Campos dos Goytacazes, meu amor, minha dor

Blog do Roberto Moraes: Campos dos Goytacazes

Por José Luis Vianna da Cruz

Essa gente que sai de casa de madrugada rezando pra não cruzar com um cadáver ou um ato de violência, pra acertar o ponto de ônibus da facção do bairro pra não morrer, pro ônibus passar no horário certo, no itinerário certo, com um motorista que aceite parar no ponto. Essa gente que reza para colocarem linha de ônibus que atendam quem precisa trabalhar, socorrer alguém, passear, a um preço acessível.

Essa gente que deixa os filhos com o vizinho ou sozinhos pra ir trabalhar e trazer o dinheiro do pão magro, do café malhado, dos ultraprocessados, enlatados e ensacados e do remédio para curar o mal dos ultraprocessados, rezando pra encontrar seus filhos vivos e à salvo do crime organizado.

Essa gente que quando precisa de emergência morre, a não ser que um vizinho e que uma boa alma o socorra. E que, quando chega nos prédios de atendimento à saúde fica nos corredores, gemendo, sentindo, morrendo.

 Essa gente que foi jogada no campo de concentração do Tapera III prá morrer atropelado, pra perder o trabalho por falta de condução, pra não poder estudar, pra chegar tarde demais nos hospitais, pra ficar à mercê do crime organizado não-oficial (porque tem o crime organizado oficial, institucional, público).

Essa gente que peregrina pelos equipamentos e instituições “de atendimento” e não encontra solução nem encaminhamento para seus problemas. Essa gente humilhada e sacaneada diariamente. Que não tem alento em nada de que precisa, em nada do que tem direito, para quem existem dezenas de “instituições de atendimento”.

Essa gente humilhada diariamente pelos “representantes” dos que têm poder, que “fecham” e “cercam” os bairros e favelas, administrando a falta com a parca e humilhante doação, violenta, desumanizante, indigna. Ninguém pode entrar, são áreas fechadas por cabos eleitorais, políticos, capangas e membros do crime organizado. Os que ficam perto dos condomínios dos “privilegiados” têm que ser retirados, para evitar a desvalorização do patrimônio.

Essa gente refém, submetida aos códigos e regras “dos que mandam”, contra os quais quem se rebela se dana todo – “manda quem pode, obedece quem tem juízo”.

Por fora, de fora e prá fora, o mando dos megaempreendimentos – porto, petróleo, gás – alheios às pessoas dessa terra. Por dentro, o mando do dinheiro, da força, da repressão, da ameaça velada das “autoridades” contra os que nada têm, contra aqueles de quem é tirada a liberdade de circular, de desejar, de ter meios para conquistar. Sem empatia, sem compaixão, tratados como inimigos da Ordem Desigual. O povo é inimigo dos que mandam, mas precisam ser mantidos precariamente vivos para elegê-los, para eleger os que lhes tiram tudo, lhes negam tudo, lhes sugam tudo, fazendo-os minguar diariamente, para que não reajam.

Atacam o trabalho de sobrevivência, no campo, de quem produz alimento saudável, e na cidade, de quem trabalha com o manejo ambiental do lixo. Em defesa do agronegócio que envenena, e do “negócio de ouro do lixo”, que não pode ser pra pobre.

Não pode, sequer, haver urbanização na favela, para não dificultar a remoção futura.

Barram, ainda, os que têm empatia, compaixão, os que são parceiros, os que lutam ao lado dos que sofrem debaixo das patas desses coronéis contemporâneos. E contam com os que impedem “o bom atendimento” nas instituições, treinados para criar dificuldades para que seus padrinhos vendam facilidades, insensíveis, gabando-se de “não precisarem trabalhar – ‘tenho padrinho’, dizem”.

 Até quando, Campos dos Goytacazes, meu amor, minha dor?

Campos dos Goytacazes, 12/10/2025

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