Ilha de calor gigante na cidade de São Paulo abrange bairros como Tucuruvi, Mooca, Freguesia do Ó e Jabaquara

Vista-do-Pico-do-Jaragua_Foto-Marcos-Santos_U0Y9926-1536x1024-Medio-1152x648Ilhas de calor na Grande São Paulo estão relacionadas à presença de edificações e menor número de áreas verdes 

bori conteudo

Um artigo publicado na “Revista Brasileira de Meteorologia” nesta sexta (1°) verifica as características relacionadas à formação de ilhas de calor na região metropolitana de São Paulo. Segundo pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), bairros como Tucuruvi, Mooca, Freguesia do Ó e Jabaquara têm maior média de temperatura e menor umidade do que localidades como Capela do Socorro e Riacho Grande, próximas à zona rural. A diferença de temperatura média entre ambos os grupos pode chegar a 4ºC. A área mais quente é caracterizada por menor presença de áreas verdes e pela maior ocupação do solo por construções residenciais e comerciais.

Para identificar padrões climáticos entre bairros com características semelhantes, os cientistas dividiram essas localidades em quatro agrupamentos considerando padrões climáticos – temperatura do ar, umidade e precipitação – e o uso do solo em um raio de 500 metros. Os dados do estudo foram obtidos em 30 estações meteorológicas da Região Metropolitana, monitoradas pelo Centro de Gerenciamento de Emergências Climáticas da Prefeitura de São Paulo, entre janeiro de 2009 e fevereiro de 2019. As informações de uso do solo foram coletadas na Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo.

Também fazem parte do grupo mais afetado as localidades de Vila Mariana, Sé, Pinheiros, Butantã, Lapa, Pirituba, Tremembé, Penha, Vila Formosa, Anhembi e Vila Prudente. Na primavera, em especial, a umidade relativa do ar diminui enquanto aumentam a temperatura e a formação de ilhas de calor. Já o grupo que inclui Capela do Socorro e Riacho Grande teve a menor variação de temperatura e precipitação, além de maior umidade relativa. Essas características estão associadas a um maior conforto térmico para os moradores.

O estudo ainda analisa outros dois agrupamentos: o que abrange Perus, Santana do Parnaíba, Itaquera, Itaim Paulista, Ipiranga, Vila Maria, Cidade Ademar e Campo Limpo e o que engloba Santo Amaro, M. Boi Mirim, Mauá, São Mateus e São Miguel Paulista. O primeiro apresentou alta média de ocupação de solo por edificações, superior a 75%, mas teve menor variação nas características climáticas em relação aos demais grupos. Já o último apresentou maior variação na temperatura, com desvio padrão de 0,67°C, e maior média de áreas verdes, mas teve menos pontos de observação.

Pedro Almeida, pesquisador da USP e principal autor do artigo, destaca que “aumentar a cobertura de áreas verdes é uma solução necessária para mitigar a intensidade da ilha de calor urbano”. Segundo o pesquisador, “outras estratégias incluem o uso de telhados verdes e superfícies reflexivas para reduzir a absorção de calor, além de políticas de planejamento urbano que promovam um equilíbrio entre edificações, arborização e áreas verdes”.

Almeida acrescenta que análises futuras podem incorporar fatores adicionais como dados socioeconômicos. Além disso, expandir o estudo para outras regiões urbanas do Brasil e do mundo pode aprimorar as comparações e contribuir para o debate sobre mitigação e adaptação às mudanças climáticas em áreas urbanas, avalia.


Fonte: Agência Bori

O imbróglio da reforma do Solar do Colégio tem novo capítulo: reitora da Uenf se reúne com vereadores

A Assessoria de Comunicação da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) publicou ontem uma nota dando conta da visita de três vereadores à reitora Rosana Rodrigues para tratar do imbróglio envolvendo o atraso na reforma do prédio histórico que abriga o Arquivo Público Municipal. A comissão de vereadores incluiu  os vereadores Fabio Ribeiro, Kassiano Tavares e Juninho Virgílio (ver imagem abaixo).

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Como a nota só deu espaço para as falas da reitora da Uenf, vamos esperar para ver o que dizem os vereadores sobre o que transpirou nesse encontro. 

Ainda sem saber se o que foi narrado acalmou os corações dos três vereadores, eu teria a dizer a eles, especialmente o meu colega de universidade Fábio Ribeiro, que sem a devida pressão, desse mato continuará não saindo coelho. 

E a meteorologia prevê chuvas com alguma intensidade para os próximos, nunca é demais lembrar.

O que vamos colocar no lugar do Qualis?

 Gabriela Trindade Perry, docente do Programa de Pós-graduação em Informática na Educação DA UFRGS, faz ponderações a respeito de ofício da Capes com propostas de mudanças na avaliação de periódicos

ILUSTRACAO-qualis-POR-Kezia-Mausolf1*Ilustração: Kezia Mausolf/ Programa de Extensão Histórias e Práticas Artísticas, DAV-IA/UFRGS

Por Gabriela Trindade Perry

O  Ofício Circular n.º 46/2024-DAV/CAPES, de 03 de outubro, mudou a forma como avaliamos a produção científica nacional. No 2.° parágrafo, lemos que a nova classificação não usará o Qualis, mas, sim, “indicadores bibliométricos” do artigo e do periódico, além de uma “análise qualitativa”.  

Eu não me surpreenderia se essa medida fosse bem recebida. Acredito que todos os envolvidos com produção científica tenham críticas ao Qualis na ponta da língua – por exemplo: periódicos cuja classificação em estratos elevados é injustificada e a inclusão no Qualis de revistas claramente predatórias. Meu ponto é que admitir que o Qualis tem problemas e limitações não implica que deveríamos abrir mão de um sistema nacional de avaliação quantitativa de qualidade da pesquisa, em favor dos tais “indicadores bibliométricos” que o ofício menciona. 

Esses “indicadores bibliométricos” parecem neutros, isonômicos e de fácil obtenção, pois o conceito por trás deles é muito simples: um artigo citado muitas vezes é melhor que um artigo citado poucas vezes. Certamente é preciso fazer ajustes, considerando a data de publicação, o histórico de publicações de cada pesquisador e a área na qual o artigo é classificado. Existem métricas que ajustam estes e outros parâmetros, tais como: atribuir uma janela de n anos para a contagem de citações, o índice-H e métricas da iniciativa Snowball, como Field-Weighted Citation Impact. Mas só é possível obter essas métricas se conseguirmos fazer a contagem das citações – e isso é absurdamente complexo e caro. 

