
Imagem ao microscópio mostra esquizontes de Plasmodium vivax, fase de multiplicação dentro das células sanguíneas. Foto: Stefan Walkowski / Wikimedia Commons
Em regiões de fronteira na Amazônia, a febre é quase sinônimo automático de malária para a população e até para os serviços de saúde. No entanto, por trás dessa “certeza” podem estar escondidos vírus como os da dengue, da chikungunya e do parvovírus B19, que exigem cuidados médicos completamente diferentes. Esse cenário de incerteza diagnóstica é a realidade no Oiapoque, na divisa entre o Brasil e a Guiana Francesa.
Um novo estudo, publicado na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (RSBMT), revela que a circulação simultânea do parasito Plasmodium vivax (principal agente causador da malária no Brasil) e de diversos vírus representa um desafio crítico de saúde pública. A pesquisa, conduzida por cientistas da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade Federal do Amapá (Unifap), alerta que o predomínio histórico da malária na fronteira acaba ofuscando outras infecções potencialmente graves.
“A circulação simultânea é um grande desafio porque malária e arboviroses causam sintomas muito parecidos. Em regiões como Oiapoque, existe uma tendência natural de associar toda febre à malária. Isso faz com que dengue e chikungunya passem despercebidas”, afirmam o doutorando Marcelo Cerilo e o professor Ricardo Machado, da UFF, que orientou a pesquisa.
Essa confusão gera um risco direto ao paciente. Enquanto a malária exige medicação específica para eliminar o parasito, como a associação de cloroquina e primaquina, viroses como a dengue demandam monitoramento clínico cuidadoso para evitar complicações, como sangramentos. Outra preocupação dos cientistas é o parvovírus B19, com febre e manchas avermelhadas na pele), mas que pode ter efeitos graves em adultos.
“A coinfecção com o parvovírus é crítica porque ele ataca a medula óssea e interfere na produção de células do sangue. Se o paciente já está anêmico por causa da malária, isso pode levar a uma anemia severa súbita, que muitas vezes não é investigada porque o foco está apenas no parasita”, alerta Machado.
O problema é agravado pelo contexto local. O intenso fluxo de pessoas na fronteira e a presença de áreas de garimpo criam um ambiente propício para a sobreposição dessas doenças, aumentando a pressão sobre os serviços de saúde.
“Em regiões com grande circulação de pessoas, as doenças tendem a circular com mais frequência e os serviços de saúde ficam sobrecarregados. Nosso estudo mostra que nem toda febre é apenas malária”, reforça Cerilo.
A análise laboratorial indicou que uma parcela significativa da população local já teve contato prévio com os vírus da dengue e da chikungunya, evidenciando que esses microrganismos circulam ativamente na região. Diante desse cenário, os pesquisadores defendem a adoção de protocolos de atendimento integrados na fronteira franco-brasileira. Reforçam ainda, que os serviços de saúde devem considerar a investigação não apenas de malária, mas também de arboviroses, a fim de garantir diagnóstico correto e tratamento adequado à população.
Fonte: Agência Bori