Comissão do Ambiente da ABGF promove live sobre El Niño, crise climática e adaptação no Brasil

A Comissão do Ambiente da Associação Brasileira de Geografia Física (ABGF) realizará, no próximo dia 20 de agosto, às 15h, a live “Brasil sob o El Niño: crise climática, impactos socioambientais e urgência da adaptação”, reunindo alguns dos mais destacados pesquisadores brasileiros dedicados ao estudo das mudanças climáticas e de seus efeitos sobre o território nacional.

A atividade acontece em um momento particularmente oportuno. As projeções mais recentes indicam o fortalecimento de um novo ciclo do El Niño, fenômeno que tende a intensificar eventos climáticos extremos em diferentes regiões do Brasil. A combinação entre o aquecimento anômalo do Oceano Pacífico, o aquecimento persistente do Atlântico Tropical e o avanço da crise climática global amplia os riscos de secas severas, queimadas, ondas de calor, escassez hídrica e episódios de chuvas intensas, com impactos diretos sobre a agricultura, os ecossistemas, a infraestrutura e a saúde pública.

Diante desse cenário, a Comissão do Ambiente da ABGF propõe um debate que articula ciência de excelência e compromisso com a sociedade. A live reunirá pesquisadores que vêm produzindo algumas das contribuições mais relevantes para a compreensão das transformações ambientais em curso no país.

Participarão como palestrantes a Dra. Luciana Gatti (INPE), reconhecida internacionalmente por seus estudos sobre o balanço de carbono da Amazônia e os efeitos do desmatamento sobre o clima; o Prof. Dr. Paulo Artaxo (USP), uma das principais referências brasileiras em física da atmosfera, mudanças climáticas e aerossóis; e o Prof. Dr. Roberto Verdum (UFRGS), pesquisador com ampla trajetória nos estudos sobre geografia física, vulnerabilidade ambiental e ordenamento territorial. A mediação ficará a cargo do Prof. Dr. Marcos Pedlowski (UENF), pesquisador da área de geografia política e ambiental, que conduzirá o diálogo entre os convidados e o público.

Mais do que discutir previsões meteorológicas, o encontro buscará analisar os desafios que o Brasil enfrenta para construir políticas efetivas de adaptação climática, reduzir vulnerabilidades socioambientais e fortalecer a capacidade de resposta das instituições públicas diante da intensificação dos eventos extremos.

A transmissão ocorrerá pelo canal GENATUFPB no YouTube e representa uma oportunidade para estudantes, pesquisadores, profissionais, gestores públicos e todos os interessados em compreender como o conhecimento científico pode contribuir para enfrentar um dos maiores desafios do século XXI.

Serviço

Live: Brasil sob o El Niño: crise climática, impactos socioambientais e urgência da adaptação
Data: 20 de agosto
Horário: 15h

Enquanto a ciência climática toca a sirene, os governos apertam o botão da soneca

O alerta de Eliot Jacobson converge com o diagnóstico do IPCC e com os trabalhos de Paulo Artaxo, Luciana Gatti e Carlos Nobre sobre a gravidade da crise climática

O professor Eliot Jacobson escolheu um título deliberadamente brutal para seu artigo mais recente, publicado no boletim The Climate Casino: “More Fucked Today than Yesterday”, algo como “estamos mais ferrados hoje do que ontem”. A linguagem rompe com a cautela habitual dos relatórios científicos, mas o diagnóstico central encontra respaldo nas principais instituições que monitoram o clima da Terra. O sistema climático global continua se deteriorando, enquanto governos, empresas e sociedades agem como se ainda dispusessem de tempo abundante para enfrentar a crise.

Jacobson examina indicadores como a temperatura média global, o aquecimento dos oceanos, o desequilíbrio energético da Terra, a redução do albedo e a perda de gelo polar. Esses dados não pertencem a um campo marginal da ciência. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, a NASA, o programa europeu Copernicus, a Organização Meteorológica Mundial e o IPCC trabalham com as mesmas variáveis para avaliar o estado do sistema climático.

A principal diferença entre Jacobson e os grandes organismos científicos não está nos dados, mas na linguagem e no ritmo da análise. O IPCC reúne milhares de estudos, constrói consensos e organiza suas conclusões por níveis de confiança e probabilidade. Esse processo assegura enorme robustez científica, mas também produz documentos que muitas vezes chegam ao público depois que novos recordes já alteraram o quadro observado. Jacobson acompanha séries atualizadas e procura transmitir a velocidade com que os limites anteriores vêm sendo superados.

Por isso, seu discurso pode parecer mais alarmante do que os relatórios do IPCC. No entanto, ambos apontam para a mesma direção. O Sexto Relatório de Avaliação do IPCC afirma de forma inequívoca que as atividades humanas provocaram o aquecimento global e já produziram mudanças rápidas e generalizadas na atmosfera, nos oceanos, na criosfera e na biosfera. Essas transformações aumentam a frequência e a intensidade de eventos extremos e atingem com maior severidade as populações que menos contribuíram para a crise climática.

Jacobson dedica atenção especial ao aquecimento dos oceanos. As águas absorvem a maior parte do excesso de energia retido pelos gases de efeito estufa. Esse acúmulo favorece ondas de calor marinhas, branqueamento de corais, deslocamento de populações de peixes, proliferação de algas tóxicas e alterações nas cadeias alimentares. O calor oceânico também pode fornecer mais energia para tempestades tropicais e ampliar o potencial destrutivo de eventos extremos.

