Os sinos dobram para Jair Bolsonaro

bolso michelleO contraste dos Bolsonaro: Michelle com máscara, Jair sem máscara. (crédito: Marcos Corrêa/PR)

A situação do presidente Jair Bolsonaro começa a se deteriorar rapidamente, a ponto de vários representantes estelares da mídia corporativa nacional (incluindo a direção dos jornais Estadão e Folha de São Paulo) estarem falando abertamente no seu impeachment.

Mesmo concordando com o fato de que o presidente Bolsonaro já mostrou não possuir a mínima capacidade de gerir o governo federal em um momento que combina profunda crise econômica e crise sanitária gravíssima,  tenho certeza de que a súbita mudança em seu destino político não se deve a isso. O mais provável é que Bolsonaro, tal como Dilma Rousseff, esteja tendo sua continuidade no cargo ameaçada por não entregar o que as oligarquias que controlam a economia brasileira querem na velocidade em que elas desejam, que são as grandes estatais como o Banco do Brasil e a Petrobras.

Há ainda que se notar que a rápida deterioração da capacidade de Jair Bolsonaro de se manter no poder não está sendo precedida pelo mesmo nível de ataques e desgaste político a que Dilma Rousseff foi submetida. A chamada oposição de esquerda até poucos dias atrás estava mais preocupada em barganhar cargos na mesa da Câmara de Deputados e do Senado Federal do que colocar a sua militância na rua, coisa que só começou a acontecer no dia de ontem. Em outras palavras, se Bolsonaro está começando a balançar no cargo, isto se deve a um acordo por cima entre as oligarquia econômicas brasileiras, e não por mérito da esquerda.

A manobra para tirar Jair Bolsonaro poupa claramente o vice-presidente general Hamilton Mourão, que já se sabe é adepto da mesmíssima agenda econômica, apenas sem os histrionismos que acometem o ex-capitão. Da mesma forma, apesar de toda a sua ação desastrosa, se poupa o dublê de banqueiro e ministro da Fazenda, Paulo Guedes.  O que se trama, mais uma vez, é a mera substituição de um chefe de estado por um vice mais confiável para executar as tarefas que estão postas para aprofundar a transformação do Brasil em uma espécie de neocolônia, de preferência dos chineses que consomem boa parte das nossas commodities agrícolas e nos vendem quase todos os agrotóxicos que poluem nossos campos e comida.

Diante desse cenário, o que se deve fazer? À primeira vista não cair na armadilha que está posta de tirar apenas Jair Bolsonaro do cargo, e ampliar a ação para a derrubada de seu governo como um todo, incluindo o seu vice-presidente. Afinal, se Bolsonaro está sendo culpabilizado pelas dimensões épicas que a pandemia da COVID-19 no Brasil, o que dizer de seu vice-presidente que até agora seguiu estritamente a mesma cartilha negacionista?

Uma coisa é certa: as próximas semanas serão decisivas para o destino político do governo Bolsonaro, e provavelmente veremos um esforço monumental para reverter a raiz da sua crise que é a falta de uma resposta efetiva contra a pandemia. Assim, que ninguém se surpreenda se o próprio Jair Bolsonaro vire garoto propaganda de uma campanha nacional de vacinação, e que a cabeça do general Eduardo Pazuello seja servida por ele em uma bandeja de prata.

Início da vacinação no Brasil é duplo desastre de relações públicas para o presidente Bolsonaro

Jair Bolsonaro espera em vão pelas entregas da AstraZeneca da Índia. Seu arquiinimigo político, o governador do estado de São Paulo, entretanto, inicia a vacinação com uma vacina chinesa

posePose de vitória após a vacinação: A enfermeira Mônica Calazans, 54, do estado de São Paulo, é a primeira pessoa no Brasil a ser vacinada contra o coronavírus. O governador do estado comemora a vacinação com uma vacina chinesa. Carla Carniel / AP

Por Thomas Spleen, Rio de Janeiro, para o Neue Zürcher Zeitung

Mônica Calazans, 54, é a primeira pessoa no Brasil a ser vacinada contra o coronavírus. A enfermeira de uma unidade de terapia intensiva da COVID-19 do maior estado de São Paulo recebeu a vacina CoronaVac no domingo, poucos minutos após a aprovação emergencial pela autoridade da Anvisa. O governador do estado, João Doria, foi festejado na ocasião. Com os dedos estendidos para marcar a vitória, ele falou de um “dia V” histórico como “vacina, vitória, verdade, vida” – “vacinação, vitória, verdade e vida”. Doria planeja concorrer contra o presidente Bolsonaro nas eleições presidenciais de 2022. As fotos do sucesso do início da vacinação são úteis para ele.

Doria fazia campanha para o instituto de vacinas do Butantan, em São Paulo, para colaborar com a fabricante chinesa Sinovac desde meados do ano passado. Desde o final de novembro, já chegam a São Paulo transportes com latas do produto CoronaVac da Sinovac, onde já estão armazenados seis milhões de vacinas e a matéria-prima para a produção de mais cinco milhões delas. No entanto, a agência federal Anvisa atrasou a aprovação da vacina. Para pressionar a autoridade, Doria anunciou em dezembro que iniciaria a vacinação em São Paulo em janeiro.

