Um novo estudo publicado na revista Nature Communications acrescenta uma dimensão particularmente preocupante ao debate sobre os impactos da elevação do nível do mar. O artigo “Subsidence more than doubles sea-level rise today along densely populated coasts”, assinado por Julius Oelsmann, Robert J. Nicholls, Daniel Lincke, Marta Marcos, Manoochehr Shirzaei, Laura Sánchez, Leonard Ohenhen, Denise Dettmering, Jochen Hinkel, Benjamin P. Horton e Florian Seitz, mostra que olhar apenas para a elevação dos oceanos provocada pelas mudanças climáticas pode levar a uma importante subestimação dos riscos enfrentados pelas populações costeiras.
O problema está no movimento vertical da própria superfície terrestre. Em numerosas regiões costeiras, o terreno está sofrendo subsidência, isto é, está afundando. Como consequência, a população não experimenta apenas a elevação absoluta do oceano, mas uma elevação relativa do nível do mar resultante da combinação entre o mar que sobe e o terreno que desce. Os autores lembram que esse movimento pode estar associado tanto a processos naturais quanto a atividades humanas, entre elas a retirada de água subterrânea, petróleo e gás e intervenções sobre sistemas de drenagem. Em algumas regiões suscetíveis, a subsidência relacionada principalmente à extração de águas subterrâneas pode alcançar valores da ordem de 10 milímetros por ano.
Os números apresentados no artigo dão a dimensão do problema. Os autores estimam que 71% da população costeira mundial considerada pelo estudo vive atualmente em regiões que apresentam subsidência. Cerca de 55% experimentam subsidência de pelo menos 1 milímetro por ano e 43%, de pelo menos 2 milímetros anuais. O resultado é que a elevação relativa média do nível do mar experimentada pela população costeira chega a aproximadamente 6 milímetros por ano, enquanto a componente associada à elevação absoluta do oceano é de cerca de 3,15 milímetros anuais. Em outras palavras, a subsidência acrescenta, em média, aproximadamente 2,8 milímetros por ano ao problema.
Esse resultado é especialmente importante porque a subsidência não ocorre de maneira aleatória. Ela tende a ser mais relevante justamente nas regiões costeiras densamente povoadas. Os autores ressaltam que aproximadamente 90% da população costeira mundial está concentrada em apenas cerca de 10% da extensão das costas, e essas áreas altamente povoadas apresentam maior probabilidade estatística de coincidir com taxas de subsidência superiores à média. Além dos processos físicos, entram nessa equação decisões humanas relacionadas à drenagem, às formas de construção, à compactação dos solos, à exploração de recursos subterrâneos e à própria governança do subsolo.
E o que isso significa para as cidades brasileiras?
Embora o artigo não apresente uma análise individualizada de cidades brasileiras, seus resultados deveriam servir como um alerta particularmente forte para o Brasil. Temos uma extensa faixa costeira onde estão localizadas algumas das maiores concentrações urbanas do país, muitas delas ocupando planícies costeiras, estuários, áreas aterradas e terrenos de baixa altitude. Nessas condições, avaliar o risco futuro considerando apenas quantos centímetros o oceano deverá subir pode produzir uma imagem incompleta da vulnerabilidade real.
O estudo demonstra justamente que médias nacionais e mesmo regionais podem esconder diferenças locais enormes. Os autores defendem explicitamente que os efeitos da subsidência precisam ser quantificados em escalas subnacionais e locais, pois a movimentação vertical do terreno apresenta forte variabilidade espacial. Para uma cidade costeira, alguns poucos milímetros anuais de subsidência persistindo durante décadas podem alterar significativamente o nível relativo do mar e, consequentemente, aumentar a frequência de alagamentos, ampliar os efeitos das marés meteorológicas, dificultar a drenagem urbana e agravar processos de erosão costeira.
Essa constatação deveria despertar especial atenção em metrópoles e cidades costeiras brasileiras assentadas sobre terrenos baixos e densamente urbanizados. O ponto fundamental não é afirmar que todas essas cidades estejam afundando na mesma velocidade — o artigo não fornece evidências para tal afirmação —, mas reconhecer que não podemos elaborar políticas sérias de adaptação climática sem saber se o terreno sobre o qual essas cidades estão construídas permanece estável.
Há ainda uma implicação política importante. Parte da subsidência pode decorrer de processos naturais, mas outra parte está relacionada às formas pelas quais as sociedades utilizam o território e seus recursos. Isso significa que, diferentemente da elevação global do nível dos oceanos, sobre a qual uma prefeitura possui pouca capacidade direta de intervenção, determinadas causas locais da subsidência podem ser objeto de políticas públicas. Os próprios autores destacam que identificar a parcela induzida pelas atividades humanas pode permitir medidas de mitigação, incluindo, por exemplo, a regulamentação da extração de águas subterrâneas.
O estudo também traz uma advertência metodológica relevante para o Brasil. Sistemas tradicionais baseados apenas em estações GNSS e marégrafos podem não captar adequadamente variações espaciais muito localizadas. A combinação dessas observações com técnicas de interferometria por radar de abertura sintética (InSAR) permite detectar deformações da superfície com resolução espacial muito maior. Os autores mostram que a incorporação desses dados aumentou extraordinariamente a capacidade de identificar populações submetidas à subsidência, revelando fenômenos que métodos anteriores simplesmente não conseguiam enxergar.
Para o Brasil, portanto, a mensagem que emerge do artigo é bastante concreta: não basta monitorar o oceano; precisamos monitorar também o continente. Planos municipais de adaptação climática, estudos de vulnerabilidade costeira e políticas de ordenamento territorial deveriam incorporar sistematicamente medições do movimento vertical do terreno, sobretudo nas áreas urbanas mais baixas e densamente ocupadas.
A mudança climática está elevando o nível dos oceanos e esse processo deverá acelerar nas próximas décadas. Mas Oelsmann e seus colegas demonstram que, para milhões de pessoas, o risco já está sendo amplificado porque o chão sob seus pés também está descendo.
Para um país que possui grande parte de sua população, infraestrutura estratégica e patrimônio econômico concentrados próximo ao litoral, ignorar essa segunda metade do problema pode significar subestimar justamente os riscos que deveriam orientar desde agora o planejamento das cidades costeiras brasileiras.



















