A esquerda que abriu mão da crítica

A empatia revolucionária com os desvalidos não romantiza suas consciências, não abre mão da crítica e, muito menos, abdica do trabalho de fornecer ferramentas para que superem seus limites. A alternativa é uma empatia superficial, brumosa, tingida de preconceito e condescendência arrogante travestida de bom-mocismo.

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Por Luis Felipe Miguel*

Este texto nasce em reação a duas polêmicas que surgiram nas esquerdas nas últimas semanas – ou, antes, que ressurgiram, pois são cíclicas. Uma é sobre o chamado “lugar de fala”. A outra, sobre como caracterizar o comportamento de pessoas que apoiam ativamente líderes e políticas que, na prática, as condenam à morte; em particular, ao veto ao substantivo “burrice”, tão chocante. Embora tenham sido debates separados, eu os aproximo aqui porque julgo que remetem a um denominador comum: a sobrevalorização da experiência crua dos agentes sociais, expressão do anti-intelectualismo hoje dominante, e a consequente inibição de qualquer engajamento crítico com a autoexpressão dos próprios agentes.

A cada vez que ressurge, o debate mostra permanecer exatamente no mesmo lugar em que estava antes. Essa ausência de acúmulo na discussão, tão exasperante, é uma característica das mídias sociais, que recompensam predominantemente a lacração que, para ser lacradora, tem que permanecer insensível às nuanças do real. É consequência também do anti-intelectualismo que rotula como “acadêmico”, portanto irrelevante, qualquer contribuição que vá além da experiência imediata. E, por fim, espelha o paradoxo de que quem critica, relativiza ou complexifica a noção de lugar de fala não tem, por definição, lugar de fala para tocar no assunto, logo deve ser ignorado.

É preciso, em primeiro lugar, enfatizar a importância que a noção de lugar de fala e outras assemelhadas tiveram e têm no combate a certo idealismo racionalista, que sonha com uma Razão descarnada que interpreta o mundo permanecendo fora dela. Toda fala é socialmente situada e isso é relevante para a compreensão de seu sentido. O reconhecimento de que diferentes falantes vão ver o mundo a partir de diferentes posições sociais, porém, aponta para a necessidade de pluralização do debate, não para alternância de silenciamentos ou construção de guetos.

Isso porque o lugar da fala não implica qualquer privilégio epistêmico (isto é, a ideia de que o dominado, só por ser dominado, já entende a dominação melhor do que qualquer outro). A expressão dos dominados é importante porque traduz – em parte e com ruídos, como qualquer expressão – sua experiência, mas convém lembrar que essa experiência também é conformada pela dominação. A experiência bruta, assim, tem que ser ressignificada por meio de processos que, à falta de palavra melhor, podem ser chamados de “conscientização”. Era o papel dos grupos de mulheres do movimento feminista dos anos 1960 e 1970, que foram cruciais para a difusão dessa discussão – espaços que permitissem às mulheres construir uma compreensão de suas próprias vidas a contrapelo das representações patriarcais que as estruturam.

Se tais espaços são necessários, eles não levam, de maneira nenhuma, à imposição de vetos à participação no debate público. Levam, isso sim, à exigência por ampliação da pluralidade de perspectivas que têm lugar neles.

Da mesma forma como o lugar de fala X não dá a quem o ocupa um privilégio epistêmico, ocupar o lugar não-X não torna a fala, só por causa disso, irrelevante ou nociva. É um local externo e continuará a sê-lo, não importa de quanta empatia se revista – e ter consciência dessa exterioridade importa para compreendê-lo. Mas pode contribuir. Ou não. Só deixando que se manifeste no debate que isso pode ser aquilatado. Lembrando, também, que o não-compartilhamento de características pessoais, de experiências de vida, até mesmo de crenças e de valores, em suma, tudo o que indica a exterioridade em relação a uma determinada posição social, não implica necessariamente preconceito. A equivalência automática entre exterioridade e preconceito, que está implícita em algumas manifestações (e até explícita em outras), é uma simplificação abusiva que serve apenas ao propósito de silenciar o debate.