Desde o início, o presidente Bolsonaro sabotou os esforços de Doria, seu mais feroz adversário político. Bolsonaro tentou jogar tacos burocráticos entre as pernas de Doria para atrasar o início da vacinação em São Paulo com o CoronaVac. No final do ano passado, o ex-militar anunciou que em hipótese alguma a população do Brasil seria vacinada com a vacina chinesa. Bolsonaro ordenou ao ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, que rescindisse o contrato já fechado com São Paulo para a entrega de 46 milhões de doses do CoronaVac para os postos de vacinação estaduais. Em hipótese alguma quis conceder a Doria e aos chineses, a quem acusava de causadores da pandemia, o triunfo da imunização da população brasileira com o CoronaVac

Bolsonaro apostou com AstraZeneca

Em vez disso, o governo federal do Brasil assinou um contrato com a fabricante anglo-sueca AstraZeneca e a Oxford University para a entrega de milhões de doses e transferência de tecnologia para futura produção da vacina no Brasil. O governo rejeitou as ofertas da Pfizer/Biontech por razões de custo. Mas Bolsonaro apostou fora. Porque as entregas prometidas da AstraZeneca para o Brasil continuam atrasadas. A tentativa desesperada de coletar rapidamente dois milhões de doses da vacina AstraZeneca na Índia no sábado falhou. Precisamos das doses de vacinação para nossa própria população, foi o motivo alegado pelas autoridades indianas.

Desastre de relações públicas do Bolsonaro

Bolsonaro e seu ministro da saúde Eduardo Pazuello, um general rígido e de aparência hostil que organizou a logística para os Jogos Olímpicos de Verão no Rio de Janeiro em 2016, mas não tem experiência no setor de saúde, teve que assistir a primeira vacinação  de João Doria Brasil no domingo. Além do CoronaVac, a Anvisa também emitiu a vacina AstraZeneca com aprovação emergencial neste domingo. Mas como não é certo quando a vacina britânica pode ser esperada, o governo central terá que iniciar sua campanha de vacinação nacional com o CoronaVac.

Em frente à imprensa no domingo, um ministro da Saúde visivelmente irritado, Pazuello, pediu ao governo de São Paulo que entregasse todas as seis milhões de doses do CoronaVac ao governo central. Isso vai distribuir as vacinas em todo o país na segunda-feira, para que as vacinações em massa possam começar simultaneamente em todas as regiões na quarta-feira. A vacinação em massa só pode ser realizada no Brasil pelo sistema público de saúde SUS, que é subordinado ao Ministério da Saúde, e os estados individuais não podem fazer isso sozinhos, disse Pazuello. Todas as doses de vacinas fabricadas ou armazenadas no Brasil teriam que ser entregues exclusivamente ao governo central.

No entanto, João Doria não pensa em fazer isso. Já nesta segunda-feira, ele quer iniciar as vacinações em massa sob sua direção nos hospitais de São Paulo. De acordo com a proporção da população de São Paulo em relação à população total do Brasil, 20% das vacinas CoronaVac serão retidas. Os restantes 80 por cento serão colocados à disposição do Ministério da Saúde em solidariedade. O ministro da Saúde, Pazuello, já anunciou que entrará com ações judiciais contra a suspensão das vacinas, se necessário.

Bolsonaro nega os perigos da Covid-19

O presidente Bolsonaro tem que aceitar outro revés. No início da pandemia, ele disse que a Covid-19 era uma gripe menor e se manifestou contra as restrições e bloqueios. Ele se recusou a usar uma máscara ou seguir as regras de distância. Ele também afirmou que não queria ser vacinado. Você não poderia saber se isso o transformaria em um crocodilo. Nesse ínterim, cerca de 210.000 pessoas morreram de Covid-19 no Brasil. Somente nos Estados Unidos há mais mortes por pandemia. É crescente o descontentamento da população com a passividade do governo no combate à pandemia.

A situação é atualmente particularmente crítica na metrópole amazônica de Manaus. Os hospitais de lá estão sem oxigênio para os ventiladores há uma semana. Além disso, centenas de leitos de terapia intensiva estão desaparecidos e muitas pessoas morrem sem chance de atendimento médico em casa. Bolsonaro colocou a culpa pelo caos no governo local. No entanto, disse que já havia pedido ajuda ao governo central e a outros Estados membros semanas atrás

Hidroxicloroquina em vez de oxigênio

O ministro da Saúde, Pazuello, havia visitado Manaus apenas no início da semana passada. No entanto, sua visita não era para fornecer o oxigênio urgentemente necessário. Em vez disso, Pazuello promoveu o uso do medicamento contra a malária, a hidroxicloroquina. Bolsonaro havia anunciado a droga como uma “arma milagrosa divina” na luta contra a COVID-19. Embora cientistas de todo o mundo duvidem da eficácia do medicamento contra a COVID-19, Pazuello insiste que os médicos em hospitais públicos tratem os pacientes com o medicamento. Enquanto há falta de oxigênio em Manaus, milhares de embalagens do medicamento antimalária produzida pelos militares estão armazenadas sem uso.

fecho

Este artigo foi originalmente escrito em alemão e publicado pelo jornal suíço Neue Zürcher Zeitung [Aqui! ].

Caos nos EUA gera uma nova forma de viralatismo brasileiro

capitol

As cenas caóticas que apareceram nas telas de TV vindas diretamente das portas do congresso dos EUA serviram para uma impressionante sessão de uma nova forma de viralatismo brasileiro. É que desde jornalistas surpresos até membros do Supremo Tribunal Federal, o que se viu foi uma ode em defesa da democracia estadunidense por parte de muitos daqueles que em 2016 demandavam (ou mesmo tramavam) o impeachment da presidente Dilma Rousseff. 

Se todos os que se pronunciaram em favor da democracia dos EUA (noto aqui que ao contrário dos membros do STF, nenhum membro da Suprema Corte estadunidense veio a público se manifestar sobre a confusão armada pelos apoiadores do brevemente ex-presidente Donald Trump) tivessem feito o mesmo quando era a nossa que estava sob ataque, é bem provável que o Brasil já tivesse, entre outras coisas, vacinado boa parte de nossa população contra a COVID-19.

