As bruxas rondam Flávio Bolsonaro: Nossa Senhora Aparecida entra na campanha presidencial

O projeto contra o título da Padroeira não é de Flávio, mas seu autor virou assessor de Jair Bolsonaro, enquanto a aproximação da família com setores do evangelicalismo conservador ajuda a explicar por que essa velha história voltou para assombrar a campanha presidencial

A eleição presidencial ganhou nos últimos dias um componente religioso que talvez ninguém imaginasse capaz de produzir tamanho ruído: entrou no debate a antiga proposta de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil e as possíveis conexões políticas entre aquele episódio e o ambiente religioso que hoje cerca a candidatura de Flávio Bolsonaro. É importante começar estabelecendo que não existe projeto de autoria de Flávio Bolsonaro com esse objetivo, nem evidência disponível de que o candidato tenha assumido pessoalmente essa proposta. Mas, como diz a conhecida frase, “no creo en brujas, pero que las hay, las hay”, pois a inexistência dessa ligação direta não significa que as conexões políticas e religiosas existentes em torno dessa história devam simplesmente ser ignoradas.

O projeto existiu — mas não era de Flávio Bolsonaro

Em dezembro de 2007, o então deputado federal Professor Victorio Galli apresentou o PL 2.623/2007, propondo modificar a Lei 6.802/1980 para que Nossa Senhora Aparecida deixasse de ser denominada “Padroeira do Brasil” e passasse a ser definida como “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. O próprio Galli escreveu na justificativa que a alteração retiraria o título de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil, argumentando que o Estado brasileiro, por ser laico, não deveria possuir padroeiro. O projeto acabou rejeitado e arquivado em agosto de 2008.

Portanto, o projeto existiu, mas não era de Flávio, Jair ou Eduardo Bolsonaro, e esse ponto precisa ser estabelecido para que não se transforme uma conexão política posterior em falsa autoria. A história, entretanto, possui um epílogo que não pode simplesmente ser ignorado: Victorio Galli, pastor ligado à Assembleia de Deus e posteriormente integrante do PSL, aproximou-se do bolsonarismo e, em 2019, foi nomeado assessor especial da Presidência da República durante o governo Jair Bolsonaro. Não é correto transferir retroativamente para a família Bolsonaro a responsabilidade por um projeto apresentado por Galli doze anos antes dessa nomeação, mas tampouco seria razoável fingir que o autor daquela proposta permaneceu completamente estranho ao universo político construído posteriormente em torno do bolsonarismo.

Quando religião e projeto político começam a se misturar

Existe ainda outro elemento que ajuda a compreender por que uma história tão antiga voltou ao debate em 2026. Flávio Bolsonaro vem construindo publicamente sua candidatura com forte utilização de símbolos e linguagem religiosa, chegando a declarar que, se eleito, um de seus primeiros atos seria “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. Independentemente da intenção atribuída ao candidato, uma frase desse tipo adquire inevitável significado político quando pronunciada por alguém que pretende presidir um país constitucionalmente laico e caracterizado por enorme diversidade religiosa.

É nesse terreno que aparece a interpretação desenvolvida pelo pesquisador Fábio Py por meio do conceito de cristofascismo. Ao analisar a construção religiosa em torno de Flávio Bolsonaro, Py identifica uma narrativa baseada em “chamado”, “missão” e escolha divina, transportando categorias teológicas para o terreno da disputa política. Trata-se de uma categoria analítica utilizada pelo pesquisador, e não de uma caracterização consensual de Flávio Bolsonaro ou dos evangélicos brasileiros, mas ela oferece uma chave interpretativa importante para compreender a utilização crescente de uma gramática religiosa na disputa pelo poder.

Também são documentadas as aproximações de Flávio Bolsonaro com lideranças e grandes denominações evangélicas, entre elas figuras como André Valadão e Silas Malafaia, ainda que as relações com essas lideranças não sejam necessariamente lineares e tenham atravessado momentos de aproximação, tensão e recomposição. Nada disso demonstra que Flávio Bolsonaro pretenda retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil, mas ajuda a compreender por que essa questão encontra combustível político, especialmente quando religião e campanha eleitoral passam a compartilhar uma linguagem na qual as fronteiras entre fé, identidade religiosa e projeto de poder se tornam cada vez menos nítidas.

O paradoxo da padroeira

É justamente aqui que aparece a maior ironia dessa história, pois Flávio Bolsonaro chegou à disputa presidencial convivendo com controvérsias muito mais diretamente relacionadas à sua própria trajetória política. O antigo caso das chamadas “rachadinhas”, por exemplo, terminou sem processo criminal depois da anulação judicial de provas, embora tenha deixado questões que continuam sendo debatidas publicamente. Mais recentemente, seu nome voltou a aparecer associado a denúncias e investigações envolvendo corrupção, lavagem de dinheiro e relações políticas com personagens sob investigação, acusações que precisam ser tratadas como tais enquanto não houver decisões judiciais que estabeleçam responsabilidades.

Nesse contexto, seria politicamente curioso que uma candidatura capaz de atravessar denúncias de grande gravidade encontrasse uma dificuldade particularmente sensível em uma controvérsia essencialmente religiosa e simbólica. Isso ocorre porque símbolos religiosos operam em uma dimensão diferente daquela dos inquéritos, processos e investigações: eles mobilizam identidade, pertencimento e memória coletiva, e Nossa Senhora Aparecida ocupa um lugar especialmente poderoso nesse universo para milhões de brasileiros.

O episódio traz inevitavelmente à memória o famoso “chute na santa”, ocorrido em 1995, quando o ataque de um bispo da Igreja Universal a uma imagem de Nossa Senhora Aparecida provocou enorme reação social e colocou sob tensão as relações entre determinados segmentos evangélicos e católicos. Três décadas depois, ninguém chutou imagem alguma e não existe projeto de Flávio Bolsonaro retirando o título da padroeira, mas a memória histórica permanece disponível e pode ser reativada rapidamente quando aparecem elementos capazes de sugerir novamente um conflito entre determinados projetos religiosos e símbolos profundamente enraizados no catolicismo popular brasileiro.

Por isso, talvez a pergunta politicamente mais interessante não seja se Flávio Bolsonaro pretende retirar Nossa Senhora Aparecida do posto de Padroeira do Brasil, pois até agora as evidências disponíveis não sustentam essa afirmação. A questão mais reveladora está em compreender por que essa associação adquiriu plausibilidade política, já que ela não nasceu do nada: existe um projeto verdadeiro apresentado por um parlamentar evangélico que posteriormente trabalhou no governo Jair Bolsonaro; existe uma crescente associação política entre a família Bolsonaro e setores conservadores do evangelicalismo; e existe uma candidatura presidencial que incorporou explicitamente a linguagem religiosa à sua estratégia política.

É justamente nesse intervalo entre aquilo que não pode ser atribuído diretamente a Flávio Bolsonaro e as conexões políticas que efetivamente existem que está o aspecto mais interessante desta história. Se a controvérsia religiosa adquirir importância na campanha, haverá uma ironia difícil de ignorar: depois de atravessar denúncias de rachadinhas, suspeitas financeiras e outras controvérsias graves sem que nenhuma delas, isoladamente, tenha encerrado sua trajetória política, Flávio Bolsonaro poderá descobrir que a mistura entre religião e política também produz riscos inesperados para quem dela procura retirar dividendos eleitorais. Afinal, quando a religião é trazida para dentro da arena política, ninguém controla completamente quais símbolos, memórias e contradições serão despertados.

E talvez seja exatamente por isso que o velho ditado se encaixe tão bem neste episódio: no creo en brujas, pero que las hay, las hay.

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