Finalmente é chegada a hora de se fazer justiça a Cícero Guedes

cicero

Cícero Guedes foi assassinado em janeiro de 2013, agora o acusado de ser o mandante do crime finalmente vai a julgamento
Assassinado no dia 25 de janeiro de 2013, o assentado e liderança inequívoca no Assentamento Zumbi dos Palmares, Cícero Guedes, era o que eu chamo de uma força da natureza dada era sua energia e disposição para a ação coletiva. A sua envergadura avantajada e o vozeirão inconfundível o tornavam uma figura difícil de se perder na multidão. Mas a vida nunca foi fácil para quem após uma infância dura em Alagoas, foi submetido a trabalho análogo à escravidão em Campos dos Goytacazes onde chegou buscando emprego no corte de cana.
Pessoalmente considero que o assassinato de Cícero Guedes representou um duro golpe contra as ações voltadas para ampliar a auto-organização dos assentamentos existentes no Norte Fluminense, na medida em que liderava as ações para a implantação de estruturas coletivas de comercialização que livrassem os assentados da dependência dos atravessadores, bem com os esforços para adoção de sistemas agro-ecológicos que diminuíssem a dependência de agrotóxicos e outros insumos químicos.
É importante notar a relação desenvolvida por Cícero Guedes com o cotidiano da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), e que se deu de forma intensa nas diferentes dimensões da vida universitária. Uma que não é que costumeiramente destacada foi a transformação do lote que Cícero e sua família ocupavam no Assentamento Zumbi dos Palmares em um laboratório avançado para a realização de pesquisas e ações de extensão relacionadas ao desenvolvimento de sistemas agroecológicos. Nesse aspecto particular, Cícero não era um simples objeto de pesquisa, mas um sujeito entusiasmado com as possibilidades trazidas pela disseminação da agroecologia por assentados da reforma agrária. Como uma sabedoria oriunda das suas lutas, Cícero sempre dizia que queria que a geração de renda não estivesse separada da sustentabilidade ambiental dos assentamentos.
Como se não fosse suficiente transformar o seu lote em unidade experimental e de demonstração, Cícero trabalhou muito para que a Uenf fosse uma parceira no processo de educação política dos agricultores assentados do Norte Fluminense. Graças a esse esforço, pudemos sediar diversos eventos organizados pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e seus parceiros dentro do campus Leonel Brizola. Pensando em retrospectiva, vejo como o período em que convivemos com Cícero foi enriquecedor para a cultura universitária, na medida em que para ele nos obrigava a pensar a realidade em formas que normalmente a universidade tem dificuldade de fazer, buscando principalmente criar interações entre a teoria e a prática.
Agora passados quase 7 anos do assassinato de Cícero, neste 7 de novembro finalmente acontecerá, em Campos dos Goytacazes, o julgamento do acusado de ser o mandante do crime. Este julgamento tem um caráter especialmente importante, não apenas pela oportunidade de fazer justiça para Cícero, mas também por recolocar em cena o local onde ele foi assassinado, a famigerada Usina Cambaíba em cujos fornos teriam sido cremados diversas vítimas do regime militar de 1964.
Para marcar essa data foram organizadas uma série de atividades que são mostradas abaixo.
Vigília Justiça Para Cicero🚩
📌7/11 Local Praça São Salvador Campos dos Goytacazes.
6:00 Praça São Salvador Café Coletivo: todxs trazer uma colaboração para o Café.
7:00 as 9:00 Panfletagem Especial Brasil de Fato /
Construir 5 grupos
Rodoviária velha, Terminal, Pelourinho, São Salvador, Beira Rio, Mercado Municipal.
9:30 Reconcentração no Fórum na Tenda central.
10:00 a 11:00 Oficina de Produção de cartazes, pirulito e Faixas
Leitura Coletiva da edição especial do Jornal Brasil de Fato
11:00 Mística
11:30 Abertura das Falas. ( Movimentos, Sindicato amigos e parceiros do MST)
13:30 Almoço MST-CPT
14:00 Encerramento Simbolico as 14hr

Zumbi dos Palmares será celebrado em 11 comunidades quilombolas no ES e RJ

As homenagens ao maior líder quilombola do país começam dia 20 de novembro no QUIPEA – Quilombos no Projeto de Educação Ambiental. A data lembra a morte do heróiZumbi dos Palmares e se transformou no Dia Nacional da Consciência Negra, a ser celebrada em 11 comunidades quilombolas nos estados do Espírito Santo e Rio de Janeiro.

A celebração é um convite para a reflexão sobre a história de luta pelo modo de vida sustentável em território quilombola e busca de novas formas para enfrentar o racismo e as desigualdades que ainda existem nesse país. Os Eventos serão da forma mais variada:  rodas de capoeira; maculelê; coral; jongo, palestras, passeata, rodas de diálogo, muita música e culinária típica.

O QUIPEA (Quilombos no Projeto de Educação Ambiental)* é uma das condicionantes do licenciamento ambiental federal para as atividades de exploração e produção de petróleo e gás natural da Shell na Bacia de Campos, conduzido pelo IBAMA.

