Gaza: Os Meninos Sem Rosto

Por Antonio Ateu

 Um corpo pequeno pode-se mostrar, mas a sua cara – a própria imagem da sua alma, sobretudo se não tem as feridas que causaram a morte do corpo – deve ser cruelmente esborratada por um borrão, e assim matamos o menino uma segunda vez. Por Robert Fisk.

A Al Jazeera mostrou a um pai palestiniano em prantos levando o seu bebé recém morto para um cemitério de Gaza. A maioria dos canais de televisão do Reino Unido destruíram o seu rosto com uma mancha cinzenta.

A Al Jazeera mostrou um pai palestiniano em prantos levando o seu bebé recém morto para um cemitério de Gaza. A maioria dos canais de televisão do Reino Unido destruíram o seu rosto com uma mancha cinzenta.

Morrer é uma coisa, que o convertam num borrão, é outra coisa. O borrão é a estranha “nuvem” mística que os produtores pusilânimes de televisão põem sobre a imagem de um rosto humano morto. A preocupação deles não é que os israelitas se queixem de que o rosto de um palestiniano morto demonstra a brutalidade israelita. Nem que o rosto de um israelita morto converterá em besta o palestiniano que o matou. Não. Estão preocupados com o Gabinete de Comunicações [do governo britânico]. Estão preocupados com as regras. Estão preocupados com o bom gosto – algo que estes tipos da TV conhecem bem –, porque têm medo de que alguém proteste se vir nas notícias um verdadeiro humano morto.

Em primeiro lugar, vamos deixar de lado todas as desculpas habituais. Sim, aceito que há uma pornografia do mórbido. Chega uma altura – apesar de, que eu saiba, isto nunca ter sido demonstrado –, em que a repetida imagem de talho humano pode levar outros a cometer atos de grande crueldade. E chega um ponto em que filmar um cadáver terrivelmente mutilado mostra – vamos usar a palavra, só uma vez – uma falta de respeito pelos mortos. Do mesmo modo que quando fechamos a tampa de um caixão, chega um ponto em que devemos baixar a câmara.

Mas não acho que seja por isso que se esborratam os rostos dos mortos. Acho que uma cultura rasteira e cobarde de evitar a morte na televisão está a tomar conta dos jovens insípidos que decidem o que devemos e não devemos ver da guerra, uma prática que tem contornos políticos muito graves.

Porque estamos agora a chegar a um ponto em que os meninos mortos de Gaza – esqueçamos as mulheres e os homens, por um momento – não têm rostos. Um corpo pequeno pode-se mostrar, mas a sua cara – a própria imagem da sua alma, sobretudo se não tem as feridas que causaram a morte do corpo – deve ser cruelmente esborratada por uma bolha científica, e assim matamos o menino uma segunda vez. Permitam-me que explique.

Quando estão vivos, os meninos podem ser filmados. Podem-se mostrar na televisão. Se estão feridos – desde que as lesões não sejam demasiado terríveis – permitem-nos ver o seu sofrimento. Nós como nações, não nos importamos muito, evidentemente. Daí a nossa recusa, por exemplo, de intervir no banho de sangue de Gaza. Podemos sentir piedade por eles – podemos chorar por eles – mas não os respeitamos. Se o fizéssemos, estaríamos indignados com as suas mortes. Mas quando estiverem mortos, devemos mostrar-lhes um respeito que nunca demonstrámos quando estavam vivos. Deve-se manter a privacidade do seu assassinato, protegendo os seus rostos.

Na semana passada, a Al Jazeera mostrou um pai palestiniano em prantos levando o seu bebé recém morto para um cemitério de Gaza. Tinha o cabelo negro e encaracolado e a cara de uma menina gentil, morta como se estivesse a dormir, a inocência feita carne, um anjo que – todos nós – tínhamos assassinado. Mas a maioria dos canais de televisão do Reino Unido – e a BBC ganhou experiência nesta censura – destruíram o seu rosto com uma mancha cinzenta. Os nossos professores de televisão permitiram-nos ver o seu cabelo encaracolado negro. Mas abaixo do cabelo estava esse asqueroso borrão. E à medida que a menina era transportada, o borrão movia-se com a sua cara. Era um insulto ao pai e à menina.

