O grande mérito de Jair Bolsonaro é nos mostrar como as elites brasileiras realmente são

sinal de armaJair Bolsonaro faz sinal de armas com as mãos

Tenho assistido e lido a incontáveis manifestações de suposto horror frente às declarações e ações de Jair Bolsonaro enquanto ocupa o cargo de presidente do Brasil. Essas manifestações partem, inclusive, de setores robustos da mídia corporativa que ajudaram a pavimentar o caminho do ex-capitão ao cargo máximo da república. Vejo nisso tudo uma forte dose de cinismo e  hipocrisia pelo simples fato de que Jair Bolsonaro continua sendo coerente com o que sempre foi, e, provavelmente, continuará sendo.

Aliás, o grande mérito de Jair Bolsonaro é desvelar (no sentido de tirar o véu) da suposta aura de superioridade moral das elites que realmente governam o Brasil, as quais nunca fizeram o devido ajuste com seu passado oligárquico e escravocrata, mas adoram se pintar de limpinhas e civilizadas enquanto desfilam seus carrões importados por ruas cheias de brasileiros que não têm o que comer.

O fato inescapável é que Jair Bolsonaro não saiu do baixo clero da Câmara de Deputados para ocupar o cargo de presidente da república por algum capricho da natureza. A sua chegada ao Palácio do Planalto contou com a generosa contribuição de tempo e dinheiro das elites brasileiras que perderam a vontade de continuar apoiando o PT e suas políticas de distribuição ínfima das riquezas nacionais para as amplas camadas da nossa população que sempre estiveram sob o jugo de uma das sociedades mais desiguais já construídas na história humana.

E não nos esqueçamos que há quase uma perfeita orquestração que transborda limites de direita e esquerda para permitir que Jair Bolsonaro e seus ministros possam criar uma terra arrasada pelas botas de políticas ultraneoliberais criadas pelo dublê de banqueiro e ministro da Economia, Paulo Guedes. Se não fosse assim, a reforma da previdência não teria passado tão facilmente, e sem qualquer resistência de rua, no congresso nacional.

Assim, alguns podem até ensaiar ares de indignação frente às declarações eivadas de misoginia e homofobia que partem de um político que moldou sua carreira política em fomentar os aspectos mais indignos do caráter nacional.  Mas ao final do dia, esses que fingem se indignar, saberão que são parte do processo que ajudaram a colocar em marcha. 

Mas como não há noite que não vire dia, o importante é nos prepararmos para construir um país que não seja tão raso como são suas elites.

Jair Bolsonaro e Paulo Guedes são dois boquirrotos certos da impunidade. Mas até quando?

guedes bolso

O governo Bolsonaro é caracterizado, entre outras coisas, pela língua solta de suas principais figuras a começar pelo próprio presidente e seu todo poderoso ministro da Economia, o banqueiro Paulo Guedes.  A tática parece obviamente tirada da cartilha da ultradireita estadunidense, e os ataques ácidos são usados para ridicularizar e colocar na defensiva todos aqueles que possam ser vistos como insurgentes contra a deconstrução das políticas ultraneoliberais que estão sendo implantadas no Brasil desde janeiro de 2019.

Hoje o alvo do ministro Paulo Guedes foram os servidores públicos de quem o governo Bolsonaro quer remover nada menos do que 25% dos salários à guisa de equilibrar as contas públicas, mas que na prática visa apenas aumentar a capacidade do governo federal de injetar dinheiro nos bancos sob a  desculpa de pagamento da dívida pública. Falando a uma plateia seleta em uma palestra proferida na Escola Brasileira de Economia e Finanças da Fundação Getúlio Vargas (FGV EPGE), Paulo Guedes equiparou  todos os servidores públicos brasileiros a parasitas. A razão do ataque? O fato dos servidores exigirem o reajuste anual dos salários, de modo a, pelo menos, repor as perdas inflacionárias.

parasitas

Já o presidente Jair Bolsonaro, em uma das célebres saídas na porta do Palácio do Planalto soltou a língua para atacar os ambientalistas que se opõe ao seu projeto de liberação total das terras indígenas para empreendimentos variados que vão desde a mineração, passando pela agropecuária, e incluindo ainda a construção de hidrelétricas. Para Bolsonaro, os ambientalistas que se opõe ao seu projeto não passam de pessoas de “paletó e gravata, uísque, carpete, vendo televisão a noite toda e, também né, fumando um cigarrinho ‘legal’ a noite toda“. Em outras palavras, o presidente Bolsonaro aparentemente rotulou todos os que se opõe ao seu projeto para as terras indígenas como almofadinhas que são usuários de drogas.

