Greve dos Servidores Ambientais: O Dilema Político do Governo Lula

Eles nos empurraram para uma greve e agora tentam nos ameaçar com judicialização. Mas a verdade é que o governo está em uma posição delicada

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*Wallace Rafael Rocha Lopes

No sábado, 22 de junho, o site Metrópoles publicou uma matéria dizendo que, na próxima semana, a AGU acionará o STJ para decretar a ilegalidade da greve do Ibama. “Acabou a paciência. Virou mais uma questão política que de direito sindical”, afirmou um ministro do governo, sob reserva.

Quem acompanha esse processo de negociação desde o início e viu tantos verdadeiros absurdos acontecerem sabe que isso já era esperado. Eles nos empurraram para uma greve e agora tentam nos ameaçar com judicialização. Mas a verdade é que o governo está em uma posição delicada.

A pergunta que fica é: será mesmo que este governo vai assumir, diante do Brasil e do mundo, uma postura persecutória contra os servidores da área ambiental, já tão assediados e humilhados no governo Bolsonaro? Mesmo com os servidores contando com o massivo apoio de boa parte de parlamentares (de direita, de centro e de esquerda), dos movimentos sociais pela causa ambiental e animal, dos artistas e da imprensa nacional e internacional que acompanhou e continua acompanhando toda a nossa trajetória de luta pela sobrevivência?

Se isso realmente acontecer, será um choque de realidade para muita gente, inclusive para muitos de nós que acreditaram que os tempos seriam outros depois de ajudarmos a colocar Bolsonaro na lata de lixo da história e de enfrentarmos com coragem e abnegação os milicianos escolhidos a dedo por Salles e seus asseclas para frear nosso ímpeto em proteger nossos indígenas, as unidades de conservação, nossa fauna, flora, biodiversidade e toda a política ambiental que ajudamos a construir.

Eu prefiro acreditar que este governo, e aqui leia-se LULA, coloque a mão na consciência, seja minimamente coerente com sua história sindicalista e com suas nítidas pretensões de se tornar uma referência mundial na questão ambiental e climática, e determine, ainda no início desta semana, a retomada das negociações que foram encerradas unilateralmente pelo representante designado no Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI), sem sequer analisar nossa proposta e muito menos a contraproposta que construímos na tentativa de facilitar um acordo.

Todo esse processo de negociação começou em outubro de 2023 e de lá para cá os servidores sempre se mostraram dispostos a colaborar na construção de um acordo que considere a realidade dos dois lados da mesa, e não seja simplesmente uma imposição do “empregador” sobre o “empregado”, o que seria mais uma incoerência vexatória para um governo do dito “partido dos trabalhadores”.

Talvez seja válido lembrar que, nesses meses em que estivemos mobilizados, nós conseguimos mostrar para o mundo a relevância do nosso trabalho para o futuro de toda a humanidade, só que agora de uma outra forma. Digo de uma outra forma porque nós estamos mais acostumados a fazer isso literalmente doando nossas vidas em campo, como foi o caso dos nossos colegas Olavo, Rochinski, Raimundo, Welington, Gaspar e tantos outros. Tudo isso para que os representantes desse país possam estufar o peito cheio de orgulho na frente de chefes de Estado de outros países para dizerem “nós estamos fazendo a nossa parte e agora os países ricos precisam fazer a sua”.

Agora isso não será mais possível. O voluntarismo que fez a gente entregar os resultados de 2023, como a redução contundente do desmatamento na Amazônia, com a mesmíssima estrutura combalida que foi herdada do governo anterior, não existe mais. Agora, o que nos move é a certeza de que somente com um MMA, Ibama, ICMBio e SFB fortalecidos nós iremos parar de enxugar gelo e caminhar para uma sustentabilidade verdadeira. E isso começa com servidores públicos valorizados.

E é por isso que, mesmo que este governo continue esse show de incoerências, mesmo que toda a nossa depauperada estrutura ainda assim seja considerada essencial e que sobrevenha uma improvável decisão judicial contra um direito que também pertence aos trabalhadores e trabalhadoras da área ambiental, nossa luta vai continuar e cada vez mais fortalecida. Vão descobrir da pior forma que, do jeito que a área ambiental foi e continua sendo relegada, nós servidores só teremos condição de fazer o ordinário, e talvez nem isso. Sem o nosso EXTRAordinário, a área ambiental naturalmente morrerá por inanição. Sem o nosso sangue e suor, não tem Marina na lista de personalidades da revista Time; não tem Lula discursando bonito na COP; não tem desenvolvimento, muito menos um que seja sustentável.

Que venha o assédio judicial, moral e institucional… que venham os abusos, as perseguições e a imposição de toda a cartilha do governo Bolsonaro contra os servidores ambientais mais uma vez. Nós continuaremos aqui honrando o nosso compromisso com a sociedade e lutando para que meio ambiente e sustentabilidade sejam mais que palavras bonitas para florir discursos políticos.

*Wallace Rafael Rocha Lopes é diretor adjunto da Ascema Nacional (Associação Nacional dos Servidores da Carreira de Especialista em Meio Ambiente), sendo analista ambiental do Ibama desde 2009, onde já atuou em diversas áreas. Compõe o quadro de Agentes Ambientais Federais e Coordenadores de Operações de Fiscalização Ambiental no Cerrado e na Amazônia. É bacharel e mestre em Engenharia Ambiental (UFT) e doutorando em Desenvolvimento Sustentável (UnB). É membro da Frente Ampla de Desenvolvimento Socioambiental (FADS).


Fonte:  Jornal GGN

Promessas solúveis: no negócio cafeeiro da Nestlé só os lucros são sustentáveis

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Por Public Eye 

Com seu Plano Nescafé, lançado em 2010, a Nestlé prometeu melhorar a vida e a renda de centenas de milhares de pessoas que trabalham em fazendas de café. Mas nossa pesquisa no Brasil e no México mostra que muitos dos cafeicultores que participam do programa de sustentabilidade não conseguem sobreviver com os baixos preços pagos pela Nestlé. Iniciativas voluntárias da indústria ou da empresa desse tipo não vão longe o suficiente no combate à pobreza generalizada entre os cafeicultores. A Suíça, que desempenha um papel particularmente poderoso neste setor, deve introduzir uma regulamentação mais forte em nível político para garantir que a Nestlé e outras empresas de café levem suas responsabilidades globais a sério.

A Nestlé, com sede em Vevey, na Suíça, é líder do mercado mundial e obtém um quarto das suas receitas provenientes do café. No seu site Nescafé, promete “usar a sua escala global para o bem”. Por exemplo, a partir do próximo ano pretende vender apenas café de origem “responsável”. O componente mais importante dessa estratégia é o Plano Nescafé, lançado em 2010. Segundo a Nestlé, ele melhorou a renda de inúmeros produtores de café por meio de cursos de capacitação e fornecimento gratuito de mudas. Além disso, por possuir certificação 4C, também garante um café sustentável ambiental, social e economicamente. Um novo relatório sobre as “promessas solúveis do Nescafé” destaca as discrepâncias gritantes entre as políticas de compras puramente orientadas para o lucro da Nestlé e o apelo publicitário eficaz da sua retórica de sustentabilidade.

No estado brasileiro do Espírito Santo e na região de Soconusco, no estado de Chiapas, no México, vimos no terreno que o programa emblemático quase não trouxe quaisquer melhorias às vidas das pessoas que ali vivem. Muito poucas verificações são realizadas nos requisitos (mínimos) do padrão 4C e ainda menos requisitos são realmente implementados. Mas a nossa conclusão mais importante é que o Plano Nescafé não melhorou os rendimentos dos agricultores. Pelo contrário, muitos deles mal conseguem cobrir os seus custos, dados os preços baixos que a Nestlé paga há muitos anos. Os trabalhadores das plantações ganham salários de fome e, no Espírito Santo, muitas vezes há acidentes graves porque as colheitadeiras normalmente não estão equipadas com os equipamentos de segurança necessários.

Milhões de cafeicultores e trabalhadores estão muito longe de obter um rendimento digno, não só nestas duas importantes regiões produtoras de café, mas também em todo o mundo. E o desequilíbrio de poder entre empresas internacionais como a Nestlé e os produtores das suas matérias-primas continua a aumentar. Na semana passada, a indústria e a Secretaria de Estado Suíça para os Assuntos Económicos (SECO) lançaram a Plataforma Suíça do Café Sustentável (SSCP), mais uma plataforma voluntária para o diálogo. Esta abordagem multilateral deixa a Suíça, que desempenha um papel dominante no mercado cafeeiro global, muito atrasada em relação aos desenvolvimentos internacionais. Se quisermos abordar eficazmente os abusos no sector cafeeiro, são necessárias medidas políticas que exijam que as empresas respeitem os direitos humanos – incluindo o direito a rendimentos e salários dignos – e que cumpram as normas ambientais. Uma dessas medidas é a diretiva da UE relativa à devida diligência em matéria de sustentabilidade empresarial , que foi adoptada em Maio.

Mais informações aqui


Fonte: Public Eye

As greves, os movimentos sociais e o Estado no Brasil

A conjuntura brasileira exige atenção e uma avaliação cuidadosa dos setores vinculados às políticas nacionais-democráticas e de emancipação popular. Não se poderá combater a extrema-direita sem conflitos e lutas contra as estruturas seculares da opressão do povo brasileiro que se aprofundam. Qualquer alternativa que busque contornar esta necessidade poderá desmoralizar as esquerdas e gerar resultados bastante negativos.

Os gráficos do Dieese sobre número de horas e dias parados entre 1983-2023 revelam quarenta anos de história dos movimentos sociais e populares no Brasi (ver abaixo). São extremamente úteis para indicar a centralidade que o seu ativismo assume no país ao condicionar as estratégias de acumulação das classes dominantes a partir das respostas que lhe dão. Tais respostas marcam pontos de inflexão, mudanças no padrão de acumulação e nos arranjos entre o Estado e as frações dominantes do capital que se estabelecem como reação aos momentos mais agudos das mobilizações populares. 