Não a tinha levado ele nos seus braços – em público, até o cemitério – para nos mostrar o grau da sua perda? Acaso não queria que víssemos a cara do anjo que acabava de morrer? É claro que queria. Mas os poltrões da televisão britânica – cobardes, com medo dos seus próprios chefes – decidiram que não se deve permitir a este pai mostrar a magnitude da sua perda. Tiveram que desfigurar a sua filha com essa mancha repugnante. Converteram uma menina numa boneca sem rosto.

Isto não tem nada a ver com o pedido oh-tão-moral do Gabinete de Comunicações de que o público nunca veja o “ponto da morte” – apesar de terem mostrado uma palestiniana de Gaza a morrer na sala de operações num documentário de televisão de 1992 e constantemente exibirem imagens de jornalistas de televisão em Bagdade a ser alvo de disparos mortais a partir de um helicóptero dos Estados Unidos. E não tem nada a ver com o “bom gosto”, seja o que for. Pessoalmente, acho que a visão das armas israelitas ou dos rockets do Hamas é de um mau gosto repugnante – são, no fim das contas, os dealers da morte, não é assim? –, mas não, a televisão absorve estas cenas terríveis. Devemos vê-las. Não há problema. As armas são boas. Os corpos são maus. Oh, que guerra encantadora.

Sei que muitos dos meus colegas de televisão estão furiosos por causa desta censura da morte. “Ridículo, absurdo e cada vez pior”, foi como o meu velho parceiro Alex Thomson, do Canal 4, reagiu quando lhe pedi para falar deste caso de autocensura da semana passada. Recordou como os telespectadores britânicos puderam ver o pessoal médico a recolher partes de corpos da estação de autocarros de Oxford Street em Belfast na Sexta-feira Sangrenta da Irlanda do Norte. Isto, é claro, sublinhou a maldade do IRA.

E historicamente, não temos qualquer acanhamento a respeito de mostrar os mortos. Documentários ainda exibem as escavadoras do exército britânico carregadas de milhares de cadáveres de judeus nus em fossas comuns no campo de concentração de Belsen em 1945. Estes últimos seis meses emitimos pela televisão milhares de imagens de soldados mortos – desfigurados, mutilados, apodrecendo – em documentários de grande alcance da guerra de 1914-18. Há um limite de tempo para a morte, como há a respeito dos crimes de guerra?

Jornalista do The Independent da Grã-Bretanha. Especial para o Página/12.

Tradução para castelhano de Celita Doyhambéhère.

FONTE: http://jornalggn.com.br/blog/antonio-ateu/gaza-os-meninos-sem-rosto

Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net

Filha de agricultor do V Distrito denuncia Prefeitura de São João da Barra por descaso com a saúde da população

Recebi hoje um e-mail contendo uma denúncia feita pela filha de um agricultor que foi desapropriado pela Companhia de Desenvolvimento Industrial do Rio de Janeiro (CODIN), e que hoje se encontra em uma situação bastante grave causada pela deterioração da sua saúde.

Como este não é o único caso entre os agricultores desapropriados, e como a narrativa da filha deste agricultor é bastante clara, o que eu espero é que as autoridades municipais de São João da Barra apurem essa denúncia o mais rápido possível. Se demorarem muito é possível que o caso receba uma atenção maior por parte da mídia corporativa.

Denuncio São João da Barra

É com esperança de resultado que denuncio a Prefeitura de São João da Barra, em meu nome e de toda população do 5º Distrito e proximidades. Meu pai encontra-se no Centro Municipal de Emergência Dr. Pedro Otávio Enes Barreto aguardando vaga para internação desde 30 de julho 2014. Ele é idoso e já sofreu 3 Acidentes Vasculares Cerebrais (AVCs), e se encontra com pneumonia e outras complicações. O único hospital da cidade (de São João da Barra) não tem recursos para internar meu pai, e minha preocupação era de a qualquer momento ele ser transferido para o hospital de Itaperuna RJ que fica em média 3 horas de distância, o que vem acontecendo com grande parte da população que precisa de internação numa Unidade de Terapia Intensiva (UTI) É frequente encontrar familiares em prantos revoltados de ver quem ama internado em Itaperuna sem condições de estar viajando ou alugando casa para ficar próximo de seu parente.

infelizmente o que temia aconteceu ,e foi a vez minha e de toda família chorar, pois fomos informados que meu pai piorou e que seria transferido para Itaperuna. Mas a dois dias, melhor em 2 de agosto, saiu uma vaga no sistema para enfermaria clínica médica no Hospital Santa Casa de Campos, vaga essa solicitada pelo centro de emergência. Meu pai foi transferido para lá, e o médico “Dr. ESTIVI” avaliou meu pai, e ele foi recusado e mandado de volta para São João da Barra. O médico me afirmou por telefone que a médica se omitiu a passar as reais condições do paciente.

