Por Luan Matheus Santana, com informações do Conselho Pastoral dos Pescadores (CPP/PI) | Edição: Tânia Martins
Na última quarta-feira (25/02), a Defensoria Pública da União (DPU) esteve na comunidade Porto do Buraco do Dandão, em Luís Correia, para averiguar o conflito que se estabeleceu no território após as obras do Terminal Pesqueiro, ligado ao complexo portuário da cidade. Antes da visita da DPU, no dia 15 de janeiro, o Ministério Público Federal (MPF) e Defensoria Píublica do Estado do Piauí (DPE) também visitaram a comunidade, que está no centro desse conflito, já que a empresa Porto Piauí quer retirar as embarcações e os pescadores do local para viabilizar a obra. Os pescadores, porém, resistem e lutam para permanecer no Porto do Buraco do Dandão, onde guardam suas memórias e garantem seu sustento. Além do impacto social, há também preocupação ambiental: o próprio Estudo de Impacto Ambiental (EIA) do Porto Piauí aponta que o ecossistema do Delta do Parnaíba pode estar em risco com a implantação do projeto.
Porto de Luís Correia é uma das obras prioritárias do governador Rafael Fonteles (PT). Foi iniciado nos anos 70 e retomada agora com a promessa de trazer desenvolvimento para o Estado. Na vida real das centenas de pescadores que estão envolvidos no maior conflito de sobrevivência de suas vidas, a situação é de desespero. “Estão tomando o porto devagarzinho. E ninguém faz nada. Vai acontecer que vão dispensar todo mundo. E ninguém chega aqui para dar uma satisfação aos pescadores. Só ficam falando em indenização. Ninguém quer indenização, não. Nós queremos o porto dos pescadores aqui, as canoas aqui”, desabafa um dos pescadores durante visita da DPU.
O pescador, que optamos por não identificar nesta reportagem, nasceu e cresceu dentro das canoas do Porto do Buraco do Dandão. “Eu já tenho 40 anos e esse porto já existia. Meu pai hoje está aposentado, tem 75 anos e pescou aqui nessas canoas. E agora, de repente, querem tomar o porto dos pescadores. Querem mandar não sei para onde. Não tem condição, não. Isso não entra na cabeça do pescador. Nós queremos o porto dos pescadores aqui”, afirma.

Reunidos durante a visita da DPU, os pescadores informaram que a direção do Porto Piauí determinou a retirada das embarcações e dos pescadores do porto Buraco do Dandão para a execução da obra, no entanto, eles decidiram resistir por considerar que é um direito lutar para permanecerem onde exercem a profissão há mais de 50 anos, e de onde tiram o sustento de suas famílias.
Esse local é muito mais que um simples porto. É um espaço de vida, identidade, trabalho e de encontro entre pescadores e pescadoras. Também é ali que eles guardam e conservam suas embarcações. “Aqui é do meu filho e nós vivemos da pesca, né? Há muitas gerações esse povo existe aqui. É aqui que os pescadores tiram o seu sustento, cuidam dos seus filhos, levam alimento para sua mesa e sustentam suas famílias. Todos os pescadores já sentiram o impacto ambiental por conta desse porto que está sendo construído. Nós não estamos aqui para julgar, mas temos sofrido as consequências”, afirma uma pescadora que utiliza o Porto do Buraco do Dandão. E ela tem um medo que, também é o medo de todos que vivem na comunidade: “se nos tirarem daqui, como é que a gente vai sobreviver?”
Diante desse cenário, moradores e trabalhadores da pesca avaliam que o modelo de “desenvolvimento” adotado pelo Governo do Piauí é excludente, pois limita a participação social, ignora as vocações do território e suas características socioambientais, além de colocar em risco os modos de vida das comunidades e o meio ambiente. Trata-se, segundo as críticas apresentadas, de um tipo de projeto que prioriza grandes empresas, muitas vezes associadas à degradação ambiental.

Os impactos já chegaram
Desde as primeiras chuvas deste ano a comunidade Porto do Buraco do Dandão foi obrigada a conviver com alagamentos e o medo de perder tudo o que construíram. Ainda em janeiro, quando as chuvas começaram a cair no litoral, casas ficaram debaixo d’água, moradores perderam móveis, eletrodomésticos e outros bens, e o medo voltou a fazer parte da rotina de quem vive no local.
Um vídeo gravado por um dos moradores mostra a situação depois da chuva. Nas imagens, a casa de Dona Maria aparece completamente alagada. A água tomou conta dos cômodos e causou muitos prejuízos. “Olha o prejuízo que eles deram para Dona Maria. colocaram piçarra mais alto do que a rua. E só quem é prejudicado são os moradores. Já vieram aqui, já mediram a quadra 3, não deram previsão. Até agora não fizeram nada pela gente. A gente ainda está aguardando e não tem nem previsão”, denuncia morador da comunidade, em vídeo gravado e compartilhado nas redes sociais.
Segundo os moradores, esse problema não existia na comunidade até o início das obras da Porto Piauí. Para a construção do empreendimento do Terminal Pesqueiro foram erguidos aterros ao redor da comunidade, que deixaram o solo mais alto do que as ruas. Com isso, a água da chuva não consegue mais escoar para o rio. Ela fica represada e acaba entrando nas casas.
Comunidade existe há mais de 50 anos
O Porto do Buraco do Dandão foi criado há cerca de 50 anos pelo senhor Dandão, hoje aposentado. Desde então, o local se tornou um ponto importante para a pesca artesanal na região. Hoje, cerca de 60 embarcações usam o porto durante o ano. Aproximadamente 150 pescadores dependem diretamente desse espaço para morar, trabalhar e sustentar suas famílias.
Em alguns períodos, pescadores de Bitupitá, no Ceará, também utilizam o local como apoio, principalmente quando há ventos fortes no mar.
Para os moradores, o porto não é apenas um lugar de trabalho. Ele faz parte da história da comunidade, da cultura e da identidade das famílias que vivem ali.

Poeira, prejuízo e dificuldade para trabalhar
Além dos alagamentos, os moradores convivem com outro problema: a poeira causada pelos caminhões que transportam terra para os aterros. Essa poeira suja as casas, as ruas e, principalmente, as redes de pesca. Os pescadores precisam gastar muito tempo limpando o material antes de ir para o mar. Isso significa menos tempo para pescar e menos renda no fim do mês. Muitos relatam também problemas respiratórios, principalmente em crianças e idosos, por causa da poeira constante.
Alerta foi feito antes das chuvas
Em dezembro de 2025, um relatório do Observador do Processo de Consulta Porto do Piauí, da Universidade Federal do Delta do Parnaíba, já havia alertado sobre o risco de alagamentos. O documento explicou que o aterro das áreas ao redor do porto estava bloqueando o caminho natural da água da chuva. Também alertou que, sem obras de drenagem, as casas seriam atingidas no período chuvoso.
Mesmo com esse aviso, nenhuma medida foi tomada para proteger a comunidade. Agora, o que estava previsto acabou acontecendo.
Fonte: Ocorre Diário
