Plantadores de soja adotam posturas obstrutivas, escapistas, e reacionárias contra as políticas de conservação ambiental, revela estudo

Um artigo que acaba de ser publicado pela revista Forest Policy and Economics revela como grandes plantadores de soja (os sojeiros) em Tocantins, um estado onde o Cerrado se encontra sob forte pressão por causa do desmatamento para expansão das monoculturas de soja, se posicionam em relação às políticas de conservação ambiental, especialmente a do chamado Desmatamento Zero.

O estudo que utilizou um grupo focal com sojeiros buscou avaliar 3 cenários:   (1) acesso a uma tecnologia de aumento de produtividade condicionado à abstenção de abertura de novas fazendas em áreas com vegetação nativa; (2) uma política europeia menos flexível que limita as importações à soja sem conversão, independentemente do ecossistema; e (3) um fortalecimento das política ambientais brasileiras que tendem a aumentar a quantidade de terras que os agricultores devem reservar para conservação ambiental.

A pesquisa mostra que os produtores de soja são altamente céticos em relação às regulamentações ambientais e desconfiam de  atores estrangeiros. Ao mesmo tempo que lutam por uma maior autonomia para realizar suas atividades, os sojeiros rejeitam as tentativas de controlar as suas práticas habituais de (agro)negócios e rejeitaram esses esforços políticos como sendo, em última análise, conduzidos por agendas ocultas. Segundo os autores do artigo, os resultados da pesquisa mostram uma forte inclinação por parte dos plantadores de soja de recorrer à teorias da conspiração, entendidas como explicações alternativas que atribuem eventos determinados a atores poderosos.

A pesquisa mostra ainda que os plantadores de soja possuem uma mentalidade de fronteira que é marcada pela presença valores libertários que são aliados a uma  desconfiança explícita nas instituições estatais, ou nos motivos dos reguladores estrangeiros interessados em conter o processo de desmatamento.

Esse cenário todo serviria para criar uma postura obstrutiva e reacionária face aos esforços em prol do Desmatamento Zero no Brasil. Este comportamento reacionário pode se manifestar na forma de medidas preventivas, tais a relutância em adotar práticas ou tecnologias agrícolas vinculados aos requisitos de Desmatamento Zero ou ao boicote aos esforços de governança ambiental. Em sintonia com uma preferência por um status quo ante – ou, simplesmente, pelo business as usual – tais atores escolhem recorrer a compradores de commodities que, na percepção dos sojeiros, não colocarão em prática as exigências ambientais, resultando numa forma de fuga. Finalmente, tal rejeição dos controles ambientais torna-se enredada na negação da ciência e no endosso de teorias da conspiração que, por sua vez, são disseminadas por associações setoriais e grupos de WhatsApp.

Quem desejar baixar o artigo de Aragão e colaboradores, basta clicar [Aqui!].

Queima pelo WhatsApp e vende no Facebook: redes sociais como ferramentas preferenciais no saque da Amazônia por grileiros de terras

PF encontra suspeita de grilagem (roubo) de terra protegida na Amazônia que foi queimada no Dia do Fogo, em 2019. Reportagem encontrou mais de 150 ofertas suspeitas de áreas griladas no Facebook. Revelações dão sequência a investigação de Dom Phillips feita em parceria com a Repórter Brasil

grilagemÁrea queimada durante o Dia do Fogo na Reserva Biológica Nascentes Serra do Cachimbo, no Pará, que foi anunciada no Facebook (João Laet/Repórter Brasil)

Por Karine Pfenniger e Mariana Abreu (Forbidden Stories) e Daniel Camargos (Repórter Brasil)

Um dos principais suspeitos por organizar o Dia do Fogo – quando fazendeiros do Pará combinaram por WhatsApp e incendiaram a Amazônia em 2019 – estaria envolvido em ao menos quatro tentativas de grilar (roubar) áreas protegidas da floresta queimadas na ocasião. É o que aponta investigação da Polícia Federal, obtida com exclusividade pelo “Projeto Bruno e Dom” – consórcio de jornalistas formado para investigar a pilhagem da Amazônia, e integrado pela Repórter Brasil.