Os gráficos indicam tanto o caráter acelerado, vertiginoso e concentrado do avanço da consciência popular, que se traduz na conexão entre as reivindicações econômicas e políticas e em formulações de mudanças substantivas nas políticas de Estado, como a sua brusca interrupção, provocada pela ação efetiva das frações dominantes do grande capital para destruí-la, produzindo grande regressão e flutuação, ao atingir suas bases sociais de organização, suprimindo-as parcialmente.  Isso denota que a consciência política e ideológica, antes que individual, é um produto coletivo da práxis social. Esta por sua vez é condicionada pelo desenvolvimento e descontinuidades dos padrões de acumulação de capital e sua articulação com o Estado. No fomento às ondas de protestos sociais há uma dinâmica material, oriunda do próprio movimento do capital e seus processos de acumulação, outra procedente da ação consciente e capacidade de organização das classes populares e uma dimensão referente à interação dinâmica de seus vários segmentos. Rosa Luxemburgo e Lênin abordaram extensamente essas questões, dedicando-se Rosa Luxemburgo à primeira e à terceira dimensão, e Lênin à segunda, dando centralidade ao papel do partido político. A resistência das classes dominantes brasileiras a formas estáveis de avanço de consciência popular e o seu caráter acelerado abrupto, descontínuo e flutuante demonstram os limites do projeto de democracia liberal e de sua capacidade de articular o consenso e o nacional-popular em um país dependente.

A onda de greves e protestos que se estabeleceu entre 1978-90 foi resultado da modernização industrial impulsionada pela ditadura militar do grande capital nos anos 1970 e da redemocratização iniciada em 1979. Os trabalhadores dos segmentos automobilístico e metalúrgico do ABCD jogaram papel central neste processo expressando a liderança da indústria de transformação, sediada no Estado de São Paulo, no desenvolvimento nacional. Diferentemente das ditaduras chilenas e argentinas que apostaram na desindustrialização para destruir a base sindical dos cordões operários e do peronismo, a brasileira apostou na criação de uma nova classe trabalhadora vinculada à indústria manufatureira privada para romper o protagonismo da herança trabalhista, fortemente apoiada em trabalhadores de empresas estatais, de serviços e de transportes. As greves de 1978-80 aceleraram a redemocratização e se vincularam a uma onda de paralisações e protestos que cresceu durante a década de 1980 e se expressou na luta pelas eleições diretas, pela assembleia nacional constituinte e contra a política recessiva que pretendeu financiar a crise de gestão da dívida externa. Neste contexto se formou o Partido dos Trabalhadores e Lula, sua principal liderança, quase foi eleito Presidente da República após disputa acirrada com Leonel Brizola para definir o candidato das esquerdas no segundo turno das eleições de 1989. O número de horas paradas se multiplicou de aproximadamente 8.000 para cerca de 110.000 entre 1983-1990, com o pico de quase 130.000, em 1989. No mesmo intervalo, o número de greves saltou de pouco mais de 200 para cerca de 1.800, com o auge de quase 2.000 em 1989.

Frente a este formidável movimento de massas e a aproximação entre as principais lideranças do trabalhismo e do novo sindicalismo, a grande burguesia brasileira, o capital estrangeiro e o imperialismo decidiram abandonar os projetos desenvolvimentistas no país e impulsionar o desmonte das bases sindicais da indústria manufatureira por meio da desindustrialização. O Plano Collor marcou uma tentativa confusa de transição para a nova etapa por meio de uma recessão planejada, mas o novo período se consolidou com a adesão do Estado à financeirização e ao neoliberalismo por meio do Consenso de Washington, do Plano Brady e do Plano Real. Os efeitos sobre a organização dos trabalhadores foram drásticos: eliminação de empregos qualificados e formais, precarização do trabalho, aumento do desemprego e da superexploração, perda de direitos sociais, reformas previdenciária e administrativa e queda expressiva nas greves, paralisações e protestos. Após uma tentativa moderada de resistência em 1995-96, o número de horas paradas e de greves voltou a despencar para atingir cerca de 18.000 e de 300, respectivamente, em 2002.

A liderança do Partido dos Trabalhadores que emergiu do desmonte do movimento sindical é bastante diferente da que se constitui nos anos 1980. Partindo de uma concepção basista de transformação social que nega o papel estruturante e de liderança da vanguarda, o PT se opôs ao modelo de liderança política do trabalhismo e dos partidos comunistas. Seus documentos fundacionais na década de 1980 destacaram a importância da auto-organização dos trabalhadores, mas os da década de 1990 já a substituíram pela noção de organização da sociedade civil, onde também se destacam os poderes burgueses. Com a perda de força do movimento sindical nos anos 1990, a correlação de forças na sociedade civil se inclinou fortemente para os poderes do grande capital, alterando as metas, a estratégia e a tática do Partido dos Trabalhadores. A Carta ao povo brasileiro, produzida em 22 de junho de 2002, não teve por objetivo garantir a vitória de Lula, pois este já havia alcançado 40% das intenções de voto no primeiro turno nas pesquisas eleitorais (vide o Datafolha), mas sim estabelecer o centrismo como a estratégia política escolhida pelo PT. Nela se reivindica uma lúcida transição fundada em ampla negociação nacional para estabelecer novo contrato social. Esta transição deveria respeitar os contratos e as obrigações do país, gerar superávits primários para conter a dívida interna, apoiar o agronegócio e estabelecer superávits comerciais para reduzir a vulnerabilidade externa e as taxas de juros. Suas premissas determinam os limites do seu alcance e enredam o Partido dos Trabalhadores na gestão do neoliberalismo no Brasil.

A ascensão do “progressismo”, conjunto de forças que reuniu desde a centro-esquerda moderada até forças mais radicais, nacional-populares e latino-americanistas, a partir da crise do neoliberalismo na virada do século XXI, e a conjuntura internacional favorável marcada pelo boom das commodities e pelo forte ingresso de capitais estrangeiros reestabeleceram a dinâmica de crescimento econômico. Proporcionaram a elevação do emprego qualificado e formal, do salário-mínimo e do emprego público possibilitando uma nova ofensiva dos movimentos sociais no Brasil que se iniciou em 2008 e se prolongou até 2015/16, despencando com o golpe de Estado. Nessa nova ofensiva, os trabalhadores da educação e da saúde públicas cumpriram papel estratégico lançando uma expressiva ofensiva político e ideológica contra o neoliberalismo. Eles colocaram em xeque a herança neoliberal dos governos de Fernando Henrique Cardoso incorporada nos governos petistas e manifesta no tripé macroeconômico: superávits fiscais para pagar juros da dívida, taxas de juros muito superiores ao crescimento do PIB e câmbio flutuante e sobrevalorizado. As greves de 2012, impulsionadas pelos servidores públicos, alcançaram o movimento estudantil e o setor privado provocando as explosões de massa de 2013, nas quais a reivindicação da gratuidade do transporte público para estudantes cumpriu o papel detonador. O número de horas paradas saltou de aproximadamente 25.000 para cerca de 90.000 entre 2008-2012, e se estendeu para mais de 110.000 em 2013. E o número de greves subiu de aproximadamente 400 para 900 entre 2008 e 2012, alcançado mais de 2.000 em 2013.

Atemorizada com a nova ofensiva popular, Dilma derrotou as paralisações do funcionalismo federal, ameaçou instituir uma lei de greve para o setor público e elevou sistematicamente as taxas de juros Selic para produzir uma recessão e reduzir a pressão social. Em contradição com a campanha eleitoral de 2014, em seu segundo mandato, a Presidente impulsionou a financeirização. Ela nomeou um antigo secretário de política econômica do governo FHC, Joaquim Levy, como seu ministro da Fazenda, e elevou a taxa de juros Selic, entre maio de 2013 e dezembro de 2014, de 8% a.a. a 11% a.a., mantendo a trajetória de subida até agosto de 2015, quando atingiu 14,25%. A taxa de desemprego saltou de 6,6%, no trimestre das eleições presidenciais, para 9,1%, em outubro-dezembro de 2015, quando se iniciou o processo de impeachment, e alcançou 11,9% quando esse se concluiu. O PIB per capita decresceu em 2,38% a.a. em 2014-15, em dólares constantes de 2015 (UNCTAD) e o país chegou a pagar 10,2% do PIB em juros anualizados de dezembro de 2015, caindo para 9,5% em agosto de 2016. A ofensiva do movimento popular seguiu até 2016 quando o golpe de Estado e a aprovação da Emenda Constitucional 95, que pretendeu congelar por 20 anos os gastos públicos primários, limitando-os à variação da inflação, converteram a recessão em política de Estado. As horas paradas alcançaram o máximo em 2016, quando superaram 140.000, e a quantidade de greves se aproximou de 2.200, desmoronando a seguir.

Sem o suporte do gasto público, a economia brasileira estagnou no período de crise orgânica do neoliberalismo, a partir de 2015, quando este perdeu o suporte do dinamismo do mercado internacional e dos fluxos internacionais de capitais. Se entre 2016-2022, o PIB per capita da economia brasileira cresceu 0,08% a.a., entre 2003-2014 o fez em 2,45% a.a. (UNCTAD). Se tomarmos como referência o intervalo de 2014-2022, a taxa de decrescimento anual é de 0,47%.  A eleição de Jair Bolsonaro, a gestão ultraneoliberal de Paulo Guedes e a repressão e intimidação dos movimentos sociais aprofundaram o descenso da onda de greves, paralisações e protestos. A taxa de desemprego aberto alcançou o seu valor máximo em julho-setembro de 2020, quando atingiu 14,9%, impulsionada pela resistência de Bolsonaro e Guedes em tomar as medidas de expansão do gasto público para conter os efeitos sociais e econômicos deletérios da pandemia. As horas paradas caíram para aproximadamente 45.000 em 2019 e 20.000 em 2020 e o número de greves desabou para pouco mais de 1.100 em 2019 e quase 700 em 2020.

As pressões sociais para o aumento do gasto público incidiram sobre o governo federal e o Parlamento e possibilitaram furos no teto de gasto para gerir a situação de calamidade pública, permitindo alguma recuperação da economia. Esse cenário se combinou com a crise política do governo Bolsonaro e as eleições presidenciais de 2022 para estabelecer uma retomada ainda incipiente do ativismo dos movimentos sociais. As horas paradas mais que duplicaram para cerca de 55.000 e o número de greves alcançou mais de 1.100 em 2022. No descenso e na recuperação do número de horas paradas e de greves cumpriu papel principal a atuação do funcionalismo público, a sua retração ou retomada. Entretanto, essa reativação se choca com a estratégia de Lula e do núcleo dirigente do Partido dos Trabalhadores para o Estado brasileiro.