Em primeiro lugar, a contagem só é feita considerando os documentos indexados pela plataforma fornecedora da métrica – vou falar das três que conheço: RELX (Scopus e Elsevier), Clarivate (JCR e Web of Science) e Google. Por esse motivo, a quantidade de citações de um mesmo artigo é diferente, já que essas plataformas não indexam os mesmos periódicos e têm procedimentos diferentes para fazer a contagem. O Google conta até mesmo citações feitas em pôsteres de feira de ciências, e por isso a quantidade de citações reportada é muito maior. Da mesma forma, o índice-H de um pesquisador é muito maior no Google do que na Scopus ou na Web of Science. Sendo assim, caso a Capes passe a usar “indicadores bibliométricos”, quem escolherá o fornecedor do indicador? Se a contagem for a do Google, talvez estivéssemos mais bem amparados pelo Qualis, que, bem ou mal, tem algum controle de qualidade. Contudo, como no currículo Lattes (integrado à plataforma Sucupira) constam as quantidades de citação da Scopus e da Web of Science, provavelmente serão estes os indicadores utilizados.  

Uma vez esclarecido o que são “indicadores bibliométricos”, vamos a um dos argumentos em favor da mudança na metodologia de avaliação: o fortalecimento dos periódicos nacionais e o acesso aberto à ciência.

Em relação a esse ponto, faço duas observações: (1) periódicos publicados por grandes editoras (tais como Springer, Taylor & Francis, Elsevier e Wiley) costumam cobrar dos leitores pelo acesso, ou dos autores pela publicação, e, em algumas áreas, o usual é que os periódicos de acesso aberto cobrem taxas de publicação; e (2) poucos periódicos nacionais estão indexados na Scopus e na Web of Science.  

Em relação à cobrança de taxas, podemos usar a tabela de APC (Article Processing Charges) da Elsevier para ver que a APC média é $2.500,00. É importante lembrar que, antes de pagar a taxa de publicação, a maioria dos autores precisará gastar com tradução, pois revistas com alto fator de impacto costumam exigir inglês impecável. Convém lembrar que a Portaria n.º 120, de 26 de abril de 2024, prevê a possibilidade de custear as taxas de publicação e que a Capes empenhou mais de $820.000,00 a Elsevier pelo acesso aos seus periódicos, de 2023 a 2025, além de diversos empenhos de objetivo semelhante com diversas outras empresas. 

Finalmente, em relação à indexação dos periódicos brasileiros nas plataformas da Scopus e Web of Science, não foi possível obter a lista de periódicos brasileiros – nem mesmo usando a Lei de Acesso à Informação. É possível, contudo, estimar a quantidade de periódicos brasileiros indexados cruzando os periódicos indexados pelo Qualis e a lista de periódicos indexados pela Scopus – dados disponíveis publicamente na internet.

A Scopus indexa pouco mais de 46.500 periódicos, e o Qualis 2017-2020 lista pouco mais de 31.300 títulos únicos. Supus que todos os periódicos brasileiros estavam listados no Qualis; logo, ao mesclar os ISSN do Qualis e da Scopus, obtive uma lista que contém pelo menos todos os periódicos brasileiros indexados pela Scopus (além de muitos outros periódicos estrangeiros nos quais pesquisadores brasileiros publicaram nesse quadriênio). Removi os periódicos que não estavam ativos em 2024 da Scopus e os que estavam classificados como “Trade jornal”. Por último, listei manualmente os nomes de editoras que indicavam ser estrangeiras (por exemplo “University of Coimbra” e “El Colegio Mexiquense”), e removi os periódicos por elas editados. Ao final do processo, restaram apenas 244 periódicos.

De forma semelhante, a classificação dos periódicos nas áreas do conhecimento também não é um processo objetivo, já que essa classificação não está presente na planilha do Qualis. Muitos dos títulos e sites dos periódicos não informam claramente a área, de modo que a classificação também pode ter equívocos. Mesmo admitindo algum erro, fica claro que muitas áreas estão sub-representadas. Treze áreas têm menos de 5 periódicos brasileiros indexados, sete têm entre 10 e 19 e apenas uma tem mais de 20. É preciso considerar que algumas áreas têm subdivisões, como Medicina, Ciências Agrárias, Ciências Biológicas e Engenharias. Os periódicos não indexados deixarão de ser vistos como veículos interessantes e, a menos que sejam resgatados pela “análise qualitativa” mencionada no ofício da Capes, podem desaparecer.

Finalmente, é necessário refletir se vale a pena delegar a empresas privadas estrangeiras a avaliação da nossa produção científica, pois isso nos deixa sujeitos aos interesses de empresas e à legislação de outro país em um assunto sensível e estratégico.

Se, por um lado, o rigor na obtenção das métricas baseadas em contagem é fundamental para o sucesso do modelo de negócio dessas empresas, o monopólio também é. RELX e Clarivate detêm um oligopólio da avaliação científica mundial, e não há motivo para supor que deixarão de usar isso para aumentar seus lucros. Algumas possibilidades são a venda de palavras-chave, de espaço de anúncio e criação de lista de tópicos mais buscados. Não é difícil, por exemplo, imaginar empresas de fertilizantes pagando por impulsionamento de artigos para que eles sejam listados nas primeiras páginas de buscas que incluírem tais-e-tais palavras-chave. Também não é difícil imaginar como o acesso de um país inteiro à produção científica poderia ser interrompido em caso de embargos – mesmo que esse país seja um colaborador ativo. Em resumo, a mesma estratégia usada pelo Google e pelas redes sociais para promover engajamento pode ser aplicável a essas plataformas. 

Encerro manifestando a certeza de que a Capes levou esses dados em consideração – além de muitos outros que pessoas (como eu) fora dos círculos de decisão não têm acesso –, bem como a esperança de estar enganada em relação aos meus prognósticos. 


Fonte: UFRGS

Estudo inédito mostra que 22 agrotóxicos de uso abundante estão associados ao câncer de próstata

prostate cancer pesticides

Por Douglas Main para o The New Lede

Uma nova pesquisa acrescenta evidências de que vários tipos de agrotóxicos— incluindo os herbicidas amplamente utilizados 2,4-D e glifosato — podem aumentar o risco de câncer de próstata.

Um estudo publicado em 4 de novembro no periódico Cancer examinou a relação entre a quantidade de agrotóxicos usados ​​em condados dos EUA em certos períodos de tempo e as taxas de câncer de próstata 14 anos depois. Quase duas dúzias desses produtos químicos foram consistentemente associados a um risco elevado da doença, que é o câncer mais comum em homens e é considerado o segundo mais mortal .

