Pesquisadores da Unesp defendem restrições e até proibição do uso do inseticida fipronil

Dupla de docentes participou de debates em comissão da Câmara dos Deputados que avaliam mudanças no uso do produto, banido em diversos países e na União Europeia. Só este ano, Brasil registrou centenas de milhões de mortes de abelhas atribuídas à ação do defensivo agrícola

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Por Malena Stariolo para o Jornal da Unesp

Ao chegar para trabalhar em seu apiário na cidade de Itatinga, SP, certa manhã de janeiro passado, o apicultor Joel Andrade se deparou com uma cena digna de um filme de terror. Nas caixas que serviam como suportes para as colmeias, as entradas estavam abarrotadas com os remanescentes de centenas de abelhas mortas. E as surpresas continuaram. Ao longo da semana, ele viu morrerem todos os integrantes de cerca de quarenta colmeias. Em um mês, outras 20 colônias desapareceram. Das que restaram, pouco pôde ser salvo; a maioria definhou até ter a produtividade zerada. “Perdi 120 colmeias, o que gerou um prejuízo de  aproximadamente R$100 mil”, diz ele.

Joel Andrade é presidente da Associação de Apicultores do Polo Cuesta, que reúne profissionais das cidades de Pardinho, Botucatu, Bofete, São Manuel, Pratania, Avaré, Paranapanema, Anhembi e Itatinga. Ele relatou a perda à Defesa Agropecuária do Estado de São Paulo que monitora os eventos de mortes de colmeias. Os funcionários do órgão atribuíram a mortandade ao uso do inseticida fipronil por algum agricultor nas proximidades.

Os apicultores brasileiros já se acostumaram com essas perdas. Em 2017, foram contabilizadas mortes de 50 milhões de abelhas em Santa Catarina, e de 500 milhões de polinizadoras no Rio Grande do Sul, entre 2018 e 2019. Só neste ano, foram registrados 100 milhões de mortes de abelhas no estado do Mato Grosso, apenas no mês de junho. Em julho, houve relatos de perdas no estado de Minas Gerais, e mais 80 milhões de mortes de abelhas na Bahia.  Em comum, todos estes eventos foram atribuídos ao uso do fipronil.

A substância já consolidou uma reputação global de letalidade com as abelhas, o que lhe valeu proibições em países como Colômbia, Uruguai, Costa Rica, Vietnã e África do Sul, além de toda a União Europeia. No Brasil, seu uso tem sido cada vez mais contestado, embora seja proibido apenas em poucos estados (veja quadro abaixo). “Estamos falando de um inseticida que é extremamente tóxico para o meio ambiente e que promove alterações no sistema nervoso central dos insetos” diz Ricardo Orsi, professor e pesquisador da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Unesp, campus Botucatu. “O resultado é a ocorrência de desorientação, tremores, convulsões, paralisia e morte.”

Aqui no Brasil, o uso do produto foi debatido na quinta-feira, 23, em audiência da Comissão de Legislação Participativa da Câmara dos Deputados. Lá, apicultores e representantes da sociedade civil se manifestaram a favor da proibição do uso do fipronil e de outros agrotóxicos responsáveis pelos casos de mortes massivas de abelhas.

O fipronil no Brasil

A empresa alemã Basf adquiriu a patente do defensivo em nível global em 2003 e manteve o produto no Brasil até 2011, quando perdeu os direitos da patente. Liberada inicialmente pelas autoridades brasileiras para aplicação apenas no solo, em culturas de cana-de-açúcar ou em sementes de armazenamento, teve suas restrições flexibilizadas. Hoje seu emprego é autorizado em qualquer tipo de monocultura e no controle de pragas foliares, e a aplicação é feita diretamente nas folhas da plantação. “Após a queda da patente, a produção também passou a ser feita por diversas empresas” diz o pesquisador Osmar Malaspina, do Instituto de Biociências da Unesp, campus Rio Claro. “Com a liberação do Ibama, foram elaboradas diversas formulações e esse foi o grande problema: todos tiveram a possibilidade de produzir e adquirir o produto”, diz.