bolsonaro ambientalistas

As declarações de Guedes e Bolsonaro são claramente exageradas e atingem  dois segmentos inteiros com rótulos que eles sabem não serem merecedores do ataque que realizam. Mas isso não os impede de se pronunciar dessa forma, nem temer repercussões judiciais por dizerem algo que é violador dos direitos constitucionais de todos os atingidos.  A questão aqui é por que Guedes e Bolsonaro (e podem colocar aí também Abraham Weintraub e Ricardo Salles) se manifestam de uma forma que pode facilmente gerar processos judiciais e desgastes com segmentos inteiros?

A resposta é simples: porque eles sabem que a reação nunca será à altura do ataque que fizeram, se as coisas não mudarem radicalmente no Brasil. Em outras palavras, esculacham servidores públicos e ambientalistas porque sabem que sairão impunes.  Resta saber apenas até quando os que são caluniados e injuriados vão continuar assistindo a este show de horrores de forma apática e omissa. 

Uma coisa é certa: se não houver reação, os ataques de hoje serão apenas uma gota no oceano dos ataques que ainda virão. 

Abertura de terras indígenas para mineração, hidrelétricas e pecuária: receita perfeita para genocídio e devastação ambiental

Yanomami-800x533Terras indígenas que já se encontram sob forte pressão pelo garimpo ilegal de ouro, agora correm o risco de serem abertas para todo tipo de atividade econômica

O presidente Jair Bolsonaro anunciou hoje que enviará ao congresso nacional um projeto de lei para permitir a exploração de terras indígenas por meio de atividades de mineração, construção de hidrelétricas e pecuária. Segundo Bolsonaro afirmou, este projeto tornará realidade um sonho pessoal.  De quebra, o ainda ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni equiparou este projeto de lei a uma espécie de Lei Áurea dos povos indígenas que agora ocorrerá de fato uma suposta “autonomia dos povos indígenas e sua liberdade de escolha”, pois “será possível minerar, gerar energia, transmitir energia, exploração de petróleo e gás e cultivo das terras indígenas”.  O mínimo que posso dizer é que, primeiro, este projeto não tem nada de Lei Áurea, e que o sonho de uns é normalmente o pesadelo de outros.  

Mas que ninguém se engane, este projeto de lei, se aprovado nos termos formulados pelo ministro das Minas e Energia, o almirante Bento Albuquerque, significará o início de um amplo  e generalizado processo de devastação de partes intocadas dos biomas Amazônicas que só estão nessa condição por causa da proteção que lhes é dada pelos povos indígenas que os habitam e neles estabeleceram um complexo equilíbrio ecológico que lhes permitiu manter seus sistemas sociais por milênios.  

E é justamente por causa da proteção que dão aos biomas amazônicos existentes dentro de suas terras que os povos indígenas se encontrarão sob o risco direto de extermínio físico.  O fato é que o risco de genocídio se tornará mais do que uma possibilidade teórica se esse projeto de lei não for derrotado no congresso nacional.

A questão é que, apesar de existirem lideranças indígenas que provavelmente serão cooptadas para abrir seus territórios para todo tipo de empreendimento econômico, a maioria dos povos originários existentes na Amazônia irão resistir, como já resistiram no passado, à devastação de suas terras.  Em meu trabalho de doutorado tive acesso à lideranças indígenas que mostravam completo desdém à sociedade “branca”, apesar de manterem relações econômicas com o meio envolvente. 

Mas pelo menos para as lideranças com quem dialoguei em aldeias e fora delas, não havia interesse em se “civilizar” nos moldes da sociedade branca como dá a entender o presidente Jair Bolsonaro. Aliás, o sentimento era justamente o oposto,  pois o que viam nas cidades era algo que consideravam a antítese do alto grau de civilidade que já haviam estabelecido dentro de suas próprias culturas. Para aquelas lideranças, os brancos sempre vinham acompanhados de doenças e violência, e de destruição ambiental. Como alguns daqueles jovens líderes com quem convivi no início da década de 1990 agora são lideranças maduras e estabelecidas, fico imaginando o que estão pensando da “Lei Áurea” que o governo Bolsonaro quer enfiar-lhes goela abaixo.

