Que diria Carlos Marighella da chapa presidencial do capitão e do general?

Sou um feliz portador de uma cópia do livro “Marighella, o guerrilheiro que incendiou o mundo” do jornalista Mário Magalhães.  Como tive a oportunidade de organizar lançamento da obra na Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), lembrei hoje de uma das muitas histórias curiosas que constam da obra de Mário Magalhães, e que ele compartilhou com a plateia que esteve presente no evento realizado na Sala de Multimídia do Centro de Ciências do Homem.

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Essa história, aliás, estava imortalizada na página 424 do livro, e narra um encontro frustrado entre Carlos Marighella e Carlos Lamarca onde o líder da Aliança Libertadora Nacional não conseguiu que sua organização e a Vanguarda Popular Revolucionária lançassem um documento comum, apesar da concordância do seu interlocutor.  O que impediu a assinatura do documento que indicaria uma unidade política entre a ALN e a VPR foi a oposição de Onofre Pinto, outra liderança da organização comandada por Lamarca.

marighella

O fracasso da negociação teria então irritado Marighella, já que Onofre Pinto era sargento, enquanto Carlos Lamarca era capitão. Em função disso, Marighella teria dito que “nunca vi capitão obedecer a sargento“.

Pois bem, passados 39 anos daquele momento crucial na luta armada contra o regime militar, temos uma chapa presidencial que tem um capitão concorrendo a presidente, enquanto a vice-presidência é pleiteada por um general.

bolsonaro

Não tendo como não notar a semelhança na inversão hierárquica, eu me pergunto sobre o teria Carlos Marighella a dizer sobre a chapa Bolsonaro/Mourão.  Certamente teria muito mais a dizer do que simplesmente notar a evidente inversão hierárquica.

Indolência, malandragem e o DNA do brasileiro, segundo o vice de Jair Bolsonaro

Inaugurando sua condição de candidato a vice-presidente na chapa encabeçada pelo deputado federal Jair Bolsonaro, o general Antonio Hamilton Mourão decidiu ir fundo nas elaborações do seu companheiro ao afirmar que o Brasil é uma economia periférica por causa da “indolência” do índio e a “malandragem” do negro [1].

vice bolsonaro

Mourão ainda arrematou dizendo que “infelizmente gostamos de mártires, líderes populistas e dos macunaímas“, adicionando ainda que ” Isso faz parte do DNA do brasileiro. Nós não somos nenhuma raça pura. Somos uma amálgama dessas culturas“.

Por mais que se saiba que a chapa Bolsonaro/Mourão possui um parcela do eleitorado que não só pensa a mesma coisa, mas como compartilha, digamos, a sinceridade da dupla, há que se ver qual é efetivamente a razão desse tipo de manifestação que nos remete às formas mais explícitas de validação de teses eugenistas. Ampliação da quantidade de votos não me parece ser a mais prioritária.

O que parece cada mais claro é que Jair Bolsonaro e seu parceiro de chapa estão dispostos a cumprir nestas eleições o papel de boi de piranha para ver se consegue atravessar a sua caravana para outras batalhas eleitorais.

De toda forma, as declarações do general Mourão mostram que se tem quem acha que essa campanha presidencial será de baixo nível, o nível pode ser bem pior do que esses pessimistas estão achando.

De minha parte, como já testemunhei a luta de vários grupos indígenas para sobreviver em suas aldeias e acompanho todos os dias o trabalho duro que os negros brasileiros são obrigados a cumprir em condições completamente desiguais em termos de qualidade de vida e salários pagos, só posso lamentar que um general da reserva não se sinta constrangido a não emitir este tipo de opinião rasa e desconectada das verdadeiras razões pelas qusis o Brasil não alcança seu potencial estratégico.  


[1] https://oglobo.globo.com/brasil/vice-de-bolsonaro-diz-que-brasileiro-herdou-indolencia-do-indio-malandragem-do-africano-22955042#ixzz5NRx9rwZg

FGV destrincha repercussão de entrevista de Jair Bolsonaro: nem tudo o que reluz é ouro

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Muito tem se falado da alta repercussão da sabatina amiga a que foi submetido o deputado federal Jair Bolsonaro no programa Roda Viva na última segunda-feira.  O pessoal da Fundação FGV, ao contrário de alguns membros mais ingênuos da mídia corporativa que ficaram deslumbrados com o “sucesso de audiência” do programa, resolveu dar uma analisada no que aconteceu no Twitter em termos de repercussão de programas e os números mostram que os que pensam a campanha de Bolsonaro já devem saber que nem sempre alta audiência implica em apoio.