Por meio de sua assessoria, a Basf declarou ao Jornal da Unesp que associa os episódios de alta mortalidade de abelhas cada vez mais notificados à utilização incorreta do produto. E disse defender maiores restrições e mais fiscalização. “Apoiamos uma regulamentação em nível federal que venha a restringir o uso de fipronil para aplicação foliar”, disseram os representantes da empresa. A declaração também reforçou que a utilização apropriada do produto deve ser feita abaixo da superfície do solo, de maneira a evitar contato com organismos sensíveis da superfície, como abelhas ou outros polinizadores.

No Brasil, a utilização do fipronil está em processo de reavaliação pelo Ibama desde 2012 mas segue a passos lentos. Esse ritmo gera preocupação em pesquisadores, apicultores e meliponicultores, que buscam a proibição do uso do produto. Isso já se tornou realidade nos estados de Goiás e Santa Catarina. Além disso, a bula do produto diz que é proibida a aplicação aérea e em épocas de floração, ou mesmo quando é observada a visitação de abelhas nas lavouras. Apesar dos números impressionantes relatados nos últimos anos, os pesquisadores acreditam que a fiscalização da utilização do inseticida, além de envolver diversos desafios, tem na verdade se mostrado pouco eficiente.

Durante a audiência da Comissão de Legislação Participativa na Câmara dos Deputados, o deputado Padre João (PT-MG), responsável por propor o debate, defendeu a realização de concurso público para os órgãos de fiscalização e a retomada do Programa Nacional para Redução do Uso de Agrotóxicos (Pronara). “Na questão das abelhas, quando se avança é um tiro, não no pé, mas no coração do próprio agronegócio, porque elas fazem uma tarefa de graça, que é a polinização”, disse.

Além de produtoras de mel e de outros produtos aproveitados pelos seres humanos, as abelhas também são importantes agentes polinizadores de muitas espécies de plantas, garantindo a continuidade de flora ameaçada e contribuindo para a biodiversidade dos ecossistemas. Além de beneficiar flores silvestres, o serviço de polinização também é um aliado das plantações: por meio da transferência do pólen, elas contribuem para um aumento da qualidade e produtividade da cultura. “Então a produtividade de muitas culturas vai cair com o extermínio das abelhas”, disse Padre João. “Aonde chegaremos se não tivermos a sensibilidade e a iniciativa para conter esse processo?”

Letal mesmo em microdoses

Orsi, que é presidente da comissão técnico-científica da Confederação Nacional de Apicultura e Meliponicultura – CBA, também esteve presente durante o debate na Câmara dos Deputados. O pesquisador chama a atenção para o fato de que, além do efeito agudo que causa a morte quase instantânea de milhares de abelhas, o fipronil é igualmente perigoso em doses consideradas subletais. Estas não causam a morte de mais da metade da colônia em menos de 48h, mas são responsáveis por afetar de maneira sistêmica o funcionamento das abelhas e levar a colmeia ao colapso em até oito semanas.

Em artigo publicado em 2015, na revista científica Environmental Toxicology and Chemistry, o grupo de pesquisa liderado por Orsi determinou quais seriam as doses letais e subletais de fipronil às quais as abelhas deveriam ser expostas para sofrer com os efeitos da substância. Uma dose letal é definida como a quantidade que apresenta um grau de toxicidade agudo, responsável por matar mais de 50% de uma colônia em até 48h. Já as doses subletais são aquelas que infligem consequências crônicas, que podem ser acompanhadas com o decorrer dos dias.