Lula e o círculo dirigente do PT centraram sua estratégia de governabilidade na aliança com as principais frações do grande capital, os neoliberais, os militares  e até mesmo no acercamento a forças emergentes, como as empresas neopentecostais. Sua leitura é de que as falhas no diálogo e aproximação com estes grupos estão entre as principais razões do golpe de Estado. Na disputa dessa aliança com os fascistas, Lula oferece paz e tranquilidade política, o que exige desmontar as pressões sociais que pedem o combate ao neoliberalismo, a transformação do padrão de acumulação hegemônico e mudanças nas estruturas organizacionais do Estado brasileiro que desafiem os privilégios do capital financeiro, do rentismo, do agronegócio e do monopólio midiático, o poder burguês na sociedade civil, a superexploração dos trabalhadores, o vínculo das forças armadas ao golpe de 1964 e a teologia da prosperidade. Torna-se crucial nessa perspectiva impedir uma nova ofensiva dos movimentos sociais, similar a que ocorreu entre 1983-90 e 2008-16. O governo dedica-se então a cooptar lideranças, desmobilizar organizações, pressionar e desqualificar movimentos sociais e abandonar temas históricos dos movimentos populares. O descarte do projeto do Museu da Memória e dos Direitos Humanos, a desmobilização do ato das centrais sindicais no 1º maio, as metas agressivas de austeridade fiscal maiores que as expectativas do Congresso Nacional e do mercado financeiro, as articulações para desvincular os gastos em saúde e educação de um percentual fixo da arrecadação da União, a mediocridade do orçamento destinado às universidades federais, e a tentativa de desqualificar as greves dos trabalhadores da educação pública, desautorizando o ANDES, sindicato dos docentes de ensino superior, são evidências dessas diretrizes. Na negociação com as greves no ensino superior, Lula apresentou índices extremamente reduzidos de recomposição das perdas salariais acumuladas no segundo mandato de Dilma e nos governos Temer e Bolsonaro. Propôs em seu quadriênio um reajuste muito mais próximo do congelamento de perdas que da recuperação do poder aquisitivo dos salários. Caso a inflação de 2023 se repita nos próximos anos do mandato de Lula, o governo terá proposto um reajuste médio de 5%, bastante abaixo dos 26% a 30% necessários para recompor os salários dos professores de ensino superior aos valores de março de 2014.

Lula reaparece em seu terceiro mandato como um personagem com escassa relação com o seu passado de lutas, expressas em sua atuação como líder sindicalista das greves do ABC de 1978-80, deputado federal constituinte e candidato a Presidente da República de 1989. Se naquele período apoiou as lutas de massas para transformar a institucionalidade, agora ressurge buscando controlá-las e limitá-las e defendendo um conceito de democracia restrita, de baixa densidade social, muito próximo ao reivindicado por Fernando Henrique Cardoso para países periféricos e dependentes. Para Cardoso as democracias latino-americanas devem ser protegidas de lideranças populistas e de qualquer iniciativa que indique capitalismo de Estado, isto é, um padrão de acumulação no qual o Estado atue com relativa independência para exercer papel estruturante e promotor do desenvolvimento de setores, produtos e serviços que não interessem ao grande capital em seu conjunto oferecer.  Se em seu segundo mandato, Lula impulsionou uma expansão anual dos investimentos federais de 27,6% garantindo para o Estado um papel de indutor do desenvolvimento, a partir da ascensão do movimento de massas e das críticas da oposição liberal, em que se destacou a voz do próprio ex-presidente da República do PSDB, o petismo hegemônico cedeu. Frente às pressões crescentes dos movimentos populares, Cardoso requentou suas teses clássicas dos anéis burocráticos, que associam o autoritarismo na América Latina a um suposto domínio do corporativismo estatal sobre a sociedade civil, para condenar a expansão do gasto público em favor de elites empresariais específicas, setores mais pobres da população e dos projetos de permanência da liderança político-partidária petista. O governo Dilma reduziu em seu primeiro mandato os investimentos federais à expansão anual de 1,0% e em seu segundo mandato a um decrescimento de -28,4% ao ano. O resultado não foi a democracia, mas o golpe de Estado do qual o próprio Fernando Henrique Cardoso participou como ideólogo e articulador. 

Lula voltou à vida política eleitoral para o seu terceiro mandato presidencial dando centralidade à austeridade fiscal, descartando qualquer perspectiva de capitalismo de Estado e aprofundando a política de compressão e cortes ao custeio da máquina administrativa federal. Mesmo a nova política industrial, financiada pelo BNDES, maneja recursos modestos. Sabemos que estamos avançando para novas etapas da revolução científico-técnica e que o setor de serviços assume protagonismo no mundo contemporâneo, tanto na produção de bens e serviços quanto nas lutas sociais. Dois são os projetos em confronto para a economia política do século XXI: um prioriza a saúde, a educação, a ciência, a tecnologia, a infraestrutura, a ecologia e o lazer e está baseado nas lutas nacionais e populares dos trabalhadores e em sua internacionalização; outro prioriza o capital financeiro, o rentismo, seus lucros extraordinários e fictícios, submetendo o mundo da vida, isto é, dos trabalhadores e das pequenas e médias empresas, à expropriação para a realização de suas expectativas de rentabilidade. Ao optar por uma estratégia de governabilidade pelo alto para supostamente garantir a estabilidade da democracia liberal brasileira, Lula e o núcleo dirigente do PT desenham para o seu partido o lugar de braço operário do grande capital no país. O fazem, todavia, em um país dependente que sofre transferências negativas de mais-valor e durante uma conjuntura internacional de crise orgânica e terminal do padrão neoliberal. Trata-se do projeto de uma tecnoburocracia de origem operária que prioriza a partilha da gestão do Estado com o grande capital e os cargos e salários a que esta dá acesso. Afasta qualquer interesse popular que crie turbulências políticas e lhe prejudique na disputa com o fascismo por essa aliança. Os montantes destinados às universidades públicas no orçamento federal, inferiores aos do governo Temer e à média do governo Bolsonaro, não apenas aprofundam a dependência científico-tecnológica, mas atingem a reprodução de um dos segmentos da classe trabalhadora mais capacitados para produzir uma alternativa à hegemonia das políticas neoliberais no Brasil. Este segmento junto com os demais trabalhadores da educação, os trabalhadores  da saúde e demais serviços públicos têm liderado as paralisações no Brasil no século XXI.  

Entre as principais condições para a ascensão do fascismo estão o declínio do liberalismo político e a submissão das esquerdas às suas políticas públicas e projetos. A aproximação do PT às concepções estratégicas da social-democracia europeia que vem se submetendo ao neoliberalismo e ao imperialismo liberal estadunidense indicam que o caminho escolhido para combater o fascismo é equivocado. Entre 2004 e 2024, a participação da social-democracia no parlamento europeu caiu sistematicamente, desabando de 27,3% para 18,8%, enquanto a extrema-direita cresceu, principalmente na França, na Itália e na Alemanha. As contradições entre as massas e uma política social-democrata subordinada à austeridade se agravam em um país cujo padrão de acumulação se baseia na superexploração dos trabalhadores. A aproximação do PT com os neoliberais, cuja impopularidade impediu que o PSDB e o PFL/DEM lançassem candidatos competitivos à Presidência da República desde o fim do governo FHC, abre o espaço para que o fascismo utilize sua retórica demagógica sobre as massas desorganizadas para se colocar como antissistêmico, aprofundando o neoliberalismo, mas se lançando contra a democracia política, alvejada pelos acordos de cúpula que suas formas liberais-oligárquicas têm ensejado no país.

A conjuntura brasileira exige atenção e uma avaliação cuidadosa dos setores vinculados às políticas nacionais-democráticas e de emancipação popular. Não se poderá combater a extrema-direita sem conflitos e lutas contra as estruturas seculares da opressão do povo brasileiro que se aprofundam. Qualquer alternativa que busque contornar esta necessidade poderá desmoralizar as esquerdas e gerar resultados bastante negativos.

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Carlos Eduardo Martins é professor associado UFRJ, editor de Reoriente: estudos sobre marxismo, sistemas-mundo e dependência e pesquisador do CLACSO. Membro do conselho editorial da revista semestral da Boitempo, a Margem Esquerda, é autor, entre outros, de Globalização, dependência e neoliberalismo na América Latina (2011) e um dos coordenadores da Latinoamericana: Enciclopédia contemporânea da América Latina e do Caribe (Prêmio Jabuti de Livro do Ano de Não Ficção, em 2007) e co-organizador de A América Latina e os desafios da globalização (2009).


Fonte: Blog da Boitempo

História paralela: a guerra cultural é real

inscrição história

Um dos bezerros de ouro da direita no Brasil é a anedota de que a esquerda estaria envolvida em uma espécie de guerra cultural para exterminar a democracia para instalar uma espécie de domínio cultural comunista no nosso país. 

Curiosamente, graças a uma reportagem da Agência Pública,  o que se vê é a participação direta de propagandistas da extrema-direita no oferecimento de conteúdos curriculares da disciplina de História via um desses famigerados cursos do chamado “Ensino à Distância” (EAD).

história paralela

O caso em questão foi revelado em matéria assinada pela jornalista Amanda Audi que mostra a participação da conhecida produtora de conteúdos falsos, a Brasil Paralelo, na composição do conteúdo curricular do curso de História na modalidade EAD do Centro Universitário Católico Ítalo Brasileiro que fica localizado no bairro de Santo Amaro na cidade de São Paulo.

A reportagem mostra em detalhes o uso de conteúdos preparados por seguidores do falecido “jack-of-all-trades” da extrema-direita Olavo de Carvalho e de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro.  O resultado, como não poderia deixar de ser, conduz à formação de um historiadores da carochinha onde se apresentam conteúdos que reforçam uma versão de fatos históricos que fortalecem a narrativa da extrema-direita.

Amanda Audi mostra ainda que o Centro Universitário Ítalo Brasileiro não apenas é um dos financiadores da Brasil Paralelo, mas também propaga os conteúdos produzidos pela empresa, incluindo a apresentação de filmes.  Para surpresa de ninguém, pelo menos um alto dirigente da instituição, o reitor Marcos Antonio Cascino, segundo a reportagem, é propagador de teses negacionistas sobre a pandemia da COVID-19.

Mas indo direto ao ponto que importa, o que me parece significativo é entender o porquê desse interesse em formar historiadores alinhados com a ideologia da extrema-direita. É que no cotidiano ocupado e marcado por necessidades básicas em que a maioria das famílias brasileiras, quais são os pais que vão poder ficar acompanhando o que dizem os professores de História formados com os conteúdos da Brasil Paralelo? Eu diria que pouquíssimos pais vão poder fazer isso.

