A fábrica de diplomas EAD e a erosão da formação docente no Brasil

O avanço descontrolado do ensino à distância nas licenciaturas ameaça aprofundar a crise estrutural da educação básica brasileira

Os novos dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) deveriam soar como um alarme nacional. Mais da metade dos cursos de formação de professores ofertados na modalidade de ensino à distância (EaD) obteve desempenho insuficiente no Enade 2025. O dado é devastador: 60,5% dos cursos EaD avaliados receberam conceitos 1 e 2, as faixas mais baixas do indicador de qualidade.

Segundo reportagem da Agência Brasil, os cursos com desempenho insuficiente responderam pela formação de aproximadamente 155 mil novos professores. A dimensão do problema ganha contornos ainda mais graves quando se observa que a maior parte dessas matrículas está concentrada em grandes grupos privados de ensino superior.

A reportagem publicada pela Folha de S.Paulo mostra que o setor privado concentrou quase a totalidade das matrículas em cursos EaD mal avaliados. O quadro reforça a percepção de que se consolidou no Brasil um modelo educacional fortemente orientado pela lógica de mercado, em que a redução de custos e a ampliação acelerada de matrículas passaram a prevalecer sobre critérios acadêmicos elementares.

O que está em jogo não é apenas uma discussão sobre metodologias pedagógicas ou inovação tecnológica. Trata-se da qualidade futura da educação básica brasileira. A expansão vertiginosa do EaD na formação docente ocorreu sem a construção paralela de mecanismos rigorosos de controle de qualidade, supervisão acadêmica e garantia de experiências presenciais consistentes. Em muitos casos, consolidou-se um sistema baseado em videoaulas padronizadas, tutoria precarizada e avaliações automatizadas.

Formar pedagogos e licenciados não é equivalente à simples transmissão remota de conteúdos. A docência exige experiência prática, observação de dinâmicas escolares, construção de vínculos humanos, desenvolvimento de capacidades de mediação social e domínio didático adquirido em interação concreta com estudantes e professores experientes.

A formação docente possui uma dimensão relacional impossível de ser plenamente reproduzida por plataformas digitais. Professores não atuam apenas como transmissores de conteúdos curriculares. Eles enfrentam diariamente conflitos sociais, desigualdades, dificuldades cognitivas, vulnerabilidades emocionais e processos complexos de socialização. A escola é um espaço vivo de convivência humana. Reduzir a formação docente a uma experiência predominantemente virtual significa empobrecer dramaticamente a compreensão da própria natureza do trabalho pedagógico.

O crescimento explosivo do EaD nas licenciaturas não ocorreu espontaneamente. Ele foi resultado direto de políticas de expansão quantitativa do ensino superior associadas à privatização e financeirização da educação. Grandes conglomerados educacionais identificaram nas licenciaturas a distância um nicho extremamente lucrativo: mensalidades baixas, estruturas operacionais enxutas, poucos professores contratados e milhares de alunos distribuídos em polos frequentemente frágeis do ponto de vista acadêmico.

Dados reunidos pela organização Todos Pela Educação já vinham alertando há anos para o avanço acelerado do EaD na formação de professores. Em diversas licenciaturas, os cursos a distância passaram a representar a maioria absoluta dos concluintes. Os resultados mais recentes do Enade apenas tornam visível aquilo que já vinha sendo denunciado por pesquisadores e entidades educacionais: a expansão quantitativa ocorreu sem garantia equivalente de qualidade.

Existe ainda uma dimensão social profundamente desigual nesse processo. A precarização da formação docente atinge sobretudo estudantes das camadas populares, que recorrem ao EaD devido à ausência de alternativas presenciais acessíveis. Em outras palavras, consolida-se um sistema dual: estudantes com maior renda continuam tendo acesso à formação presencial mais robusta, enquanto os mais pobres são direcionados para modelos massificados e frequentemente frágeis.

As consequências futuras podem ser severas. Professores mal formados tendem a enfrentar maiores dificuldades em alfabetização, planejamento pedagógico, gestão de sala de aula e desenvolvimento de práticas inclusivas de aprendizagem. O impacto disso recai diretamente sobre milhões de crianças e adolescentes matriculados na educação pública brasileira.

Não se trata de rejeitar integralmente o uso de tecnologias digitais na educação. Ferramentas remotas podem ampliar oportunidades de formação continuada, complementar atividades presenciais e democratizar determinados acessos. O problema emerge quando a lógica empresarial substitui a lógica pedagógica e transforma a formação docente em mera mercadoria de baixo custo.

A recente sinalização do Ministério da Educação (MEC) de restringir licenciaturas totalmente a distância demonstra que o próprio governo reconhece a gravidade da situação. Ainda assim, reverter esse quadro exigirá mais do que ajustes regulatórios pontuais. Será necessário reconstruir uma política nacional de valorização docente baseada na expansão das universidades públicas, no fortalecimento dos estágios supervisionados, na formação presencial consistente e em condições dignas de trabalho para os futuros educadores.

A crise revelada pelos dados do Enade expõe muito mais do que um problema educacional. Ela revela um modelo de país que converteu a formação de professores — uma das funções sociais mais estratégicas para qualquer democracia — em um mercado de diplomas de baixo custo e qualidade duvidosa. Se o Brasil deseja efetivamente melhorar sua educação básica, precisará começar pelo princípio mais elementar: professores não podem ser formados sob a lógica da precarização.

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