monte, que fica próxima ao município de Altamira (PA), com dados da literatura científica e de ações do MPF. Desde a inauguração da última das 18 turbinas, em 2019, a hidrelétrica desvia água do rio Xingu através de um canal que deixou um trecho de 130 quilômetros de uma região do rio, conhecida como Volta Grande, com menos de 30% de sua vazão natural anual. Isso, segundo a análise, evita a inundação em determinada época do ano de 86% da área total originalmente coberta por igapós, um tipo de vegetação sazonalmente inundada.

Dentre as consequências desse desvio, relatadas pelos especialistas, está o declínio da reprodução dos peixes e quelônios da região, diminuindo rendimentos pesqueiros, perda de vegetação adaptada às cheias e aumento do risco de extinção de espécies endêmicas, além de mudanças nos padrões de sedimentação do rio que afetam a qualidade da água. Estima-se, também, que esse processo causou impactos sociais, com o deslocamento de cerca de 40 mil pessoas para assentamentos urbanos na periferia da cidade de Altamira, segundo dados do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB).

O biólogo Philip Fearnside, pesquisador titular do INPA e coautor do texto, comenta que outro problema urgente é a ameaça à segurança alimentar de três grupos indígenas e diversas populações ribeirinhas que habitam a Volta Grande. “Essas comunidades dependem dos peixes e quelônios para sua alimentação, além de serem grupos evoluídos culturalmente para viver com o ritmo do rio. A água é o recurso-rei desses povos e isso está sendo perdido”, enfatiza.

Segundo explicam os especialistas, o desvio de Volta Grande é mantido para priorizar a plena capacidade de geração da casa de força principal de Belo Monte e faz parte do plano de engenharia original, elaborado pela Norte Energia, empresa que administra o complexo. A legalidade do processo de licenciamento da hidrelétrica, no entanto, é contestada em 22 ações movidas pelo Ministério Público Federal. Em uma delas, de setembro de 2022, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que a construção de Belo Monte violou a lei brasileira ao não realizar consultas com os povos indígenas e tradicionais da Volta Grande para a instalação das barragens.

A preocupação é se o governo atual seguirá com a renovação da licença de Belo Monte, e se alguma mudança na operação da barragem será exigida. “As administrações dos últimos anos têm passado por cima, forçando a continuidade da hidrelétrica, e sem que muitas das condicionantes que a empresa prometeu fazer tenham sido cumpridas. E sem nenhuma penalidade”, diz Fearnside.

Para mitigar os impactos de Belo Monte, segundos os especialistas, seria preciso mudanças na operação que garantam que uma quantidade adequada de água volte a fluir pela Volta Grande, de forma que seu trajeto se aproxime do ciclo e duração natural das cheias do rio. Além disso, uma mudança na governança da hidrelétrica também seria necessária, de modo a envolver povos indígenas e ribeirinhos locais no monitoramento das operações e no processo de licenciamento da hidrelétrica. “É evidente que a barragem não será destruída, mas se quisermos preservar os ecossistemas e povos existentes na região, as comunidades locais e a sociedade civil devem ter maior participação”, finaliza Fearnside.


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Fonte: Agência Bori

“Volta Grande”, filme que narra a luta dos ribeirinhos expulsos por Belo Monte, no Pará, tem estreia global no Videocamp

A partir de 24/11, plataforma disponibiliza o curta-metragem que aborda um processo inédito na história da construção de hidrelétricas na Amazônia: a garantia do direito de retorno dos ribeirinhos para a beira do rio

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Cinco anos após o recebimento da licença para a operação da hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, o reassentamento das famílias que foram removidas da beira do Rio Xingu ainda não foi realizado. Com o intuito de propor reflexão sobre o tema e ressaltar a luta dos ribeirinhos para que tenham os seus direitos respeitados, principalmente, na reconstituição de seu modo de vida, a plataforma Videocamp estreia, globalmente, o curta-metragem “ Volta Grande “, que pode ser assistido como, onde e quando o usuário da plataforma desejar, a partir do dia 24 de novembro.

Com produção do Conselho Ribeirinho e Rede Xingu+, e direção de Fábio Nascimento, o filme conta a história da violenta remoção de 300 famílias ribeirinhas para a construção da hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, até sua organização e a conquista do direito ao retorno para as margens do rio Xingu. O curta também narra o processo inédito na história da construção de hidrelétricas na Amazônia: o retorno dos ribeirinhos para a beira do rio, na área do reservatório principal da usina. E para que o assunto não fique só nas telas, no dia 26 de novembro, às 18h, haverá um debate online sobre o filme no canal do Youtube do Instituto Socioambiental.

“Estamos muito felizes com o lançamento global do filme ‘Volta Grande’ em nossa plataforma, sobretudo porque ele aborda uma questão tão urgente que é o reassentamento dos ribeirinhos e a garantia da recomposição do modo de vida deles, por meio de seus direitos territoriais. Para gente é uma alegria e um compromisso apoiar produções nesse momento desafiador, em que o não estar juntos fisicamente não deve ser um impedimento para que a gente acesse a potência de histórias como essa e promova debates urgentes”, ressalta Josi Campos, coordenadora do Videocamp.

“A trajetória do Conselho Ribeirinho é um exemplo para as demais populações impactadas por grandes obras de infraestrutura que enfrentam violações aos direitos e o apagamento de suas identidades e modos de viver. É importante que essa história seja conhecida e vista pelo maior número de pessoas”, diz Ana De Francesco, antropóloga que faz parte do grupo de apoio ao Conselho Ribeirinho.

Sobre o Videocamp

O Videocamp é uma plataforma online que reúne filmes com potencial de impacto que podem ser exibidos por qualquer pessoa, em qualquer lugar do mundo e de forma gratuita. A missão do Videocamp é criar caminhos para democratizar o acesso à cultura e à informação, que são direitos universais. Para os realizadores, a plataforma potencializa a formação de público e atua como ferramenta de promoção dentro da estratégia de lançamento do filme.

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