Os resultados sugerem que mais pesquisas são necessárias urgentemente para entender melhor o papel que agrotóxicos podem desempenhar no desenvolvimento deste e de outros tipos de câncer, escreveram os autores.

“Muitos agrotóxicos não foram suficientemente estudados quanto aos seus potenciais efeitos cancerígenos, particularmente em relação ao câncer de próstata”, disse o coautor do estudo Simon Soerensen , pesquisador de pós-doutorado na Universidade de Stanford.

As descobertas aumentam as preocupações sobre os impactos à saúde da exposição crônica a agrotóxicos e são apenas as mais recentes em anos de pesquisa que relacionam produtos químicos usados ​​na agricultura a diferentes tipos de câncer e outras doenças.

A Agência Internacional de Pesquisa sobre Câncer da Organização Mundial da Saúde classifica o 2,4-D como “possivelmente” cancerígeno para humanos, por exemplo. E seis outros agrotóxicos analisados ​​no estudo são atualmente classificados como “potenciais cancerígenos humanos” pela Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA). A EPA classifica o herbicida diuron em particular como um cancerígeno conhecido/provável.

O estudo também identificou quatro produtos químicos que estavam ligados não apenas à incidência de câncer de próstata, mas também à morte por ele. Entre eles estão três herbicidas, conhecidos como cloransulam-metil, diflufenzopir e trifluralina, e um inseticida chamado tiametoxam, que foi proibido para uso externo na União Europeia devido à sua toxicidade para abelhas.

Um dos herbicidas consistentemente associados ao câncer de próstata no artigo foi o 2,4-D. Essa descoberta se destaca por ser amplamente usada, disse John Leppert , urologista e pesquisador, também em Stanford.

O uso de 2,4-D em fazendas aumentou nos últimos anos, à medida que espécies de ervas daninhas desenvolveram resistência crescente a outros herbicidas, como o glifosato, o ingrediente ativo do Roundup e outras marcas desenvolvidas pela antiga Monsanto Co., levando os agricultores a aplicar alternativas ao glifosato.

O desenvolvimento de culturas que toleram ser pulverizadas com 2,4-D acelerou o uso nos últimos anos. Existem agora milhões de hectares de milho e soja plantados nos EUA que são geneticamente modificados para serem resistentes ao 2,4-D. O produto químico também é encontrado em produtos herbicidas comuns de quintal.

Um estudo de 2022 descobriu que quase um terço dos 14.395 participantes tinham níveis mensuráveis ​​de herbicida 2,4-D na urina.

No artigo sobre o câncer , os pesquisadores analisaram o uso de dezenas de agrotóxicos em nível de condado de 1997 a 2001 e, então, procuraram ver, para cada produto químico, se parecia haver uma ligação com casos de câncer no condado 14 anos depois, de 2011 a 2015. Eles fizeram a mesma coisa por um segundo período de tempo, analisando o uso de 2002 a 2006 e casos de câncer e mortes de 2016 a 2020.

Todos os 22 pagrotóxicos foram consistentemente associados ao câncer de próstata ao longo do tempo e do espaço. O artigo tentou quantificar essas ligações observando o quanto um aumento discreto no uso de qualquer produto químico dado em um condado comparado ao aumento da incidência de câncer de próstata lá.

Ele encontrou as ligações mais fortes para os herbicidas trifluralina, cloransulam-metil e tribenuronm; o fungicida propiconazol; e o inseticida paration. (Paration é um inseticida organofosforado altamente tóxico que foi proibido em muitos, se não na maioria dos países, incluindo os Estados Unidos .)

O estudo mostra que um aumento no desvio padrão do uso do herbicida trifluralina em condados, por exemplo, foi associado a sete casos adicionais de câncer de próstata por 100.000 indivíduos.

Como o câncer de próstata é tão comum e pode ser agressivo, é uma “tremenda preocupação de saúde” cujos fatores de risco ambientais subjacentes ainda são pouco compreendidos, disse Leppert.

“Acho que precisamos estar mais conscientes de que o que está no ambiente pode contribuir para o risco de câncer em um homem”, acrescentou.

Agrotóxicos associados ao câncer de próstata

Os 22agrotóxicos identificados incluem herbicidas (2,4-D, glifosato, trifluralina, cloransulam-metil, tribenuron, diflufenzopir, diuron, hexazinona, linuron, pendimetalina, sulfosato, tifensulfuron), inseticidas (paration, tiametoxam, acefato, bifentrina, carbaril, cialotrina-lambda), fungicidas (propiconazol, azoxistrobina, trifloxistrobina) e fumigantes de solo (cloropicrina).


Fonte: The New Lede

O tombamento da Usina Cambahyba pela Alerj é apenas o primeiro passo para a preservação da memória histórica

claudio guerra

O ex-delegado Cláudio Guerra mostrando como os corpos de oposicionistas ao regime militar de 1964  eram incinerados nos fornos da Usina Cambahyba em Campos dos Goytacazes 

A Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) aprovou ontem o Projeto de Lei 2360/2023 que “dispõe sobre o tombamento, por interesse histórico do estado do Rio de Janeiro, do parque industrial situado na Companhia Usina Cambahyba e dá outras providências”, de autoria, dentre outros, da deputa Marina do MST (PT) e do deputado Rodrigo Bacellar (União Brasil).

Essa aprovação é apenas o primeiro passo para um esforço de preservação da memória histórica em relação aos crimes ali cometidos durante o período do regime de 1964 que teriam incluído a incineração ilegal dos corpos de militantes de esquerda que faziam oposição armada ou não ao governo militar instalado com o golpe contra o presidente João Goulart.

Os crimes ocorridos na Usina Cambahyha foram descritos com riqueza de detalhes no livro “Memórias de uma Guerra Suja”, publicado em 2012,   a partir do trabalho de dois jornalistas, Marcelo Netto e Rogério Medeiros, que, ao colherem o depoimento do ex-delegado Cláudio Guerra.

Curiosamente no período de lançamento do “Memórias da Guerra Suja” houve em Campos dos Goytacazes todo um esforço para negar os detalhes descritos por Cláudio Guerra sobre o uso dos fornos da Usina Cambahyba para incinerar os corpos de oposicionistas do regime militar.  Agora, com esse tombamento, há um reconhecimento de que os crimes que Guerra confessou ter cometido enquanto era delegado do temido DOPS realmente ocorreram, justificando assim o tombamento dos prédios que ainda restam de pé na Usina Cambahyba.

