Em artigo bilíngue no Washington Post, Paulo Coelho detona celebrações do Golpe Militar de 1964 determinadas por Jair Bolsonaro

Paulo Coelho

O escritor Paulo Coelho, um dos brasileiros mais conhecidos no mundo, escreveu artigo para denunciar as celebrações do Golpe Militar de 1964 determinadas pelo presidente Jair Bolsonaro.

De tempos em tempos vejo estampadas na cara das pessoas ou no que é escrito uma certa incredulidade acerca da capacidade dos segmentos majoritários da população brasileira para se fazerem ouvidos acerca do que se considera uma perversão organizada da democracia brasileira.  Essa postura é obviamente fruto de uma ação maciça para desorganizar e desencorajar qualquer tipo de resistência ao desmanche que se propõe de várias instâncias do estado brasileiro que funcionam como anteparos internos para as tentações autoritárias.

Essa incredulidade, misturada com o sentimento de revolta, tomou conta de muita gente com o anúncio de que o presidente Jair Bolsonaro determinou que o golpe militar de 1964 seja novamente celebrado dentro dos quartéis como um dia não de derrota violenta da democracia, mas como uma suposta vitória contra as forças de esquerda.

De minha parte achei que o presidente Bolsonaro está prestando um grande serviço à democracia brasileira ao levantar do túmulo o espectro autoritário que jaz insepulto, muita em parte por causa da inépcia dos governos que se seguiram ao ciclo autoritário de dispensar o tratamento devido a quem prendeu e torturou, ignorando inclusive o que aconteceu em países como Argentina, Uruguai e Chile, onde o tratamento foi compatível com que a democracia impõe a quem a viola.

A minha certeza de que essas celebrações são um tiro pela culatra foi reforçada com a publicação de um artigo publicado em português e inglês pelo Washington Post pelo escritor Paulo Coelho onde ele narra a sua prisão ilegal e torturas sofridas nas mãos de agentes do regime militar.

O fato de um torturado, independente de quem seja, narrar aos leitores de um dos maiores jornais do mundo as suas agruras pessoais nas mãos de agentes de uma ditadura normalmente cria impacto e repulsa sobre os que defendem esse tipo de ação. Mas a coisa ganha uma proporção de desastre quando esse alguém é uma das pessoas mais conhecidas do planeta e que já vendeu algo em torno de 350 milhões de cópias em mais de 150 países e em 81 línguas,  e com uma obra em particular (O Alquimista) que se tornou o livro mais vendido de todos os tempos.

Ao narrar o seu próprio pessoal e apontar o dedo em direção a Jair Bolsonaro que sabidamente é um apoiador declarado das práticas que acompanharam a derrubada do presidente João Goulart, Paulo Coelho está conscientemente trabalhando para colocar o atual governo, e não apenas seu presidente, num limbo político que tornará difícil qualquer tipo de apoio às políticas que aqui tentam se implantar neste momento.

E aqui fica evidente umas das nuances pouco exploradas pela mídia corporativa brasileira: a interconexão propiciada pela internet e pelas redes sociais é uma faca de dois gumes que tanto pode servir aos que defendem o regresso a um tempo ditatorial como aqueles que se recusam a ver o Brasil sendo transformado num estado pária onde direitos coletivos podem ser exterminados como se exterminou e torturou os opositores do regime de 1964.

 

A execução de Marielle Franco na capa do “Washington Post” revela as piores facetas da sociedade brasileira

Se ainda havia dúvidas sobre o alcance global alcançado pela execução da vereadora Marielle Franco, elas acabaram no dia de hoje com a publicação de uma matéria de capa pelo jornal estadunidense “Washington Post” que é um dos principais veículos da mídia mundial [1].

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A diferença essencial desta matéria em relação à muitas que li anteriormente é que a mesma toca no espinhoso assunto das inequalidades raciais que existem no Brasil, de uma forma que poucos jornalistas (e muito menos seus patrões) têm coragem ou disposição de abordar. E mais importante do que abordar o problema das chances desiguais a que os negros estão submetidos na sociedade brasileira, a matéria vai além e aborda a questão da extrema violência a que as populações pobres e majoritariamente negras das favelas estão submetidas pelo aparelho de estado brasileiro.

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Outro aspecto que me pareceu singular no tratamento dado pelos jornalistas do Washington Post foi a relevância dada não apenas à militância política de Marielle Franco, mas também ao fato de que ela era uma intelectual que estava num processo de evolução e que militava no tópico em que realizava suas pesquisas. Esse aspecto da execução de Marielle Franco tem sido negligenciado na cobertura, apesar de ser muito importante. É que a execução de Marielle não privou o PSOL apenas de uma ocupante de cargo eletivo, mas também e principalmente uma intelectual que atuava numa área extremamente sensível para o tipo de militância política no qual o partido claramente ainda engatinha.

É muito interessante notar que novamente é a mídia internacional que oferece matérias mais densas e completas sobre um fato ocorrido no Brasil, indo além do emocionalismo e a espetacularização que permeou boa parte da cobertura dada pelos veículos nacionais com o interesse claro de diminuir a contribuição política que Marielle Franco dava para o necessário debate em torno da violência estatal contra a maioria negra da população brasileira.

Finalmente, há que se reconhecer que com essa matéria a intervenção militar decretada pelo presidente “de facto” Michel Temer foi desnudada frente à opinião pública mundial, bem como as grossas diferenças de direitos vigentes no Brasil, e que atingem diretamente os segmentos mais pobres da nossa população.


[1] https://www.washingtonpost.com/world/the_americas/a-black-female-politician-was-gunned-down-in-rio-now-shes-a-global-symbol/2018/03/19/98483cba-291f-11e8-a227-fd2b009466bc_story.html?utm_term=.597897dc0e53