Sem qualquer perspectiva de novo PCV e recheada de penduricalhos, Uenf enfrenta cenário desafiador

Acabo de completar 27 anos de serviços na Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), mas informo que não há motivos para festa. É que olhando em retrospectiva, nunca vi a universidade de Darcy Ribeiro tão mal parada das pernas.  Para começo de conversa, continuamos sem qualquer perspectiva de que o novo (rapidamente envelhecido) Plano de Cargos e Vencimentos (PCV) aprovado pelo Conselho Universitário no final de 2020 finalmente saia da gaveta onde acumula pó no Palácio Guanabara e siga para análise da Assembleia Legislativa. Somando-se a isso, a quebra do compromisso assumido pelo governador Cláudio Castro de, pelo menos, repor as perdas inflacionárias, transforma a espera em uma espera de tortura medieval já que o ritmo da inflação (principalmente a dos alimentos) está claramente em ritmo acelerado. 

A reitoria da Uenf, comandada pela professora Rosana Rodrigues, vem mostrando duas faces em relação à crise salarial que assola a instituição. A primeira é de não fazer absolutamente nada de prático para descongelar o processo de tramitação do PCV dentro do governo. Afora, alguns momentos em que a situação do PCV é trazida à tona, geralmente por alguma ação dos sindicatos de professores e servidores técnicos, o que predomina é o que se pode chamar de imobilismo praticante. Em outras palavras, nada é feito. A outra face da postura institucional é a criação de uma série de auxílios que têm o efeito de amenizar mais as consciências do que o déficit salarial. Para piorar, há casos, como o descrito pelo professor Carlos Eduardo Rezende aqui mesmo neste blog, no qual a distribuição dos benefícios é feita de forma desigual, e sem qualquer garantia de sustentabilidade até para quem é aquinhoado com a concessão.

O resultado disso é que depois de que quase 3 décadas dentro da Uenf, nunca percebi um ambiente de tamanho desencanto com o estar na e viver na Uenf.  Me arrisco a dizer que sequer na crise salarial de 2017, o ambiente esteve tão desanimado. Para uma instituição universitária, esse é o pior dos mundos, pois a adesão à causa, por assim dizer, é um elemento fundamental para o exercício da criatividade que impulsiona a produção de pesquisas de impacto.

Uma consequência objetiva da corrosão salarial é que se torna mais difícil realizar o processo de interiorização de quadros altamente preparados. É que a Uenf só foi capaz de se instalar em Campos dos Goytacazes com um corpo docente formado exclusivamente por doutores em regime de dedicação exclusiva porque pagava excelentes salários.  É que apesar das transformações ocorridas no município nos ultimos 31 anos, a ideia de sair de grandes centros para atuar em uma instituição com salários defasados não é muito atrativa se não houver o tipo de incentivo que só bons salários podem dar. Com isso, a Uenf só vem conseguindo atrair seus próprios egressos para os poucos concursos que consegue realizar, fato que contribui para que não haja a devida renovação de ideias e práticas. Como em ciência, a renovação de ideias e práticas é fundamental, o resultado acaba sendo uma combinação de perda de dinamismo e engessamento que gera a perpetuação de atos rotineiros em vez de inovação.

Para piorar o que já é ruim, vivemos um contexto de financiamento é particularmente ruim, visto que o governo federal fez uma opção por uma forma de controle fiscal em que tudo, inclusive investimento em ciência. é visto não como oportunidade, mas como custo.  Com isso, o próprio lugar das universidades, a Uenf incluída, fica secundarizado em face dessa orientação, com uma perda de visão de futuro acerca do papel que o desenvolvimento de um sistema nacional de ciência e tecnologia pode significar para a posição do Brasil no cenário econômico global.

Alguém poderia me perguntar se existe alguma saída para um enrosco desse tamanho. Eu diria que vivemos uma situação complexa e que exige atitudes corajosas e firmes em defesa da existência das universidades públicas. Mas primeiro é preciso reconhecer que não será com meros jogos de cena que vamos dar as respostas necessárias a uma situação tão desafiadora.  Tampouco será com medidas paliativas que criam mais desigualdade do que oportunidades. Desta forma, como sou brasileiro e não desisto nunca, me parece que é preciso adotar a concepção que não existem momentos difíceis que não possam ser transformados em oportunidades. E que siga o périplo, mas sem ilusões de que penduricalhos oferecem algum tipo de solução.

Crise climática: Temperaturas no pólo norte estão 20°C acima da média e além do ponto de derretimento do gelo

Cientistas dizem que temperaturas amenas incomuns estão relacionadas ao sistema de baixa pressão sobre a Islândia, direcionando um forte fluxo de ar quente em direção ao pólo norte

Cientistas dizem que esperam que o Oceano Ártico perca a cobertura de gelo marinho no verão pela primeira vez nas próximas duas décadas. Fotografia: Jose Luis Stephens/Alamy

Por Ajit Niranjan para o “The Guardian” 

As temperaturas no polo norte subiram mais de 20°C acima da média no domingo, cruzando o limite para o derretimento do gelo.

As temperaturas ao norte de Svalbard, na Noruega, já haviam subido para 18°C ​​mais quentes do que a média de 1991–2020 no sábado, de acordo com modelos de agências meteorológicas na Europa e nos EUA, com temperaturas reais próximas ao ponto de derretimento do gelo de 0°C. No domingo, a anomalia de temperatura havia subido para mais de 20°C.

“Este foi um evento de aquecimento de inverno muito extremo”, disse Mika Rantanen, cientista do Instituto Meteorológico Finlandês. “Provavelmente não o mais extremo já observado, mas ainda no limite superior do que pode acontecer no Ártico .”

A queima de combustíveis fósseis aqueceu o planeta em cerca de 1,3 °C desde os tempos pré-industriais, mas os polos estão esquentando muito mais rápido à medida que o gelo marinho reflexivo derrete. O aumento nas temperaturas médias levou a um aumento nos verões extremamente quentes e invernos perturbadoramente amenos.

Julien Nicolas, cientista do Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus da UE, disse que as temperaturas anormalmente amenas nas profundezas do inverno polar estavam ligadas a um sistema profundo de baixa pressão sobre a Islândia, que estava direcionando um forte fluxo de ar quente em direção ao polo norte.

Mares extremamente quentes no Atlântico nordeste estão intensificando o aquecimento causado pelo vento, ele acrescentou.

“Esse tipo de evento é relativamente raro, mas não somos capazes de avaliar sua frequência sem uma análise mais aprofundada”, disse Nicolas. “Estamos cientes de que um evento semelhante ocorreu em fevereiro de 2018.”

Os dados do Copernicus mostraram que as temperaturas médias diárias estavam mais de 20°C acima da média perto do polo norte no domingo, com temperaturas absolutas acima de -1°C até 87°N.

As descobertas foram confirmadas por uma bóia de neve do Ártico, que registrou temperaturas absolutas de 0,5 °C no domingo.

Cientistas do clima estimam temperaturas globais por meio da reanálise de bilhões de medições meteorológicas de satélites, navios, aeronaves e estações meteorológicas. Mas em regiões remotas como o Ártico central, onde há menos locais de observação direta, era “difícil estimar a anomalia exata da temperatura”, disse Rantanen.

“Todos os modelos que vi indicam uma anomalia de temperatura acima de 20°C”, ele disse. “Eu diria que 20-30°C é a ordem de magnitude.”

O Ártico aqueceu quase quatro vezes mais rápido que a média global desde 1979, e o calor extremo se tornou mais intenso e comum.

Temperaturas acima do ponto de congelamento são particularmente preocupantes porque derretem o gelo, disse Dirk Notz, um cientista climático da Universidade de Hamburgo. “Não há como negociar com esse fato, e não há como negociar com o fato de que o gelo desaparecerá cada vez mais enquanto as temperaturas continuarem subindo.”

Um estudo coautorado por Notz em 2023 descobriu que o gelo marinho do Ártico no verão seria perdido mesmo com cortes drásticos na poluição que aquece o planeta.

“Esperamos que o Oceano Ártico perca sua cobertura de gelo marinho no verão pela primeira vez nas próximas duas décadas”, disse Notz. “Esta provavelmente será a primeira paisagem que desaparecerá por causa das atividades humanas, indicando mais uma vez o quão poderosos nós, humanos, nos tornamos em moldar a face do nosso planeta.”


Fonte: The Guardian

Conheça e use o verificador de revistas científicas sequestradas

Por Retraction Watch 

Bem-vindo ao Retraction Watch Hijacked Journal Checker .

Periódicos sequestrados imitam periódicos legítimos ao adotar seus títulos, ISSNs e outros metadados . Normalmente, periódicos sequestrados espelham periódicos legítimos sem permissão do periódico original; em raras ocasiões, no entanto, os editores compram direitos de um periódico legítimo, mas continuam a publicação sob protocolos de publicação consideravelmente menos rigorosos e sem informar claramente ao leitor a mudança na propriedade ou nos padrões de publicação (às vezes conhecidos como periódicos “clonados”). Acadêmicos podem ser enganados para publicar em periódicos sequestrados – muitos dos quais exigem taxas – por ofertas de publicação rápida e indexação em bancos de dados como o Scopus; ser indexado em tais bancos de dados é visto por muitas universidades e governos como uma marca de legitimidade.

Rastrear esses periódicos não é tarefa fácil, mas saber quais periódicos podem ter sido sequestrados é vital para o mundo da integridade editorial. Anna Abalkina se envolveu no processo quando ela e seus colegas, investigando alegações de plágio, encontraram vários títulos, incluindo o Journal of Talent Development and Excellence , que aumentou drasticamente sua indexação de artigos no Scopus em 2020, e Waffen-und Kostümkunde , um periódico que citou um artigo sobre psicologia absolutamente sem relação com a especialização em armas e trajes do periódico. Abalkina então começou a analisar esses arquivos de periódicos e encontrou sobreposições com outros periódicos aparentemente sequestrados, dedicando enormes períodos de tempo localizando e verificando a validade de periódicos suspeitos de sequestro ou de terem sido sequestrados.

Em parceria com a Retraction Watch, Anna Abalkina criou o Retraction Watch Hijacked Journal Checker . Este recurso é dinâmico; mais periódicos serão adicionados conforme seu status de hijacked for descoberto. Isso significa que ele requer recursos contínuos, e esperamos que você considere apoiar o esforço fazendo uma doação dedutível de impostos dos EUA usando o Square ou enviando um cheque emitido para o The Center For Scientific Integrity, com “Checker” no campo de memorando, e enviado para 121 W. 36th St., Suite 209, New York, NY 10018.

Para mais informações sobre como o Checker foi criado, consulte nossa página Methods . Tem um título para consideração? Use este formulário .


