Jair Bolsonaro veta distribuição gratuita de absorventes íntimos para mulheres pobres no Brasil

Ativistas e parlamentares afirmam que o veto do presidente é ‘absurdo e desumano’ em um país onde a pobreza no período mantém uma em cada quatro meninas fora da escola

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Protestos do Dia Internacional da Mulher em São Paulo em março. Ativistas prometem lutar para derrubar o veto do presidente aos produtos de higiene feminina gratuitos anunciado na semana passada. Fotografia: Cris Faga / NurPhoto / REX / Shutterstock

Por Jo Griffin para o “The Guardian”

A decisão do presidente Jair Bolsonaro de bloquear um plano de distribuição gratuita de absorventes higiênicos e absorventes internos para meninas e mulheres carentes foi recebida com indignação no Brasil, onde estima-se que a pobreza mantenha uma em cada quatro meninas fora da escola.

Bolsonaro vetou parte de um projeto de lei que daria produtos sanitários gratuitamente a grupos que incluíam moradores de rua, prisioneiros e meninas adolescentes em escolas públicas. Previa-se que beneficiasse 5,6 milhões de mulheres e fazia parte de um pacote maior de leis de promoção da saúde menstrual, aprovado pelos legisladores.

Tabata Amaral, do Partido Socialista Brasileira e um dos 34 deputados federais multipartidários coautores do projeto, disse que o presidente mostrou seu “desprezo pela dignidade das mulheres vulneráveis” ao vetar o plano na semana passada.

“Bolsonaro diz que este projeto é ‘contra o interesse público’ – eu digo que o que é contra o interesse público é que as meninas perdem cerca de seis semanas de escola por ano porque estão menstruadas”, disse Amaral ao Guardian.

Ela estava entre os políticos e outros grupos indignados com as justificativas dadas para o veto – incluindo que dar produtos higiênicos gratuitos para meninas e mulheres pobres iria “favorecer um determinado grupo”. Muitas expressaram sua raiva usando a hashtag #LivreParaMenstruar (grátis para menstruar).

Jacqueline Moraes, vice-governadora do estado do Espírito Santo, tuitou: “É ‘um privilégio’ para uma mulher pobre ter direito ao absorvente interno? Não! É política social, saúde pública! ”

“O veto é absurdo e desumano”, disse Rozana Barroso, presidente da União Brasileira dos Estudantes do Ensino Médio (UBES). “Muitos alunos são impedidos de estudar porque deixam de frequentar a escola por não terem absorvente.

“Já imaginou usar papel, jornal ou migalhas de pão para conter a menstruação? Essa é uma dura realidade, principalmente entre os jovens. Em meio à pandemia e ao agravamento da desigualdade social, essa situação piorou ainda mais ”.

A face global da menstruação

Pano, esterco de vaca, xícaras: como as mulheres do mundo controlam seus períodos de menstruação

Em maio, um relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância , Unicef, e do Fundo para a População, UNFPA, descobriu que 713.000 meninas no Brasil vivem sem acesso a um banheiro; cerca de 4 milhões de meninas não têm instalações de higiene adequadas na escola, como absorventes higiênicos e sabonete, e pelo menos 200.000 meninas não têm nem mesmo as instalações de higiene mínimas na escola, como banheiros.

Amaral contestou a alegação do governo de que a fonte de 84 milhões de reais por ano para cobrir o plano não era clara, dizendo que havia sido especificado que seria financiado pelo Ministério da Saúde e pelo Fundo Penitenciário Nacional. Ela está liderando a campanha para derrubar o veto.

Ela observou que o Ministério da Saúde tem que pagar por tratamentos e cirurgias caras resultantes de complicações depois que as mulheres usam itens como toalhas e roupas velhas durante a menstruação. Metade das mulheres brasileiras relatou recorrer a tais alternativas, disse ela.

Barroso está mobilizando estudantes para arrecadação de produtos sanitários para distribuição nas escolas. “Este não é o país que queremos e por isso através da UBES, que representa mais de 40 milhões de estudantes, ajudamos a construir esse projeto de lei e vamos lutar contra esse veto”.

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Este texto foi inicialmente escrito em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!  ].