O médico ainda me disse que meu pai entrou na fila de espera errada, pois o caso do meu pai seria para UTI,  e não para enfermaria. Aliás, o médico falou mais: ele disse que já é de costume passar informação errada de pacientes com tentativa de transferir para Campos, e se livrar da responsabilidade com o paciente

Fiquei sabendo por outros que a Prefeitura de São João da Barra não paga os convênios aos hospitais de Campos, e por esse motivo, não estão aceitando pacientes vindos dali. 

Pergunto:  Cidade  em está sendo construído o Superporto do Açu, Prefeitura que gasta com shows caríssimos, e na saúde não cuida, será por quê? Fico grata por interesse na reportagem.

Meus telefones de contato são os seguintes: (21) 99734-0896  e  (21) 3340-3041.

Hoje estarei viajando para São João da Barra RJ, e aguardo contato.

REPASSE, ATÉ QUE TODOS ACORDEM E APRENDAM A REIVINDICAR SEUS DIREITOS DE CIDADÃO PAGANTES DE SEUS IMPOSTOS.   

Atenciosamente,

Edilânia Ribeiro de Almeida

Ativistas presos em São Paulo: Não era bomba, era Nescau!

hideki rafael

 

De acordo com perícia do Gate, Fábio Hideki  portava um um frasco fixador para corantes, Rafael Lusvarghi, um pote de achocolatado; ambos estão presos há mais de um mês 

Segundo os laudos da perícia realizada pelo Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate) e pelo Instituto de Criminalística (IC) de São Paulo, apresentados nesta segunda-feira (4), os artefatos apreendidos com os manifestantes Fábio Hideki Harano e Rafael Marques Lusvargh em 23 de junho não eram explosivos, conforme aponta uma de suas acusações. 

Ambos estão presos há 44 dias e respondem por associação criminosa, resistência, desobediência, incitação ao crime e porte de explosivos.

Essa última imputação foi motivada pela apreensão de dois objetos em específico: com Lusvarghi, foi encontrado um pote de Nescau que a polícia julgou se parecer com um coquetel Molotov, alegando ainda que o manifestante tentou “dispensá-lo”; Com Hidéki, um frasco de fixador de corantes em tecidos com um fio de nylon que os policiais temeram ser um pavio. 

Na última sexta-feira (1º), o juiz Marcelo Matias Pereira decidiu manter os manifestantes presos, dizendo que “há depoimentos consistentes” que apontam que ambos carregavam “artefatos explosivos/incendiários”.  

FONTE: http://spressosp.com.br/2014/08/05/nao-era-bomba-era-nescau/

Eike continua entregando seus “assets”: Fundo Mubadala também abocanha a MM(X)

A saga morro abaixo de Eike Batista tem outro capítulo envolvendo o fundo Mubadala que pertence nominalmente ao emirado de Abu Dabhi. É que além de sua parte na Prumo que hoje controla o Porto do Açu, Eike também teve de entregar ações e junto com elas o controle da MM(X). Com isso, ele também perde sua participação em outro porto, o do Sudeste.

Com esse encolhimento de Eike Batista, o que estamos assistindo é também o fracasso da lógica dos “campeões nacionais” idealizada no governo Lula que, por tabela, entrega áreas estratégicas e bilhões de dólares de dinheiro público a fundos de investimentos estrangeiros. 

E pensar que a este tipo de entrega se arriscou dar o nome de “Neodesenvolvimentismo”. O nome correto, agora podemos ver com mais clareza, deveria ser “Neoentreguismo” ou “Neosocialliberalismo”. Mas seja o nome que se dê, já sabemos bem quem são os maiores perdedores. E uma pista, Eike Batista não é um deles!

