A gravidade do poder ou o poder da gravidade

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Por Douglas Barreto da Mata

Assisti  à eleição da Mesa Diretora da Câmara Municipal de Campos dos Goytacazes, e a subsequente posse do prefeito e vice-prefeito reeleitos. Uma votação expressiva para a composição da Mesa nesse biênio, para a presidência, vice-presidência, secretaria e etc.

Com algumas pequenas diferenças entre um ou outro cargo, que são citados um por vez, e nominalmente eleitos, é possível afirmar que 22 dos vereadores votaram no candidato indicado pelo prefeito Wladimir Garotinho.

Não deixa de ser relevante, considerando que em 2021, apesar da eleição do aliado Fábio Ribeiro, o atual prefeito tentou antecipar a eleição do biênio 2023/2024 e perdeu para o líder da oposição Marquinho Bacelar. O resto foi história, e seguiu-se uma série de turbulências, com destaque para o impedimento da votação da LOA 2024.

Ali foi o ponto de virada do prefeito, que não só contornou o problema como recuperou a maioria parlamentar. É o poder da gravidade.

Vereadores são cargos muito relevantes, mas que nessa última legislatura, em Campos dos Goytacazes, se resumiram às questões menores, e hoje é certo que a oposição ao atual prefeito e seu grupo saíram menores do processo que entraram, mesmo como os quase 70 mil votos da candidata da oposição para o cargo de prefeita.

Não é acidental que o ex-Presidente da Câmara, biênio 2023/2024, tenha ficado bem abaixo da votação esperada, ainda mais em se tratando do irmão do Presidente da Alerj.

Sem demérito para nenhum dos que foram os mais votados, eles não eram favoritos ou figuras principais do jogo político até outubro de 2024.

Em circunstâncias como essa, quando parlamentares reduzem sua legitimidade, deixando a impressão à população de que agem para satisfação de demandas imediatistas, o Poder Executivo exerce todo seu poder de gravidade para atrair as forças políticas que, aparentemente, lhe oferecem obstáculos…

Foi exatamente essa receita, seguida por Wladimir Garotinho, e que se consumou, por completo, na eleição da Mesa Diretora 2025/2026, aumentando o tamanho de sua base para 22 vereadores, 3 a mais que elegeu em outubro último.Quem viu os 22 votos consagrados não deve se enganar pelas aparências.

O que estava em jogo ali era uma disputa dramática, que dá dimensão da gravidade do poder.

A possibilidade de uma chapa alternativa bem sucedida, ainda que no campo político governista, poderia deflagrar não só o ressurgimento da oposição, mas também um pacote de dificuldades no relacionamento Legislativo e Executivo, em um momento sensível para um governo que deve enfrentar uma transição em 2026, caso o atual prefeito se afaste para candidaturas majoritárias.

A verdade é que Wladimir Garotinho demonstrou, gostemos dele ou não, habilidade e maturidade para articular a eleição de Fred Rangel, passando um rolo compressor na oposição, ou melhor dizendo, do que restou dela.

O atual prefeito percebeu que o mais sutil cheiro de sangue na água precipitaria um ataque dos tubarões com os quais compartilha a piscina. Não houve chance para tanto…

Porém, como ensinou Winston Churchill, “a política e a guerra são idênticas, porém, na política morremos e revivemos várias vezes.” Wladimir ganhou tempo para montar seu governo, estabelecer espaço para quem foi leal e para os “cristãos novos”, retirar de quem não foi, e perdoar quem, mesmo sendo recalcitrante, merece uma segunda chance.

A Enel iluminou o terceiro turno

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Por Douglas Barreto da Mata

Governos devem pagar suas dívidas, isso é óbvio.  Porém, há uma manipulação rasteira e simplista nos noticiários, com raras exceções, de equiparar finanças públicas com as “contas das donas de casa”.  É comum ouvir e assistir muitos “jornalistas” dizendo: se não arrecadou não pode gastar, ou só pode gastar se não tiver dúvidas ou déficits. Mentira. 

Governos e grandes empresas operam com déficits desde que começaram a existir.  Há perfis de dívidas, algumas necessárias e outras impagáveis, como é o caso do Estado do Rio de Janeiro e de MG, RS e etc que obtiveram no Congresso, esta semana, mais uma renegociação. Não consta que Campos dos Goytacazes esteja insolvente.

Uma coisa é questionar os modelos e políticas orçamentárias do governo e do seu prefeito Wladimir, suas escolhas e prioridades.  Isso é livre. É do jogo democrático.  Gostando ou não, o fato é que 70% do eleitorado lhe deu mais 4 anos de mandato.  Sua aprovação beira 78%, nas últimas medições.

Tudo isso não interrompe a continuidade da luta política da oposição, de sindicatos e movimentos sociais. É o chamado terceiro turno!  O que assusta é o time que entrou em campo.  Primeiro, o transporte complementar, as Vans, que amargaram uma travessia no deserto com o governo Rafael Diniz, com um saco de sal às costas.  É um setor deficitário, dependente de dinheiro público para abastecer veículos, assim como os ônibus.  São “empreendedores” que não resistem sem verba oficial. Aliás, como boa parte dos “setores produtivos”(essa autodenominação é uma piada de mau gosto). 

É verdade, o modelo faliu, e essa subvenção foi uma forma de manter o precário funcionamento do setor de transportes, até a prometida remodelação.  Mas e daí? O “empreendedor” das vans quer operar tendo o governo de “sócio”, mas quando o “sócio” tem problemas, ele não assume seu papel? Como assim? E quando deu lucro, deram algum imposto a mais para a prefeitura?  Não consta. 

