Enquanto a possibilidade de um novo ciclo extremo do El Niño ameaça aprofundar desastres sociais e ambientais, o sistema político brasileiro acelera o desmonte das proteções ambientais e reforça um modelo econômico baseado na superexploração da natureza
O mundo se encontra, neste momento, à espera da definição da dimensão que o próximo ciclo do El Niño terá sobre o clima de grande parte do planeta. A dúvida já não é mais se haverá ou não um novo episódio do fenômeno, mas sim qual será sua intensidade. Entre climatólogos e analistas do sistema climático global, cresce a preocupação com a possibilidade de ocorrência de um evento extremo, apelidado informalmente de “El Niño Godzilla”, em referência aos episódios excepcionalmente intensos registrados em 1982-1983 e 1997-1998, que produziram impactos devastadores em diferentes continentes.
Para quem não acompanha os estudos sobre variabilidade climática, basta compreender que um El Niño extremo significa a combinação simultânea de eventos severos de chuva e seca. Enquanto algumas regiões poderão enfrentar enchentes catastróficas, outras sofrerão com estiagens prolongadas, colapso hídrico, perdas agrícolas e ondas de calor intensas. Não se trata apenas de um problema meteorológico. A experiência histórica demonstra que eventos fortes de El Niño tendem a desencadear crises sociais, econômicas e ambientais de larga escala, afetando a produção de alimentos, a geração de energia, a infraestrutura urbana, a saúde pública e a estabilidade política.
Mesmo que o evento previsto para 2026-2027 não alcance a magnitude de um “Godzilla”, sua simples ocorrência já será suficiente para ampliar drasticamente a vulnerabilidade de países periféricos e dependentes de exportações primárias, como o Brasil. Em função de suas dimensões continentais e de sua posição geográfica, o território brasileiro costuma experimentar de forma particularmente aguda os extremos associados ao aquecimento anômalo das águas do Pacífico Equatorial. Historicamente, episódios fortes de El Niño estão associados a chuvas acima da média no Sul do país — especialmente no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina — e a secas severas no Nordeste, na Amazônia e em partes do Centro-Oeste e Sudeste.
Os efeitos recentes ajudam a dimensionar o problema. As enchentes ocorridas no Rio Grande do Sul em 2024 produziram centenas de mortes, deslocaram mais de meio milhão de pessoas e causaram prejuízos econômicos bilionários. Ao mesmo tempo, a Amazônia enfrentou secas históricas em 2023 e 2024, com rios atingindo níveis mínimos inéditos, comprometendo o abastecimento, a navegação e a segurança alimentar de milhares de comunidades. O Nordeste, por sua vez, segue convivendo com ciclos cada vez mais prolongados de estiagem e desertificação. Não há, salvo entre negacionistas climáticos ou charlatães travestidos de especialistas, qualquer base científica séria para afirmar que o Brasil atravessará o final de 2026 e o início de 2027 sem enfrentar graves perturbações socioambientais.
O mais alarmante é que esse cenário se desenrola no exato momento em que o sistema político brasileiro demonstra enorme incapacidade — e, em muitos casos, indisposição — para enfrentar a crise climática que se aproxima. Enquanto sucessivos escândalos financeiros e institucionais monopolizam a atenção pública, o Congresso Nacional, sob forte influência da bancada ruralista e de interesses minerários, avança na aprovação de uma verdadeira pauta de desmonte ambiental. Entre os temas em discussão estão a flexibilização do licenciamento ambiental, a redução de áreas protegidas, o enfraquecimento de órgãos de fiscalização e a ampliação de mecanismos que favorecem o desmatamento e a expansão predatória da fronteira agromineral.
Parte dessa ofensiva decorre da percepção, entre setores do establishment político, de que o atual ciclo de poder pode estar entrando em uma fase de desgaste acelerado. Nesse contexto, amplia-se a pressão para consolidar mudanças legislativas que favoreçam os interesses de grandes corporações ligadas ao agronegócio, à mineração e à exportação de commodities. Essas empresas operam segundo uma lógica estritamente financeira e de curto prazo: maximizar lucros, reduzir custos regulatórios e ampliar o acesso a recursos naturais, independentemente dos impactos sociais e ambientais produzidos. O problema é que países periféricos como o Brasil acabam convertidos em plataformas de extração intensiva de riqueza natural, aprofundando padrões históricos de dependência e destruição ecológica.
O governo Lula, apesar do discurso internacional em defesa da sustentabilidade e da proteção da Amazônia, também mantém fortes vínculos com esse modelo de desenvolvimento baseado na expansão de commodities agrícolas, minerais e energéticas. Há uma evidente contradição entre a retórica ambiental apresentada em fóruns globais e a continuidade de projetos de infraestrutura, exploração mineral, expansão do agronegócio e flexibilização de controles ambientais em regiões estratégicas, especialmente na Amazônia e no Cerrado. Isso não significa ignorar diferenças reais entre o campo democrático e a extrema direita, mas reconhecer que existe uma convergência estrutural em torno de um modelo econômico profundamente dependente da superexploração da natureza.
É justamente nesse quadro de degradação progressiva das proteções ambientais e de ausência de planejamento climático consistente que o Brasil se aproxima de um possível novo ciclo extremo de El Niño. O país entra em uma fase potencialmente crítica sem políticas robustas de adaptação climática, sem sistemas adequados de prevenção de desastres e sem investimentos compatíveis na proteção de populações vulneráveis. A combinação entre crise climática, fragilidade institucional e avanço do extrativismo predatório cria condições para uma deterioração acelerada das condições de vida de amplos setores da população.
A encruzilhada histórica que se coloca para o Brasil — e para grande parte do Sul Global — é, portanto, profunda. De um lado, consolida-se um modelo econômico baseado na exportação intensiva de recursos naturais, na flexibilização ambiental e na financeirização da natureza. De outro, cresce a evidência de que esse mesmo modelo amplia vulnerabilidades sociais e climáticas justamente no momento em que os eventos extremos tendem a se intensificar globalmente. O desafio central deixa de ser apenas ambiental: trata-se de decidir se sociedades periféricas continuarão subordinadas a uma lógica de saque ecológico e concentração de riqueza ou se conseguirão construir formas de organização política e econômica capazes de priorizar proteção social, soberania ambiental e adaptação coletiva diante do colapso climático em curso.