Como mostram os números abaixo, ao menos no Twitter, os que foram contrários aos pontos de vistas de Bolsonaro foram superiores numa proporção de 2:1 aos que apoiaram. Em suma, deputado fluminense realmente causou alvoroço, mas necessariamente do tipo que lhe trouxe ganhos políticos. Aliás, muito pelo contrário.

Entrevista com Bolsonaro provoca mais de 60 mil tuítes por hora sobre pré-candidato, aponta FGV DAPP

Sabatina mobiliza 717.308 publicações no Twitter em 12h; debate se dividiu em dois principais grupos: um contra (54,28%) e um a favor(25,96%)

Impulsionado por sabatina realizada pelo programa de TV “Roda Viva”, o debate sobre o deputado federal e pré-candidato à Presidência Jair Bolsonaro mobilizou 717.308 publicações no Twitter entre as 20h de segunda (30) e as 8h de terça (31), cerca de 60 mil tuítes por hora. O volume registrado em 12 horas é equivalente a cerca de 65% das menções sobre o presidenciável computadas nos sete dias anteriores (de 23 a 29 de julho). O pico de referências ocorreu por volta das 23h, quando foram registradas aproximadamente 40% das menções e uma média de 4,6 mil tuítes por minuto.

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Entre as hashtags mais utilizadas, #bolsonaronorodaviva esteve presente em 33% das menções, e parte delas tende a direcionar críticas aos jornalistas. A #rodaviva foi citada em 27% das postagens e usada em críticas às falas do pré-candidato.

Mapa de interações

 

As interações motivadas pela entrevista de Jair Bolsonaro no “Roda Viva” geraram dois principais grupos de discussões, com posições opostas no debate. O maior deles, em laranja no mapa a seguir, agregou mais de 54,2% das contas em interação e é composto de perfis que se posicionam de forma contrária ao deputado federal. O segundo maior grupo, em verde, tem cerca de 26% dos perfis e demonstra apoio a Bolsonaro. Também foram identificados dois grupos menores (rosa e cinza), com quase 5% dos perfis, cada. A presença de robôs não foi significativa na análise.

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O grupo laranja é menos coeso que o verde e apresenta perfis heterogêneos. De forma geral, o grupo laranja critica fortemente o deputado por causa de seus posicionamentos, considerados pelos usuários como preconceituosos. Por conta disso, houve fortes críticas relacionadas à sua exaltação da ditadura. O tuíte mais compartilhado no grupo ridiculariza uma fala de Bolsonaro na qual o deputado disse que os portugueses “nem botavam o pé na África”. O segundo tuíte com maior destaque foi o primeiro de uma sequência de mensagens criadas por um escritor e publicitário que dá dicas de como derrotar Bolsonaro nas eleições de 2018. Muitas postagens no grupo também ironizam os conhecimentos do deputado federal e dizem que ele não deveria concorrer à Presidência, e sim estudar para o ENEM dada a sua suposta falta de conhecimentos gerais.

O grupo verde, por sua vez, demonstra apoio a Bolsonaro e é composto majoritariamente de perfis alinhados à direita. O grupo exalta a performance do deputado na sabatina e direciona críticas aos entrevistadores do programa — citam especialmente a fala de uma das entrevistadoras sobre voto impresso e o uso Wikipedia como fonte por outro. Os usuários defendem ainda as posições do pré-candidato a respeito das minorias e ironizam aqueles que buscam soluções menos autoritárias para a segurança. Parte das publicações do grupo também demonstra apoio a Bolsonaro por oferecer uma contraposição à esquerda no país.

