
O Primeiro Diagnóstico Marinho-Costeiro do Brasil sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos destaca a importância do mar para a economia e o clima. Crédito da imagem: Armando Reques/Flickr , sob licença Creative Commons CC BY-SA 2.0 Deed
Por Washington Castilhos para a SciDev
A economia baixa em carbono do Brasil tem o oceano como um forte aliado. Segundo investigações, até 2050, o Atlântico —que cobre mais de 10.000 quilômetros da costa brasileira— tem potencial para produzir 40 vezes mais energia , de forma sustentável.
Mas também fornece benefícios garantidos à segurança alimentar , aos recursos minerais, à biotecnologia e à regulamentação climática.
Estas e outras afirmações se baseiam no Primeiro Diagnóstico Marinho-Costeiro de Brasil sobre Biodiversidade e Serviços Ecosistêmicos , apresentado no final de novembro.
Elaborado pela Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços e organizações da sociedade civil, o documento oferece um panorama completo da biodiversidade marinha-costeira brasileira e seus serviços ecosistêmicos.
Com o diagnóstico, os pesquisadores pretendem organizar as informações que serão dirigidas aos tomadores de decisão , de modo que os aspectos relacionados ao oceano —um único invisível— sejam considerados e convertidos em políticas públicas.
“Só temos um corpo de água. Por isso, o que está ocorrendo na zona marina brasileira tem impactos globais”.
Anna Stewart Ibarra, diretora executiva do Instituto Interamericano para a Investigação da Mudança Global (IAI)
No documento, os pesquisadores sinalizam como a economia e o bem-estar do Brasil dependem direta ou indiretamente dos 5.700 km² de sua costa marina e dos benefícios que proporcionam, entre eles, a segurança energética.
“Não estamos falando de extração de petróleo e gás do fundo do mar, sino de uma matriz energética renovável”, disse ao SciDev.Net o biólogo Alexander Turra, professor do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP) e um dos coordenadores da pesquisa que deu origem ao documento.
Além da energia eólica e solar no mar, o potencial de geração de energia do oceano também inclui a produção das olas e das águas, que ainda é pouco utilizada no país.
“Se degradarmos o oceano investindo em projetos de extração de petróleo e minerais, comprometemo-nos com os benefícios que podemos transportar”, disse Turra.
O pesquisador enfatiza que é necessário compreender as conexões, como as que existem entre o oceano e o clima e a luta contra a fome. “Em 2050, poderemos produzir seis vezes mais alimentos de forma sustentável a partir do oceano”, afirma.
Em geral, a economia da zona marinha-costeira brasileira é estimada em 200 milhões de dólares, o que representa cerca de 20 por cento do Produto Interno Bruto (PIB) nacional.
No entanto, segundo os autores da pesquisa, a cifra é subestimada porque os cálculos econômicos ignoram o serviço de regulação das águas, o que faz com que o mar seja essencial para vários setores, entre eles a agroindústria , responsável de 24 por cento ( 530 milhões de dólares) do PIB do país.
As mudanças climáticas , consequência direta das variações nas temperaturas marinhas, podem afetar a produção agrícola. Além disso, o transporte marítimo é responsável por mais de 95 por cento do fluxo de produtos básicos como a soja.
Os 20% do oceano estão relacionados principalmente à exploração mineral e ao turismo, atividade que representa 8,1% do PIB nacional, mas o segundo está ameaçado. “O turismo no Brasil está centrado no sol e na praia, mas 40% por cento das praias brasileiras estão em processo de erosão, reduzindo a quantidade de areia”, informa Turra.
Segundo o estudo, se os cálculos econômicos não considerarem os benefícios do oceano, também considerarão os impactos ambientais e sociais, tais como a perda de biodiversidade e de ecossistemas, a redução de habitats —como dunas, praias e manguezais, responsáveis por 70% das populações de peixes no Brasil -, a contaminação dos organismos marinhos, a sobreexplotação dos recursos, o aumento da pobreza entre quem obtém a subsistência do mar, e a mudança climática, que provoca eventos extremos, como já se percebe no sul do país.
Como regulador do clima, o oceano absorve grande parte do dióxido de carbono emitido para a atmosfera. Como resultado, o excesso de CO2 que provoca o efeito invernal não se concentra na atmosfera.
Para a ecóloga Anna Stewart Ibarra, diretora executiva do Instituto Interamericano para a Investigação da Mudança Global (IAI), organização intergovernamental com sede no Uruguai, o relatório é um documento importante não só para a América Latina, mas também para o mundo.
“Só temos um corpo de água. Por isso, quem está sucedendo na zona marina brasileira tem impactos globais”, diz SciDev.Net . “Os países do Caribe, por exemplo, dependem do mar para o turismo”.
Para Stewart, que não participou do estudo, o oceano pode ser uma unidade para um diálogo global. Segundo ela, existe uma tendência constante para desenvolver uma agenda para apoiar as ações governamentais, e os coordenadores do documento deveriam aprovar o momento para apresentar os dados em fóruns globais.
Um deles é a Conferência da ONU sobre os Oceanos ou a 30ª Conferência da ONU sobre a Mudança Climática (COP-30), que ocorrerá, respectivamente, em junho e novembro de 2025, em Nice (França) e Belém ( Brasil).
O biólogo Luiz Drude, membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), que também participou do estudo, concorda com os autores da pesquisa sobre a falta de leis e políticas reguladoras para el mar.
O pesquisador disse ao SciDev.Net que o Brasil não conta com estatísticas de pesca desde 2011, e lembrou que as exportações de pesca para a Comunidade Europeia estão suspensas desde 2018 devido à contaminação. Isso representa uma perda anual de 40 milhões de dólares para a economia brasileira.
Para Drude, o trabalho publicado pela Cátedra UNESCO é fundamental para aumentar o conhecimento sobre o oceano, em relação, por exemplo, com as espécies contaminadas.
“A capacidade de observação do oceano no Brasil é baixa, muito menor que a dos países do Atlântico Norte. O Atlântico Sul segue sendo um grande desconhecido”, afirmou Lacerda.
Segundo o cientista, é necessário um maior acompanhamento da zona marina brasileira, utilizando um sistema de boias —como o que existe na costa— e barcos oceanográficos, tipo de navio preparado para realizar pesquisas e estudos em águas costeiras e marinas.
“Como proteger algo que não sabe como funciona, com um nível de conhecimento baixo?”, questionou Luiz Drude de Lacerda.

Este artigo escrito originalmente em espanhol foi produzido pela edição da América Latina e Caribe do SciDev.Net e publicado [Aqui!].