Fonte: Retraction Watch

A unanimidade burra em torno de Rodrigo Bacellar fala mais sobre quem o elegeu do que sobre ele mesmo

Aliado de Jair Bolsonaro e investigado pelo TRE, Rodrigo Bacellar foi reeleito para presidir a Alerj por unanimidade. Na foto, Bacellar segura medalha ‘imbrochável’ ao lado do ex-presidente

O deputado estadual Rodrigo Bacellar (União Brasil) acaba de conseguir o feito inédito de ter sido reeleito presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) por unanimidade.  Esse é um fato que nunca ocorreu na história da Alerj, e que dificilmente se repetirá: Bacellar recebeu todos os 70 votos possíveis para continuar no cargo!

A mim não me assombra o fato de que Bacellar ter sido reeleito e, tampouco, por unanimidade. Eu diria que essa votação inédita reflete muito bem o estado de coisas na política fluminense. Quem tiver um mínimo de curiosidade para analisar como as eleições proporcionais vem se dando no Rio de Janeiro saberá que tem algum tempo que determinadas candidaturas recebem votações expressivas, sem que isso reflita uma capacidade mínima do candidato de articular propostas ou, quiçá, um raciocínio inteiro.

Agora, há que se dizer que há algo muito esquisito na chamada esquerda parlamentar, incluindo aí o PSOL,  o spinoff do PT que em seu nascedouro insaiou os trejeitos da rebeldia original dos barbudos de São Bernado do Campo.  Eu não me surpreendo nem um pouco com o PT, pois a degeneração do pai (ou seria mãe?) do PSOL já está evidente há alguns anos. Mas do pessoal do PSOL, tenho que dizer queo partido envelheceu muito mais rápido do que o PT, parecendo até uma repetição da decadência do PSDB em relação ao PMDB.

Essa acomodação da esquerda parlamentar fluminense ao jogo/jogado é particularmente inquietante, na medida em que dada essa votação em Bacellar, as chances de uma candidatura para enfrentar a direita e a extrema-direita em 2026 se tornaram basicamente nulas.  Esse é o resultado de se juntar, usando um jargão familiar, no mangueirão com o resto da turma, incluindo a extrema-direita bolsonarista.

E aí quem sofrerá somos todos nós que gostaríamos de ver o Rio de Janeiro trilhando um caminho diferente do que se tem visto nas últimas décadas com governantes medíocres que conseguiram aniquilar com quaisquer possibilidades de um modelo de desenvolvimento social e economicamente mais justo.

Para terminar, uma observação recolhida de uma das tiradas do dramaturgo Nelson Rodrigues que dizia que “toda a unanimidade é burra. Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar”. Se ainda estivesse vivo, Nelson Rodrigues certamente nos diria que é preciso vencer unanimidades como a que foi criada em torno de Rodrigo Bacellar.

Contaminação por microplásticos é ampla! Estudo sugere que níveis de contaminação em cérebros humanos podem estar aumentando rapidamente

Pesquisa que analisou tecidos de autópsias entre 1997 e 2024 encontra tendência de aumento na contaminação

Close up de uma ponta de dedo coberta de microplásticos

Microplásticos foram encontrados no cérebro, fígado e rins. Fotografia: Alamy

Por Damian Carrington para o “The Guardian” 

O aumento exponencial da poluição por microplásticos nos últimos 50 anos pode estar refletido no aumento da contaminação no cérebro humano, de acordo com um novo estudo.

Eles encontraram uma tendência crescente de micro e nanoplásticos no tecido cerebral em dezenas de autópsias realizadas entre 1997 e 2024. Os pesquisadores também encontraram as pequenas partículas em amostras de fígado e rim.

O corpo humano é amplamente contaminado por microplásticos. Eles também foram encontrados no sangue , sêmen , leite materno , placentas e medula óssea . O impacto na saúde humana é amplamente desconhecido, mas eles foram associados a derrames e ataques cardíacos .

Os cientistas também descobriram que a concentração de microplásticos era cerca de seis vezes maior em amostras de cérebro de pessoas que tinham demência. No entanto, os danos que a demência causa no cérebro deveriam aumentar as concentrações, disseram os pesquisadores, o que significa que nenhuma ligação causal deve ser assumida.

“Dada a presença ambiental exponencialmente crescente de micro e nanoplásticos, esses dados exigem um esforço muito maior para entender se eles têm um papel em distúrbios neurológicos ou outros efeitos na saúde humana”, disseram os pesquisadores, que foram liderados pelo Prof. Matthew Campen da Universidade do Novo México, nos EUA.

Os microplásticos são decompostos a partir de resíduos plásticos e poluíram o planeta inteiro, do cume do Monte Everest aos oceanos mais profundos . As pessoas consomem as minúsculas partículas por meio de alimentos , água e respirando-as .

Um estudo publicado na quinta-feira descobriu que a poluição plástica minúscula é significativamente maior em placentas de partos prematuros . Outra análise recente descobriu que microplásticos podem bloquear vasos sanguíneos nos cérebros de camundongos, causando danos neurológicos, mas observou que os capilares humanos são muito maiores.

A nova pesquisa, publicada no periódico Nature Medicine , analisou amostras de tecidos cerebrais, hepáticos e renais de 28 pessoas que morreram em 2016 e 24 que morreram em 2024 no Novo México. A concentração de microplásticos era muito maior no tecido cerebral. Também era maior em amostras de cérebro e fígado de 2024, em comparação com aquelas de 2016.

Os cientistas estenderam a análise com amostras de tecido cerebral de pessoas que morreram entre 1997 e 2013 na costa leste dos EUA. Os dados mostraram uma tendência crescente na contaminação por microplásticos de cérebros de 1997 a 2024.

O plástico mais comum encontrado foi o polietileno, que é usado em sacolas plásticas e embalagens de alimentos e bebidas. Ele compôs 75% do plástico total em média. As partículas no cérebro eram principalmente fragmentos e flocos de plástico em nanoescala. As concentrações de plástico nos órgãos não foram influenciadas pela idade da pessoa na morte, ou pela causa da morte, seu sexo ou sua etnia.

Os cientistas observaram que apenas uma amostra de cada órgão foi analisada, o que significa que a variabilidade dentro dos órgãos permanece desconhecida, e que alguma variação nas amostras de cérebro pode ser devido a diferenças geográficas entre o Novo México e a costa leste dos EUA.

“Esses resultados destacam uma necessidade crítica de entender melhor as rotas de exposição, as vias de absorção e eliminação e as potenciais consequências para a saúde dos plásticos nos tecidos humanos, particularmente no cérebro”, disseram os pesquisadores.

A Prof. Tamara Galloway da Universidade de Exeter no Reino Unido, que não fazia parte da equipe do estudo, disse que o aumento de 50% nos níveis de microplásticos cerebrais nos últimos oito anos refletiu a crescente produção e uso de plásticos e foi significativo. “Isso sugere que se reduzíssemos a contaminação ambiental com microplásticos, os níveis de exposição humana também diminuiriam, oferecendo um forte incentivo para focar em inovações que reduzam a exposição”, disse Galloway.

O professor Oliver Jones, da Universidade RMIT, na Austrália, disse que a nova pesquisa era interessante, mas o baixo número de amostras e a dificuldade de analisar pequenas partículas de plástico sem contaminação significam que é preciso ter cuidado ao interpretar os resultados.


Fonte: The Guardian

Estudo encontra contaminação por microplásticos em 99% das amostras de frutos do mar

O  estudo revisto por pares detectou microplásticos em 180 de 182 amostras que incluíam cinco tipos de peixes e camarão rosa

O tipo mais comum de microplástico detectado foram fibras de roupas ou tecidos. Fotografia: GaiBru_Photo/Alamy  

Por Tom Perkins para o “The Guardian”

A contaminação por microplásticos é generalizada em frutos do mar coletados em um estudo recente, aumentando as evidências da onipresença dessas substâncias perigosas no sistema alimentar do país e representando uma ameaça crescente à saúde humana.

O estudo revisado por pares detectou microplásticos em 99%, ou 180 de 182, amostras de frutos do mar comprados na loja ou em um barco de pesca no Oregon. Os níveis mais altos foram encontrados em camarões.

Os pesquisadores também determinaram que o tipo mais comum de microplástico eram fibras de roupas ou tecidos, que representavam mais de 80% da substância detectada.

As descobertas destacam um problema sério com o uso de plástico em sua escala atual, disse Elise Granek, pesquisadora de microplásticos da Universidade Estadual de Portland e coautora do estudo.

“Enquanto usarmos o plástico como um componente importante em nossa vida diária e de forma generalizada, também o veremos em nossos alimentos”, disse Granek.

Microplásticos foram detectados em amostras de água ao redor do mundo, e acredita-se que os alimentos sejam a principal via de exposição: estudos recentes os encontraram em todas as carnes e produtos hortifrutigranjeiros testados.

A poluição por microplásticos pode conter qualquer número de 16.000 produtos químicos plásticos e, frequentemente, está ligada a compostos altamente tóxicos – como PFAS, bisfenol e ftalatos – associados ao câncer, neurotoxicidade, distúrbios hormonais ou toxicidade no desenvolvimento.

A substância pode atravessar as barreiras cerebral e placentária , e aqueles que a têm no tecido cardíaco têm duas vezes mais chances de sofrer um ataque cardíaco ou derrame nos próximos anos.

O estudo coletou amostras de cinco tipos de peixes de barbatana e camarões rosa, e descobriu que os microplásticos podem viajar das guelras ou bocas para a carne que os humanos comem. Granek disse que os pesquisadores suspeitam que os altos níveis em camarões e arenques provavelmente se devem ao fato de eles se alimentarem de plâncton na superfície da água.

O plâncton frequentemente se acumula em frentes oceânicas e se move nas marés da mesma forma que os microplásticos, disse Granek. Lampreias jovens que se alimentam ao redor do leito do rio também mostram níveis mais altos, mas os níveis caíram em lampreias mais velhas que se movem para o oceano.

O salmão Chinook apresentou os níveis mais baixos, embora não tenha sido uma comparação totalmente equivalente — os pesquisadores analisaram apenas os filés, que são em grande parte o que os humanos comem, e verificaram todo o corpo dos peixes menores e camarões.

Os níveis de poluentes são frequentemente mais altos na cadeia alimentar porque animais maiores comem animais menores, e as substâncias se acumulam, um processo chamado biomagnificação. Isso não foi observado aqui, provavelmente porque os peixes menores se alimentam em áreas onde os microplásticos se concentram.

Os níveis de microplástico foram maiores no lingcod comprado na loja, provavelmente porque ele é mais processado do que aquele comprado em um barco. Os níveis foram ligeiramente maiores, mas não estatisticamente significativos, no camarão processado em comparação ao comprado em um barco.