Falei acima em perspectivas. Na verdade, em vez de “lugar de fala”, prefiro operar com a categoria “perspectivas sociais”. Embora eu mesmo tenha feito crítica a alguns de seus usos1, ela tem a vantagem de marcar desde o início o caráter social das posições de elocução e, portanto, o caráter socialmente produzido das diversas experiências, sem o apelo a noções essencializantes ou místicas, como “ancestralidade”, que se tornaram tão correntes em alguns discursos.

O uso limitante do “lugar de fala” está vinculado à degradação das reivindicações emancipatórias de grupos subalternos (voltadas contra padrões sociais de dominação e de violência) em reclamos identitários. A identidade deixa de ser um instrumento para a construção de um sujeito político coletivo para aparecer como um fim em si mesma.

De fato, não há luta política que não seja, em alguma medida, identitária. Não desejo retomar a distinção algo mecânica entre classe em si e classe para si, que o próprio Marx faz na Miséria da filosofia e em outros escritos, mas o fato é que a constituição da classe operária como sujeito político depende da construção de uma identidade política comum. Se esse passo é indispensável para a ação política de qualquer grupo, é mais ainda para os dominados, cujas vivências são desvalorizadas e que encontram objetivamente, na estrutura social, estímulos para uma identificação com os dominadores.

Mas há ao menos duas diferenças, ambas com enormes consequências, entre a identidade da classe trabalhadora e a de outros grupos dominados. Em primeiro lugar, a classe trabalhadora se define por um atributo comum da humanidade, o trabalho, isto é, a capacidade de transformação do mundo material. Os outros grupos dominados apresentam a exigência de serem incluídos em pé de igualdade na humanidade comum, mas não têm como atributo peculiar aquilo que, como atributo geral, define a humanidade enquanto tal.

Em segundo lugar, a classe trabalhadora tem por projeto, ao menos na visão de Marx, a extinção de sua própria peculiaridade, com a emergência de uma sociedade sem classes. Isso também não está ao alcance dos outros grupos subalternos. Havia uma ambição de apagamento da relevância social da identidade, no feminismo que antecipava uma sociedade gender-free ou no antirracismo voltado a uma sociedade color blind. Mas era, sempre, a superação da valoração hierárquica da diferença, não da diferença em si mesma. Hoje, a virada para uma política da diferença, em que ela é valorizada em si mesma, torna esta distinção ainda mais marcante.

Com isso, é perdido o acesso a uma visão alternativa, que lê as identidades também como prisões a serem superadas, e à utopia de uma sociedade pós-identitária, em que características biológicas, como sexo ou cor da pele, serão plenamente irrelevantes para determinar comportamentos ou posições, e atributos sociais, como gênero ou raça, deixarão até mesmo de existir, dissolvendo-se na diversidade inclassificável de uma humanidade livre. É possível discutir o quanto essa leitura é desejável ou factível, mas é difícil negar que ela é, ao menos, digna de discussão.

As duas diferenças indicam que a classe trabalhadora tem uma porta aberta para a conexão com a universalidade que falta a outros movimentos de caráter emancipatório. Uma situação que se agrava com a reivindicação cada vez mais particularista, presente nas compreensões correntes, nas disputas políticas, de “lugares de fala” privilegiados e mesmo monopolísticos.

A discussão é complexa e tem múltiplas facetas, mas é difícil recusar pelo menos uma conclusão: a pluralização das agendas emancipatórias da esquerda é rica e necessária, mas a deriva identitária, aliada à utilização lacradora de uma noção reducionista de lugar de fala, funciona como um cavalo de Troia. Inibe a construção de um projeto comum de sociedade, até mesmo de alianças pontuais, e redireciona boa parte das energias políticas para as batalhas fáceis contra quem, errando ou não, deseja estar a seu lado – aqueles que, como bem lembrou Wilson Gomes, são os únicos vulneráveis a essa estratégia.

A discussão sobre o esclarecimento dos apoiadores de Bolsonaro tomou feições diferentes, mas tinha em comum a ideia de que alguém que não participa de uma determinada realidade deve ser impedido de expressar qualquer apreciação sobre ela. Às vezes, ela deslizava para a exaltação romântica do “povo” como depositário de todas as qualidades; com mais frequência, para a denúncia dos “acadêmicos” que, desconhecedores do mundo real e como sempre arrogantes, exigiam uma clarividência inalcançável para os mais pobres. Muitas vezes, era feita uma confusão entre a necessidade de entender as escolhas feitas, necessidade real e mesmo urgente, e a obrigação de aceitá-las como esclarecidas ou razoáveis.