Por falta de cartão de vacinação contra a COVID-19, Jair Bolsonaro é barrado no estádio do Santos. Restou a ele reclamar

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Impedido de assistir a partida entre Santos e Grêmio em Vila Belmiro por não portar cartão de vacinação, restou ao presidente Jair Bolsonaro reclamar

Não sei quem foi o responsável por impedir a entrada de Jair Bolsonaro no estádio Urbano Caldeira onde queria assistir o jogo entre o Santos e o Grêmio neste domingo, mas as cenas do presidente negacionista reclamando da exigência da apresentação do cartão de vacinação já se tornaram um dos maiores clássicos do rico anedotário da política brasileira (ver vídeo abaixo).

Além dos motivos alegados nos reclamos de Jair Bolsonaro não terem a menor sustentação científica, o fato é que o cumprimento dos protocolos determinados em acordo pelos clubes brasileiros para permitir a volta dos torcedores aos estádios é um alento, em meio às amplas tentativas de sabotagem promovidas pelos que se negam a fazer o básico para impedir a propagação da COVID-19.

E aqui ficam os meus votos de que Jair Bolsonaro seja barrado toda vez que tentar entrar em estádios de futebol sem portar o seu cartão de vacinação. Afinal de contas, ele deveria ser o primeiro a dar o exemplo no esforço de controlar uma pandemia que já consumiu mais de 600 mil vidas brasileiras.

Enquanto o povo come osso, JBS alcança lucro histórico com a exportação de carne

Enquanto aos pobres comem ossos, os irmãos Batista ficam cada vez mais ricos com os lucros fabulosos da JBS

A capa do jornal carioca “Extra” é uma espécie de síntese acabada da situação gerada pela política econômica executada pelo governo Bolsonaro desde janeiro de 2019, pois mostra que o fenômeno da corrida aos ossos por brasileiros pobres está se tornando um fenômeno ampliado em todo o território nacional (ver imagem abaixo).

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Essa corrida aos ossos reflete não o fracasso, mas o sucesso da política de desnacionalização da economia brasileira, iniciada no governo do presidente “de facto” Michel Temer, e largamente ampliada pelo presidente Jair Bolsonaro a partir das políticas ultraneoliberais do seu ministro da Fazenda, o banqueiro Paulo Guedes.

Esse sucesso está demonstrado de forma irrefutável na fila formada por brasileiros para coletar o descarte de ossos que os supermercados corriqueiramente realizam, e que antes eram usados como ração animal. Agora, graças ao sucesso das políticas da dupla Bolsonaro/Guedes restou aos brasileiros pobres correr atrás do “caminhão de ossos” em uma situação que explicita o nível de degradação econômica e social que tais políticas geraram.

A outra face do sucesso das políticas ultraneoliberais do governo Bolsonaro aparece sob a forma dos lucros astronômicos auferidos pela “campeã nacional”, a JBS, que alcançou incríveis R$ 4,4 bilhões de lucro apenas no terceiro trimestre de 2021, no mesmo exato período em que a fome avança como fogo em canavial em dia de vento (ver imagem abaixo).

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O interessante é que os lucros da JBS poderiam ter sido ainda maiores caso a corporação multinacional (muito em parte graças aos generosos aportes feitos durante o período Neodesenvolvimentista dos governos do PT), não estivesse enfrentando contratempos em suas operações de exportação no Brasil e o encarecimento com a compra de insumos usados na produção de ração animal.

O fato é que a corrida aos ossos pelos pobres e os lucros fabulosos da JBS são duas faces da mesma moeda que é a existência de políticas governamentais que têm permitido o aumento da concentração da riqueza em uma sociedade que historicamente é marcada por uma das maiores separações entre ricos e pobres em todo o planeta.

Reconhecer a insustentabilidade social que essa dicotomia é o primeiro requisito para qualquer possibilidade de que o Brasil possa sair da situação precaríssima em que se encontra neste momento. Além disso, há que se reconhecer que os pantomimas executadas pelo presidente Jair Bolsonaro para encobrir a catástrofe social que as políticas do seu governo estão gerando são apenas a ponta de um imenso iceberg que sintetiza uma verdade inescapável: vivemos sob os efeitos de um golpe de estado que dispensa a realização de outro como desejam os segmentos de extrema-direita que apoiam o status quo que comanda o Brasil neste momento, com militares, com STF, com tudo, como anteviu Romero Jucá no período em que se tramava a derrubada da presidente Dilma Rousseff.