Eike vai transferir 10,52% do capital total da MMX para fundo Mubadala

Por Natalia Viri | Valor

SÃO PAULO  –  A mineradora MMX informou que o controlador Eike Batista vai transferir 10,52% do capital total da companhia para o fundo Mubadala, de Abu Dahbi. A transferência faz parte da reestruturação do investimento do fundo árabe no grupo EBX.

Com a transferência, Eike deve perder  controle absoluto da companhia, com redução de sua participação dos quais 59,3% para pouco menos de 49%. 

O Mubadala já é sócio da MMX no projeto do Porto do Sudeste. O controle do projeto, o mais promissor da companhia, foi vendido para um consórcio formado pelo fundo árabe e a operadora de portos holandesa Trafigura, por US$ 400 milhões, em meados do ano passado. A MMX ficou com 35% do empreendimento.

Em comunicado divulgado há pouco, a mineradora ressaltou que a transferência de ações está sujeita a “condições precedentes usuais” e está prevista para acontecer ainda o terceiro trimestre. Hoje, os papéis da MMX encerraram o pregão em alta de 1,42%, a R$ 1,43. Na máxima do dia, contudo, chegaram a R$ 1,48, com avanço de quase 5%. 

Fonte: http://www.valor.com.br/empresas/3639054/eike-vai-transferir-1052-do-capital-total-da-mmx-para-fundo-mubadala#ixzz39Yid1DOj

Eike Batista fica mais distante do Porto do Açu ao entregar ações da Prumo ao fundo Mubadala

Eike irá transferir 10,44% das ações da Prumo ao Mubadala

Segundo comunicado enviado à CVM, serão transferidas 185.630.627 ações ordinárias do capital social da Prumo

Wilson Dias/AGÊNCIA BRASIL

Eike Batista, dono do grupo EBX

A transferência está prevista para acontecer no terceiro trimestre

São Paulo – A Prumo Logística, ex-LLX, informou nesta terça-feira que Eike Batista irá transferir 10,44% das ações da companhia para Mubadala Development diretamente e/ou por meio de suas afiliadas

Segundo comunicado enviado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), serão transferidas 185.630.627 ações ordinárias do capital social da Prumo.

A transferência está sujeita ao cumprimento de condições precedentes e está prevista para ocorrer no terceiro trimestre deste ano.

O comunicado afirma ainda que a Prumo manterá seus acionistas e o mercado em geral informados quanto à concretização da transferência das ações e alteração de participação acionária relevante na companhia.

O Mubadala

Com ativos avaliados em mais de 50 bilhões de dólares espalhados pelo mundo, o fundo Mubadala foi criado em 2002 e tem participações em diversos setores da indústria, como energia, saúde, infraestrutura, financeiro, aeroespacial, imobiliário, serviços e comunicação. No entanto, seu principal foco está no petróleo. Saiba mais sobre o Mubadala.

FONTE: http://exame.abril.com.br/mercados/noticias/eike-batista-ira-transferir-10-44-das-acoes-da-prumo-para

Harvey: A violência nas ruas e o fim do capital

harvey

[9 de junho de 2014, foto de Mídia NINJA]

Por David Harvey.*

O artigo a seguir é um trecho editado do mais recente livro de David Harvey, 17 contradições e o fim do capitalismo, em que o geógrafo britânico identifica e disseca didaticamente todas as contradições do capital segundo a análise feita por Marx – para ele, seriam exatamente dezessete. Neste trecho, que a Boitempo antecipa com exclusividade em seu Blog, Harvey procura tecer os fios de um novo humanismo revolucionário, entre a contraditória proliferação de ONGs e as explosões violentas nas ruas, no Brasil e no mundo.

***

Em poucas palavras, o problema com a tradição humanista é que ela não internaliza uma boa compreensão de suas próprias e inescapáveis contradições internas – algo mais claramente evidenciado no caso da contradição entre liberdade e dominação. O resultado é o que Frantz Fanon caracterizou como “humanitarismo insípido”. Há evidências suficientes disso em seu revivalrecente. A tradição burguesa e liberal de humanismo secular acaba formando uma base ética piegas para uma moralização ineficaz sobre o triste estado do mundo e para a construção de campanhas, igualmente ineficazes, contra os males da pobreza crônica e da degradação ambiental.