Então essas lágrimas por uma democracia cujas instituições são mais bem mais sólidas do que as nossas são as verdadeiras lágrimas de crocodilo. Além disso, até por conhecer um pouco os EUA por dentro, é que se houve qualquer tentativa de golpe de estado, essa não passou nem perto de ter qualquer chance de ter êxito. É que se fosse para valer, os militares dos EUA não teriam assistido a coisa às margens. Aliás, nem as tropas do FBI ou das tantas outras forças militares que existem por lá.

Há que já esteja lançando alertas contra uma postura semelhante dos apoiadores do presidente Jair Bolsonaro caso ele perca as eleições em 2022. Esse tipo de preocupação para mim não passa de distracionismo barato da realidade brasileira, onde mais do que evidente de que são os militares, e não as instituições de Estado, que dão o aval necessário para o presidente brasileiro se manter no poder, em que pesem o seu governo desastroso em todos os níveis que se analisa. Eu diria que se há uma preocupação para 2022 é que os comandantes militares decidam que não será precisa eleição para que Bolsonaro seja mantido na presidência.

Por último, um elemento a ser melhor analisado se refere às consequências que o pequeno show de força dos aliados de Donald Trump terá na capacidade de Joe Biden articular suas alianças multilaterais, especialmente aquelas direcionadas para conter a crescente hegemonia da China no mundo. Ainda que se saiba que a real diplomacia dos EUA se dá pela ponta dos sabres, a desmoralização que ocorreu ontem sobre a ainda principal potência econômica e militar do mundo não foi pequena.  Pior para Jair Bolsonaro e, por extensão para o Brasil, pois muito provavelmente haverá pouca tolerância para imitadores de Donald Trump nas ações multilaterais da nova administração dos EUA. 

Finalmente, prestemos muita atenção no que dirão os defensores da democracia “in America” quando a democracia ameaça for a nossa. 

Para se combater o governo Bolsonaro há que se separar a encenação dos seus fins práticos

 

fotojet-2021-01-01t163846.804

As cenas do presidente Jair Bolsonaro nadando (ainda que tropegamente) em meio a uma multidão de apoiadores nas águas de uma praia na Baixada Santista fez com que muitos analistas sérios o equiparassem ao ditador fascista Benito Mussolini que um dia também usou dessa estratégia para mostrar estratégia. Além de derivar comparações com um passado fascista, as cenas de Bolsonaro nadando deixaram muita gente boa atônita pelos simples fato de ainda existirem brasileiros que se disponham a tratá-lo como “mito”.  A solução para esse mistério está surgindo em narrativas de pessoas que estavam na areia da mesma praia quando as cenas envolvendo o presidente brasileiro ocorreram.  Segundo pelo menos uma testemunha, toda a situação pode ter sido simulada, provavelmente para energizar a base mais sólida sobre a qual Bolsonaro se apoia para governar.

Mas qual seria a surpresa se as cenas vindas de Praia Grande tenham sido realmente apenas uma bem elaborada encenação teatral? Para mim, nenhuma. É que ao longo de 2020, Bolsonaro foi flagrado realizando várias encenações dessa natureza, inclusive uma em que ele acena de forma animada para o vazio em um aeroporto em Goiás como se acenasse para uma multidão (ver vídeo abaixo). Coisa de um político que está há muito tempo no teatro da política, e que sabe manejar como poucos as emoções de uma base pequena, mas aguerrida, de fieis seguidores.

Contudo, se todos já deveriam saber que Bolsonaro e seus ideólogos são versados nas técnicas de manipulação da realidade, por que tantos ainda caem facilmente em seus truques? Em minha opinião, isso ocorre porque Bolsonaro é o espantalho perfeito para que as forças políticas que o apoiam, mas também supostamente o atacam, fujam das responsabilidades em relação ao projeto que ele e Paulo Guedes estão tendo implementar que é, basicamente, desmontar e reduzir a pó os elementos progressivos da Constituição Federal de 1988, incluindo não apenas os direitos sociais, mas também a proteção do meio ambiente e dos povos tradicionais. 

Como a imensa maioria dos partidos políticos fugindo do debate sobre o projeto que está sendo executado, à direita e também à esquerda, ficam todos apontando o dedo para Bolsonaro, enquanto Paulo Guedes continua avançando com as privatizações espúrias e com o desmanche das políticas sociais.  Essa é a tônica inclusive das análises feitas pelos chamados “intelectuais de coleira” que lotam os programas da mídia corporativa e cujas análises contribuem para esse clima de fim feira em meio à pandemia que contribui para a persistência da paralisia política. Se levarmos ao pé da letra o que muitos desses intelectuais amestrados, nem será preciso fazer eleição em 2022, pois já se sabe que Jair Bolsonaro será reeleito.

A saída para essa verdadeira “chave de cadeia” em que o Brasil está metido começa pela questão básica que é destrinchar o papel de Jair Bolsonaro no atual teatro de operações, mas continua com a identificação dos atores que estão ganhando com o avanço de seu projeto de desconstrução do sistema de direitos sociais e trabalhistas que está sendo aplicado por seu governo. Entender a relação entre a aparência e a essência da situação política que nos envolve será a principal tarefa nos primeiros meses de 2021, sob pena de ficarmos todos boquiabertos se os trabalhadores e a juventude resolverem desmontar por conta própria as caixas de ilusão de ótica que o presidente monta para esconder sua própria fragilidade.  Por isso, é essencial que se mantenha claro que com Bolsonaro só há uma verdade absoluta: nem tudo é o que parece. E isso como regra básica.

