A inauguração da ponte do “rio que cai”: um perfeito retrato do estado da política fluminense

O governador Cláudio Castro e o presidente da Alerj Rodrigo Bacellar na inauguração da “ponte do rio que cai”.  Foto: Silvana Rust

Um dos quadros mais famosos do extinto “Programa do Faustão” era a “Ponte do rio que cai” na qual intrépidos figurantes tentavam atravessar uma ponte em meio a obstáculos e tiros de canhão para invariavelmente caírem de forma estrepitosa dentro do “rio”.   Sabe-se lá por quais cargas do destino, lembrei desse quadro ao ver ontem cenas vindas do trecho sanjoanense do Rio Paraíba do Sul.

É que, pouco mais de 24 horas depois de ter ameaçado usar ilegalmente a Polícia Militar para retirar 400 famílias que ocupavam pacificamente uma propriedade que já deveria estar passando pelo processo de reforma agrária, o governador Cláudio Castro esteve na nossa região para inaugurar a chamada “ponte da integração” que deverá ligar os municípios de São João da Barra e São Francisco de Itabapoana, e ainda impactar o trânsito de veículos pesados em Campos dos Goytacazes.

Um detalhe nada glorioso sobre esta inauguração é que passadas mais de quatro décadas entre o planejamento e a entrega, essa ponte ainda não possui vias pavimentadas para dar celeridade ao inevitável fluxo de veículos que sua existência criará.  A saída escolhida pelo presidente da Alerj, o campista Rodrigo Bacellar foi culpar os técnicos do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE) por fazerem o que se espera deles: garantir a lisura de todos os processos licitatórios que são realizados com o dinheiro público no estado do Rio de Janeiro, gostem ou não seus governantes.

Em sua forma cândida e característica de se pronunciar, Bacellar teria dito que “Só não entregamos as duas RJs porque, novamente, o Tribunal de Contas fez aquela palhaçada de paralisar a licitação por quase um ano, assim como fez na ponte. Se não a gente estaria hoje inaugurando não só a ponte, mas concluindo todo o asfaltamento e urbanização dessas duas rodovias“. Pois é, deve ser duro não poder fazer licitações que não atendem critérios técnicos e legais.

Mas o que mostra a inauguração da “Ponte João Peixoto”, além do inconformismo de Rodrigo Bacellar? Para mim, o simples fato de se inaugurar uma ponte tão estratégica sem que as vias de circulação estejam pavimentadas é um excelente retrato do estado de coisas que grassam na política fluminense. Fossem os nossos políticos minimamente sérios, essa inauguração aconteceria sem nenhuma pompa ou circunstância, na medida em que ela reflete uma evidente incompetência.  

Mas vá lá, a maioria desses políticos é aliada de Jair Bolsonaro, um presidente que em 2021 teve a capacidade de gastar mais R$ 700 mil em despesas de viagens para inaugurar uma ponte de madeira de 18 metros de extensão por 6 metros de largura em uma comunidade indígena no estado do Amazonas que havia custado apenas R$ 255 mil.  Assim, para inaugurar uma ponte que não liga nada a qualquer coisa é um pulo.

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