Um dos terrenos queimados em 2019 foi posteriormente anunciado pelo Facebook. A revelação foi feita pela Repórter Brasil em 2020, em parceria com o jornal inglês The Guardian e o jornalista Dom Phillips. Há um ano, Phillips foi assassinado em uma emboscada no Vale do Javari, no Amazonas, durante investigação sobre a exploração da floresta. Para dar sequência ao trabalho dele, mais de 50 jornalistas de 10 países e 16 veículos de comunicação se uniram em um consórcio organizado pelo Forbidden Stories.

Seguindo o rastro de Phillips, o consórcio identificou 52 anúncios suspeitos publicados semanalmente no Facebook com a oferta de terras griladas. A rede social permite a divulgação das ofertas e, assim, tornou-se ferramenta fundamental no esquema de grilagem de terras na Amazônia.

O Dia do Fogo remete à articulação de fazendeiros e empresários do Pará para queimarem ao mesmo tempo áreas de pasto e floresta, ainda no primeiro ano do governo Jair Bolsonaro (PL). Nos dias 10 e 11 de agosto de 2019, os sistemas de monitoramento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) detectaram 1.457 focos de incêndio no estado, 2.000% a mais em relação ao ano anterior.

Quase quatro anos depois e ainda sem punição aos envolvidos, o avanço das investigações leva ao presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Novo Progresso (PA), Agamenon Menezes. Apesar de investigado, ele continua atuando para transformar áreas protegidas, como a Floresta Nacional do Jamanxim e a Reserva Biológica Nascentes Serra do Cachimbo, em fazendas para engordar bois ou plantar soja.

O esquema de grilagem tenta “legalizar” as áreas ao registrá-las no Cadastro Ambiental Rural (CAR) – sistema do governo federal no qual donos de terras informam a localização de suas áreas. O simples registro não equivale ao título de propriedade, mas é suficiente para o grileiro obter um documento oficial e, assim, tentar reivindicar a posse. Por ser autodeclaratório e pela falta de controles administrativos, o cadastro facilita a grilagem.

Segundo a investigação da Polícia Federal, quatro fazendas localizadas dentro de áreas de preservação queimadas no Dia do Fogo foram registradas no CAR, por intermédio do sindicato rural de Novo Progresso, após a onda de incêndios. Quem assina os registros como responsável técnico é Wilmar Santos Melo, despachante do sindicato e genro de Agamenon. O relatório da PF foi enviado para o Ministério Público Federal, que não comenta as atividades de Melo e alega que a investigação corre em sigilo.

Desde 2015, Melo registrou no CAR 77 lotes inseridos parcial ou totalmente em unidades de conservação, onde é ilegal constituir propriedade privada, segundo cruzamento de dados realizado pelo consórcio de jornalistas. Isso significa que Melo, o sindicato e Agamenon Menezes podem estar envolvidos na tentativa de legalizar cerca de 75 mil hectares de floresta amazônica protegida nos últimos oito anos – essa área é duas vezes maior que a cidade de Belo Horizonte (MG).

“Em cada município, há talvez duas ou três pessoas que sabem tudo: quem é dono do que, quem está onde, quais são os preços. Também são essas pessoas que cadastram as propriedades no CAR e se ocupam do processo de regularização. Elas meio que controlam esse mercado”, explica a especialista em gestão fundiária do Imazon, Brenda Brito.

Funcionário do sindicato patronal de Novo Progresso fez mais de 600 registros no CAR desde 2015, sendo que ao menos 77 estão inseridos dentro de unidades de conservação na Amazônia (Guillaume Meigniez / Forbidden Stories)

Melo já foi multado por “prestar informação falsa no procedimento administrativo do CAR” de vários lotes no Pará (ele registrou mais de 600 áreas desde 2015). A multa de R$ 111,5 mil, imposta pelo Ibama em 2016, ainda não foi paga e é contestada judicialmente. A reportagem tentou entrevistar Melo por diversos meios, mas segundo seu sogro, ele não quis comentar.