E aí, meus caros leitores, é que mora o perigo.  Por isso, é que se tem que entender que quando a extrema-direita aponta para a existência guerra cultural, ela está dizendo a verdade, apenas omitindo que quem está promovendo são seus soldados travestidos de professores de História.

 

O desastre ambiental gaúcho: entre o afogamento das soluções e a inundação das ilusões 

O homem viver da natureza significa: a natureza é o seu corpo, com o qual ele tem de ficar num processo contínuo para não morrer. (Karl Marx) 

Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem. (Bertolt Brecht) 

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Por Frente de Estudos Socioambientais da Revolução Brasileira 

Corre entre nós um problema de memória, e quando a prática política não remete aos fatos históricos, seu destino é se diluir. Rio Grande do Sul (2023 e 2024), litoral norte do estado de São Paulo, Bahia, Petrópolis, Nova Friburgo, Manaus… Se somente nos bastarmos nos exemplos mais emblemáticos dos últimos anos e associados ao fenômeno natural das precipitações. Todos eles exigiram um alto grau de conhecimento técnico, o que, aos trancos e barrancos, ainda se tem, pelo que restaram das universidades, desde a interpretação de imagens de satélite até rigorosos cálculos da taxa de evasão de rios e mananciais, resultando em propostas de intervenção pública. E a perda dessa memória é retroalimentada por uma práxis política que nos condena às eternas ações de caráter reativo, esboçando o fracasso de tentar nos defender, cegos, de problemas que se mostram à luz do dia, intransponíveis diante das margens da Dependência, que nos comprimem. A fé cega no “Estado”, a “naturalização” do problema e a terceirização das responsabilidades para nosso próprio povo sempre fizeram parte do vasto arsenal que a direita empunha contra nós.  Porém, nas últimas três décadas, tais ilusões vieram a compor o largo acervo de ignorância da esquerda liberal que, em parceria com a direita, também apontam tais armas contra nós, o ambiente.    

 O esquecimento desses episódios e o tratamento dos mesmos como reflexos de condições “naturais” carrega um interesse de classe para que a população em geral – e a esquerda liberal em particular, desarmadas ideologicamente, estejam reféns dos fatos semanais noticiados pela imprensa burguesa, e que nunca se chegue, de fato, à discussão central e cunho político das tragédias. Esse debate necessário é o que torna o desastre, justamente, ambiental, e não natural, que passa pelas razões no nível da reprodução ampliada do capital em sua expressão dependente, e não por uma imposição de caráter naturogênico, pretensamente “inevitável”¹. Por um lado, a direita se mostra em sua face mais acabada, atrelando o problema a um mero caráter de ocupação “desordenada”, esvaziando o conteúdo político de um capital que se reproduz espacialmente a partir da concentração da renda da terra e da desterritorialização da classe trabalhadora dos centros e das ocupações regulares. Por outro lado, a perda da memória e das lições das últimas tragédias faz com que, pelo lado da esquerda liberal, sempre se cheguem às mesmas medidas paliativas, reativas, solidaristas e comemoradas com muito festejo, principalmente depois que a suposta dívida do estado do Rio Grande do Sul foi adiada por míseros três anos e pela pífia isenção da taxa do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), ao invés de chegar à raiz dos nossos problemas. Ou seja, devemos politizar sobre a tal dívida e sobre os reais custos ambientais derivados da atuação das mega-empresas dos setores industrial, agrário e minerador pois, juntos, esses custos são tratados como “externalidades”, não entrando na conta de capitais, para sim serem devidamente socializados sobre a população e o “meio ambiente”, enquanto que a remessa de lucros e as limitações impostas na periferia capitalista no nível geopolítico caracterizam o modo de produção que gera e mantém os modelos de extração agro-mineral que subdesenvolvem e reproduzem a miséria do perifério².  Um simples reflexo desse desequilíbrio fica exposto na diferença entre o investimento em obras de prevenção locais após uma crise sócio-ambiental no centro capitalista – o episódio do furacão Katrina, nos EUA –, que chegou a ser 60 vezes maior do que a receita para a Defesa Civil de um estado com o aporte e a influência do Rio Grande do Sul, tanto em termos políticos quanto ambientais³

 O “investimento” mesmo, que até é reivindicado pela esquerda liberal durante seus episódios reativos, esbarra na cumplicidade que tem sobre um governo PTucano que adota a estratégia liberal solidarista, cuja expressão máxima seja a única e mísera reunião que o Comitê Interministerial sobre Mudança do Clima (CIM) teve durante toda a gestão4. Somado a isso, a receita do Centro de Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN) no primeiro ano do governo Lula III, conseguiu ser menor do que em 2015. O esquecimento das tragédias é impulsionado pelo PTucanismo em forma de defesa abstrata do “meio ambiente”, porque quando há períodos sem chuvas intensas, o “meio ambiente” é festejado de forma meramente simbólica. Quando o “meio” se impõe, aí é que o governo faz seu recuo estratégico, em nome dos interesses do poder central rentista comandado pelos banqueiros e pelo latifúndio agro-exportador. Atividades essas hegemônicas, que não geram emprego para uma população de tamanho continental como a nossa mas, sim, criam e recriam os impactos sócio-ambientais catastróficos do modelo. Tanto “sob o desemprego estrutural e a precarização do trabalho, como em termos ecológicos, indo desde a desestruturação dos solos, rios e estuários, pela agricultura industrial e pela proliferação de vírus na figura do agronegócio”, nascemos, vivemos e morremos dentro de uma “rachadura ou falha estrutural nas relações produtivas portanto, sociais, vigentes no modo de produção capitalista”6. Essa é a “relação-limite” que Marx já chamava de “rachadura” ou “falha metabólica”, sob as relações produtivas e sociais, a partir da efetivação do modo de produção capitalista. E, para entendermos a atuação do Estado periférico, é dentro desse projeto de extração de mais-valia e superexploração que ele é criado, moldado e mantido por nossa classe compradora – nossas ínfimas elites, parceiras locais dos capitais metropolitanos. Apenas dentro desse contexto é que podemos compreender a função legitimadora e garantidora do Estado, seja em forma de ditadura empresarial-militar, seja de alianças PTucanas, continuadas pelo protofascista Bolsonaro, no período pós-Plano Real.

 Deste modo, o que ocorre é um problema de cunho geral e multifacetado, embora sua manifestação concreta seja particular. O Rio Grande do Sul, em termos “físico-territoriais”, localiza-se em uma região estratégica para se pensar nos últimos episódios de eventos climáticos acentuados globalmente. Isto porque se encontra em uma área de formação de ciclones extratropicais e de convergência entre a Massa Tropical Atlântica (típica do verão) e a Massa Polar Atlântica (típica do inverno), formando sistemas de instabilidade. Somado a isso, o Guaíba, onde se insere a realidade de Porto Alegre, é formado por oito bacias de drenagem distintas, que escoam por quatro rios a partir do delta do rio Jacuí7, formando um corpo hídrico cuja classificação, embora complexa, é reduzida pela prefeitura como um lago, que tem implicações diretas na especulação da terra, como há de ser visto. 

 Todo esse arsenal nos ajuda a compreender que, em escala regional, o Rio Grande do Sul, como também poderiam ser citados os casos da região serrana do Rio de Janeiro ou da bacia amazônica, necessita de uma intervenção em termos de infraestrutura e participação que, no nível de um país capitalista dependente periférico, é impossível dentro da ordem. Esse fato é contemplado, dentre outros, por três fatores essenciais: 1) o primeiro se relaciona com o baixo investimento em defesa civil (construção e manutenção de diques, comportas e casas de bombas), o que está atrelado tanto às limitações impostas pelo sistema da dívida pública quanto pela austeridade, expressa pelo Novo Teto de Gastos; 2) um sistema de monitoramento colaborativo, de planos de evacuação, alerta e radicalização democrática dos processos de decisão (comitês de bacia, movimentos populares urbanos, etc.) que, no nível da burocracia estatal burguesa e da educação pública desconexa das demandas reais do nosso povo, não pode ser cumprido em nível de representação real e; 3) o padrão de urbanização dependente, não exclusivo ao Rio Grande do Sul, permitiu a ocupação de encostas e alagados, sob diretrizes de distribuição espacial de moradias e serviços que não atendessem às demandas reais da população, mas de grupos econômicos estrangeiros e privados que investiram, historicamente, em nossa economia. Os três maiores eventos de inundação já registrados no Rio Grande do Sul nos últimos oito meses8, antes de revelar o desafio que os gaúchos têm em mãos, ilustram que, em nível nacional, um país periférico só pode produzir as condições necessárias de resiliência e atendimento de demandas locais mediante uma profunda convulsão social, orientada pela radicalidade e necessidade da Revolução Brasileira. 

 Embora o liberalismo de esquerda, em seus diagnósticos, apresente o tema da especulação fundiária como componente explicador para a alocação da classe trabalhadora nas planícies de inundação, o faz sem a responsabilização do governo Lula, que contribuiu, mediante suas políticas urbanísticas e agrárias, de forma central, para a concentração e internacionalização da propriedade da terra. Isso porque os três primeiros governos petistas foram os que mais concentraram terra durante a democracia liberal9. A ofensiva do governo se apresentou em outras frentes, como do indigenismo, em que a atual gestão demarcou apenas 10 terras indígenas durante todo o governo das 14 prometidas somente para seu primeiro ano de mandato10! No que concerne aos assentamentos, é feita a mesma política de emissão de títulos da terra de Bolsonaro¹¹. Migalhas que, ao fim e ao cabo, são a sentença de morte de famílias assentadas diante de grileiros no dia de amanhã! No Rio Grande do Sul não foi diferente: com a bancada ruralista operando com liberdade e apoio do governo, somada à gestão funcional de Eduardo Leite, a ofensiva do latifúndio sobre as matas ciliares e sobre os menos de 2% da biodiversidade original das matas subtropicais8 é plena e absoluta, o que contribui diretamente para o assoreamento de rios e o aumento de sua evasão. O mesmo ocorre em termos do solo urbano, em que os mecanismos, embora insuficientes, de uso social da propriedade não são evocados pelos parlamentares petistas, resultando em mais de 100 mil imóveis ociosos somente em Porto Alegre¹². Tampouco pode se afirmar algo no sentido da reforma urbana, que não está no horizonte PTucano, rendido à mesma construção civil que ocupou as margens do Guaíba. O que interessa, afinal, é que as gestões petistas estão em perfeita sintonia com a lógica da especulação da terra, cujo horizonte são as Parcerias Público-Privadas, em que o Estado assume apenas os prejuízo das infraestruturas. Como expressão disso, no nível de política social, o Minha Casa Minha Vida, que não passa de uma digestão moral da pobreza, retroalimenta este ciclo.