Entender a produção de leituras da realidade tão desinformadas e cognitivamente deficientes, que levam a escolhas políticas objetivamente desastrosas, é importante exatamente porque elas não são uma condição natural, nem sequer o fruto automático de determinada situação. Vivemos um momento em que o trabalho ideológico da direita assume características especiais, com um esforço concentrado de disseminação da ignorância, de negação da possibilidade de aprendizado e, também, de reforço dos valores mais egoístas e mesquinhos. É preconceituoso, porém, julgar que pessoas em situação de privação são matéria passiva a ser moldada por essa ofensiva – até mesmo porque muitas delas mostram capacidade de resistência. A questão que se impõe é saber por que tantos à esquerda se mostraram tão desleixados, durante tanto tempo, na tarefa imprescindível de promover a educação política – que, convém lembrar, não é “doutrinação”. É desfazer o trabalho da ideologia e contribuir para que os despossuídos se construam como pessoas capazes de pensamento autônomo.

Em seu livro de memórias, falando de seus vizinhos no Bronx, no entreguerras, Vivian Gornick escreve: “As pessoas que trabalhavam como bombeiros, padeiros ou operadores de máquinas de costura haviam se percebido como pensadores, poetas e eruditos pelo fato de serem membros do Partido Comunista”2. Acho melhor pensar que essa é uma possibilidade a ser construída do que permanecer no refúgio fácil da condescendência, que julga que “não tem como” ser diferente e, por isso, absolve a priori a tudo e todos.

Se for para entender como se constrói essa recusa, que nega a debilidade cognitiva de compreensões da realidade tão objetivamente insatisfatórias, é possível vê-la partindo de duas visões alternativas. Uma é a adesão ao credo liberal-utilitarista de que “cada um é o melhor juiz de seus próprios interesses”. Ele interdita qualquer escrutínio dos discursos alheios, nega validade à questão da formação social das preferências e anula a existência de todos os mecanismos ideológicos. A esquerda se aproximou dessa posição a partir da crítica – necessária – ao subtexto autoritário muitas vezes presente no uso da noção de “falsa consciência”, que introduz a ideia de que haveria uma consciência “verdadeira”, acessível ao intelectual ou ao líder partidário, donos de instrumentos para avaliar o grau de correção da consciência das “massas” e despreza a compreensão que elas mesmas produzem a partir de suas experiências.

Mas, se não é possível afirmar que há uma consciência verdadeira predeterminada, que os “reais interesses” dos indivíduos e dos grupos estão definidos de antemão, sem passar pelos agentes, tampouco é possível apenas aceitar a consciência que emerge da vivência no mundo social. Isso significa abandonar o entendimento que as ideias das classes dominantes têm maior capacidade de serem universalizadas e a crítica aos padrões de manipulação aos quais estamos submetidos. Nossa tarefa – espinhosa, admito – é, como escreveu Žižek, permanecer numa “posição impossível”, que reconhece que não há “nenhuma linha demarcatória clara que separe a ideologia e a realidade”, mas que, ainda assim, sustenta a tensão entre ideológico e real “que mantém viva a crítica da ideologia”3.

A outra alternativa é uma condescendência arrogante, travestida de bom-mocismo, que julga que, prisioneiras de suas próprias condições, aquelas pessoas estão condenadas a abraçar determinados comportamentos. É uma empatia superficial, brumosa, tingida de preconceito. O caminho que aponta é a filantropia ou o paternalismo. Para quem julga que “a emancipação da classe trabalhadora deve ser obra dos próprios trabalhadores”, não é uma posição aceitável. A empatia revolucionária com os desvalidos não romantiza suas consciências, não abre mão da crítica e, muito menos, abdica do trabalho de fornecer ferramentas para que superem seus limites.