O que me preocupa é que não vejo neste congresso, que abriga uma quantidade significativa de latifundiários, madeireiros e empresários da área da mineração,  qualquer chance de brecar esse projeto de lei. Além disso, não há qualquer razão para esperar que os tribunais superiores também ajam para impedir a abertura pretendida pelo governo Bolsonaro. Como já disse Romero Jucá, um antigo agente dos interesses minerários na Amazônia, vai ser com STF, com tudo.

A única expectativa é que os povos indígenas resistam de forma a colocar o governo Bolsonaro na defensiva por causa da pressão externa. E como já disse Aílton Krenak, um dos mais importantes intelectuais indígenas do Brasil, os povos originários já resistem há 500 anos e já estão acostumados a fazer isso.  O problema de todos que quiserem impedir o genocídio e a devastação ambiental que se avizinham será não deixar os povos indígenas resistindo sozinhos.

 

Um ano de Bolsonaro: o Brasil se tornou mais antidemocrático

O presidente Jair Bolsonaro está no poder há um ano no Brasil. Um inventário crítico.

bolso 1Presidente Jair Bolsonaro, Vice-Presidente Geral Hamilton Mourão e Ministro de Estado enquanto levanta a bandeira do Estado em frente ao Palácio da Alvorada – créditos da  foto

Por Annette von Schönfeld

O extremista de direita Jair Bolsonaro é presidente do Brasil desde janeiro de 2019. Depois de um ano, fica claro que, mesmo que (até agora) nem todas as ameaças que Bolsonaro fez na campanha eleitoral tenham sido implementadas, não é evidente que ele se absteve de fazê-lo. Como escreveu o filósofo e cientista social brasileiro Marcos Nobre em dezembro: “O objetivo real de Bolsonaro é a destruição da democracia” [1] . Isso pode ser visto em vários níveis.

O modelo de desenvolvimento neoliberal brasileiro, em detrimento do meio ambiente e do clima

Economicamente, o governo se apóia em um conceito radicalmente neoliberal e deseja financiar a estabilidade de suas políticas de direita por meio da exploração sistemática e intensiva de recursos. Os atuais desenvolvimentos no “país modelo neoliberal” do Chile estão sendo seguidos com grande preocupação, mas não levam a dúvidas sobre o próprio conceito neoliberal, que já havia perdido credibilidade devido à crise econômica de 2008.

No topo da lista de projetos do governo está a exploração da Amazônia. Parte do modelo de desenvolvimento para a Amazônia é a construção de estradas, portos e conexões ferroviárias para o transporte dos recursos da região. É sobre recursos minerais e produtos agrícolas. A expansão do agronegócio é explicitamente apoiada. Consequentemente, a proteção florestal é insignificante para o governo: está apenas na agenda desde que promova renda significativa para o país, por exemplo, através dos projetos REDD + financiados internacionalmente como programas para reduzir as emissões. Essa é uma das razões pelas quais o Brasil ainda não se retirou completamente do acordo climático, embora Bolsonaro seja um negador das mudanças no clima, e a luta contra as mudanças climáticas em si não desempenha quase nenhum papel. A proteção ambiental também não é uma alta prioridade nas ações do governo de Bolsonaro. O grande número de incêndios na Amazônia em agosto / setembro de 2019 não foi tão inconveniente para o governo. Os regulamentos para áreas protegidas indígenas também estão sendo gradualmente suavizados. Agricultura e mineração devem ser possíveis no futuro. As disputas sobre terra e recursos estão se intensificando. Os assassinatos de povos indígenas aumentaram significativamente em 2019. O Brasil continua sendo um dos países onde a maioria dos ativistas ambientais é perseguida e morta. Agricultura e mineração devem ser possíveis no futuro. As disputas sobre terra e recursos estão se intensificando. Os assassinatos de povos indígenas aumentaram significativamente em 2019. O Brasil continua sendo um dos países onde a maioria dos ativistas ambientais é perseguida e morta. Agricultura e mineração devem ser possíveis no futuro. As disputas sobre terra e recursos estão se intensificando. Os assassinatos de povos indígenas aumentaram significativamente em 2019. O Brasil continua sendo um dos países onde a maioria dos ativistas ambientais é perseguida e morta.

