Guerra chega na América do Sul e escancara o enfraquecimento da hegemonia estadunidense

Trump confirma primeiro ataque terrestre dos EUA na Venezuela

Ainda existem muitas incertezas em relação ao ataque promovido pelo governo Trump contra a Venezuela, mas há pelo menos uma: esse ataque militar escancara o colapso da ordem criada em Bretton Woods pelos vencedores da Segunda Guerra Mundial. É que dentro da ordem que organizou as relações políticas, econômicas e militares desde então, a coisa no que os EUA considerava seu “quintal” se resolvia mais na pressão indireta e uso de forças interna amigas do que no uso de força militar direta.

Esse ataque também revela que há uma fragilidade extrema na capacidade dos EUA de interferir politicamente, o que forçou o uso de suas forças regulares claramente superiores.  Mas o ataque estadunidense é mais um sintoma de enfraquecimento de hegemonia do que o contrário.  Que havia uma perda de hegemonia por parte dos EUA, isso já se sabia. O que se ataque revela é que ela parece estar a caminho de um enfraquecimento ainda maior e mais veloz. Aliás, a reversão do padrão não intervencionista defendido até as eleições por Donald Trump é uma clara demonstração de que ele mesmo percebeu sua posição de fragilidade, seja no plano internacional como no interno.

A invasão da Venezuela também coloca a América Latina em um momento singular, pois forçará posicionamentos claros não da direita e da extrema-direita que são claramente orientados pelo alinhamento com os EUA e deverão apoiar incondicionalmente as ações de Donald Trump.  A verdade é que esse ataque deverá aprofundar ainda mais diferenças dentro dos agrupamentos e forças partidárias que se dizem de esquerda, principalmente naqueles setores que procuram viver em um processo de negação que vivemos em um sistema econômico em que a predação dos recursos naturais e a exploração da classe trabalhadora. Com isso, toda a elaboração que circunavegar essa obviedade das relações capitalistas poderá ficar exposta como mero charlatanismo intelectual.  Por isso, esse é uma espécie de momento da verdade para quem se diz de esquerda, pois qualquer posição que não seja a denúncia explícita deverá ser lida como adesão às posições imperialistas do governo Trump, e, convenhamos, será. 

Como ainda vivemos as primeiras horas do ataque e não se sabe como ele foi eficiente em desagregar as cadeias de comando das forças militares e das forças políticas que sustentam o governo de Nicolás Maduro, teremos que esperar pelos desdobramentos da primeira onda de ataques.  Se as forças que sustentam o governo chavista não foram drasticamente abaladas,  a chance é que haverá um aumento da instabilidade política não apenas na Venezuela, mas em toda a América do Sul.

É que não podemos esquecer que as reais razões do ataque: a tentativa de controlar as grandes reservas petrolíferas venezuelanas.  E como as demandas por recursos por parte dos EUA se estendem a outras áreas, não pode haver dúvida que outros países poderão ser atacados pelas mesmas razões que estão sendo usadas para justificar o ataque à Venezuela.

Eu havia antecipado que 2026 seria um ano desafiador, mas os fatos já estão demonstrando que subestimei o tamanho do desafio.

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