No estudo, os pesquisadores utilizaram diferentes concentrações de fipronil para expor as abelhas ao contato e ingestão. Como resultado, eles identificaram que, por ingestão, a dose letal média da substância era de 0,19 microgramas (μg), ou seja, o equivalente a um grama dividido em um milhão. Entrando em contato, a quantidade para que a dose seja letal é ainda menor: de 0,009 μg. Uma vez contaminadas pelo inseticida, quando as abelhas retornam para a colônia, elas são responsáveis por contaminar as outras com quem entram em contato ou alimentam. Assim, o efeito do fipronil é espalhado pela colmeia levando à morte ou ao definhamento da maioria dos indivíduos (veja quadro abaixo).

Os números seguem caindo quando são analisadas as doses subletais. Uma abelha precisou ingerir apenas 0,0004 microgramas para sofrer os efeitos de intoxicação crônica. As abelhas operárias têm seu senso de tempo e direção alterados, o que torna a tarefa de polinização e de retorno para a colônia progressivamente mais complicada. Além disso, elas também têm as glândulas hipofaringeanas e mandibulares afetadas, estas estruturas são responsáveis por produzir a geleia real, um alimento exclusivo da abelha rainha. Sem uma alimentação adequada, a produção de ovos da abelha rainha começa a cair, chegando a zero após oito semanas do primeiro contato. De maneira semelhante, ocorre o declínio do desenvolvimento de larvas e pupas, processo que chega a zero após seis semanas. Assim, o grupo constatou que em mais ou menos dois meses uma colônia inteira pode entrar em colapso.

“Esses efeitos sistêmicos tornam difícil associar as mortes ao fipronil, porque não acontece aquela cena chocante de encontrar muitas abelhas mortas na boca da caixa”, explica Orsi. “O que ocorre é que o apicultor vê uma pequena mortalidade e depois começa a perceber que a colônia não se desenvolve. Isso acontece devido às doses subletais, que penetraram e não deixaram a colônia ir para frente”, diz.

O princípio ativo mais presente

A fim de esclarecer qual o real impacto do uso dos defensivos agrícolas sobre os episódios de mortandade de abelhas, e facilitar a coexistência entre apicultores, agricultores e populações do inseto, Malaspina coordenou o projeto Colmeia Viva. O projeto foi uma realização do SINDIVEG (Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal), e realizado em parceria com a Universidade Estadual Paulista (UNESP) e com Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Ao longo de quatro anos, a equipe do projeto conduziu o Mapeamento de Abelhas Participativo (MAP), que envolveu o monitoramento de ocorrências de mortes massivas de abelhas no estado de São Paulo e a coleta de amostras no local, a fim de investigar e identificar as causas.

Ao todo, a equipe realizou mais de 80 coletas de amostras, com mais de cem abelhas por amostra em diferentes cidades do estado. O fipronil foi encontrado em 59 casos, o equivale a, aproximadamente, 70% das ocorrências analisadas. Anos mais tarde, os dados foram corroborados por um levantamento da Defesa Agropecuária do Estado de São Paulo, que realizou coletas em municípios do estado entre 2020 e 2022 para identificar os principais resíduos de defensivos agrícolas encontrados em abelhas mortas. A equipe responsável analisou 62 amostras, envolvendo um total de 2.759 abelhas. Dos 49 casos em que foi possível identificar resíduos tóxicos, o princípio ativo mais comum foi o fipronil, presente em 63% das ocorrências. Em um distante segundo lugar ficou a bifentrina, presente em 22% das coletas.

“Isso demonstra a robustez dos dados. Duas pesquisas com quantidade expressiva de amostras, realizadas em momentos diferentes, chegaram a resultados semelhantes”, aponta Malaspina. O docente esteve presente no debate da Câmara dos Deputados, e também  em reuniões recentes realizadas no Ibama para debater os desdobramentos da utilização de defensivos agrícolas particularmente tóxicos para as abelhas.