Outro setor é o de sempre.  O agronegócio, quer dizer, o latifúndio.  Até as gigogas do canal Campos Macaé sabem que a dragagem e limpeza dos canais atendem, prioritariamente, às grandes fazendas.  Quase sempre as máquinas servem aos latifundiários, e pelo que soubemos hoje, com diesel pago pela viúva.  O time é forte.  Tempos atrás, ambientalistas e o saudoso promotor Marcelo Lessa já tiveram até que dinamitar intervenções ilegais que alteravam o espelho d’água da Lagoa Feia, por exemplo, e aumentavam o tamanho de suas terras. Antes, mil amores com o prefeito, agora, acabou o dinheiro, acabou o amor.  Uai? Mas eles não são Agro, e o Agro não é liberal, de direita e contra a participação do Estado na economia? Depende, né? O Agro é pop, e o pop não poupa ninguém.

Por fim, a Enel. Uma das piores prestadoras de serviços de energia do Brasil, acionada em tribunais e admoestada  administrativamente na ANEEL, causou o caos em São Paulo, uma das campeãs de reclamações e desrespeito com o consumidor, enfim, uma concessão conhecida como “abutre”, que exaure os lucros e faz pouco ou nenhum investimento na melhoria do serviço. Quando aperta, entregam a concessão ou chamam sucessoras. A Enel já foi Ampla, já foi de italianos, franceses, chilenos, nem sei a ordem ao certo. Tantos donos e um ponto em comum: serviço ruim onde atua.  Pois bem, foi essa a “estrela” dos meios de comunicação para o “terceiro turno”.

Muita gente boa foi atrás, e partiu para defender uma concessionária deficitária.  Exemplo?  Olhem o acúmulo de fios emaranhados nos postes, colocando esses equipamentos sob risco de colapso, com perigo de danos pessoais e materiais.  A prefeitura deve?  Tem que pagar.  Agora, medidas de força contra órgãos públicos, punindo não o prefeito, mas os contribuintes que deixaram de usar os locais sem energia é algo próximo ao abuso. Não tenho certeza, mas há impedimento legal para tais interrupções de fornecimento a órgãos públicos. Imaginem se toda vez que uma concessionária deixasse de prestar serviço, reiteradas vezes, trazendo prejuízo ao particular e ao setor público, que precisam usar, para ilustrar o argumento, geradores para prevenir perdas, e o prefeito resolver usar medidas de força, confisco e autotutela?

Fazer política é normal, fazer oposição é requisito da ordem democrática. No entanto, alguns setores devem, ao menos, guardar uma distância cautelar dos conflitos partidários…essa mistura não faz bem aos negócios e ao bom andamento dos serviços que prestam.

A guerra dos mundos pode chegar no herdeiro daquela casinha da Lapa

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Por Douglas Barreto da Mata

Quem observar atentamente os resultados das eleições, em todos os níveis, dentro e fora do país, desde o início dos anos 2000, perceberá que o eixo do debate político mudou drasticamente.  Isso é óbvio, dirão vocês. Eu sei, mas alguém já disse que o óbvio precisa ser dito e repetido várias vezes. As reduções das gestões de políticas econômicas aos dogmas de mercado, e seus rigores fiscais impuseram uma aproximação radical de campos até então opostos.

De forma simplista, sobrou pouca diferença, por exemplo, entre Haddad e Paulo Guedes, Lula ou Bolsonaro, quando se observa as gestões fiscais e orçamentárias de ambos.  Seja na Noruega ou na Argentina, a agenda de mercado pressiona as conquistas sociais. O terrorismo econômico, da “gastança do governo”, imobiliza-o no atendimento aos mais pobres! É uma estratégia de duas cabeças: a interdição do debate econômico (onde só há uma tese certa, a do mercado), e desestabilizar pelo conflito “cultural”.

De forma simplista, seja quem for o candidato da direita e da esquerda, não importará muito se foram criados empregos, a taxa de juros, o PIB, etc. 

No âmbito estadual também não importará muito a saúde financeira do Estado, os índices de IDEB, se há filas de espera para atendimentos na saúde, se o transporte público faliu, ou outros indicadores.  Os eixos centrais são aqueles que alimentam essa “guerra de mundos”, como segurança, religião, gênero, e toda a pauta identitária, conjugado com as limitações permanentes de investimento social. Quer dizer, os temas econômicos e de gestão administrativa não são cruciais pelos seus aspectos reais, mas pela capacidade de cada oponente distorcer a realidade a seu favor, seja realçando suas qualidades, seja destacando os defeitos do outro. Prova?  Apesar de Trump ter deixado a economia dos EUA como uma bomba relógio para seu sucessor, o fato é que ele pinçou a alta dos preços, e transformou um dos aspectos da economia em sua pièce de résistance.

Ao mesmo tempo, ainda que o Brasil ostente crescimento positivo de PIB inesperado, com desemprego em patamar baixíssimo, apesar da taxa de juros mais alta do planeta, estabelecida pela sabotagem do Banco Central, o leve aumento inflacionário resultou em um ataque especulativo colossal, seguido de uma chantagem cruel da mídia para que sejam feitos cortes nos gastos sociais.

Não tenho como conspirar e dizer que mídia e mercado andam juntos, mas parece estranha a coincidência que todos sigam na mesma direção, sempre, subtraindo deste governo a base necessária para que mantenha uma agenda de direitos sociais e seu capital político para as eleições que se aproximam.

Voltando para o nosso Estado e para nossa região, dentro desse cenário descrito, nas eleições estaduais me parece que o papel de “herói” das esquerdas e do centro já foi escalado para Eduardo Paes. Ele é prefeito “playboy” boa praça, que circula nas altas rodas, pela sua origem privilegiada, mas sabe “entrar e sair” das “quebradas”, que samba com chapéu de Zé Pilintra, ecoando ‘miscigenação” e seu “sincretismo”, “um democrata racial e cultural”, para emprestar a lógica de Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre. O papel dos “anti heróis” vai ficar para o outro lado.