O desequilíbrio energético da Terra constitui outro eixo de sua análise. O planeta absorve atualmente mais energia do que devolve ao espaço. Os gases de efeito estufa dificultam a saída da radiação infravermelha, enquanto mudanças nas nuvens, nos aerossóis, no gelo e na neve alteram a quantidade de energia solar refletida. Enquanto esse desequilíbrio persistir, o sistema climático continuará acumulando calor.

A redução do albedo amplia ainda mais o problema. Superfícies claras, como gelo e neve, refletem grande parte da radiação solar, enquanto oceanos e solos escuros absorvem mais energia. Quando o gelo derrete, superfícies mais escuras ficam expostas, acumulam calor adicional e aceleram o próprio derretimento. Jacobson chama esse processo de “grande escurecimento” do planeta, expressão que sintetiza a perda progressiva da capacidade terrestre de refletir a energia solar.

A ciência ainda investiga o peso relativo de cada um desses mecanismos, e algumas projeções apresentadas por Jacobson carregam incertezas importantes. A comunidade científica ainda precisa determinar se os recordes registrados desde 2023 indicam uma aceleração estrutural do aquecimento ou se resultam de uma combinação entre mudança climática, El Niño, redução de aerossóis e outras formas de variabilidade natural.

Essa incerteza, porém, não justifica complacência. Em situações que envolvem consequências potencialmente catastróficas, a incerteza deveria reforçar o princípio da precaução. O IPCC afirma que cada fração adicional de grau amplia riscos, perdas e danos. A diferença entre 1,5 °C, 2 °C ou mais de aquecimento não constitui uma abstração estatística, pois representa maior pressão sobre ecossistemas, sistemas agrícolas, infraestrutura, saúde pública e disponibilidade de água.

O IPCC também adverte que existe uma janela de oportunidade que se fecha rapidamente para garantir um futuro habitável. Reduções profundas, rápidas e sustentadas das emissões ainda poderiam desacelerar perceptivelmente o aquecimento nas próximas décadas. Portanto, o clima futuro não está completamente determinado. A humanidade ainda pode limitar parte dos danos, mas cada ano de atraso reduz o orçamento de carbono restante e exige transformações futuras ainda mais abruptas.

O principal obstáculo já não é a falta de conhecimento. A ciência demonstrou a origem humana do aquecimento, identificou seus mecanismos e descreveu grande parte de suas consequências. A dificuldade encontra-se nas instituições políticas e econômicas que continuam protegendo a expansão do petróleo, do carvão, do gás natural, do desmatamento e de padrões de consumo incompatíveis com a estabilidade climática.

O próprio IPCC reconhece a distância entre as metas anunciadas e as políticas efetivamente adotadas. Os compromissos nacionais continuam insuficientes para limitar o aquecimento a 1,5 °C, enquanto os investimentos em mitigação e adaptação permanecem muito abaixo do necessário. Ao mesmo tempo, governos seguem aprovando infraestruturas fósseis que permanecerão em operação durante décadas.

Jacobson torna essa contradição impossível de ignorar. Os organismos científicos descrevem uma emergência, mas os governos tratam a crise climática como apenas mais uma agenda administrativa. As conferências internacionais se repetem, as metas se acumulam e as emissões globais continuam incompatíveis com os objetivos oficialmente anunciados.

Essa dissociação entre ciência e decisão política aparece com clareza no Brasil. O país procura se apresentar como liderança ambiental, mas amplia a produção de petróleo, defende novas fronteiras de exploração, incentiva grandes projetos de mineração e autoriza empreendimentos com elevado consumo de energia, água e infraestrutura. A expansão dos datacenters, por exemplo, avança sem que o debate público examine adequadamente seus impactos cumulativos sobre os territórios, os recursos hídricos e os sistemas elétricos.

Ao mesmo tempo, o Brasil possui uma das comunidades científicas mais qualificadas do mundo para analisar a crise climática. Os trabalhos do físico Paulo Artaxo, professor da Universidade de São Paulo e participante das avaliações do IPCC, demonstram as relações entre a floresta amazônica, os aerossóis, a formação de nuvens, os ciclos hidrológicos e o clima regional e global. Artaxo alerta há anos que o desmatamento, as queimadas e o aquecimento global enfraquecem os mecanismos ecológicos que permitem à Amazônia regular o clima e transportar umidade para outras regiões da América do Sul.

As pesquisas coordenadas por Luciana Gatti, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, acrescentaram evidências decisivas a esse diagnóstico. A partir de medições atmosféricas realizadas com aeronaves, Gatti e seus colaboradores demonstraram que áreas do leste e do sudeste da Amazônia perderam parte de sua capacidade de absorver carbono. Nessas regiões, as emissões associadas às queimadas, ao desmatamento e à degradação florestal já podem superar a absorção realizada pela vegetação.

Esses resultados mostram que a crise amazônica não pertence apenas ao futuro. As áreas mais desmatadas registram temperaturas mais elevadas, estações secas mais longas e maior vulnerabilidade ao fogo. O desmatamento reduz a evapotranspiração, diminui a formação de chuvas e cria condições que favorecem novas perdas florestais. A degradação passa, assim, a alimentar sua própria continuidade.

As evidências produzidas por Artaxo e Gatti convergem com os reiterados alertas públicos do climatologista Carlos Nobre. Há décadas, Nobre chama atenção para o risco de a Amazônia alcançar um ponto de inflexão, a partir do qual a perda florestal e o aquecimento poderiam desencadear uma transformação extensa e potencialmente irreversível do ecossistema. O prolongamento das estações secas, o aumento das temperaturas, os incêndios recorrentes e a redução da capacidade de reciclar umidade constituem sinais coerentes com esse risco.