Os autores não recomendam evitar frutos do mar porque microplásticos foram amplamente encontrados em carnes e produtos, então mudar os padrões alimentares não ajudaria. Eles descobriram que enxaguar os frutos do mar poderia reduzir os níveis.

Granek disse que, em nível individual, as máquinas de lavar são uma grande fonte de poluição, então as pessoas podem lavar menos roupas, lavar com água fria e tentar evitar tecidos sintéticos e fast fashion.

Em última análise, a solução precisa vir em nível político, o uso de plástico precisa ser reduzido e filtros que capturem microplásticos devem ser obrigatórios nas máquinas de lavar.

Um projeto de lei para exigir que isso fosse aprovado pela legislatura da Califórnia em 2023, mas foi vetado pelo governador do estado, Gavin Newsom, o que os críticos disseram ter resultado da pressão da indústria. Um projeto de lei semelhante foi introduzido no Oregon.

“Se não quisermos microplásticos em nossos alimentos, teremos que fazer mudanças em nossas práticas cotidianas”, disse Granek.


Fonte: The Guardian

Agrotóxico e incidência de câncer de mama: estudo feito no Paraná ganha projeção internacional

Pesquisa coordenada pela professora Carolina Panis, na região de Francisco Beltrão, foi publicada na prestigiada revista The Lancet 

Uma professora da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste) ganhou projeção internacional por ser a primeira cientista do mundo a evidenciar a relação entre agrotóxicos e câncer de mama.

 A pesquisa, de autoria da professora doutora Ana Carolina Panis, foi tema de um editorial da prestigiada revista The Lancet, periódico científico da área médica de respaldo internacional.

Bioquímica, Carolina é docente do curso de Medicina do campus da Unioeste em Francisco Beltrão. Especializada em pesquisa na área do câncer, quando chegou ao Sudoeste do Paraná, região marcada pelo agronegócio, ela entrou em contato com mulheres agricultoras e iniciou o estudo, que hoje se tornou referência.

Professora Ana Carolina

Docente tem formação em bioquímica e pesquisa o câncer. Foto: Divulgação

A pesquisa é resultado da parceria entre a Unioeste e o Departamento de Saúde Global da Universidade de Harvard em Boston, nos Estados Unidos, onde a docente é pesquisadora visitante desde 2019.

Uma história que definiu uma carreira

O estudo teve início em 2014, quando Carolina começou a trabalhar na Unioeste. Ela já desenvolvia pesquisas relacionadas ao câncer em áreas urbanas, mas em Francisco Beltrão observou que havia um componente diferente que era o agrotóxico.

A professora começou a conversar com as pacientes e notou que, de dez mulheres portadoras de câncer de mama, sete eram agricultoras. “Essa história definiu minha carreira”, diz.

alunos unioeste

Estudantes também integram grupo de pesquisa. Foto: Divulgação Unioeste

Após a constatação, Carolina recorreu à literatura científica em busca de artigos que trouxessem informações comprovando ou relacionando o câncer de mama e os agrotóxicos, mas para a surpresa dela nada foi encontrado.

Botinas e pés na estrada

A partir da constatação feita, a professora pegou as botinas e saiu em busca de mulheres nas propriedades rurais. Ela ia às casas para tomar café com elas e conversar. Assim, observou que as mulheres eram agricultoras, porém não aplicavam agrotóxico nas lavouras, tarefa restrita aos filhos e maridos.

Professora Ana Carolina Panis

Estudo demonstrou o vínculo entre o agrotóxico e o câncer de mama. Foto: Divulgação Unioeste

Durante as visitas, a professora teve a oportunidade de ver os maridos chegarem da lavoura e colocarem no tanque a roupa usada para aplicar agrotóxico. E caberia à esposa lavar. Elas lavavam, sem luvas, camisas e calças contaminadas.

Os agricultores usavam EPIs, que são equipamentos de proteção, contudo isso não impedia a contaminação das roupas internas. Ao notar o contato direto das esposas com as roupas, a professora decidiu coletar urina e sangue delas. Foi aí que constatou a presença de glifosato, atrazina e 2,4 D diclorofenoxiacético no organismo das mulheres.

No Sudoeste, o índice de câncer de mama, o que mais acomete as mulheres, é 40% maior que no restante do país.

Mulheres expostas e não expostas ao agrotóxico

A partir da constatação, a cientista comparou em um grupo de mulheres portadoras de câncer de mama as que são expostas e não expostas ao agrotóxico.

Com isso, ela pôde confirmar que as agricultoras tinham um tipo de câncer de mama mais agressivo e maior risco de metástase, cuja consequência é menos chance de sobrevida.

“Nós temos uma função perante a sociedade e temos que pensar que alguém tem que trazer uma resposta”, frisa a pesquisadora.

O estudo envolveu dados de 758 mulheres de toda a Região Sudoeste do Paraná. As mulheres expostas aos agroquímicos são as agricultoras, e as não expostas, aquelas que vivem na área urbana, sem contato com as atividades do campo, ou seja, não têm histórico de exposição aos agrotóxicos, não manipulam, não lavam roupa e não vivem na área rural.

Elas são mães e têm uma enorme preocupação

As mulheres são mães e têm enorme preocupação em saber o que está acontecendo, diz Ana Carolina. Após verificar a relação entre o agrotóxico e o câncer de mama, teve início um trabalho de toxicovigilância e educação.

Assim, começaram a ser realizadas oficinas. Nesse trabalho foram colhidos mais relatos. Algumas mulheres disseram ter dores de cabeça, sentir forte cheiro e até vomitar quando os maridos aplicavam agrotóxicos na lavoura.

Com informações em mãos, os pesquisadores começaram a recomendar que as agricultoras usassem luvas de borracha, que custam R$ 3,80, para lavar as roupas. O próprio projeto de pesquisa passou a distribuir as luvas e óculos de proteção a partir de recursos do governo estadual e parceiros privados.

As mulheres também passaram a ser aconselhadas a procurar acompanhamento médico caso o exame de coleta de urina apontasse a presença de agrotóxico.

A professora diz que a pesquisa continua e na próxima década o objetivo é tentar estabelecer quais níveis e quais tipos de agrotóxicos têm relação com o câncer de mama.

O grupo de pesquisa envolve 32 alunos ligados à medicina – graduação, mestrado, doutorado e pós-doutorado. 

Reconhecimento Internacional

O trabalho recebeu menção no editorial da revista The Lancet em janeiro deste ano, após Ana Carolina e o grupo publicarem um artigo na revista Enviromental Science & Techonology, com o título Exposure to Pesticides and Breast Cancer in na Agricultural Region in Brazil (Exposição a Agrotóxicos e Câncer de Mama em Região Agrícola do Brasil).

Confira os artigos:

Pesticide exposure and increased risk of breast cancer for women in rural Brazil – The Lancet Oncology
https://www.thelancet.com/journals/lanonc/article/PIIS1470-2045(24)00726-5/abstract

Exposure to Pesticides and Breast Cancer in an Agricultural Region in Brazil | Environmental Science & Technology
https://pubs.acs.org/doi/10.1021/acs.est.3c08695


Fonte: H2FOZ

Exportações de soja e o nível de desmatamento nos diferentes biomas florestais brasileiros

As taxas de desmatamento e conversão associadas à expansão da produção de soja no Brasil aumentaram de acordo com os últimos dados da Trase para 2021–2022

Vista aérea do desmatamento da Amazônia no Brasil

Desmatamento na Amazônia. Imagem: Phototreat

Por Osvaldo Pereira e Paula Bernasconi para a “Trase”

O Brasil é o maior produtor e exportador de soja do mundo. Em 2023, produziu quase 152 milhões de toneladas de soja , das quais 127,3 milhões de toneladas foram exportadas como 80% de soja crua, 18% de torta de soja e 2% de óleo de soja. A soja foi a segunda maior exportação do Brasil, respondendo por 16% do total das exportações em 2023 e gerando uma receita anual de quase US$ 53 bilhões .

Desde 2019, o preço da soja aumentou devido à demanda por ração animal à base de soja da China e à guerra da Rússia na Ucrânia. Os preços da soja em 2024 se estabilizaram, mas permanecem altos, potencialmente incentivando mais desmatamento e conversão para expandir as plantações de soja.

Dados da Trase mostram que a quantidade de desmatamento e conversão ligada à produção de soja aumentou de 635.000 hectares (ha) em 2020 para 794.000 ha em 2022, enquanto a área total de soja plantada aumentou de 37,2 milhões de hectares (Mha) em 2020 para 41,2 Mha em 2022. Apesar desse aumento de 4 Mha na área total de plantações de soja (2020–2022), o Brasil viu uma redução de 14 milhões de toneladas na produção de soja entre 2021 e 2022. Esse declínio foi devido às secas causadas por La Niña na região sul do país .

A soja também pode ser um impulsionador indireto ao se expandir para pastagens de gado que foram o impulsionador original do desmatamento e conversão. Dos 39,8 Mha de soja plantados em 2023, 6,7% (2,6 Mha) eram pastagens em 2015 .

O Cerrado e os Pampas são focos ativos de desmatamento e conversão

As plantações de soja se expandiram mais no Cerrado e em 2022 foram associadas a 375.000 ha de desmatamento e conversão – uma área mais que o dobro do tamanho da cidade de São Paulo. Os Pampas também experimentaram altas taxas de conversão de vegetação natural para soja. Em 2022, 250.800 ha de soja foram colhidos em áreas recentemente desmatadas e convertidas nos Pampas.

Para efeito de comparação, a produção de soja na Amazônia em 2022 foi associada a 117.000 ha de desmatamento – muito menor do que nos biomas Cerrado e Pampas.

Embora apenas 6,3% do desmatamento de soja em 2022 tenha ocorrido na Mata Atlântica (50.000 ha), isso é particularmente preocupante, pois é ilegal desmatar florestas nativas da Atlântica desde 2006.

Observe que a versão mais recente do banco de dados MapBiomas usado pela Trase para calcular o desmatamento e a conversão nos Pampas, Pantanal, Caatinga e Mata Atlântica contabiliza com mais precisão a perda de outras terras arborizadas e pastagens naturais do que as versões anteriores, resultando em estimativas mais altas da área total de desmatamento e conversão de soja. Isso é particularmente significativo nos Pampas, para os quais o desmatamento e a conversão total para soja em 2008–2023 mudam de 363.800 ha para 508.800 ha. Para todo o Brasil, no mesmo período, a estimativa muda de 2,07 milhões de ha para 2,56 milhões de ha.