Sim, a direita vai se reunir em torno do governador e do amplo leque de alianças de sua base. Vão ter que encarar a poderosa Rede Globo, cria do Estado, e que tem na pauta identitária uma de suas preferências (hipócritas, por certo), e não escondem seu zelo com o “mocinho Paes”. Por isso, o que Paes mais deseja é um plebiscito com um “vilão” característico, um candidato truculento ou com histórico truculento, mau encarado, fundamentalista religioso, do tipo KKK carioca…um híbrido de Malafaia com Tenório Cavalcante. 

A direita fluminense parece não ter percebido a jogada de Paes, que esfrega as mãos, aguardando um antagonista desse tipo.  Esse é o prato que Paes espera que lhe seja servido, para que ele possa desempenhar o papel de centrista ilustrado, amigo de Macron, um prefeito internacional, sintonizado com a imagem de um Rio cosmopolita. Paes tem tentado evitar que uma candidatura com as mesmas características dele, mas de sinal trocado, ou seja, deliberadamente conservadora, porém suave e ponderada, simpática mesmo, lhe enfrente.

Embora a pré candidatura anunciada seja a de Washington Reis, e só os tolos acreditam que o presidente da ALERJ tenha desistido da ideia de ser ele mesmo o candidato, o fato é que o ex-prefeito de Duque de Caxias está impedido juridicamente, e o presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) se encaixe mais no papel de “vilão” que de “mocinho”. Na verdade, o candidato dos sonhos de Paes, observando essa lógica acima, seria o presidente da Alerj. 

No Estado do Rio há poucos com esse perfil de direita mais ameno e com potencial capital eleitoral significativo. Eu arriscaria dizer que o prefeito Wladimir Garotinho é um dos que pode colocar água no chopp de Paes. É de direita assumido, mas transita com facilidade na esquerda.  Como filho de governadores não se pode dizer pobre ou de origem humilde, mas traz na carreira a referência da trajetória dos pais junto ao eleitorado popular. Soube se diferenciar de seus pais, sem ignorar seu legado.  É religioso, mas sai do culto ao pagode sem perder a linha, nem parecer falso. Tem ótima entrada no público feminino pobre, principalmente das mães solo, e é atração entre crianças. 

O perfil conciliador e bonachão de Wladimir, e sua habilidade nas redes sociais se compara à de Paes, soando às vezes parece mais sincero, dada a história da família Garotinho, como já mencionado.  Ao contrário de Paes, tido e havido como um animal político de Zona Sul, até que, recentemente, conseguiu ultrapassar o túnel, mas não sem muito esforço e ruído, como o que aconteceu, recentemente, com a base evangélica. Outros atributos são a enorme capilaridade possível a Wladimir pelo Estado todo, ao contrário de Paes, que no máximo chega a Niterói, e com muito esforço, em boa parte, é verdade, pela parceria com Rodrigo Neves.

De todo modo, como diziam os romanos, alea jacta est. Que comecem os “jogos vorazes”.

Campos na vanguarda do atraso: Wladimir Garotinho sanciona lei que proíbe discussão sobre questões de gênero na rede municipal de educação

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Após viver por 27 anos em Campos dos Goytacazes e ter até título de cidadania, confesso que ainda consigo me surpreender com o nível de conservadorismo que pulula na terra de Benta Pereira.  Vejamos por exemplo o caso da Lei No. 9.532 de 22 de outubro de 2024 que acaba de ser sancionada pelo prefeito Wladimir Garotinho, e que foi publicada na última 5a. feira (13/11) pelo Diário Oficial do Município (ver imagem abaixo).

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Logo no seu caput, a Lei No. 9.532 estabelece que  se “assegura aos pais e responsáveis o direito de vedar a participação de seus filhos ou tutelados em atividades pedagógicas relacionadas à ideologia de gênero nas escolas públicas e privadas localizadas no Município de Campos dos Goytacazes”.

Além de interferir na liberdade de cátedra, o que me parece inconstitucional, a que de fato se refere a possibilidade dada para que país ou responsáveis vedem a participação de seus filhos em “atividades de pedagógicas relacionadas à questão de gênero”?

Isso fica claro no parágrafo único do Artigo 1o. da lei que define ideologia de gênero como abrangendo “aquelas que abordam temas relacionados à identidade de gênero, orientação sexual, diversidade sexual, igualdade de gênero e outros assuntos similares”.

Ainda que alguns pais ou responsáveis possam não aprovar o debate sobre identidade, orientação e diversidade sexual, como é possível que se possa ter uma lei que impeça o debate sobre igualdade de gênero? Se o prefeito ainda não se deu ao trabalho de ler os veículos da mídia campista, é preciso dizer a ele que vivemos em um dos municípios com as mais altas taxas de feminicídio no Brasil, e  talvez da América Latina.

Há que se lembrar, por exemplo, o recente assassinato de Eliana de Lima Tavares, que morreu após ser barbaramente atropelada pelo filho, o estudante de Medicina, Carlos Eduardo Tavares de Aquino Cardoso. Apurações posteriores identificaram que Eliana fora agredida fisicamente pelo filho antes de ser atropelada e morta.

O pior é que sendo professor de jovens adultos há quase 3 décadas, sou testemunha de que vivemos uma época em que em vez de proibir os debates em torno das questões envolvendo a sexualidade humana, o que deveríamos é garantir que nossas escolas sejam espaços onde nossas crianças e jovens possam ter acesso a materiais que orientem e eduquem, em vez de tentar sufocar o processo pedagógico e criminalizar quem queira educar.  