Carlos Nobre também destaca que a preservação da Amazônia interessa a todo o continente. A floresta influencia a distribuição das chuvas, sustenta grande parte da biodiversidade planetária e armazena enormes quantidades de carbono. Sua degradação ameaça a produção agrícola, a geração hidrelétrica, o abastecimento urbano e a estabilidade climática muito além das fronteiras do bioma.

Os três cientistas brasileiros analisam dimensões complementares do mesmo processo. Paulo Artaxo investiga as relações entre floresta, partículas atmosféricas, nuvens e clima. Luciana Gatti mede diretamente as mudanças no balanço de carbono. Carlos Nobre integra essas evidências em um diagnóstico sistêmico sobre o risco de ruptura do equilíbrio ecológico e climático da Amazônia.

Esses trabalhos demonstram que o Brasil não pode alegar desconhecimento. O país possui dados, instituições e capacidade técnica para compreender os riscos que enfrenta. Apesar disso, as decisões estratégicas do Estado frequentemente subordinam o conhecimento científico aos interesses imediatos das cadeias petrolíferas, minerais, agropecuárias e financeiras.

A contradição se torna ainda mais grave porque o Brasil combina enorme vulnerabilidade climática com elevado potencial de mitigação. O controle do desmatamento poderia produzir resultados rápidos, enquanto a restauração florestal, a transformação dos sistemas alimentares, o fortalecimento do transporte coletivo e a expansão planejada das energias renováveis poderiam reduzir emissões e desigualdades ao mesmo tempo.

No entanto, o Brasil continua tratando a proteção ambiental como obstáculo ao crescimento e o licenciamento como uma formalidade a ser flexibilizada. A mesma lógica aparece na adaptação. Secas, enchentes, deslizamentos, ondas de calor, incêndios e erosão costeira já afetam milhões de brasileiros, mas os governos continuam investindo menos na prevenção do que nas respostas emergenciais posteriores aos desastres.

O mérito do texto de Eliot Jacobson reside em recusar a transformação dos recordes climáticos em uma nova normalidade. Uma temperatura oceânica sem precedentes não representa apenas mais um ponto em um gráfico. Uma temporada excepcional de incêndios não constitui apenas uma anomalia anual. A repetição desses eventos altera as condições de existência das sociedades e dos ecossistemas.

Jacobson também identifica um fracasso da comunicação. A imprensa noticia recordes durante alguns dias e depois retorna à rotina como se o problema tivesse desaparecido. Governos anunciam metas para 2030 ou 2050, mas aprovam hoje projetos que ampliarão as emissões durante décadas. Empresas divulgam compromissos de neutralidade climática enquanto expandem a exploração de combustíveis fósseis.

A linguagem contundente de The Climate Casino procura romper essa normalização. Ela não substitui o rigor científico do IPCC nem dispensa a necessidade de distinguir observações, projeções e hipóteses. No entanto, expõe uma questão que os documentos institucionais nem sempre conseguem comunicar: a distância entre a gravidade das evidências e a lentidão da resposta política tornou-se uma fonte adicional de risco.

Jacobson não anuncia simplesmente um apocalipse inevitável. Ele mostra que cada novo recorde reduz o tempo e as condições disponíveis para agir. O IPCC chega à mesma conclusão ao afirmar que a janela de oportunidade para garantir um futuro habitável se fecha rapidamente.

A leitura conjunta dessas duas formas de comunicação produz uma conclusão incômoda. A humanidade não enfrenta a crise climática por falta de informação. Ela enfrenta a crise porque os interesses que lucram com a destruição ambiental ainda controlam grande parte das decisões econômicas e políticas.

Os trabalhos de Paulo Artaxo, Luciana Gatti e Carlos Nobre reforçam esse diagnóstico no contexto brasileiro. A Amazônia já emite sinais claros de alteração funcional, partes da floresta perderam capacidade de absorver carbono e o risco de cruzar limiares críticos cresce com a continuidade do desmatamento e do aquecimento global. O Estado brasileiro não pode celebrar sua ciência no exterior enquanto ignora suas conclusões dentro do país.

Estamos em uma situação pior do que ontem não porque o colapso total aconteça de um dia para o outro, mas porque cada dia de emissões adicionais acumula energia no sistema climático, amplia os riscos e reduz as possibilidades de evitar mudanças irreversíveis. Amanhã poderá ser ainda pior caso a sociedade continue confundindo prudência científica com autorização para a inércia.

A crise climática exige redução imediata das emissões, interrupção do desmatamento, proteção e restauração dos ecossistemas, abandono da expansão das fronteiras fósseis e investimentos públicos maciços em adaptação. A ciência internacional e brasileira já cumpriu sua tarefa de formular o alerta. Resta saber se as sociedades conseguirão construir força política suficiente para transformar esse conhecimento em ação antes que as advertências atuais se convertam em descrições tardias de oportunidades definitivamente perdidas.

Dançando enquanto o colapso não vem: Hegemonia do modelo agroquímico mineral causa atraso na adaptação climática no Brasil

Solidariedade real e radical entre os povos para enfrentar o colapso  climático - Brasil de Fato

As últimas semanas têm sido marcadas pela ocorrência de eventos tão extremos como díspares. As cenas de grandes tempestades, grandes oscilações de temperatura, e destruição de bens e propriedades têm ocupado parcelas cada vez mais maiores dos noticiários. Somado à confirmação de um novo normal climático, o que se vê é a discrepância já existente na capacidade de adaptação a essa situação, com países do capitalismo dependente ficando cada vez mais para trás na aplicação de medidas que representem algum tipo de esforço de preparação para as situações extremas que estão se tornando cada vez mais frequentes.