Resultados das eleições alemãs trazem más notícias para Jair Bolsonaro: isolamento diplomático do Brasil deverá aumentar

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A derrota eleitoral do partido de Angela Merkel (CDU) deverá aumentar isolamento político de Jair Bolsonaro

Ainda que pareçam desconectadas da situação brasileira, as eleições alemãs trazem más notícias para Jair Bolsonaro e seu cambaleante governo. É que tudo indica que o partido de Angela Merkel (a CDU) não terá condições de manter a chancelaria alemã em função dos resultados obtidos pelo Partido Social Democrata (SPD) que deverá tentar formar uma aliança com os Verdes (Grüne) e com os ex-comunistas do “Die Linke” (ver gráfico abaixo), formando o que se chama de uma aliança “Vermelho-Verde-Vermelho) para governar a Alemanha.

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O problema com a saída da CDU do comando do governo federal alemão é que até aqui quem literalmente segurava a adoção de medidas contra o governo Bolsonaro era justamente a chanceler Angela Merkel, principalmente no tocante ao acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul.

Com a saída da CDU do governo alemão e a provável formação de um governo que deve incluir o Partido Verde, a pressão contra as práticas destrutivas contra o meio ambiente, especialmente no tocante ao desmatamento desenfreado na Amazônia brasileira. Nesse caso, é importante lembrar que a crise climática global esteve entre os principais tópicos que permearam os debates eleitorais na Alemanha, onde ficou claro o papel nefasto que está sendo cumprido pelo Brasil comandado por Jair Bolsonaro e sua trupe de ministros anti ambiente. 

Ainda sobre as eleições alemãs, dois dados parecem mostrar que as coisas devem mudar por lá. A primeira coisa foi um freio na ascensão da extrema-direita (AfD) que viu seu montante de votos diminuir, e a eventual eleição de uma representante do Partido Verde para dirigir a prefeitura de Berlim, o que, se for confirmado, representará um forte avanço da agenda ambientalista em uma das principais cidades da Europa.

“O Brasil de Bolsonaro não existe”, afirma Anistia Internacional Brasil após discurso do presidente na ONU

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O Brasil apresentado pelo presidente Jair Bolsonaro na Assembleia Geral das Nações Unidas, realizada em Nova Iorque nesta terça-feira (21), é um país sem corrupção, que respeita a Constituição Federal, investe no barateamento da produção de alimentos e goza de grande credibilidade nacional e internacional. No Brasil de Bolsonaro, a legislação ambiental é uma das mais completas do mundo, o esforço em zerar o desmatamento ilegal é uma realidade e a Amazônia é exemplo de preservação. A pandemia, para o presidente, foi enfrentada de modo a combater o vírus e garantir os bons números na economia. 

No entanto, essa imagem nega o que fatos e dados revelam: o país atravessa um período estendido de instabilidade e crises política, econômica, sanitária e de direitos humanos. A Anistia Internacional Brasil afirma que o Brasil apresentado por Jair Bolsonaro não existe. Há graves ameaças aos direitos humanos e violações de direitos de povos indígenas, dos cerca de 19 milhões de brasileiros que passam fome neste momento no país e das famílias das quase 600 mil vidas perdidas para a COVID-19.

A gestão da pandemia de COVID-19 no Brasil tem sido marcada por descompromisso e omissões do Governo Federal, que até hoje insiste no chamado “tratamento precoce” em detrimento e/ou minimização da adoção de medidas contundentes e cientificamente comprovadas para a prevenção e recuperação da doença. Episódios de colapso do sistema de saúde, diversas dificuldades para que a vacinação em massa fosse uma realidade e denúncias de superfaturamento na compra de imunizantes são de conhecimento amplo e público e objetos de investigação da CPI da COVID, instaurada para apurar a atuação governamental frente à crise sanitária. É inadmissível que até hoje a população brasileira enfrente uma pandemia global agravada por uma administração política irresponsável.

Pessoas de grupos historicamente discriminados como a população indígena, negros e negras e as famílias mais pobres têm sido desproporcionalmente impactadas pela emergência sanitária, agravada por diversas camadas da crise social que torna cada vez mais precárias as condições de vida dos brasileiros e brasileiras. 

