‘Todos os rios do Brasil estão contaminados’, alerta pesquisador sobre uso de agrotóxicos

Estudo divulgado nesta semana pelo governo federal mostra que rio Tocantins contém substância proibida na Europa

tractor sprayAtualmente, mais de 100 agrotóxicos diferentes usam o glifosato em sua composição – PABLO AHARONIAN / AFP

Por Lucas Weber para o Brasil de Fato

Neste final de semana, o governo  federal divulgou o resultado da análise sobre a qualidade do rio Tocantins, após a ameaça de contaminação da água por agrotóxicos, por causa da queda de caminhões que transportavam herbicidas e ácido sulfúrico.

O estudo trouxe alívio ao revelar que os tonéis onde as substâncias estavam armazenadas não se romperam. A tragédia da queda da ponte Juscelino Kubitschek, que ligava Estreito (MA) e Aguiarnópolis (TO), em 22 de agosto, portanto, não contaminou o rio.

Mas os dados do governo mostram que já havia a presença na água de agrotóxicos proibido em diversos países do mundo, incluindo a União Europeia. Foi detectado uma concentração de 0,2 microgramas por litro (µg/L) do herbicida 2,4-D, apontado como cancerígeno por agências internacionais, mas amplamente utilizado no Brasil.

“Com as doses, frequências e diversidade de agrotóxicos usados no Brasil, dá para afirmar que todos os rios estão contaminados. Sem nenhuma dúvida. O grau de contaminação é que pode variar”, denuncia Danilo Rheinheimer dos Santos, professor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e referência na análise de agrotóxicos em água.

A presença de agrotóxicos na água não é novidade no Brasil. Estudo do ano passado realizado pela Repórter Brasil mostrou que 27 tipos de agrotóxicos foram encontrados na água consumida por parte da população de 210 municípios brasileiros, como São Paulo (SP), Fortaleza (CE) e Campinas (SP).

Os dados surgiram a partir de informações do Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (Sisagua), do Ministério da Saúde, com testes feitos em 2022.

O agrotóxico 2,4-D, encontrado no rio Tocantins e considerado “normal” pelo estudo do governo federal, é o mesmo usado como componente do chamado “agente laranja”, um desfolhante químico altamente tóxico, usado pelos Estados Unidos na Guerra do Vietnã. A arma química era utilizada pelas tropas estadunidenses para desmatar florestas e impedir que soldados vietnamitas se escondessem na vegetação.

A análise do rio Tocantins, divulgado nesta sexta-feira (27), aconteceu dias após a queda da ponte que matou 10 pessoas, com outras sete ainda desaparecidas. 


Ponte Juscelino Kubitschek de Oliveira, sobre o Rio Tocantins, que caiu com grande quantidade de agrotóxicos / AFP

No comunicado com os dados, o governo reconhece que “essa concentração de 2,4-D é considerada normal em rios que atravessam áreas agrícolas, como o rio Tocantins, e, por isso, não foram encontrados indícios de contaminação da água por defensivos agrícolas decorrente do acidente na Ponte Juscelino Kubitschek de Oliveira”.

Mas o professor Rheinheimer contesta a conclusão oficial: “A gente só faz, sempre, um questionamento: se fosse os europeus, a água seria imprópria para consumo pois está acima de 0,1 ug/L. Mas somos brasileiros e daí tudo bem”.

“Valemos menos”

O fato de o Brasil ser mais flexível no uso de agrotóxicos que países da União Europeia (UE) é investigado pela pesquisadora Larissa Bombardi, que já recebeu ameaças por após a publicação de estudos que denunciam a situação. Foi ela quem constatou que, dos dez agrotóxicos mais vendidos no Brasil, cinco são proibidos na UE.

“Quando eu olho o fato de que no Brasil o resíduo de glifosato autorizado na água potável é cinco mil vezes maior do que aquele autorizado na União Europeia. Quando eu vejo que o resíduo de malationa no Brasil é 400 vezes maior do que o autorizado na União Europeia, sou obrigada a pensar que, no conjunto das relações internacionais, a população brasileira, latino-americana e africana é tida como sub-humana. Nós valemos menos”, disse ao Brasil de Fato quando lançou o livrAgrotóxicos e Colonialismo Químico, em julho esse ano

“Quando a gente vê por exemplo, casos criminosos de uso de agrotóxicos, vai ver que a substância utilizada foi produzida por justamente por uma dessas empresas sediadas na União Europeia. Fica claro um mecanismo que remete ao período colonial, ou seja, um deslocamento dessa agricultura capitalista, dessa monocultura, que avança sobre áreas de camponeses, de povos originários, utilizando como arma nessa violência dos conflitos fundiários, uma substância que é proibida no território em que ela foi produzida.”

Edição: Rodrigo Durão Coelho


Fonte: Brasil de Fato

Canto das Pedras é um verdadeiro canto da sereia corporativa do Porto do Açu

açu 2014 2023

Processo de erosão na Barra do Açu foi iniciado pela implantação das estruturas de proteção do Porto do Açu: a tristeza de muitos para a alegria de poucos

Uma das características marcantes do chamado “Capitalismo do Choque”  é que não existe destruição que não abra caminho para situações voltadas para gerar lucro. Pois bem, uma das consequências diretas da implantação dos quebra-mares e molhes no Porto do Açu foi a erupção de um desequilíbrio no trânsito de sedimentos no sentido Sul-Norte, pois a implantação dessas estruturas geraram um impedimento no fluxo de ida e vinda dos sedimentos.  Com isso, a localidade de Barra do Açu está sendo ameaçada pela destruição causada pela intrusão das águas marinhas.

Mas a história nao para aí.  É que nas imediações do molhe que foi construído para proteger o Terminal 2 do Porto do Açu está ocorrendo um processo de deposição de areias que alargou a faixa de praia. E aí foi que entrou dinheiro público e a imaginação de algum marqueteiro para estabelecer um novo “point” que recebeu o simpático nome de “Canto das Pedras“, com direito a página oficial na rede Instagram. 