NOTAS
1 Ver o capítulo “Perspectivas sociais e dominação simbólica”, em meu livro Democracia e representação. São Paulo: Editora Unesp, 2014.
2 Vivian Gornick, Afetos ferozes. Trad. de Heloisa Jahn. São Paulo: Todavia, 2019, p. 69.
3 Slavoj Žižek, “O espectro da ideologia”, em Slavoj Žižek (org.), Um mapa da ideologia. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996, p. 22.

*Luis Felipe Miguel é professor de Ciência Política da UNB, e autor de Democracia e resistência: desafios para uma política emancipatória (Boitempo, 2018) e, em conjunto com Flávia Biroli, Feminismo e política: uma introdução (Boitempo, 2014), entre outros. Ambos colaboram com o Blog da Boitempo mensalmente às sextas.

fecho

Este texto foi inicialmente publicado no Blog da Boitempo [Aqui!].

A COVID-19 escancara a natureza desigual (de classe) da sociedade brasileira

Coronavírus: 'Não é normal', dizem coveiros sobre trabalho em ...
Centenas de covas rasas no Cemitério de Vila Formosa esperam pelas vítimas pobres da COVID-19.
Uma das características fundamentais da pandemia da COVID-19 no Brasil é que ela foi trazida para o nosso país pelas elites políticas e econômicas que controlam os destinos de uma das sociedades mais desiguais que já existiram ao longo da história humana. Não bastasse, esse “pecado original” de serem as fontes originárias da chegada do coronavírus, várias figurinhas carimbadas da elite brasileira já deram demonstrações objetivas de que o destino da maioria pobre dos brasileiras lhes é insignificante.
Uma dessas figuras é, com certeza, o CEO da hamburgueria Madero, o Sr.Junior Durski que se revoltou com as medidas de isolamento social adotadas por governadores e brasileiros, pois, segundo ele, a COVID-19 deveria matar “apenas” entre 5.000 e 7.000 pessoas. Agora que o Brasil já ultrapassou a marca de 8.000 mortos oficiais, nada se ouve de Durski que deve ter ido se refugiar em uma das suas fazendas no aprazível município de Prudentópolis na região dos Campos Gerais do Paraná.
Mas aproveitando o vácuo deixado pela submersão de Durski, ontem o fundador e presidente da XP Investimentos (que se encontra com problemas nos EUA por supostamente mentir para seus clientes), Guilherme Benchimol, decidiu, digamos, abrir o seu coração para dizer que vê com bons olhos a forma de gestão da pandemia no Brasil. Entre os motivos alegados para sustentar esta posição parece contrariar os fatos, Benchimol apontou para a diminuição dos casos de COVID-19 entre os mais ricos, não sem antes lamentar a existência de tantas favelas, razões pelas quais a pandemia ainda continuaria a ser um problema no Brasil.


Pode-se dizer o que quiser de Benchimol, mas menos que ele não foi sincero em sua avaliação. É que, de fato, para os membros das elites, a COVID-19 não é o risco mortal que ela representa para os cerca de 105 milhões de brasileiros que sub (vivem) com menos de R$ 15 por dia para satisfazer todas as suas necessidades básicas, segundo dados do IBGE. É que os ricos podem ser dar ao luxo de usar suas fortunas para chegarem até as unidades mais estruturadas, como estão fazendo membros da elite econômica de Belém que estão usando UTIs aéreas para escapar do colapso que está ocorrendo na capital paraense.

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Paciente com coronavírus é colocado em uma UTI aeromédica, que deixou Belém do Pará com destino a hospital de São Paulo Foto: Reprodução
O fato é que a agressividade do vírus se mostrará com mais clareza entre essa porção da população, enquanto que o extrato do 1% mais rico terá não apenas estruturas hospitalares melhores para usar, como algo ainda mais essencial que é um sistema imunológico mais preparado.