A regulamentação da UE sobre desmatamento cria desafios e oportunidades para produtores brasileiros de soja

O regulamento de desmatamento da UE (EUDR) entrou em vigor em 2023 com obrigações vinculativas a partir de 30 de dezembro de 2025. Ele exigirá due diligence obrigatória nas importações de certas commodities agrícolas, incluindo soja do Brasil, para evitar produtos cultivados em terras convertidas ou desmatadas após a data limite de 31 de dezembro de 2020. O regulamento estabelece um sistema de benchmarking para classificar países como de baixo, padrão ou alto risco, para facilitar processos simplificados de due diligence por operadores que compram de países de baixo risco e permitir que autoridades competentes efetivamente visem a fiscalização.

Dados da Trase mostram que em 2022, apenas 370 de um total de 2.525 municípios produtores de soja foram responsáveis ​​por 95% do desmatamento e conversão para soja no Brasil (entre 2017 e 2022). Esses municípios representaram 58% da produção de soja do Brasil em 2022 (70 milhões de toneladas) e 52% das exportações (51 milhões de toneladas). Dos 370 municípios, 123 estão localizados na região do Matopiba, um grande hotspot responsável por 38% do total do desmatamento e conversão para soja em 2022. No estado do Rio Grande do Sul (bioma Pampas), 75 municípios produtores de soja foram responsáveis ​​por 33% do total do desmatamento e conversão vinculados à commodity em 2022.

Isso significa que a maioria das exportações de soja em 2022 está associada a menos de 5% do desmatamento e conversão de soja do Brasil, destacando que os riscos de não conformidade com a EUDR estão concentrados em certas regiões. Isso demonstra o valor do sistema de benchmarking da EUDR na classificação do risco de regiões de produção subnacionais, particularmente em países grandes como o Brasil, onde o desmatamento está concentrado em regiões específicas. Da mesma forma, o uso da avaliação de risco subnacional por autoridades competentes para direcionar verificações pode concentrar a fiscalização onde ela é mais necessária.

Exposição ao desmatamento dos mercados de exportação

A China continua sendo o mercado mais exposto ao desmatamento por causa de suas importações de soja, seguida pelo mercado interno do Brasil e pelas importações da União Europeia (UE).

A capacidade da Trase de vincular todas as exportações brasileiras de soja aos municípios de produção com base em dados disponíveis publicamente é um desafio para o período de 2020-2022 devido principalmente à falta de informações nos dados comerciais e à falta de informações sobre a propriedade do silo e da unidade de esmagamento do comerciante. Como resultado, 15–18% da soja comercializada em 2020–2022 (aproximadamente 20 milhões de toneladas) não podem ser vinculadas a um município específico de produção de soja (município desconhecido). Para contabilizar isso, os dados da cadeia de suprimentos de soja brasileira da Trase agora incluem a exposição ao desmatamento de empresas comerciais e mercados associados ao seu fornecimento de municípios desconhecidos.

Para fazer isso, a Trase primeiro atribui a exposição ao desmatamento a empresas e mercados importadores de acordo com sua origem em municípios produtores de soja conhecidos com base no desmatamento de soja específico do município por tonelada. Em segundo lugar, o desmatamento de soja restante não contabilizado é alocado a empresas e fluxos comerciais de mercado de importação originários de municípios desconhecidos. Semelhante à primeira etapa, o desmatamento por tonelada é calculado dividindo-se o desmatamento de soja restante pela produção total originária de municípios desconhecidos e atribuído a empresas e mercados com base em seu volume comercializado originário de municípios desconhecidos. Isso evita que países importadores e comerciantes com um volume maior de soja de origem desconhecida pareçam ter uma exposição menor ao desmatamento. Também permite a alocação de todo o desmatamento de soja do Brasil para cadeias de suprimentos nacionais e internacionais.

Para alguns países importadores, há uma diferença significativa na quantidade de soja e desmatamento que pode ser vinculada a municípios produtores de soja específicos. Por exemplo, em 2022, 97% das importações de soja da China e 96% de sua exposição ao desmatamento associada poderiam ser vinculadas a municípios produtores de soja, enquanto para a UE, apenas 58% das importações e 55% da exposição ao desmatamento poderiam ser vinculadas. Dadas essas diferenças, é importante que os usuários entendam que os países ou empresas importadores com um grau maior de origem desconhecida terão uma proporção menor de sua estimativa de exposição ao desmatamento que é específica para seu padrão de origem, pois sua exposição ao desmatamento de origem desconhecida é o desmatamento médio por tonelada de todos os fluxos comerciais desconhecidos.

Comerciantes com maior exposição ao desmatamento e conversão de soja

Os grandes comerciantes estabelecidos – Bunge, COFCO e Cargill – são os mais expostos ao desmatamento e conversão em sua cadeia de fornecimento de soja, respondendo respectivamente por 77.700 ha (9,6%), 67.800 ha (9%) e 55.100 ha (8%) em 2022. Em 2020–2022, a exposição da Bunge e da Cargill permaneceu estável, enquanto a exposição da COFCO aumentou significativamente de 27.100 ha em 2020. Isso se deve ao fornecimento da COFCO dos Pampas e, conforme observado acima, à capacidade aprimorada do Mapbiomas de detectar a conversão de outras terras arborizadas e pastagens naturais.

A NovaAgri, empresa brasileira de agronegócio e subsidiária da Toyota Tsusho Corporation, foi a quarta comercializadora mais exposta ao desmatamento e conversão em 2022, apesar de ficar apenas em sétimo lugar nas exportações de soja.

Conforme discutido acima para mercados de exportação, os dados da cadeia de suprimentos de soja brasileira da Trase agora incluem exposição ao desmatamento para soja originária de regiões de produção desconhecidas. É importante que os usuários entendam as implicações disso ao interpretar os dados sobre exposição ao desmatamento de empresas comerciais.

Compromissos de desmatamento zero fora da Amazônia ficam aquém

Em 2022, 59 milhões de toneladas de soja (79% do volume total) foram comercializadas por empresas com compromisso de desmatamento zero (ZDC).

A Moratória da Soja na Amazônia, um compromisso voluntário assinado por mais de 25 empresas, é a ZDC mais eficaz do Brasil. Em 2022, 92% da soja da região (7 milhões de toneladas) foi adquirida por empresas signatárias. As áreas cobertas pela moratória têm taxas relativas de desmatamento direto para soja muito menores do que outras regiões de produção de soja. A intensidade de desmatamento da produção de soja na Amazônia é de 3,2 hectares por 1.000 toneladas em 2022 em áreas cobertas pela moratória, em comparação com 5 hectares por 1.000 toneladas para a produção não coberta por nenhuma ZDC. Isso mostra a importância da moratória na promoção da produção sustentável de soja na Amazônia e a necessidade de resistir às tentativas de enfraquecê-la .

Fora da Amazônia, 73% da produção total de soja (52 milhões de toneladas) foi comercializada por empresas com uma ZDC. Apesar dessa cobertura, o desmatamento e a conversão para soja continuam altos em biomas como Cerrado e Pampas, o que significa que as ZDCs das empresas parecem ser muito menos eficazes na prevenção do desmatamento.

Emissões de carbono do desmatamento e conversão da soja

O desmatamento e a conversão ligados à expansão da produção de soja em 2022 resultaram na liberação de 121 milhões de toneladas de CO₂ – 9% das emissões anuais totais de mudança no uso da terra do país . A soja substituiu três vezes mais vegetação nativa no Cerrado do que na Amazônia, mas as emissões do desmatamento foram apenas 42% maiores no Cerrado (49 milhões de toneladas de CO₂) quando comparadas ao bioma Amazônia (28 milhões de toneladas de CO₂).

Os autores agradecem aos pesquisadores e cientistas de dados que contribuíram para esta análise: Harry Biddle, Florian Gollnow, Michael Lathuillière, Nicolás Martín, Carina Mueller, Vivian Ribeiro e Clément Suavet.

Explore nossos novos dados sobre a cadeia de suprimentos de soja do Brasil

Uma explicação detalhada da metodologia da Trase está disponível em: Trase. (2025). SEI-PCS Brasil soja v2.6 supply chain map: Data sources and methods. Trase. https://doi.org/10.48650/X24R-YK29

Para referenciar este artigo, use a seguinte citação: Pereira, O., & Bernasconi, P. (2025). Exportações brasileiras de soja e desmatamento. Trase. https://doi.org/10.48650/Q48G-MJ07


Fonte: Trase

Artigos falsos estão contaminando a literatura científica mundial, ameaçando o futuro da Ciência

Artigos falsos estão alimentando uma indústria corrupta e retardando pesquisas médicas legítimas que salvam vidas

Por Frederik Joelving, Cyril Labbé e Guillaume Cabanac, para The Conversation  

Na última década, entidades comerciais furtivas ao redor do mundo industrializaram a produção, venda e disseminação de pesquisas acadêmicas falsas, minando a literatura na qual todos, de médicos a engenheiros, confiam para tomar decisões sobre vidas humanas.

É extremamente difícil entender exatamente o tamanho do problema. Cerca de 55.000 artigos acadêmicos foram retirados até o momento , por uma variedade de razões, mas cientistas e empresas que examinam a literatura científica em busca de sinais reveladores de fraude estimam que há muito mais artigos falsos circulando — possivelmente até várias centenas de milhares . Essa pesquisa falsa pode confundir pesquisadores legítimos que devem percorrer equações densas, evidências, imagens e metodologias apenas para descobrir que foram inventadas.

Mesmo quando os artigos falsos são descobertos — geralmente por detetives amadores em seu próprio tempo — os periódicos acadêmicos geralmente demoram a retirar os artigos, permitindo que eles manchem o que muitos consideram sacrossanto: a vasta biblioteca global de trabalhos acadêmicos que apresentam novas ideias, analisam outras pesquisas e discutem descobertas.

Esses artigos falsos estão atrasando a pesquisa que ajudou milhões de pessoas com medicamentos e terapias que salvam vidas, do câncer à COVID-19. Dados de analistas mostram que campos relacionados ao câncer e à medicina são particularmente atingidos, enquanto áreas como filosofia e arte são menos afetadas. Alguns cientistas abandonaram o trabalho de suas vidas porque não conseguem acompanhar o ritmo, dada a quantidade de artigos falsos que precisam rebater.

O problema reflete uma mercantilização mundial da ciência. As universidades e seus financiadores de pesquisa há muito usam a publicação regular em periódicos acadêmicos como requisitos para promoções e segurança no emprego, gerando o mantra “publique ou pereça”.

Mas agora, fraudadores se infiltraram na indústria de publicação acadêmica para priorizar lucros em vez de bolsas de estudo. Equipados com proezas tecnológicas, agilidade e vastas redes de pesquisadores corruptos , eles estão produzindo artigos sobre tudo, desde genes obscuros até inteligência artificial na medicina .