Como corresponsável pela educação de um adolescente, eu sou testemunha de como tem sido importante para ele ter um ambiente escolar onde as questões sobre relações de gênero (já que ideologia de gênero só existe mesmo nos manuais da extrema-direita) podem ser debatidas livremente. É graças à possibilidade de uma educação que aborda essas questões de forma didaticamente responsável, que posso testemunhar o desenvolvimento de um ser humano que já entende suas responsabilidades e limites na relação com as mulheres. Tolher esse tipo de formação, sob quaisquer argumentos que sejam, é um grande desserviço que está sendo cometido contra nossa juventude.

Ao prefeito Wladimir, só posso dizer que ao assinar essa lei, ele deu uma tremenda bola fora. Lamentável!

A revitalização do Centro de Campos: diga-me com quem e como fazes, e te direi qual será o resultado

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O monumental edifício que abrigava o Hotel Flávio em chamas:  uma rica história arquitetônica virando fumaça

Por Douglas Barreto da Mata

Ao contrário do que diz a maioria, o abandono dos centros das cidades médias e grandes no Brasil e no resto do mundo não é só resultante de processos de drenagem econômica destas áreas, geralmente associado à criação de shoppings e bairros mais afastados.  Estes fatores impactam esse fenômeno, mas não respondem a todas as questões implicadas.

Em Campos dos Goytacazes há um nítido esforço da prefeitura, personalizado no prefeito Wladimir, de tratar desse tema. Atitude louvável.  Eu temo apenas que ele se reúna, justamente, com os que deram causa ao problema (as elites comerciantes locais e suas entidades), e que agora posam de solução.

Primeiro e antes de mais nada, não há um só modelo, por óbvio, nem todos funcionam, e sim, há modelos que beneficiam mais a alguns e menos a outros.  Foi o que aprendi com Raul Juste Lores, jornalista que tem um programa muito legal sobre o tema no YouTube: São Paulo Nas Alturas.

Há boas pistas ali, que merecem ser consideradas, apesar das particularidades de cada processo histórico. Porém, há princípios básicos, vamos a eles.  O olhar da elite falida campista é um só: da valorização imobiliária em si, do maior emprego de verbas públicas, e claro, com o menor esforço deles. Foi justamente isso que trouxe a cidade a esse ponto, a especulação e concentração imobiliária, a elisão e evasão fiscais, e a apropriação do espaço público pelo setor privado, naquilo que chamo de mini grilagem urbana, com os empreendimentos avançando sobre calçadas, hegemonia de carros sobre pedestres e transportes públicos, enfim, a privatização dos centros.

Como avançam como gafanhotos sobre o espaço da cidade, e matam toda vida possível, agora reclamam mais e mais recursos para salvarem a si mesmos dos males que eles mesmos se infligiram.  Mentalidade parecida com a do agronegócio, que destruiu todo um ecossistema nacional, e exige ajuda para se livrar daquilo que “plantou”. 

Nas cidades europeias e nas colônias, as cidades se erigiam em volta de uma praça (núcleo central), onde estavam a igreja, câmara e a cadeia, e outras instalações públicas.  Destes pontos derivaram as ruas e os bairros.  Mesmo com a modernização capitalista do automóvel, e outras que aumentaram a pressão sobre os centros, as cidades mais inteligentes mantiveram seus sistemas de transportes públicos, o acesso ao centro por equipamentos públicos de mobilidade, e principalmente, tentaram conter a especulação imobiliária, que empurrava as pessoas para as franjas da cidade, o que nem sempre se conseguia, mas eram compensados pela eficiente circulação de pessoas em modais coletivos.

Qualquer medida a ser considerada para revitalizar centros urbanos, como o campista, tem que considerar primeiro o essencial: gente.  Há modelos como o da zona portuária do Rio, e de Porto Madero, em Buenos Aires (este já definido), que privilegiaram aspectos imobiliários.  Em Buenos Aires a aposta em um altíssimo padrão resultou em um bairro parecido com os Alphavilles no Brasil (em BA, com enormes torres), porém, no modelo portenho, há amplo acesso aos pedestres e os imóveis não se isolam das vias públicas, pois há muitos com lojas, cafés e restaurantes, e tanto que anda vê quem está dentro, como vice versa. Isso aumenta a segurança. 

Ideia central em qualquer projeto desse tipo é a de que as pessoas vejam, e se protejam.  Ainda que as ruas de Porto Madero não sejam essa explosão de gente, o fato é que ali há calçadas enormes, parques e etc.  Não sei se no Rio de Janeiro isso vai dar certo, até porque a realidade da violência na capital fluminense e na capital portenha são abissais.

Já nas outras áreas centrais recuperadas, as diretivas foram parecidas, com combate à especulação e concentração fundiária urbana, aumento dos impostos para imóveis ociosos, transferência de serviços públicos para as áreas degradadas, transporte público acessível, e claro, intervenções no domínio das propriedades, no quesito da arquitetura dos imóveis, dando ênfase aos edifícios que se integrem a paisagem, e não se exilem dela atrás de muros, grades e canteiros.

Por fim, as praças, parques e todo tipo de espaço de convivência que possa ser criado e mantido com eficiência.  Menos estacionamentos e mais praças.  Como eu disse, lá no começo, tenho pouca fé de que o prefeito sozinho consiga mover a carcomida e obtusa elite comercial da cidade na direção oposta ao que pensam.

Andar pelo centro campista e ver “espaços reservados” para veículos de “clientes” ou “donos”, quando algumas dessas restrições de espaço são feitas com cones e pedaços de madeiras ilegais, ao arrepio das autoridades, ou assistir ao lamentável espetáculo proporcionado por essa gente, quando da adoção de ciclofaixas, eu diria que o prefeito Wladimir Garotinho já teria muito trabalho. 

Porém, ao delegar a um bando de parasitas sociais uma tarefa que deveria ser pública e do público todo (não apenas os comerciantes) torna, no meu modesto entender, impossível a missão. Afinal de contas,  não se pode cometer os mesmos erros e esperar resultados diferentes.