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Funeral na vala comum: dado o crescente número de infecções por coronavírus, o sistema de saúde em Manaus está no limite. (aliança de imagens / Chico Batata / dpa)
Dito isto, não há como se estranhar as cenas dantescas que estão emergindo em cemitérios onde são enterrados os pobres que, desprovidos de uma rede hospitalar apropriada para a COVID-19, acabam morrendo e sendo colocados empilhados em valas comuns, como suas vidas não tivessem um mínimo de valor. Por isso, não sejamos ingênuos a ponto de pensar que o coronavírus nos oferece um momento de democracia em uma sociedade profundamente anti-democrática como é a do Brasil.

obitos em são paulo
Mapa de óbitos na cidade de São Paulo mostra que índices mais altos estão ocorrendo em distritos com maiores concentrações de conjuntos habitacionais, cortiços, favelas e núcleos habitacionais
Na verdade, o que a pandemia da COVID-19 faz reviver com vigor é que no Capitalismo o que efetivamente controla o destino dos indivíduos é a sua condição de classe. Essa ligação entre um vírus e a condição de classe dos infectados certamente ainda merecerá análises mais robustas dos que as aqui postas. Mas, desde já, há que se agradecer ao presidente da XP Investimentos, a sua contribuição para que retornemos aos debates sobre as estruturas que realmente importam em uma sociedade capitalista. E, pensar que ontem se completaram 202 anos do nascimento de Karl Marx. Esse mesmo Marx que insiste em nos oferecer as ferramentas que nos permite entender a natureza dos processos sociais até em um momento de pandemia.

O ministro da Educação e o jornalista “agente da KGB”: desmentindo e sendo desmentido

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Rafael Vélez Rodriguez, ministro da Educação, desmentiu e foi desmentido por Ancelmo Gois acerca da retirada de videos do site do Instituto Nacional de Educação de Surdos

Já abordei diversas vezes o papel distracionista que alguns ministros  parecem ter escolhido para si para poderem permitir que o núcleo “duro” do governo Bolsonaro (i.e., o ministro Paulo Guedes e todos os que operam para transformar o Brasil num espécie de neocolonia em pleno Século XXI). 

Um dos mais, digamos, pitorescos é o ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodríguez, que em um mês de governo já se envolveu em diversas escaramuças com o que parece acreditar ser um grupo de agentes do regime soviético de Stalin et caterva.

A última dessas escaramuças envolve o jornalista, colunista e blogueiro Ancelmo Gois que na última terça-feira (29/01) postou a informação de que sob ordens do Ministério e Educação e Cultura comandado por Vélez Rodriguez, o Instituto Nacional de Educação de Surdos (Ines) teria tirado do ar vídeos da “TV Ines” que contavam a história de personagens como Karl Marx, Friedrich Engels, Marilena Chauí, Antonio Gramsci e Friedrich Nietzche.

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Aparentemente se sentindo ofendido pela informação divulgada por Ancelmo Gois, o ministro Vélez Rodriguez fez divulgar via um “comunicado oficial” do Ministério da Educação e Cultura (MEC) onde não só o desmente a nota publicada no “O GLOBO”, mas como lembra o passado “comunista” do jornalista como insinuouque a publicação (que ofereceria falsas informações) seguiria os métodos da extinta KGB (ver imagem abaixo).

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A veiculação dessa informação seria realmente devastadora para a credibilidade de Ancelmo Gois se não fosse por um simples e mero detalhe: o jornalista havia salvo imagens do site do Ines em 2 de janeiro de 2019 mostrando que os vídeos aludidos ainda estavam disponíveis para serem visualizados (ver imagens abaixo).

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Em outras palavras, o desmentido de Vélez-Rodriguez foi rapidamente desmentido pela equipe de Ancelmo Gois, e com provas materiais. Essa que seria apenas mais uma das trapalhadasdo ministro que foi indicado pelo “jack of all trades” Olavo de Carvalho, serve para revelar o tipo de mentalidade que guia o responsável por um dos ministérios mais importantes para o processo de desenvolvimento nacional. E essa mentalidade está presa no período da Guerra Fria onde tudo se movia pela lógica de que era preciso exterminar o “perigo vermelho”.

Mas por mais quixotescas que as manifestações de Vélez-Rodriguez possam parecer, há que se levá-la a sério. É que, como mostra uma matéria do jornal cearense “O ESTADO”, o ministro da Educação vem se reunindo com parlamentares que pretendem sugerir a inclusão de”obras” de  Olavo de Carvalho e de Carlos Alberto Brilhante Ustra como paradidáticos no Ensino Básico.  Se isto se confirmar em termos de ações práticas, as crianças brasileiras seriam inoculadas com ideias de um negacionista de heliocentrismo que vive recluso num montanha no leste dos EUA, e de um reconhecido torturador que morreu sem ser punido por seus crimes.