É provavelmente por essa razão que o filósofo francês Louis Althusser lançou sua ferrenha e influente campanha na década de 1960 para extirpar do marxismo todo o falatório sobre socialismo humanista e alienação. O humanismo do jovem Marx, conforme expresso nos Manuscritos econômico-filosóficos de 1844, insistia Althusser, estaria separado do Marx científico d’O capital por uma “ruptura epistemológica” – algo que estaríamos ignorando a prejuízo próprio. O humanismo marxista, ele escrevia, é pura ideologia, teoricamente vazio e politicamente enganoso – se não mesmo perigoso. A devoção de um dedicado marxista como Antonio Gramsci ao “humanismo absoluto da história humana” era, na visão de Althusser, completamente deslocada.

O enorme aumento e a natureza das atividades compactualizantes das ONGs humanistas ao longo das últimas décadas parece sustentar as críticas de Althusser. O crescimento do complexo “caridoso-industrial” reflete principalmente a necessidade de aumentar a “lavagem de consciência” para uma oligarquia mundial que vem dobrando sua riqueza e poder de anos em anos em meio à estagnação econômica. Seu trabalho tem feito muito pouco ou quase nada para lidar com a degradação e despossessão humana, ou com a degradação ambiental que se alastra. Isto se dá, estruturalmente, porque as organizações anti-pobreza precisam operar sem jamais intervir na continuada acumulação de riqueza, de onde tiram seu próprio sustento. Se todos que trabalhassem em uma organização anti-pobreza passassem, da noite para o dia, a promover políticas anti-riqueza, logo nos veríamos vivendo em um mundo bem diferente. Pouquíssimos doadores caridosos – nem mesmo Peter Buffett, eu suspeito – iriam financiar uma coisa dessas. E as ONGs, que agora estão no centro do problema, não iriam de todo modo querer isso (apesar de haver muitos indivíduos no interior do mundo das ONGs que estariam dispostos a tal, mas que simplesmente não podem).

Fanon, é claro, choca muitos humanistas liberais com seu endosso de uma violência necessária e sua rejeição da via conciliatória. Como, ele se pergunta, a não-violência é possível numa situação estruturada pela violência sistemáticaexercida pelos colonizadores? Que sentido tem uma população faminta declarar greve de fome? Por que, como Herbert Marcuse se perguntava, deveríamos ser persuadidos pelas virtudes de tolerância para com o intolerável? Em um mundo dividido, onde o poder colonial define os colonizados como subumanos e malvados por natureza, a conciliação é impossível.

Não levanto a questão da violência aqui, tampouco o fez o próprio Fanon, porque sou ou ele era favorável a ela. Ele a sublinhou porque a lógica das situações humanas tão frequentemente se deteriora a ponto de não restar nenhuma outra opção. Até Ghandi reconheceu isso.

Mas a ordem social do capital é essencialmente muito diferente de suas manifestações coloniais? Aquela ordem certamente buscou se distanciar, em casa, do cálculo cruel da violência colonial (algo como um mal necessário a ser aplicado sobre os outros, incivilizados, ‘de lá’ para seu próprio bem). Ela teve de disfarçar, em casa, a inumanidade descarada que demonstrava no exterior. ‘Do lado de lá’ as coisas poderiam ser deslocada para fora de nosso campo de visão e de audição. Só agora, por exemplo, a violência cruel da supressão britânica do movimento Mau Mau no Quênia na década de 1960 está sendo completamente reconhecida.

Quando o capital passa perto de tal inumanidade em casa ele tipicamente elicia uma resposta semelhante àquela dos colonizados. Na medida em que ele abraçou a violência racial em casa, como o fez nos Estados Unidos, produziu movimentos como os Panteras Negras e a Nação de Islã com seus lideres como Malcom X e, em seus últimos dias, Martin Luther King, que viu a ligação entre raça e classe e sofreu as consequências decorrentes. Mas o capital aprendeu uma lição. O quanto mais raça e classe se entrelaçam, mais rápido o pavio revolucionário queima.

