Uma reportagem publicada nesta terça-feira (29) pelo Tempo Real RJ expõe uma contradição que deveria constranger os defensores da ideia de que um grande empreendimento, por si só, produz desenvolvimento: São João da Barra aparece com o terceiro maior PIB do estado do Rio de Janeiro, enquanto mais de 70% de sua população está inscrita no Cadastro Único. O número exige uma leitura cuidadosa: estar no CadÚnico não significa que todas essas pessoas vivam na pobreza ou recebam Bolsa Família. Ainda assim, o contraste entre a dimensão da economia municipal e a quantidade de moradores que recorrem ao cadastro social é eloquente.
O PIB per capita de São João da Barra chegou a R$ 382.417,42 em 2023, segundo o IBGE. Mas essa cifra resulta da divisão de tudo o que é produzido no município pelo número de habitantes; não representa a renda recebida por cada morador. No caso de uma economia marcada por grandes operações portuárias, energéticas e petrolíferas, confundir as duas coisas é especialmente conveniente para quem prefere celebrar indicadores a examinar a distribuição da riqueza.
O Porto do Açu ajuda a explicar essa distância entre produção e condições de vida. A Prumo, responsável pelo desenvolvimento do complexo, é controlada pela EIG Global Energy Partners, gestora internacional de investimentos em energia e infraestrutura. A própria empresa identifica a EIG como sua controladora. Assim, decisões centrais sobre o uso de uma extensa área do território sanjoanense estão ligadas a uma estratégia de valorização de ativos que ultrapassa, em muito, as necessidades do município.
Chamar o Porto do Açu de enclave de recursos é uma interpretação política e territorial dessa estrutura. Terra, acesso marítimo, infraestrutura, energia e água são organizados para atender cadeias de negócios de grande escala. O complexo movimenta atividades que entram na contabilidade local, mas sua presença não garante, automaticamente, renda bem distribuída, serviços públicos proporcionais ou poder de decisão para as comunidades vizinhas. O dado trazido pelo Tempo Real RJ é um motivo concreto para cobrar essa prestação de contas.
O peso das estatais no negócio privado
Há ainda uma ironia pouco discutida: a consolidação desse empreendimento sob controle privado internacional conta com a participação de empresas estatais. A SPIC Brasil, ligada à estatal chinesa State Power Investment Corporation, adquiriu 33% dos projetos termelétricos GNA I e GNA II. No mesmo anúncio, a Prumo informou que a GNA II havia firmado financiamento de US$ 737 milhões com o BNDES. São formas distintas de participação, mas ambas mostram que a expansão do complexo depende também de capital e capacidade institucional associados ao Estado. A SPIC é sócia dos projetos de geração de energia; isso não significa que controle o Porto do Açu.
O resultado é uma combinação que merece escrutínio público: uma gestora internacional controla a empresa que desenvolve o porto; uma estatal chinesa participa de negócios estratégicos dentro dele; e financiamento público brasileiro integra a construção de parte dessa infraestrutura. Enquanto isso, os moradores de São João da Barra precisam demonstrar sua condição socioeconômica para acessar políticas sociais. A pergunta não é se o porto produz riqueza. Os números indicam que produz. A pergunta é quem a controla, quem se apropria dos seus resultados e quanto dela chega à população que vive no território.
A reportagem do Tempo Real RJ oferece um ponto de partida para essa discussão. Se o PIB bilionário continuar sendo apresentado como prova suficiente de sucesso, o desenvolvimento de São João da Barra permanecerá preso à fotografia tirada do lado de dentro da cerca. Do lado de fora, vivem as pessoas que também deveriam aparecer no balanço.