Eu não vou nem elaborar sobre a origem dessa jogada de marketing, mas é preciso dizer que para a sua materialização foi feito uso de dinheiro público como apontou em recente entrevista a um veículo da mídia corporativa local, o secretário municipal de Obras e Serviços de São João da Barra, Alexandre Rosa.

O que Rosa não disse é que enquanto o “Canto das Pedras” faz a alegria de alguns, inclusive de funcionários do próprio Porto do Açu, o processo erosivo segue firme e forte na região da Praia do Açu onde vivem os deserdados das benesses criadas pela implantação do enclave geográfico que opera sem ter que se responsabilizar pelos prejuízos socioambientais que estão sendo criados pela sua existência e funcionamento.

Assim, ainda que se entenda que parte da população use a faixa de areia próxima do molhe do Terminal 2 do Porto do Açu, não é aceitável que se esqueça a outra face desta moeda que é a destruição que está ocorrendo na Barra do Açu. Afinal, é o canto da praia nada mais é uma forma mal disfarçada de canto de sereia das corporações que está instaladas no Porto do Açu sob a batuta da Prumo Logística.

 

Crise ambiental no rio Tocantins: 12 toneladas de agrotóxicos foram derramadas com queda de ponte

Entre os produtos químicos derramados em queda de ponte, o 2,4-D tem fácil propagação pela água

ponte estreitoPor Rodrigo Chagas para o Brasil de Fato 

queda da Ponte Juscelino Kubitschek de Oliveira, que conectava os municípios de Estreito (MA) e Aguiarnópolis (TO), além dos impactos socioeconômicos, pode desencadear uma grave crise ambiental. No domingo (22), três caminhões carregados com agrotóxicos e ácido sulfúrico caíram no rio Tocantins, espalhando 25,2 mil litros de agrotóxicos e 76 toneladas de ácido, segundo a Agência Nacional de Águas (ANA).

Entre os produtos derramados, estavam quase nove toneladas do herbicida 2,4-D, permitido no Brasil, mas proibido na Dinamarca, em Moçambique e no Vietnã devido à sua toxicidade. Também já foi proibido na Austrália e no Canadá. Na União Europeia, há um processo em curso para o banimento definitivo do composto.

O 2,4-D é o mesmo usado como componente do chamado “agente laranja”, um desfolhante químico altamente tóxico que também foi usado pelos Estados Unidos na Guerra do Vietnã. A arma química era usada pelas tropas estadunidenses para desmatar florestas e impedir que soldados vietnamitas se escondessem na vegetação.

Danilo Rheinheimer dos Santos, professor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e referência na análise de agrotóxicos em água, alerta que os impactos ambientais e à saúde são profundos e duradouros. “Essa conversa de que os agrotóxicos são facilmente biodegradáveis não é verdadeira. Eles têm alta permanência, especialmente na água”, explica.

Segundo ele, mesmo que medições posteriores não constatem mais a presença dos produtos na água, não é possível garantir que o ambiente não estará contaminado. “Produtos como o 2,4-D e o picloram impregnam nas rochas e nos biofilmes epilíticos do fundo do rio, contaminando tudo por anos.” 

“Os agrotóxicos não desaparecem simplesmente à medida que o rio segue seu curso. Eles se diluem, mas deixam um rastro. Mesmo 40 ou 50 quilômetros rio abaixo, as moléculas podem estar presentes, contaminando a fauna aquática e os organismos bentônicos, como moluscos e peixes”, detalha Rheinheimer.

O professor reforça que a contaminação pode alcançar toda a cadeia alimentar, com riscos para a saúde humana. “Bactérias, algas e peixes que não morrerem agora ficarão contaminados, passando esse impacto para toda a cadeia trófica. Isso é um desastre terrível,” conclui.

O peso do 2,4-D: um veneno de longo prazo

Entre os produtos químicos derramados no acidente, o 2,4-D chama atenção por seus efeitos nocivos. Classificado como um “gatilho hormonal”, o herbicida é associado a casos de câncer e proibido na União Europeia.

“Com o derramamento de quase 9 mil quilos desse veneno, os efeitos não serão localizados ou temporários. Estamos falando de algo que vai se impregnar nos sedimentos e permanecer ativo por muitos anos, talvez décadas,” afirma Leonardo Melgarejo, engenheiro agrônomo e membro da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e Pela Vida.

Melgarejo reforça que a desestruturação causada por esse tipo de contaminação não aparece de imediato. “Os problemas de saúde, como casos de câncer, podem surgir décadas depois, mas suas raízes estarão neste desastre e na irresponsabilidade que permitiu a fabricação e o transporte desse veneno no Brasil,” denuncia.

Outro produto transportado era o acetamiprid, inseticida da classe dos neonicotinóides. Ele é amplamente reconhecido por seu impacto devastador sobre abelhas e aves. Já o picloram, outro agrotóxico envolvido, será proibido na União Europeia a partir de 2028, devido à sua toxicidade persistente e riscos ambientais.

O acidente ocorrido na ponte Juscelino Kubitschek onde dois caminhões  carregados de agrotóxico e ácido sulfúrico caíram sob o rio fez com que 19  cidades ficassem impedidas de consumir água do rio

Detalhes da carga derramada

Os pesticidas transportados nos caminhões incluíam:

  • Carnadine (acetampirid): inseticida neonicotinóide, com 500 litros transportados, totalizando 100 kg de princípio ativo.

  • Pique (picloram): herbicida, com 2.700 litros transportados, totalizando 1.048 kg de princípio ativo.

  • Tractor (picloram): herbicida, com 22.080 litros transportados, totalizando 2.274 kg de princípio ativo.