Carta aberta para Wladimir Garotinho

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Por Douglas Barreto da Mata

Dirijo-me à Vossa Excelência com todo respeito e liturgia que vosso cargo exige, agora confirmado pelos 192.231 sufrágios recebidos em 06 de outubro deste ano.  Tens a chance de recriar as bases de um novo governo, agora fortalecido pela aprovação maciça do eleitor, ainda que, por óbvio, haja outras demandas e acordos políticos necessários à manutenção da governabilidade.

No entanto, por certo, hoje o vosso capital político está anos luz à frente daquele arrecadado ao fim de 2020.  Não se trata de desprezar aliados e alianças, mas dar ao mandato a força e o nome que ele tem, Wladimir Garotinho, até porque, todos os analistas são unânimes em dizer que vós sois maior que o seu governo.

Não podemos ignorar que houve avanços desde o desastre anterior, personificado em Rafael Diniz, mas sua figura, é sim, central nisso tudo.  Por isso, agora, a referência comparativa é o senhor consigo mesmo.

A cidade precisa de um governo com a vossa disposição e presença, com vossa agilidade, humor e ironia, enfim, com vossa resiliência, que nunca significou covardia, quando enfrentou a questão da Lei Orçamentária Anual (LOA), por exemplo.  E vós sabeis que essa coragem institucional precisa contaminar sua equipe.

Coragem para ir além do óbvio, que não foi pouco fazer, como vimos, dada a destruição da cidade promovida pelo experimento rafaeliano.  Seu time precisa mostrar compromisso, espírito público, senso de urgência, e mais, capacidade de inovar, fazer o que nunca foi feito.  E mais: se houver dúvida de como tomar decisões, sempre difíceis, seu governo, orientado por Vossa Excelência, deve sempre escolher a solução que atenda mais gente e os que mais precisam.  Sempre!

Só isso, nessa terra de bugres que se acham ilustrados, já seria uma enorme novidade.  Desde a coleta de lixo, conservação urbana, mobilidade, educação, que avançou bastante, mas não pode parar. na saúde, um parágrafo à parte. Sim, os equipamentos estão sendo recuperados, mas carecem de gente treinada e capaz, e mais ainda, a saúde precisa, urgentemente, de uma guinada.

A redução da nefasta terceirização de serviços à rede de contratualização, que mostrou-se incapaz de solucionar as filas, exames, atendimentos de média e alta complexidade.

Entendo que não se manobra um Titanic como se fosse um pedalinho.  Porém, é preciso apontar (e mudar) direções, e nesse caminho que estamos, com um monte de dinheiro destinado às entidades privadas, o colapso da saúde está pela frente. 

Nem vou mencionar o caso recente (e  recorrente) da Santa Casa de Misericórdia, suspeita de desvio de verbas federais da saúde, pois espero que seja uma exceção.  A tão chamada revitalização do centro, que teve, por exemplo, em Vossa Excelência a iniciativa de mover equipamentos municipais para aquela região, é outro ponto importante. Torço que Vossa Excelência não incorpore uma visão higienista de remoção dos moradores em situação de rua, mas promova um programa que transforme moradores em situação de rua em moradores daquelas ruas, usando imóveis sem uso como moradias populares e dignas, dando nome, CEP, endereço àquelas pessoas, que querem reconexão com o mundo, mas com privacidade e um lugar deles.

A psiquiatria e a psicologia social explicam porque eles rejeitam abrigos coletivos, é só consultar quem entende desse assunto, sobre o qual tenho pouco saber.   Minha intuição me diz que reconectar essas pessoas é lhes dar um lar, um lugar onde possam dizer às suas famílias onde moram, e então, receberem seus entes, reatando laços, promovendo retornos ou religando convivências.  Isso não é invenção minha, há muitas cidades como exemplos.  Ao mesmo tempo, essas pessoas podem ser contratadas para serviços adequados aos seus saberes, desde a ajuda na limpeza urbana, até como guias turísticos ou outras funções.

Os recursos para aluguéis dos imóveis podem ser negociados com proprietários, tendo sempre em vista a função social da propriedade, que implica, em último caso, aumento progressivo de impostos para edificações não utilizadas. O nome disso?  Distribuição de renda, diminuição de distância entre ricos e pobres.

No transporte, ao que parece, Vossa Excelência terá que zerar tudo.  O modelo atual falhou, não serve mais, nem aqui, nem em lugar algum.  Cidades não conseguem bancar tarifas com orçamentos cada vez menores, e com um modelo de cidade que empurra cada vez mais os pobres para periferias, nos campos de concentração, chamados de conjuntos populares.  Essa conta não fecha. Porém a demanda por mudança na mobilidade e habitação podem encontrar em Vossa Excelência uma saída, se resolver interromper a política de exílio de pobres para longe, reurbanizando comunidades, dotando comunidades de dignidade urbanística, mantendo as pessoas na cidade. 

Cidade sem gente circulando morre.  O centro é o coração, gente circulando é o sangue da cidade.  Pobres e ricos vivendo e convivendo juntos.  Os modelos de gestão de mobilidade têm que onerar que mais lucra com eles, e são trabalhadores assalariados os maiores prejudicados com o custo do transporte, que sabemos, retira renda das classes trabalhadoras.  Quem deve pagar pelo transporte do trabalhador não é a cidade ou o trabalhador, ao menos, não em maior parte.  Cabe ao empresário, ao patrão, o pagamento desse custo, porque é dele o lucro advindo do trabalho alheio.  Sem considerar essa premissa, Vossa Excelência vai ser fiador de renovação de frota de um sistema tendente à falência.