Importante lembrar que as terras no entorno da usina foram desapropriadas pelo governo federal para a criação de um assentamento de reforma agrária que deverá o nome de Cícero Guedes, liderança do MST que foi assassinada no dia 26 de janeiro de 2013 enquanto apoiava a luta de acampados no terreno da Cambahyba.

Brasil tem aumento de até 3ºC na temperatura de algumas regiões

Informação está no relatório Mudança do Clima no Brasil

amazonas secaSeca no Amazonas. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Por Fabíola Sinimbú para a Agência Brasil 

Nos últimos 60 anos, o aquecimento em algumas regiões brasileiras foi maior que média global, chegando a até 3ºC na média das temperaturas máximas diárias em algumas regiões, aponta o relatório Mudança do Clima no Brasil – síntese atualizada e perspectivas para decisões estratégicas. De acordo com o estudo, desde o início da década de 1990, o número de dias com ondas de calor no Brasil subiu de sete para 52, até o início da década atual.

“Eventos extremos, como secas severas e ondas de calor, serão mais frequentes, com probabilidade de ocorrência de eventos climáticos sem precedentes”, destaca o relatório.

O estudo, que será lançado oficialmente em Brasília, nesta quarta-feira (6), é um recorte para o Brasil do último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e de outros estudos científicos atuais, resultado de um esforço que reuniu o Ministério de Ciência, Tecnologia e Informação com as organizações sociais da Rede Clima, o WWF-Brasil e o Instituto Alana.

Projeção

A partir das projeções para os próximos 30 anos, apresentadas de forma inédita pelo IPCC, com o objetivo de orientar ações de adaptações, os pesquisadores também concluíram que se o limite de 2ºC for atingido, em 2050 limiares críticos para a saúde humana e a agricultura serão ultrapassados com mais frequência.

Nesse cenário, a população afetada por enxurradas no Brasil aumentará entre 100 e 200%. Doenças transmitidas por vetores como os da dengue e malária também causarão mais mortes.

A Amazônia, por exemplo, perderá 50% da cobertura florestal pela combinação de desmatamento, condições mais secas e aumento dos incêndios. O fluxo dos rios serão reduzidos e a seca afetaria mais os estados do Amazonas, Acre, Rondônia e Roraima. O ciclo de chuvas no Brasil e na América do Sul também serão afetados.

Os estoques pesqueiros serão reduzidos em 77%, com redução de 30% a 50% dos empregos no setor. O impacto estimado na receita, em relação ao Produto Interno Bruto é 30%.

O Nordeste, onde vivem atualmente quase 55 milhões de pessoas, segundo dados preliminares do Censo 2022, pode ter 94% do território transformado em deserto.

Pessoas que vivem nas grandes cidades brasileiras, como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte ficarão expostas à escassez de água. A estimativa é que no cenário de mais 2ºC, em 2050, 21,5 milhões de pessoas em áreas urbanas sejam afetadas pela quebra do ciclo hídrico e do impacto nas safras.

Nas conclusões, os pesquisadores consideram ser necessário manter o limite de 1,5ºC no aumento médio da temperatura global e não permitir que as emissões de gases do efeito estufa continuem crescendo e para isso é necessário rever as ambições das políticas nacionais. “As metas brasileiras não têm correspondido ao tamanho da redução das emissões que cabem ao país” destaca o relatório.

Entre os ajustes imediatos apontados pelo estudo estão: zerar o desmatamento em todos os biomas, investir em programas de pagamentos por serviços ambientais para incentivar a conservação, migrar para uma agricultura de baixo carbono, por meio de sistemas agroflorestais e integração entre lavoura, pecuária e floresta.

A gestão integrada dos recursos hídricos e a adoção de sistemas agrícolas resilientes às mudanças climáticas são apontados pelos cientistas como saídas para garantir as seguranças hídrica e alimentar.

Soluções baseadas na natureza são medidas necessárias para adaptar as cidades às mudanças climáticas, com o aumento de áreas verdes que tornem as regiões urbanas mais permeáveis com drenagem natural. O relatório também aponta a necessidade de investimentos em transporte público de baixo carbono, como incentivo ao uso de transportes coletivos e não motorizados.

O estudo aponta ainda a importância da cooperação internacional no financiamento climático desenvolvimento e transferência de tecnologias limpas, além do reforço coletivo para diminuir as emissões de gases do efeito estufa.


Fonte: Agência Brasil

Donald Trump (de novo) presidente: os EUA em sua versão original ou o Momento Waldo!

trump harris

Por Douglas Barreto da Mata

Uma das grandes sacadas das elites brasileiras, e também das elites internacionais, foi vender a ideia de que os EUA são o “role model” da democracia mundial.  Essa narrativa ganhou corpo desde o fim da Segunda Guerra Mundial.  Era necessário, primeiro, apagar o peso e importância histórica da URSS na vitória, cujo esforço e 20 milhões de mortos foram imprescindíveis para a derrubada de Hitler, Mussolini, e depois, deixar os EUA livres para derrotarem o Japão. Sem a frente oriental soviética, talvez o mundo falasse alemão hoje, e, por certo, Israel não existisse.

Bem, a partir do fim do conflito, a campanha de marketing para convencer a todos de que os EUA eram os mocinhos teve início, misturando cultura e geopolítica, economia e intervenções (golpes), patrocinados pelo Departamento de Estado dos EUA, sem o menor pudor.

Talvez isso ajude a explicar o fascínio brasileiro pela ideia de que os EUA são uma democracia quase perfeita, e que devemos seguir seu exemplo, desde como lidar com mídia, bancos, minorias, e tudo o mais, ainda que (e porque) sejamos uma cópia mal feita do capitalismo praticado por lá. 

É bom que se diga que os EUA trataram os negros como gente de segunda classe até o fim da década de 60 do Século XX, não muito diferente de nós, mas o fizeram sem salamaleques, com cassetete nas mãos, segregação oficial com estrutura legal e tudo mais.  O tratamento dado aos latinos não é muito diferente, e oscila entre mais ou menos aceitação, dependendo da demanda de mão-de-obra barata. 

A ilegalidade dos imigrantes é um negócio, como qualquer outro nos EUA (na Europa, justiça seja feita, também).

Enfim, por onde quer que se olhe, os EUA não chegam nem perto da definição clássica de democracia, inclusive porque seu sistema eleitoral federalizado, onde os estados determinam as regras, permitem que a forma, os locais e os eleitores sejam deslocados de um lugar para outro (distritos), e essa manipulação descarada, feita com maiorias parlamentares estaduais, o “gerrymandering”, permite alterar o resultado das eleições.