  • Tractor (2,4-D): herbicida hormonal, com 22.080 litros transportados, totalizando 8.964 kg de princípio ativo.

O total transportado chegou a 12.386 kg de princípios ativos altamente tóxicos.

Medidas emergenciais e alertas à população

Por precaução, o governo do Maranhão recomendou a suspensão da captação de água nos municípios banhados pelo rio Tocantins. As prefeituras de Estreito (MA) e Aguiarnópolis (TO) emitiram alertas para que a população evite contato com a água devido ao risco de queimaduras químicas e intoxicação.

A Agência Nacional de Águas (ANA) iniciou coletas em cinco pontos do rio para monitorar os parâmetros de qualidade da água.

No entanto, segundo Heinheimer, as medidas emergenciais podem não ser suficientes. “Mesmo que o monitoramento aponte baixos níveis de contaminação agora, os resíduos estarão impregnados nos sedimentos, e os impactos continuarão a surgir ao longo do tempo,” alerta.

Queda de ponte entre Tocantins e Maranhão tem relação com impacto do agronegócio na região, diz pesquisadora

A tragédia evidenciou problemas estruturais históricos denunciados pela população local. Construída na década de 1960, a Ponte Juscelino Kubitschek está localizada na região do Matopiba, epicentro do crescimento do agronegócio no Brasil. Nas últimas décadas, a produção de commodities como soja e milho transformou a paisagem da região e sobrecarregou a infraestrutura de transporte.

“O desabamento da ponte é um marcador de alerta de que precisamos de fiscalização e comprometimento com essas infraestruturas. Isso também está diretamente relacionado ao avanço voraz do agronegócio, que impulsiona o transporte pesado e agrava os impactos ambientais,” destaca Gilvânia Ferreira, doutoranda em Estudos Sociais Agrários.

Nos últimos dez anos, a produção de grãos no Matopiba aumentou 92%, de 18 milhões de toneladas na safra 2013/14 para 35 milhões atualmente. Os principais produtos são soja, milho e algodão. Um estudo do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), mostra que a escalada vai continuar e pode chegar a 37% nos próximos 10 anos.

A professora ressalta que os danos não são apenas econômicos, mas sociais e ambientais. “Essa ponte simboliza a destruição de territórios e modos de vida. O avanço da monocultura prejudica a produção familiar, contamina as águas e coloca em risco a saúde humana e dos animais,” explica.

Enquanto o Ministério Público e o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes apuram as causas do acidente, o Ministro dos Transportes, Renan Filho, prometeu a reconstrução da ponte até 2025. Porém, especialistas e moradores alertam que, sem mudanças estruturais e no modelo de produção agrícola predominante, tragédias como esta continuarão a ocorrer.

Edição: Geisa Marques


Fonte: Brasil de Fato

Rios secando em meio ao avanço do desmatamento sinalizam para grave crise hídrica no Brasil

crise hidrica

Quando se olha para a situação geral dos rios brasileiros, a avaliação está longe de ser boa. É que tudo indica que estamos testemunhando um processo de ressecamento nas bacias ligadas às florestas da Amazônia e do Cerrado.  E o pior é que a voracidade do latifúndio agro-exportador por mais desmatamento está sendo alimentada por um conjuntov de projetos de logística orientados para a pavimentação de estradas como a BR-319 e a construção de ferrovias como a Ferrogrão

Para piorar esse cenário em diferentes estados e municípios o cenário de 2024 foi marcado pela aprovação de uma série de leis para fragilizar leis ambientais com o único objetivo de facilitar ainda mais a ação destruidora das monoculturas, mesmo em estados como o Rio Grande do Sul que foi devastado por eventos extremos de chuvas.  

Um componente extra dessa tempestade perfeita é o aumento da poluição nos rios, especialmente pelo lançado de substâncias tóxicas associadas às atividades de mineração e das monoculturas.  As evidências científicas já apontam para o aumento da carga de metais pesados (especialmente a do mercúrio liberada pelo garimpo de ouro) e de agrotóxicos em grandes rios brasileiros.

O que teremos com o somatório desses componentes sinaliza para rios cada vez mais secos e poluídos em meio a um crescente aumento da população urbana.  Eu não me surpreenderia se já em 2025 começarmos a ver uma crise persistente em estados importantes como Rio de Janeiro e São Paulo, especialmente nas suas principais áreas metropolitanas.

O fato inescapável é que estamos na antessala de uma grave crise hídrica e que não se resumirá à oscilações sazonais nas intensidades de precipitação. Por isso, é urgente que se refaça uma profunda reorganização dos mecanismos de controle social do acesso à água. Os atuais comitês de bacias hidrográficas já se mostraram insuficientes para enfrentar uma crise do tamanho que estamos enfrentando. Até porque eles são ferramentas para o gerenciamento privado das águas, e o que está posto vai muito além desse cenário.

 

Queda de ponte entre Tocantins e Maranhão tem relação com impacto do agronegócio na região, diz pesquisadora

Estrutura fica na região do Matopiba, que viu as monoculturas aumentarem mais de 90% nos últimos dez anos

As buscas por desaparecidos foram interrompidas devido ao risco de contaminação por agrotóxicos – Divulgação/Governo do Maranhão

Por Nara Lacerda e Mariana Castro para o “Brasil de Fato” 

queda da Ponte Juscelino Kubitschek de Oliveira, que passa sobre o rio Tocantins e ligava os municípios de Estreito (MA) e Aguiarnópolis (TO), trouxe à tona denúncias antigas de negligência e falta de manutenção na estrutura, que vinham da própria população local. 

Construída na década de 1960, a ponte está localizada na região em que o agronegócio mais cresce no Brasil. Conhecida como Matopiba, ela engloba os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Nas últimas décadas, o avanço da produção de commodities mudou a paisagem local da chamada última fronteira agrícola do território nacional. 

