Novo manual de riscos rompe com a ideia de que desastres são fatalidades da natureza

Produzido por especialistas reunidos pelo Ministério das Cidades, novo manual coloca desigualdade urbana, vulnerabilidade social e crise climática no centro da compreensão dos riscos que atingem as cidades brasileiras

Uma publicação lançada em 2026 pelo Ministério das Cidades merece muito mais atenção do que provavelmente receberá. O livro Mapeamento de Riscos: Conceitos e métodos aplicados a processos geológicos e hidrológicos, coordenado por Leonardo Andrade de Souza e Rodolfo Baêsso Moura, da Secretaria Nacional de Periferias, reúne pesquisadores do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo, do Serviço Geológico do Brasil e de diversas universidades brasileiras. A obra atualiza profundamente uma metodologia utilizada no Brasil desde 2007 e, mais do que apresentar novas técnicas de mapeamento, promove uma mudança conceitual importante ao rejeitar a ideia de que os desastres constituem simples fatalidades provocadas pela natureza.

Os autores resumem essa mudança por meio de uma formulação direta: Risco = Ameaça × Exposição × Vulnerabilidade. Uma chuva intensa, uma encosta instável ou um rio que transborda representam ameaças, mas a transformação desses fenômenos em desastre também depende de quem ocupa esses territórios e das condições sociais, econômicas, habitacionais e institucionais dessas populações. O manual ressalta que um mesmo fenômeno físico produz riscos muito diferentes em territórios com condições socioeconômicas distintas, porque desigualdade social, capacidade de resposta e investimento público interferem diretamente na produção do risco.

Essa formulação aparentemente técnica possui uma enorme consequência política, pois o manual reconhece que o risco resulta de escolhas sobre onde e como as cidades se expandem, das desigualdades sociais e das assimetrias nos investimentos públicos. Reduzir riscos, portanto, não significa apenas construir muros de contenção ou outras obras de engenharia; significa também reduzir a exposição das populações, melhorar as habitações, criar sistemas de alerta e fortalecer a organização comunitária.

Quando o mapa de risco virou instrumento de expulsão

Talvez o aspecto politicamente mais importante da nova publicação apareça na autocrítica feita à metodologia anterior. No prefácio, Celso Santos Carvalho, responsável pelo programa de gestão de riscos e prevenção de desastres do Ministério das Cidades entre 2003 e 2014, explica que a experiência acumulada desde a publicação do manual de 2007 revelou problemas importantes. Mapeamentos elaborados originalmente para subsidiar o planejamento chegaram a orientar intervenções físicas que exigiriam estudos muito mais detalhados, inclusive análises casa a casa; em algumas situações, setores classificados como de risco alto ou muito alto também acabaram associados diretamente à remoção de todos os moradores.

Essa distorção contrariou o objetivo original da política pública, porque uma metodologia criada para melhorar as condições de vida das populações mais pobres acabou servindo, em alguns casos, para justificar a expulsão de moradores das periferias. O problema se torna ainda mais grave em um país no qual a estrutura fundiária e o mercado imobiliário empurraram historicamente a população pobre para encostas, várzeas, margens de rios e outros espaços pouco valorizados pela urbanização formal.

O novo manual associa explicitamente essa vulnerabilidade ao processo histórico de urbanização excludente brasileiro e menciona a Lei de Terras de 1850 e aquilo que Ermínia Maricato chamou de “nó da terra” para explicar a formação de cidades profundamente desiguais. Nessa perspectiva, a ocupação de áreas frágeis não decorre simplesmente de escolhas equivocadas dos moradores; decorre de um processo histórico que restringiu o acesso à terra urbanizada, à infraestrutura e à moradia adequada para parcelas expressivas da população.

A crise climática muda a escala do problema

A crise climática amplia ainda mais a importância dessa mudança de abordagem. Os formuladores do manual registram que diversos processos físicos vêm aumentando em frequência e magnitude e citam, entre outros exemplos, grandes inundações no Rio Grande do Sul, na Amazônia e no Nordeste, enxurradas, erosão marítima, deslizamentos e corridas de massa no Sudeste.