Já Agamenon Menezes confirmou os registros no CAR, assim como suas ligações com Melo, de quem, além de sogro, é patrão. Ele diz que o sindicato tem parceria com o Incra para os registros no CAR e afirmou ainda ser “normal” o cadastro de áreas dentro de unidades de conservação. Sobre os quatro lotes queimados e registrados no CAR pelo sindicato, ele diz que não tem ingerência sobre as áreas e que o sindicato apenas repassa as informações recebidas dos proprietários.

Menezes é um dos investigados pelo Dia do Fogo após ter sido flagrado em um grupo de WhatsApp chamado “Sertão” combinando com outros fazendeiros e empresários a queimada da floresta. Em 2019, a PF realizou busca e apreensão em sua casa e no sindicato.

Investigado por organizar o Dia do Fogo, o presidente do sindicato dos produtores rurais de Novo Progresso, Agamenon Menezes, é suspeito de usar a entidade para tentar legalizar terras queimadas (João Laet/Repórter Brasil)

Marketplace da grilagem

(Imagem: Anaïs Caura/ Forbidden Stories)

Uma das 77 áreas de preservação registradas por Melo no CAR se deu em favor de Nair Rodrigues Petry, que ficou conhecida em 2019 por acusar fiscais ambientais como responsáveis pelos incêndios.

Petry foi candidata a vereadora pelo PSDB em Guarantã do Norte, cidade do Mato Grosso na divisa com o Pará, em 2004 e 2016. Adotou o nome político de Nair Brizola, uma homenagem ao político gaúcho fundador do PDT. Em 2019, ela concedeu entrevistas dizendo que os responsáveis pelas queimadas eram fiscais do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade). A declaração motivou o então presidente Jair Bolsonaro a determinar investigação da Polícia Federal sobre os agentes públicos, em mais um ato da agenda antiambiental do ex-presidente.

Dias depois da declaração, Petry foi multada em mais de R$ 1 milhão pela destruição da área no Dia do Fogo – são 71 hectares dentro da Reserva Biológica Nascentes Serra do Cachimbo.

Procurada pela reportagem, Nair Brizola afirmou que é proprietária da terra desde 1994, antes da criação da reserva. “Eu paguei pelo direito de estar aqui!”, ela diz. Também disse que não se lembrava de o terreno ter sido registrado no CAR, embora isso tenha sido feito por Wilmar Santos Melo em 2015.

Reprodução do anúncio feito por Nair Brizola em um grupo de Facebook para tentar vender um terreno dentro de uma área de proteção. Ao lado, cópia do auto de infração aplicado pelo ICMBio (Reprodução)

A investigação de Phillips e da Repórter Brasil em 2020 mostrou que Nair Brizola chegou a anunciar o terreno queimado no Facebook. Essa prática vem se multiplicando na maior rede social do mundo. Em um intervalo de três semanas, a investigação do Forbidden Stories identificou mais de 150 anúncios suspeitos de venda de terras griladas nos estados de Amazonas, Pará e Mato Grosso.

Um dos vendedores que oferecem terras na Amazônia a preços baixos se identifica como João. A equipe do Forbidden Stories fez contato com ele se passando como potencial cliente. Por R$ 1.200 por hectare, um preço três vezes inferior ao preço médio da terra d na região de Almeirim, no norte do Pará. João oferta fazendas que podem chegar a 8.000 hectares (ou mais de 8.000 campos de futebol).

A venda dessas terras é ilegal, por estar em área de preservação, porém está a mostra para todos. Muitas vezes, a terra colocada à venda é vasta, está parcialmente desmatada e não tem título de propriedade. Alguns anúncios oferecem terras a preços muito baixo, como R$ 450 por hectare, que equivale a 10 mil m².

João oferece também outros serviços. “Eu tenho como fazer a derrubada e queima [da mata] no meio de outubro, quando parar de chover. Queima por minha conta”, continua. “Quando chega dezembro e começa a chover novamente aqui na região, joga semente de avião, aí a fazenda está praticamente formada. O principal é derrubar”. Para limpar o terreno e semear o capim, João cobra R$ 800 por hectare.