O acidente ocorreu na tarde de domingo de tarde, quando a estrutura cedeu sobre o rio Tocantins. Vídeos publicados na internet mostram a pista rachando e o momento do desabamento. Entre os veículos que caíram no rio, estavam quatro caminhões, dois automóveis e duas motocicletas. Uma pessoa morreu e pelo menos 14 estão desaparecidas.

Horas depois as prefeituras de Estreito (MA) e Aguiarnópolis (TO) emitiram alertas de contaminação da água à população. Caminhões que caíram no rio transportavam ácido sulfúrico e herbicidas. Nesta segunda-feira (23), a Rede de Agroecologia do Maranhão publicou nota apontando uma tragédia anunciada. 

“Além da situação da ponte, que já estava com rachaduras denunciadas pela comunidade local, há que se atentar para o fato de que o transporte de substâncias como esses químicos, também representa perigos à vida. O Maranhão tem sido rota da estrutura logística de importação de agrotóxicos, que chegam pelas instalações portuárias de São Luís e são distribuídos para diversas cidades e estados, onde o agronegócio e a pulverização aérea de agrotóxicos têm avançado cada vez mais.” 

Em análise ao Brasil de Fato, a doutoranda em Estudos Sociais Agrários Gilvânia Ferreira também alertou para o problema. Professora da Universidade Estadual da Região Tocantina do Maranhão, ela observa de perto os impactos do aumento da atividade agrícola na região. 

“O desabamento da ponte é um marcador de alerta de que é preciso ter uma fiscalização, uma preocupação e um comprometimento com essas infraestruturas, mas, principalmente, com a população, para que nenhum outro acidente possa ocorrer mais.” 

Nos últimos dez anos, a produção de grãos no Matopiba aumentou 92%, de 18 milhões de toneladas na safra 2013/14 para 35 milhões atualmente. Os principais produtos são soja, milho e algodão. Um estudo do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), mostra que a escalada vai continuar e pode chegar a 37% nos próximos 10 anos. 

De acordo com a professora Gilvânia Ferreira, o acidente está diretamente relacionado a esse cenário. “A dinâmica econômica estabelecida na região, considerada a última fronteira agrícola, onde o agronegócio se expande com voracidade e rápido e o crescimento da produção de soja, impulsionado pelo uso de fertilizantes e agrotóxicos, gera um grande volume de transporte de cargas, sobrecarregando infraestruturas como a ponte que desabou.”

Ela alertou também para os diversos problemas causados pela expansão do agronegócio, que vão dos danos ao meio ambiente à precarização da vida de populações tradicionais. “Tudo isso vem com o pacote completo, o desmatamento, as queimadas, os conflitos agrários, o assassinato de trabalhadores, camponeses, quilombolas e comunidades indígenas.” 

Para a professora, com o acidente, a ponte se torna um símbolo da destruição do território e dos modos de vida das pessoas que vivem na região. Ela alerta que a ampliação da monocultura prejudica a produção familiar, contamina as águas e prejudica a saúde humana e dos animais. 

“Essa ponte que liga os dois estados também é uma ponte que favorece a expansão dos monocultivos e a exploração dos trabalhadores, mas principalmente da natureza. Há muitos impactos ambientais que o desmatamento traz para a nossa para a região e a população é a mais impactada. No caso desses caminhões que caíram no rio, com certeza as famílias ribeirinhas serão as mais impactadas.” 

Ainda no domingo, a ponte foi totalmente interditada pelo DNIT, que informou que vai apurar as causas do acidente. O Ministro dos Transportes, Renan Filho, determinou a abertura de uma sindicância para investigar o caso e prometeu a reconstrução da estrutura em 2025.  

O Ministério Público dos estados do Maranhão e Tocantins também se manifestaram, afirmando que irão acompanhar as investigações e tomar as medidas cabíveis para garantir a responsabilização dos envolvidos e a segurança da população.

Edição: Rodrigo Chagas


Fonte: Brasil de Fato

Denúncia importante: Agronegócio age para controlar produção de material didático e acabar com a liberdade de cátedra

material escolar

Não basta ser pop, o agro quer fazer a cabeça de estudantes e interferir nas escola 

Já faz algum tempo que se sabe que o latifúndo agro-exportador vem se organizando para interferir no material escolar dirigido às crianças e jovens brasileiros. A alegação é evitar a propagação de ideias negativas sobre as práticas desse setor que se esconde sob o rótulo de “agronegócio”. 

Não basta ser pop, o agro quer fazer a cabeça de estudantes e interferir nas escolas

Mas o vídeo abaixo, produzido pelo canal “Andanças Educativas” que é mantido pela professora Giuliana Mordente da Universidade do Estado do Rio de Janeiro traça um cenário mais claro e preocupante das ações que estão sendo realizadas para maquiar a imagem do latifúndio agro-exportador.

Em 2025 um dos principais enfrentamentos políticos que deverão ser travados pela sociedade civil, pais e professores será impedir o avanço dessa corrente de desinformação.

O agro é tóxico, desmatador, e também doutrinador.

É possível “fazer as pazes com o passado”? Depende!

past mistakes

Por Douglas Barreto da Mata

Uma importante liderança da atividade agroindustrial campista, que ainda hoje é parte relevante da dinâmica econômica regional, se manifestou em um jornal citadino. Eis a proposta: Fazer as pazes com o passado, e superadas todas as divergências, vamos rumo ao futuro.

Infelizmente, em pleno século XXI, um dos ramos mais atrasados da esfera primária-secundária da produção agroindustrial ainda tem voz ativa em Campos dos Goytacazes, e arredores, o que diz mais a respeito da cidade, do que do próprio setor.