Some-se a tudo isso o fato de que a nota do MEC serviu para incitar a uma série de ataques a Ancelmo Gois na rede de blogs e páginas em redes sociais que apoiam as ideias do ministro Vélez Rodriguez e aquele que aparentemente o indicou para ocupar o cargo. Com isso se soma o sinistro elemento que é o de tentar coagir todas as informações que coloquem em xeque a retórica oficial, no melhor estilo do livro 1984 de George Orwell.

1984

Sejam bem vindos ao (nada) formidável mundo (nada) novo de Vélez-Rodriguez!

Intelectuais de coleira e a falta que Karl Marx faz no entendimento da crise brasileira

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Ao ler muitas análises feitas por intelectuais que se dizem preocupados com a atual situação política brasileira é visível que elas se movem por caminhos em que lhes falta a devida ponderação em termos dos elementos sistêmicos que explicam o que vem ocorrendo no Brasil. Em outras palavras, falta a essas análises ao menos algumas pitadas das ideias de Karl Marx sobre as características de produção e reprodução do Capitalismo, bem como do modelo particular pelo qual o Capitalismo se instalou e se reproduziu no Brasil.

A ausência de Marx nos posicionamentos desses intelectuais parece ser fruto de dois fatores básicos. A primeira é simplesmente por covardia, pois citar Karl Marx em análises numa conjuntura tão conflagrada é um convite para que as hordas de analfabetos políticos se coloquem em marcha, proferindo xingamentos e ameaças de extermínio físico.  Já a segunda tem a ver com opções analíticas que são até palatáveis para os donos da mídia corporativa, justamente por evitar expor a natureza da crise sistêmica que se abate hoje sobre o sistema capitalista. De quebra, ao oferecer nuances críticas que soam até elegantes, mas que fogem do essencial, esses intelectuais cooperam com a manutenção de uma névoa de particularismo que apenas serve aos que querem nos manter como uma ilha isolada, como se o resto do mundo não existisse.

Felizmente existem exceções como é o caso do sociólogo Ricardo Antunes da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) que acaba de lançar o esclarecedor livro “O privilégio da servidão” onde presenta um retrato detalhado da classe trabalhadora hoje, em suas principais tendências, centradas principalmente na precarização, terceirização, desregulamentação e assédio no mundo do trabalho [1]. 

Mas Ricardo Antunes não é um desses intelectuais de coleira que a mídia corporativa adora ter em seus quadros, pois suas análises vão claramente ao encontro dos oprimidos e explorados, e não de uma audiência que pode até ter espasmos de lucidez, mas que mormente optou ou por se colocar do lado dos opressores ou, por outro, pela aceitação do status quo atual.

O meu ponto aqui é que Ricardo Antunes só pode nos oferecer uma análise mais realista em suas obras porque entende e aceita a natureza sistêmica do que estamos presenciando, e não fica preso à superficialidades que em nada servem para nos armarmos para o verdadeiro combate que está posto.

Falando nisso, o que está mesmo posto diante de nós?  O que fica cada vez mais aparente é a opção das elites rentistas brasileiras de se entregarem o nosso país de bandeja para as economias centrais, desprovendo nesse processo a maioria do nosso povo de qualquer perspectiva de superação da miséria estrutural que existe no Brasil. Para as elites rentistas nacionais se trata de manter intacto um modelo de sociedade que prima pela extrema concentração de renda, que beneficia um punhado de famílias, para que elas possam manter seus padrões de consumo retirados dos “playbooks” da burguesia primeiro mundista.  E o resto do povo que se afogue em praias imundas e campos inundados de venenos agrícolas proibidos no resto do planeta.

Só entendendo isso é que poderemos efetivamente superar as análises superficiais dos intelectuais amestrados e começar a realizar um esforço de entendimento que não nos atole na falta de perspectivas e na paralisia.