Um aspecto que sempre é negligenciado é que não falta ciência e cientistas para informar melhor a tomada de decisões. Uma voz que alerta frequentemente para os problemas climáticos é o físico Paulo Artaxo, professor da Universidade de São Paulo, que sendo um dos maiores experts em mudanças climáticas no Brasil sempre se manifesta sobre a necessidade de preparar nossas cidades para o novo normal climático. Um dos elementos que Artaxo destaca é o fato de que a adaptação terá de ser ajustada localmente, na medida em que os extremos climáticos se manifestarão de forma diferenciada, dependendo de fatores locacionais.  Em outras palavras, não haverá uma receita única para o processo de adaptação.

Como venho me interessando há algum tempo pela questão da adaptação climática ao nível das cidades, usando a cidade de Campos dos Goytacazes como ponto privilegiado de observação, o que posso dizer é que ainda não há o mínimo interesse por partes dos governantes em discutir seriamente a necessidade de preparação para o aprofundamento dos problemas associados ao clima.  Em Campos dos Goytacazes, inexistem medidas de mudança na paisagem urbana. Aliás, pelo contrário. O que se tem é a persistência de práticas de remoção da parca vegetação urbana existente, como ficou claro recentemente com a remoção de dezenas de árvores de grande porte, apenas para tornar a marca de um supermercado mais visível. Além disso, não temos ainda nenhuma medida para ajustar materiais de construção que possam ser mais afeitos aos extremos de temperatura que estão se tornando uma das marcas do padrão climático.  Para colar a cereja no bolo, ainda inexiste orçamento para instalar as estruturas que deveriam apoiar e viabilizar as decisões de governo em momentos de ocorrência de eventos meteorológicos extremos.

O problema é que Campos dos Goytacazes não é uma exceção insólita, mas uma espécie de vanguarda do atraso. A verdade é que a maioria, senão a totalidade, das cidades brasileiras não deu ainda os passos iniciais para a adaptação climática que poderia evitar o colapso das cidades com locais viáveis para a existência humana.  Um dos fatos essenciais para isso é a hegemonia das forças políticas que controlam e se beneficiam do modelo agroquímico e mineral que ditam os investimentos públicos no Brasil. Essas forças determinam grandes investimentos na produção de commodities agrícolas e minerais de exportação, bem como a instalação de infraestruturas de escoamento (chamam isso de logística) do que é produzido a partir deste modelo. E nunca é demais dizer que esse modelo contribui diretamente para a crise climática, o que explica porque a hegemonia desse modelo inibe qualquer discussão séria sobre adaptação. 

Como é a classe trabalhadora quem sofre e sofrerá cada vez mais os efeitos da crise climática, já que seus membros estarão expostos a um agravamento das temperaturas enquanto trabalham e terão de voltar para locais de moradia que serão os mais atingidos pelos extremos meteorológicos, é necessário colocar essa discussão no centro do debate político. No caso brasileiro, me parece evidente que não serão as forças políticas que apoiam o modelo agroquímico e mineral que farão isso. Esta tarefa terá que ser abraçada pelos segmentos de esquerda que não se limitam a gerenciar o capitalismo dentro dos limites aceitos por quem realmente controla o status quo agroquímico mineral.  O problema é se essas forças de esquerda vão acordar antes que o colapso se torne inevitável.

Aqui um um aviso é importante: o tempo para a tomada de posições está se esgotando.

‘Produção de alimentos e combustíveis fósseis causam danos ambientais de 5 bilhões de dólares por hora’, aponta relatório da ONU

Um relatório do Escritório Geológico da ONU afirma que acabar com esse dano é fundamental para a transformação global e precisa ser feito “antes que o colapso se torne inevitável”

Um trabalhador rural ara os campos com vista para a refinaria e planta petroquímica de Grangemouth, na Escócia.

Um trabalhador rural ara os campos com vista para a refinaria e planta petroquímica de Grangemouth, na Escócia. Fotografia: Murdo MacLeod/The Guardian

Por Damian Carrington para “The Guardian” 

De acordo com um importante relatório da ONU, a produção insustentável de alimentos e combustíveis fósseis causa danos ambientais de US$ 5 bilhões (R$ 21,8 bilhões) por hora.

Acabar com esse dano é uma parte fundamental da transformação global da governança, da economia e das finanças, necessária “antes que o colapso se torne inevitável”, disseram os especialistas.

relatório Global Environment Outlook (GEO) , produzido por 200 pesquisadores para o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, afirmou que a crise climática, a destruição da natureza e a poluição não podem mais ser vistas simplesmente como crises ambientais.

“Todos esses problemas prejudicam nossa economia, segurança alimentar, segurança hídrica, saúde humana e também representam questões de segurança [nacional], levando a conflitos em muitas partes do mundo”, disse o professor Robert Watson, co-presidente da avaliação.

Todas as crises ambientais estavam se agravando à medida que a população global crescia e exigia mais alimentos e energia, a maior parte dos quais era produzida de maneiras que poluem o planeta e destroem o mundo natural, disseram os especialistas. Um mundo sustentável era possível, afirmaram, mas exigia coragem política.

“Este é um apelo urgente para transformarmos nossos sistemas humanos agora, antes que o colapso se torne inevitável”, disse o professor Edgar Gutiérrez-Espeleta, outro co-presidente e ex-ministro do Meio Ambiente da Costa Rica.

“A ciência é boa. As soluções são conhecidas. O que é necessário é a coragem para agir na escala e na velocidade que a história exige”, disse ele, acrescentando que a janela de oportunidade para agir está “se fechando rapidamente”.