Ele diz que já foi pedido ao Instituto de Terras do Pará (Iterpa) o título da propriedade do terreno, e envia documentos para provar que o processo está em curso e que, com um pagamento adicional de R$ 400 por hectare, a titulação fica pronta em seis meses. Sem isso, o processo pode levar até 20 anos. Procurado, o Iterpa não respondeu.

Anúncios no Facebook ofertam terrenos suspeitos de grilagem na Amazônia (Reprodução)

A equipe do Forbidden Stories conversou com oito vendedores de terra ativos no Facebook. Vários informaram que não possuíam um título de propriedade, o que é essencial para a venda de terras.

Quando a BBC revelou, em 2021, que o Facebook estava sendo usado para vender terras em Rondônia, a rede social se comprometeu a proibir a venda de terras protegidas na sua plataforma Marketplace.

Contatada pelo Forbidden Stories, a Meta informou que estava analisando os anúncios no Facebook Marketplace para “identificar aqueles que podem violar suas regras”, e reiterou que a plataforma proíbe “a venda de terras localizadas em unidades de conservação” em seus espaços comerciais. “Determinar se uma determinada área pode ser vendida envolve uma análise jurídica complexa, que compete aos tribunais locais”, acrescentou o porta-voz.

*Com pesquisa e análise de dados realizadas por Ruan Martins e Eduardo Goulart (OCCRP)


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Este texto foi originalmente publicado pela Repórter Brasil [Aqui!].

Apagão do Facebook mostra que é preciso uma grande reconfiguração

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Foto: AFP

Por  Peter Steiniger para o Neues Deutschland

Obrigado por isso: por sete horas, a economia da atenção parou em três das mídias sociais mais populares do mundo, onde a guerra da informação parou porque alguém no reino do Facebook pressionou a tecla Enter muito cedo. Isso causou muito ridículo, principalmente no Twitter, onde a empresa admitiu o mega-contratempo com uma de suas declarações sem sentido. Mas o assunto é sério, tirando o Instagram, que só a indústria da publicidade e seus embaraçosos influenciadores realmente precisam. O polvo de dados de Mark Zuckerberg controla os meios de comunicação com um alcance enorme, suas tecnologias estão interligadas e alcançam muitas esferas da economia e da sociedade.

O distúrbio mostra o lado negativo dessa concentração. A falha isolou o mundo não apenas das fotos de gatos, mas também de informações relevantes, e tornou a tecnologia temporariamente inutilizável em várias áreas. A vulnerabilidade do sistema em uma área estratégica para as sociedades é apenas uma das razões pelas quais o poder das corporações de mídia social deve ser quebrado. Eles são riscos para a segurança e a democracia. Eles têm soberania de dados sobre bilhões, seus algoritmos moldam a consciência, o ódio e a desinformação proporcionam lucros extras . Aliás, o Twitter não é mais engraçado.

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Este texto foi inicialmente escrito em alemão e publicado pelo Neues Deutschland [Aqui!].

Escândalo do “#VazaJato” mostra que Telegram também não é à prova de grampos

O escândalo do “#VazaJato” mostra que como o Whatsapp, o Telegram também pode ser presa de hackers mais experientes.

Além dos procuradores do Ministério Público Federal e do ex-juiz federal e atual ministro da Justiça (sabe-se lá por quanto tempo depois das matérias bombásticas do “The Intercept), Sérgio Moro, o trabalho de Glenn Greenwald feriu a reputação do aplicativo russo Telegram.

É que tudo o que está sendo publicado foi obtido a partir da captura de conversas realizadas no Telegram que, até hoje, era tido como mais seguro que os seus concorrentes diretos Whatsapp e Signal.

O problema é que há quem diga que também o Signal tem brechas que pessoas mais treinadas também podem acessar, baixando segredos tão cabeludos como o que estão sendo divulgados pelo “The Intercept” sobre as estripulias do pessoal da Lava Jato em colaboração direta com o ministro Sérgio Moro.

Pelo jeito, o negócio vai ser retornar aos velhos do Pombo Correio ou do papo direto em algum lugar discreto.

Serviço de utilidade pública: qual app de comunicação é o mais seguro?

WhatsApp, Telegram e Signal: qual das aplicações faz mais pela tua privacidade?