Finalmente, apenas para voltar no ponto que comecei, isto só será possível com doses maciças de análise marxista, a única capaz de nos dotar das conexões e da profundidade necessárias para efetivamente entender a realidade aonde estamos imersos.


[1] https://www.boitempoeditorial.com.br/produto/o-privilegio-da-servidao-805

Feliz aniversário Karl Marx!

Há exatos 200 anos, nascia em Trier o filósofo e revolucionário Karl Marx. Seu método de compreensão e transformação da realidade me parece mais atual do que nunca. Se a humanidade tem uma ferramenta para se libertar dos grilhões do capitalismo, o caminho terá de começar pelo entendimento do que Karl Marx nos deixou.

Por isso mesmo, e mais do que nunca, há que se celebrar o nascimento dessa figura genial.  Feliz 200 anos Karl!

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Para comemorar os 200 anos de Karl Marx, vem por aí uma edição do “Manifesto Comunista” prefaciado por Yanis Varoufakis

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O duocentésimo aniversário do nascimento de Karl Marx já está mobilizando editoras de todo o mundo para republicar algumas de suas obras com prefácios de pensadores contemporâneos. Uma primeira publicação com que tive contato é o a do “Manifesto Comunista” que será lançada no dia 26 de abril pela Vintage Books com prefácio do ex-ministro das Finanças da Grécia e professor de Economia da Universidade de Atenas, Yanis Varoufakis.

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Varoufakis como muitos sabem é um dos principais vocalizadores da atualidade do pensamento marxista e, por isso, deve ter sido escolhido para prefaciar uma obra essencial para os que advogam a construção de uma sociedade socialista que substituiria de forma transitória o capitalismo enquanto modo de produção.

Para os que não puderem comprar a edição que será lançada pela Vintage, o jornal “The Guardian” publicou hoje um artigo assinado por Varoufakis onde sintetiza (ou adapta) o seu prefácio para o Manifesto Comunista, e os interessados podem acessá-lo [Aqui!]. Já para os que desejarem comprar, esta edição basta clicar [Aqui!]

Eu achei mais do que apropriadas as frases selecionadas para ilustrar a capa dessa nova edição do Manifesto: 1) o proletariado não tem nada mais a perder do que suas correntes, 2) Trabalhadores de todo o mundo, uni-vos, e 3) as ideias dominantes de cada tempo tem sido sempre as ideias das classes dominantes.  Por essa força comtemporânea de suas ideias é que a Karl Marx continua assombrando a burguesia e seus áulicos.

 

 

Karl Marx, quem diria, já pode voltar

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O espectro de Anthony Garotinho paira sobre a Prefeitura de Campos

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No primeiro parágrafo do “Manifesto Comunista” publicado inicialmente em 1848 , Karl Marx inseriu uma afirmação que assombra os governos burgueses até os dias de hoje. Ali Marx estipulou que  “um espectro está assombrando a Europa-  o espectro do comunismo. Todas as forças da Velha Europa formaram uma santa aliança para exorcizar este espectro:  o Papa, o Czar, Metternish, Guizot, os Radicais Franceses e os espiões da Polícia Alemã”.  

Pois bem, em pleno Século XXI e em uma região bem distante da Europa, outro espectro parece assombrar a quem deveria estar se sentindo exorcizado após uma impressionante vitória eleitoral. Falo aqui do espectro de Anthony Garotinho, que parece pairar onipresente sobre os corações e mentes de seus adversários na planície onde um dia os Goytacazes correram livres.

Essa impressão me é passada desde declarações estilo “Macho man” do jovem prefeito Rafael Diniz (PPS), em declarações do presidente da Câmara de Vereadores, o vereador Marcão (Rede). e também nos inúmeros anúncios fúnebres escritos pelos inimigos acumulados por Anthony Garotinho na mídia local, seja na blogosfera ou na corporativa.

Enquanto isso, usando bem o papel auto-designado de espectro, Anthony Garotinho nada de braçadas nas refregas que ele escolhe para participar, dando até a impressão que está se divirtindo às custas dos seus adversários, muitos dos quais ex-membros de sua “entourage”.  Nesses embates Garotinho tem demonstrado que vive e vê à frente dos seus muitos adversários e, ao contrário do que se anuncia, está vivíssimo e pronto para continuar assombrando.