É texto de boa forma, incomum para o baixo calão intelectual da maioria dos empresários do setor. Porém, só na forma, porque o conteúdo é horrível. Ensina a História que “pacificar” o passado é uma tarefa que só é possível se atribuirmos a cada um a responsabilidade pelos seus atos, na medida mais próxima da proporção dos estragos que causaram. Assim fizeram todos países (re) democratizados na  América Latina, após os regimes militares das décadas de 1960 e 1970, com exceção do Brasil.

É desse modo que a maioria dos sistemas de Justiça funcionam, ao redor do planeta, isto é, só temos a “pacificação” com a reparação resultante de um processo legal, e acima de tudo, justo. O que deseja o nosso industrial é justamente o contrário.

Ele quer um “passar de pano histórico”, onde se esqueça que, apesar de certo impulso econômico trazido pela atividade que defende e faz parte, o fato é que os benefícios se concentraram firmemente no topo da pirâmide social (onde ele habita), e trouxeram, para além do vergonhoso período escravocrata, uma desigualdade brutal.

Dessa desigualdade advém toda a gama de violação de direitos básicos e da capacidade do trabalhador da atividade econômica agroindustrial de exercer sua cidadania.

A “memória afetiva” que o autor do texto evocou, dizendo que a agroindústria trouxe progressos e patrimônios culturais, que provariam uma certa “boa alma” dos empresários, não se sustenta, na medida que estes equipamentos só existiram para locupletação e gozo das elites e setores médios, para auto ilustração e delírios cosmopolitas, para encobrir um dia a dia de hábitos selvagens com os mais pobres, que nunca tinham acesso a tais requintes.

Bibliotecas para uma cidade de analfabetos, teatros onde negros e pobres só entravam para limpar sa latrinas. A primeira cidade a ter luz elétrica, e em pleno século XX, boa parte da zona rural teve que ser atendida por programas de eletrificação rural para as populações pobres. Foi apenas quando a cidade passou a se livrar da agro-dependência que houve uma singela melhora na qualidade da vida democrática e econômica dos mais pobres.

Se a economia é um fator/evento histórico, podemos dizer que o modelo defendido por ele deixou um legado de anemia que até hoje não conseguiu ser superado a contento, ficando a cargo do poder público sustentar boa parte da mão-de-obra que trabalhou para o setor, ou aquela que ainda trabalha.

Seja com programas sociais, seja com a estrutura de proteção pública, já que ao trabalhador do setor agroindustrial não é permitido o “luxo” de ter um carro, contratar planos de saúde, ou efetuar matrículas nas escolas particulares para seus filhos.

Falta de incentivo não foi. A atividade sempre gozou e goza dos favores fiscais de governos, desde o Proálcool até a isenção de ICMS de dias atuais. Milhões ou bilhões de dólares para gerar empregos de baixa remuneração, dano ambiental e pouco retorno em escala econômica de desenvolvimento. Só o Fundecam rendeu uma dívida de R$ 400 milhões aos cofres públicos, é bom lembrar.

O usineiro pede que possamos dar as mãos rumo a um futuro promissor. Para quem? Até hoje nenhuma instituição representativa do setor veio a público pedir desculpas pelos corpos incinerados nos fornos de uma usina. Seria o básico para qualquer ajuste de contas, e uma caminhada para a civilidade, com a promessa de que isso nunca mais se repetirá.

Nada.  Nenhum murmúrio sequer, só um “não é comigo” típico dos covardes. Fazer as pazes sem cobrar ao setor agroindustrial as suas responsabilidades pelo atraso da cidade, inferindo que só houve um legado positivo, é retirar da sociedade a capacidade de aprender com seus erros, e evitar as repetições de tais equívocos no futuro.

Ele deseja, ao contrário, um “futuro da amnésia”. Toda vez que “varremos o passado” para baixo do tapete, sem as restituições necessárias, condenamos as gerações vindouras aos mesmos males de antes:

Um desenvolvimento hierárquico, onde os mais ricos ficam muito mais ricos, e os pobres, cada vez mais pobres. Enfim, como diz a música, “paz sem voz não é paz, é medo”.

Em 10 anos, Brasil perde força em pesquisa na área quântica, tema chave para soberania nacional

bori quanticoChina e Estados Unidos estão no topo das pesquisas na área quântica, concentrando cerca de metade da produção mundial

bori conteudo

O Brasil corre o risco de ficar para trás em uma das fronteiras da ciência global, as tecnologias quânticas, se não tratar o tema como uma prioridade estratégica nos próximos anos. É o que mostra o levantamento “A produção científica mundial em ciência e tecnologia quânticas e a participação brasileira – 2014-2023, da Agência Bori e da Elsevier, publicado nesta quinta (19).

Os dados revelam uma queda na participação brasileira no cenário mundial na pesquisa em ciência e tecnologia quânticas: o país, que ocupava a 19a posição no mundo em 2014, caiu para o 21o lugar em 2023. Considerando todas as áreas do conhecimento, o Brasil estava em 14o lugar mundial em termos de produção científica em 2023. A produção científica na área quântica está, portanto, abaixo da média nacional.

O levantamento da Bori-Elsevier analisou a produção científica dos 24 países que mais publicaram estudos em ciência e tecnologia quânticas no mundo, entre eles o Brasil, no período de 2014 a 2023. Foram considerados todos os tipos de publicações científicas, incluindo artigos, editoriais, revisões e outros.

Para a análise, foi usada a ferramenta analítica SciVal da Elsevier, que facilita o acesso aos dados da base de dados Scopus, cobrindo mais de 85 milhões de publicações editadas por mais de sete mil editoras científicas no mundo. Este é o sexto relatório da parceria entre a Elsevier e a Bori que se baseia nessa ferramenta.

“A perda de posições no ranking e o posicionamento atual abaixo do nosso ranking geral em pesquisas nos sinaliza que o Brasil deve reforçar a prioridade sobre pesquisas em áreas com poder de permitir ao país não ficar dependente de outros em tecnologias consideradas essenciais para o futuro, como IA e tecnologias quânticas”, diz Dante Cid, vice-presidente de Relações Acadêmicas da América Latina da editora Elsevier.

