
Por Douglas Barreto da Mata
Na terra plana
Sim, lá vamos nós com referências cinematográficas mais uma vez, o que eu vou fazer? Este é o luxo que eu posso me dar, afinal, o que eu escrevo tem pouco alcance, ou nas palavras de alguns: “ninguém me dá importância mesmo”. Concordo. Desde os tempos em que eu mantinha um blog, eu sempre fiz questão de dizer a todos (e poucos) que me liam, talvez, que o fazia para minha satisfação exclusiva. Se eu quisesse escrever algo “popular”, digamos assim, eu teria tentado um workshop com Paulo Coelho, ou Lair Ribeiro.
Bem, parece claro que para determinados petistas, importa mais se o que eu escrevo tem ampla repercussão; portanto, dane-se o conteúdo, se está certo ou errado. Para ter validade, é preciso ter escala Deve ser por isso que estão no mesmo campo político hoje da candidata que idolatra Pablo Marçal, vá saber?
Em tempos de negacionismo, é engraçado assistir o PT de Campos e do Brasil embarcarem na mesma canoa furada, porém, com um agravante: Pablos Marçais e Bolsonaros sabem o que fazem, e tiram dividendos políticos desse comportamento “espantalho” que performam. Já o PT, de Campos e o do Brasil, só fazem papel de idiotas mesmo, e o fazem porque não sabem fazer outra coisa.
Don’t Look Up é um filme pouco incensado pela mídia, assim como outros filmes de Adam McKay. Ele não é um diretor denso, como Terrence Malick, com seus The Thin Red Line (com Sean Penn e etc) ou The Tree of Life (Com Brad Pitt e Sean Penn, e etc). O problema de McKay, na minha rasa e pouco lida opinião, é que ele fala de coisas incômodas.
No filme VICE, ele esquadrinha uma das mais sombrias personagens da história política dos EUA, Dick Cheney, vivido no filme por Christian Bale e etc. Ali temos um ótimo resumo sobre o pensamento de Mckay sobre o momento que viria logo depois do 11 de setembro de 2001: a era do negacionismo.
Quem quer falar de impostos, orçamentos, socialismo, capitalismo, luta de classes, etc? Melhor dizer que isso é uma coisa chata e desinteressante, fazer o mesmo jogo rasteiro dos demais, e se exonerar de debates mais profundos.
A fórmula para aplacar consciências dos intelectuais e dos militantes políticos que, supostamente, teriam alguma responsabilidade com essa tarefa histórica? Ah, não conseguimos falar disso em uma linguagem acessível.
Bem, e o que o PT de Campos sabe elaborar? O mesmo anti Garotismo de sempre, esfarrapado, e como um relógio quebrado, espera marcar a hora certa pelo menos uma vez no dia! O anti Garotismo é para o PT de Campos uma espécie de refúgio para suas incapacidades políticas. Este é o retrato do PT de Campos dos Goytacazes (e do Brasil): um tipo de avestruz político que se nega a retirar a cabeça da areia, e olhar ao redor.
Segue como linha auxiliar de uma extrema-direita que se aninha no protofascismo marçaliano, simplesmente por que não sabe bem o que dizer à população campista. A sorte dessa legenda é que, como ensinou Winston Churchill, na política morremos e vivemos várias vezes.
Mas fica a pergunta: vale a pena o PT de Campos levantar-se do túmulo, onde aliás, já deveria ter se deitado há uns 15 anos, pelo menos?
Nos altiplanos
O negacionismo do PT em Brasília, onde se espreme em um governo de cativeiro (coalizão foi só o nome educado para o sequestro de Lula e do PT pela Faria Lima e etc), tem um novo episódio. A demissão do ministro de Direitos Humanos, Sílvio de Almeida.
