THE LANCET: Impacto socioeconômico da COVID-19 é maior e será mais duradouro em populações vulneráveis

covid 19 amazonia

Uma pesquisa publicada hoje pela The Lancet – uma das revistas científicas, voltadas para a área médica, mais prestigiadas no mundo -,  reuniu especialistas para explicar como a queda econômica terá efeito por anos e será pior em países pobres. Sem um consenso para ações preventivas, famílias e comunidades serão afetadas de forma desproporcional. A longo prazo, as desigualdades na saúde, no bem-estar físico e socioeconômico serão ampliadas por todo o mundo. 

Essas populações vulneráveis são, geralmente, invisíveis para os governos, o que resulta em um acesso insuficiente a serviços públicos e programas de igualdade econômica. Além disso, dados oficiais de indicadores de saúde, ligados ou não à COVID-19, não são disponibilizados publicamente em diversos países. Por isso, a verdadeira dimensão da gravidade é subestimada. Há uma urgência por mais dados desagregados e padronizados que informem com precisão as ações e políticas públicas. 

Um dos autores da pesquisa é o Superintendente Geral da Fundação Amazônia Sustentável (FAS), professor Virgilio Viana, PhD por Harvard, membro da Pontifícia Academia das Ciências Sociais do Vaticano e professor associado da Fundação Dom Cabral. Ele mencionou os desafios que comunidades indígenas e ribeirinhas enfrentam na parte brasileira da floresta amazônica por conta da COVID-19:

“Esse artigo realça de uma maneira muito clara a importância que a ciência dá para a necessidade de ter um tratamento diferenciado para as populações mais vulneráveis. Em relação à Amazônia, o atendimento às questões de saúde em áreas indígenas e populações tradicionais da Amazônia profunda merece uma atenção especial, como podemos ver com a chegada do vírus nas comunidades. Portanto, essa produção científica aponta para a necessidade de pensarmos o SUS na floresta de maneira a aumentar a sua eficiência e a sua eficácia, a partir da experiência com o nosso trabalho na FAS, que ajudou muitas comunidades e deu suporte durante o período mais difícil da pandemia, principalmente no Amazonas.”

Para entender o efeito da COVID-19, especificamente em pessoas vivendo em condições de vulnerabilidade, há uma necessidade específica de uma coleta de dados atualizada. O número de hospitalizações, mortes e outros indicadores de bem-estar social e de saúde precisam ser divididos por gênero, idade, raça, etnia, deficiências e outras variáveis.  

Nísia Trindade Lima, presidente da Fundação Oswaldo Cruz, explica que estes dados podem ajudar a criar políticas públicas: 

“A pandemia nos obriga a resgatar uma perspectiva sobre como a proteção social e a cobertura universal para assistência de saúde foram negligenciadas na última década. Os efeitos populacionais de fenômenos ambientais e sociais são sentidos mundialmente, principalmente por pessoas em situação de vulnerabilidade. Não é mais possível encarar a desigualdade como se não fosse um problema de todos.”

Quem são os afetados?

Quando falamos em populações vivendo em situação de vulnerabilidade, estão incluídos indivíduos que enfrentam exclusão sistemática e discriminação por causa de fatores como idade, deficiência, raça, etnia, gênero, classe econômica, religião, credo ou crença, identidade de gênero, orientação sexual e situação migratória, além daqueles que estão em conflitos e apátridas. Pessoas que estão encarceradas, com condições crônicas de saúde (ex.: deficiências mentais), vivendo em moradias inadequadas e expostas à degradação ambiental, poluição do ar e em risco durante a mudança climática também são afetadas.

Ao final do artigo, os autores destacam cinco recomendações para melhor auxiliar na proteção de populações vulneráveis, a fim de reduzir desigualdades na área da saúde. A primeira delas refere-se à importância de executar uma cobertura universal de saúde e implementar sistemas de proteção social nos países; a segunda diz respeito ao compromisso de governos e parlamentos para financiar e salvaguardar os serviços sociais e de saúde; como terceira recomendação, há a necessidade da equidade digital para todos; na quarta indicação, a ênfase está na economia do cuidado; e, finalmente, a quinta recomendação evidencia a revitalização das relações entre governos e atores da sociedade civil, de modo a garantir que comunidades, populações vulneráveis e todas as identidades de gênero detenham papel central na tomada de decisões.

O estudo concluiu que o mundo chegou a um momento crucial, exigindo mais do que nunca uma resposta colaborativa para ampliar o acesso universal à saúde e proteção social. É preciso construir estratégias e políticas públicas que levam em conta sistemas de saúde e de assistência social mais resilientes, incluindo aqueles que vivem uma crise humanitária, para mitigar efeitos da pandemia, solucionar a desigualdade e melhorar a resiliência de comunidades vulneráveis.