O relatório vem à tona alguns dias depois de o Google ter anunciado um chip quântico — ainda experimental — que, segundo a empresa, leva cinco minutos para resolver um problema que os supercomputadores atuais levariam septilhões de anos para processar (impossível, portanto).
No topo das pesquisas na área quântica, mostram os dados da Bori-Elsevier, estão China e Estados Unidos. Juntos, os dois países concentram metade da produção de conhecimento nessa área em 2023. China e EUA também lideram a ciência mundial em todas as áreas do conhecimento.

“O aumento da distância que separa o Brasil dos países líderes em pesquisa quântica, nos últimos dez anos, não apenas acende um alerta, mas soa o alarme de que precisamos, como país, ter ações imediatas e coordenadas: é preciso intensificar o investimento em infraestrutura, promover políticas de incentivo ao desenvolvimento tecnológico e estreitar parcerias internacionais. Somente assim o Brasil poderá fortalecer sua soberania científica e se posicionar de forma competitiva frente às inovações disruptivas que moldarão o futuro”, explica Estevão Gamba, cientista de dados da Bori.

“Nesse sentido, a Bori tem um papel de catalisar essa transformação ao promover uma aproximação entre academia, setor privado e governos, estabelecendo espaços de discussão e facilitando a circulação de ideias, a definição de agendas estratégicas e a identificação de oportunidades de cooperação”, diz.

Quântica no Brasil

Ao todo, 121 instituições brasileiras tiveram publicações na área no período de 2014 a 2023, com liderança da USP, da Unicamp e da UFRJ. Além disso, os dados mostram que 115 patentes em tecnologia quântica mundo afora citam 51 publicações de autores brasileiros na área.

“Cinco países possuem mais patentes citando pesquisas brasileiras que o próprio Brasil. Isto indica que podemos aprimorar a aplicação prática das pesquisas aqui realizadas”, destaca Cid, da Elsevier.

Olhar para a ciência quântica é importante. Apesar de as possibilidades de aplicação ainda estarem ainda em fase embrionária, há expectativas de uso na segurança e na soberania dos países, que dependem da inviolabilidade de suas informações criptografadas. Na prática, o modo como processamos e analisamos problemas complexos ou como protegemos informação crítica podem ser completamente transformados quando computadores quânticos estiverem disponíveis.

O tema deve ser central na área acadêmica em 2025, com a proclamação, pela ONU, do Ano Internacional da Ciência e Tecnologia Quântica (IYQ). No ano que vem completam-se 100 anos do estabelecimento da mecânica quântica como área de conhecimento científico.


Fonte: Agência Bori

Comentários de má qualidade — um caminho rápido e sujo para números de maior impacto — estão aumentando

Conteúdo gerado por IA inunda literatura com publicações de baixa qualidade e lança dúvidas sobre métricas, descobre investigação conjunta da Science e da Retraction Watch

science cover

Por Frederik Joelving, Retraction Watch, para a Science

Em 22 de outubro, um editorial incomum apareceu no periódico Neurosurgical Review . “Tomamos a difícil decisão de pausar temporariamente a aceitação de cartas ao editor e manuscritos de comentários”, escreveu o editor-chefe Daniel Prevedello , um neurocirurgião da Ohio State University. A publicação foi derrubada por um “aumento sem precedentes” em comentários enviados que pareciam ser “impulsionados por” avanços em ferramentas de inteligência artificial (IA), como o ChatGPT, ele explicou.

 A Neurosurgical Review não é a única revista sobrecarregada por artigos de comentários, uma investigação conjunta da Science e da Retraction Watch descobre. Eles agora compõem 70% do conteúdo do Oral Oncology Reports da Elsevier e quase metade do International Journal of Surgery Open da Wolters Kluwer . Na Neurosurgical Review , um título da Springer Nature, cartas, comentários e editoriais compreenderam 58% da produção total de janeiro a outubro — acima dos 9% do ano passado. Mais de 80% desses comentários são de países do sul da Ásia, em comparação com menos de 20% dos artigos de pesquisa e revisão.

A investigação da Science e da Retraction Watch sugere que autores, periódicos e instituições se beneficiam do esquema, que inunda a literatura com publicações de baixa qualidade e lança dúvidas sobre métricas de produção acadêmica e impacto. Para autores, comentários podem ser uma maneira rápida e fácil de acumular publicações e citações. Autores “só querem um artigo indexado no PubMed. É isso”, diz Shirish Rao, um recém-formado em medicina que trabalha em um hospital em Mumbai, Índia. Comentários são um caminho ideal porque “você realmente não precisa de dados originais”, então ferramentas de IA podem gerá-los em quase nenhum momento, explica Rao, que é membro da Association for Socially Applicable Research, um think tank sem fins lucrativos. E como raramente são revisados ​​por pares, eles são normalmente mais fáceis de serem colocados em periódicos do que um artigo de pesquisa.

Publicar esses artigos também pode ser um bom negócio para os periódicos. Por um lado, muitos cobram taxas de publicação por comentários. Eles também oferecem uma oportunidade madura para manipular o fator de impacto do periódico, uma medida baseada em citações que dá peso extra a artigos de opinião. Comentários “são um almoço grátis” para periódicos, diz John Ioannidis, especialista em bibliometria da Universidade de Stanford. Os periódicos também podem pedir aos autores que adicionem citações aos próprios artigos da publicação, dando outro impulso ao fator de impacto.