A atualização, por isso, vai muito além de uma modernização cartográfica. O manual incorpora imagens de alta resolução, drones, informações georreferenciadas e modelagens computacionais ao mesmo tempo que reconhece que as condições ambientais nas quais as cidades brasileiras se expandiram estão mudando. A obra aborda inundações, alagamentos e enxurradas; erosões continentais, costeiras e fluviomarinhas; rastejos, deslizamentos, quedas e rolamentos de blocos; corridas de detritos; subsidências e colapsos. Esse conjunto procura oferecer diagnósticos detalhados capazes de orientar políticas de prevenção, mitigação e adaptação.

Essa mudança ganha ainda mais relevância quando observamos a escala territorial do problema. O Serviço Geológico do Brasil já havia mapeado quase 2 mil municípios até 2026, o que mostra que o país acumulou uma base significativa de conhecimento sobre áreas sujeitas a diferentes tipos de risco. A reportagem da Agência Brasil acrescenta que quase 9 milhões de brasileiros vivem em municípios suscetíveis a deslizamentos, inundações, enxurradas e alagamentos, número que revela o tamanho do desafio colocado diante das políticas urbanas e climáticas brasileiras.

Moradores passam a participar da construção do diagnóstico

Outro avanço importante surge no reconhecimento do conhecimento produzido pelos próprios moradores. A nova metodologia procura combinar conhecimento técnico-científico com conhecimento local, popular e tradicional, evitando que o diagnóstico dependa exclusivamente de especialistas que chegam às comunidades, realizam medições e deixam o território sem incorporar a experiência acumulada por quem vive ali.

Os Planos Municipais de Redução de Riscos passaram a incentivar processos participativos nos diagnósticos e na governança das ações, enquanto os Planos Comunitários de Redução de Riscos e Adaptação Climática procuram ampliar o protagonismo de moradores de favelas e comunidades urbanas na identificação dos riscos, nos procedimentos de emergência e na definição de medidas de adaptação.

Essa participação possui enorme valor prático, porque moradores antigos frequentemente sabem onde a água chegava décadas atrás, onde uma encosta começou a apresentar rachaduras, onde uma nascente desapareceu ou onde uma rua passou a inundar depois de determinada obra. O novo manual não apresenta essa memória territorial como substituta do conhecimento científico; ele a incorpora como complemento indispensável ao trabalho de campo e ao planejamento territorial.

Saber onde está o risco aumenta a responsabilidade dos governos

A legislação brasileira já determina que os municípios conheçam os perigos presentes em seus territórios por meio de cartas de suscetibilidade, cartas de aptidão à urbanização e cartas de setorização de risco. O manual também reconhece, porém, que muitos municípios enfrentam limitações econômicas, técnicas e administrativas, razão pela qual a prevenção depende de articulação entre governos municipais, estaduais e federal.

Essa constatação impede que a política de prevenção se limite à produção de mapas. Os governos precisam transformar o diagnóstico em obras de drenagem, contenção de encostas, melhoria das habitações, sistemas de alerta, planejamento urbano, Soluções Baseadas na Natureza e outras medidas capazes de reduzir exposição e vulnerabilidade. O manual defende, nesse sentido, uma engenharia preventiva integrada às geociências e orientada pela preservação da vida.

Quanto mais detalhado se torna o conhecimento sobre os territórios ameaçados, menor fica o espaço para que governantes aleguem surpresa depois de uma tragédia. Uma chuva excepcional pode constituir um fenômeno natural; uma enchente pode decorrer de processos hidrológicos e um deslizamento pode resultar de processos geomorfológicos conhecidos, mas mortes ocorridas em locais onde o risco já havia sido identificado não podem continuar aparecendo apenas como consequência da “força da natureza”.

O trabalho coordenado por Leonardo Andrade de Souza e Rodolfo Baêsso Moura possui justamente esse mérito político e científico ao transformar o mapa de risco em uma ferramenta capaz de mostrar quem está ameaçado, por que essa população se encontra ameaçada e quais ações o Estado pode adotar antes que um evento extremo produza uma tragédia. Em um Brasil marcado simultaneamente pela urbanização desigual e pela intensificação da crise climática, essa mudança de perspectiva assume importância decisiva, pois, depois que o risco foi identificado, mapeado e comunicado, a ausência de prevenção já não pode ser facilmente atribuída ao desconhecimento; quando uma tragédia anunciada finalmente acontece, a falta de preparação passa a revelar uma falha concreta de prevenção.