Os especialistas reconheceram que a situação geopolítica atual é difícil, com os EUA sob a liderança de Donald Trump, alguns outros países e interesses corporativos trabalhando para bloquear ou reverter ações ambientais. Watson, ex-presidente de importantes grupos internacionais de ciência climática e biodiversidade, afirmou: “O público precisa exigir um futuro sustentável para seus filhos e netos. A maioria dos governos tenta atender a essa demanda.”

O relatório GEO é abrangente – 1.100 páginas este ano – e geralmente é acompanhado por um resumo para formuladores de políticas, que é acordado por todos os países do mundo. No entanto, fortes objeções de países como Arábia Saudita, Irã, Rússia, Turquia e Argentina a referências a combustíveis fósseis, plásticos, redução do consumo de carne e outras questões impediram que um acordo fosse alcançado desta vez.

Uma declaração emitida pelo Reino Unido em nome de 28 países afirmou: “Testemunhamos tentativas de desviar a atenção para questionar a natureza científica deste processo. Nossas delegações respeitam plenamente o direito de cada Estado de salvaguardar os interesses e direitos nacionais de seu país, mas a ciência não é negociável.”

O relatório da GEO enfatizou que os custos da ação são muito menores do que os custos da inação a longo prazo e estimou que os benefícios da ação climática, por si só, valeriam US$ 20 trilhões por ano até 2070 e US$ 100 trilhões até 2100. “Precisamos de países visionários e empresas do setor privado que reconheçam que obterão mais lucro abordando essas questões em vez de ignorá-las”, disse Watson.

O relatório continha diversas “verdades cruciais”, disse Gutiérrez-Espeleta: as crises ambientais eram emergências políticas e de segurança, ameaçando os laços sociais que mantinham as sociedades unidas. Os governos e sistemas econômicos atuais estavam falhando com a humanidade e a reforma financeira era a pedra angular da transformação, afirmou: “A política ambiental deve se tornar a espinha dorsal da segurança nacional, da justiça social e da estratégia econômica”.

Um dos maiores problemas apontados foi o prejuízo ambiental de US$ 45 trilhões por ano causado pela queima de carvão, petróleo e gás, além da poluição e destruição da natureza provocadas pela agricultura industrial, segundo o relatório. O sistema alimentar representou a maior parte dos custos, com US$ 20 trilhões, seguido pelo transporte, com US$ 13 trilhões, e pela geração de eletricidade a partir de combustíveis fósseis, com US$ 12 trilhões.

Esses custos – chamados de externalidades pelos economistas – devem ser incorporados aos preços da energia e dos alimentos para refletir seu valor real e incentivar os consumidores a optarem por escolhas mais ecológicas, disse Watson: “Portanto, precisamos de redes de proteção social. Precisamos garantir que os mais pobres da sociedade não sejam prejudicados por um aumento nos custos.”

O relatório sugere medidas como uma renda básica universal , impostos sobre a carne e subsídios para alimentos saudáveis ​​à base de plantas.

O relatório também apontou a existência de cerca de US$ 1,5 trilhão em subsídios prejudiciais ao meio ambiente para combustíveis fósseis , alimentos e mineração. Esses subsídios precisam ser eliminados ou redirecionados, acrescentou o documento. Watson observou que a energia eólica e solar são mais baratas em muitos lugares, mas seu desenvolvimento é prejudicado por interesses ligados aos combustíveis fósseis.

A crise climática pode ser ainda pior do que se pensava, afirmou: “É provável que estejamos subestimando a magnitude das mudanças climáticas”, com o aquecimento global provavelmente atingindo o limite superior das projeções feitas pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas.

O relatório afirma que a eliminação dos subsídios aos combustíveis fósseis poderia reduzir as emissões em um terço.

Este artigo foi alterado em 9 de dezembro de 2025. Uma versão anterior afirmava que o relatório da GEO estimava que os benefícios da ação climática, por si só, valeriam “US$ 100 bilhões” até 2100; o correto seria US$ 100 trilhões.


Fonte:  The Guardian

Decisões meia-boca mostram fracasso da COP30 e aumentam a demanda por novos mecanismos de combate contra o colapso climático

Mais da metade da COP30 já passou, e o sábado foi marcado por avanços  diplomáticos, mobilizações populares e uma expectativa crescente por  resultados concretos - TV Pampa

Em março deste ano, escrevi um texto em que anunciei que a COP30 seria um fracasso.  O texto escrito para o jornal Nova Democracia. Afora meus apontamentos das muitas contradições entre discurso e prática no âmbito do governo Lula, eu indicava as limitações óbvias do próprio mecanismo das COPs que têm sido dominadas pelos lobbistas que representam os interesses dos grandes poluidores que estão na raiz da crise climática que nos envolve e ameaça colapsar partes inteiras do planeta.

A divulgação dos termos gerais do que foi acordado em Belém não só confirmam minhas análises, como jogam as soluções necessárias para um futuro que parece próximo, mas que é completamente distante do que precisamos para impedir o agravamento da crise climática.

Essa distância aparece nos principais compromissos que foram conseguidos após o risco de que nada poderia ser acordado por causa das resistência dos petroestados arábes e do seu patrono ausente, o governo Trump.

Pelo que pude ler, os representantes dos 194 estados presentes na COP30 concordaram em triplicar o financiamento para adaptação – um dinheiro que deverá ser fornecido pelas nações ricas e que é mais do que necessário para que os países vulneráveis ​​protejam suas populações . No entanto,  a meta de aproximadamente US$ 120 bilhões anuais foi adiada para 2035, restando saber quanto efetivamente será entregue até que se chegue a 2035.