É mais ou menos como se a ALERJ aprovasse leis que alterassem os locais de votação, colocando, por exemplo, os eleitores da 129ª zona eleitoral em Campos dos Goytacazes para voltarem na 98ª, ou dispersar esses eleitores em várias zonas e seções.

Em um país onde o voto não é obrigatório, como os EUA, não há feriado para votar, e em algumas cidades, negros não frequentem certos bairros, seja por questões étnicas ou por ausência de transporte público, essa interferência faz toda diferença.  Por isso tudo eu não entendo muito esse deslumbramento do brasileiro com os EUA.

Também faço aqui uma ressalva, não é democracia, mas para eles funciona, e ponto final.

Hoje, já li e ouvi muita gente boa repercutindo a vitória de Trump, uns lamentando, outros comemorando, como se fosse fazer alguma diferença para nós.  Bem, tudo isso diz muito mais sobre nós do que sobre os EUA, é verdade.  Nossa posição relativa no mundo estará intacta: quintal dos EUA, seja lá quem for o presidente de plantão.

Direita e esquerda brasileiras parecem vira-latas, os primeiros felizes, abanando o rabo para a troca de dono, os últimos rosnando, mas ambos estão na coleira desde e para sempre.

Já em relação à surpresa de alguns com o retorno de Trump, eu sugiro assistir um episódio da série Black Mirror, na Netflix.  Alguns dizem que a série é visionária, e antecipa um bocado de coisa, principalmente em relação à tecnologia, sociedade e política. 

Sei lá, mas no caso das eleições, me parece que eles acertaram em cheio quando criaram o episódio Momento Waldo, que em resumo, é um boneco manipulado por um comediante frustrado, que alcança enorme sucesso. Os desdobramentos eu não vou antecipar, mas digo que vale à pena.

Enfim, com Trump, Kamala, Obama, Bush, o certo é que temos que trabalhar para pagar nossas contas, e os juros mais altos do planeta, que sustentam o American Way Of Life.

Imbróglio envolvendo Uenf e Prefeitura na reforma do prédio do Arquivo Público Municipal agita Câmara de Vereadores

raul wladimir

Em algum lugar do passado, Bruno Dauaire, Raúl Palacio e Wladimir Garotinho seguram a planta do Solar do Colégio, sede do Arquivo Público Municipal. Mas reforma que é bom, nada…

Desde o início de 2022 já abordei por diversas vezes o estranho caso de uma verba de R$ 20 milhões que foi disponibilizada pela Assembleia Legislativo do Rio de Janeiro (Alerj) para reformar o prédio histórico do Solar do Colégio que abriga o Arquivo Municipal de Campos dos Goytacazes (Aqui!, Aqui!, Aqui!Aqui!). A coisa já se estendeu tanto que o presidente da Alerj que era André Ceciliano (PT) passou a ser Rodrigo Bacellar (União Brasil) e o cargo de reitor da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) que era ocupado por Raul Palácio, agora é exercido por Rosana Rodrigues.

A coisa começou muito mal explicada, pois nunca ficou claro porque os R$ 20 milhões foram parar na Uenf, mas esse foi só o começo da história. Uma das questões mais apontadas é o fato de que a realização de reformas em prédios históricos exige um tipo de expertise que a universidade fundada por Brizola e Darcy Ribeiro simplesmente não tem.

A exasperação com a demora da Uenf em realizar a coisa mais básica que seria uma licitação para apontar quem faria a reforma já ficou clara em diversas ocasiões desde que o dinheiro chegou há quase 2 anos.  Entretanto, com mais um ano próximo de se encerrar, o que significa que o período chuvoso vai se iniciar, agora a coisa tomou um tom de cobrança ainda mais aberto, inclusive no plenário da Câmara Municipal de Vereadores (ver vídeo abaixo).

Como fui uma das poucas vozes críticas em relação a essa triangulação esquisita envolvendo Alerj, Uenf e Prefeitura de Campos, eu não tenho nenhum prurido em afirmar que esse caso nunca foi abertamente discutido pela comunidade universitária.  Assim, não acho justo que o ônus sendo gerado pela incapacidade evidente de iniciar a obra seja jogado nas costas de todos os que labutam diariamente na Uenf.

Por outro lado, como a reitora da Uenf já está praticamente no final do seu primeiro ano como a dirigente que “segura a caneta” na Uenf (para usar uma terminologia que a professora Rosana Rodrigues usou durante a campanha eleitoral que terminou com sua eleição), me parece que está na hora dela dar as respostas que estão sendo demandadas há algum tempo pela sociedade campista, e agora também pela Câmara Municipal de Vereadores. Afinal, as preocupações em torno do atraso das obras são mais do que justificadas.

E nunca é demais lembrar que a próxima estação de chuvas poderá comprometer ainda mais as condições estruturais do Solar do Colégio, impondo graves riscos para toda a documentação que se encontra no interior do Arquivo Público Municipal.

Subsídios mortais: qual a lógica de subsidiar os agrotóxicos?

O STF decide entre o país e o agronegócio

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Por Jean Marc von der Weid

O STF estará julgando, no próximos dias, uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI 5.553) impetrada pelo PSOL, questionando o projeto de lei 6.299/2002 que modifica a legislação sobre agrotóxicos vigente, visando ampliar os subsídios e isenções fiscais no Brasil. O agronegócio brasileiro já é há alguns anos o maior consumidor de agrotóxicos do mundo, sendo que pelo menos um terço com alto grau de toxidade e muitos deles proibidos por órgãos reguladores tanto nos Estados Unidos como na União Europeia. As reduções de impostos têm um papel importante neste processo, mas o agronegócio quer mais, sobretudo reduzir em 60% o ICMS e zerar o IPI sobre os agrotóxicos.  

Em outras manobras legislativas, a bancada ruralista almeja facilitar ainda mais a liberação de novos agrotóxicos, apesar de estar conseguindo colocar estes produtos cada vez mais rapidamente no mercado interno, na base de centenas a cada ano, oito vezes mais ligeiro do que na União Europeia. Isto se faria pela retirada da competência da ANVISA e do IBAMA do sistema de aprovação, entregando-o estritamente nas mãos da complacente e cúmplice burocracia do MAPA. 

O agronegócio brasileiro argumenta que sem estes e outros subsídios (sobretudo para fertilizantes e sementes) não conseguiriam competir no mercado internacional e que teriam que cotejar as eventuais vantagens apontadas pelo agrobusiness com os impactos negativos (custos externos) das suas atividades. 