Mas o que Marx deixa tão claro em O capital é a violência diária constituída na dominação do capital sobre o trabalho no mercado e no ato de produção, bem como no terreno da vida diária. Quão fácil não é pegar descrições das condições de trabalho contemporâneas, por exemplo, nas fábricas de eletrônicos de Shenzesn, nas fábricas de roupas em Bangladesh ou as confecções clandestinas de Los Angeles, e encaixá-las, sem prejuízo, no clássico capítulo de Marx sobre a jornada de trabalho n’O capital? Quão surpreendentemente fácil não é pegar as condições de vida das classes trabalhadoras, dos marginalizados e desempregados em Lisboa, São Paulo e Jacarta, e as justaporem à clássica descrição de Engels em 1844 em A situação da classe trabalhadora na Inglaterra?

O privilégio e o poder oligárquicos da classe capitalista estão levando o mundo em uma direção semelhante em quase toda a parte. O poder político – sustentado por uma vigilância, um policiamento e uma violência militarizada intensificantes – está sendo usado para atacar o bem-estar de populações inteiras tidas como dispensáveis. Diariamente testemunhamos a desumanização sistemática de povos descartáveis. Implacável, o poder oligárquico está agora sendo exercido por uma democracia totalitária destinada a interromper, fragmentar e suprimir qualquer movimento político coerente organizado contra a riqueza (como o occupy, por exemplo). A arrogância e o desprezo com que os afluentes agora veem os menos abastados – mesmo quando (particularmente quando) em disputa uns com os outros por trás de portas fechadas para mostrar quem pode ser o mais caridoso de todos – são fatos notáveis de nossa atual condição.

A “lacuna de empatia” entre a oligarquia e o resto é imensa, e não para de crescer. Os oligarcas confundem renda superior com valor humano superior e consideram seu sucesso econômico como evidência de seu conhecimento superior do mundo (ao invés de produto de seu controle superior sobre as artimanhas da contabilidade e sobre determinadas ferramentas legais). Eles não sabem ouvir o sofrimento do mundo porque não podem e não vão deliberadamente confrontar seu papel na construção dessa situação. Eles não vêem e não podem ver suas próprias contradições. Os bilionários irmãos Koch doam caridosamente a uma universidade como a MIT ao ponto de construírem uma linda creche para o corpo docente merecedor de lá enquanto simultaneamente esbanjando incontáveis milhões de dólares em apoio financeiro a um movimento político (liderado pela facção do Tea Party) no congresso estadunidense que corta vale-alimentação e nega bem-estar, suplementos nutricionais e creches para milhões vivendo na ou perto da miséria absoluta.

É num clima político como este que as erupções violentas e imprevisíveis que estão ocorrendo por todo o mundo episodicamente (da Turquia e do Egito ao Brasil e à Suécia só em 2013) parecem mais e mais como tremores prévios de um terremoto vindouro que fará das lutas revolucionárias pós-coloniais da década de 1960 parecerem brincadeira de criança. Se há um fim do capital, então isto é certamente de onde ele virá e suas consequências imediatas dificilmente se provarão felizes para qualquer um. Isso é o que Fanon tão claramente nos ensina.

A única esperança é que a massa da humanidade verá o perigo antes que a podridão vá longe demais e o dano humano e ambiental se torne grande demais para consertar. Diante do que o Papa Francisco com razão chama de “globalização da indiferença”, é imperativo que as massas globais, como Fanon bem disse, “resolvam despertar, sacudir o cérebro e cessar de tomar parte no jogo irresponsável da bela adormecida no bosque.” (Os condenados da terra, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968, p.85). Se a bela adormecida despertar a tempo, então talvez possamos esperar um final mais com cara de conto de fadas. O “humanismo absoluto da história humana”, escreveu Gramsci, “não visa a resolução pacifica das contradições existentes na história e na sociedade mas, ao contrário, é a própria teoria dessas contradições”. A esperança está latente nelas, disse Bertolt Brecht. Existem suficientes –dezessete – cativantes contradições no interior no domínio do capital para semear o solo da esperança.

* Este artigo é um trecho editado do livro 17 contradições e o fim do capitalismo(Boitempo, no prelo). A tradução é de Artur Renzo, para o Blog da Boitempo.