Quanto às instituições, os comentários oferecem uma maneira fácil de inflar seus números de produção e citação e, portanto, impulsionar suas classificações, que são usadas agressivamente para publicidade, diz Moumita Koley, analista sênior de pesquisa do Instituto Indiano de Ciência. Várias universidades privadas na Índia parecem estar manipulando suas classificações , de acordo com Achal Agrawal, cientista de dados da Universidade Sitare e fundador da organização sem fins lucrativos India Research Watchdog. “Se você estiver medindo a pesquisa pela quantidade [de artigos científicos] ou pelo número de citações, verá que a Índia está subindo muito bem”, diz ele. “Se você se aprofundar um pouco mais… perceberá que estamos indo bem porque estamos manipulando essas métricas, não porque estamos realmente produzindo uma pesquisa melhor.”

Uma olhada nos bastidores da Neurosurgical Review destaca um exemplo provável. Quatro dias antes do anúncio de Prevedello suspendendo todos os comentários, um e-mail anônimo chegou em sua caixa de entrada. O e-mail, que o remetente compartilhou com o Retraction Watch, detalhou como, nos 2 meses anteriores, três autores de uma universidade na Índia publicaram “surpreendentes 69 comentários” no periódico. Quase todos eles pareciam ter sido escritos por máquina e careciam de “relevância substancial”, de acordo com o e-mail. As publicações também citavam trabalhos “irrelevantes” de outros pesquisadores da mesma instituição que os autores — Saveetha University.

Saveetha, que hospeda a principal escola de odontologia da Índia, tem um histórico de manipulação de métricas para melhorar suas classificações. Uma investigação de 2023 da Science e da Retraction Watch descobriu que a instituição coagiu alunos a escrever milhares de artigos de pesquisa durante os exames que foram então fornecidos com citações inapropriadas para outros trabalhos da Saveetha . A Retraction Watch relatou mais tarde que a escola ofereceu pagamentos a autores prolíficos ao redor do mundo para listá-la como uma afiliação em suas publicações .

Um representante da Saveetha escreveu que sua instituição havia “ordenado uma investigação formal e tomará as medidas apropriadas se qualquer irregularidade for identificada”. Mas ele argumentou: “É absurdo alegar que a instituição tem qualquer papel em tais supostas práticas”, alegando falsamente que, como os comentários “são excluídos por todas as agências de classificação”, não haveria “nenhum benefício para ninguém manipular essas citações”. A escola também apontou o dedo para a Neurosurgical Review , que este ano publicou 466 comentários, 120 dos quais eram de autores da Saveetha. “Por que o periódico não está sendo investigado?”

Prevedello se recusou a responder como seu periódico pôde publicar tantos comentários com claras bandeiras vermelhas em um período de tempo tão curto, embora seus números tenham começado a crescer logo depois que ele assumiu o comando em janeiro de 2023. Um porta-voz da Springer Nature disse que a editora estava “analisando o assunto com urgência”, mas não poderia “compartilhar mais informações” neste momento.

Uma perseguição de papel

Comentários aumentaram como uma porcentagem do total de artigos em cinco periódicos na última década. Autores da Saveetha University, conhecida por manipular classificações de publicações, publicaram comentários em todos os cinco. ( Oral Oncology Reports começou a publicar em 2022.)

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(Gráfico) V. Penny/ Ciência ; (Dados) Reese Richardson

Os comentários na Neurosurgical Review são apenas uma pequena parte das mais de 1.200 cartas, editoriais e comentários escritos por acadêmicos afiliados à Saveetha neste ano — um aumento de nove vezes em relação ao ano passado, de acordo com Reese Richardson, da Northwestern University, especialista em bibliometria que contribuiu para a análise.

Science and Retraction Watch examinou os cinco periódicos que publicaram a maioria deles. Na maioria desses periódicos, os comentários começaram contribuindo apenas modestamente, se tanto, para os volumes do periódico, e depois aumentaram nos últimos anos. Um porta-voz da Elsevier, editora de dois dos títulos, disse: “Temos um rigoroso processo editorial em vigor. [Nós] continuaremos monitorando os padrões de autoria e citação, e estamos vigilantes para garantir que nossos padrões editoriais sejam mantidos.”

Verificações pontuais sistemáticas em todos os periódicos revelaram que os autores da Saveetha frequentemente citavam pesquisadores de sua própria instituição. A Neurosurgical Review teve a maior taxa de autocitações institucionais, com oito de 10 comentários amostrados da Saveetha referenciando outros trabalhos da Saveetha. “Este é claramente um esquema para inflar contagens de publicações e citações”, diz Richardson. Koley, que leu alguns dos comentários da Saveetha, os chama de “sem sentido” e “definitivamente” gerados por IA.

Cerca de 200 dos comentários da Saveetha publicados este ano incluem como autor o escritor de comentários mais prolífico do mundo, o médico tailandês Viroj Wiwanitkit, que envia mais de 500 cartas ao editor anualmente . Wiwanitkit listou uma variedade de afiliações universitárias em suas publicações; na Saveetha, ele “é um corpo docente de pesquisa em meio período”, diz o registrador da universidade. Wiwanitkit não respondeu a e-mails repetidos solicitando comentários.

Ele pode estar inspirando outros. “Talvez outras pessoas tenham entendido, ‘Ei, isso está funcionando bem; se ele pode escrever comentários, nós também podemos escrever comentários’”, diz Agrawal. “Eu não tinha visto ninguém mais usando esse truque até agora.”


Fonte: Science

Edição comparativa do Índice de Transparência da Moda Brasil avalia seis anos de dados das maiores marcas de moda

Pela primeira vez, edição especial da pesquisa traz uma análise comparada das informações socioambientais divulgadas pelas maiores marcas de moda no Brasil

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Desde 2018, o Instituto Fashion Revolution Brasil desempenhou um papel pioneiro ao impulsionar a transparência nas grandes marcas, e o ITMB se consolidou como uma das ferramentas mais importantes nesse processo. A pesquisa, que, entre 2018 e 2023, expandiu sua análise de 20 para 60 marcas, avaliou e ranqueou a divulgação pública de informações sociais e ambientais dessas empresas. Isso permitiu a criação de uma extensa base de dados sobre os desafios socioambientais da moda em nosso país.

