Por Douglas Barreto da Mata
Um movimento recorrente, que eu vou chamar aqui de memorialismo fantástico, se assanha, de tempos em tempos, na cidade de Campos dos Goytacazes. Suas motivações? Não ouso descrever todas, mas tenho cá minhas suspeitas. Já foram filiados à necrofilia do jornal Monitor Campista, como se coubesse ao dinheiro público (sempre a viúva!) o papel (sem trocadilhos) de embalsamar o espólio do filho menor do grupo Diários Associados, que teve como dono Assis Chateaubriand, uma espécie de Cidadão Kane tupinambá, um tipo que pariu Marinho e outros.
Antes, porém, o memorialismo se reuniu com as carpideiras do ciclo do açúcar em torno do Trianon, e deste soluçar nostálgico, essa nossa classe média ilustrada passou a defesa dos prédios, sim, apenas no aspecto conservacionista físico das construções, desconsiderando que o que mantém de pé as obras civis é gente.
É a história de gente que construiu, limpou, pintou, reformou nesses prédios, junto com aqueles que mandaram nessa gente. São as classes e seus conflitos.
Os objetos de desejo desse pessoal são casarões, tabacaria, que eles chamam da “terceira livraria mais antiga do Brasil”, enfim, tudo reunido em um sentimento confuso, que desconhece que cada edifício daqueles reúne o sofrimento, a exploração da mesma classe preta e pobre de sempre, e simboliza em suas fachadas a indiferença de sempre de seus donos, dourada a doses cavalares de falso intelectualismo e poses e gestos cosmopolitas, que um dia bailaram em seus salões.
Agora, essa turma resolveu olhar para o cinema, é um chamado ao passado de uma alegada “glória desse mercado de produção cultural” na cidade plana. Motivada pelo oportunismo de uma produção de cinema empacotada para “vender”, que por opção comercial e estética sufocou a historicidade da ditadura em um drama familiar, como se fosse isso que realmente devemos saber, essa turma quer porque quer tirar uns trocados no dinheiro público, seja como fomento direto ou subvencionado por renúncias fiscais, com a justificativa de que Campos dos Goytacazes foi a terra do cinema.
Um parêntese. Na defesa apaixonada do filme “Ainda estou aqui”, os minimalistas da ditadura. São aqueles que defendem que as escolhas artísticas do Paiva filho (Marcelo) e do filho do banqueiro (Salles) impediriam uma abordagem política e histórica do que houve com o desaparecido e sua família, eu diria que essa é uma mentira cavalar, como diria Ariano Suassuna. O filme é, sim, um alívio da história do país e da violência estatal, afogado em lágrimas de um drama pessoal verdadeiro, e que por isso permite a catarse anti histórica.
Há milhões de filmes que tratam de dramas pessoais, partindo dessa referência íntima, mas que não abrem mão de um contexto histórico preciso e bem contado. Que o filho escreva um livro para homenagear sua mãe, e a luta dela pelo reconhecimento da responsabilidade do Estado, eu entendi e aplaudo de pé. Agora, um filme, um instrumento de intervenção pública com essa importância, escolher ignorar tudo em volta, e fazer parecer que um “bando de homens maus” mataram um ex-deputado é de doer. Central do Brasil, nesse sentido, foi um filme muito mais denso e útil. E muito melhor também, em minha opinião. O filme é um tipo de: podemos falar de um drama da ditadura, sem falarmos em culpados e em quem apoiou o regime, como a própria produtora associada, a Globo filme, uma ironia doentia.
Voltando ao pessoal do memorialismo fantástico, é engraçado ver o esforço para reescrever o passado. Agora teremos festival de cinema, blá, blá, blá. Sim, ótimo, sou um entusiasta, mas e a periferia? Qual vai ser o alcance dessa empreitada? Quanto o contribuinte vai pagar, e qual será o retorno? Quanto de cinema vai impregnar o cotidiano das pessoas que já vivem um uma distopia digna de Ridley Scott e sua Los Angeles de Blade Runner?
Esses festivais, saraus e convescotes vão chamar os “replicantes” para o palco principal, ou a choldra vai ficar onde sempre esteve, nos backstages, lavando banheiros e servindo acepipes e bebidas nos foyers? Quantas projeções serão levadas às favelas e bairros pobres? Enfim, o que esse festival vai melhorar a vida de quem vive aqui? Os pobres poderão contar suas histórias, vão ser incentivados a produzir, escrever e dirigirá suas histórias?
Em tempo, e para encerrar, estranho que as centenárias liras e bandas sinfônicas da cidade estejam à míngua, e sejam depositárias de cultura (ainda) viva, e tradição na acepção exata do termo, isto é, entrega do passado para o presente, com a transmissão de saberes musicais, e nossos próceres do memorialismo fantástico não os enxerguem. Quem sabe um pequeno documentário? Ou um convite para abrirem o festival?
Duvido muito, afinal, o memorialismo fantástico se destina a nos convencer que fomos “grandes”, mas sabemos o quanto medíocres ainda somos.