Mas mais do que a natureza e a finalidade da máquina de propaganda do Bolsonarismo, o essencial será sair da inação letárgica em que as forças políticas que dizem se opor ao projeto político convenientemente estão colocadas. E isso deverá começar por questionários desde os municípios a aplicação do receituário ultraneoliberal da dupla Bolsonaro/Guedes.  Essa será a chave para se sair das cordas e partir para a ofensiva política que a conjuntura requer.

 

Jair Bolsonaro é eleito “personalidade corrupta de 2020”, prêmio atribuído a líderes internacionais que apoiam o crime organizado e a corrupção

JairBolsonaro

O presidente Jair Bolsonaro foi  eleito como Personalidade do Ano do Projeto de Relatórios de Crime Organizado e Corrupção em 2020 por seu papel na “promoção do crime organizado e da corrupção”. Eleito após o escândalo Lava Jato (Lava Jato) como candidato anticorrupção, Bolsonaro se cercou de figuras corruptas, usou propaganda para promover sua agenda populista, minou o sistema de justiça e travou uma guerra destrutiva contra a Amazônia região que enriqueceu alguns dos piores proprietários de terras do país.

Bolsonaro venceu por pouco dois outros líderes populistas, o presidente dos Estados Unidos Donald Trump e o presidente turco Recep Erdogan, pelo duvidoso prêmio. Ambos os finalistas também lucraram com a propaganda, minaram as instituições democráticas em seus países, politizaram seus sistemas de justiça, rejeitaram acordos multilaterais, recompensaram círculos internos corruptos e moveram seus países da lei e da ordem democráticas para a autocracia. O oligarca ucraniano Ihor Kolomoisky completou a lista dos finalistas.

“Esse é o tema central do ano”, disse Louise Shelley, diretora do Centro Transnacional de Crime e Corrupção (TraCCC) da George Mason University, que participou do painel do prêmio. “Todos são populistas causando grandes danos aos seus países, regiões e ao mundo. Infelizmente, eles são apoiados por muitos, que é a chave do populismo. ”

Bolsonaro foi acusado de coletar salários para funcionários fantasmas – uma prática conhecida como repartição de salários. Mas os juízes o escolheram por causa de sua hipocrisia – ele assumiu o poder com a promessa de combater a corrupção, mas não apenas se cercou de pessoas corruptas, como também acusou erroneamente outros de corrupção.

“A família de Bolsonaro e seu círculo íntimo parecem estar envolvidos em uma conspiração criminosa em andamento e têm sido regularmente acusados ​​de roubar as pessoas.” disse Drew Sullivan, editor do OCCRP e juiz do painel. “Essa é a definição de livro de uma gangue do crime organizado.”

Essas conexões incluem :

 

As ações do Bolsonaro não afetam apenas o Brasil. Bolsonaro abriu grandes extensões da Amazônia à exploração por aqueles que já haviam se beneficiado da destruição da região crítica e ameaçada.

“A destruição contínua da Amazônia está ocorrendo por causa de escolhas políticas corruptas feitas por Bolsonaro. Ele encorajou e alimentou os incêndios devastadores ”, disse o jurado Rawan Damen, diretor do Arab Reporters for Investigative Journalism. “O Bolsonaro fez campanha com o compromisso explícito de explorar – ou seja, destruir – a Amazônia, que é vital para o meio ambiente global.”

No final das contas, os juízes levaram várias cédulas para escolher um vencedor. Um corpo internacional de jornalistas investigativos, acadêmicos e ativistas seleciona o vencedor a cada ano.

“É difícil escolher. São tantos candidatos dignos ”, disse o cofundador da OCCRP, Paul Radu. “A corrupção é uma indústria em crescimento.”

Donald Trump foi considerado apesar do fato de ainda não ter sido indiciado por nenhum crime em particular. Os juízes acreditam que sob a liderança de Trump, os EUA deixaram de ser um líder global em esforços anticorrupção e, em vez disso, recuaram para dentro. Trump tem cortejado e elogiado bajulando os líderes mais corruptos do mundo. Seu círculo íntimo está igualmente preenchido com uma série de oportunistas acusados, investigados e completamente corruptos com ligações com o crime organizado, bilionários antidemocráticos e atores estatais estrangeiros que influenciaram o presidente enquanto eram recompensados ​​com perdões.

Erdogan foi considerado porque seu governo autocrático de uma década na Turquia transformou cada vez mais o poder regional em um ator criminoso intrometido. Aprendendo com seu vizinho Vladimir Putin, Erdogan minou as instituições democráticas, atacou o sistema de justiça, esmagou a sociedade civil, recompensou seus amigos e transformou o sistema político da Turquia em um culto de um homem só. Sob seu governo, o Halkbank, estatal, ajudou o Irã a evitar sanções, lavando suas vendas de petróleo para a Turquia. Quando pessoas próximas a ele foram investigadas por corrupção, incluindo suborno para facilitar a lavagem de dinheiro, promotores, juízes, jornalistas e políticos da oposição foram presos e encarcerados.

Além disso, o oligarca ucraniano Ihor Kolomoisky completou os finalistas. O oligarca politicamente envolvido emprestou mais de US $ 5 bilhões de um banco que ele controlava para si mesmo sem garantias. O dinheiro desapareceu em uma série de offshores. As perdas representaram 40% de todos os depósitos privados do país. Mas Kolomoisky não foi preso e agora está fazendo lobby para recuperar o controle do banco depois que ele foi socorrido pelo Estado. Kolomoisky, que supostamente financiou a corrida do atual presidente ao cargo, deixou um histórico de invasões corporativas, fraude, roubo de ativos do Estado e intriga política e representa os muitos bilionários ideológicos e corruptos dos irmãos Koch a Aaron Banks que o fizeram minou a democracia para ganho pessoal.