Além disso, o governo está apostando na extensa privatização de funções e infraestrutura públicas. A jornalista Eliane Brum fala de um processo ilegal de apropriação privada. Houve vendas iniciais de aeroportos e licitações estão sendo realizadas para a operação dos parques naturais, que são de interesse dos turistas. Nenhuma parte interessada estrangeira foi encontrada para o leilão de licenças de produção para os depósitos de petróleo da Pré-Sal na costa brasileira e a Petrobras semi-pública brasileira recebeu o contrato.

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Espaços e instituições ameaçados

O estado esbelto faz parte do conceito neoliberal. Desde o início, o governo lançou um processo de reestruturação de instituições públicas. O número de ministérios foi reduzido de 29 para 22. Os ministérios fechados incluíam aqueles para trabalho e cultura. Onde as autoridades governamentais não representam mais as prioridades do governo, por exemplo, no campo ambiental, elas são desacreditadas publicamente e seu trabalho se torna quase impossível devido a cortes no orçamento. Ao mesmo tempo, o sistema muito sofisticado de estruturas de participação ancoradas na constituição foi sistematicamente processado ou esvaziado. A maioria dos chamados “conselhos consultivos” [2]foi fechado ou reestruturado para que nenhum voto crítico do governo pudesse ser recebido. As estruturas de apoio público, por exemplo, para mulheres que sofreram violência, também diminuíram em número porque são subfinanciadas.  

Também é preocupante que o termo AI (Ato Institucional) 5 tenha surgido repetidamente, às vezes pelo ministro de Assuntos Econômicos Guedes, às vezes pelo filho de Bolsonaro, Eduardo, sempre banalizando e ameaçador. Por ocasião da onda de protestos no Chile, foi dito que tal coisa não seria permitida no Brasil, levaria a uma AI 5. A AI 5 foi em 1968: fechamento do parlamento, suspensão dos direitos civis, possibilidades de prisões “preventivas” e outras medidas que iniciaram o período mais sombrio da ditadura militar brasileira.

A tragédia de dados e fatos

A redução da transparência também ajuda a reduzir a democracia. As autoridades não fornecem mais informações. Por exemplo, dados sobre áreas protegidas desapareceram do site do Ministério do Meio Ambiente e arquivos de fotos sobre violações de direitos humanos sob a ditadura militar foram destruídos. Como em outros contextos extremistas de direita, as notícias falsas são usadas de maneira direcionada, fatos cientificamente comprovados, como B. os números do desmatamento na Amazônia 2019, polemicamente questionados. A diferença entre verdade e mentira é obscura. Nas mídias sociais, que estão entre as plataformas de informação e comunicação mais importantes desse governo, a opinião se torna perícia. A manipulação se torna fácil.

Consequentemente, o governo também não está interessado em ciência forte e independente (social, política, humanidades). As universidades brasileiras precisam lidar com severos cortes no financiamento. Os programas estatais de bolsas de estudo foram radicalmente cortados. Foi iniciado um programa para escolas civis-militares para crianças em idade escolar, o que aumenta a influência dos militares no cotidiano escolar. Eles não são responsáveis ​​pelo currículo, mas pela disciplina e ordem.

Lidar com os fatos também coloca uma forte pressão sobre o relacionamento entre a imprensa e Bolsonaro – e vice-versa.

,A liberdade formal da imprensa continua, mas Bolsonaro difama qualquer pessoa que discorde dele. Você é acusado de mentir ou precisa aceitar grandes cortes na publicidade. As estações de televisão, rádios e jornais amigáveis ​​ao governo, geralmente evangélicos, são favorecidos. Sempre há avanços na direção da censura, mais recente e espetacularmente comparada à paródia de Natal da Porta dos Fundos, uma produtora de sátiras no Rio. O programa retrata Jesus como um homossexual que leva seu novo amigo para casa. O Supremo Tribunal decidiu agora contra a censura. Por outro lado, a imprensa tradicional dificilmente deixa o governo em boa forma. Exceções são dados econômicos positivos, que até agora foram poucos. Assim que a economia se recupera, o relato da mídia tradicional das antigas elites torna-se imediatamente “mais tolerante”. A mídia progressiva, amplamente baseada na Internet, está enfurecida contra Bolsonaro e o governo, descobrindo continuamente escândalos e criando um sério contra-público. Consequentemente, eles estão cada vez mais ameaçados.