Por outro lado, a questão fundamental da diminuição no uso dos combustíveis fósseis foi eliminada da declaração final da COP30, muito em função da resistência dos petroestados, a começar pela Arábia Saudita;  Desta forma, qualquer compromisso com um roteiro para a transição para longe dos combustíveis fósseis não fez parte do acordo formal em Belém, o que objetivamente abrirá mais espaço ainda para que se acelere a exploração e consumo dos derivados do petróleo.

Além disso, a COP30 termina sem qualquer mecanismo para acabar como  desmatamento nas florestas tropciais. A medida anunciada pelo Brasi, o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (FFTS), foi mantido fora da declaração final, o que enfraquece a sua implementação já que os países ricos ficarão dispensados de entegarem as somas pretendidas pelo Brasil. De quebra, o uso de mecanismos de mercado para angariar recursos para o FFTS, o que sabemos implicar em práticas que inibirão as medidas que são efetivamente necessárias para combater o processo desmatamento.

Por último, a COP30 termina sem que haja qualquer acordo concreto para garantir a diminuição das emissões de gases estufa, algo imprescindível para manter o objetivo de aumento  da temperatura global no limite máximo de 1,5°C. A promessa de um programa para diminuir as emissões na COP31 equivale a mais uma promessa vaga que não possui qualquer garantia de que será adotada.

Como eu escrevi em março, é chegada a hora de se superar as soluções “meia boca” e de aceitar o limiar de praticar política no limite do que é possível. E os resultados de mais esta COP, mostra que precisamos de mecanismos de mobilização social que extrapolem o limiar dessas conferências controladas pelos que causam a crise climática para começo de conversa. O que se viu mesmo em Belém, especialmente nos enfrentamentos realizados para que os povos originários tivessem pelo menos acesso aos espaços de decisão, mostra que toda a energia social existente em relação à luta por uma adaptação climática justa precisa ser canalizada para espaços em que possam florescer em vez de serem domesticadas.

As metas climáticas estão desaparecendo e emissões estagnam em níveis altos

A primeira semana da COP 30 em Belém está chegando ao fim. Poucos resultados tangíveis são visíveis, mas um grande número de lobistas está presente

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O planeta está em chamas, e os países ricos têm uma parcela desproporcional da culpa (grandes incêndios na Espanha em agosto). 

Por Wolfgang Pomrehn para “JungeWelt”

A primeira semana da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 30) está chegando ao fim em Belém, Brasil . Os resultados não são esperados antes da próxima sexta-feira e provavelmente não serão muito melhores do que os dos últimos 30 anos. Isso se deve, em grande parte, aos cerca de 1.600 lobistas registrados da indústria de petróleo e gás – o maior contingente desse tipo em tempos recentes. Quase 600 deles são membros de delegações nacionais e, portanto, têm acesso às negociações a portas fechadas. Essa é a conclusão de uma análise publicada na sexta-feira pela aliança “Kick Big Polluters Out”, que reúne mais de 450 organizações ambientais e de justiça climática de todo o mundo.

Entretanto, as emissões de gases de efeito estufa estagnaram em níveis recordes. De acordo com o Global Carbon Project (GCP), as emissões de CO2 na América do Norte e na Europa voltaram a aumentar recentemente, enquanto o aumento na Índia e na China diminuiu significativamente. Além disso, houve uma ligeira redução na liberação de gases de efeito estufa devido ao desmatamento e outras mudanças no uso da terra. No total, as emissões somaram aproximadamente 42,2 bilhões de toneladas de CO2. Consequentemente, a concentração de CO2 na atmosfera também está aumentando, intensificando ainda mais o efeito estufa. Nos últimos anos, o aumento foi o mais expressivo em pelo menos 70 anos, período que se iniciou desde as primeiras medições representativas de CO2. Os cientistas do GCP estimam que 8% do aumento dos gases de efeito estufa na atmosfera durante esse período foi consequência dos efeitos já em curso das mudanças climáticas. Em outras palavras, um ciclo de retroalimentação foi iniciado, exacerbando os problemas.

No entanto, os compromissos voluntários apresentados pelos Estados para as negociações estão muito aquém dessa realidade: de acordo com diversas análises do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e do recém-publicado Relatório de Ação Climática, eles são insuficientes para limitar o aquecimento global a 2,3 ou 2,5 graus Celsius, talvez até mesmo a apenas 2,6 graus Celsius, acima dos níveis pré-industriais. Além disso, não há nenhuma garantia de que todas as metas estabelecidas serão de fato atingidas. O plano do governo alemão, adotado na noite de quinta-feira, de construir novas usinas termelétricas a gás subsidiadas, por exemplo, contradiz diretamente essa situação.

Talvez devêssemos falar com mais precisão em aquecimento global, visto que o Acordo de Paris, firmado há dez anos, estipulou que o aquecimento deveria ser mantido “bem abaixo de dois graus” e, se possível, não ultrapassar 1,5 grau Celsius acima dos níveis pré-industriais. Ultrapassando esse limite de 1,5 grau — e a ciência climática concorda amplamente com isso —, cada vez mais subsistemas do clima planetário sofrerão alterações e entrarão em um modo diferente por um período muito, muito longo. Por exemplo, já existem sinais crescentes de que a Corrente do Golfo está enfraquecendo e, para os recifes de coral, qualquer ajuda parece tardia; eles estão começando a morrer em todo o mundo. Assim, nações insulares estão perdendo a proteção vital contra as ondas, milhões de pessoas perdem sua renda da pesca e do turismo, e a humanidade, uma importante fonte de proteína.