Os defensores do governo Lula teimam em dizer que há uma “governabilidade” em jogo, cuja expressão máxima seja a bancada ruralista. Mas ignoram que não há maior postura de cumplicidade do que com o avanço do latifúndio agroexportador e do afrouxamento das legislações ambientais!Se houvesse mesmo um compromisso do lulismo diante das tragédias, o mesmo não dependeria da tal “governabilidade”, sustentada pelo seu inegociável compromisso eleitoralista, e convocaria as massas a exercerem o poder político. Nenhuma palavra saiu de Lula ou do Ministério do Meio Ambiente, tampouco do ministro ruralista Carlos Fávaro, a respeito da aprovação do Projeto de Lei 1366/22, que exclui a silvicultura (cultivo para fins comerciais, como eucalipto e pinho) do leque de atividades potencialmente poluidoras¹³. O eucalipto, como a soja, avança sobre as matas originais, e diminui ainda mais a possibilidade de cultivo de alimentos, que promoveriam a subsistência das famílias no campo e na cidade, bem como das matas ciliares, fundamentais para o controle de inundações. Mesmo diante da retaliação da proteção aos biomas do Pampa e da Mata Atlântica, promovida pelo tucano Eduardo Leite em várias frentes, não houve qualquer menção por parte de Lula ou Marina Silva, tampouco sinal de combate. Em 2023, o governo de Eduardo, por meio do Conselho Estadual do Meio Ambiente (CONSEMA), possibilitou a ampliação do uso do solo para a silvicultura¹³, o que promoveu uma radical alteração no uso de seus recursos hídricos. Ademais, neste ano, o governo tucano conseguiu aprovar uma lei que permite a construção de barragens e açudes em Áreas de Proteção Permanente (APPs), em nome dos interesses do latifúndio14. A própria caracterização do Guaíba como um “lago” (quando, na realidade, é um corpo hídrico muito mais complexo do que isso) assegura maior liberdade de exploração do solo por parte do latifúndio e da construção civil, uma vez que um lago tem apenas 30m de APP ao longo de sua margem, ao passo que um rio apresenta até 500m de dimensão da APP a partir de sua faixa15. E afinal, tudo isso corrobora com uma incapacidade do governo federal? Na realidade, a omissão e a ausência de sinal de combatividade não traduzem uma incapacidade do governo PTucano de agir sobre a preparação das tragédias, como a que assola o Rio Grande do Sul, mas uma expressão cabal de partilhar os interesses do latifúndio agro-exportador e, portanto, sua posição ideológica. É nesse sentido estrutural que, diante dos fatos que se apresentam, Lula não pode confrontá-los em suas últimas consequências, porque é um agente dos interesses da burguesia fundiária doméstica e internacional, inconciliável com os interesses da classe trabalhadora. 

 Hoje, em fase monopolista-rentística do sistema, onde o capital especulativo é hegemônico, a internacionalização do valor da produção extrativista brasileira e, até, da propriedade da terra em si, exercem pressões diretas sobre a classe parasitária doméstica e o Estado a aumentarem e aceleraram ainda mais a superexploração e extração de mais-valia do país. Há alguns anos, já era visto um rápido aumento da concentração do controle de capital internacional sobre territórios brasileiros, como no MATOPIBA e, pasmem, no Rio Grande do Sul¹⁶. Entre as trágicas manifestações locais, gaúchas, de tais pressões do latifúndio – agora casado com o rentismo – teriam que estar a recente flexibilização (para não dizer destruição) do Código Estadual do Meio Ambiente do Rio Grande do Sul, que em 2020 foi “rasgado” em “regime de urgência” pelo estado e literalmente jogado ao mar¹⁷. Deste modo, no beco sem saída em que se encontra a esquerda liberal, seu refúgio passa a ser a terceirização das responsabilidades sobre o desastre ambiental. Precisamente nos referimos à expressão “negacionistas climáticos”, de caráter grotesco e impostor. Ao invés de colocar o dedo na ferida sobre os especuladores imobiliários, os latifundiários e a coalizão que eles representam com o governo Lula, sem o povo, o liberalismo de esquerda preferiu jogar sobre o colo da classe trabalhadora, desorientada pela perda da radicalidade política por parte da esquerda, uma expressão estéril que mais serve aos interesses de legitimação da direita do que explica a real trama por trás das mudanças climáticas e de seus discursos. Isso porque há, por parte dos países e das classes, responsabilidades mediatas e imediatas, bem como capacidades distintas de mitigação e prevenção, cuja inserção do Brasil e dos trabalhadores, nesse quesito, deveria ser muito bem compreendida pela esquerda. E o que ela teria a dizer da ausência de reuniões sobre mudanças do clima por parte do MMA? E qual é a “ruptura” promovida pelo governo federal em nível de investimento no CEMADEN ou pelo combate à aprovação do uso de agrotóxicos, que nem durante o governo Bolsonaro foram tão expansivos? O que há, por fim, é uma continuidade, fruto de um contexto tão despolitizante a ponto de gerar sobrevida ao debate “Estado mínimo x máximo”, que não compreende o papel de classe que nosso Estado cumpre.   

 O Rio Grande do Sul não será mais o mesmo, e isso é um sinal dos tempos para nós. O governo Lula é uma embarcação em estágio avançado de naufrágio. O contexto exige de nós a consciência plena de que um desastre não é isolado, mas fruto da reprodução das condições dependentes que estão presentes em vários setores de nossa vida, desde o padrão de urbanização, uso e ocupação do solo aos investimentos de mitigação e prevenção dos desastres. Quando o vale de lágrimas terminar de ser escoado pela esquerda PTucana, não sobrará tijolo algum para reconstruir, de fato, uma nova orientação, que depende da superação da dependência e do subdesenvolvimento. Por maior que seja o esforço liberal de esquecer as tragédias, novas estão por vir. E por maior que seja a constituição de nosso povo enquanto povo nos gestos solidários das últimas semanas, será preciso que essa indignação e compaixão turbinem a consciência crítica, porque somente ela é capaz não de “solucionar” as questões, mas de superá-las, segundo uma revolução socialista e nacionalista.

Frente de Estudos Socioambientais da Revolução Brasileira

 

1 Um dos principais interlocutores do debate da politização dos desastres tem sido o geógrafo Marcelo Lopes de Souza. Ver: SOUZA, Marcelo Lopes de. Ambientes e Territórios: Uma Introdução à Ecologia Política. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2019 e https://www.youtube.com/watch?v=8ddba3IHe6A

2 Gunder Frank, André. Desenvolvimento do Subdesenvolvimento. Monthly Review, Nova York, vol. 18, n. 4, set. 1966

3 Cálculo feito por Luciana Genro. Disponível em: https://movimentorevista.com.br/2024/05/luciana-genro-nao-foi-so-a-chuva

Principal órgão do governo Lula para clima teve apenas uma reunião (uol.com.br) 

5https://portaldatransparencia.gov.br/receitas/consulta?paginacaoSimples=true&tamanhoPagina=&offset=&direcaoOrdenacao=asc&orgaos=OR24000&colunasSelecionadas=ano%2CorgaoSuperior%2Corgao%2CunidadeGestora%2Ccategoria%2Corigem%2Cespecie%2Cdetalhamento%2CvalorPrevistoAtualizado%2CvalorRealizado%2CpercentualRealizado%2CvalorLancado&ordenarPor=ano&direcao=desc 

6 Bilhalva, Fernando Vitória e Fontana, Cleder. Natureza e Sociometabolismo em Marx: Contribuições à Leitura da Crise Socioecológica do Capital.  Germinal: marxismo e educação em debate, Salvador, v. 13, n.2, p. 92, ago. 2021.

7 Dilermando Cattaneo. Disponível em: https://www.youtube.com/live/TBcOlDvuVus?si=az7u0HWIbKQxta5b 

8 Respectivamente: Guilherme Oliveira; Dirce Suertegaray . Disponível em: https://www.youtube.com/live/0F32K9wxdYU?si=arJ5KUB6VIbJOhR_  

https://mst.org.br/2010/06/06/concentracao-da-terra-e-maior-que-na-decada-de-20/ 

10 https://www.metropoles.com/brasil/lula-demarcou-10-de-14-terras-indigenas-prometidas-no-inicio-da-gestao 

11 https://blogdopedlowski.com/2023/12/19/lula-repete-bolsonaro-e-governo-nao-compra-terras-para-reforma-agraria-pelo-terceiro-ano-seguido/ 

12 Herminia Maricato. https://www.youtube.com/live/Fytui10yJSU?si=IaV5v-t-rpwSuSPA 

13 https://blogdopedlowski.com/2024/05/11/em-meio-ao-caos-no-rs-bancada-ruralista-et-caterva-avancam-pacote-da-destruicao-ambiental-no-congresso-nacional/. Ademais, em escala estadual: https://sul21.com.br/noticias/meio-ambiente/2023/09/sob-critica-de-ambientalistas-consema-aprova-novo-zoneamento-ambiental-da-silvicultura/ 

14 https://blogdopedlowski.com/2024/05/07/eduardo-leite-e-seu-plano-marshall-casa-de-ferreiro-espeto-de-pau/ 

15https://x.com/necofachel/status/1788032612440662510?t=DmUXitnVU5Dxmg_5EM60ew&s=19 

16 Siviero Vicente, J. Estratégias de Financeirização No Agro: Três Casos de Investimentos Na Agricultura e nos Mercados de Terras No Brasil. Estudios Rurales, vol. 11, núm. 22, 2021, Universidad Nacional de Quilmes, Argentina. Disponível em: https://estudiosrurales.unq.edu.ar/index.php/ER/article/download/66/191/454); ver também, Siviero Vicente, J. (2020). Uma nova safra de proprietários rurais? O caso dos investimentos da Universidade de Harvard em recursos naturais no Brasil. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade). Instituto de Ciências Humanas e Sociais, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ.