Guerra de cultura e diversidade

O governo tem uma estratégia clara para reescrever a história do Brasil e suas narrativas. Começa com a exclusão da palavra ‘direitos humanos’ do Programa Nacional de Alfabetização e continua com a proibição de um videoclipe pelo Banco Nacional do Banco do Brasil, que lida com a diversidade de clientes, incluindo negros e gays. A agência estadual de promoção de filmes ANCINE foi instruída a parar de promover filmes que questionem os papéis clássicos na família e na sociedade. O concurso para o Prêmio Nacional de Arte 2020 foi anunciado recentemente pelo secretário de Estado responsável, Roverto Alvim, em um vídeo em que proferiu um discurso que quase se assemelhava a um discurso de Goebbels a partir da década de 1930.

Felizmente, há uma forte resistência a esses avanços, por um lado, e por outro lado, nem tudo pode ser implementado imediatamente. Mas os representantes políticos da extrema direita têm poder de permanência. Você colocará os projetos de volta à agenda este ano com um título um pouco diferente.

A provocação operada por Bolsonaro e arredores também pertence à guerra cultural. De novo e de novo, mesmo antes da eleição e desde então, diz-se que coisas indescritíveis tornam o impensável concebível.  

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A luta no parlamento e com a Suprema Corte

Com exceção de algumas grandes manifestações, o debate político público sobre Bolsonaro e seu projeto de extrema direita em 2019 ocorreu em grande parte no Parlamento, na Suprema Corte e na imprensa. Embora ele esteja no poder, ele até agora esteve subordinado a processos democráticos, o que ele não está disposto a fazer. O atual equilíbrio de poder não existe mais.

Uma das primeiras “medidas provisórias” que Bolsonaro promulgou em 1º de janeiro de 2019 foi permitir o controle estatal das ONGs. Outra posse de armas legalizada muito além do que anteriormente era o caso. Medidas provisórias são leis promulgadas pelo Presidente que são efetivas imediatamente, mas devem ser aprovadas pelo Parlamento dentro de 90 dias, caso contrário, elas serão canceladas. O Parlamento recusou-se a confirmar todas estas medidas. Por decreto, Bolsonaro tentou implementar a promessa de campanha de impunidade para as forças de segurança que prejudicam ou até matam alguém de plantão. Este e outros decretos foram anulados pelo Supremo Tribunal Federal como inconstitucionais. Bolsonaro, consequentemente, usou a anistia de Natal para

Estas não foram de forma alguma as únicas questões que encontraram resistência no Parlamento. Houve particularmente muitas disputas sobre questões ambientais, sobre tentativas de acessar territórios indígenas para uso agrícola ou sobre exploração de recursos.

O governo não tem maioria no parlamento; não existe, como na Alemanha, um partido no poder claro, nem uma coalizão fixa, mas muitas vezes mudando alianças. O PSL, com o qual Bolsonaro venceu a eleição, foi o segundo maior grupo com 52 membros (de 513). Bolsonaro e quase 30 deputados deixaram o PSL devido a disputas de poder. Além disso, outros 30 partidos estão representados no parlamento. Dependendo do assunto, há um constante vaivém de vitórias e derrotas. O número de decretos e medidas provisórias com os quais os fatos políticos deveriam ser criados era, portanto, enorme em 2019. E mesmo que nem todos os decretos se tornem lei, políticas autoritárias são feitas com eles e tópicos são levantados.

O presidente da Câmara Federal, Rodrigo Maia, desempenha um papel central na relação entre governo e parlamento. Ele é membro do partido conservador do DEM e cabe a ele colocar tópicos na agenda parlamentar – ou não. Ele é um político com muita experiência e para muitos, especialmente os representantes do centro, uma garantia de conformidade com processos e estruturas democráticas, mesmo contra o presidente. Seu mandato termina em 2021. Em 2019, ficou claro que todos os planos de reforma econômica foram rapidamente adotados pelo Parlamento. Por outro lado, os projetos de lei sobre os chamados “costumes e práticas”, que incluem questões como decência e moralidade, direitos sexuais e reprodutivos etc., dificilmente foram incluídos na agenda de votação.

Também há um constante movimento de vaivém entre o governo e o Supremo Tribunal Federal (STF), que declara repetidamente medidas e medidas políticas do governo como inconstitucionais e, portanto, as retarda, em um nível conservador do estado de direito. Os apoiadores do governo impõem intenções políticas ao STF e já pediram publicamente sua abolição.