Este é, na verdade, um ponto que levanta a questão da compensação. De fato, essa questão é levantada repetidamente por muitos representantes do Sul Global, tanto governos quanto organizações da sociedade civil. No entanto, os países ricos, responsáveis ​​pela grande maioria dos gases de efeito estufa acumulados na atmosfera, resistem veementemente a isso. Aliás, a Alemanha ocupa o sexto lugar entre os países com as maiores emissões acumuladas, atrás de países que têm populações consideravelmente maiores. Pelo menos os países ricos agora se comprometeram contratualmente a fornecer assistência financeira aos países mais pobres para adaptação às mudanças climáticas e desenvolvimento de tecnologias amigas do clima. Como e em que medida essa assistência deve ser fornecida é, como nos anos anteriores, objeto de intenso debate em Belém.


Fonte: JungeWelt

Em pleno colapso climático: Brasil, Argentina e México estão expandindo suas reservas de petróleo e gás

Em preparação para a COP30, a Urgewald apresenta novos dados sobre seus projetos. 41% do financiamento planejado para o mundo todo está destinado à América Latina

Protesto contra leilão de petróleo em frente a uma plataforma petrolífera no Rio de Janeiro
Por Nina Glatzer para “Amerika21”

Berlim/Belém. Pouco antes da COP30, a Conferência Mundial do Clima, a organização ambiental alemã Urgewald apresentou, na semana passada, suas bases de dados globais atualizadas sobre a indústria de combustíveis fósseis. Trata-se da Lista Global de Desativação do Carvão (GCEL 2025) e da Lista Global de Desativação do Petróleo e Gás (GOGEL 2025). A COP30 começa hoje em Belém, Brasil.

Embora a China, a Índia e os EUA liderem a expansão global dos combustíveis fósseis, os bancos de dados mostram que a América Latina também desempenha um papel central na expansão da produção de carvão, petróleo e gás – desde o gás de xisto na Argentina até a perfuração em alto-mar na costa brasileira.

Segundo o relatório GOGEL 2025, 30 empresas de energia estão a desenvolver projetos de expansão da produção a curto prazo na América Latina, cuja concretização é previsível, uma vez que já foram aprovados ou estão em construção. Em conjunto, estes projetos têm um volume de produção planeado de aproximadamente 30 554.8 milhões de barris de óleo equivalente (mmboe)*. Isto significa que quase 11.3 % da produção mundial total planeada de petróleo e gás, estimada em 270 708.8 mmboe, é atribuível à América Latina. A região não só está, portanto, envolvida, como é um dos principais polos de expansão global dos combustíveis fósseis.”

Os maiores volumes adicionais de produção provêm do Brasil, Argentina e México, seguidos pela Venezuela e Colômbia. No Brasil, diversos novos projetos em águas profundas estão atualmente em desenvolvimento na chamada região do pré-sal, incluindo campos como Búzios e Mero, operados pela Petrobras. Na Argentina, a expansão concentra-se na produção de gás de xisto em Vaca Muerta, um dos maiores depósitos de fraturamento hidráulico do mundo. O México contribui tanto com projetos offshore no Golfo do México quanto com perfuração em terra.

A expansão da produção de combustíveis fósseis é frequentemente acompanhada por novos oleodutos, terminais de GNL e usinas termelétricas a gás. De acordo com o relatório “The Money Trail: Behind Fossil Fuel Expansion in Latin America and the Caribbean” (O Rastro do Dinheiro: Por Trás da Expansão dos Combustíveis Fósseis na América Latina e no Caribe), da Urgewald e organizações parceiras como FARN, Arayara e Amazon Watch, uma onda de novas infraestruturas de petróleo e gás está sendo construída na região, abrangendo mais de 8.800 quilômetros de novos oleodutos e gasodutos, 19 terminais de exportação de GNL planejados e mais de 54.000 megawatts de capacidade adicional de usinas termelétricas a gás. Esses projetos são concebidos para uma vida útil de 30 a 50 anos e criam efeitos de dependência de combustíveis fósseis a longo prazo.

O banco de dados de carvão da Urgewald, GCEL 2025, também aponta para a continuidade da atividade de combustíveis fósseis na região. O banco de dados lista 27 empresas com sede na América Latina. Destas, 20 são empresas matrizes independentes e sete são subsidiárias de corporações internacionais. Juntas, elas operam aproximadamente 12,5 gigawatts de usinas termelétricas a carvão e extraem cerca de 87 milhões de toneladas de carvão anualmente, principalmente da Colômbia e do Brasil. Isso representa apenas 1% da produção global. Mesmo assim, a região tem uma importância acima da média nas exportações. A Colômbia, em particular, está entre os cinco maiores exportadores de carvão do mundo, exportando mais de 90% de sua produção. Isso significa que a Colômbia fornece 5,4% do volume de carvão comercializado globalmente. Embora o uso de carvão esteja estagnado em muitos países, a Colômbia permanece uma exceção como nação exportadora – novas áreas de mineração continuam sendo desenvolvidas no país, às vezes com investimento estrangeiro, como o Grupo Yildirim da Turquia ou a Ronin Resources da Austrália.

Com esses novos bancos de dados, as organizações ambientais pretendem deixar claro: a América Latina não é uma região periférica da indústria de combustíveis fósseis, mas sim uma área central de sua expansão global. Em vez de se afastar dos combustíveis fósseis, a região está passando por um processo de “diversificação fóssil”.

* Nota metodológica: O cálculo do volume de produção planejado baseia-se em uma estimativa: como as empresas individuais no banco de dados GOGEL gerenciam projetos em vários países, o volume relatado foi distribuído uniformemente entre todos os países listados na coluna “Países de expansão”. 


Fonte: Amerika21

Campos dos Goytacazes: um massacre da serra elétrica em uma cidade despreparada para o colapso climático. Isso não é nada bom!