Estas 3 apps oferecem encriptação, garantindo que as tuas mensagens ficam só entre ti e a pessoa com quem falas. Pela tua segurança e pela tua liberdade.

Apps de chat há muitas, mas umas são mais seguras que outras. Os sistemas de encriptação que encontras no WhatsAppTelegram ou Signal garantem que as tuas conversas ficam entre ti e quem as recebe, não podendo ser lidas por terceiros que queiram lucrar com publicidade ultra-segmentada ou interceptadas por entidades governamentais.

SIGNAL

Se queres ter a garantia de que estás em boas mãos, o Signal é a app que deves adoptar. Disponível em código aberto (está tudo neste directório no GitHub), o Signal permite trocar mensagens de texto, clipes de áudio e fotos, bem como fazer chamadas. Tudo com encriptação end-to-end, isto é, as tuas comunicações são cifradas entre o teu dispositivo e o da outra pessoa.

Assim, as únicas coisas que passam pelos servidores do Signal são o número de telemóvel com que te registaste na app e a última vez que acedeste à app – não fica registado a hora, minuto ou segundo, apenas o dia. Mesmo com toda a encriptação, caso queiras ainda mais garantias quanto às tuas mensagens, podes activar um tempo de vida para as mesmas numa determinada conversa, entre 5 segundos e 1 semana, ao fim  do qual elas se auto-destroem. Nas definições, podes também activar uma palavra-passe que tens de inserir sempre que abres a app – isto pode evitar que alguém que apanhe o teu telemóvel aceda às tuas conversas.

Signal

O Signal é gratuito, gerido por uma organização sem fins lucrativos (a Open Whisper Systems) e financiado através de donativos. A app utiliza um protocolo de encriptação próprio, chamado Signal Protocol, que é dos melhores segundo especialistas em segurança. Este protocolo é utilizado pelo Facebook no WhatsApp e também na funcionalidade de mensagens encriptadas do Messenger.

Ah, o Signal é recomendado por Edward Snowden.

WHATSAPP

WhatsApp é a aplicação de chat encriptada mais popular, com mais de 1,5 mil milhões de utilizadores em todo o mundo. Se tentares usar o Signal, verás que provavelmente uma boa parte da tua lista de contactos não está na aplicação, o mesmo já não deverá acontecer com o WhatsApp. Detido pelo Facebook, o WhatsApp também usa encriptação end-to-end, ou seja, em momento algum o WhatsApp ou o Facebook sabem o conteúdo das mensagens que trocaste ou têm acesso às imagens que partilhaste através do serviço.

WhatsApp

No entanto, o WhatsApp pode não saber que mensagens envias e recebe, mas tem acesso a uma série de dados pessoais teus, como a tua lista de contactos, informação sobre como usas o serviços, que equipamento utilizadas e qual o sistema operativo, etc.

TELEGRAM

Com mais de 200 milhões de utilizadores, o Telegram nasceu na Rússia pelas mãos dos irmãos Durov e é por isso a mais distinta entre as três. Sem recorrer ao protocolo de encriptação usado pelas outras duas, o Telegram baseia-se num protocolo criptográfico único em que são convertidas todas as conversas. Para um nível de segurança e privacidade superior existem ainda os “Secret Chat” que se podem criar com qualquer contacto – neste tipo de conversas há encriptação end-to-end, ou seja, nada fica nos servidores do Telegram.

Telegram

Nos restantes chats pelo Telegram, as mensagens, fotos, vídeos e ficheiros são encriptados antes de serem armazenados nos servidores do Telegram. Quer isso dizer que, na prática, as conversas são encriptadas, com uma chave que em teoria só o Telegram tem, ficando protegidos de entidades governamentais, autoridades policiais ou anunciantes. O objectivo dos irmãos Durov e do Telegram não é fazer dinheiro com a venda dos teus dados, por isso, não lhes interessa recolher informação pessoal tua. Este armazenamento das conversas nos servidores do Telegram permite sincronizá-las entre todos os dispositivos que usas (telemóvel, computador…).