Um país de terços

Por muitos meses, os institutos de pesquisa deram a imagem de um terço do Brasil. Um terço da população rejeita categoricamente o presidente. Um terço diz “nem bom nem ruim” e um terço está atrás dele. Bolsonaro faz política para esse terço. Este terceiro concorda com suas declarações polêmicas e provavelmente já aceitaria uma forma de governo mais autoritária hoje em grande parte hoje. Um terceiro voto de aprovação provavelmente seria suficiente para alcançar a segunda votação se Bolsonaro candidatasse à reeleição. A direita ainda está em alta no Brasil. Até a extrema direita.

O centro, ao qual uma grande parte das elites tradicionais do país pertence, não age de forma consistente. Alguns apóiam o governo porque aprova sua política econômica neoliberal. As promessas de uma mão dura na política de segurança também são bem-vindas. Por outro lado, parte do centro rejeita os ataques à diversidade. Ela considera que a discriminação contra mulheres e LGBTI não está mais atualizada e vê muita exclusão como um obstáculo ao mercado. O centro congratula-se com a legislação trabalhista adotada e as reformas previdenciárias e o limite de gastos sociais. Mas até agora ele se baseou na democracia brasileira.

A esquerda ainda está praticamente sem palavras. Como partido, o PT não lidou com seus próprios erros políticos, que contribuíram para a situação atual. Pontes entre o PT e outras partes da esquerda são extremamente frágeis. A sociedade civil ainda ampla, progressista e crítica fracassou em seus esforços de diálogo com o governo. Ele se concentra nas análises e na sua disseminação e está cada vez mais se voltando para políticas locais e iniciativas de base. Mas no geral não há visões e utopias. Isso paralisa.

As eleições municipais de 2020 como medida política

As eleições locais em outubro de 2020 serão um parâmetro para o atual equilíbrio político do poder no Brasil. Desde que deixou o PSL, Bolsonaro começou a fundar seu próprio partido, a “Aliança pelo Brasil”. Ainda não está claro se ela pode concorrer às eleições locais, o que exigiria quase meio milhão de assinaturas até abril. Mas com e sem a Aliança ficará claro o quão forte será a extrema direita. Caso realmente se estabeleça ainda mais, pode-se esperar uma intensificação da política de extrema direita e um aumento do ataque a dissidentes e dissidentes.
No nível local, existem fortes oponentes de outros campos políticos. No entanto, é mais do que tempo de que alternativas claras sejam desenvolvidas além do nível local, a fim de possibilitar políticas alternativas no nível nacional.


[1] Revista Piaui, dezembro de 2019
[2] Conselhos são órgãos, nos quais representantes dos setores afetados da sociedade se reúnem, acompanham e aconselham a ação política de um ministério. O sistema de conselhos consultivos está ancorado na constituição brasileira de 1988. Exemplos são os conselhos consultivos sobre saúde, cidade, educação etc.

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Este artigo foi originalmente publicado em alemão pela FUNDAÇÃO HEINRICH BOELL [Aqui!].

Para esconder incompetência de Weintraub, Bolsonaro sugere que ENEM foi sabotado

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O caos estabelecido pela gestão incompetente de Abraham Weintraub no Ministério da Educação (MEC) está sendo didaticamente demonstrado pelas agruras impostas a milhares de estudantes brasileiros que prestaram o chamado Exame Nacional do Ensino Médio, o popular ENEM.  A coisa está tão bagunçada que o próprio MEC teve que suspender inscrições para o “Programa Universidade para Todos (Prouni)” até que o imbroglio causado no ENEM seja desatado.

Em outras palavras, oimprecionante”  Abraham Weintraub conseguiu bagunçar algo que já herdou pronto e testado em diversas ocasiões.  E com isso perdem os que fizeram o exame e também as instituições de ensino superior que adotaram o ENEM como elemento balizador para a entrada de novos estudantes.

A estas alturas, em um governo minimamente sério, Abraham Weintraub já teria sido demitido e voltado para a obscuridade de onde saiu antes de assumir o MEC. Mas o governo Bolsonaro não é minimamente sério, o que está sendo mais uma vez demonstrado pelo próprio presidente Jair Bolsonaro. É que pressionado pela realidade da incompetência de seu ministro,  o presidente da república partiu, mais uma vez, para uma fajuta teoria da conspiração. 

É que segundo noticia o site UOL a partir de matéria escrita pelo jornalista Hanrrikson de Andrade, Jair Bolsonaro teria afirmado que ” o governo vai apurar se houve um erro de gestão, falha humana ou sabotagem na correção do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio)“.  Ora, todos menos Jair Bolsonaro, já sabem que a grande sabotagem ao ENEM está hoje sentada na cadeira de ministro da Educação.  E o pior é que a sabotagem está sendo tremendamente eficiente, e o caos foi instalado.