Os vencedores anteriores do prêmio de pessoa do ano incluíram Vladimir Putin, o presidente do Azerbaijão Ilham Aliyev e o presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte.

OCCRP é uma plataforma de reportagem investigativa para uma rede mundial de centros de mídia independentes e jornalistas e uma das maiores organizações de reportagem investigativa do mundo, publicando mais de 150 histórias investigativas por ano. OCCRP acredita que é preciso uma rede para lutar contra uma rede. Desenvolvemos e equipamos uma rede global de jornalistas investigativos e publicamos suas histórias para que o público possa responsabilizar-se.

Os juízes

 common / staff / drew1.jpg

Drew Sullivan

Jornalista investigativo e especialista em desenvolvimento de mídia. Ele é o fundador do Center for Investigative Reporting na Bósnia e Herzegovina, e o co-fundador e editor do OCCRP.

common / staff / paul-radu2.jpg

Paul Radu

Repórter investigativo premiado, cofundador e diretor do OCCRP. Ele também é co-fundador do Projeto RISE, uma plataforma para repórteres investigativos na Romênia.

common / staff / saska-c.jpg

Saska Cvetkovska

Editor-chefe do Investigative Reporting Lab na Macedônia e membro do conselho de diretores do OCCRP.

personoftheyear / judges / LouiseShelley.jpg

Louise Shelley

Autor e professor titular da Escola Schar de Política e Assuntos Internacionais da George Mason University. Ela é a fundadora e diretora executiva do Centro de Terrorismo, Crime Transnacional e Corrupção da universidade.

pessoa do ano / juizes / sarah-chayes.jpg

Sarah Chayes

Reconhecida por seu pensamento inovador sobre a corrupção, Chayes é autora de “Thieves of State: Why Corruption Threatens Global Security” e “On Corruption in America”. Chayes serviu como conselheira especial para as forças internacionais no Afeganistão e levou suas descobertas sobre corrupção global no Carnegie Endowment for International Peace.

pessoa do ano / juízes / YingChan.jpg

Ying Chan

Escritor, professor e diretor fundador do Centro de Jornalismo e Estudos de Mídia da Universidade de Hong Kong. Ela é uma ex-vencedora do Prêmio Nieman Fellow e George Polk. Ela editou seis livros na mídia chinesa.

personoftheyear / judges / MariaTeresaRonderos.jpg

Maria Teresa Ronderos

Jornalista investigativo da Colômbia e membro do conselho do Comitê para a Proteção de Jornalistas. Ela é ex-diretora do programa de jornalismo independente da Open Society Foundation e fundadora do Centro Latino-Americano de Jornalismo Investigativo (CLIP, na sigla em espanhol), um centro de reportagem investigativa internacional.

personoftheyear / judges / Rawan-Damen.jpg

Rawan Damen

Jornalista, cineasta e consultor de mídia. Ela é a diretora executiva do Arab Reporters for Investigative Journalism e ex-comissária sênior da Al Jazeera Media Network.

personoftheyear / judges / Rafael-Marques.jpg

Rafael Marques

Rafael Marques de Morais é um jornalista angolano e ativista anticorrupção que recebeu vários prémios internacionais pelas suas reportagens sobre diamantes de conflito e corrupção governamental em Angola. Atualmente, ele chefia o órgão de fiscalização anticorrupção Maka Angola.

fecho

Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado no site da OCCRP [Aqui!].

Jânio de Freitas vaticina que sem o impeachment de Bolsonaro, o Brasil pode estar se transformando em “um país no finalzinho”

A conduta na balbúrdia da vacina basta para justificar impeachment de Bolsonaro Diante de todos os desastres que o corroem, o Brasil parece morto

bolsonaro-e-pazuello

Por Janio de Freitas, jornalista

É impossível imaginar o que falta ainda para a única providência que salve vidas —quantas, senão muitos milhares?— da sanha mortífera de Jair Bolsonaro. Mas não é preciso imaginar a indecência da combinação de “elites” e políticos, para ver o que e quem concede liberdade homicida em troca de ganhos.

Pessoas com autoridade formal para o conceito que têm emitido, além de suas respeitabilidades, como o jurista Oscar Vilhena Vieira, o ex-ministro da Justiça e criminalista José Carlos Dias e o médico Celso Ferreira Ramos Filho, presidente da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, entre outros altos quilates, têm qualificado com clareza e destemor a anti-ação de Bolsonaro e seus militares na mortalidade pandêmica.  Crime, criminoso (os), organização familiar criminosa, homicidas, desumanidade —são algumas das palavras e expressões aplicadas ao que é feito contra a vida. Contra o próprio país, portanto.

A conduta da Presidência e de seus auxiliares na Saúde, na balbúrdia da vacina, basta para justificar o processo de interdição ou de impeachment, sem precisar dos anteriores crimes de responsabilidade e outros cometidos por Bolsonaro e pelo relapso general Eduardo Pazuello. Nem se sabe mais o número de requerimentos para processo de impeachment apresentados à Câmara. Sobre eles, Rodrigo Maia, presidente da casa. Lançou uma sentença sucinta: “Não há agora exame de impeachment nem vai haver depois”.

Nítido abuso de poder, nessa recusa a priori. É dever do presidente da Câmara o exame de tais requerimentos, daí resultando o envio justificado para arquivamento ou para discussão em comissões técnicas. Rodrigo Maia jamais explicou sua atitude. Daí se deduz que não lhe convém fazê-lo, com duas hipóteses preliminares: repele a possível entrega da Presidência ao vice Mourão ou considera a iniciativa inconveniente a eventual candidatura sua a presidente em 2022.