17 Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (AGAPAN). Governo Leite Destruiu Código Ambiental Que Protegia o Meio-Ambiente: Alguns apontamentos sobre as alterações do Código Ambiental original (Lei 11.520/2000) feitas para flexibilizar leis e criar o substituto (Lei 15.434/2020), 24 maio de 2024; Disponível em: Código Ambiental RS (agapan.org.br) Observe que o Código Estadual do Meio Ambiente do Rio Grande do Sul, protocolado na Assembleia Legislativa como projeto de lei em 1994 e aprovado em 2000 (Lei 11.520/2000), era formado por um arcabouço de leis que incluía o Código Florestal do Estado do Rio Grande do Sul (1992), o Sistema Estadual de Proteção Ambiental (1993) e o Sistema Estadual de Recursos Hídricos (1994). Parte do contexto local também é que, ao todo, o Código Estadual do Meio Ambiente do Rio Grande do Sul foi conquistado coletivamente com a participação conjunta dos municípios, da população e de vários profissionais das áreas relevantes, que faziam parte da “Comissão de Saúde e Meio Ambiente”. Esse Código foi considerado único no país por ser o primeiro e por contemplar proteções que iam além do previsto a nível federal. Portanto, o ataque de 2018-2024 foi, e continua sendo, tanto um retrocesso ambiental como também um retrocesso do ponto de vista democrático, tanto para o estado como para a nação.


Fonte: Revolução Brasileira

Garimpo ilegal provocou aumento nos casos de malária na Amazônia, afirma estudo

garimpoGarimpo ilegal nas terras indígenas Munduruku e Yanomami colaborou para aumento de 108% nos casos de malária entre 2018 e 2021

A malária avança na região Amazônica principalmente devido ao garimpo ilegal associado ao desmatamento. Um estudo da Universidade de Brasília (UnB) reúne constatações científicas anteriores e aponta que a área de garimpo em terras indígenas aumentou 102% entre 2018 e 2021. Esse fato impactou, possivelmente, no aumento de casos de malária nas terras indígenas Yanomami, em Roraima, e Munduruku, e no Pará, de acordo com a análise publicada na segunda (24) na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical

O trabalho traça o cenário epidemiológico da malária em áreas de garimpo no Norte do país em um período maior de tempo, de 2011 a 2023, e propõe estratégias para o controle da incidência da doença na região, a partir da revisão da literatura dos principais estudos sobre o tema. Foram usados dados de casos da doença registrados nestes 13 anos no Sistema de Informação da Vigilância Epidemiológica (Sivep-Malária) e do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde.

Segundo o pesquisador Pablo Sebastian Tavares Amaral, de 2018 a 2021, foi registrado um aumento de 108% nos casos de malária em pacientes das áreas de garimpo da região Amazônica. “Esses números podem ser subestimados, uma vez que, devido à atividade do garimpo ser ilegal, muitos omitem a informação de que são garimpeiros”, salienta Amaral, que é coautor do estudo e doutorando no Programa de Pós-Graduação em Medicina Tropical da UnB.

Em 13 anos, mais de 253 mil casos de malária foram registrados em áreas de garimpo. Os registros começam a subir, principalmente, a partir de 2020. Dentre as regiões mais afetadas, estão os estados do Mato Grosso e de Roraima, com aumento de casos entre 2017 e 2022, principalmente em áreas de garimpo ilegal. Em 2020, 59% dos garimpos brasileiros eram ilegais, segundo dados da pesquisa.

Ao mapear as áreas de garimpo impactadas pela malária, a pesquisa traz resultados que podem orientar ações de vigilância e de controle da doença na Amazônia. “Conhecer as áreas prioritárias e a dinâmica da doença é essencial para direcionar melhor as ações”, explica Amaral. Ele ressalta que, por serem ilegais, as áreas de garimpo têm pouca estrutura de saúde, o que dificulta o tratamento para a doença.

O grande número de garimpos ilegais impõe desafios para o seu monitoramento, segundo o trabalho. Essas áreas acabam virando criadouros de mosquitos que transmitem a malária. Por isso, como estratégia, o estudo identifica a necessidade de revisar a legislação para aumentar o controle sobre o desmatamento e as atividades de garimpo, principalmente em terras indígenas.

Além dela, outras estratégias citadas são expandir a vigilância da malária, por meio da ação de agentes comunitários, e de ações multissetoriais para fornecer assistência imediata às populações indígenas. Outra proposição do estudo é de conectar dados de desmatamento e malária, inserindo alertas sobre desmatamento no Programa Nacional de Prevenção e Controle da Malária. Essas ações podem ter impacto na melhoria do diagnóstico e do tratamento da malária nas terras indígenas e outras regiões mais afetadas pela doença.

O grupo de pesquisa continua a fazer estudos sobre malária na Amazônia, procurando entender o impacto das grandes obras hidrelétricas na dispersão da doença. “Esses empreendimentos passam por um processo de licenciamento ambiental que insere a malária em um plano específico, diferente dos garimpos ilegais”, explica Amaral. O pesquisador procura entender se essas ações direcionadas podem ter efeito no controle da doença na região.


Fonte: Agência Bori

“O que existe hoje é a cultura dos agrotóxicos, do veneno”. Entrevista com Vandana Shiva

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Vandana Shiva, ativista e intelectual ecofeminista 

Vandana Shiva (Dehradun, 1952) é uma das ativistas e intelectuais ecofeministas mais reconhecidas de nosso tempo. Doutora em física quântica, foi uma das fundadoras do Fórum Social Mundial, pioneira na abertura do debate agroecológico e sobre o controle de sementes e é autora de mais de 15 livros. Desde 1987, lidera o sítio agroecológico e o banco de sementes Navdanya, no norte da Índia, e contribui para organizar as lutas camponesas em todo o mundo.

CTXT se encontrou com Shiva no antigo complexo industrial Fabra i Coats de Barcelona, onde foi participar da Feira Literária de Barcelona, um encontro de editoras críticas. Lá, a ativista e intelectual indiana participou de um debate com Yayo Herrero, diante de um público de quase 700 pessoas.

A entrevista é de Pablo Castaño e Adrià Rodríguez, publicada por CTXT.  A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Com Yayo Herrero, compartilha um diagnóstico sobre a crise ecológica. Como o descreveria?

O primeiro elemento para compreender a crise ecológica é que acontece devido a uma extração sem limites. Isto acontece porque foram concedidos direitos corporativos e coloniais e são recompensados com um poder absoluto. Ao apresentar uma atividade extrativa como progresso, oculta-se a exploração, oculta-se a violação da auto-organização dos sistemas, como as árvores estão ligadas aos rios, como o solo está ligado à agricultura, como a biodiversidade das plantas está ligada à dos insetos. Todas estas relações são fundamentais.

Francisco Varela e Humberto Maturana falaram da autopoiese e propuseram uma mudança total de paradigma ao nos fazer ver que os sistemas vivos são auto-organizados. O extrativismo destrói a organização interna dos organismos vivos e as relações desses organismos com tudo o mais que está vivo. É assim que toda destruição passa a ser considerada uma externalidade. Você destrói, mas oculta a destruição.

Parte disso vem do pensamento cartesiano e do pensamento mecânico de Francis Bacon. O pensamento mecânico desmonta as coisas e dá vida a cada parte em separado. Para as pessoas que foram educadas nesse pensamento mecânico é difícil ver as relações. As relações foram destruídas em uma economia de morte.

Como você definiria a perspectiva ecofeminista em concordância com Yayo Herrero e outras pensadoras, como Maria Mies?

Ecofeminismo é dizer que a Terra está viva, que a Terra sustenta e mantém a vida. E é dizer que as mulheres não são um segundo sexo passivo. Não são um objeto a ser possuído, nem controlado. As mulheres sustentam a sociedade. Os seus cuidados e o seu trabalho invisibilizado são a verdadeira economia, porque se ocupam da reprodução e da regeneração da sociedade.

Também são as cuidadoras da Terra, porque a elas se conferiu fazer o verdadeiro trabalho [de cuidados], que não conta como trabalho, precisam trabalhar com a natureza. Por exemplo, na Índia, as mulheres são as principais provedoras de água. Elas sabem quando um poço está secando, quando um rio está secando, pois trabalham com a natureza, são as primeiras a responder à crise ecológica.

Um dos debates sobre a relação entre tecnologia e transição verde é o das energias renováveis. O IPCC e outras organizações dizem que uma das ações necessárias para enfrentar a mudança climática é promover as energias renováveis, mas estas exigem grandes quantidades de minerais e de terra. Como podemos promover as energias renováveis sem criar outra nova onda de extrativismo e colonialismo?

Minha primeira crítica ao reducionismo das energias renováveis tem a ver com o esquecimento de que há muitos tipos de energia no mundo. Todo sistema vivo é um gerador de energia. Schrödinger, físico quântico, escreveu que a diferença entre as máquinas e os sistemas vivos é que as máquinas requerem energia externa e geram entropia, que é energia desperdiçada na forma de emissões, ao passo os sistemas vivos não requerem energia externa. Uma semente se torna uma árvore com a sua própria energia e a energia do sol, e isso é entropia negativa. Ocultou-se toda a questão da entropia positiva e negativa, mas este é o cerne do debate sobre a energia e sobre o clima.

Olhar apenas para o consumo de energia e dizer que continuaremos consumindo o mesmo, por meio de energias renováveis, é não abordar o debate sobre a geração de energia e ocultar a demanda por recursos e terras. Isto é reducionista em todos os sentidos. É problemático como o tema climático foi reduzido ao consumo de energia, a buscar energias renováveis e a uma questão de temperatura.

Pensar que os fenômenos climáticos provêm da atmosfera sem ver o que está sendo feito com a terra é separar o que está conectado. Não podemos resolver um problema ecológico, que é um problema de como a vida está sendo desmantelada, mantendo a mentalidade industrial, de engenharia e mecânica. Como disse Einstein, não é possível resolver um problema com a mesma mentalidade que o criou.

Outro dos eixos de seu trabalho, também ligado à questão da tecnologia, são os agrotóxicos. Nos últimos meses, houve muitos protestos de agricultores na Europa. Um dos motivos do protesto foi a regulamentação europeia que restringia o uso de agrotóxicos na agricultura. Em resposta, a Comissão Europeia diminuiu o nível de exigência desta regulamentação. Como proteger as economias agrícolas e familiares e ao mesmo tempo a ecologia?

Os protestos começaram por uma questão econômica, começaram contra o acordo de livre comércio com o Mercosul. O livre comércio acaba destruindo todas as economias, ao passo que permite que as corporações prosperem. O livre comércio não opõe a Europa ao Sul Global, são os trabalhadores da Europa e do Sul Global que sofrem com ele.