O Telegram utiliza um protocolo de encriptação diferente do do Signal, chamado MTProto, e, tal como o WhatsApp, recolhe a tua lista de contactos para te avisar quando algum dos teus amigos aderiu à aplicação. Contudo, ao contrário do WhatsApp, o Telegram tem capacidades melhoradas, como a possibilidade de partilhar um trecho de vídeo rapidamente ou o maravilho mundo dos stickers.

A chave de encriptação é de resto o ponto de discórdia entre a app e as instâncias legais russas que determinou o bloqueio do Telegram nesse país. Por um lado os tribunais russos exigem a partilha das chaves de encriptação, por outro, os fundadores da aplicação continuam irredutíveis na protecção dos seus utilizadores e na manutenção da sua promessa de proteção de dados.

 

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*Mário Rui André é co-fundador e director operacional do Shifter. Escreve sobretudo sobre tecnologia e web.

FONTE: https://shifter.sapo.pt/2018/04/apps-chat-encriptadas/

 

Supostamente banido pelo Whatsapp, filho de Jair Bolsonaro tem momento de sinceridade

O senador eleitor pelo PSL/RJ, Flávio Bolsonaro, acaba de dizer em sua página na rede social Twitter que seu WhatsApp foi bloqueado e que isso é uma afronta à democracia, pois ele participava de milhares de grupos.
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Daí que deste reconhecimento decorrem uma série de desdobramentos:
 
1 – Ninguém que já esteve em um grupo de família de Whatsapp  sabe que é praticamente impossível participar de milhares de grupos. Só quem participa de milhares de grupos são robôs.
 
2 – Para ficar ainda mais claro que o telefone está no nome dele mas que não é ele que usa o próprio Whatsapp, bastaria que se experimentasse telefonar para o número para ver o que aconteceria.
 
3 – Mas se o número está no nome dele, dispara mensagens como se fosse ele mas é, na verdade, operado por um robô, isso inevitavelmente geraria custos.
 
4 – Se houvesse geração de custos e consequente efeito eleitoral, há que existir um recibo eleitoral.  Será que existe tal recibo?
 
 
Um trabalho para os inspetores do TRE/RJ, sem nenhuma dúvida. Vamos esperar agora pela devida e rigorosa apuração.

Tudo que sabemos sobre o “caixa dois digital de Bolsonaro”

Campanha do presidenciável usou doações de empresas para disparar mensagens em massa contra o PT via WhatsApp. Prática é proibida pela Justiça Eleitoral.

Foto: Pexels

Nesta terça-feira, a Folha de S.Paulo publicou uma reportagem em que revela que empresários pagaram milhões de reais para disparar mensagens em massa a favor de Bolsonaro no WhatsApp. A prática seria ilegal, já que consiste em doação de empresas para campanha, algo que é proibido pela Justiça Eleitoral. Pouco depois da publicação da matéria, a hashtag #CaixaDoisdeBolsonaro se tornou a mais citada em todo mundo pelo Twitter.

De acordo com o texto assinado pela jornalista Patrícia Campos Mello, o valor de cada contrato seria de R$ 12 milhões. Um dos doadores seria Luciano Hang, o dono da Havan, o mesmo que, conforme mostramos semanas atrás, coagia seus funcionários a votarem a favor do presidenciável pelo PSL.

A estratégia, mostra a Folha, é simples: empresários compram serviços de disparo em massa fornecidos por agências de estratégia digital como Quickmobile, Yacows, Croc Services e SMS Market. Elas cobram de R$ 0,30 a R$ 0,40 por mensagem enviada para sua base de usuários — fornecidas, muitas vezes, ilegalmente por empresas telefônicas ou de cobrança. Quando a base é fornecida pelo candidato, o valor é menor: R$ 0,08 ou R$ 0,12 por disparo.

Os funcionários dessas agências conseguem burlar as limitações impostas pelo WhatsApp. Eles dispõem de dezenas números com códigos de área de variados países e conseguem escapar dos filtros de spam para mandar mensagem a mais de 20 pessoas ou grupos. Eles também são capazes de segmentar os membros do grupo como “apoiadores”, “detratores” e “neutros”, tornando assim mais fácil de atingir cada um deles com conteúdos específicos. Muitas das mensagens, sugere a reportagem, era para destruir a reputação de Fernando Haddad e do PT.