Os mesmos 324 km que separam as comunidades nos extremos da região de atuação do QUIPEA, se transformaram em caminhos de múltiplas articulações e fortalecimento dessas comunidades que mal se conheciam. São elas: Comunidade de Graúna (Itapemirim – ES), Boa Esperança e Cacimbinha (Presidente Kennedy – ES); Deserto Feliz (São Francisco de Itabapoana – RJ); Aleluia, Batatal, Cambucá, Conceição do Imbé (Campos dos Goytacazes – RJ); Boa Vista, Bacurau, Machadinha, Santa Luzia e Mutum (Quissamã – RJ); Baía Formosa e Rasa (Armação dos Búzios – RJ); Maria Joaquina, Botafogo, Preto Forro e Maria Romana (Cabo Frio – RJ) e Sobara (Araruama – RJ); todas certificadas pela Fundação Cultural Palmares.

 Segue abaixo a programação:

Data Comunidade/Município Evento Horário/Local  
20/11 Graúna (Itapemirim) Diversidade do Povo Quilombola 8h às 22h – Campo de Futebol  
20/11 Cacimbinha (Presidente Kennedy) 2º Evento do Dia da Consciência Negra 19h às 22h – Campo de Futebol de Cacimbinha  
 
 
20/11 Deserto Feliz (São Francisco de Itabapoana) Culinária Típica Quilombola 18h às 20h  –  Escola Municipal Manoel de Azeredo  
 
 
 
20/11 Comunidades Quilombolas de Quissamã Quilombos com Consciência  9h às 18h – Centro Cultural de Machadinha  
 
 
 
 
20/11 Rasa (Armação dos Búzios) Semana da Consciência Negra: Caminhada da Resistência 8h – Praça da Rasa  
 
 
 
20/11 Maria Romana (Cabo Frio) 1ª Festa do dia da Consciência Negra 9h às 20h – Salão da igreja Assembleia de Deus  
 
 
 
 
 
20/11 Botafogo (Cabo Frio) Projeto Cultural do dia 20 de novembro 08h30 às 15h – Casa do Presidente da comunidade  
 
 
 
 
20/11 Conceição do Imbé (Campos dos Goytacazes) Homenagens aos Quilombolas   10h às 17h – Quadra da Escola Municipal de Conceição do Imbé  
 
 
21/11 Preto Forro (Cabo Frio) Evento Cores e Cheiros 9h às 13h – Campo da Associação  
 
 
21 e 22/11 Maria Joaquina (Cabo Frio) III Evento da Consciência Negra do Quilombo de Maria Joaquina 19h às 21h – Galpão do Quilombo  
 
 
 
5/12 Aleluia, Batatal e Cambucá (Campos dos Goytacazes) Resgatando a Memória da História da Consciência Negra 10h – Galpão de Aleluia  
 
 
 

 * Todas as comunidades inseridas no QUIPEA encontram-se n área de influência das atividades exploratórias da empresa, que tem por obrigação desenvolver projeto educativo com comunidades em situação de vulnerabilidade social e de impactos resultantes da produção e exploração do petróleo e gás natural na Bacia de Campos.

 

Entidades se pronunciam sobre assassinato de assentada do Assentamento Zumbi dos Palmares

NOTA PÚBLICA

 
Estimados companheiros e companheiras, amigos e amigas:
 
Mais uma mulher assassinada! Recebemos a triste e revoltante noticia de que Carmen Gilcilene Paes Pereira, de 44 anos, foi espancada e assassinada, no Assentamento Zumbi dos Palmares, em Campos dos Goytacazes – RJ, e sua filha de 10 anos sequestrada e ainda desaparecida, no dia 15 de maio de 2014.
 
Esse é o quarto assassinato no Zumbi em pouco mais de um ano. Em janeiro de 2013, Cícero Guedes dos Santos, de 49 anos, Coordenador do MST, foi encontrado morto em Campos. Em fevereiro do mesmo ano, Regina dos Santos Pinho, de 56 anos, foi assassinada na região. Em fevereiro desse ano, Carlos Eduardo Cabral Francisco, de 41 anos, foi encontrado morto no canavial. Todas as vítimas eram assentadas no Zumbi dos Palmares.
 
O Assentamento Zumbi dos Palmares foi o primeiro assentamento do MST na região, fruto da desapropriação da fazenda São José, com aproximadamente 8.500 hectares, há 17 anos. Cerca de 510 famílias estão assentadas no local. Gilcilane vivia no Zumbi desde o início do Assentamento. Ela morava e produzia no lote da família. 
 
Desde nossas organizações – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST, Comissão Pastoral da Terra – CPT e Via Campesina Brasil, nos declaramos indignados e revoltados com essa notícia que atingiu a mais uma Mulher Trabalhadora Rural, violência que vem sendo frequente na região, especialmente nesse Assentamento. 
Esperamos que as autoridades policiais e judiciais não meçam esforços para encontrar, julgar e penalizar os assassinos e responsáveis por tal barbárie.
 

Assim também, como reivindicamos mais uma vez a ação investigadora e protetora do Estado brasileiro para com as famílias que vivem nas áreas de assentamentos da região, pois não podemos permitir que os territórios dos trabalhadores e das trabalhadoras sejam espaços de atuação da bandidagem.

Assinam as Entidades:

Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST;

Comissão Pastoral da Terra – CPT;

Via Campesina Brasil; 

Pastoral da Juventude Rural – PJR – Fluminense;

Movimento dos Pequenos Agricultores – MPA;

NERU/UFF