Abelhas mortas pela ação do defensivo em colmeia analisada em São Paulo. Crédito: Silvia Cibele de Andrade

Malaspina diz que já há informação suficiente para implementar uma restrição do uso da substância em nível nacional, com delimitação de culturas e formas de utilização específicas de maneira a controlar seu impacto. “O impacto negativo do fipronil já é um consenso na comunidade científica e há diversas análises com dados contundentes. Agora está nas mãos do Ibama definir o que fazer”, diz.

Para Malaspina, é possível realizar a substituição por substâncias menos tóxicas, porém há resistência por parte do agronegócio dada à eficácia do componente. “Outras moléculas podem ter ações mais lentas e nós estamos acostumados a querer um resultado imediato”, afirma o biólogo. Para ele, a tendência é que ocorra a restrição da utilização ainda em 2024, proibindo ao menos a aplicação foliar do inseticida. Renata Sordi Taveira, da Coordenação da Defesa Agropecuária do Estado de São Paulo, explica que é um direito do apicultor notificar situações de mortes massivas. A partir daí, cabe ao órgão conduzir as investigações para determinar as causas. Nesse sentido, o apicultor Joel reforça a importância de profissionais da área estarem devidamente registrados na Defesa. “A análise é feita de graça para o apicultor e isso colabora para manter um controle sobre as mortes e fornece documentos para que o apicultor possa ir atrás dos seus direitos”, diz.

Foto acima: Morte massiva de abelhas em caixa de apiário no interior de São Paulo. Crédito: Silvia Cibele de Andrade


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Este texto foi originalmente publicado pelo Jornal da Unesp [Aqui!].

A milionária Águas do Paraíba deixa população sem água por falta de geradores na ETA de Santo Eduardo

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A mídia corporativa campista está reproduzindo no dia de hoje um informe da Assessoria de Imprensa da concessionária Águas do Paraíba dando conta que o serviço de fornecimento de água está interrompido nos distritos de Santo Eduardo e Santa Maria e na localidade de Espírito Santinho devido à falta de energia na Estação de Tratamento de Água de Santo Eduardo.

Como uma irmã dedo-duro, a Águas da Paraíba joga a culpa nas costas largas sua co-irmã de exploração cativa dos campistas, a famigerada Enel.

De quebra, a Águas do Paraíba estaria pedindo que a população faça “um uso consciente da água” durante o período de interrupção dos seus serviços.

A primeira coisa que me vem à mente é que sendo uma empresa com tantos milhões de lucro anual, é de cair o queixo saber que a Águas do Paraíba ainda não se dignou a implantar um sistema próprio de geradores para eventualidades como a que ocorreu agora.  Realmente é muita falta de consideração com os seus consumidores cativos, especialmente aqueles que estão em regiões mais distantes da sua sede no centro histórico de Campos dos Goytacazes. A concessionária age assim por saber que dificilmente terá uma multidão raivosa em sua porta já que para sair de Santa Maria e Santo Eduardo é uma tarefa espinhosa para o cidadão comum.

Por outro lado acho hilário que se faça o pedido de um uso consciente da água ainda disponível. É que qualquer campista sabe que não há outra forma de não receber uma conta estratosférica todos os meses se não for feito um controle muito apertado do consumo.  Nesse caso a concessionária está fazendo um apelo aos convertidos. Mas comprar geradores que é bom, nada!

Por causar contaminação ambiental e câncer, Costa Rica decide banir o fungicida Clorotalonil

Will Chlorothalonil Water Contamination In Costa Rica Come To An End? |  MENAFN.COM

Por Tico Times

O agrotóxico clorotalonil foi oficialmente proibido na Costa Rica depois que o presidente Rodrigo Chaves assinou um decreto oficial proibindo seu uso.

A degradação do Clorotalonil no solo depende de diversos fatores e pode gerar metabólitos que preocupam a saúde e o meio ambiente. Foi identificado que este produto químico pode ser altamente tóxico para peixes e invertebrados aquáticos, principalmente quando aplicado em períodos de chuvas.