Enfim, há muita coisa mais, mas acho que me estendi demais.  Talvez em outra oportunidade, não falamos de cultura e seus agentes, de agricultura e agricultores, de servidores, etc.  Fico por aqui, e rogo que Vossa Excelência tenha sucesso, não apenas em ter votos, isso já provou sua capacidade. 

Citando Antonie de Saint-Exupéry, no seu famoso O Pequeno Príncipe: “És eternamente responsável por aquilo que cativas”.

Quem é Wladimir Garotinho? Decifra-me ou te devoro

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Por Douglas Barreto da Mata

Nessas eleições recentes aconteceram episódios pitorescos.  Enquanto a esquerda tentava emplacar a pecha de bolsonatista no prefeito, muito mais para justificar suas escolhas, de funcionar como linha auxiliar de ultra direitistas (um paradoxo aparente), do que para demarcar uma posição progressista, de fato, do outro lado, a direita, representada na delegada candidata, quis emplacar a narrativa que o prefeito reeleito não era bolsonarista suficiente, ao mesmo tempo que recebeu a deputada petista Carla Machado (outro aparente paradoxo) em seu campo.

Resultado conhecido, o PT amargou um desastre, e a delegada não foi além do teto conhecido do chamado anti garotismo.  Juntos ficaram na medida das abstenções, brancos e nulos.  Em analogia ao termo torcida arco-íris, que reúne os torcedores que são anti flamenguistas, podemos dizer que o arco-íris ou está com cores a menos, ou desbotou.

O erro de cálculo desse pessoal foi não entender o caminho político do prefeito, rumo ao centro, já antevendo um movimento natural pós saturação de extremismos de direita, e que se confirmou nos resultados nacionais pelas cidades, o PSD foi o grande vencedor, e ampliou seu capital político, que não era pequeno.

No Estado do RJ, esse papel coube ao PP, e ao PL, por estranho que pareça).  Todas as campanhas deste último partido (PL), apesar de usarem com mais ou menos intensidade a imagem dos Bolsonaros, se caracterizaram por candidaturas de centro, de prefeitos ou ex-prefeitos com quilometragem.  Foram poucas as “novidades” impetuosas.

O prefeito Wladimir entendeu isso antes, e nem renegou seu vínculo com Bolsonaro (teve no filho Flávio um apoiador presente), nem exagerou nessa exposição, mantendo canal aberto com outras forças. Há, no entanto, um outro viés, para o qual gostaria de chamar a atenção.

Nacionalizar a eleição seria um erro, que o PT não entendeu quando, em desespero, passou a veicular Lula em sua campanha, nem a delegada, quando reivindicou a condição de porta-voz do ex-presidente.

Ainda que houvesse margem para tanto, é preciso dizer que, em Campos dos Goytacazes, a família Garotinho e seu legado são muito mais relevantes que figuras nacionais. Foi assim em todas as eleições presidenciais que a família direcionou seus votos. Com Bolsonaro não foi diferente.

A base de apoio a família Garotinho, com exceção dos intervalos das vitórias de dissidentes deste mesmo grupo, sempre se manteve intacta.  Mesmo nestes intervalos, o grupo garotista foi grande cabo eleitoral de campanhas presidenciais.

A oposição não foi capaz de reconhecer, ou não teve humildade, ou inteligência, ou tudo junto, que a família Garotinho, agora renovada no personagem Wladimir Garotinho, uma versão ampliada e melhorada de seus pais, é ainda a grande eleitora na cidade, e não o contrário.

Esta planície é, historicamente, conservadora, mas este conservadorismo é mediado, desde a década de 90 do século XX pela família Garotinho, embora não seja irrelevante que este ou aquele líder nacional possa agregar mais capital político à família.

Assim, era inócuo, como foi, dizer que Wladimir era muito ou pouco bolsonarista, ou dizer que ele era a continuidade de seus pais.  O prefeito se consolidou como um ator relevante e autônomo, ainda que não rejeite, e nem afaste influências e heranças políticas. O desconhecimento dessas noções básicas levaram a oposição a combater moinhos de vento, ou seja, sequer conseguiram entender o adversário que enfrentavam, quanto mais, acertar o “alvo”.  A comemoração gaiata do grupo da delegada sobre a votação obtida mostra que nada aprenderam.

Afinal, com a montanha de recursos empenhados, a candidatura da delegada não conseguiu ir além do patamar histórico de votação dos anti garotistas, deixando claro que, para tanto, seria necessária uma estratégia muito melhor ou um nome com muito mais capacidade, sendo que estas hipóteses não se excluem.

Trilhando, talvez, o caminho de Getúlio Vargas, que se orgulhava de não ser decifrado, o prefeito, do alto de seus 190.000 votos, agradece.

Eleições 2024: dinheiro é importante, mas não é tudo

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Por Douglas Barreto da Mata

Uma das principais lições que ficam nas eleições de Campos dos Goytacazes é de que o poder econômico, empregado em uma escala jamais vista na história da cidade, pelo grupo de oposição ao prefeito reeleito Wladimir Garotinho, pode muita coisa, mas não alcança tudo.

O resultado da oposição foi um fiasco, contabilizado como um todo, desde a candidata principal, a Delegada Madeleine, até as candidaturas auxiliares, como o PT e outros mais insignificantes.

Na eleição parlamentar, a oposição elegeu apenas 06 vereadores, e o atual Presidente da Câmara, o vereador Marcos Bacellar, irmão do Presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), liderança maior entre os oposicionistas, e grande artífice da estratégia eleitoral do seu grupo, ficou com a terceira colocação entre os mais votados.  Pouco, muito pouco para quem personificou a disputa com o atual Prefeito.

Voltando para a eleição majoritária, parece certo que não se pode imaginar que qualquer pessoa seja capaz de levar adiante um projeto político de tamanha envergadura, isto é, se eleger e governar Campos dos Goytacazes, mesmo que infindáveis recursos sejam colocados à sua disposição.