Em proporção muito menor, o grupo cinza demonstra preocupação sobre como o jornalismo tem lidado com Bolsonaro, o que, segundo os usuários, poderia culminar na eleição do pré-candidato. No principal tuíte do grupo, um usuário reclama da ênfase das perguntas nas controvérsias de Bolsonaro, e não em suas propostas, o que daria força para o pré-candidato, que sabe responder sobre polêmicas, mas não falar de forma concreta sobre o futuro. Já o grupo rosa demonstra oposição a Bolsonaro de forma similar ao grupo laranja, mas com um debate puxado primordialmente pelo perfil @sincerojesuis, que faz postagens em tom jocoso contra Bolsonaro.

FONTE: Insight Comunicação

Jair Bolsonaro mostra que na política nada se cria, tudo se copia

A mídia corporativa brasileira está repercutindo e as redes sociais reverberando a imagem do deputado federal Jair Bolsonaro ensinando uma menina a imitar uma arma com os dedos durante uma atividade de campanha em Goiás (ver imagem abaixo) [1]

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Imagens mostrando o momento em que Jair Bolsonaro ensina menina a imitar uma arma com os dedos.

O interessante é que usar crianças para supostamente mostrar um lado “soft” de políticos em campanha.  Basta ver a foto abaixo de Adolf Hitler posando também com uma menina para mostrar aos seus potenciais eleitores que ele não era tão mau quanto diziam os esquerdistas alemães.

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O problema para Bolsonaro é que com a volta que ele tomou dos partidos de direita que se aliaram ao PSDB para dar sustentação à candidatura de Geraldo Alckmin (PSDB), o seu estilo “soft”, que de soft não tem nada, vai acabar não tendo nenhum significado eleitoral. 

Quanto à mãe da menina em Goiânia, o pior problema poderá nem ser o destino eleitoral de Bolsonaro, pois sabe-se lá se a filha gostar da lição que recebeu em praça pública. 


[1] https://www.diariodoaco.com.br/ler_noticia.php?id=60746&t=bolsonaro-ensina-menina-a-fazer-arma-com-os-dedos-e-caso-vira-bate-boca

Jair Bolsonaro explica e se complica

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O deputado federal Jair Bolsonaro, depois de desmentir via um vídeo o que foi publicado pelo jornalista Lauro Jardim no caso envolvendo a suposta defesa do parlamentar de uma “solução final” para o problema da violência na Favela da Rocinha, acabou enviando uma nota de desmentido  a quem supostamente produziu uma “fake news” (ver imagem abaixo).

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A leitura do “desmentido” evidencia que o deputado Jair Bolsonaro não nega que tenha falado na comunidade da Rocinha e apenas tentar “explicar” suas declarações aos especuladores financeiros presentes no evento do BTG Pactual.  Vale notar que, na sua nota a Lauro Jardim, Jair Bolsonaro desmentiu a si mesmo, pois admitiu que falou na comunidade carioca da Rocinha apesar de, posteriormente, no vídeo que gravou desmentindo o jornal,  negou que falou na comunidade naquele evento.

Em suma: Bolsonaro tentou se explicar, mas acabou se complicando ainda mais.

 

Os formandos da FMC e sua peculiar homenagem a Bolsonaro. Quem gostaria de ser paciente desses “doutores”? Eu não!

A imagem abaixo produzida por um grupo de formandos da Faculdade de Medicina de Campos (FMC) já se tornou um “hit de audiência” com centenas de compartilhamentos e até um agradecimento pessoal do deputado federal Jair Bolsonaro aos seus jovens apoiadores (Aqui!)

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Como conheço vários professores da FMC e mantenho laços de cooperação científica com um deles não vou nem sugerir algum tipo de revisão sobre o processo pedagógico da instituição. É que tenho certeza que a maioria deles está tão chocada quanto a maioria das pessoas que se depararam com a imagem de jovens médicos homenageando um político que se pauta pela disseminação do ódio de classe, da homofobia e da violência contra a mulher. Além disso, tenho absoluta certeza que eles vão utilizar essa imagem para algum tipo de exercício de auto-análise para ver o que está errado com seu processo pedagógico diante da evidente insensibilidade deste grupo de formandos para produzir a imagem em “homenagem” a Bolsonaro num momento tão polarizado da vida nacional.