Esses artigos são absorvidos pela biblioteca mundial de pesquisa mais rápido do que podem ser eliminados. Cerca de 119.000 artigos de periódicos acadêmicos e artigos de conferências são publicados globalmente a cada semana , ou mais de 6 milhões por ano. Os editores estimam que, na maioria dos periódicos, cerca de 2% dos artigos submetidos — mas não necessariamente publicados — são provavelmente falsos, embora esse número possa ser muito maior em algumas publicações.

Embora nenhum país seja imune a essa prática, ela é particularmente pronunciada em economias emergentes onde os recursos para fazer ciência genuína são limitados – e onde os governos, ansiosos para competir em escala global, promovem incentivos particularmente fortes de “publicar ou perecer”.

Como resultado, há uma movimentada economia subterrânea online para todas as coisas de publicação acadêmica. Autoria, citações, até mesmo editores de periódicos acadêmicos , estão à venda. Essa fraude é tão prevalente que tem seu próprio nome: fábricas de papel, uma frase que remonta a term-paper mills , onde os alunos trapaceiam fazendo com que outra pessoa escreva um trabalho de classe para eles.

O impacto sobre os editores é profundo. Em casos de alto perfil, artigos falsos podem prejudicar os resultados financeiros de um periódico . Índices científicos importantes – bancos de dados de publicações acadêmicas nos quais muitos pesquisadores confiam para fazer seu trabalho – podem remover periódicos que publicam muitos artigos comprometidos . Há uma crítica crescente de que editores legítimos poderiam fazer mais para rastrear e colocar na lista negra periódicos e autores que publicam regularmente artigos falsos que às vezes são pouco mais do que frases geradas por inteligência artificial encadeadas .

Para entender melhor o escopo, as ramificações e as possíveis soluções desse ataque metastático à ciência, nós — um editor colaborador do Retraction Watch , um site que relata retratações de artigos científicos e tópicos relacionados, e dois cientistas da computação da Université Toulouse III–Paul Sabatier e da Université Grenoble Alpes , na França, especializados em detectar publicações falsas — passamos seis meses investigando fábricas de papel.

Isso incluiu, por alguns de nós em diferentes momentos, vasculhar sites e postagens de mídia social, entrevistar editores, especialistas em integridade de pesquisa, cientistas, médicos, sociólogos e detetives científicos envolvidos na tarefa sisífica de limpar a literatura. Também envolveu, por alguns de nós, a triagem de artigos científicos em busca de sinais de falsificação.

O que surgiu é uma crise profunda que fez com que muitos pesquisadores e formuladores de políticas clamassem por uma nova maneira para as universidades e muitos governos avaliarem e recompensarem acadêmicos e profissionais de saúde em todo o mundo.

Assim como sites altamente tendenciosos, disfarçados para parecerem reportagens objetivas, estão corroendo o jornalismo baseado em evidências e ameaçando eleições , a ciência falsa está destruindo a base de conhecimento na qual a sociedade moderna se baseia.

Como parte do nosso trabalho de detecção dessas publicações falsas, o coautor Guillaume Cabanac desenvolveu o Problematic Paper Screener , que filtra 130 milhões de artigos acadêmicos novos e antigos toda semana, procurando por nove tipos de pistas de que um artigo pode ser falso ou conter erros. Uma pista-chave é uma frase torturada – uma formulação estranha gerada por software que substitui termos científicos comuns por sinônimos para evitar plágio direto de um artigo legítimo.

Frank Cackowski, da Universidade Estadual Wayne de Detroit, ficou confuso.

O oncologista estava estudando uma sequência de reações químicas em células para ver se elas poderiam ser um alvo para medicamentos contra o câncer de próstata. Um artigo de 2018 no American Journal of Cancer Research despertou seu interesse quando ele leu que uma molécula pouco conhecida chamada SNHG1 poderia interagir com as reações químicas que ele estava explorando. Ele e seu colega pesquisador da Wayne State, Steven Zielske, começaram uma série de experimentos para aprender mais sobre a ligação. Surpreendentemente, eles descobriram que não havia uma ligação.

Enquanto isso, Zielske começou a suspeitar do artigo. Dois gráficos mostrando resultados para diferentes linhas celulares eram idênticos, ele notou, o que “seria como despejar água em dois copos com os olhos fechados e os níveis saindo exatamente os mesmos”. Outro gráfico e uma tabela no artigo também continham inexplicavelmente dados idênticos.

Zielske descreveu suas dúvidas em uma postagem anônima em 2020 no PubPeer , um fórum online onde muitos cientistas relatam potenciais más condutas em pesquisas, e também contatou o editor do periódico. Pouco depois, o periódico retirou o artigo, citando “materiais e/ou dados falsificados”.

“A ciência já é difícil o suficiente se as pessoas estão realmente sendo genuínas e tentando fazer um trabalho real”, diz Cackowski, que também trabalha no Karmanos Cancer Institute em Michigan. “E é realmente frustrante desperdiçar seu tempo com base nas publicações fraudulentas de alguém.”

Dois homens sentados frente a frente em uma mesa cheia de papéis
Os cientistas Frank Cackowski e Steven Zielske, da Wayne State, realizaram experimentos baseados em um artigo que mais tarde descobriram conter dados falsos. Amy Sacka , CC BY-ND

Ele se preocupa que as publicações falsas estejam retardando “pesquisas legítimas que, no futuro, impactarão o atendimento ao paciente e o desenvolvimento de medicamentos”.

Os dois pesquisadores finalmente descobriram que o SNHG1 parecia desempenhar um papel no câncer de próstata , embora não da maneira que o artigo suspeito sugeria. Mas era um tópico difícil de estudar. Zielske vasculhou todos os estudos sobre SNHG1 e câncer — cerca de 150 artigos, quase todos de hospitais chineses — e concluiu que “a maioria” deles parecia falsa. Alguns relataram o uso de reagentes experimentais conhecidos como primers que eram “apenas rabiscos”, por exemplo, ou tinham como alvo um gene diferente do que o estudo dizia, de acordo com Zielske. Ele contatou vários periódicos, disse ele, mas recebeu pouca resposta. “Eu simplesmente parei de acompanhar.”

Os muitos artigos questionáveis ​​também dificultaram a obtenção de financiamento, disse Zielske. A primeira vez que ele enviou uma solicitação de bolsa para estudar SNHG1, ela foi rejeitada, com um revisor dizendo que “o campo estava lotado”, Zielske lembrou. No ano seguinte, ele explicou em sua solicitação como a maior parte da literatura provavelmente veio de fábricas de papel. Ele conseguiu a bolsa.

Hoje, disse Zielske, ele aborda novas pesquisas de forma diferente do que costumava: “Você não pode simplesmente ler um resumo e ter fé nele. Eu meio que presumo que tudo está errado.”

Periódicos acadêmicos legítimos avaliam artigos antes de serem publicados, fazendo com que outros pesquisadores da área os leiam cuidadosamente. Esse processo de revisão por pares é projetado para impedir que pesquisas falhas sejam disseminadas, mas está longe de ser perfeito.

Os revisores oferecem seu tempo como voluntários, geralmente assumem que a pesquisa é real e, portanto, não procuram sinais de fraude. E alguns editores podem tentar escolher revisores que considerem mais propensos a aceitar artigos , porque rejeitar um manuscrito pode significar perder milhares de dólares em taxas de publicação.

“Até mesmo bons e honestos revisores se tornaram apáticos” por causa do “volume de pesquisa ruim que passa pelo sistema”, disse Adam Day, que dirige a Clear Skies, uma empresa em Londres que desenvolve métodos baseados em dados para ajudar a identificar artigos e periódicos acadêmicos falsificados. “Qualquer editor pode contar ter visto relatórios onde é óbvio que o revisor não leu o artigo.”

Com a IA, eles não precisam fazer isso: uma nova pesquisa mostra que muitas avaliações agora são escritas pelo ChatGPT e ferramentas semelhantes.

Para agilizar a publicação do trabalho uns dos outros, alguns cientistas corruptos formam círculos de revisão por pares . As fábricas de papel podem até criar revisores por pares falsos se passando por cientistas reais para garantir que seus manuscritos cheguem à publicação. Outros subornam editores ou plantam agentes em conselhos editoriais de periódicos .

María de los Ángeles Oviedo-García, professora de marketing na Universidade de Sevilha, na Espanha, passa seu tempo livre caçando revisões por pares suspeitas de todas as áreas da ciência, centenas das quais ela sinalizou no PubPeer. Algumas dessas revisões têm o tamanho de um tuíte, outras pedem aos autores que citem o trabalho do revisor, mesmo que não tenha nada a ver com a ciência em questão, e muitas se assemelham muito a outras revisões por pares para estudos muito diferentes — evidência, aos olhos dela, do que ela chama de “ fábricas de revisão ”.

Captura de tela mostrando relatórios destacados
Comentário do PubPeer de María de los Ángeles Oviedo-García apontando que um relatório de revisão por pares é muito semelhante a dois outros relatórios. Ela também aponta que os autores e citações para todos os três são anônimos ou a mesma pessoa – ambas as marcas registradas de artigos falsos. Captura de tela por The Conversation , CC BY-ND

“Uma das lutas mais exigentes para mim é manter a fé na ciência”, diz Oviedo-García, que diz a seus alunos para procurar artigos no PubPeer antes de confiar muito neles. Sua pesquisa foi desacelerada, ela acrescenta, porque agora ela se sente compelida a procurar relatórios de revisão por pares para estudos que ela usa em seu trabalho. Muitas vezes não há nenhum, porque “muito poucos periódicos publicam esses relatórios de revisão”, diz Oviedo-García.

Um problema ‘absolutamente enorme’

Não está claro quando as fábricas de papel começaram a operar em escala. O primeiro artigo retratado devido à suspeita de envolvimento de tais agências foi publicado em 2004, de acordo com o Retraction Watch Database , que contém detalhes sobre dezenas de milhares de retratações. (O banco de dados é operado pelo The Center for Scientific Integrity, a organização sem fins lucrativos controladora do Retraction Watch.) Também não está claro exatamente quantos artigos de baixa qualidade, plagiados ou inventados as fábricas de papel geraram.

Mas o número provavelmente será significativo e crescente, dizem os especialistas. Uma fábrica de papel ligada à Rússia na Letônia, por exemplo, afirma em seu site ter publicado “mais de 12.650 artigos” desde 2012.

Uma análise de 53.000 artigos submetidos a seis editoras — mas não necessariamente publicados — descobriu que a proporção de artigos suspeitos variou de 2% a 46% entre os periódicos. E a editora americana Wiley, que retirou mais de 11.300 artigos comprometidos e fechou 19 periódicos fortemente afetados em sua antiga divisão Hindawi, disse recentemente que sua nova ferramenta de detecção de fábrica de papel sinaliza até 1 em 7 submissões .