Eventos isolados, como eleições de um Wilson Witzel, ou mesmo de um Rafael Diniz não são regras, são exceções que as confirmam. Curiosamente, Witzel e Rafael mostraram que ganhar é até possível, mas governar, de maneira estável, quando eles significavam um descolamento total da política, sendo os arautos da antipolítica, seria uma tarefa pouco provável de ser cumprida. De fato, Witzel caiu, e Rafael sangrou o mandato todo, até ser execrado como o pior prefeito da história.

A delegada, além de não reunir carisma suficiente para o que lhe era exigido, faltava a ela traquejo, embocadura para uma luta dessa grandeza, e nem se encontrava em um momento conjuntural excepcional, como aqueles que elegeram Rafael, Witzel ou outros casos parecidos.

Enfrentar o legatário de uma dinastia que elegeu o pai prefeito, deputado estadual e federal, governador por duas vezes, a mãe governadora por duas vezes, e prefeita por dois mandatos também, além do fato de que boa parte dos outros prefeitos e deputados locais derivaram desse clã, e imaginar que bastava duas ou três frases de efeito, feitas para agradar audiência de palestras de “treinamento” (“coach”, argh!!!) é de uma ingenuidade atroz.

A correlação dos eleitos para Câmara indica que o Prefeito Wladimir terá um segundo mandato mais tranquilo, desde que confirme o aprendizado da sua relação com a casa de leis na desastrosa antecipação da eleição da mesa diretora, quando levou uma rasteira de alguns de seus aliados.

Agora, uma nota triste para a esquerda local.  O PT, como previsto, fez a campanha mais vergonhosa da sua história, menos pelos parcos votos para prefeito e vereadores, mas muito mais pela sua impostura política, funcionando como legenda de aluguel da extrema-direita, em troca sabe-se lá do quê, e o que quer que tenha sido, não foi suficiente para tirar o partido do atoleiro. 

O texto do meu amigo George Gomes Coutinho, em um jornal local, desvendou aquilo que mantém o PT local sem qualquer chance de ser considerado uma força política de relevo.

Simplificando o que ele disse, é como se o PT vivesse no auge a Era Vargas, e tentasse conter essa hegemonia avassaladora se unindo a monarquistas escravagistas, imaginando que isso lhe daria espaço para avançar com uma proposta mais progressista que a organização do trabalho feita por Vargas na época.

A coordenação de campanha, que contava com a eleição de um vereador para justificar essa linha de atuação horrorosa, ficou sem argumento algum.  O candidato que era o líder dessa aposta, assessor de um deputado federal petista, e que contou com todos os beneplácitos da coordenação de campanha, para a insatisfação de todos os demais, somou pouco mais de 600 votos, desempenho sofrível.  Não houve qualquer eleito entre os petistas.  É preciso dar nomes e rostos a essa tragédia petista, e todos ali sabem quem são.

A incapacidade de articulação isolou o PT do PSOL, o que deixou uma candidata com mais de 3.500, a Professora Natália, sem mandato, apesar da votação fantástica. Como diz o antigo ditado, dos tempos da ditadura, esquerda junta só no bar ou na cadeia.

Já a deputada estadual petista Carla Machado, protagonista de uma traição indizível ao seu partido, e que embarcou na canoa furada da delegada, além de pouco somar a ela, ainda viu seu irmão ficar abaixo de 1.200 votos. 

É, definitivamente, as urnas mostraram a esse pessoal que planos mirabolantes para transferência de votos precisam de um detalhe importante para darem certo: convencer o eleitor.

A população parece ter respondido como a maioria dos analistas, pesquisadores e “pitaqueiros” (como eu) diziam.

A combinação de um antecessor cuja administração foi um fracasso colossal, junto a expertise de um atual prefeito que domina as mídias e as formas de articulação política, além da ineficiência completa da oposição, mesmo que de posse de recursos gigantescos, deram um resultado que confirma que o eleitor faz seu cálculo político dentro de um esquema com expectativas realistas.

Por outro lado, deve ter ensinado ao PT, e ao resto da esquerda, que não adianta brigar com esse senso (comum), usando da conhecida arrogância em desconhecer que o eleitor, a seu modo, ou sabe o que quer, ou sabe o que não quer.  E o eleitor campista, não quer o PT que parece também não querer o eleitor, no melhor estilo do “dois bicudos que não se beijam”.

Assim como ensinou ao grupo da delegada que dinheiro altera a realidade, mas não toda a realidade.

Em Campos, o prefeito-candidato recebeu muitos presentes da oposição “Papai Noel”

papai-noel

Por Douglas Barreto da Mata

Se me perguntassem o que eu desejaria para ser candidato à reeleição, caso fosse prefeito de alguma cidade, eu diria, sem pestanejar: uma oposição como esta que enfrentou Wladimir Garotinho, o atual prefeito de Campos dos Goytacazes, e candidato à reeleição.

Eu não vou repetir aqui, para não ficar enfadonho, que as táticas e estratégias da oposição, em especial aquela representada no pessoal da delegada, e no pessoal do PT, foram um total desastre. Não me preocupa aqui o resultado das eleições, que podem sim, mudar até lá, diga-se de passagem.  Só voto apurado é voto certo, dizem as raposas políticas, apesar de todo favoritismo do atual prefeito. 

Hoje eu me refiro aqui a uma derrota muito pior.  A derrota de reputações de dois candidatos que, até o início das eleições, eram reconhecidos como pessoas corretas, com biografias de alguma importância, com carreiras profissionais respeitáveis, ainda que sem nenhum traço de genialidade, é verdade.