Além disso, o clorotalonil é classificado como provável carcinógeno humano pela Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC) e é considerado um potencial desregulador endócrino com efeitos no desenvolvimento embrionário.

A Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) concluiu que existem preocupações críticas relacionadas com a contaminação das águas subterrâneas pelos metabolitos do clorotalonil.

Em abril de 2023, após relatório técnico emitido pelo Ministério da Saúde, Ministério do Meio Ambiente e Energia e Instituto Costarriquenho de Aquedutos e Esgotos, foram estabelecidas diversas recomendações para o manejo do pesticida clorotalonil, entre as quais a proibição de seu uso foi solicitado.

A Câmara Constitucional, por sua vez, estabeleceu a obrigatoriedade do cumprimento do disposto no relatório, e, por isso, após uma série de reuniões e esforços interinstitucionais, o Ministério da Saúde, o Ministério do Meio Ambiente e Energia e o Ministério da Agricultura e Pecuária assinou o decreto proibindo o uso do clorotalonil.

“Parece-me uma grande vitória para o movimento ambiental que conseguiu, através de ações administrativas e judiciais, demonstrar aos empresários e ao Poder Executivo que devemos pensar nas gerações futuras e na proteção de bens altamente frágeis e finitos”, comentou Alvaro Sagot , advogado ambiental. Os Ministérios da Saúde, do Ambiente e da Energia e da Agricultura e Pecuária da Costa Rica estão a trabalhar em estreita colaboração para formular uma política abrangente de gestão do uso de agrotóxicos que procura reduzir os riscos associados à contaminação que eles causam.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo “Tico Times” [Aqui!].

Com retomada do PARA, Anvisa identifica agrotóxicos em 25% dos alimentos vendidos nos supermercados

A Anvisa coletou alimentos como feijão, mandioca, pimentão, café em pó e batata em supermercados de todo o Brasil em 2018, 2019 e 2022

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Por  Karolini Bandeira, em Brasília, para ” O Globo”

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) identificou que 25% dos alimentos de origem vegetal em supermercados, como café em pó, arroz e frutas, possuem agrotóxicos não autorizados ou com resíduos acima do limite permitido. 

O Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (Para) da reguladora coletou amostras dos alimentos em supermercados de todas as regiões do país em 2018, 2019 e 2022, com pausa em 2020 e 2021 devido à pandemia. No último ano, foram analisadas 1.772 amostras de amendoim, batata, brócolis, café em pó, feijão, mandioca, laranja, maracujá, morango, pimentão, quiabo, repolho e farinha de trigo.

Das amostras, 41,1% não tinham resíduos de agrotóxicos, 33,9% tinham resíduos dentro do limite permitido e 25% continham a presença de um agrotóxico não autorizado ou com resíduos acima do limite permitido.  Já 0,17%, equivalente a 3 amostras, apresentaram risco agudo à saúde, podendo causar danos à saúde do consumidor em curto espaço de tempo.

No período de 2018 a 2019 foram analisadas 3.296 amostras em 84 municípios. Foram monitorados 14 alimentos de origem vegetal: abobrinha, aveia, banana, cebola, couve, laranja, maçã, mamão, milho, pepino, pera, soja, trigo e uvas.

Na época, o programa identificou 33,2% das amostras sem resíduos; 41,2% com resíduos dentro do limite permitido; 25,6% com agrotóxico não autorizado ou acima do limite permitido; e 0,55%, equivalente a 18 amostras, apresentando risco agudo à saúde.

Segundo a Anvisa, as situações de risco agudo encontradas foram pontuais e de origem conhecida. “Para esses casos, a Anvisa vem adotando providências e recomendações com vistas à redução dos riscos identificados.”, afirmou, em nota.

O programa de monitoramento foi criado em 2001 para verificar a quantidade de elementos químicos em produtos presentes no dia a dia do brasileiro e orientar a fiscalização dos alimentos nos supermercados.


