
Em março deste ano, escrevi um texto em que anunciei que a COP30 seria um fracasso. O texto escrito para o jornal Nova Democracia. Afora meus apontamentos das muitas contradições entre discurso e prática no âmbito do governo Lula, eu indicava as limitações óbvias do próprio mecanismo das COPs que têm sido dominadas pelos lobbistas que representam os interesses dos grandes poluidores que estão na raiz da crise climática que nos envolve e ameaça colapsar partes inteiras do planeta.
A divulgação dos termos gerais do que foi acordado em Belém não só confirmam minhas análises, como jogam as soluções necessárias para um futuro que parece próximo, mas que é completamente distante do que precisamos para impedir o agravamento da crise climática.
Essa distância aparece nos principais compromissos que foram conseguidos após o risco de que nada poderia ser acordado por causa das resistência dos petroestados arábes e do seu patrono ausente, o governo Trump.
Pelo que pude ler, os representantes dos 194 estados presentes na COP30 concordaram em triplicar o financiamento para adaptação – um dinheiro que deverá ser fornecido pelas nações ricas e que é mais do que necessário para que os países vulneráveis protejam suas populações . No entanto, a meta de aproximadamente US$ 120 bilhões anuais foi adiada para 2035, restando saber quanto efetivamente será entregue até que se chegue a 2035.
Por outro lado, a questão fundamental da diminuição no uso dos combustíveis fósseis foi eliminada da declaração final da COP30, muito em função da resistência dos petroestados, a começar pela Arábia Saudita; Desta forma, qualquer compromisso com um roteiro para a transição para longe dos combustíveis fósseis não fez parte do acordo formal em Belém, o que objetivamente abrirá mais espaço ainda para que se acelere a exploração e consumo dos derivados do petróleo.
Além disso, a COP30 termina sem qualquer mecanismo para acabar como desmatamento nas florestas tropciais. A medida anunciada pelo Brasi, o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (FFTS), foi mantido fora da declaração final, o que enfraquece a sua implementação já que os países ricos ficarão dispensados de entegarem as somas pretendidas pelo Brasil. De quebra, o uso de mecanismos de mercado para angariar recursos para o FFTS, o que sabemos implicar em práticas que inibirão as medidas que são efetivamente necessárias para combater o processo desmatamento.
Por último, a COP30 termina sem que haja qualquer acordo concreto para garantir a diminuição das emissões de gases estufa, algo imprescindível para manter o objetivo de aumento da temperatura global no limite máximo de 1,5°C. A promessa de um programa para diminuir as emissões na COP31 equivale a mais uma promessa vaga que não possui qualquer garantia de que será adotada.
Como eu escrevi em março, é chegada a hora de se superar as soluções “meia boca” e de aceitar o limiar de praticar política no limite do que é possível. E os resultados de mais esta COP, mostra que precisamos de mecanismos de mobilização social que extrapolem o limiar dessas conferências controladas pelos que causam a crise climática para começo de conversa. O que se viu mesmo em Belém, especialmente nos enfrentamentos realizados para que os povos originários tivessem pelo menos acesso aos espaços de decisão, mostra que toda a energia social existente em relação à luta por uma adaptação climática justa precisa ser canalizada para espaços em que possam florescer em vez de serem domesticadas.