Manguezais do Sudeste brasileiro são mais vulneráveis às mudanças climáticas

MANGUEZAL

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Áreas de mangue no Sudeste e Sul estão mais vulneráveis às consequências das mudanças climáticas em comparação a manguezais de outras regiões do Brasil. É o que indica estudo publicado nesta quarta (29) em capítulo de livro da editora científica “Springer Nature” por pesquisadores do Instituto Tecnológico Vale (ITV), da Universidade Federal do Pará (UFPA), da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e da Universidade de São Paulo (USP). Segundo o trabalho, as características geomorfológicas dos ecossistemas de mangue do Brasil influenciam na sua capacidade de adaptação ao aumento do nível do mar.

“A ideia do trabalho era entender como os mangues se comportam frente a essa tendência e quais serão as diferentes reações em cada setor da costa brasileira, que são bem distintos um dos outros”, comenta Pedro Walfir Souza Filho, geólogo, professor da UFPA e do ITV e autor principal do trabalho. Para tal, a pesquisa usou características geológicas, geomorfológicas, oceanográficas e climáticas e identificou quatro grandes setores costeiros em quais vegetação de mangue ocorrem no Brasil: Norte, Nordeste, Leste e Sudeste. O trabalho constatou que o nível de vulnerabilidade à subida do mar é maior nos ecossistemas do setor Sudeste.

“O principal fator que controla essa vulnerabilidade é a morfologia costeira”, explica Souza Filho. Na região Norte, cujas áreas de costa são formadas por extensas planícies, os manguezais podem se expandir e colonizar novos habitats rio acima, em direção ao continente a partir do aumento do nível do mar e, consequentemente, da salinidade do solo. Já no Sudeste, cujo litoral tem proximidade com regiões de até mil metros de altitude, com destaque para as Serras do Mar e da Mantiqueira, há menos perspectiva para expansão do ecossistema. O pesquisador menciona rodovias, estradas e barragens construídas por ação humana como outros fatores capazes de ameaçar a sobrevivência dos mangues à medida que o nível do mar sobe.

Além da geomorfologia costeira, Souza Filho também destaca a variação da maré como outro fator que influencia na capacidade de adaptação dos mangues. “A maré na região Norte chega a variar até seis metros, o que gera extensas planícies alagáveis propícias para o desenvolvimento de mangues, cujas franjas litorâneas chegam a ter 30 quilômetros de largura”, relata o pesquisador. Em comparação, as marés na região Sudeste variam alguns centímetros apenas, o que também limita a capacidade de ocupação de habitat, e qualquer variação no nível do mar coloca em risco a sobrevivência futura dos manguezais.

Segundo o pesquisador, já é possível notar como os manguezais estão respondendo às mudanças climáticas e como isso está afetando as pessoas que dependem do ecossistema para o sustento. Por exemplo, consequências do aumento do nível do mar ou de ações humanas, como assoreamento de rios, salinização de estuários ou soterramento de manguezais afetam a disponibilidade de várias espécies que servem de sustento às comunidades próximas. “Do mangue, os locais tiram o caranguejo e a ostra, por exemplo”, diz Souza Filho.

A pesquisa, no entanto, alerta que a variabilidade biogeográfica dos manguezais e condições ambientais ao longo da costa brasileira fazem com que prever com exatidão o efeito da elevação do nível do mar nos mangues ainda seja um desafio. “Se depender apenas do nível do mar, estamos falando de alterações progressivas, que não são um alarme para a próxima década, mas sim de uma escala de tempo histórica de dezenas de anos à geológica de centenas a milhares de anos para frente”, afirma o autor.  Por isso, o trabalho indica que mais pesquisas são necessárias para distinguir fatores multidimensionais que podem afetar os manguezais.


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Este texto foi originalmente publicado pela Agência Bori [Aqui!].

THE LANCET: Impacto socioeconômico da COVID-19 é maior e será mais duradouro em populações vulneráveis

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Uma pesquisa publicada hoje pela The Lancet – uma das revistas científicas, voltadas para a área médica, mais prestigiadas no mundo -,  reuniu especialistas para explicar como a queda econômica terá efeito por anos e será pior em países pobres. Sem um consenso para ações preventivas, famílias e comunidades serão afetadas de forma desproporcional. A longo prazo, as desigualdades na saúde, no bem-estar físico e socioeconômico serão ampliadas por todo o mundo. 

