O recuo estratégico do PT alimenta a indigência intelectual da direita, e nos expõe ao comportamento antidemocrático das viúvas da ditadura de 1964

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Não sou historiador e, por isso, não vou cair na besteira de dizer que a direita brasileira está num momento de especial mediocridade intelectual. É que para afirmar o contrário isso teríamos de assumir que a direita brasileira já teve quadros melhores. Mas se olharmos em retrospectiva, intelectuais de direita com alguma robustez poderiam, quando muito, encher uma Kombi.  Mas, convenhamos, a direita nunca precisou pensar nada, já que sempre reinou soberana com o poder dos fuzis do seu lado.

Agora, se olharmos a situação reinante nas facções da direita ideológica, o caso é de dar dó aos que possuem um mínimo de treino intelectual crítico. A quantidade de besteiras propagadas chegou a tal ponto que não dá nem para prestar atenção. Aliás, melhor seria prestar atenção, pois temos sinais claros de que a mediocridade absoluta está gerando um nicho de fascistas que sequer sabe discernir agendas progressivas, mas essencialmente liberais, das bandeiras ideológicas que vem servindo aos partidos de esquerda desde que capitalismo é capitalismo.

Um exemplo  é a gritaria comandada pelos deputado federais Jair Bolsonaro e Marco Feliciano em relação à questão da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) que tratou da questão da violência contra a mulher no Brasil (Aqui!).  Como a questão da violência doméstica é algo inaceitável em qualquer sociedade minimamente moderna, esses dois próceres da direita partidária estão sinalizando  com suas declarações de que devemos continuar coletivamente calados e assistir passivamente às agressões físicas e assassinatos que enchem diariamente vários páginas de noticiário.

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Pela lógica explícita de Feliciano e Bolsonaro, também não podemos falar contra a homofobia, o racismo e a ocorrência do trabalho escravo no Brasil. É que tudo isso, ao contrário de serem elementos objetivos de nossa sórdida realidade social, são coisas fictícias criadas pelo PT.

Antes de falar no PT, digo que o maior problema não é termos parlamentares do calibre de Bolsonaro e Feliciano falando e escrevendo esse tipo de barbaridade. O problema real é que foram eleitos e por um número significativo de votos em seus respectivos estados. E o que isto quer dizer? No mínimo que há eleitorado para apoiar este tipo de programa ideológico retrógrado nas duas principais unidades da federação brasileira. Isto é que deveria ser analisado, pois reflete um elemento objetivo da crise do Estado brasileiro e da nossa frágil democracia.

E como o neoPT entra nessa equação de horrores? Para mim, o giro dado pelo PT em direção à direita acabou facilitando a naturalização de comportamentos dos quais muita gente tinha vergonha de explicitar após a retirada desonrosa dos militares do poder em 1985. Mas ao se alinhar a herdeiros diretos do regime militar (José Sarney é apenas o exemplo mais fácil), o que o PT fez foi dar coragem aos segmentos mais atrasados da sociedade brasileira para elegerem seus parlamentares ideológicos, e também irem às ruas liberar seu ódio de classe contra os trabalhadores.

Antes que alguém diga que estou culpando o PT e sua direção política de estarem na gênese dos comportamentos de ódio e intolerância a que até seus dirigentes estão submetidos, falo logo que é isso mesmo. E o problema para nós que defendemos uma agenda de transformação social no Brasil que vá além de míseras concessões liberais é nos diferenciar de um projeto partidário que sacrificou tudo pelo poder.

Finalmente, é de dar tristeza quando olhamos para nossos vizinhos sul americanos que também passaram por ditaduras sangrentas e ver como eles trataram seus criminosos de farda, enquanto aqui tudo ainda permanece lacrado em arquivos secretos.  É dessa impunidade que brotam os ovos da serpente.

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