A execução de Marielle Franco na capa do “Washington Post” revela as piores facetas da sociedade brasileira

Se ainda havia dúvidas sobre o alcance global alcançado pela execução da vereadora Marielle Franco, elas acabaram no dia de hoje com a publicação de uma matéria de capa pelo jornal estadunidense “Washington Post” que é um dos principais veículos da mídia mundial [1].

wp marielle

A diferença essencial desta matéria em relação à muitas que li anteriormente é que a mesma toca no espinhoso assunto das inequalidades raciais que existem no Brasil, de uma forma que poucos jornalistas (e muito menos seus patrões) têm coragem ou disposição de abordar. E mais importante do que abordar o problema das chances desiguais a que os negros estão submetidos na sociedade brasileira, a matéria vai além e aborda a questão da extrema violência a que as populações pobres e majoritariamente negras das favelas estão submetidas pelo aparelho de estado brasileiro.

marielle

Outro aspecto que me pareceu singular no tratamento dado pelos jornalistas do Washington Post foi a relevância dada não apenas à militância política de Marielle Franco, mas também ao fato de que ela era uma intelectual que estava num processo de evolução e que militava no tópico em que realizava suas pesquisas. Esse aspecto da execução de Marielle Franco tem sido negligenciado na cobertura, apesar de ser muito importante. É que a execução de Marielle não privou o PSOL apenas de uma ocupante de cargo eletivo, mas também e principalmente uma intelectual que atuava numa área extremamente sensível para o tipo de militância política no qual o partido claramente ainda engatinha.

É muito interessante notar que novamente é a mídia internacional que oferece matérias mais densas e completas sobre um fato ocorrido no Brasil, indo além do emocionalismo e a espetacularização que permeou boa parte da cobertura dada pelos veículos nacionais com o interesse claro de diminuir a contribuição política que Marielle Franco dava para o necessário debate em torno da violência estatal contra a maioria negra da população brasileira.

Finalmente, há que se reconhecer que com essa matéria a intervenção militar decretada pelo presidente “de facto” Michel Temer foi desnudada frente à opinião pública mundial, bem como as grossas diferenças de direitos vigentes no Brasil, e que atingem diretamente os segmentos mais pobres da nossa população.


[1] https://www.washingtonpost.com/world/the_americas/a-black-female-politician-was-gunned-down-in-rio-now-shes-a-global-symbol/2018/03/19/98483cba-291f-11e8-a227-fd2b009466bc_story.html?utm_term=.597897dc0e53

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s