Essas populações vulneráveis são, geralmente, invisíveis para os governos, o que resulta em um acesso insuficiente a serviços públicos e programas de igualdade econômica. Além disso, dados oficiais de indicadores de saúde, ligados ou não à COVID-19, não são disponibilizados publicamente em diversos países. Por isso, a verdadeira dimensão da gravidade é subestimada. Há uma urgência por mais dados desagregados e padronizados que informem com precisão as ações e políticas públicas. 

Um dos autores da pesquisa é o Superintendente Geral da Fundação Amazônia Sustentável (FAS), professor Virgilio Viana, PhD por Harvard, membro da Pontifícia Academia das Ciências Sociais do Vaticano e professor associado da Fundação Dom Cabral. Ele mencionou os desafios que comunidades indígenas e ribeirinhas enfrentam na parte brasileira da floresta amazônica por conta da COVID-19:

“Esse artigo realça de uma maneira muito clara a importância que a ciência dá para a necessidade de ter um tratamento diferenciado para as populações mais vulneráveis. Em relação à Amazônia, o atendimento às questões de saúde em áreas indígenas e populações tradicionais da Amazônia profunda merece uma atenção especial, como podemos ver com a chegada do vírus nas comunidades. Portanto, essa produção científica aponta para a necessidade de pensarmos o SUS na floresta de maneira a aumentar a sua eficiência e a sua eficácia, a partir da experiência com o nosso trabalho na FAS, que ajudou muitas comunidades e deu suporte durante o período mais difícil da pandemia, principalmente no Amazonas.”

Para entender o efeito da COVID-19, especificamente em pessoas vivendo em condições de vulnerabilidade, há uma necessidade específica de uma coleta de dados atualizada. O número de hospitalizações, mortes e outros indicadores de bem-estar social e de saúde precisam ser divididos por gênero, idade, raça, etnia, deficiências e outras variáveis.  

Nísia Trindade Lima, presidente da Fundação Oswaldo Cruz, explica que estes dados podem ajudar a criar políticas públicas: 

“A pandemia nos obriga a resgatar uma perspectiva sobre como a proteção social e a cobertura universal para assistência de saúde foram negligenciadas na última década. Os efeitos populacionais de fenômenos ambientais e sociais são sentidos mundialmente, principalmente por pessoas em situação de vulnerabilidade. Não é mais possível encarar a desigualdade como se não fosse um problema de todos.”

Quem são os afetados?

Quando falamos em populações vivendo em situação de vulnerabilidade, estão incluídos indivíduos que enfrentam exclusão sistemática e discriminação por causa de fatores como idade, deficiência, raça, etnia, gênero, classe econômica, religião, credo ou crença, identidade de gênero, orientação sexual e situação migratória, além daqueles que estão em conflitos e apátridas. Pessoas que estão encarceradas, com condições crônicas de saúde (ex.: deficiências mentais), vivendo em moradias inadequadas e expostas à degradação ambiental, poluição do ar e em risco durante a mudança climática também são afetadas.

Ao final do artigo, os autores destacam cinco recomendações para melhor auxiliar na proteção de populações vulneráveis, a fim de reduzir desigualdades na área da saúde. A primeira delas refere-se à importância de executar uma cobertura universal de saúde e implementar sistemas de proteção social nos países; a segunda diz respeito ao compromisso de governos e parlamentos para financiar e salvaguardar os serviços sociais e de saúde; como terceira recomendação, há a necessidade da equidade digital para todos; na quarta indicação, a ênfase está na economia do cuidado; e, finalmente, a quinta recomendação evidencia a revitalização das relações entre governos e atores da sociedade civil, de modo a garantir que comunidades, populações vulneráveis e todas as identidades de gênero detenham papel central na tomada de decisões.

O estudo concluiu que o mundo chegou a um momento crucial, exigindo mais do que nunca uma resposta colaborativa para ampliar o acesso universal à saúde e proteção social. É preciso construir estratégias e políticas públicas que levam em conta sistemas de saúde e de assistência social mais resilientes, incluindo aqueles que vivem uma crise humanitária, para mitigar efeitos da pandemia, solucionar a desigualdade e melhorar a resiliência de comunidades vulneráveis.