Anúncio predominantemente azul com escrita branca, corações vermelhos e brancos e preço proposto destacado em amarelo
Anúncio do Facebook de uma fábrica de papel indiana vendendo coautoria de um artigo. Captura de tela por The Conversation

Day, da Clear Skies, estima que até 2% dos vários milhões de trabalhos científicos publicados em 2022 foram moídos. Alguns campos são mais problemáticos do que outros. O número está mais próximo de 3% em biologia e medicina, e em alguns subcampos, como câncer, pode ser muito maior, de acordo com Day. Apesar da conscientização crescente hoje, “não vejo nenhuma mudança significativa na tendência”, disse ele. Com métodos aprimorados de detecção, “qualquer estimativa que eu fizer agora será maior”.

O problema das fábricas de papel é “absolutamente enorme”, disse Sabina Alam , diretora de Ética e Integridade de Publicações na Taylor & Francis, uma grande editora acadêmica. Em 2019, nenhum dos 175 casos de ética que os editores escalaram para sua equipe era sobre fábricas de papel, disse Alam. Os casos de ética incluem submissões e artigos já publicados. Em 2023, “tivemos quase 4.000 casos”, disse ela. “E metade deles eram fábricas de papel.”

Jennifer Byrne, uma cientista australiana que agora lidera um grupo de pesquisa para melhorar a confiabilidade da pesquisa médica , apresentou depoimento para uma audiência do Comitê de Ciência, Espaço e Tecnologia da Câmara dos Representantes dos EUA em julho de 2022. Ela observou que 700, ou quase 6%, de 12.000 artigos de pesquisa sobre câncer examinados tinham erros que poderiam indicar envolvimento de uma fábrica de papel. Byrne fechou seu laboratório de pesquisa sobre câncer em 2017 porque os genes sobre os quais ela passou duas décadas pesquisando e escrevendo se tornaram alvo de um número enorme de artigos falsos. Um cientista desonesto falsificando dados é uma coisa, ela disse, mas uma fábrica de papel poderia produzir dezenas de estudos falsos no tempo que sua equipe levou para publicar um único legítimo.

“A ameaça das fábricas de papel à publicação científica e à integridade não tem paralelo em minha carreira científica de 30 anos… Somente no campo da ciência genética humana, o número de artigos potencialmente fraudulentos pode exceder 100.000 artigos originais”, ela escreveu aos legisladores, acrescentando: “Essa estimativa pode parecer chocante, mas provavelmente é conservadora.”

Em uma área da pesquisa genética – o estudo do RNA não codificador em diferentes tipos de câncer – “Estamos falando de mais de 50% dos artigos publicados são de moinhos”, disse Byrne. “É como nadar em lixo.”

Em 2022, Byrne e colegas, incluindo dois de nós, descobriram que pesquisas genéticas suspeitas, apesar de não terem impacto imediato no atendimento ao paciente, ainda informam o trabalho de outros cientistas , incluindo aqueles que conduzem ensaios clínicos. Os editores, no entanto, geralmente demoram a retratar artigos contaminados , mesmo quando alertados sobre sinais óbvios de fraude. Descobrimos que 97% dos 712 artigos problemáticos de pesquisa genética que identificamos permaneceram sem correção na literatura.

Quando retratações acontecem, geralmente é graças aos esforços de uma pequena comunidade internacional de detetives amadores como Oviedo-García e aqueles que postam no PubPeer.

Jillian Goldfarb, professora associada de engenharia química e biomolecular na Universidade Cornell e ex-editora do periódico Fuel, da Elsevier, lamenta a forma como a editora lidou com a ameaça das fábricas de papel.

“Eu estava avaliando mais de 50 artigos todos os dias”, ela disse em uma entrevista por e-mail. Embora ela tivesse tecnologia para detectar plágio, envios duplicados e alterações suspeitas de autores, não era o suficiente. “Não é razoável pensar que um editor — para quem esse não é geralmente seu trabalho de tempo integral — pode pegar essas coisas lendo 50 artigos por vez. A falta de tempo, mais a pressão dos editores para aumentar as taxas de envio e citações e diminuir o tempo de revisão, coloca os editores em uma situação impossível.”

Em outubro de 2023, Goldfarb renunciou ao cargo de editora da Fuel. Em uma publicação no LinkedIn sobre sua decisão, ela citou a falha da empresa em dar andamento a dezenas de artigos potenciais de fábricas de papel que ela havia sinalizado; sua contratação de um editor principal que supostamente “se envolveu em moinhos de papel e citações”; e sua proposta de candidatos para cargos editoriais “com perfis PubPeer mais longos e mais retratações do que a maioria das pessoas tem artigos em seus currículos, e cujos nomes aparecem como autores em sites de artigos para venda”.

“Isso me diz, à nossa comunidade e ao público, que eles valorizam mais a quantidade de artigos e o lucro do que a ciência”, escreveu Goldfarb.

Em resposta a perguntas sobre a renúncia de Goldfarb, um porta-voz da Elsevier disse ao The Conversation que ela “leva todas as alegações sobre má conduta em pesquisa em nossos periódicos muito a sério” e está investigando as alegações de Goldfarb. O porta-voz acrescentou que a equipe editorial da Fuel tem “trabalhado para fazer outras mudanças no periódico para beneficiar autores e leitores”.

Não é assim que funciona, amigo

Propostas de negócios acumulavam-se há anos na caixa de entrada de João de Deus Barreto Segundo, editor-chefe de seis periódicos publicados pela Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública em Salvador, Brasil. Várias vinham de editoras suspeitas em busca de novos periódicos para adicionar aos seus portfólios. Outras vinham de acadêmicos sugerindo acordos duvidosos ou oferecendo propinas para publicar seus artigos.

Em um e-mail de fevereiro de 2024, um professor assistente de economia na Polônia explicou que ele dirigia uma empresa que trabalhava com universidades europeias. “Você estaria interessado em colaborar na publicação de artigos científicos por cientistas que colaboram comigo?”, perguntou Artur Borcuch . “Então discutiremos possíveis detalhes e condições financeiras .”

Um administrador universitário no Iraque foi mais franco: “Como incentivo, estou preparado para oferecer uma bolsa de US$ 500 para cada artigo aceito e submetido ao seu estimado periódico”, escreveu Ahmed Alkhayyat , chefe do Centro Universitário Islâmico de Pesquisa Científica, em Najaf, e gerente do “ranking mundial” da escola.

“Não é assim que funciona, amigo”, retrucou Barreto Segundo.

Em e-mail para The Conversation, Borcuch negou qualquer intenção imprópria. “Meu papel é mediar os aspectos técnicos e processuais da publicação de um artigo”, disse Borcuch, acrescentando que, ao trabalhar com vários cientistas, ele “solicitaria um desconto do escritório editorial em nome deles”. Informado de que a editora brasileira não tinha taxas de publicação, Borcuch disse que um “erro” ocorreu porque um “funcionário” enviou o e-mail para ele “para diferentes periódicos”.

Os periódicos acadêmicos têm diferentes modelos de pagamento. Muitos são baseados em assinatura e não cobram dos autores pela publicação, mas têm taxas pesadas para a leitura de artigos. Bibliotecas e universidades também pagam grandes somas pelo acesso.

Um modelo de acesso aberto de rápido crescimento – onde qualquer um pode ler o artigo – inclui taxas de publicação caras cobradas dos autores para compensar a perda de receita na venda dos artigos. Esses pagamentos não têm a intenção de influenciar se um manuscrito é aceito ou não.

A Faculdade Bahiana de Medicina e Saúde Pública, entre outras, não cobra dos autores ou leitores, mas o empregador de Barreto Segundo é um pequeno player no negócio de publicação acadêmica, que arrecada perto de US$ 30 bilhões por ano com margens de lucro de até 40% . Editoras acadêmicas ganham dinheiro principalmente com taxas de assinatura de instituições como bibliotecas e universidades, pagamentos individuais para acessar artigos com paywall e taxas de acesso aberto pagas por autores para garantir que seus artigos sejam gratuitos para qualquer um ler.

A indústria é lucrativa o suficiente para atrair atores inescrupulosos, ansiosos por encontrar uma maneira de desviar parte dessa receita.

Ahmed Torad , um palestrante da Universidade Kafr El Sheikh no Egito e editor-chefe do Egyptian Journal of Physiotherapy , pediu um retorno de 30% para cada artigo que ele repassasse à editora brasileira. “Essa comissão será calculada com base nas taxas de publicação geradas pelos manuscritos que eu enviar”, escreveu Torad, observando que ele se especializou “em conectar pesquisadores e autores com periódicos adequados para publicação”.

Captura de tela de texto com fundo amarelo
Trecho do e-mail de Ahmed Torad sugerindo um suborno. Captura de tela por The Conversation , CC BY-ND

Aparentemente, ele não percebeu que a Faculdade Bahiana de Medicina e Saúde Pública não cobra taxas de autoria.

Assim como Borcuch, Alkhayyat negou qualquer intenção imprópria. Ele disse que houve um “mal-entendido” por parte do editor, explicando que o pagamento que ele ofereceu era para cobrir supostas taxas de processamento de artigos. “Alguns periódicos pedem dinheiro. Então isso é normal”, disse Alkhayyat.

Torad explicou que havia enviado sua oferta de artigos de origem em troca de uma comissão para cerca de 280 periódicos, mas não havia forçado ninguém a aceitar os manuscritos. Alguns haviam se recusado a aceitar sua proposta, ele disse, apesar de cobrar regularmente milhares de dólares dos autores para publicar. Ele sugeriu que a comunidade científica não se sentia confortável em admitir que a publicação acadêmica se tornou um negócio como qualquer outro, mesmo que seja “óbvio para muitos cientistas”.

Os avanços indesejados tiveram como alvo um dos periódicos administrados por Barreto Segundo, o Journal of Physiotherapy Research, logo após ele ter sido indexado no Scopus, um banco de dados de resumos e citações de propriedade da editora Elsevier.

Junto com o Web of Science da Clarivate, o Scopus se tornou um importante selo de qualidade para publicações acadêmicas globalmente. Artigos em periódicos indexados são dinheiro no banco para seus autores: eles ajudam a garantir empregos, promoções, financiamento e, em alguns países, até mesmo acionar recompensas em dinheiro. Para acadêmicos ou médicos em países mais pobres, eles podem ser uma passagem para o norte global .