Seja como for, Rodrigo Maia macula sua condução da Câmara, bastante digna em outros aspectos, e se associa à continuidade do desmando igualado ao crime de índole medieval. Os constituintes construíram um percurso difícil e longo para o processo de impeachment, e que assim desestimulasse sua frequência. Mas deixaram com um só político o poder de consentir ou não na abertura do processo. Fácil via para o abuso do poder. E sem alternativa para o restante do país, mesmo na dupla calamidade de uma pandemia letal e um governo que a propaga.

Há denúncias protocolares da situação por entidades, não muitas, e por um número também baixo de pessoas tocadas, de algum modo, pelo senso de responsabilidade, a inquietação, a dor. Movimento para que os genocidas vocacionais sejam enfrentados, nenhum. As camadas sociais que continuam tranquilas com seus rendimentos são, entende-se, as que podem manipular os ânimos públicos. São também as que têm mais noção do que se passa, mas sem que isso atenue o seu egoísmo e desprezo pelas camadas abaixo. Assim, não há reação ao duplo ataque. Diante de todos os desastres que o corroem, o Brasil parece morto.

Mas nem com esse aspecto, ou essa realidade, precisaria descer tão baixo na imoralidade. Sobrassem alguns resquícios de decência nas classes que, a rigor, são o poder no Brasil, a descoberta de que a Abin, a abjeta Agência Nacional de Informação, foi mobilizada para ajudar Flávio Bolsonaro no processo criminal da rachadinha” criaria alguma indignação. E levaria ao pronto afastamento de todos os beneficiários e comprometidos com esse crime contra a Constituição, as instituições, os trâmites da Justiça e a população em geral.

O general Augusto Heleno Pereira negou a revelação da revista Época. É um velho mentiroso. Isso está provado desde os anos 90, quando me escreveu uma carta negando sua suspeita ligação com Nicolau dos Santos Neto, o juiz da alta corrupção no TRT paulista. Tive provas documentais para desmenti-lo. Estava então no Planalto de Fernando Henrique. Com Bolsonaro, além de desviar a Abin em comum com Alexandre Ramagem, que a dirige, Augusto Heleno já esteve em reuniões com os advogados de Flávio, que é agora quem o desmente.

Ramagem, por sua vez, é o delegado que Bolsonaro quis na direção da Polícia Federal, causando a saída de Sérgio Moro do governo. Fica demonstrado, portanto, pelas figuras de Augusto Heleno e Ramagem no desvio de finalidade da Abin, que Bolsonaro tentou controlar a PF para usá-la na defesa de Flávio, de si mesmo, de Carlos, de Michelle, de Fabrício Queiroz e sua mulher Márcia e demais componentes do grupo.

Se nem essa corrupção institucional levar à retirada de toda a corja, será forçoso reconhecer um finalzinho. Não dá pandemia, como disse Bolsonaro. Do Brasil, mesmo.

fecho

Este texto foi originalmente publicado pelo jornal “Folha de São Paulo [Aqui!].

Vacina contra o coronavírus fabricada na China está no centro do confronto político no Brasil

 Choque em curso entre o presidente Jair Bolsonaro e o governador de São Paulo sobre a vacina Sinovac ameaça implantação de imunização.  Desentendimentos sobre quais vacinas fornecer à população brasileira vêm fermentando desde outubro

mascaraMulher usando máscara protetora no Brasil, o segundo país mais atingido pela pandemia de coronavírus depois dos Estados Unidos. Foto: Reuters

Por Eduardo Baptista para o South China Morning Post

O Brasil se tornou um campo de batalha à medida que facções políticas disputam sobre qual vacina contra a Covid-19  vai  usada para imunizar 212 milhões de cidadãos – uma decisão que terá implicações para toda a região da América Latina.

O presidente do Brasil Jair Bolsonaro emitiu um decreto em agosto para reservar US $ 356 milhões para comprar e eventualmente produzir 100 milhões de doses da vacina desenvolvida em conjunto pela Universidade de Oxford e a empresa farmacêutica AstraZeneca.

Enquanto isso, João Doria, governador do estado mais rico do Brasil, tem pressionado ativamente  pelo uso da CoronaVac, uma vacina desenvolvida pela Sinovac Biotech, sediada em Pequim, no que os especialistas dizem ser um movimento inicial para a candidatura presidencial de 2022.

Um confronto está se preparando desde outubro, quando Bolsonaro vetou um acordo entre o ministério da saúde e o governo paulista de Doria para a compra de 46 milhões de doses do CoronaVac. Ele passou a igualar isso a “morte e invalidez” e disse que não o incluiria no programa nacional de imunização do país.

As primeiras doses da vacina CoronaVac Covid-19 da China chegam ao Brasil

Conhecido como o “Trump dos Trópicos”, Bolsonaro também se recusou a ser vacina contra a COVID-19 e minimizou a gravidade da epidemia.

Ao mesmo tempo, o Instituto Butantan, com sede em São Paulo, quase concluiu os testes de Fase 3 da vacina chinesa e cooperou com Doria para construir a infraestrutura necessária para a produção em massa.

A crise da Covid-19 no Brasil foi de mal a pior. O país está enfrentando o segundo surto mais mortal depois dos Estados Unidos, com mais de 6,7 milhões de casos e 179.000 mortes. Vários governadores estaduais, incluindo Doria, criticaram o plano federal de imunização por não garantir um suprimento diversificado de vacinas.