A denúncia comprova o que já se desconfiava faz tempo: a campanha de Bolsonaro não é feita apenas por voluntários; é sim organizada e financiada por grupos de empresários.

A hipótese passou a ser ventilada depois que Steve Bannon, responsável pelo sucesso da campanha ancorada em notícias falsas de Donald Trump nos EUA, se ofereceu para ajudar a campanha de Bolsonaro, no ano passado. “Bannon se colocou à disposição para ajudar. O suporte é dica de internet, de repente uma análise, interpretar dados, essas coisas”, explicou Eduardo Bolsonaro à revista Época. As similaridades entre a campanha de Bannon nos EUA e de Bolsonaro no Brasil se mostraram muitas: revanchismo, culto à personalidade, apelos emocionais e proliferação de boatos que apelam para tabus relacionados à sexualidade.

Embora não seja possível afirmar até que ponto a influência de Bannon moldou a campanha digital de Bolsonaro, podemos dizer que o candidato de extrema-direita armou sua estratégia com antecedência. Como mostramos em reportagem, ele antecipou a brecha que o WhatsApp dava para notícias falsas. No começo de 2017, o deputado apresentou dois projetos de lei, ainda não aprovados na Câmara, que destoam da sua atividade parlamentar e que dão pistas muito interessantes sobre o que seria a campanha. Um deles diz que só juízes do STF podem derrubar aplicativos e redes sociais no Brasil, começando pelo WhatsApp. O outro impede as operadoras de oferecer planos de internet com dados limitados, o que impactaria usuários de aplicativos. Nos dois casos, a justificativa é a mesma: derrubar app na justiça ou cortar acesso aos dados do usuário são ameaça à livre circulação de ideias no Brasil.

Não se sabe por ora qual será consequência da denúncia desse “caixa dois” para Jair Bolsonaro. O certo é que essa não é a primeira acusação de uso indevido de dinheiro da campanha em relação ao candidato. Ele admitiu que seu partido em 2014, o PP, recebeu propina de R$ 200 mil da JBS. Bolsonaro afirma ter recebido o dinheiro diretamente em sua conta para, em seguida, em vez de devolver a JBS, mandar para o PP.

FONTE: https://www.vice.com/pt_br/article/43empg/tudo-que-sabemos-sobre-o-caixa-dois-digital-de-bolsonaro?utm_source=vicetwbr

Whatsapp se tornou uma ferramenta sob completa suspeita

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O aplicativo Whatsapp é uma das muitas ramificações da corporação multinacional que se esconde por debaixo do Facebook.  O Whatsapp foi adquirido pela empresa de Mark Zuckerberg pela “bagatela” de US$ 16 bilhões em 2014 e se encontra no topo dos aplicativos de sua natureza, até porque sua instalação é gratuita e promete a completa confidencialidade aos seus usuários.

Recentemente o Whastapp estabeleceu o limite máximo de 20 envios por vez, alegadamente para dificultar a disseminação das chamadas “fake news“.  É que seu uso para a opção preferencial para interessados em disseminar mensagens privadas em campanhas que visam alterar a percepção das pessoas sobre o que está se passando em um determinado contexto.

Mas eis que no dia de hoje o jornal Folha de São Paulo divulgou uma matéria bombástica revelando que um conjunto de empresários estaria envolvido na contratação de empresas para distribuir material contra o candidato Fernando Haddad e a favor de Jair Bolsonaro, o que envolveria o envio de centenas de milhões de disparos no Whatsapp (ver imagens abaixo).

caixa 0caixa 1Independente das consequências eleitorais que esta reportagem da Folha de São Paulo, é essencial que todos os usuários do Whatsapp que se preocupam não apenas com sua privacidade pessoal, mas também com manipulações que alterem o funcionamento do sistema democrático, comecem a avaliar seriamente se não é chegada a hora de procurar outros aplicativos para substituí-lo.   É que como já apontou o jornalista Leandro Beguoci em uma reportagem publicada pelo site VICE, o WhatsApp virou uma realidade paralela (e perigosa) no Brasil [1].