Porém, eu diria, sem medo de errar, que o professor e a delegada saem muito menores que entraram nessa campanha, a despeito dos votos que possam ter.  Os expedientes e truques aos quais recorreram o professor e a delegada foram vergonhosos.  Rebaixaram a si mesmos e a campanha a um nível rude e grotesco, com direito a acusações sem provas (como o professor no caso dos RPA), ou mentiras e distorções (o caso do IDEB), ou das pesquisas.

Teve coisa pior, eu sei, mas até cansa falar de novo.  Eu finjo que esqueço, para esquecer de fato, tamanha a decepção!  No caso da delegada tivemos ofensas do deputado que veio em seu socorro, no início da campanha, e que atacou a honra da primeira-dama, enquanto seus padrinhos políticos se esmeraram, ao longo da corrida eleitoral, em adjetivos inapropriados em direção ao atual prefeito, que, justiça seja feita, ou os ignorou, ou respondeu com a mais fina ironia.

Ironia, sabemos, é sinal de inteligência.  Claro que a gente sabe que eleição é terreno propício a temperaturas elevadas, debates mais acalorados.  Mas xingamentos e ofensas desvinculados de quaisquer propostas, beiram a vulgaridade, a falta de decoro, a pobreza intelectual, que não parecem combinar com figuras do professor e da delegada.

Neste sentido, se as urnas comprovarem as prospecções dos institutos de pesquisas (os sérios, não aquela fantasia da oposição), vamos ter, talvez, um alento.  Sim, apesar das tragédias pessoais dos candidatos, que se expuseram a tamanho vexame moral, paradoxalmente, essa queda acena para o fato de que, ainda que conservador, o eleitorado campista rejeitou a fórmula desqualificada apresentada pelo professor e pela delegada.

No atual contexto da política brasileira e local, não é pouca coisa!

Nas eleições de Campos, qual é o teto do candidato-prefeito?

ceu é o limite

Por Douglas Barreto da Mata

Faz algum tempo, um veículo de comunicação campista lançou essa pergunta a um grupo de analistas, acadêmicos e estatísticos.  Buscava estabelecer um limite para a popularidade de Wladimir Garotinho, neste caso expressa em intenções de votos na corrida eleitoral, onde ele é candidato à reeleição.

Pois é, era difícil responder antes, e parece mais difícil agora. Porém, eu acrescento uma outra variável a essa dúvida:  até onde, ou melhor dizendo, qual é a profundidade onde será enterrada a oposição e suas incapacidades?

Se por um lado, nos parece que o candidato-prefeito chegou a um estágio que pode ser chamado “teflon”, pois nada de negativo parece “grudar” nele, e as pesquisas qualitativas disponíveis, que circularam entre os dois principais lados da disputa, apontavam nessa direção, por outro lado, a oposição tem  nos brindado com um espetáculo grotesco de incompetência e mal gosto.

Assim, o candidato-prefeito, além de imune aos ataques, que não aderem à sua pessoa, alcançou outro patamar, o de massa de pão, que quanto mais apanha, mais cresce. Então, hoje eu diria que é difícil estabelecer um teto para Wladimir, porque ele parece não ter um, na medida que, do lado contrário, a imbecilidade para não ter um fundo, ou seja, um piso.

Eu já disse isso aqui, aqui e aqui.   Hoje à tarde, Marcos Pedlowski, o editor desse blog que acolhe minhas palavras rotas e mal escritas, também nos brindou com seu humor ferino, que serve a uma lógica afiada.

E quando eu pensava que nada mais me surpreenderia, desde recolocar Rafael Diniz na sala (o bode), como fez a deputada Carla Machado ao pular do barco petista para a “nau dos insensatos” da oposição, mas não sem antes furar o casco e deixar Jefferson Azevedo se afogar nele, passando pelo briga com os números de pesquisas e IDEB, o processo contra um boneco, e outras tantas trapalhadas, agora no fim da tarde, a oposição trouxe mais uma: está comemorando a retirada da divulgação de pesquisas já publicadas, e pelo que se sabe até aqui, a motivação que foi acolhida pela Justiça Eleitoral seriam aspectos formais das autorizações, ou seja, não houve erro nos dados, mas sim em aspectos como informações dos dias das entrevistas, por exemplo, registros no TSE, etc.

Claro que a oposição está alardeando como se fosse um gol de placa, e como se isso fosse mudar o que já foi veiculado e assimilado por todos, exaustivamente.  No calor das campanhas, cada um conta a versão dos fatos que melhor lhe convém, mas há limites para distorção da realidade, ou pelo menos, deveria haver.  Tem que existir um sentido prático na mentira, na meia-verdade, senão fica parecendo coisa de maluco. 

E neste caso, como já mencionamos, todo mundo já estava “careca” de saber os números, cuja veiculação a Justiça Eleitoral cassou. Essa “vitória”, por si só, já seria um “mico” do tamanho de um elefante, mas tem mais.  As pesquisas retiradas das redes sociais do prefeito caducaram, viraram notícia velha.

Explico. Hoje, o Instituto PreFab mostrou os dados da última sondagem registrada no TRE, e os números indicam  Wladimir com 79,7% dos votos.  Enquanto isso, a delegada patina em 15%, aproximados, dos votos válidos.  Se transformados em votos brutos, seria algo em torno de 68% de votos para o atual prefeito, e algo como 12% ou 11% para a delegada.

Olhados em perspectiva, e descontada a outra pesquisa O Dia/Paraná, escondida pelo grupo da oposição, em outra vergonha colossal, há um viés claro de queda, na série histórica, e como já dissemos em outro texto, esse é o desespero que tomou conta da oposição.

Ao que parece, mais umas duas semanas de campanha, a delegada ficaria devendo votos ao TRE, seguindo esse ritmo.

Voltando ao começo, eu diria: quem estiver à procura do candidato-prefeito Wladimir Garotinho, eu sugiro um telescópio, já para enxergar a oposição, só com a ajuda de um microscópio.