
Por Douglas Barreto da Mata
Uma importante liderança da atividade agroindustrial campista, que ainda hoje é parte relevante da dinâmica econômica regional, se manifestou em um jornal citadino. Eis a proposta: Fazer as pazes com o passado, e superadas todas as divergências, vamos rumo ao futuro.
Infelizmente, em pleno século XXI, um dos ramos mais atrasados da esfera primária-secundária da produção agroindustrial ainda tem voz ativa em Campos dos Goytacazes, e arredores, o que diz mais a respeito da cidade, do que do próprio setor.
É texto de boa forma, incomum para o baixo calão intelectual da maioria dos empresários do setor. Porém, só na forma, porque o conteúdo é horrível. Ensina a História que “pacificar” o passado é uma tarefa que só é possível se atribuirmos a cada um a responsabilidade pelos seus atos, na medida mais próxima da proporção dos estragos que causaram. Assim fizeram todos países (re) democratizados na América Latina, após os regimes militares das décadas de 1960 e 1970, com exceção do Brasil.
É desse modo que a maioria dos sistemas de Justiça funcionam, ao redor do planeta, isto é, só temos a “pacificação” com a reparação resultante de um processo legal, e acima de tudo, justo. O que deseja o nosso industrial é justamente o contrário.
Ele quer um “passar de pano histórico”, onde se esqueça que, apesar de certo impulso econômico trazido pela atividade que defende e faz parte, o fato é que os benefícios se concentraram firmemente no topo da pirâmide social (onde ele habita), e trouxeram, para além do vergonhoso período escravocrata, uma desigualdade brutal.
Dessa desigualdade advém toda a gama de violação de direitos básicos e da capacidade do trabalhador da atividade econômica agroindustrial de exercer sua cidadania.
A “memória afetiva” que o autor do texto evocou, dizendo que a agroindústria trouxe progressos e patrimônios culturais, que provariam uma certa “boa alma” dos empresários, não se sustenta, na medida que estes equipamentos só existiram para locupletação e gozo das elites e setores médios, para auto ilustração e delírios cosmopolitas, para encobrir um dia a dia de hábitos selvagens com os mais pobres, que nunca tinham acesso a tais requintes.
Bibliotecas para uma cidade de analfabetos, teatros onde negros e pobres só entravam para limpar sa latrinas. A primeira cidade a ter luz elétrica, e em pleno século XX, boa parte da zona rural teve que ser atendida por programas de eletrificação rural para as populações pobres. Foi apenas quando a cidade passou a se livrar da agro-dependência que houve uma singela melhora na qualidade da vida democrática e econômica dos mais pobres.
Se a economia é um fator/evento histórico, podemos dizer que o modelo defendido por ele deixou um legado de anemia que até hoje não conseguiu ser superado a contento, ficando a cargo do poder público sustentar boa parte da mão-de-obra que trabalhou para o setor, ou aquela que ainda trabalha.
Seja com programas sociais, seja com a estrutura de proteção pública, já que ao trabalhador do setor agroindustrial não é permitido o “luxo” de ter um carro, contratar planos de saúde, ou efetuar matrículas nas escolas particulares para seus filhos.
Falta de incentivo não foi. A atividade sempre gozou e goza dos favores fiscais de governos, desde o Proálcool até a isenção de ICMS de dias atuais. Milhões ou bilhões de dólares para gerar empregos de baixa remuneração, dano ambiental e pouco retorno em escala econômica de desenvolvimento. Só o Fundecam rendeu uma dívida de R$ 400 milhões aos cofres públicos, é bom lembrar.
O usineiro pede que possamos dar as mãos rumo a um futuro promissor. Para quem? Até hoje nenhuma instituição representativa do setor veio a público pedir desculpas pelos corpos incinerados nos fornos de uma usina. Seria o básico para qualquer ajuste de contas, e uma caminhada para a civilidade, com a promessa de que isso nunca mais se repetirá.
Nada. Nenhum murmúrio sequer, só um “não é comigo” típico dos covardes. Fazer as pazes sem cobrar ao setor agroindustrial as suas responsabilidades pelo atraso da cidade, inferindo que só houve um legado positivo, é retirar da sociedade a capacidade de aprender com seus erros, e evitar as repetições de tais equívocos no futuro.
Ele deseja, ao contrário, um “futuro da amnésia”. Toda vez que “varremos o passado” para baixo do tapete, sem as restituições necessárias, condenamos as gerações vindouras aos mesmos males de antes:
Um desenvolvimento hierárquico, onde os mais ricos ficam muito mais ricos, e os pobres, cada vez mais pobres. Enfim, como diz a música, “paz sem voz não é paz, é medo”.
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