FONTE: http://blogdaboitempo.com.br/2014/07/31/harvey-a-violencia-nas-ruas-e-o-fim-do-capital/

Leitor envia mais imagens mostrando evolução da erosão na Praia do Açu e reclama do descaso

Professor,
Com o objetivo de enriquecer um pouco mais sua postagem sobre o problema da erosão enfio fotos  da Praia do Açu em JANEIRO DE 2013, JULHO DE 2013 e JANEIRO DE 2014 e JULHO DE 2014. Essas imagens dão uma boa ideia de como acompanhar a evolução na erosão da nossa praia.
OLYMPUS DIGITAL CAMERA
01/01/2013
SAMSUNG CAMERA PICTURES
02/01/2014
OLYMPUS DIGITAL CAMERA
 03/07/2013
açu 29072014
29/07/2014
Envio também 2 imagens de satélite (vide Google Earth) que mostram o  Estaleiro em JANEIRO DE 2012 e JANEIRO DE 2014, mostrando claramente que se comparados com as fotos que conforme o quebra-mar do Terminal 2 (T2) avança também a erosão na Praia do Açu
Janeiro de 2012
Janeiro de 2012       
janeiro de 2014Janeiro de 2014
Não queremos culpar esse ou aquele governo, esse ou aquele empreendimento, mas o que estava no EIA/RIMA já dizia que poderia ocorrer essa processo erosivo, mas das medidas e monitoramento que deveriam ser feitos, não temos qualquer conhecimento.

Estudante usa rede social para investigar as opiniões dos discentes da UENF sobre a Luta por Moradia Estudantil

Por Jéssica Matheus de Souza*

Esta pesquisa foi realizada visando estabelecer a situação causadora dos protestos estudantis, sendo que uma das reivindicações é auxílio-moradia, sendo justificada pela dificuldade dos alunos de arcar com suas despesas de estadia na cidade mesmo com o benefício das bolsas e cotas, o que causaria evasão. O questionário foi disponibilizado pela internet, contando com a participação de 226 alunos da UENF, e os resultados comprovam o que os estudantes já sabiam: existe grande disparidade entre as bolsas estudantis e os gastos arcados pelos alunos para se manter na faculdade.

A maioria dos estudantes vem de cidades distantes e, por isso, tem gastos como aluguel e outros itens, na grande maioria das vezes contando só com a quantia recebida na UENF. Entre os entrevistados, 78,7% afirmaram ter vindo de outra cidade para estudar. Sabe-se também que o valor atual tanto das cotas quanto o da bolsa de apoio acadêmico é de R$ 300,00, e as bolsas de IC, extensão e monitoria são remuneradas em R$ 420,00. Entre os alunos que responderam a pesquisa, 19,9% recebiam bolsa de apoio; 3,9% monitoria; 7,5% extensão; 33,3% IC, enquanto cotistas alcançaram 41,6%. Por mais que seja possível acumular a bolsa de cotas com uma das outras 3, somente 8,4% deles o fazem.

Em relação aos arranjos quanto à moradia, 19,9% moram com a família, 11,9% moram sozinhos, 7,5% moram com conhecidos e a grande maioria, 58,4% moram em repúblicas. Entre os estudantes que moram sozinhos, 40,7% pagam de R$ 500 a R$ 600 de aluguel. O total dessa despesa entre as repúblicas é em 51,5% dos casos entre R$ 600 e R$ 900, e em 23,5% é acima de R$ 900. O número médio de pessoas por república é de 3,6, e esses estudantes pagam cerca de R$ 315 pela sua parte no aluguel. Isso implica que para um cotista ou bolsista de apoio que mora atualmente em república, o que ele recebe ainda é menos que o aluguel, e essa não é sua única despesa, ele ainda precisa arcar com alimentação, transporte, farmácia e contas variadas.

Os gastos com alimentação também foram analisados. Os estudantes que moram sozinhos responderam que gastam em média R$ 292 com alimentação, contra R$ 233 gastos em média por cada pessoa que mora em república. Se se analisar a despesa a respeito de um morador de república e juntarmos o aluguel, soma-se R$ 548, uma quantia que um estudante que não recebe nada além de uma bolsa da UENF não conseguiria pagar. Ainda existe o fator que essas não são as únicas despesas, contas de luz, água, gás, transporte, internet e material de estudo aumentam ainda mais o valor total.