Com toda a propaganda de alta qualidade e alto custo na mídia brasileira (“agro é pop, agro é tec, agro é tudo…”) o nosso agronegócio confessa a sua ineficiência quando cobra do erário o custo da sua sobrevivência. 

O argumento da preocupação com a alta do custo dos alimentos é pura falácia. O aumento dos preços do arroz com feijão, que usaremos como indicativo da base de uma dieta nacional desejável, não é provocado principalmente pelos custos de produção (inclusive dos agrotóxicos), mas pela baixa oferta dos produtos no mercado interno. 

A oferta per capita de arroz e de feijão vem caindo regularmente ao longo dos últimos 50 anos. Entre 1977 e 2022, o consumo per capita de arroz caiu de 79 para 49 quilogramas por ano, uma redução de 38%. O de feijão caiu de 24,7 kg para 14 kg, 43% a menos.  

O consumo de outros alimentos básicos da dieta tradicional brasileira (aquela entronizada na lei do salário-mínimo de Getúlio Vargas nos anos trinta e que está longe de ser a mais correta do ponto de vista nutricional), como o milho e a mandioca, seguiram o padrão do arroz e feijão. Em 2022, o milho usado para consumo humano não superou os 8,7 kg per capita no ano, um sétimo do que foi consumido por animais sob forma de ração e a metade do que foi usado para produzir biodiesel. Ficou muito para trás o tempo em que a broa de milho era o pão de boa parte dos brasileiros 

Para apontar o destino da produção agropecuária brasileira de forma mais geral, basta olhar a área cultivada dos produtos dirigidos principalmente para o mercado interno e os dirigidos principalmente para as exportações. Entre os 22 cultivos mais importantes, ocupando em 2022/2023 perto de 88 milhões de hectares de lavouras, soja e milho (em grande parte exportados quer em grãos, farelo ou para a engorda de frangos, suínos e bovinos, também exportados em grande parte) ocuparam 71% da área total. Mais 15% da área foi destinada para outros produtos de exportação como cana de açúcar, algodão, café, cacau e fumo. Apenas 11,5 % da área de lavouras foi destinada a cultura alimentares do mercado interno, como arroz, feijão, trigo, mandioca, banana, batata, aveia, cebola, tomate, etc.). 

Este processo de internacionalização do nosso agro não é novo. Afinal de contas, o país nasceu e cresceu sob o signo da exportação de produtos agrícolas, açúcar, café, algodão, cacau e outros, nos famosos ciclos econômicos que só tiveram um período em que foram os minerais (ouro) que dominaram a exportação. O que é novo é que, depois de um período de desenvolvimento industrial acelerado iniciado nos governos de Vargas, mas que tiveram continuidade até no regime da ditadura militar, voltamos a ser essencialmente um país exportador de produtos primários, agrícolas e minerais, com a produção industrial caindo a pouco mais de 12 % do PIB.  

Esta regressão tem um efeito brutal no custo da alimentação dos brasileiros. Neste século, tivemos 6 anos apenas em que a inflação geral medida pelo IPCA ficou acima da inflação de alimentos (60% mais alta em média), enquanto nos outros 18 anos esta última bateu a primeira mais ou menos com a mesma média anual. 

Descartemos, portanto, o argumento de que os subsídios se dirigem a baratear a alimentação dos brasileiros. Eles se dirigem a aumentar a competitividade dos nossos produtos no mercado internacional, deixando o consumo interno de alimentos em permanente insuficiência frente às necessidades dos consumidores.  

Para dar uma ideia aproximada do problema, é só lembrar que a demanda anual reprimida de arroz (em casca) é de 18 milhões de toneladas, extrapolação realizada pelo autor a partir do consumo desejável indicado em pesquisa do Instituto de Nutrição da UERJ, publicada na Revista de Saúde Pública. A demanda anual reprimida de feijão é de 7,6 milhões de toneladas, pelo mesmo critério. Isto significa a necessidade de se multiplicar a produção de arroz por 2,8 e a de feijão por 3,4 para alimentar corretamente os brasileiros (sem contar, é claro, vários outros produtos alimentares necessários e igualmente deficitários). E, enquanto os preços da soja e do milho nos mercados internacionais de comodities forem mais altos do que os do feijão e arroz no mercado interno, a orientação do agronegócio será a de privilegiar as exportações. 

Enquanto isso, a produção de soja cresceu de 12 para 153 milhões de toneladas, entre os anos de 1977 e 2022. A de milho de 19 para 125. Ambos os produtos, como vimos acima, dirigidos essencialmente para o mercado externo sob diversas formas, grãos, farelo e carnes de frango e de suínos. 

O agronegócio é “tec”, como ele autoproclama na sua propaganda? Nem tanto. A produtividade da soja brasileira iguala a americana e supera a da Argentina, dois grandes exportadores, mas com uso mais intensivo de insumos. Já a produtividade do milho é muito menor: 2,78 e 1,7 vezes mais baixa do que nos Estados Unidos e na Argentina. Os nossos concorrentes têm algumas vantagens naturais de clima e de solos, mas isto não explica o nosso atraso em termos de produtividade. Entretanto, o Brasil hoje produz e exporta mais do que qualquer outro e não só nestes dois produtos dominantes. Como explicar? 

É simples. Por um lado, a legislação ambiental e a sanitária nos EUA e na União Europeia implicam em custos mais altos na aplicação das mesmas tecnologias. Temos custos bem menores pela fragilidade da aplicação da nossa legislação ambiental, cada dia mais permissiva. E temos custos de mão de obra também muito mais baixos. Mas, sobretudo, nós temos disponibilidade de terras baratas para expandir a produção, algo que falta para os concorrentes. Enquanto a demanda continuar aquecida pelas compras chinesas estaremos bombando com preços compensadores, mas com qualquer redução das cotações nós seremos os primeiros a perder mercado pois nossos custos de produção são mais altos. Como nossa produtividade é mais baixa, nem o custo quase zero da ocupação de terras griladas na Amazônia ou o trabalho mal pago compensará os custos maiores de produção. 

É claro que existem setores do agronegócio mais tecnificados e competitivos, mas a maioria vive de explorar as vantagens naturais e humanas locais sem pensar no amanhã. Se fossem de fato “high tec”, como proclamam, já estariam aplicando as tecnologias disponíveis para reduzir o uso de fertilizantes químicos e agrotóxicos, ao invés de lutar para facilitar o uso de produtos cada vez mais perigosos … e caros. 