A pandemia contribuiu para que a quantidade de brasileiras e brasileiros com fome ou em insegurança alimentar aumentasse em 2020. Falta comida no prato de quase 9% das pessoas no Brasil, o equivalente à população do Chile. A relativa queda dos índices de pobreza no ano passado não se manteve em 2021, quando o repasse do auxílio emergencial foi interrompido por três meses e retomado em menor valor e para um menor público. No primeiro trimestre de 2021, o Brasil também alcançou a maior taxa de desemprego desde 2012, totalizando 14,7% milhões de pessoas desempregadas, segundo o IBGE.

Apesar deste cenário, o Presidente da República, Jair Bolsonaro, segue à frente de investidas contrárias às necessidades e urgências da população e às pautas prioritárias da agenda global, como o combate à pandemia da Covid-19, a defesa do meio ambiente e o enfrentamento às mudanças climáticas.

Não há política pública para combate ao desmatamento ilegal em andamento no Brasil. A situação da Amazônia é crítica. Órgãos ambientais estatais estão sucateados e foram enfraquecidos desde o primeiro dia do governo Bolsonaro e o próprio ex-ministro do meio ambiente, Ricardo Salles, tem sido apontado como responsável por essas medidas, sendo investigado por esquema ilegal de extração de madeira. A cobertura florestal sofre pressões ao ponto em que no primeiro semestre de 2021, a Amazônia brasileira teve a maior área sob alerta de desmate em 6 anos, segundo dados do Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE). O acumulado de alertas de desmatamento em 2021 na Amazônia foi de 8.712 km², o que equivale a cinco vezes a cidade de São Paulo, maior metrópole do Brasil.

Indígenas brasileiros não vivem “em liberdade”, conforme afirmou o presidente Jair Bolsonaro. A vida na floresta tem sido marcada por sérios riscos de violações de direitos humanos dessas populações por parte de grileiros, madeireiros e invasores de terras. O relatório Conflitos no Campo 2020, elaborado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), registra que, em meio a pandemia, 39% das vítimas de assassinato em contextos de conflito no campo no Brasil eram indígenas, que também representam 34% das pessoas que sofreram tentativas de homicídio e 16% das que se encontram em situação de ameaça de morte.

Na agenda climática, o presidente afirmou o protagonismo que o país tem e de que deve alcançar a “neutralidade climática”, enquanto ignorou o imenso retrocesso realizado pelo atual governo em relação às metas de redução de emissões perante o Acordo de Paris. A última atualização de metas realizada em dezembro de 2020 autoriza que o país emita mais do que havia se comprometido inicialmente em 2015, em uma clara redução de ambição. Além dessa nítida discordância com os princípios do Acordo, a gestão Bolsonaro não apresentou informações suficientes para apontar como as reduções serão atingidas em médio e longo prazo. Tudo isso enquanto ativamente desmonta as políticas de proteção ambiental responsáveis por controlar as emissões do país. Por fim, alega ainda que o futuro dos empregos verdes está no Brasil, sem qualquer ação em nível nacional orientada à construção de capacidades profissionais nesse sentido.

O Brasil que Bolsonaro apresenta ao mundo não existe. Pelo contrário, o país vive graves ameaças aos direitos humanos fundamentais revelados por dados e fatos e que afetam o dia-a-dia de brasileiros e brasileiras. A Anistia Internacional Brasil reafirma seu compromisso de luta por uma sociedade mais justa e que garanta que nenhuma pessoa seja deixada para trás no acesso aos seus direitos humanos fundamentais. Essa busca pelo Brasil real deve ser perseguida pela sociedade civil organizada e também pelas autoridades públicas de todos os poderes constituídos no país.

Com gestos obscenos, ministro da Saúde sintetiza catástrofe do governo Bolsonaro em Nova York

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Seja qual for o teor e efeitos práticos do discurso do presidente Jair Bolsonaro na abertura da Assembleia Geral da ONU que ocorre nesta 3a. feira (21/09), a sua passagem pela cidade de Nova York já se transformou em um verdadeiro desastre de propaganda, ou ainda, em um verdadeiro desastre diplomático. É que acossados por manifestações contrárias, os membros da trupe do presidente brasileiro se expôs publicamente ao oferecer várias cenas deprimentes, a começar pela protagonizada pelo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, que fez gestos obscenos para manifestantes que protestavam em uma calçada nova iorquina (ver vídeo abaixo).

