
Em meio aos debates sobre a adoção do lamentável acordo União Europeia-Mercosul, o parlamento da França vetou a ratificação deste tratado comercial com uma desculpa compreensível, mas que também mostra a dupla moral com que os franceses tratam o problema da contaminação de alimentos por agrotóxicos banidos na União Europeia. É que o argumento (correto, diga-se de passagem) dos franceses relaciona o uso de agrotóxicos banidos na União Europeia contamina os alimentos produzidos nos países do Mercosul, os quais pretendem aumentar o nível de exportação justamente para a Europa.
O problema é que a França é um dos principais exportadores de agrotóxicos banidos na União Europeia (ver a figura abaixo), e o Brasil é um dos maiores consumidores desses venenos super poderosos. Em outras palavras, na hora de vender produtos que estão banidos nos campos franceses, tudo bem. O que os franceses não querem é ver as commodities agrícolas brasileiras entrando em seus supermercados, já que sabem os malefícios que esses produtos podem trazer para a saúde dos franceses.

Essa dupla moral reflete bem a relação disfuncional que marca o comércio global de agrotóxicos, já que quem vende sabe muito bem os problemas que estão exportando para países com legislações ambientais mais frágeis, como é agora o caso do Brasil sob a égide do Pacote do Veneno. E isso fica ainda mais claro com a decisão do parlamento francês de recusar a ratificação do acordo com o Mercosul por causa da contaminação que agrotóxicos “fabriqué en France“.
A questão é de como aqui no Brasil essa discussão está sendo jogada para debaixo do tapete pelo latifúndio agro-exportador e seus aliados na mídia corporativa e no governo Lula. Mas para aqueles que entendem os graves problemas causados pelo uso excessivo de agrotóxicos altamente venenosos, a decisão do parlamento francês serve para impulsionar a legitimidade concedida ao latifúndio agro-exportador para nos contaminar com venenos altamente perigosos. Em que pese a forte carga de hipocrisia que esta decisão carrega.
Não é dupla moral, é esperteza.
Algo que falta às elites daqui.
Lá, pelo menos, as elites têm um senso torto de patriotismo ou seja lá o que for, aqui, nossas elites são só cafetões e cafetinas do estupro histórico desse país.
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