Na verdade, a experiência internacional mostra que o agronegócio é igual em todo o mundo. Os produtores americanos só adotam técnicas mais racionais e de menor risco ambiental ou para a saúde quando a pressão de legisladores ou do mercado os obriga. 

Um exemplo do outro lado do mundo é dos mais ilustradores deste axioma. Nas Filipinas dos anos 90, a FAO convenceu o governo da hora a montar um plano de redução do uso dos agrotóxicos na cultura do arroz, central na economia e na sociedade do país. O projeto visava não a erradicação do uso de agrotóxicos, mas o seu uso racional, na forma do manejo integrado de pragas ou IPM, na sigla em inglês. O programa dirigiu-se a agricultores de pequeno, médio e grande porte, mas seu sucesso inicial se deu principalmente no primeiro grupo. Os pequenos produtores, com menos acesso a recursos financeiros, perceberam a oportunidade de reduzir custos sem perder produtividade e filiaram-se ao programa em grandes números. Já os médios e grandes produtores só aderiram quando o governo filipino retirou os subsídios para o uso de agrotóxicos na produção de arroz. Em dez anos, as Filipinas reduziram o emprego de agrotóxicos no arroz a menos de 20% dos volumes anteriormente empregados. Com ganhos de produtividade e menores custos.  

O programa da FAO ganhou prêmios de excelência e passou a ser disseminado na Ásia e na África com apoio do Banco Mundial, que estava carente de alguma coisa para melhorar a sua imagem junto aos ambientalistas. Embora o IPM esteja longe de ser um programa agroecológico e que ele nem sequer imagine outros componentes de racionalização do uso de insumos, o resultado, embora estrategicamente diminuto, aponta na direção correta. Ele ficou ainda mais relevante com a escalada dos preços dos agrotóxicos e dos adubos químicos nas últimas décadas e que tende a se intensificar ainda mais. 

Ao que eu saiba, não existe no Brasil um cálculo sobre os custos indiretos do uso de agrotóxicos nos sistemas produtivos do agronegócio. Sabe-se que cerca de 25% das amostras de alimentos contêm, em média, doses de agrotóxicos acima do tolerável, segundo as definições da ANVISA. Também é sabido que a contaminação de trabalhadores agrícolas é um recorde mundial contínuo. Mas não se sabe quanto isto custa em termos de gastos privados ou do SUS. Os impactos ambientais sobre fauna e flora são constatados em grande escala, mas também sem avaliações de custos. A única indicação encontrada foi de um estudo da cooperação técnica da Alemanha, apontando para um custo indireto (abrangendo todos os impactos) de 20,00 reais para cada real de faturamento do agronegócio. Não tive acesso ao estudo, somente às suas conclusões que me parecem algo exageradas, mas por comparação com estudos em outros países estes “custos externos” apontados pelo estudo podem estar corretos. 

O que temos que entender no caso brasileiro é que o caráter predador e imediatista do nosso agronegócio só pode ser parado com maiores controles de seus impactos ambientais e na saúde e não com o programa da bancada ruralista que é desmontar a legislação e os instrumentos estatais de controle para poderem devastar a seu talante. 

Sem sombra de dúvida, o maior freio possível no uso dos agrotóxicos é o financeiro, na forma da diminuição paulatina até a eliminação dos subsídios existentes. O STF tem nas mãos a possiblidade de colocar limites nesta fúria devastadora, já que o governo Lula ou bem resolveu se aliar com o agronegócio, na ilusão de amansar a besta ou bem capitulou frente a bancada ruralista por total falta de poder de fogo. 

Resta saber se os votos restantes no STF (em seções anteriores suas excelências já votaram a favor do agronegócio por 6×2) vão equilibrar o resultado e estimular algum dos anteriores a se penitenciar e rever sua posição, talvez pensando no bem do Brasil, do seu povo e de sua fauna. 


Fonte: 68naluta 

Um balanço amargo dos resultados do segundo turno das eleições municipais: a negação da política colocou o chicote nas mãos dos açoitadores

Flooding due to heavy rains in Rio Grande do Sul

Experiência devastadora das chuvas teve pouco ou nenhum impacto nas eleições municipais em Porto Alegre. Diego Vara/Reuters

Por João Anschau

Findado o segundo turno das eleições municipais é possível cravar sem medo de errar que os grandes perdedores destas eleições somos eu e você. Sim, nós dois ganhamos mais uma derrota. A novidade é que não tem nada de novo nesse resultado. Um trabalho árduo da criminalização da Política, aliado à miopia institucional de líderes estrategistas de ar condicionado no 19, pariu frutos nada saborosos e que terão que ser degustados por mais alguns anos.

A começar! Barrou-se toda e qualquer iniciativa que ousasse discutir, por exemplo, os impactos das mudanças climáticas nas nossas vidas nada românticas, e a consequente necessidade de colocar na agenda, colada na porta da geladeira, a preservação do que ainda resta de biodiversidade. Os poucos que se atreveram foram carimbados de apocalípticos. É mais fácil, cômodo e covarde fazer cara de paisagem, cordial e pacificador. Estes, confundem a fumaça branca do Vaticano com as queimadas produzidas e reproduzidas como de costume, achando que ambos sinalizam o mesmo. 

“Aos vencedores as batatas”

 A abstenção é uma vitória retumbante da chamada “grande” imprensa. Ela, que costuma usar seu o poder persuasão e chantagem, dá as cartas e joga de mão. Tem uma sorte danada e não perde nunca. Como estratégia prefere brigar com os fatos, jamais com os anunciantes. A informação é tratada como mercadoria e as narrativas são moldadas ao gosto do freguês. Umas quantas no cravo e, para vender imparcialidade gourmet, outra na ferradura lá de vez em quando. O Estado deve ser mínimo, minguado, para mim e para você que lê esse escrito agora. Tudo que envolve a política é tratada como uma doença incurável, capaz contaminar o bem bolado bolado pelos liberais que não conseguem viver sem as benesses do poder público. Não é incoerência. É um projeto. A indignação seletiva é alimentada e fortalecida diariamente e o alvo é sempre o mesmo. Os “liberais” não dormem. 

E o ganhador é…?

