Uma eulogia para Jorge Xavier da Silva

 

jorge xavier

Professor  Jorge Xavier da Silva (1o. à esquerda) sendo homenageado, durante a Semana Comemorativa dos 50 Anos da Faculdade de Engenharia 

Hoje me chegou a notícia do falecimento do Professor Emérito do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Jorge Xavier da Silva, que foi um dos introdutores, senão o principal, do Geoprocessamento no Brasil. Eu conheci o Professor Xavier ainda nos meus anos de graduação quando frequentei a sua notória disciplina, onde ele ministrava conteúdos que só se tornariam mais populares anos mais tarde.

O professor Xavier era uma pessoa controversa dentro do Departamento de Geografia da UFRJ, pois ele possuía uma personalidade muito forte e, por vezes, abrasiva e truculenta. Entretanto, no meu caso, a relação foi sempre amistosa e não guardo dele nenhuma memória negativa. Não sei bem o porquê, mas sempre mereci do professor Xavier as melhores expressões de gentileza e compreensão.  Aliás, em um ato para lá de generoso,  foi graças a ele que foi viabilizada em 1991 a minha ida para trabalhar na equipe que a Dra. Virginia Dale comandava na Divisão de Ciências Ambientais do Oak Ridge National Laboratory. É que ao saber que havia uma hesitação na concessão da minha bolsa de pós mestrado pela Oak Ridge Associated Universities (ORAU), foi ele quem ligou para a Dra. Dale para garantir que eu possuía os requisitos necessários para compor a sua equipe. 

É interessante que eu sequer lhe pedi para que ligasse para a Dra. Dale, mas mesmo assim o professor Xavier se prontificou a fazer a ligação, e o fez de forma tão convincente e convicta que a decisão ia ser negativo após sendo positiva.  Após a concessão da bolsa, eu apenas ouvi dele que não me deixasse embriagar pelo sucesso, e que voltasse para o Brasil depois de cumprir o meu ciclo acadêmico nas Terras do Tio Sam. Segundo ele o Brasil precisaria de mim, mais do que os EUA.

Como a minha jornada nos EUA durou mais do que eu esperava, sempre que passava pelo Rio de Janeiro entre 1991 e 1996, período em que fiquei fora do Brasil, sempre ia até a UFRJ para encontrar amigos, mas principalmente, ter um dedo de prosa com o Professor Xavier.  Nessas nossas conversas, sempre ouvia dele a mais completa convicção de que o Brasil podia dar certo, e que os geógrafos tinham um papel mais do que relevante para que isso pudesse ocorrer. Após voltar para o Brasil em 1997 e passar alguns meses como visitante no Departamento de Geografia, e frequentemente conversava com o Professor Xavier.  Nesses encontros, sempre ouvia dele conversas animadas sobre o papel da universidade pública no desenvolvimento da ciência nacional. 

A convite do professor Xavier, ainda colaborei por algum tempo em um programa de pós-graduação latu sensu que ele criou para continuar difundindo suas metodologias para profissionais de áreas variadas,  e que estavam consolidadas no seu Sistema de Análise Geo-Ambiental (SAGA).  Lamentavelmente, ao longo do tempo fui perdendo contato com o Professor Xavier, pois os afazeres como professor na Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) acabaram por me empurrar para longe do contato mais próximo com o Departamento de Geografia da UFRJ. Entretanto, sempre permaneci grato pelo empurrão, pelas dicas e pelas conversas animadas.

Como aluno e alguém que teve sempre o melhor do Professor Xavier, posso apenas dizer que estamos todos mais pobres com a sua morte.  É que em que pesem seus métodos e eventuais defeitos, ele sempre foi um apaixonado pelo Brasil, pela ciência brasileira em geral, e pela Geografia em particular. Aliás, em nosso último encontro que ocorreu em 2009 no XIII Simpósio Brasileiro de Geografia Física Aplicada realizado na Universidade Federal de Viçosa, ele me pediu para ficar mais envolvido na defesa dos geógrafos dentro do CREA/RJ, pois ele temia que fossemos retirados daquele conselho profissional. Esse era o Professor Xavier em sua plena essência: do aparente individualismo à constante preocupação com o coletivo.

Soube que o Professor Xavier esteve enfermo nos últimos anos da sua vida, o que certamente foi um atrapalho, mas não o impediu de continuar pensando em trabalho, pois era essa a sua natureza.  Mas agora que ele faleceu, espero que  ele seja sempre lembrado pelo seu amor pelo Brasil e pela Geografia. Descanse em paz Professor Jorge Xavier da Silva.

Um comentário sobre “Uma eulogia para Jorge Xavier da Silva

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