Tragédia de Mariana: Vale, a multinacional sem país é uma expressão viva do controle privado dos Estados nacionais

vale fhc

Desde que eclodiu a tragédia em Mariana e o nome da Vale apareceu por detrás da fachada da “Mineradora Samarco” tenho visto muitos apologistas da retração do Estado em áreas estratégicas da economia apontaram a empresa como uma espécie de estatal camuflada. Dai que dirigir a culpa para o Estado pela tragédia se dá num passo de lebre, visto que a Vale seria para todos os fins uma “estatal”.

Fiquei curioso com isso e fui procurar informações na internet e encontrei na própria Vale informações que jogam na lama (pode ser a de Mariana mesmo) essa argumentação, e isso fica claro na imagem abaixo.

Vale capital

Para começo de conversa, 45,9% do capital é controlado por estrangeiros e a participação de bancos como o Bradesco (este por meio da Bradspar) serve para configurar o caráter privado e multinacional da Vale. Mas o problema não para por ai. É que em que pese a participação do governo federal (esse na condição minoritária seja diretamente na Vale ou por meio da Valepar) e dos fundos de pensão, tudo indica que os representantes do Estado agem para reforçar os interesses privados e não os públicos.

E qual seria a explicação disso? É que diante da necessidade de gerar “hard currencies“, o Estado cede à primazia dos interesses privados sobre os daqueles que deveriam ser protegidos dos efeitos danosos da ação das corporações. E no caso específico da Vale, os efeitos recaem tanto sobre o ambiente como sobre as populações que vivem nas imediações de suas minas e depósitos de rejeitos tóxicos. Em outras palavras, antes de apontar o dedo de forma simplificadora contra o Estado, há que se levar em conta qual é a política que norteia a sua ação. E no caso do governo de Dilma Rousseff, a agenda é ditada pelos bancos que têm o ministro Joaquim Levy o principal garantidor de seus interesses. Não é à toa que em meio à profunda crise que ocorra no mundo do trabalho, os lucros dos bancos brasileiros nunca foram tão fabulosos.

Assim, em vez de se questionar o tamanho da participação do Estado nas empresas públicas que foram privatizadas desde o início das reformas neoliberais iniciadas por Fernando Collor e continuadas pelas sucessivas administrações federais, o que deveríamos exigir é que os representantes governamentais ajam para garantir que haja o devido equilíbrio entre a atividade econômica e a distribuição dos ganhos. Em vez disso, o que se vê como agora em Mariana é que os ganhos ficam concentrados em poucas mãos, enquanto os efeitos “colaterais” da mineração são impostos sobre os que sempre perdem nessa equação.

Finalmente, há que se lembrar que a forma pela qual o presidente Fernando Henrique Cardoso privatizou a Vale foi um dos maiores escândalos da história recente do Brasil. É que o preço da privatização foi de R$ 3,3 bilhões, enquanto que o valor real da empresa era de R$ 100 bilhões (Aqui!). Isso sim foi um negócio de Estado pai.

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