O fato é que ao fortalecer uma imagem de negacionista científico, carregando junto consigo seus ministros, Jair Bolsonaro acabou se colocando em uma posição de extrema fragilidade, o que deverá aprofundar ainda mais a crise que envolve o seu governo.

Some-se a essa situação  o perigo iminente de que, a partir da China, haja em breve uma nova onda recessiva no funcionamento do capitalismo. aos modos do que ocorreu em 2008 quando a Lehman Brothers naufragou, causando um forte abalo no funcionamento da economia global. Se a crise chinesa se confirmar, o presidente Bolsonaro e seu governo terão diante de si uma situação que o então presidente Lula não enfrentou, qual seja, uma diminuição abrupta da demanda pelas commodities agrícolas e minerais brasileiras pelo seu principal parceiro comercial. Se isso acontecer, as consequências terão efeitos semelhantes a um poderoso cataclisma.

Em Nova York, Bolsonaro e sua trupe comem a pizza amarga do negacionismo

O presidente Jair Bolsonaro resolveu peitar os padrões sanitários da cidade de Nova York e decidiu comparecer à Assembleia Geral da ONU  sem se preocupar em carregar o seu cartão de vacinação contra o SARS-Cov-2, provavelmente para agradar os setores mais reacionários do seu eleitorado.  Entretanto, o presidente do Brasil esqueceu-se que nos EUA, país que ele tanto idolatra, as regras não são para inglês ver. O resultado é que ele está impedido de frequentar restaurantes nova iorquinos, pois estes requerem o mesmo cartão de vacinação que ele diz não possuir.

O resultado é que o presidente do Brasil foi obrigado a comer pizza na rua na companhia de um trupe mal enjambrada composta por ministros, militares e ministros militares, mais precisamente na esquina da 3a. avenue com a 44th street, nas imediações da sede da mesma ONU em que ele diz irá discursar de “improviso” (ver imagem abaixo). Assim, mesmo que alguns digam (o jornalista Guga Chacra da Rede Globo, por exemplo) que Bolsonaro foi se saciar em uma esquina da 3a Avenida por opção, essa é uma explicação que não resolve o problema principal que é a postura negacionista que ele emana.

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Assim, é óbvio que haja quem possa dizer que Jair Bolsonaro esteja produzindo mais uma daquelas poses de “homem comum” para agradar a sua base. Mas o problema é que quem está neste momento comendo pizza em uma esquina nova iorquina não é o “homem comum” que atende pelo nome de Jair Bolsonaro, mas a autoridade máxima do poder executivo federal do Brasil. Assim, ao se expor em uma condição vexatória para um chefe de estado, o que Jair Bolsonaro faz é aprofundar a condição de pária do Brasil  em uma conjuntura internacional extremamente dura, pois mistura crise econômica continuada com uma pandemia que não dá sinais de que irá cessar sem um esforço concentrado das principais economias do planeta, nas quais o Brasil está incluso.

Essa incompreensão do próprio papel ainda resultará em momentos amargos para Jair Bolsonaro, o que se pode traduzir na ingestão de algum sabor bastante amargo, como, por exemplo, a de jiló. Enquanto isso não acontece, o mais provável é que o Brasil continue pagando um preço que não será o de uma fatia de pizza em uma loja de esquina em Nova York.

Brasil, o pária

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Um dos elementos mais autodestrutivos que o governo Bolsonaro deixará como legado para o Brasil é o indisfarçável processo de isolamento internacional. Um processo que foi gerado por uma combinação de práticas negacionistas no tocante ao conhecimento científico (seja na área das mudanças climáticas ou da pandemia da COVID-19) e a adoção de um ideário que vê na conservação ambiental e na proteção dos povos originários uma negação das perspectivas de crescimento econômico. Há ainda uma adesão óbvia a agendas obscurantistas no tocante aos direitos das mulheres.

Como consequência dessa combinação de elementos que retroagem a política externa brasileira a uma espécie de  idade média da diplomacia internacional, o Brasil acabou se tornando algo que nem longos períodos de regimes militares conseguiram, qual seja, a sua transformação em uma espécie de pária global. 