A pressão sobre Bolsonaro também está aumentando à medida que outros países da região tentam aumentar seus próprios suprimentos de vacinas. Dimas Covas, chefe do Instituto Butantan, disse em agosto que estava em negociações com Argentina, Colômbia e a Organização Pan-Americana da Saúde para fornecer o CoronaVac.

Na quinta-feira, Covas disse que o número de países interessados ​​cresceu e inclui Peru, Uruguai, Paraguai e Honduras. Falando na mesma conferência, Doria disse que 11 estados brasileiros entraram em contato com o Butantan em busca do CoronaVac.

O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, ajusta sua máscara facial durante uma entrevista coletiva em março.  A pressão sobre Bolsonaro está aumentando à medida que outros países da região tentam aumentar seus suprimentos de vacinas.  Foto: ReutersO presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, ajusta sua máscara facial durante uma entrevista coletiva em março. A pressão sobre Bolsonaro está aumentando à medida que outros países da região tentam aumentar seus suprimentos de vacinas. Foto: Reuters

Doria disse na segunda-feira que a implantação da vacina em todo o estado começaria em 25 de janeiro, com 18 milhões de doses a serem distribuídas no total. Os primeiros a receber a vacina serão grupos vulneráveis, como profissionais de saúde e povos indígenas, seguidos por qualquer pessoa com mais de 60 anos.

Nada disso será possível, porém, sem a aprovação do órgão regulador de saúde do Brasil, a Anvisa. Poucas horas após o anúncio de Doria, a Anvisa expressou surpresa e preocupação com o fato de a data escolhida invalidar o andamento da avaliação da vacina.

A Anvisa também observou que ainda havia dois bloqueios de estradas antes que a vacina pudesse ser aprovada para uso emergencial. Uma revisão da fábrica na China onde a vacina será feita ainda estava em andamento e os resultados finais dos testes de Fase 3 do Instituto Butantan ainda não haviam sido apresentados.

O ministro da Saúde e aliado do Bolsonaro, Eduardo Pazuello, disse nesta terça-feira – durante reunião com governadores de estados brasileiros – que a Anvisa precisava de cerca de 60 dias para aprovar uma vacina e que a primeira da fila era a da AstraZeneca. Isso tornaria a data anunciada de Doria inatingível.

Doria criticou as declarações de Pazuello, dizendo que o governo federal tinha uma oposição ideológica e política ao CoronaVac. Em resposta, Pazuello garantiu aos governadores que o governo federal compraria qualquer vacina aprovada pela Anvisa a preços razoáveis.

Ativistas da organização não governamental “Rio de Paz” erguem barracos simulados, que representam a vida de famílias de favelas de baixa renda no Brasil, para protestar contra a decisão do governo Bolsonaro de suspender a ajuda às pessoas mais afetadas pela pandemia.  Foto: AFPAtivistas da organização não governamental “Rio de Paz” erguem barracos simulados, que representam a vida de famílias de favelas de baixa renda no Brasil, para protestar contra a decisão do governo Bolsonaro de suspender a ajuda às pessoas mais afetadas pela pandemia. Foto: AFP

Em entrevista à CNN Brasil no dia seguinte, Pazuello disse que se o governo federal fechar um acordo com a farmacêutica norte-americana Pfizer, o uso emergencial de sua vacina pode começar já em dezembro.

Milhares de pessoas receberam a vacina CoronaVac na China, onde a vacina tem autorização de uso emergencial.

Doria disse que os dados finais dos ensaios clínicos da Fase 3 serão apresentados na terça-feira, e que a Anvisa havia prometido uma decisão em 30 dias.

Ao longo da disputa entre Doria e Bolsonaro, a Anvisa reafirmou seu compromisso de avaliar vacinas com base em critérios científicos e não políticos.

Doria já questionou várias vezes a independência da Anvisa, afirmando nesta quarta-feira que a agência não deve ser refém de interesses do governo federal, da presidência ou de uma ideologia.

Bolsonaro, um ex-capitão do Exército, indicou o tenente-coronel aposentado Jorge Kormann para o conselho da Anvisa no mês passado. Se a indicação for aprovada no Senado, três dos cinco diretores da Anvisa serão aliados do Bolsonaro, aumentando as chances de boicote da CoronaVac.

Kormann, atualmente trabalhando no ministério da saúde de Pazuello, não tem experiência anterior em medicamentos ou vacinas, mas deve liderar a unidade da agência responsável pela aprovação de vacinas. Sua indicação foi contestada pelo sindicato dos trabalhadores da Anvisa.

O Brasil, que tem a quinta maior população do mundo, precisa de mais de 400 milhões de doses para que o governo cumpra sua promessa de vacinar toda a população até o final do ano que vem

Pazuello disse na terça-feira que a AstraZeneca forneceria 260,4 milhões de doses – 100,4 milhões no primeiro semestre de 2021 e 160 milhões no segundo semestre. Setenta milhões de doses viriam da Pfizer e de um consórcio liderado pela Organização Mundial da Saúde, o Consórcio Covax , que forneceria 42,5 milhões de doses.

Na quinta-feira (10/12), o segundo funcionário mais graduado do Ministério da Saúde, Elcio Franco, disse que a Pfizer e a CoronaVac estavam “no mesmo nível” e aguardando a aprovação da Anvisa. No entanto, o ministério ainda não disse quantas doses de CoronaVac serão lançadas.

Este artigo foi inicialmente escrito em inglês e publicado por South China Morning Post [Aqui].