O sistema agroindustrial globalizado é uma receita para aumentar os custos de produção e derrubar os ingressos agrícolas. É uma economia negativa. Por isso, os agricultores estão em crise. Em todo o mundo, onde quer que se incentive o livre comércio e uma maior industrialização, os agricultores respondem.

Os protestos acontecem porque os agricultores compreendem que há uma tentativa de se desfazer deles, que se tornaram uma entidade dispensável: tendemos para uma agricultura sem agricultores. A indústria aproveitou estes protestos como uma oportunidade, porque distribui os produtos fitoquímicos através dos grandes sindicatos de agricultores. Fizeram com que alguns deles falassem a respeito da retirada das regulamentações sobre os agrotóxicos, mas essa é a voz das corporações, o cartel do veneno. Não é a voz dos pequenos agricultores independentes.

A questão dos agrotóxicos tem muito a ver com o controle das sementes, uma luta na qual você está envolvida desde 1987. Como o assunto evoluiu nos últimos 30 anos? Permanece sendo tão relevante?

A vida sempre será relevante. A renovação dos sistemas vivos pelos seus próprios meios será sempre a base da liberdade na natureza e na sociedade. Por que me envolvi no tema das sementes? Porque em 1987 me convidaram para uma reunião em que se debatia as novas biotecnologias. Naquele momento, ainda não havia transgênicos no mundo. O primeiro organismo geneticamente modificado foi comercializado em 1992.

A indústria havia traçado seu caminho e disse que o seu principal objetivo era gerar patentes para as sementes. Ora, uma patente é um monopólio obtido porque se inventou algo novo. Então, a primeira coisa necessária era mudar a natureza da semente na mente das pessoas. A semente tinha que deixar de ser algo que gerava a si mesma e passar a ser um produto inventado pela Monsanto.

Uma mercadoria?

Mais do que uma mercadoria: uma criação. Uma mercadoria reconhece que o agricultor tem um papel, que a terra tem um papel. Quando falamos de propriedade intelectual sobre as sementes, a Monsanto é Deus. Assumiram o papel da criação e transformaram algo que se renova e se multiplica por si só em algo que foi feito por eles. Contudo, uma semente não é uma máquina.

Por isso, decidi começar a criar bancos comunitários de sementes, como Navdanya. Em segundo lugar, decidi começar a trabalhar com o governo e o parlamento indianos para redigir leis que respeitem a integridade da vida na Terra. Escrevemos leis que dizem que plantas, animais e sementes não são entidades criadas por seres humanos e, portanto, não podem ser patenteadas.

Essas leis permanecem vigentes na Índia. A terceira coisa que decidi foi processar as empresas de sementes nos tribunais por estar roubando-as. Foi o que eu chamo de “a segunda chegada de Colombo”. Simplesmente, roubam e dizem: “é minha propriedade intelectual”. E nós dizemos: “não, vocês roubaram e, portanto, é biopirataria”.

Outra questão fundamental na crise ecológica é a água. Neste momento, a região mediterrânea onde estamos está sofrendo uma seca e se prevê mais escassez de água no futuro. Trata-se de uma questão transversal que abrange dimensões sociais, ecológicas e políticas. Como podemos olhar para o problema da água a partir de todos estes diferentes pontos de vista?

Não precisamos apenas unir as múltiplas dimensões da água, precisamos unir as múltiplas dimensões de um planeta interligado. A crise climática e de biodiversidade são uma crise única. Quando esquecemos da biodiversidade e a destruímos, o clima se desestabiliza, porque a biodiversidade gere o clima. No movimentoChipko, as mulheres perceberam que se você destrói a floresta, ocorre uma seca, uma inundação.

Sendo assim, gerir a água significa gerir a regeneração da biodiversidade, das florestas, das plantas, da terra, das relvas. Todos são sistemas de gestão da água, assim como a questão climática. Os estragos climáticos têm a ver com os sistemas hidrológicos desestabilizados, que são os verdadeiros assassinos no Sul Global. Cada desastre na Índia em que pessoas morreram é um desastre hídrico. Quando vem um ciclone, as pessoas morrem. Quando um lago glacial derrete e há uma inundação, as pessoas morrem.

É necessário interligar todas as dimensões da água. Quando o governo constrói uma barragem para os agricultores ricos do vale, todos os outros perderão o acesso à água. Como todos os recursos estão interligados, devem ser geridos como bens comuns e para o bem de toda a comunidade. Não podem ser divididos para o seu uso extrativo pelos mais poderosos. Neste momento, a privatização da água e o mercado futuro da água são questões de grande relevância às quais as pessoas resistem. A água de Delhi ia ser privatizada e conseguimos evitar.

O ultranacionalista Narendra Modi, do partido BJP, provavelmente será reeleito primeiro-ministro da Índia, enquanto a extrema-direita tem perspectivas de crescer na Europa. Estes partidos têm em comum o fato de combinarem nacionalismo e neoliberalismo. Como podemos explicar a sua ascensão no contexto da crise ecológica?

Em 1991, escrevi o Manifesto por uma Democracia na Terra. Em 1999, bloqueamos a cúpula da OMC, em Seattle. Durante este período, desenvolveu-se o neoliberalismo, a desregulamentação do comércio e da economia e a morte da democracia. Também começou esta nova cultura de morte e destruição. O livro de Samuel Huntington, O choque das civilizações, é fundamental para este momento. Vem dizer que só posso saber quem sou quando sei quem odeio. Criou-se o ódio como moeda de identidade.

Ora, todas as tradições espirituais dizem algo diferente: saber quem você é tem a ver com a forma como você se relaciona com a terra e com a sua comunidade. Você existe na comunidade e, como comunidade, você faz parte da natureza e produz junto com a natureza. Passou-se disso para uma identidade negativa, uma cultura de destruição, violência e morte. O que existe hoje é a cultura dos agrotóxicos, do veneno: “Saiba a quem deve exterminar”. Essa agenda, saber quem é o seu inimigo, tornou-se a agenda nacional.

Contudo, uma nação tem a ver com a forma como correm os riachos, qual é a saúde das florestas, qual é o estado de saúde dos cidadãos, até que ponto estão organizados para cuidar dos bens comuns, Essas são as questões que definem uma comunidade. No entanto, hoje, as culturas, as economias e as democracias foram esvaziadas de comunidade e se tornaram propriedade das corporações. É assim que o nacionalismo cultural se tornou sócio do neoliberalismo corporativo.

Em algum momento, falou sobre a necessidade de criar um G-7 bilhões. Quais tipos de instituições democráticas precisamos para defender uma democracia da Terra?

A verdadeira democracia é possível junto com outros seres que habitam o planeta Terra. Cultivar alimentos de forma ecológica é uma prática de democracia da Terra, tem a ver com a liberdade de todas as formas de vida e suas interconexões. Salvar as sementes, por exemplo, não é apenas salvar os humanos, mas também os polinizadores. Devemos reivindicar isso.


Fonte: Contraosagrotóxicos

A postura agressiva de Lula contra a greve nas universidades federais mostra a sua real opção de futuro para o Brasil

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Lula fez diversas manifestações contra a greve realizada por professores e servidores de universidades e institutos federais

Em mais uma manifestação irritada contra a greve realizada por professores e técnicos de universidades e institutos federais, o presidente Lula declarou que não teria medo de reitores porque não que teriam sido eles que teriam “mordido” o seu dedo mindinho (aquele que ele perdeu em uma prensa mecânica nos tempos em que era metalúrgico).

Governo Lula nega reajuste a servidores e convoca mesa para acabar com a  greve

Essa é mais uma manifestação reveladora da postura do governo Lula curiosamente contra um segmento que o apoiou de forma majoritária durante o período em que ficou preso em Curitiba e também no duro embate eleitoral travado em 2022 contra Jair Bolsonaro.  É que ao negar algo minimamente próximo ao mesmo tipo de reposição salarial concedida à policiais federais e a policiais rodoviários federais (categorias que claramente formaram a linha de frente de apoio a Bolsonaro),  Lula mostra algo mais profundo que é o descompromisso com o fortalecimento das universidades e institutos federais cujos orçamentos estão muito aquém do que seria preciso para recuperar as perdas ocorridas sob Bolsonaro.

Ao negar o fortalecimento não apenas dos salários de professores e técnicos, mas principalmente a recomposição da condição orçamentária das universidades federais, Lula apenas confirma seu descompromisso com o desenvolvimento científico e tecnológico do Brasil.  É que até as emas do Palácio do Planalto sabem que é nas universidades federais que se produz mais de 90% da ciência nacional. Assim, ao se negar a recompor as perdas salariais acumuladas ao longo dos últimos anos e manter as universidades em condição de penúria,  Lula literalmente mantém as linhas gerais adotadas por Bolsonaro.

Biden Cracks Down on Chinese Tech Investment

Enquanto o Brasil investe em uma agricultura altamente predatória, a China faz investimentos massivos em desenvolvimento científico e tecnológico

Apenas por comparação, a China que está se tornando a principal potência científica do mundo vem aumentando de forma consistente o orçamento investido em desenvolvimento científico e tecnológico.  Enquanto isso, a opção brasileira é por investir em torno de R$ 360 bilhões para apoiar principalmente o latifúndio agro-exportador que não precisa de muita tecnologia para produzir commodities que serão compradas majoritariamente pelos chineses que cada vez mais nos vendem produtos com alto valor agregado (curiosamente quase o mesmo valor investido pela China em desenvolvimento científico e tecnológico).  O resultado deste tipo de troca altamente desigual nós já sabemos: alto nível de desenvolvimento para os chineses, enquanto que para o Brasil sobra poluição de águas e solos pelo uso excessivo de fertilizantes e agrotóxicos, desmatamento e diminuição de recursos hídricos.

A questão que me parece clara é que os seguidos ataques de Lula ao movimento grevista nas universidades federais reflete mais a sua opção de país que ele quer que o Brasil seja do que qualquer preocupação com a falta de aulas para os estudantes. E no caso, o país que se desenha a partir dessas declarações que continuará atrasado tecnologicamente e cada vez mais dependente e controlado pelas oliquarquias agrárias que sempre controlaram os rumos da sociedade brasileira.