O presidente Jair Bolsonaro, cada vez mais aferrado à sua agenda ideológica, agora decidiu que comparecerá à Assembleia Geral da ONU sem se vacinar ou, pelo menos, mostrar o seu cartão de vacinação. Ainda que Jair Bolsonaro não seja o único chefe de estado que comparecerá nessa condição (afinal de contas existem outros líderes mundiais que negam o conhecimento científico), essa negativa representará um tijolo a mais no muro de isolamento que seu governo construiu de forma relativamente veloz desde sua chegada ao poder.

Obviamente há que se reconhecer que existe um forte grau de cinismo nas relações internacionais, e nem sempre as reações são proporcionais às afrontas cometidas por este ou aquele líder. Mas o problema é que vivemos um tempo bastante complexo, já que se combina uma pandemia que não quer ceder com um cenário que combina crise econômica com os problemas gerados pelas mudanças climáticas, gerando uma espécie de feedback positivo de efeitos perversos que se retroalimenta, agudizando um processo de crise global. Com isso, a paciência com países (especialmente aqueles situados na periferia do Capitalismo) que insistem em se comportar de forma inexplicavelmente autosuficiente, como é o caso do Brasil sob a liderança de Jair Bolsonaro.

Certamente Jair Bolsonaro será levado a crer por aqueles segmentos que o apoiam (especialmente os membros de sua aliança que junta latifundiários, madeireiros, garimpeiros e pastores evangélicos) que nada do que for dito no exterior terá efeito prático sobre o que ocorre dentro do Brasil.  Entretanto, essa é uma crença infundada, pois isso não está nem um pouco próximo da verdade.  Isso, por exemplo, explica o aparente racha dentro do chamado “agronegócio” onde os agentes que operam “dentro da porteira” estão sendo isolados por aqueles segmentos que operam “fora da porteira”, pois as práticas anti-ambientais e as ações contra os povos originários comprometem a entrada em um número crescente de países das commodities brasileiras.

O fato é que Jair Bolsonaro e sua agenda ideológica colocaram o Brasil numa posição de pária internacional, o que, cedo ou tarde, poderá lhe custar a cadeira de presidente, seja por impeachment ou por derrota eleitoral. É que não interessa aos controladores de fato da economia brasileira que a condição de pária permaneça por muito tempo, pois claramente concorre contra os negócios que eles fazem.

Bolsonaro e Zé Trovão, quem diria, uma telenovela legitimamente mexicana

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Tenho lido e ouvido incontáveis análises sobre o cenário criado pelas manifestações convocadas pelo presidente Jair Bolsonaro no dia 7 de setembro e seu desdobramento mais óbvio, o misto de greve e locaute liderada pelo auto proclamado líder caminhoneiro (não sei por quê, mas lembrei aqui do auto proclamado presidente venezuelano Juan Guaidó)  Marcos Antônio Pereira Gomes, mais conhecido como Zé Trovão.

É que o desdobramento acabou resultando em bloqueios de estradas que, indo além das bravatas de palanque, obrigaram um contrito presidente Jair Bolsonaro a fazer um pronunciamento claramente a contragosto via Whatsapp onde pediu a desmobilização da categoria em nome, pasmemos todos, dos mais pobres, apenas para ser vítima de uma paródia impiedosa do humorista Marcelo Adnet (ver vídeo abaixo).

Agora se sabe que Pereira Gomes (a.k.a Zé Trovão), para evitar ser preso pela Polícia Federal, tinha se mandado para o México, pátria de famosos novelões. E de lá Zé Trovão foi do céu ao purgatório, visto que pode notar o seu lento abandono por parte do presidente da república, algo que já tinha ocorrido com outras figuras que se arvoraram a ser as mãos que transformariam os discursos de Jair Bolsonaro em ações reais, apenas para serem deixados ao léu.

Eu diria que, ao contrário de muitos analistas engalonados, eu modesto vejo que o presidente Bolsonaro acabou sendo enredado na teia que ele mesmo criou, pois agora se arrisca a perder o apoio de um grupo com conhecida capacidade de circulação não apenas de bens e mercadorias, mas também de conteúdos produzidos para acirrar a disputa política no Brasil. Esse desdobramento, convenhamos, promete abrir mais capítulos na telenovela mexicana em que acabamos enfiados nas últimas semanas.

Finalmente, vamos se daqui a pouco não aparece a Ana Raio para tentar salvar o Zé Trovão. É que tudo indica que se depender de Bolsonaro, Zé Trovão vai tomar o raio.