Eu sei que se conselho fosse bom não se dava, mas se vendia (e olha que com 3 meses de salários atrasados eu ando precisando muito!). Mas vamos lá.  Me parece que a  forma  mais simples de erradicar definitivamente o espectro de Garotinho é algo muito simples: que o prefeito comece a governar para a maioria da população e não para os que já tem tudo; que a Câmara de Vereadores exerça seu papel constitucional, e que a mídia cumpra o seu papel de reportar fatos que sejam relevantes para a nossa sociedade em vez de tentar fazer o papel de exorcista. E com um detalhe básico: que todos usem pelo menos 50% da energia que Garotinho emprega para fazer o seu tipo peculiar de politica.

Ou é isso ou não vai adiantar espernear porque Garotinho vai continuar a reinar de forma imperial sobre a política local. E com certeza, a próxima eleição para a Prefeitura de Campos dos Goytacazes vai ser levada de barbada por quem quer que seja que ele escolha para ser eleito.  Por último, um humilde lembrete aos militantes dos partidos de esquerda que estão asssitindo a esse embate do lado de fora do gramado: a hora de fincar bases e romper o status quo reinante é essa.  A ver!

 

O Estado é o comitê executivo da burguesia, por que tanta surpresa com as “doações” da Odebrecht?

A ideia de que “o Estado é o comitê executivo da burguesia” foi incluída por Karl Marx em 1848 na obra Manifesto do Partido Comunista.  De lá para cá, o que se viu foi uma progressiva erosão de quaisquer possibilidades de demonstrar que Marx havia exagerado em seu vaticínio.

As razões para que o Estado seja uma espécie de clube privado da burguesia já foram arroladas por diferentes autores desde a publicação do Manifesto. Mas uma análise das razões pelas quais o sistema capitalista tornou-se cada vez mais um antítese das aspirações democráticas que foram lançadas pelos pensadores contratualistas é apresentada no livro “Democracia contra Capitalismo” da falecida pensadora marxista canadense Ellen Meskins Wood (Aqui!).

Faço essa preâmbulo apenas para estranhar que ainda haja tanta surpresa com as revelações feitas pelos donos e diretores da empreiteira Odebrecht sobre o financiamento de campanhas eleitorais e eventuais compras de favores do congresso nacional.  É que essa é uma velha novidade, e que já estava estampada nas prestações de contas que vieram a público após a adoção de mecanismos minimalistas de prestações de contas de campanhas eleitorais pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Além disso, há que se lembrar que todos esses mecanismos de aquisição da boa vontade e serviços de partidos eleitorais por parte das corporações privadas não são algo restrito ao parlamento nacional. Se olharmos a atual condição da democracia estadunidense veremos que a eleição de Donald Trump é uma excelente síntese do tipo de controle que o dinheiro acabou tendo nas eleições presidenciais da principal potência militar e econômica mundial. Afinal, ele supostamente financiou e venceu as eleições das quais participou. E rapidamente encheu os ministérios com indivíduos com forte relação com as corporações privadas, a começar pelo secretário de Estado, Rex Tillerson, que foi o Chief Executive Officer (CEO) da ExxonMobil entre 2006 e 2016.

No caso do Brasil há ainda que se ressaltar que o regime militar de 1964 instalou mecanismos bastante precisos de compra de votos no parlamento fantoche que os generais instalaram após a derrubada do governo constitucional de João Goulart. Como no processo de transição conservadora que foi operado em 1985 esses mecanismos não foram dissolvidos é quase natural que ainda vivamos sob a influência de um parlamento que olha mais para os interesses das corporações privados do que para as necessidades da maioria da população brasileira.  

Assim, não há nada de surpreendente no que vem sendo revelado pela mídia corporativa que, aliás, exacerba os defeitos e desvios dos partidos políticos também para desviar a atenção de seus próprios malfeitos. Afinal de contas, quem é inocente a ponto de achar que todo o falso moralismo que está aparecendo nos telejornais tem algum tipo de relação de práticas ilibadas por parte dos proprietários dos canais que os transmitem?