Considere o Egito, um país atormentado  por  ensaios clínicos duvidosos . As universidades de lá geralmente pagam grandes somas aos funcionários por publicações internacionais, com o valor dependendo do fator de impacto do periódico . Uma estrutura de incentivo semelhante está embutida em regulamentações nacionais: para ganhar o posto de professor titular, por exemplo, os candidatos devem ter pelo menos cinco publicações em dois anos, de acordo com o Conselho Supremo de Universidades do Egito. Estudos em periódicos indexados no Scopus ou Web of Science não apenas recebem pontos extras, mas também são isentos de um exame mais aprofundado quando os candidatos são avaliados. Quanto maior o fator de impacto de uma publicação, mais pontos os estudos recebem.

Com tanto foco em métricas, tornou-se comum para pesquisadores egípcios cortarem custos, de acordo com um médico no Cairo que pediu anonimato por medo de retaliação. A autoria é frequentemente presenteada a colegas que depois retribuem o favor, ou estudos podem ser criados do nada. Às vezes, um artigo legítimo existente é escolhido da literatura, e detalhes importantes como o tipo de doença ou cirurgia são então alterados e os números ligeiramente modificados, explicou a fonte.

Isso afeta as diretrizes clínicas e os cuidados médicos, “então é uma pena”, disse o médico.

A ivermectina, um medicamento usado para tratar parasitas em animais e humanos, é um exemplo. Quando alguns estudos mostraram que era eficaz contra a COVID-19, a ivermectina foi aclamada como uma “droga milagrosa” no início da pandemia. As prescrições aumentaram e, junto com elas, as ligações para os centros de controle de intoxicações dos EUA ; um homem passou nove dias no hospital após tomar uma formulação injetável do medicamento que era destinada ao gado, de acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças. Como se viu, quase todas as pesquisas que mostraram um efeito positivo na COVID-19 tinham indícios de falsificação , a BBC e outros relataram – incluindo um estudo egípcio agora retirado . Sem nenhum benefício aparente , os pacientes ficaram apenas com efeitos colaterais.

A má conduta em pesquisa não se limita às economias emergentes, tendo recentemente derrubado presidentes de universidades cientistas de ponta em agências governamentais nos Estados Unidos. Nem a ênfase em publicações. Na Noruega, por exemplo, o governo aloca financiamento para institutos de pesquisa, hospitais e universidades com base em quantos trabalhos acadêmicos os funcionários publicam e em quais periódicos. O país decidiu interromper parcialmente essa prática a partir de 2025.

“Há um enorme incentivo acadêmico e motivo de lucro”, diz Lisa Bero, professora de medicina e saúde pública no Campus Médico Anschutz da Universidade do Colorado e editora sênior de integridade de pesquisa na Cochrane Collaboration, uma organização internacional sem fins lucrativos que produz revisões de evidências sobre tratamentos médicos. “Vejo isso em todas as instituições em que trabalhei.”

Mas no sul global, o decreto de publicar ou perecer esbarra em infraestruturas de pesquisa e sistemas educacionais subdesenvolvidos, deixando os cientistas em apuros. Para um Ph.D., o médico do Cairo que pediu anonimato conduziu um ensaio clínico inteiro sozinho – desde a compra do medicamento do estudo até a randomização de pacientes, coleta e análise de dados e pagamento de taxas de processamento de artigos. Em nações mais ricas, equipes inteiras trabalham em tais estudos, com a conta facilmente chegando a centenas de milhares de dólares.

“A pesquisa é bem desafiadora aqui”, disse o médico. É por isso que os cientistas “tentam manipular e encontrar maneiras mais fáceis para que eles façam o trabalho.”

As instituições também manipularam o sistema com um olho nas classificações internacionais. Em 2011, a revista Science descreveu como pesquisadores prolíficos nos Estados Unidos e na Europa receberam ofertas de pagamentos pesados ​​para listar universidades sauditas como afiliações secundárias em artigos. E em 2023, a revista, em colaboração com a Retraction Watch, descobriu um estratagema massivo de autocitação por uma escola de odontologia de primeira linha na Índia que forçou alunos de graduação a publicar artigos referenciando trabalhos do corpo docente.

A raiz – e as soluções

Esses esquemas desagradáveis ​​podem ser rastreados até a introdução de métricas baseadas em desempenho na academia, um desenvolvimento impulsionado pelo movimentNew Public Management que varreu o mundo ocidental na década de 1980, de acordo com o sociólogo canadense da ciência Yves Gingras, da Université du Québec à Montréal. Quando universidades e instituições públicas adotaram a gestão corporativa, os artigos científicos se tornaram “unidades contábeis” usadas para avaliar e recompensar a produtividade científica em vez de “unidades de conhecimento” que avançam nossa percepção do mundo ao nosso redor, escreveu Gingras .

Essa transformação levou muitos pesquisadores a competir em números em vez de conteúdo, o que tornou as métricas de publicação medidas ruins de proeza acadêmica. Como Gingras mostrou, o controverso microbiologista francês Didier Raoult, que agora tem mais de uma dúzia de retratações em seu nome, tem um índice h – uma medida que combina números de publicação e citação – que é duas vezes maior que o de Albert Einstein – “prova de que o índice é absurdo”, disse Gingras.

Pior, uma espécie de inflação científica, ou “ bolha cienciométrica ”, ocorreu, com cada nova publicação representando um incremento cada vez menor no conhecimento. “Publicamos cada vez mais artigos superficiais, publicamos artigos que precisam ser corrigidos e pressionamos as pessoas a cometer fraudes”, disse Gingras.

Em termos de perspectivas de carreira de acadêmicos individuais, também, o valor médio de uma publicação despencou, desencadeando um aumento no número de autores hiperprolíficos . Um dos casos mais notórios é o do químico espanhol Rafael Luque, que em 2023 teria publicado um estudo a cada 37 horas .

Em 2024, Landon Halloran, um geocientista da Universidade de Neuchâtel, na Suíça, recebeu uma candidatura incomum para uma vaga em seu laboratório. Um pesquisador com doutorado da China havia enviado seu currículo. Aos 31 anos, o candidato havia acumulado 160 publicações em periódicos indexados pela Scopus, 62 delas somente em 2022, o mesmo ano em que obteve seu doutorado. Embora o candidato não fosse o único “com uma produção suspeitamente alta”, de acordo com Halloran, ele se destacou. “Meus colegas e eu nunca encontramos nada parecido nas geociências”, disse ele.

De acordo com insiders e editores da indústria, há mais conscientização agora sobre ameaças de fábricas de papel e outros atores ruins. Alguns periódicos verificam rotineiramente se há fraude de imagem . Uma imagem ruim gerada por IA aparecendo em um artigo pode ser um sinal de um cientista tomando um atalho mal aconselhado, ou de uma fábrica de papel.

A Cochrane Collaboration tem uma política que exclui estudos suspeitos de suas análises de evidências médicas. A organização também vem desenvolvendo uma ferramenta para ajudar seus revisores a identificar ensaios médicos problemáticos, assim como os editores começaram a selecionar submissões e compartilhar dados e tecnologias entre si para combater fraudes.

Conjunto de seis imagens gráficas que lembram pulmões, bolas com espinhos e frascos cheios de pequenas bolas redondas
Esta imagem, gerada por IA, é um jargão visual de conceitos sobre transporte e administração de medicamentos no corpo. Por exemplo, a figura superior esquerda é uma mistura sem sentido de uma seringa, um inalador e pílulas. E a molécula transportadora sensível ao pH na parte inferior esquerda é enorme, rivalizando com o tamanho dos pulmões. Depois que cientistas detetives apontaram que a imagem publicada não fazia sentido, o periódico emitiu uma correção. Captura de tela por The Conversation , CC BY-ND
Conjunto de seis imagens gráficas de pulmões e moléculas
Este gráfico é a imagem corrigida que substituiu a imagem de IA acima. Neste caso, de acordo com a correção, o periódico determinou que o artigo era legítimo, mas os cientistas usaram IA para gerar a imagem que o descrevia. Captura de tela por The Conversation , CC BY-ND

“As pessoas estão percebendo, tipo, uau, isso está acontecendo na minha área, está acontecendo na sua área”, disse Bero, da Cochrane Collaboration. “Então, realmente precisamos nos coordenar e, você sabe, desenvolver um método e um plano geral para acabar com essas coisas.”

O que fez a Taylor & Francis prestar atenção, de acordo com Alam, o diretor de Ética e Integridade de Publicações, foi uma investigação de 2020 de uma fábrica de papel chinesa pela detetive Elisabeth Bik e três de seus colegas que atendem pelos pseudônimos Smut Clyde, Morty e Tiger BB8. Com 76 artigos comprometidos, a Artificial Cells, Nanomedicine, and Biotechnology da empresa sediada no Reino Unido foi o periódico mais afetado identificado na investigação.

“Isso abriu um campo minado”, diz Alam, que também copreside o United2Act , um projeto lançado em 2023 que reúne editores, pesquisadores e detetives na luta contra as fábricas de papel. “Foi a primeira vez que percebemos que as imagens de stock estavam sendo usadas essencialmente para representar experimentos.”

A Taylor & Francis decidiu auditar as centenas de artigos em seu portfólio que continham tipos semelhantes de imagens. Ela dobrou a equipe da Alam, que agora tem 14,5 posições dedicadas a fazer investigações, e também começou a monitorar as taxas de envio. As fábricas de papel, ao que parecia, não eram clientes exigentes.

“O que eles estão tentando fazer é encontrar um portão e, se conseguirem entrar, eles simplesmente começam a bater nas submissões”, disse Alam. Setenta e seis artigos falsos de repente pareciam uma gota no oceano. Em um periódico da Taylor & Francis, por exemplo, a equipe de Alam identificou quase 1.000 manuscritos que traziam todas as marcas de terem vindo de uma fábrica, disse ela.

E em 2023, rejeitou cerca de 300 propostas duvidosas para edições especiais. “Nós bloqueamos um monte de coisas de passarem”, disse Alam.

Verificadores de fraude

Uma pequena indústria de startups de tecnologia surgiu para ajudar editores, pesquisadores e instituições a identificar potenciais fraudes. O site Argos , lançado em setembro de 2024 pela Scitility , um serviço de alerta sediado em Sparks, Nevada, permite que autores verifiquem se novos colaboradores são rastreados por retratações ou preocupações com má conduta. Ele sinalizou dezenas de milhares de artigos de “alto risco” , de acordo com o periódico Nature.

Vermelho rejeitado carimbado em papel branco
Ferramentas de verificação de fraudes examinam documentos para apontar aqueles que devem ser verificados manualmente e possivelmente rejeitados. solidcolours/iStock via Getty Images

Morressier, uma empresa de conferências e comunicações científicas sediada em Berlim, “ visa restaurar a confiança na ciência ao melhorar a maneira como a pesquisa científica é publicada ”, de acordo com seu site. Ela oferece ferramentas de integridade que visam todo o ciclo de vida da pesquisa. Outras novas ferramentas de verificação de papel incluem Signals , da Research Signals sediada em Londres, e Papermill Alarm da Clear Skies .