Melting In The Heat – Free Clipart #2556379 | Clipart Library

Vivo em Campos dos Goytacazes desde janeiro de 1998 e sofro, como a maioria das pessoas, com as temperaturas esturricantes de boa parte do ano. Por isso, desde minha chegada fico impressionado com a falta de arborização na maioria das ruas, onde existem pouquíssimas exceções de boa cobertura vegetal em áreas públicas.  Uma das poucas áreas que tinham árvores suficientes para criar uma espécie de microclima mais suave era até dois dias atrás, a esquina entre as avenidas Felipe Uébe e 28 de março (ver imagem abaixo).

No entanto, aquele verde todo agora é passado. É que, provavelmente para dar maior visibilidade à nova filial da rede local de supermercados Superbom, um verdadeiro massacre da serra elétrica foi promovido em via pública, causando um misto de poda drástica com a remoção total de alguns indivíduos (ver vídeo abaixo).

O mais incrível é que presenciei o uso extensivo de servidores da Guarda Civil Municipal para orientar o trânsito enquanto a Filipe Uébe permaneceu fechada para que a operação das motosserras fizesse o trabalho de remover árvores que proviam abrigo para pássaros e amenizavam as temperaturas naquela região da cidade.

Quem não estava aparente na cena era algum servidor da recém-criada Secretaria Municipal de Meio Ambiente, órgão da administração direta municipal que deveria zelar pela pouca arborização de rua existente nesta cidade calorenta.  Entretanto, talvez para alegar desconhecimento, ninguém da SEMMA parecia estar por lá. Digo isso porque passei várias vezes pela área durante o abate das árvores, seja como motorista, seja como usuário da ciclovia.  Aliás, espero sinceramente que as poucas árvores existentes na ciclovia não se tornem alvo da sanha de abate que vitimou as figueiras da calçada em frente.

Uma coisa não posso dizer que me surpreende: a falta de compromisso com a qualidade climática da nossa cidade, seja por empresários ou pelos governantes.  Como venho orientando estudos sobre a questão da adaptação climática em nível municipal, sei que aqui perdura uma visão negacionista da gravidade do problema.

Isso não quer dizer que não se pode notar o descalabro que é ter árvores removidas das vias públicas para que uma determinada empresa tenha sua marca mais visível, como se isso fosse garantia de bons negócios.

 

O colapso climático e o dilema dos onivoros: mudar a dieta ou perecer

Por Sonia Corina Hess*

No Brasil, historicamente, as principais fontes de emissão de gases do efeito estufa (GEEs) são a mudança no uso da terra e florestas e a agropecuária, que originaram, respectivamente, 25,0% e 38,0% do total das emissões de 2023. Somadas, resultaram em 63,0% do total de GEEs emitidos no país naquele ano. As mudanças no uso da terra foram ocasionadas, principalmente, pelo desmatamento para a expansão de plantações de soja e milho e de pastagens. Além disso, 57% dos agrotóxicos aplicados no Brasil em 2021 foram utilizados em plantações de soja e 10% em plantações de milho.

Considerando que mais de 90% da soja e mais de 80% do milho produzidos no Brasil são direcionados à alimentação de animais no país ou no exterior, a pecuária é o principal fator gerador dos GEEs e do uso de agrotóxicos no país. Mas ninguém fala sobre isso. Há muitos discursos inflamados defendendo a minimização da emissão de GEEs e do uso de agrotóxicos, mas não se ouve falar na necessidade diminuir-se o consumo de produtos de origem animal para que tais metas sejam alcançadas.

A ONU enfatizou a necessidade dessa medida em documento publicado em 2015, mas não se fala mais nisso. Na COP-30, que vai acontecer em novembro em Belém-PA, certamente nenhum líder mundial tampouco vai falar sobre isso, porque seria constrangedor para um onívoro ser flagrado em contradição ao observar-se as suas refeições.

Mas quem tem a sincera intenção de ajudar a minimizar os sofrimentos ocasionados pelas mudanças climáticas e pelo uso de agrotóxicos, deve refletir sobre isso e mudar a sua dieta. Em troca, vai perceber uma acentuada melhora na sua saúde física e mental, e uma boa sensação de estar evitando muito sofrimento também para os animais.

*Sonia Corina Hess é professora titular aposentada da Universidade Federal de Santa Catarina

Na crise climática, o primeiro colapso é dos pobres: as cenas aterradoras de Petrópolis deixam isso claro

As chuvas que se abateram sobre o território fluminense de forma rápida e intensa geraram imagens aterradoras que explicitaram o significado mais cruel da crise climática sobre os segmentos mais pobres da população. Uma cena que pessoalmente impactou veio de uma comunidade pobre que se viu na eminência de ser engolida por uma gigantesca cachoeira que se formou a partir da tempestade que se abateu sobre aquela parte da região Serrana do Rio de Janeiro (ver vídeo abaixo).

O mais cruel dessa situação é que apesar das catástrofes recentes em Petrópolis (a mais recente em 2022 quando ocorreu a tragédia do Oficina), quase nada foi feito para que haja alguma coisa que se pareça com o que se denomina de “adaptação climática”.

O fato é que a maioria dos governantes – desde a esfera federal até a municipal- continua operando no mais estrito “business as usual“, como se não estivéssemos enfrentando os primeiros atos de um processo irrefreável de condições climáticas extremas que vão afetar primeiro os pobres, mas depois deverão alcançar todos os segmentos econômicos da população.

É urgente que se entenda que a crise climática está nos conduzindo a um colapso civilizacional e não há muito tempo para que comecemos a nos preparar para um clima tão hostil que a própria existência humana estará sob risco.

Quanto antes melhor começarmos a agir de forma prática para fazer um processo de adaptação climático justo, melhor.