Como já existem outros aplicativos similares (Telegram e Signal, por exemplo),  a possibilidade de mudança não chega a ser difícil.  Resta saber se as pessoas estarão dispostas a sair da égide do oligopólio montado pelo Facebook. A ver!


[1] https://www.vice.com/pt_br/article/j53983/como-o-whatsapp-virou-uma-realidade-paralela-e-perigosa-no-brasil?utm_campaign=sharebutton

 

Whatsapp está se mostrando ser um cemitério de reputações

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Não faz muito tempo usar o aplicativo Whatsapp fazia a alegria de quem queria falar coisas cujos emissores não desejariam tornar públicas, mas que fluíssem de forma instantânea aos que deveriam os únicos interessados, Essa foi, digamos, a fase heroica do Whatsapp que efetivamente revolucionou as estratégias de comunicação.

Mas lentamente o Whatsapp parece estar se transformando também em um cemitério de reputações ilibadas, ao menos em Campos dos Goytacazes. A primeira vítima da indiscrição de membros de um grupo de Whatsapp foi o juiz Glaucenir Oliveira que teve suas opiniões sobre o ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes repercutidas em cadeia nacional quase que de forma simultânea em que enviou uma mensagem de áudio com conteúdo, digamos, pouco airoso [1].

A nova vítima é o vereador Cláudio Andrade (PSDC) que teria enviado um áudio no estilo “manda quem pode, obedece quem tem juízo” aos seus colaboradores que ocupam cargos de DAS, RPA e de assessoria na Cãmara de Vereadores de Campos dos Goytacazes [2],

Ainda que o áudio não especifique claramente a qual tipo de material que a voz atribuída ao vereador Cláudio Andrade demanda que seja postado nas páginas que seus assessores eventualmente possuam em redes sociais, o certo é que temos a publicização de uma postura pouco democrática e até ameaçadora de quem por vários anos criticou as posturas anti-democráticas que teriam sido praticadas pelo governo de Rosinha Garotinho, no que representa uma tremenda contradição entre discurso e prática. Um verdadeiro batom na cueca digital!

Se foi mesmo o vereador Cláudio Andrade o autor da mensagem nada “friendly” a ocupantes de cargos gratificados, ele agora terá o problema adicional de descobrir quem divulgou uma mensagem que deveria ser de circulação restrita. E na possibilidade de quem não encontrando o autor, ele tenha apenas duas opções a seguir: parar de enviar mensagens via Whatsapp ou demitir todos os que estavam na sua lista de recipientes do conteúdo divulgado.

Agora, que mais este vazamento sirva de lição de como se deve usar o Whatsapp: com cuidado, com muito cuidado, mesmo!


[1] http://www.folha1.com.br/_conteudo/2017/12/politica/1228684-udio-atribuido-a-juiz-glaucenir-vaza-com-criticas-a-gilmar–a-mala-foi-grande.html

[2] http://www.diariodaplanicie.com.br/em-audio-vereador-claudio-andrade-obriga-das-rpas-e-assessores-a-postarem-materias-no-facebook/

O acidente de Eduardo Campos mostra a força do Whatsapp

O impacto da disseminação de aplicativos na disseminação da informação ficou ainda mais claro no episódio da morte do candidato a presidente Eduardo Campos. É que munidos de celulares capazes de transmissão acelerada de dados via internet, um número calculável de pessoas se dirigiram ao local do acidente e produziram uma quantidade incalculável de fotografias e vídeos. Eu mesmo estou sendo abastecido com esse tipo de material via o Whatsapp, que já vinha se tornando a última febre dos usuários de comunicação móvel, mas que agora ficou ainda mais na crista da onda.

Esse fenômeno certamente provocará mais mudanças na forma com que a mídia corporativa se relaciona com a população, sempre pronta a enviar todo tipo de material informativo. O problema vai ser separar o joio do trigo, o que no caso da mídia corporativa está, inclusive, na crise que esses meios vem vivendo após a disseminação da internet e da telefonia móvel.

Abaixo envio um dos materiais que me chegaram de Santos (SP), onde a pessoa que produziu o material foi praticamente dentro da edificação onde o acidente ocorreu.