Pela primeira vez, o ITMB apresenta uma edição comparativa, que oferece um balanço desses últimos seis anos da pesquisa. Nessa análise, são avaliados como e o que as maiores marcas e varejistas no Brasil divulgaram sobre suas políticas, práticas e impactos sociais e ambientais. O estudo examina os desafios persistentes e a divulgação de boas práticas adotadas ao longo do período, proporcionando uma visão ampla sobre os avanços, retrocessos e estagnações da indústria.

Além da análise comparativa, a pesquisa deste ano incluiu um estudo de impacto com as marcas participantes, visando compreender os efeitos e impactos do próprio ITMB. Os resultados mostram que 68% das marcas reconhecem que o Índice impulsionou suas práticas de sustentabilidade e transparência, enquanto 72% percebem mudanças internas como resultado da participação no projeto. As conclusões confirmam que medir a transparência das marcas pode ser um verdadeiro motor de mudança, levando a melhorias contínuas, ressaltando a necessidade de um engajamento cada vez maior da indústria nesse processo.

Entre 2018 e 2023, houve um avanço na transparência na moda: a pontuação média das marcas subiu de 17% para 22%

No relatório comparativo de 2024, foram destacados quatro temas-chave para a análise: meio ambiente, direitos humanos, governança e rastreabilidade, com foco nas áreas prioritárias e nas mudanças observadas ao longo dos anos. Apesar desse progresso na pontuação média de transparência (de 17% em 2018 para 22% em 2023), o avanço das marcas ainda é considerado lento, especialmente frente aos desafios sociais e ambientais perpetuados por essa indústria.

Na seção de meio ambiente foram comparados tópicos fundamentais para direcionar a moda no combate aos impactos climáticos, como emissão de gases de efeito estufa e circularidade. Houve um aumento significativo na divulgação de emissões de gases de efeito estufa pelas marcas, passando de 17% em 2019 para 45% em 2023 (nos Escopos 1 e 2) e,

referente à cadeia de fornecimento, de 10% em 2019 para 40% em 2023 (Escopo 3). No entanto, em relação à circularidade, poucas empresas informam quantos produtos são projetados para serem reciclados ao fim da vida útil, evidenciando que práticas para a moda circular ainda estão em fase inicial, com avanços tímidos: de 6% em 2021 para 8% em 2023.

A transparência avançou em ritmo insuficiente para enfrentar as violações de direitos humanos do setor

Na seção de Direitos Humanos, são discutidos temas como direitos trabalhistas, trabalhadores migrantes e o trabalho escravo contemporâneo no setor. Dentre os temas analisados pelo Índice, o que apresentou menor crescimento em transparência ao longo dos anos foi a divulgação de informações sobre salários justos ao longo da cadeia de fornecimento. A pontuação média das marcas nesses indicadores passou de 3% em 2022 para 6% em 2023.

Quanto à igualdade de gênero e racial, notou-se que a questão racial ainda não é uma prioridade para grande parte das marcas. Embora a divulgação de programas de desenvolvimento de carreira para reduzir desigualdades de gênero internamente tenha crescido de 16% em 2021 para 27% em 2023, os programas voltados para a desigualdade racial apresentaram um aumento bem mais tímido, subindo de 6% para apenas 13% no mesmo período. Além disso, é importante destacar que a transparência sobre ações voltadas para reduzir a desigualdade de gênero e racial é mais baixa no nível da cadeia de fornecimento. Entre 2022 e 2023, a divulgação de ações com foco na promoção de igualdade de gênero nas instalações dos fornecedores passou de 5% para 7% e sobre igualdade racial e étnica passou de 2% para 3%.

Apesar de um expressivo aumento na transparência da divulgação de listas de fornecedores, mais da metade das empresas ainda não publica essas informações

Em Governança, o ITM mostrou que a transparência é impulsionada por exigências regulatórias, visto que as marcas de capital aberto tendem a ser mais transparentes sobre o tema. Das 60 marcas analisadas em 2023, 21 eram listadas em bolsas de valores, com uma pontuação média de 51%, em contraste com apenas 12% das 39 empresas de capital fechado.

A seção de Rastreabilidade foi a que apresentou o maior crescimento na pontuação média geral, passando de 12% em 2018 para 25% em 2023. Focada na divulgação das listas de fornecedores, ela abrange três níveis: fornecedores diretos, instalações de processamento e fornecedores de matéria-prima. A transparência sobre a rastreabilidade permite mapear e monitorar riscos sociais e ambientais, facilita a mitigação colaborativa de problemas e promove uma mudança real nas cadeias de fornecimento.

Para Isabella Luglio, Coordenadora do projeto, “A edição comparativa do ITMB revela que, embora tenhamos que celebrar alguns avanços da transparência do setor nos últimos anos, ainda há muito a ser feito pelas marcas para enfrentar os impactos ambientais da moda e proteger os trabalhadores mais vulneráveis ao longo da cadeia de produção. A análise das divulgações feitas nos últimos anos não só destaca o que foi realizado, mas também aponta os próximos passos necessários para cobrar transparência das marcas, pressionando-as a adotar estratégias que enfrentem a crise climática e assegurem os direitos humanos no setor”.

Para acessar as principais descobertas do Índice de Transparência da Moda – Edição Comparativa,

 acesse aqui.

Sobre o Fashion Revolution

O Fashion Revolution é um movimento global e, no Brasil, é registrado desde 2018 como uma organização da sociedade civil que luta para acelerar a transição da moda brasileira rumo à justiça social e climática, com o objetivo de ser uma força para o bem. Atuamos por meio da comunicação, educação, colaboração e mobilização.