Resta saber agora como vão reagir os que prestaram o exame e as instituições que não poderão receber estudantes novos por causa da incompetência galopante de Abraham Weintraub.

O “novo” Capitalismo de Davos é uma antítese ao pensamento social e econômico do governo Bolsonaro

2019 World Economic Forum (WEF) annual meeting in DavosPresente na edição de 2019 do Fórum Econômico de Davos, o presidente Jair Bolsonaro estará ausente na de 2020 e não poderá conhecer de perto o “novo” Capitalismo ambiental e socialmente responsável que será ali apresentado

O presidente Jair Bolsonaro decidiu não ir à edição de 2020 do Fórum Econômico Mundial que se realizará na cidade suíça de Davos.  A explicação oficial é de que ele resolveu não sair do Brasil em um momento de forte tensão internacional causada pelo assassinato do general iraniano Qaseim Suleimani.  No lugar dele deverá ir o seu ministro da Fazenda, o senhor Paulo Guedes.

Pois bem, a não ida de Jair Bolsonaro talvez evite a ele o dissabor de ter de tentar se posicionar em relação à posição oficial do evento acerca do que seria a postura necessária das corporações no interior da chamada “Quarta Revolução Industrial” que está consignada no chamado “Davos Manifest 2020” cuja tradução literal apresento abaixo em sua integralidade.

O grande problema para o governo do presidente Jair Bolsonaro e suas táticas que se assemelham aos primórdios do Capitalismo é que o “Manifesto de Davos 2020” apresenta uma agenda diametralmente oposta à que está sendo aplicada no Brasil neste momento.  Entre outras coisas, o manifesto fala em “pagamento justo de impostos, tolerância zero com a corrupção, proteção do meio ambiente, estímulo à qualificação dos empregados, uso ético das informações privadas na era digital, vigilância dos direitos humanos em toda a cadeia de fornecedores, e remuneração responsável dos executivos“. 

Há obviamente a possibilidade nada desprezível de que o conteúdo desse manifesto não passe de um exercício de cinismo. Entretanto, mesmo levando isso em conta, o fato do Fórum Econômico de Davos e seus poderosos associados estarem apontando o caminho oposto ao vigente no Brasil não deixará de criar embaraços para os interesses econômicos nacionais, na medida em que corporações e governos nacionais passarão a inserir esses elementos em suas diversas formas de relacionamento com o nosso país.

Como aqui hoje estão sendo aplicadas as formas mais toscas de Capitalismo em nome sabe-se lá do quê, o fato do Brasil estar indo na direção oposta ao que está sendo sugerido em Davos ajuda a expor o anacronismo das ações governamentais que desprezam a sustentabilidade ambiental, os direitos humanos, bem como da necessidade de se trabalhar para reduzir as profundas desigualdades sociais e econômicas que estão sendo aprofundadas pelas políticas ultraneoliberais idealizadas e impostas pela dupla Bolsonaro e Guedes a um povo brasileiro cada vez mais empobrecido.

Finalmente, não deixa de ser irônico notar que as práticas do governo brasileiro estão bem mais à direita do que as formuladas pelo grande capital internacional que se coloca sob a sombrinha do Fórum Econômico de Davos. É grave a crise!

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Manifesto Davos 2020: O Propósito Universal de uma Empresa na Quarta Revolução Industrial

A. O objetivo de uma empresa é envolver todas as partes interessadas na criação de valor compartilhado e sustentado. Ao criar esse valor, uma empresa atende não apenas seus acionistas, mas todas as partes interessadas – funcionários, clientes, fornecedores, comunidades locais e sociedade em geral. A melhor maneira de entender e harmonizar os interesses divergentes de todas as partes interessadas é através de um compromisso compartilhado com políticas e decisões que fortaleçam a prosperidade a longo prazo de uma empresa.

i. Uma empresa atende a seus clientes fornecendo uma proposta de valor que melhor atenda às suas necessidades. Aceita e apoia uma concorrência leal e condições equitativas. Ele tem tolerância zero para corrupção. Mantém o ecossistema digital em que opera de maneira confiável e confiável. Ele conscientiza os clientes da funcionalidade de seus produtos e serviços, incluindo implicações adversas ou externalidades negativas.

