A Inteligência Artificial e as disputas do mundo contemporâneo

Imagem produzida por inteligência artificial

Por Carlos Eduardo Martins para o “Blog da Boitempo”

Quando da posse do novo presidente dos Estados Unidos, alertamos nas redes sociais que as Big Techs se aproximaram de Trump porque estavam mais fracas e buscavam proteção contra a concorrência chinesa. Mencionamos que o custo dessa aproximação era altíssimo: perda da suposta neutralidade, desgaste social e político, defesa da redução de impostos e direitos, das emissões de carbono e suspeição de vinculação ao neonazismo. A recente divulgação da produção de software de inteligência artificial pela China com performance similar e custos 10 vezes menores que os das Big Techs norte-americanas evidencia a correção de nosso argumento e a profundidade da crise do setor de alta tecnologia estadunidense, que deverá se aprofundar nos próximos anos.

A notícia dos novos chatbots da DeepSek, Deep-Seek-R1 e DeepSeek-R1-Zero, provocou a queda de 17% dos preços das ações da Niyvia em apenas um dia, arrastando para baixo todo o setor de alta tecnologia. Gerou perdas de US$ 1 trilhão nesse segmento, impactando negativamente a Nasdak e a S&P 500, entre outros ativos, como as ações de Google, Amazon, Meta e Microsoft, atingindo diretamente grande parte dos bilionários que estão se escorando em Trump.

A China provou que o bloqueio que sofre à importação de alta tecnologia é inútil para excluí-la da corrida pela fronteira tecnológica. E isso por várias razões:

a) a China investe fortemente na capacitação de sua força de trabalho e vem repatriando parte dos cientistas e engenheiros formados no exterior;

b) prioriza o desenvolvimento de software ao de hardware, vinculando-se muito mais profundamente à revolução científico-técnica, que tem como principal fundamento a qualificação e o aumento do valor da força de trabalho;

c) desenvolve softwares de código aberto, priorizando a articulação entre a socialização de forças produtivas, a criação e a diversidade, abrindo-se potencialmente para combinar a contribuição de trabalhadores de todo o mundo. Trata-se de um gigantesco processo de formação do trabalho coletivo em construção que desafia o monopólio tecnológico e coloca a potência asiática à frente do vale do Silício na disputa pela fronteira tecnológica. Para reduzir os custos da inteligência artificial, a Deep Seek utilizou não apenas programadores, mas profissionais das ciências humanas e poetas.

Esse evento não é aleatório, mas um ponto de inflexão associado ao desenvolvimento de uma nova etapa da revolução científico-técnica e às profundas modificações que ela está gerando nas condições de existência: a automação ao setor de serviços, a ampliação do trabalho intelectual — vinculado à ciência, educação, cultura e lazer —, e a transição energética para formas renováveis e limpas.

Está em curso no mundo a luta das forças do século XXI, que o querem parir, contra aquelas do século XX, que pretendem deter a marcha da história da humanidade e, se necessário, destruí-la.

De um lado, temos um paradigma emergente baseado na socialização. Ele se materializa no protagonismo do conhecimento sobre a tecnologia material, das energias renováveis sobre os combustíveis fósseis, do diálogo sobre a força, da paz sobre a guerra, e da propriedade coletiva sobre a privada. A China, hoje, responde por 80% da produção de energia renovável no mundo, e em segundo lugar está a Indonésia, que acaba se associar ao BRICS como membro pleno. Embora as energias renováveis respondam por cerca de 20% da produção de energia do mundo atualmente, a previsão é de que em 2050 possam responder pela metade.

De outro lado, está o imperialismo, o territorialismo, a intimidação, a coação e a guerra. Esse projeto traz a pretensão de retomar o Destino Manifesto em versão aditivada, estendendo o espaço vital estadunidense para todo o Hemisfério Ocidental, da Groelândia até a Terra do Fogo. Ele se baseia no controle espacial, reage contra a emergência do paradigma verde e mantém a sua aposta em uma economia mundial baseada em combustíveis fósseis, sobre os quais pretende criar monopólios, protetorados e dependências permanentes.

Este é o sentido mais profundo do dilema que está em curso no mundo atual. Senhoras e senhores, ajustem as suas teorias. Não podemos olhar os dilemas do mundo contemporâneo com visões que mirem o nosso tempo com as mesmas estruturas mentais do territorialismo e do domínio das energias fósseis sobre o planeta.

A economia política das sanções e das guerras que os Estados Unidos estão impulsionando não representam apenas ameaças. São também janelas de oportunidade para a integração regional e o desenvolvimento das conexões comerciais, produtivas, financeiras e militares entre o Sul Global. Os países latino-americanos precisam se preparar para esse cenário. Para isso, necessitam de lideranças ousadas, criativas e determinadas para romper com a austeridade neoliberal e o imperialismo estadunidense, restabelecer e aprofundar a agenda da integração regional — que foi interrompida e desmontada — e articulá-la com as forças multipolares emergentes, que têm no BRICS um eixo fundamental. O Brasil goza de condições estruturais excepcionais para atuar nesse cenário, constituindo um país anfíbio com forte vocação continental e marítima, imensa dotação de recursos naturais e minerais, membro pleno e fundador do BRICS, exercendo atualmente a sua presidência, com imensa projeção na América do Sul. Falta ajustar as suas condições subjetivas, políticas e ideológicas às suas possibilidades estruturais.


Fonte: Blog da Boitempo

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