Em pleno Século XXI, os senhores de escravos continuam vivendo entre nós

Há uns dias tive um debate com o meu filho de 10 anos que queria saber mais sobre o que tinha sido a Lei Áurea com a qual ele tinha tido contato em sua disciplina de História do 4o. ano do ensino Fundamental, mas que não ficou muito convencido da sua efetividade, dada a quantidade de pessoas negras vivendo em condição de extrema pobreza nas ruas da cidade de Campos dos Goytacazes.  Como não sou de evitar temas espinhosos, disse a ele que a Lei Áurea tinha sido apenas um ato formal que o Brasil havia adotado sob extrema pressão do Império inglês, o que resultou na falta de um ajuste histórico com a herança da escravidão no Brasil, e consequentemente a persistência da pobreza extrema entre os descendentes dos escravos. Para complementar o meu raciocínio, disse ao meu filho que ainda tínhamos milhares de pessoas sendo escravizadas em pleno Século XXI no Brasil. 

madalenaDesde os 8 anos de idade, Madalena Gordiano viveu em condições análogas a escravidão em Patos de Minas (MG). Crédito: Reprodução/Rede Globo

Pois bem, agora vejo que terei que adicionar mais uma camada de explicação a esse assunto espinhoso na próxima vez que for perguntado pelo meu filho (e eu sei que serei). É que tendo emergido no noticiário a história de uma mulher negra que viveu quase 40 anos em condições análogas à escravidão em Patos de Minas (MG), resolvi me informar melhor sobre o caso, e acabei descobrindo algo que será certamente será difícil de explicar para o filho de dois professores universitários.

É que, pasmemos todos, o indivíduo que está sendo acusado de manter Madalena Gordiano em condições análogas à escravidão é um professor universitário com doutorado obtido na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e que teve sua formação de graduação e mestrado na Universidade Federal de Viçosa (UFV).  Desta forma, a figura que se apresenta não é a de um fazendeiro atuando nos grotões do Brasil, mas uma pessoa educada em duas das melhores instituições de ensino universitário da América Latina, sendo ele atualmente um professor universitário.

A coisa é tão clamorosa que a Fundação Educacional de Patos de Minas (Fepam), entidade mantenedora do Centro Universitário de Patos de Minas (Unipam) já informou que o professor universitário acusado de ser dublê de senhor de escravo já foi afastado de suas funções profissionais até que a situação seja devidamente apurada (ver vídeo abaixo).

Agora, convenhamos, como é que uma pessoa passa quase quatro décadas nessa situação e ninguém na família do acusado notou nada de anormal em ter uma pessoa vivendo nas condições descritas pelas múltiplas reportagens que o caso gerou? A mim parece completamente implausível que ninguém soubesse das condições em que Madalena Giordano foi mantida desde os tenros oito até os quarenta seis anos de idade, quando sua situação finalmente chegou ao conhecimento público.

O problema é saber que existem incontáveis “Madalenas Giordanos” vivendo nas mesmíssimas condições em que a Madalena de Patos de Minas foi encontrada. Por essas e outras é que fica claro que o Brasil permanece acorrentado ao seu passado escravagista.  E, pior, que os senhores de escravos vivem entre nós, e ainda clamando ser “pessoas de bem”.

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