Brasil, o pária, ficou mesmo de fora do púlpito da cúpula do clima da ONU

bolsonaro-ricardo-sallesJair Bolsonaro e Ricardo Salles são os principais artífices da transformação do Brasil em pária global

Desde agosto de 2016 venho escrevendo sobre os custos econômicos e políticos que a transformação do Brasil em uma espécie de pária ambiental por sucessivos golpes contra a governança ambiental e as estruturas de comando e controle que foram construídas a duras penas a partir da Conferência da ONU para o Meio Ambiente realizada em Estocolmo em 1972.

Confirmada hoje a exclusão do Brasil da lista de países que poderão se pronunciar na edição de 2020 do “Climate Ambition Summit“, chegamos muito mais próximos da condição de párias dentro da comunidade global. 

Ainda que muitos, dentro e do governo Bolsonaro, batam de ombros com o tapa na cara que o Brasil está levando da ONU por causa, principalmente, da falta de compromisso com as metas de controle das mudanças climáticas, a situação é séria, na medida em que esses encontros estarão decidindo metas de emissões que posteriormente serão utilizadas para regular até as trocas internacionais de mercadorias.

Pode-se até dizer que as mudanças climáticas estão sendo usadas como uma nova forma de controle de comércio internacional, o que me parece até óbvio.  O problema é que, como até naquele momento em que você recebe o golpe do paco, não adianta saber que estamos sendo objeto de uma manobra esperta, há que se estar preparado para não cair nele.  

Ao sabotar intencionalmente o papel do Brasil nas discussões multilaterais em torno do controle e mitigação das mudanças climáticas, o presidente Jair Bolsonaro e seu ministro (ou seria anti-ministro?) do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles, estão prestando um grande desserviço aos interesses estratégicos do nosso país. O problema é que para se chegar ao nível pária é relativamente fácil, sair dessa condição é bem mais difícil. Como o governo Bolsonaro ainda tem pelo menos mais 24 meses de existência, a profundidade do buraco poderá ser ainda maior quando este governo chegar aos seus estertores.

especies_ameacadas_nao_lucrativas_ptBR1

Um grupo de quem eu esperaria uma reação mínima à colocação do Brasil na condição de pária pode ser surpreendente para leitores deste blog, o latifúndio agro-exportador (a.k.a. agronegócio), até agora se mantém em posição de mutismo quase completo. É que o latifúndio agro-exportador é um dos que mais têm mais a perder com a barafunda estabelecida pelo governo Bolsonaro. Assim, ainda que as principais lideranças do latifúndio agro-exportador tenham sido fiadoras ardorosas da candidatura de Jair Bolsonaro, a inação frente ao desmanche da governança ambiental e das estruturas de comando e controle é quase que um atestado de ignorância que equivale ao que alguns chamam de “agrosuicídio”.  Vai entender essa gente…..

Jair Bolsonaro é cortado da Cúpula do Clima, e Brasil paga mico internacional

bolso fogo

A ONU (Organização das Nações Unidas) confirmou que o presidente Jair Bolsonaro não está na lista de líderes que participarão do chamado Climate Ambition Summit (a chamada Cúpula do Clima, marcada para amanhã (12/12).  Isso fica explícito porque, ao contrário de outros países sul americanos (Argentina, Chile, Colombia, Peru e Uruguai), o Brasil não aparece na lista de líderes que poderão se pronunciar no evento. Há que se mencionar que até Cuba deverá se pronunciar no evento que deverá ter como estrelas o presidente Emmanuel Macron (França), a chanceler Angela Merkel (Alemanha) e o presidente Xi Jinping (China).

summit

Esse é, digamos, um “mico” sem precedentes, pois em décadas recentes, o Brasil era um dos líderes dos debates climáticos, muitas vezes jogando o papel de mediador entre as demandas dos países desenvolvidos e a dos chamados países em desenvolvimento.  Mas tanto fizeram que Jair Bolsonaro e Ricardo Salles conseguiram colocar o Brasil em uma posição inédita de ostracismo, justamente em um momento em que a União Europeia, apenas à guisa de exemplo, decidiu adotar metas ambiciosas de redução de emissão de gases estufa que deverão ser alcançadas até 2020.

Como aquilo que está ruim pode sempre piorar, o grupo  Climate Action Tracker requalificou e rebaixou a situação dos compromissos  de “insuficiente” para “muito  insuficiente”.  Além disso, o Brasil conquistou dois troféus do prêmio de “Fóssil Colossal” dos últimos 5 anos na categoria “Não protege sua população dos impactos das mudanças climáticas” e “Reduz a participação da sociedade civil”.  O anúncio aconteceu nesta sexta-feira (11/12), véspera da Cúpula de Ambição Climática, que marcará o aniversário de 5 anos do Acordo de Paris, e é um evento preparatório para a COP26, que será realizada na Escócia em 2021. Esta é a terceira vez em que Bolsonaro leva o Brasil a receber o prêmio da CAN. Em 2018, o país levou o troféu depois de o então presidente eleito ter anunciado que o país não sediaria a próxima conferência climática e por ainda ameaçar tirar o Brasil do Acordo de Paris; em 2019, pela tentativa de legalizar a grilagem. Na cerimônia de hoje, o país foi descrito como uma nação governada por “Jair Capitão Motosserra Bolsonaro” que parece estar tentando “transformar os pulmões do mundo no pior lugar do planeta para ser uma árvore.”   

popliri@gmail.com on Twitter: "#Brazil, #Amazonia, our natives, our  wildlife, are now in the hands of Bolsonaro, the "Captain Chainsaw"!… "

Para quem acha que esse alijamento do Brasil das decisões multilaterais relacionadas ao controle das mudanças climáticas é, digamos, de menor importância, eu diria que, pelo contrário, essa é uma situação muito grave para os interesses estratégicos do Brasil, a começar pela economia.