Mas do ponto de vista pessoal, o que essa imagem me servirá de fato é  para tomar todas as medidas possíveis para que nem eu, ou ninguém da minha família, tenha o azar de cair nas mãos de um desses doutores que fazem a apologia às ideias de Jair Bolsonaro. É que não há como ser tão insensível na ação política que eles se dispuseram a realizar de forma voluntária, e ter algum tipo de respeito pela vida humana na sua prática profissional.  Simples assim!

O recuo estratégico do PT alimenta a indigência intelectual da direita, e nos expõe ao comportamento antidemocrático das viúvas da ditadura de 1964

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Não sou historiador e, por isso, não vou cair na besteira de dizer que a direita brasileira está num momento de especial mediocridade intelectual. É que para afirmar o contrário isso teríamos de assumir que a direita brasileira já teve quadros melhores. Mas se olharmos em retrospectiva, intelectuais de direita com alguma robustez poderiam, quando muito, encher uma Kombi.  Mas, convenhamos, a direita nunca precisou pensar nada, já que sempre reinou soberana com o poder dos fuzis do seu lado.

Agora, se olharmos a situação reinante nas facções da direita ideológica, o caso é de dar dó aos que possuem um mínimo de treino intelectual crítico. A quantidade de besteiras propagadas chegou a tal ponto que não dá nem para prestar atenção. Aliás, melhor seria prestar atenção, pois temos sinais claros de que a mediocridade absoluta está gerando um nicho de fascistas que sequer sabe discernir agendas progressivas, mas essencialmente liberais, das bandeiras ideológicas que vem servindo aos partidos de esquerda desde que capitalismo é capitalismo.

Um exemplo  é a gritaria comandada pelos deputado federais Jair Bolsonaro e Marco Feliciano em relação à questão da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) que tratou da questão da violência contra a mulher no Brasil (Aqui!).  Como a questão da violência doméstica é algo inaceitável em qualquer sociedade minimamente moderna, esses dois próceres da direita partidária estão sinalizando  com suas declarações de que devemos continuar coletivamente calados e assistir passivamente às agressões físicas e assassinatos que enchem diariamente vários páginas de noticiário.

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Pela lógica explícita de Feliciano e Bolsonaro, também não podemos falar contra a homofobia, o racismo e a ocorrência do trabalho escravo no Brasil. É que tudo isso, ao contrário de serem elementos objetivos de nossa sórdida realidade social, são coisas fictícias criadas pelo PT.

Antes de falar no PT, digo que o maior problema não é termos parlamentares do calibre de Bolsonaro e Feliciano falando e escrevendo esse tipo de barbaridade. O problema real é que foram eleitos e por um número significativo de votos em seus respectivos estados. E o que isto quer dizer? No mínimo que há eleitorado para apoiar este tipo de programa ideológico retrógrado nas duas principais unidades da federação brasileira. Isto é que deveria ser analisado, pois reflete um elemento objetivo da crise do Estado brasileiro e da nossa frágil democracia.

E como o neoPT entra nessa equação de horrores? Para mim, o giro dado pelo PT em direção à direita acabou facilitando a naturalização de comportamentos dos quais muita gente tinha vergonha de explicitar após a retirada desonrosa dos militares do poder em 1985. Mas ao se alinhar a herdeiros diretos do regime militar (José Sarney é apenas o exemplo mais fácil), o que o PT fez foi dar coragem aos segmentos mais atrasados da sociedade brasileira para elegerem seus parlamentares ideológicos, e também irem às ruas liberar seu ódio de classe contra os trabalhadores.

Antes que alguém diga que estou culpando o PT e sua direção política de estarem na gênese dos comportamentos de ódio e intolerância a que até seus dirigentes estão submetidos, falo logo que é isso mesmo. E o problema para nós que defendemos uma agenda de transformação social no Brasil que vá além de míseras concessões liberais é nos diferenciar de um projeto partidário que sacrificou tudo pelo poder.

Finalmente, é de dar tristeza quando olhamos para nossos vizinhos sul americanos que também passaram por ditaduras sangrentas e ver como eles trataram seus criminosos de farda, enquanto aqui tudo ainda permanece lacrado em arquivos secretos.  É dessa impunidade que brotam os ovos da serpente.