Novo relatório do Oakland Institute revela que inteligência artificial, indústria militar e grandes corporações impulsionam a nova onda extrativista mundial
Um novo relatório do Oakland Institute desmonta uma das narrativas mais repetidas nos últimos anos: a de que a expansão acelerada da mineração de minerais críticos ocorre principalmente para viabilizar a transição energética. O estudo “RUSH: Global Scramble for Minerals Wages War on People and Planet” argumenta que essa explicação se tornou insuficiente e, em muitos casos, serve para ocultar os verdadeiros motores da atual corrida global por cobre, lítio, níquel, cobalto e terras raras. Segundo os autores, a expansão da inteligência artificial, dos data centers, da indústria militar e das disputas geopolíticas entre Estados Unidos e China passou a exercer um papel decisivo na demanda por esses recursos.
O tema foi analisado em um artigo publicado por Chris Lang na newsletter REDD-Monitor (Substack), que apresenta uma excelente síntese das principais conclusões do relatório e as insere no contexto mais amplo da economia política contemporânea da mineração. Lang chama atenção para um dado particularmente revelador: mais de 70% da demanda atual por minerais críticos não está vinculada diretamente à transição energética, mas sim a setores como indústria automotiva convencional, comunicações, aeroespacial, tecnologia digital, inteligência artificial e complexo militar-industrial.
Essa constatação possui enorme relevância política. Durante anos, governos, organismos multilaterais e empresas mineradoras justificaram a abertura de centenas de novas minas com o argumento de que o combate às mudanças climáticas exigiria uma expansão sem precedentes da oferta de minerais. O relatório do Oakland Institute mostra que essa narrativa omite deliberadamente a explosão da demanda proveniente da militarização crescente das relações internacionais e da corrida tecnológica associada à inteligência artificial.
O documento identifica um processo de convergência entre gigantes da tecnologia, empresas de defesa, fundos de investimento e governos nacionais interessados em assegurar cadeias de suprimento consideradas estratégicas. Empresas como KoBold Metals, financiada por Bill Gates e outros investidores do setor tecnológico, aparecem como exemplos dessa nova geração de companhias que utilizam inteligência artificial para localizar jazidas minerais ao mesmo tempo em que buscam atender às necessidades futuras dos próprios data centers, da computação em larga escala e da indústria bélica.
Esse aspecto merece atenção especial no Brasil. Nos últimos meses, tenho chamado atenção para a rápida expansão dos projetos de data centers no país e para a ausência de um debate público consistente sobre seus impactos territoriais. A instalação dessas infraestruturas costuma ser apresentada como símbolo da economia digital, da inovação tecnológica e da modernização produtiva. No entanto, raramente se discute que toda essa infraestrutura depende de uma cadeia global extremamente intensiva em mineração, consumo de energia, uso de água e produção de resíduos eletrônicos.
A relação entre data centers e mineração crítica torna-se ainda mais evidente quando observamos o crescimento explosivo da inteligência artificial generativa. Cada nova geração de chips, servidores e equipamentos exige volumes crescentes de cobre, lítio, cobalto, níquel e terras raras. Dessa forma, a expansão da infraestrutura digital produz uma pressão indireta, mas extremamente poderosa, sobre territórios minerários localizados principalmente na América Latina, na África e em partes da Ásia.
Outro mérito importante do relatório consiste em recolocar a questão geopolítica no centro da discussão. A disputa entre Estados Unidos e China pelo controle das cadeias globais de minerais críticos passou a influenciar acordos internacionais, políticas de financiamento, estratégias militares e iniciativas diplomáticas. Em vez de representar apenas uma questão ambiental ou econômica, os minerais críticos tornaram-se elementos centrais da segurança nacional das grandes potências.
Enquanto isso, os custos sociais continuam recaindo sobre populações indígenas, comunidades tradicionais, agricultores familiares e trabalhadores da mineração. O relatório alerta que a abertura acelerada de centenas de novas minas tende a ampliar conflitos fundiários, deslocamentos compulsórios, contaminação por rejeitos tóxicos, perda de biodiversidade e destruição de modos de vida em uma escala ainda maior do que aquela observada nas últimas décadas.
Esse diagnóstico dialoga diretamente com inúmeros conflitos que já conhecemos no Brasil. A expansão da mineração na Amazônia, o avanço sobre terras indígenas, a crescente pressão sobre aquíferos e a multiplicação de grandes projetos de infraestrutura revelam que o país ocupa posição estratégica nessa nova divisão internacional dos recursos naturais. Caso o governo brasileiro continue tratando a mineração apenas como uma oportunidade econômica, sem fortalecer os mecanismos de controle ambiental, consulta às populações afetadas e planejamento territorial, o país poderá aprofundar um modelo primário-exportador baseado na intensificação do extrativismo e na exportação de impactos ambientais.
A principal contribuição do Oakland Institute talvez seja justamente desfazer a falsa oposição entre desenvolvimento econômico e proteção ambiental. O problema não reside simplesmente na extração de minerais necessários à descarbonização, mas no fato de que a atual corrida mineral atende, em grande medida, aos interesses da militarização global, da financeirização da economia e da expansão acelerada da inteligência artificial corporativa. Sob esse prisma, a chamada “transição verde” deixa de ser o principal motor do processo e passa a funcionar como uma narrativa legitimadora de um novo ciclo de acumulação baseado na intensificação do extrativismo.
Para países como o Brasil, a mensagem é clara. Não basta discutir quantas minas serão abertas ou quanto investimento estrangeiro será atraído. É indispensável perguntar quem controlará esses recursos, quem capturará seus benefícios econômicos e, sobretudo, quem suportará os custos sociais e ambientais dessa nova corrida global pelos minerais críticos.
Para baixar o relatório “RUSH: Global Scramble for Minerals Wages War on People and Planet”, basta clicar [Aqui! ].