Por isso, para se manter, 8,4% dos entrevistados trabalham e 76,5% recebem auxílio da família. Como se sabe que por vezes os responsáveis não têm condição de contribuir, esses estudantes foram convidados a expressar o grau de dificuldade dessa ajuda, sendo 1 sem dificuldades e 10 extremamente difícil; a média foi 6,4, sendo que 50% deles deu de 7 a 10 em dificuldade.

Sobre a reivindicação dos estudantes de apoio em relação a moradia e em relação as formas de contribuição propostas pelos grevistas para a fixação do estudante na Universidade, 22,5% optaram pela construção de um alojamento, 66,3% preferiram auxílio moradia, e 6% optou por ‘outro’, sendo que parte deles queria os dois, assim ficaria por parte dos estudantes escolher um.

Os alunos foram perguntados sobre se apoiavam ou não a greve dos professores; 66% responderam que sim ou deveria durar o tempo que fosse necessário para que fossem cumpridas as reivindicações, 21,2% disseram que deveria durar pouco ou que já deveria ter acabado a fim de não prejudicar os estudantes, e apenas 6% se disse contra. Em relação a greve dos técnicos, esses números passam a ser 63,2%; 21,3% e 11%, respectivamente.

Por fim, os estudantes foram questionados sobre como eles avaliariam a atuação de certos órgãos da UENF, sendo que 0 representa completa ineficiência e 10 seria máxima eficiência. Quanto a reitoria, sua atuação quanto à defesa dos interesses e das necessidades e demandas dos estudantes, a média foi 2,5; em relação aos professores foi 3,5 e em prol dos técnicos a média foi 3,2. A atuação do DCE em relação aos interesses dos estudantes teve média 6,9; e da ADUENF em relação aos professores foi 7,1, ambas consideravelmente acima da reitoria.

Jéssica Matheus de Souza é estudante do curso de Ciências Sociais da UENF

Produtores brasileiros têm prejuízos com sementes geneticamente produzidas

Photo courtesy of Shutterstock

Numa daquelas notícias desagradáveis que a mídia corporativa brasileira não gosta de dar, a Reuters noticia que a Associação de Produtores de Soja (APROSOJA), que representa os produtores agrícolas do centro oeste, está reclamando que sementes geneticamente modificadas de milho (o milho Bt) não estão oferecendo a devida resistência contra uma lagarta que está causando graves prejuízos (Aqui!).

Como resultado, a APROSOJA está demandando que a Monsanto, DuPont, Syngenta e Dow adotem medidas compensatórias pelas perdas ocorridas (Aqui!), visto que em vez dos ganhos auspiciosos que foram prometidos, os produtores estão tendo que gastar mais 54 dólares por hectare plantado.

O interessante é que a grande sugestão que a Monsanto está oferecendo é que parte dos plantios seja feito com sementes tradicionais para evitar que as lagartas possam desenvolver resistência às sementes geneticamente modificadas!

Uma consequência dessa situação será o aumento do uso de agrotóxicos, o que vai de encontro à promessa das empresas sementeiras de que as sementes geneticamente modificadas aumentariam a produção e diminuiriam o uso de agrotóxicos. Se isso for propaganda enganosa, eu não sei mais o que seria!

Henry Siegman, importante liderança da comunidade judaica norte-americana, classifica ataque em Gaza como “massacre de inocentes”

Enquanto leio que uma manifestação de 2.000 pessoas ocorreu hoje no Rio de Janeiro para apoiar o massacre em curso em Gaza pelas mãos do estado de Israel, tivesse acesso a uma entrevista dada por Henry Siegman, que vem a ser um dos mais importantes líderes da comunidade judaica nos EUA onde ele classifica o ataque como um “massacre de inocentes”.

As reflexões que Siegman faz sobre a situação mostram que a crise política que deverá se abater sobre Israel não virá dos palestinos ou dos árabes, mas sim por uma profunda rejeição dos métodos e explicações deste massacre de dentro da própria comunidade judaica.

E se isso se confirmar, ai veremos a ordem política herdada da Segunda Guerra Mundial entrar em uma crise agônica.

Para quem quiser ler toda a entrevista de Henry Siegman, basta clicar Aqui!