O acontecido no segundo turno em Porto Alegre já apresentou múltiplas análises. Não é tarefa simples processar o resultado final que reconduz um gestor incapaz de fazer o básico, e que tem como sua maior marca o  negacionismo. Mesmo tendo um currículo de não serviços prestados para o grosso da população, ele logrou êxito. No frigir dos ovos temos algo bem próximo a síndrome de Estocolmo “mas bah”. Ganhou o discurso do “nós por eles”, capturado e patrocinado pelos causadores do desastre. O homem do chapéu de palha deu um chapéu no sofrimento alheio, juntou-se ao grupo das vítimas e recebeu como prêmio um novo mandato. Uma distopia escrita em tempo real que centrou todo o enredo na frase “não é hora de achar culpados”. Não é necessário fazer nenhum exercício de futurologia para trás e saber qual teria sido o comportamento da mídia hegemônica se o paço municipal tivesse na cadeira de prefeito/a alguém do time da esquerda durante as chuvas de maio.  

Sirvam nossas façanhas, outra vez, de como não fazer e evitem seguir o nosso exemplo. Quem um dia se arvorou o carimbo de estado mais “politizado” do Bra(z)sil, hoje está na série D e correndo sério risco de ser rebaixado para divisões amadoras. Giovani Cherini, um deputado federal eleito democraticamente pelo RS, com o uso das urnas eletrônicas, mesmo que seu partido questione a lisura eleitoral há anos, é o chorume não aproveitável e que contamina toxicamente toda e qualquer tentativa de fazer uma conversa minimamente racional. Esse “nobre” parlamentar, a bem da verdade, não está sozinho nesta empreitada muito bem organizada e que não tem nada de estúpida, faz parte da chamada bancado do agro e como tal atende os interesses de seus patronos. Cherini, com o meu e o seu dinheiro, quer ir até a COP-30 e demonstrar – chupem cientistas, pesquisadores e afins – que o aquecimento global é uma grande mentira.

Contará, provavelmente, com a consultoria muito bem remunerada de Luiz Carlos Molion, o mesmo pesquisador que disse em 2023, no senado, que meteorologistas exageravam quanto à possibilidade de muita chuva no Rio Grande do Sul. Um dia depois da sua eloquente afirmação, parte do estado amanheceu debaixo d’água. Molion não foi folclórico ao contestar a ciência e o trabalho de seus pares. O adjetivo é outro.

O sucesso dos ganhadores do mesmo lado seguiu um roteiro muito parecido. Apostaram no medo e em temas que mexem com o imaginário dos eleitores. Continuarão a multiplicar o receituário de que o fim não está tão no fim assim, e que os extremos – chuvaradas, ciclones… – são parte do pacote da “felicidade” – e do Deus deles que quis assim -, mesmo que não os tenhamos contratado, portanto, seu cancelamento é impossível. E como não temos tempo para o óbvio, preocupados e pautados por trivialidades, interdita-se, em todos os sentidos, qualquer iniciativa que promova o contestar. Portanto, o SERASA não colocará em suas listas o nome dos dos delinquentes responsáveis pelo caos. 

Um levantamento feito pela EMATER/RS, após o dilúvio de maio, mostra um cenário nada paradisíaco quando o assunto é perdas, danos e consequências em se tratando de comida no nosso prato para logo ali adiante. Como vivemos cercados pelo improviso nada genial dos gestores públicos municipais, existe uma grande chance de termos gôndolas quase vazias de comida. E não é preciso ser um gênio para saber que segurança alimentar (para a galera que gosta de armas, vamos acabar com a chaga da fome?) foi mandada às favas mais uma vez em nome do “progresso” e das prioridades da turma do 1%.

As indústrias de processados e de remédios agradecem com generosas doações eleitorais. Sejamos honestos, o senhor e a senhora viu/ouviu durante alguns minguados segundos, dedicados por candidato/a ao legislativo ou a executivo municipal, independente de mídia, alertas – alertas – que o tempo não é – nem será tão cedo – de colheita farta, e que o mundo alimentar não se resume à soja? Ou que tomamos agrotóxicos de copinho, fazendo com que sejamos os top one no campeonato da insanidade produtiva e reprodutiva no uso de venenos? Cartas para a ouvidoria do blog. 

E por que chegamos nesse estágio quase terminal? Diferente do outro Deus, os “nossos” gurus acreditam no poder da magia e da osmose. A imortalidade de sua melhor referência política está na lista depositada no pratinho que fica ao lado da vela de 7 dias. No mundo real, aquele em que a desigualdade ainda reina, o modo no qual a relação é recíproca foi abandonada há muito. Ações simples, mas eficazes, foram deixadas de lado, tornando-se obsoletas. O diálogo contínuo foi deletado das práticas mais elementares. Ao invés de habilidosos camisas 10, o que se apresenta atualmente são caneludos que costeiam o alambrado do lado esquerdo e que comprometem o resultado final. Perdeu-se a mão e a forma fraterna de interação. A disputa para estes não é mais Política, mas, apenas, e tão somente, eleitoral. Alguém, com um mínimo de sensibilidade, precisa alertar essa galera que a balança da conciliação pende toda para o lado dos bem nutridos.

Não existe almoço grátis

“Não existe almoço grátis” ou “é a economia estúpido” deixaram de ser apenas mantras que dão as tintas para parte da sociedade que abandonou o caminho da coletividade e optou pelo pragmatismo do despachante ouvidor, bancado por quem já se deu conta de que no final da contas, problemas têm família grande, como já sentenciou o saudoso Paulo Leminski. Não é tão somente a conquista de corações e mentes, mas, voltar a conhecer e conviver com essa galera que têm corações, mentes, sonhos e muito medo represado. Dá pra ser radical, e manter as origens, sem perder a empatia pelos irmãos de jornada. É importante reforçar que mutações fazem parte de outra gaveta. A apatia e o descontentamento interessa apenas ao adversário que joga no ataque a todo o momento de forma sincronizada. 

Peço desculpas mais uma vez aos seres não racionais pela nossa total e irrestrita incapacidade. De fazer o beabá mais simples. De amar ao próximo como se não houvesse amanhã – nos tempos atuais, o amanhã é tão certo como 2+2 são 3. O breve futuro é uma incógnita, mas mesmo assim os advogados do capitalismo predatório, homens brancos, “héteros” e detentores dos meios, querem nos fazer crer que tudo está sob controle e a falta de freio é psicológico. Ao cabo de tudo o que temos é uma luta de equação básica: mais e mais estupidez resulta em cada vez menos tempo por estas paragens. E as opções, para eu que escrevo e você que acompanhou o texto até aqui, de encontrar outro lar, lamento informar, é zero. E morar em Marte, tô fora. A vizinhança é estranha. Portanto, o último apaga a luz. Espera, depois das privatizações, nem isso mais está garantido.