Antes de mais nada: Mulheres raramente mentem sobre abusos. Sim, é bem provável que as mulheres tenham sido molestadas pelo ex-ministro. Alguns se perguntam a razão da ministra irmã de Marielle (sim, eu não consigo nem lembrar o nome dela, e sua referência política é só essa mesma, que coisa louca, né?) ter adiado tanto as denúncias e tê-las feito a uma ONG, e não ao chefe-presidente ou a polícia.
Aqui vão hipóteses: Mulheres abusadas quando sentem muito medo de denunciar, fazem aquilo que chamo de denúncia colateral, ou abafadas, que se dirigem ao seu círculo de amigos ou parentes, ou no caso da ministra, de gente em quem ela confiou. É uma forma de poderem confirmar o que disseram, pelo testemunho indireto desses interlocutores.
Uai, e por que ela não confiou em Lula ou na primeira-dama? É uma resposta que só a ministra pode dar, porém, há um dado concreto: ela não confiou no primeiro casal. Isso diz muito mais do governo Lula do que dela.
O tempo decorrido também diz muito, porque nos parece que o governo sabia, e a própria vítima sabia do cálculo político que estava sendo feito, e não vou achincalhar a moça sobre esse cálculo, pois ela era a única com o direito de manipular a situação, já que é dela o sofrimento!
Outro fato concreto: o governo sabia, e não agiu! Como faço essa afirmação? Com a degola sumária do suposto tarado, como se quisesse o governo Lula acabar logo com o assunto, e afastar essa pergunta: Lula sabia, por que nada fez?
Porém, isso se revelou um tiro no pé, e para variar, o PT cai na armadilha da direita e da mídia empresarial, tentando escapar da areia movediça que se meteu, desde que nomeou os dois para os cargos que ocupam, e pior, desde que deu a essa agenda identitária uma centralidade canhestra.
Distribuição de renda, impostos para os ricos, diminuição da orgia dos juros? Nada! É melhor falar de agendas identitárias, pelo menos nisso a Rede Globo nos ajuda, deve ter pensado o “jênio” da articulação política de Lula. Justamente isso, parafraseando Brizola, que deveria evitar o PT, Lula e seu governo. Explico: Brizola dizia que quando ele tinha dúvida sobre um tema, e qual posição adotar, ele olhava a Globo, e onde ela estivesse, ele estava do lado contrário.
Caso tivessem a humildade de aprender essa lição simples, Lula, o PT e seu governo, poderiam saber que a pauta identitária é aceita pela mídia corporativa e por setores da direita, porque tem um viés imobilizante em qualquer governo que se reivindique algum progressismo.
Uma prova de como essa questão foi tratada pela direita internacional? Gloria Steinem, notória feminista, que recentemente, disse ser agente da CIA.
Mesmo colocando essa agenda como principal, o PT, Lula e o governo protagonizaram cenas dignas do mais tosco direitista, quando o presidente, ele mesmo, desautorizou o então ministro Sílvio de Almeida, quando ele preparou eventos para lembrar o golpe militar de 1964.
Depois, Lula sai em campo para dizer que corintiano estava isento de responsabilidade por chegar em casa e agredir a mulher, quando o time perdesse. Quer dizer, nem agindo como se fosse importante, o presidente deixou de contrariar a si mesmo!
O negacionismo petista tem se transformado em piada, em motivo de vergonha. Hoje, se você falar de bola com um petista, ele responderá, navio. O fiasco de Campos dos Goytacazes, com o um candidato que deverá ter menos que 2% dos votos, e que mesmo assim não tenha se arriscado e demarcar um campo de esquerda na cidade, preferindo servir de boneco de ventríloquo das vozes da KKK local, se repetirá em São Paulo.
Enquanto Marçal avança sobre o eleitorado petista, a baba escorre pelo canto da boca de Boulos. Eu não sei mais se a frase correta é não olhe para cima, ou melhor seria não olhe para baixo. O PT de Campos e o PT nacional parecem com aquele homem que caiu do 121º andar, e passa pela janela do 89º andar, e alguém lhe pergunta: E aí? Ao que ele responde: “Até aqui, tudo bem”.