Os fraudadores também não ficaram parados. Em 2022, quando a Clear Skies lançou o Papermill Alarm, o primeiro acadêmico a perguntar sobre a nova ferramenta foi um moinho de papel, de acordo com Day. A pessoa queria acesso para poder verificar seus artigos antes de enviá-los para as editoras, disse Day. “As fábricas de papel provaram ser adaptáveis ​​e também bastante rápidas no início.”

Dada a atual corrida armamentista, Alam reconhece que a luta contra as fábricas de papel não será vencida enquanto a crescente demanda por seus produtos permanecer.

De acordo com uma análise da Nature , a taxa de retração triplicou de 2012 a 2022 para perto de 0,02%, ou cerca de 1 em 5.000 artigos. Então, quase dobrou em 2023, em grande parte por causa dodesastre Hindawi da Wiley . A publicação comercial de hoje é parte do problema, disse Byrne. Por um lado, limpar a literatura é um empreendimento vasto e caro, sem nenhuma vantagem financeira direta. “Jornais e editoras nunca serão capazes, no momento, de corrigir a literatura na escala e na pontualidade necessárias para resolver o problema da fábrica de papel”, disse Byrne. “Ou temos que monetizar as correções de forma que as editoras sejam pagas por seu trabalho, ou esquecer as editoras e fazer isso nós mesmos.”

Mas isso ainda não consertaria o viés fundamental embutido na publicação com fins lucrativos: os periódicos não são pagos para rejeitar artigos. “Nós os pagamos para aceitar artigos”, disse Bodo Stern, ex-editor do periódico Cell e chefe de Iniciativas Estratégicas do Howard Hughes Medical Institute, uma organização de pesquisa sem fins lucrativos e grande financiadora em Chevy Chase, Maryland. “Quero dizer, o que você acha que os periódicos vão fazer? Eles vão aceitar artigos.”

Com mais de 50.000 periódicos no mercado, mesmo que alguns estejam se esforçando para acertar, artigos ruins que são vendidos por tempo suficiente eventualmente encontram um lar, Stern acrescentou. “Esse sistema não pode funcionar como um mecanismo de controle de qualidade”, disse ele. “Temos tantos periódicos que tudo pode ser publicado.”

Na visão de Stern, o caminho a seguir é parar de pagar periódicos para aceitar artigos e começar a vê-los como serviços públicos que atendem a um bem maior. “Devemos pagar por mecanismos de controle de qualidade transparentes e rigorosos”, disse ele.

A revisão por pares, enquanto isso, “deve ser reconhecida como um verdadeiro produto acadêmico, assim como o artigo original, porque os autores do artigo e os revisores por pares estão usando as mesmas habilidades”, disse Stern. Da mesma forma, os periódicos devem tornar todos os relatórios de revisão por pares publicamente disponíveis, mesmo para manuscritos que eles rejeitam. “Quando eles fazem o controle de qualidade, eles não podem simplesmente rejeitar o artigo e então deixá-lo ser publicado em outro lugar”, disse Stern. “Esse não é um bom serviço.”

Melhores medidas

Stern não é o primeiro cientista a lamentar o foco excessivo na bibliometria. “Precisamos de menos pesquisa, melhor pesquisa e pesquisa feita pelos motivos certos”, escreveu o falecido estatístico Douglas G. Altman em um editorial muito citado de 1994. “Abandonar o uso do número de publicações como uma medida de habilidade seria um começo.”

Quase duas décadas depois, um grupo de cerca de 150 cientistas e 75 organizações científicas divulgou a Declaração de São Francisco sobre Avaliação de Pesquisa , ou DORA, desencorajando o uso do fator de impacto do periódico e outras medidas como proxies para qualidade. A declaração de 2013 já foi assinada por mais de 25.000 indivíduos e organizações em 165 países.

Apesar da declaração, as métricas continuam sendo amplamente utilizadas hoje, e os cientistas dizem que há um novo senso de urgência.

“Estamos chegando ao ponto em que as pessoas realmente sentem que precisam fazer alguma coisa” por causa do grande número de artigos falsos, disse Richard Sever, diretor assistente da Cold Spring Harbor Laboratory Press, em Nova York, e cofundador dos servidores de pré-impressão bioRxiv e medRxiv.

Stern e seus colegas tentaram fazer melhorias em sua instituição. Pesquisadores que desejam renovar seus contratos de sete anos há muito tempo são obrigados a escrever um pequeno parágrafo descrevendo a importância de seus principais resultados. Desde o final de 2023, eles também são solicitados a remover nomes de periódicos de suas inscrições.

Dessa forma, “você nunca pode fazer o que todos os revisores fazem – eu já fiz – olhar a bibliografia e em apenas um segundo decidir, ‘Oh, essa pessoa foi produtiva porque publicou muitos artigos e eles foram publicados nos periódicos certos’”, diz Stern. “O que importa é: isso realmente fez a diferença?”

Mudar o foco de métricas de desempenho convenientes parece possível não apenas para instituições privadas ricas como o Howard Hughes Medical Institute, mas também para grandes financiadores governamentais. Na Austrália, por exemplo, o National Health and Medical Research Council lançou em 2022 a política “ top 10 em 10 ”, visando, em parte, “valorizar a qualidade da pesquisa em vez da quantidade de publicações”.

Em vez de fornecer sua bibliografia completa, a agência, que avalia milhares de solicitações de subsídios todos os anos, pediu aos pesquisadores que listassem no máximo 10 publicações da última década e explicassem a contribuição que cada uma delas havia feito para a ciência. De acordo com um relatório de avaliação de abril de 2024, quase três quartos dos revisores de subsídios disseram que a nova política permitiu que eles se concentrassem mais na qualidade da pesquisa do que na quantidade. E mais da metade disse que ela reduziu o tempo gasto em cada solicitação.

Gingras, o sociólogo canadense, defende dar aos cientistas o tempo de que precisam para produzir um trabalho que importe, em vez de um fluxo jorrando de publicações. Ele é signatário do Slow Science Manifesto : “Quando você obtém slow science, posso prever que o número de corrigendas, o número de retratações, diminuirá”, ele diz.

Em um ponto, Gingras estava envolvido na avaliação de uma organização de pesquisa cuja missão era melhorar a segurança no local de trabalho. Um funcionário apresentou seu trabalho. “Ele tinha uma frase que nunca esquecerei”, lembra Gingras. O funcionário começou dizendo: “’Sabe, tenho orgulho de uma coisa: meu índice h é zero.’ E foi brilhante.” O cientista havia desenvolvido uma tecnologia que prevenia quedas fatais entre trabalhadores da construção. “Ele disse: ‘Isso é útil, e esse é meu trabalho.’ Eu disse: ‘Bravo!’”

Saiba mais sobre como o Problematic Paper Screener descobre documentos comprometidos.


Fonte: The Conversation

Quase todas as faculdades de BH ficam em ‘pântanos alimentares’; entenda

Pântanos alimentares são áreas com alta concentração de opções não saudáveis 

Em Belo Horizonte, a maioria das instituições de ensino superior está localizada próxima de estabelecimentos que oferecem fácil acesso a alimentos ultraprocessados. 95% dos locais ficam em “pântanos alimentares”, ou seja, áreas com uma alta concentração de comércio de opções ultraprocessadas e não saudáveis, em detrimento de opções mais nutritivas. Esta é a descoberta de um estudo de pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), publicado na sexta (31) na “Revista Brasileira de Epidemiologia”.

O grupo avaliou o ambiente alimentar no entorno de instituições que oferecem cursos de ensino superior no formato presencial na capital mineira. Foram analisadas 81 universidades, institutos federais, centros universitários e faculdades, sendo a maior parte (68) da iniciativa privada. Os dados sobre cada instituição foram obtidos por meio da Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais.

Os cientistas, então, traçaram um perímetro de 500 metros ao redor de cada local selecionado. Ao contrário de metodologias tradicionais, no entanto, foram consideradas as conectividades das vias, ou seja, ruas acessíveis a pé pelos frequentadores das instituições. Neste raio definido, foram coletadas informações sobre estabelecimentos de venda de alimentos junto à Secretaria de Estado de Fazenda de Minas Gerais, utilizando a Classificação Nacional de Atividades Econômicas. O levantamento foi realizado em 2022 com dados mais recentes de 2019.

De acordo com a classificação Nova de alimentos, os ultraprocessados são aqueles produtos que passaram por processos industriais intensos e que contêm ingredientes artificiais, como aditivos e conservantes, além de poucos ou nenhum ingrediente in natura. O Guia Alimentar para a População Brasileira recomenda evitar o consumo desses itens. Lanchonetes, restaurantes e bares foram as categorias mais disponíveis e mais próximas das instituições de ensino. Salgadinhos, refrigerantes, biscoitos recheados, doces, guloseimas e fast food foram exemplos de ultraprocessados mais encontrados ao redor das edificações.

A densidade de estabelecimentos que oferecem alimentos não saudáveis foi verificada através da mediana – cálculo que considera o padrão de concentração. A mediana total, que inclui os arredores de instituições públicas e privadas, foi de 73 estabelecimentos. Já a mediana do total de estabelecimentos em torno de instituições privadas foi de 84,5, enquanto entre as públicas foi de 41, quantidade consideravelmente menor.

“Cada vez mais temos evidências de que os ultraprocessados são ruins para a saúde, então esse tipo de pesquisa oferece dados para fomentar políticas públicas que possam controlar o entorno dessas instituições onde jovens adultos, em sua maioria, circulam. É uma população que tem autonomia para escolher e que, muitas vezes, leva alimentos para casa”, afirma Thales Philipe Rodrigues da Silva, pesquisador do departamento de enfermagem da Unifesp e co-orientador de mestrado da autora principal do artigo, Larissa Edwiges, da UFMG.

O cientista explica que, diferentemente dos desertos alimentares – áreas onde o acesso a alimentos in natura ou minimamente processados é escasso ou impossível –, os pântanos, onde as instituições de ensino superior se localizam, são vizinhanças que facilitam o acesso a alimentos não saudáveis. “Não sabemos se os estudantes e funcionários desses locais de fato consomem mais ultraprocessados, mas, com maior disponibilidade dos produtos, há mais chance deles serem comprados”, avalia Rodrigues.

Uma das limitações do estudo foi justamente a dificuldade de avaliar quantas pessoas estão tendo acesso e, de fato, consumindo mais ultraprocessados. O grupo espera, no entanto, que os dados auxiliem no planejamento de políticas públicas que possam controlar a venda de alimentos não saudáveis no entorno de instituições de ensino e garantir a segurança nutricional de jovens adultos por meio de oferta de opções melhores para a saúde.


Fonte: Agência Bori