ii. Uma empresa trata seus funcionários com dignidade e respeito. Honra a diversidade e busca melhorias contínuas nas condições de trabalho e no bem-estar dos funcionários. Em um mundo de rápidas mudanças, uma empresa promove a empregabilidade contínua por meio de aprimoramento e capacitação contínuos.

iii. Uma empresa considera seus fornecedores como verdadeiros parceiros na criação de valor. Oferece uma chance justa aos novos participantes no mercado. Integra o respeito pelos direitos humanos em toda a cadeia de suprimentos.

iv. Uma empresa atende a sociedade em geral por meio de suas atividades, apoia as comunidades em que trabalha e paga sua parcela justa de impostos. Garante o uso seguro, ético e eficiente dos dados. Ele atua como um administrador do universo ambiental e material para as gerações futuras. Protege conscientemente nossa biosfera e defende uma economia circular, compartilhada e regenerativa. Expande continuamente as fronteiras do conhecimento, inovação e tecnologia para melhorar o bem-estar das pessoas.

v. Uma empresa fornece a seus acionistas um retorno sobre o investimento que leva em consideração os riscos empresariais incorridos e a necessidade de inovação contínua e investimentos sustentados. Gerencia com responsabilidade a criação de valor a curto, médio e longo prazos, buscando retornos sustentáveis ​​para os acionistas que não sacrificam o futuro no presente.

B. Uma empresa é mais do que uma unidade econômica geradora de riqueza. Ele cumpre as aspirações humanas e sociais como parte de um sistema social mais amplo, e o desempenho deve ser medido não apenas no retorno aos acionistas, mas também na maneira como ele atinge seus objetivos ambientais, sociais e de boa governança. A remuneração dos executivos deve refletir a responsabilidade das partes interessadas.

C. Uma empresa que possui um escopo multinacional de atividades não serve apenas a todos os interessados ​​diretamente envolvidos, mas atua como uma das partes interessadas – juntamente com governos e sociedade civil – do nosso futuro global. A cidadania global corporativa exige que uma empresa aproveite suas principais competências, empreendedorismo, habilidades e recursos relevantes em esforços colaborativos com outras empresas e partes interessadas para melhorar o estado do mundo.

Voz da Alemanha divulga dados sobre perda massiva de florestas tropicais no Brasil

No ano passado, mais de 9.000 quilômetros quadrados de floresta foram desmatados na Amazônia. Isso é 85% a mais do que em 2018. Os números são do Instituto Internacional de Pesquisa Espacial do Brasil, reconhecido internacionalmente.

dw 1Construção de estradas na área de selva na Amazônia

Os dados foram coletados para o Instituto de Pesquisas Espaciais do INPE, utilizando o sistema DETER (Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real), baseado em satélite, que monitora o desmatamento em tempo real. Com a ajuda de algoritmos, o programa DETER é capaz de detectar imediatamente alterações na cobertura florestal de mais de 25 hectares.

De acordo com os dados do DETER, 9.166 Km2 de floresta tropical foram desmatados na região amazônica em 2019. Uma área que corresponde aproximadamente ao tamanho da ilha mediterrânea de Chipre. Em 2018, 4.946 Km2 de floresta tropical foram perdidos devido ao desmatamento. Uma área maior que 2019 foi limpa pela última vez na bacia amazônica há mais de uma década, segundo o INPE.

De acordo com os números oficiais mais recentes, o número de incêndios na floresta também foi cerca de 30% maior que no ano anterior.

dw2Madeira é removida de floresta no estado  de Mato Grosso

Pesquisadores e ambientalistas culpam o presidente de direita do Brasil, Jair Bolsonaro, pela crescente perda da floresta amazônica. Bolsonaro é criticado por colocar maior uso da maior área de floresta tropical do mundo sobre a conservação da natureza. O chefe de Estado vê a floresta tropical principalmente como potencial econômico e deseja abrir mais áreas para agricultura, mineração e geração de energia. Bolsonaro, que assumiu o cargo em janeiro de 2019, está intimamente aliado ao lobby agrícola brasileiro e duvida da responsabilidade humana pelas mudanças climáticas.

A Human Rights Watch pediu a Bolsonaro que repensasse suas políticas ambientais. As florestas amazônicas desempenham um papel central na estabilização do clima global.

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Este artigo foi originalmente publicado em alemão pela Deutsche Welle (Voz da Alemanha) [Aqui!].