A produção de alimentos se tornou uma fonte de problemas climáticos

fertilizantes

Os fertilizantes são uma das principais fontes de emissões de óxido nitroso, um gás de efeito estufa que aquece o planeta. pixdeluxe/E+ via Getty Images
Por Hanqin Tian, Eric Davidson, Pep Canadell e Rona Louise Thompson para o “The Conversation”

O papel dos alimentos nas alterações climáticas emergiu como um dos desafios definidores do nosso tempo. A viagem de um bife, fruta ou salada desde as vastas extensões de terras agrícolas até aos pratos nas nossas mesas deixa uma pegada significativa no ambiente.

Como cientistas da Terra , do clima e da atmosfera , rastreamos as emissões globais de gases de efeito estufa e acabamos de publicar a avaliação mais abrangente até agora de um poderoso gás de efeito estufa proveniente da produção de alimentos: o óxido nitroso, ou N₂O.

Depois do dióxido de carbono e do metano, o N₂O é o gás de efeito estufa mais importante que os humanos estão liberando na atmosfera. Embora haja menos N₂O do que dióxido de carbono na atmosfera, este é 300 vezes mais poderoso no aquecimento do planeta e permanece na atmosfera, retendo o calor, durante mais de um século. Hoje, os níveis atmosféricos de N₂O são cerca de 25% mais elevados do que antes da Revolução Industrial e continuam a aumentar a um ritmo acelerado.

Um gráfico com uma linha de pontos de dados que remonta a quase 200 anos mostra que os níveis atmosféricos de N2O permaneceram bastante estáveis ​​até 1800, quando começaram a subir rapidamente e continuam a subir
A concentração atmosférica de N₂O permaneceu bastante estável até 1800, quando começou a aumentar rapidamente. Medido em núcleos de gelo da Antártida (verde) e através de medições modernas (vermelho). BoM/CSIRO/AAD

Descobrimos que, globalmente, os fertilizantes e a gestão do estrume animal estão a liderar o aumento das emissões de N₂O e a sua rápida acumulação na atmosfera. Isto é mais do que um problema climático. O N₂O também destrói a camada de ozônio , que protege os humanos da radiação solar prejudicial. E o escoamento de nitrogênio dos campos polui os cursos de água , aumentando a proliferação de algas nocivas e criando zonas mortas com falta de oxigênio.

O crescimento das emissões de N₂O é alarmante, mas hoje as pessoas têm o conhecimento e muitas das tecnologias necessárias para inverter a tendência.

De onde vêm as emissões de N₂O?

Antes da Revolução Industrial, as fontes naturais de N₂O provenientes de micróbios que viviam nos solos florestais e nos oceanos eram aproximadamente iguais aos sumidouros naturais que consumiam N₂O no ar, pelo que as concentrações atmosféricas de N₂O eram relativamente constantes.

No entanto, a população humana e a sua procura de alimentos cresceram rapidamente, desequilibrando esse equilíbrio natural.

Descobrimos que as atividades humanas por si só aumentaram as emissões de N₂O em 40% nas últimas quatro décadas, com a agricultura contribuindo com aproximadamente 74% do total das emissões antropogênicas de N₂O.

As maiores fontes humanas de N₂O são a agricultura, a indústria e a queima de florestas ou resíduos agrícolas.

Ilustração do orçamento global de N2O mostra fontes de emissões
Fontes anuais de emissões de N₂O e mudanças ao longo da década de 2010-2019. Medido em milhões de toneladas métricas. Projeto Global de Carbono , CC BY

Os fertilizantes nitrogenados, amplamente utilizados na agricultura, são um dos maiores contribuintes. Os fertilizantes são responsáveis ​​por 70% do total das emissões agrícolas de N₂O em todo o mundo. O esterco animal proveniente da pecuária intensiva contribui com cerca de 30%. Uma fonte menor, mas que está em rápido crescimento, é a aquicultura, como a piscicultura , particularmente na China, onde aumentou vinte e cinco vezes nos últimos 40 anos.

Além da agricultura, os processos industriais como a produção de náilon , explosivos e fertilizantes, e a combustão de combustíveis fósseis também contribuem para as emissões de N₂O, mas em menor grau do que a agricultura.

Emissões de N₂O por país

As emissões variam muito de país para país por uma série de razões sociais, económicas, agrícolas e políticas.

As economias emergentes, como a China e a Índia, registaram fortes tendências de aumento de N₂O nas últimas quatro décadas, à medida que aumentavam a produtividade agrícola para satisfazer a crescente procura alimentar das suas populações .

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A China é o maior produtor e usuário de fertilizantes químicos. O seu Plano de Acção para o Crescimento Zero na Utilização de Fertilizantes até 2020, publicado em 2015, ajudou a reduzir essas emissões de N₂O . No entanto, as suas emissões industriais de N₂O continuaram a aumentar .

No Brasil e na Indonésia, o corte e a queima de florestas para dar lugar às culturas e à pecuária, juntamente com práticas agrícolas cada vez mais intensivas, exacerbaram as perdas de nitrogênio provenientes de fontes naturais e ampliaram as emissões de gases com efeito de estufa.

África tem oportunidades para aumentar a produção alimentar sem aumentar a fertilização com azoto. No entanto, os países do Norte de África mais do que triplicaram o crescimento das suas emissões nas últimas duas décadas, principalmente devido a um crescimento substancial da população pecuária em África.

Algumas regiões, no entanto, conseguiram reduzir algumas das suas emissões de N₂O com práticas mais sustentáveis.

fontes de emissão

A União Europeia, o Japão e a Coreia do Sul reduziram com sucesso as emissões antropogênicas de N₂O nos últimos 40 anos, embora continuem a ser grandes emissores à escala global; as reduções vieram em grande parte da indústria química na década de 1990. A sua utilização de azoto na agricultura também se tornou mais eficiente; no entanto, eles ainda têm trabalho a fazer. As suas emissões provenientes da aplicação direta de fertilizantes e de estrume diminuíram apenas ligeiramente e estabilizaram recentemente.

Nos EUA, as emissões agrícolas continuam a aumentar, enquanto as emissões industriais diminuíram ligeiramente, deixando as emissões globais bastante estáveis .

Como reduzir as emissões de N₂O

Enfrentar o desafio de reduzir as emissões de N₂O requer uma combinação de intervenções políticas, inovação tecnológica e ações individuais. Por exemplo:

A traseira de um trator jogando fora pequenas bolinhas de fertilizante, do tamanho de ervilhas.
Um trator espalha fertilizante em um campo. As técnicas de agricultura de precisão podem reduzir o uso de fertilizantes e o potencial de escoamento para os cursos de água. fotokostic/iStock/Getty Images Plus
  • Da mesma forma, as inovações na gestão pecuária , tais como suplementos dietéticos e melhores práticas de gestão de resíduos, podem reduzir a quantidade de N₂O do gado.
  • As indústrias, especialmente a produção de náilon e de fertilizantes, podem instalar tecnologias existentes e acessíveis para reduzir quase todas as suas emissões de N₂O. Essa é uma vitória fácil para a implementação e para o clima. A maior parte do mundo já o fez, deixando a China e os EUA responsáveis ​​pela maior parte das restantes emissões industriais de N₂O.
  • Os consumidores também podem tornar os alimentos vegetais uma fração maior de suas dietas. Você não precisa se tornar vegano a menos que queira, mas reduzir a frequência e o tamanho das porções de consumo de carne e laticínios pode ser saudável para você e para o meio ambiente. Práticas ecológicas, como a compostagem de resíduos alimentares e a redução do uso de fertilizantes nos gramados, também ajudam.

Globalmente, é necessária uma abordagem holística que combine políticas, tecnologia e ações individuais para abordar as emissões de N₂O e combater as alterações climáticas. Com governos, indústrias e cidadãos a trabalhar em prol de um futuro sustentável, estas estratégias podem ajudar a garantir a segurança alimentar e a sustentabilidade ambiental para as gerações futuras.


Fonte: The Conversation

Saúde da Mama é tema central de Simpósio Internacional no Rio de Janeiro

Especialistas de todo o país discutem avanços científicos no combate ao câncer de mama e avaliam políticas públicas para melhorar acesso da população à prevenção e tratamento

Abertura Simpósio Internacional RJ_ 20Jun2024

O Rio de Janeiro volta a ser palco de debate de novas soluções e técnicas no tratamento do câncer de mama, além de medidas efetivas que possam potencializar a estrutura já existente no atendimento público às mulheres. Trata-se do SIM Rio – Simpósio Internacional de Mastologia, evento tradicional na Cidade e no país e que chega a sua 13ª edição, a partir desta quinta-feira, 20/06.

De acordo com a Dra. Maria Julia Calas, presidente da Sociedade Brasileira de Mastologia – regional Rio de Janeiro, a entidade tem um olhar contínuo na busca por melhorias para o acesso das mulheres à prevenção do câncer de mama e, principalmente, ao tratamento para quem já recebeu o diagnóstico. Por isso, neste ano o evento contará com o “Fórum para todos”, no qual mulheres da sociedade civil poderão discutir com os médicos o tema central de tratamento e qualidade de vida. “Devido a limitação de espaço, abrimos 50 vagas para que diferentes mulheres com histórias distintas, diagnosticadas ou não, possam obter mais informações, e, fundamentalmente, compartilhar as suas histórias, mostrando suas dificuldades de acesso a exames e tratamento. Essa troca é enriquecedora e nos ajuda na identificação da realidade vivida por elas e, consequentemente, na necessidade de novas diretrizes em termos de políticas públicas”, afirma a presidente.

A especialista destaca também alguns temas polêmicos na sociedade, mas que é de suma importância para quem está no tratamento do câncer de mama, como o uso da cannabis no tratamento oncológico, os efeitos da hormonioterapia e, sobretudo, como as pacientes são fundamentais como agentes de mudança, ou seja, no impacto das políticas de saúde. “Nosso objetivo no Fórum é proporcionar para elas e com elas reflexões e entendimentos sobre esse tema complexo. Se de um lado o nosso SUS é uma referência mundial, por outro sabemos que há muitos gargalos, como o acesso não tão ágil aos exames preventivos, como a mamografia, e, principalmente, no tratamento das mulheres diagnosticadas”, esclarece, lembrando que há lei em vigor no Brasil que garante as mulheres o início do tratamento do câncer em até 60 dias após o diagnóstico, o que nem sempre acontece.

O SIM Rio acontece entre os dias 20 e 22, no Prodigy Hotel, no Aeroporto Santos Dumont, e reunirá cerca de 500 especialistas, entre mastologistas, oncologistas, ginecologistas, radiologistas, entre outros, abordando também temas relevantes do conteúdo científico e novos estudos, inclusive com palestrantes internacionais.