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Este texto foi originalmente publicado pelo jornal “O GLOBO” [  ].

Manguezais são o habitat preferido de espécie de cavalo-marinho em risco de extinção no Ceará, revela estudo

FHD1138Os cavalos-marinhos se prendem com a cauda em raízes de manguezal, mas turbidez da água dificulta alimentação dos peixes. FOTO: RONALDO CÉSAR GURGEL-LOURENÇO / UFC

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Mais do que os níveis de salinidade ou de transparência da água, é a vegetação local que define a distribuição de cavalos-marinhos Hippocampus reidi em estuários de rios. Um estudo da Universidade Federal do Ceará (UFC) mostra que esta espécie em risco de extinção se concentra em áreas de manguezais do rio Pacoti, no Ceará, pois consegue se fixar nas raízes das árvores do mangue, o que torna urgente a preservação deste bioma. Estas conclusões estão em artigo científico publicado nesta semana na revista “Neotropical Ichthyology”.

Os pesquisadores monitoraram a população de cavalos-marinhos em regiões próximas à foz do rio Pacoti, no Ceará, durante um ano entre dezembro de 2017 e novembro de 2018. Ao todo, 248 indivíduos foram identificados e tiveram perfil, sexo, tamanho, gravidez registrados. Aspectos do ambiente, como salinidade e transparência da água também foram observados pelos cientistas.

“A salinidade costuma variar nos estuários de acordo com a entrada de água doce, a partir dos rios, ou de água salgada, a partir das marés”, explica Gabriela Valentim, pesquisadora da UFC e autora do artigo. O estudo observou que a quantidade de cavalos-marinhos grávidos aumenta na época seca, entre os meses de janeiro e dezembro, período em que o nível de salinidade das águas tem menos variação.

A pesquisadora relata que a turbidez da água pode dificultar a alimentação de espécies como os cavalos-marinhos, que ficam parados aguardando suas presas para sugá-las com a boca em formato de tubo. Outros fatores como alterações de temperatura e profundidade das águas também podem influenciar o tamanho da população desses animais. “O cavalo-marinho é dependente de seu habitat, como forma de abrigo de predadores, e de locais de fixação, já que ele se prende com sua cauda em substratos como raízes, ervas-marinhas e algas”, conta Valentim.

Hippocampus reidi é uma das espécies de cavalos-marinhos que constam como vulneráveis na edição de 2018 do Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), que lista as espécies de peixes e invertebrados aquáticos ameaçados de extinção. Para a cientista, os resultados da pesquisa podem ser relevantes para a criação de futuros programas de conservação do cavalo-marinho e de seu habitat preferido, os manguezais. “Para que qualquer programa de conservação seja desenhado e posto em prática, é necessário obter informações básicas sobre o estado das espécies-alvo. Por isso, a importância de monitoramentos como esse”, conta a autora.

A partir de agora, os autores seguem em busca de respostas sobre a fauna aquática do nordeste brasileiro. O próximo passo é monitorar as comunidades de peixes que vivem em diversos estuários distribuídos no Ceará para levantar dados sobre a fauna desta região costeira.


Fonte: Agência Bori

Relatório assinado por mais de 200 cientistas alerta sobre os pontos de não retorno do sistema climático

Documento, coordenado pela Universidade de Exeter, no Reino Unido, em parceria com o Bezos Earth Fund, está sendo apresentado à 28ª Conferência do Clima da Organização das Nações Unidas, a COP28. E pede medidas urgentes para reverter a “trajetória desastrosa” seguida pela humanidade

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O documento destaca que é urgente a eliminação do uso de combustíveis fósseis e a adoção de soluções capazes de zerar o balanço de carbono de origem antrópica para o futuro de bilhões de pessoas (imagem: reprodução)

José Tadeu Arantes | Agência FAPESP 

José Tadeu Arantes | Agência FAPESP – Um relatório científico internacional sobre os “pontos de não retorno” do sistema climático está sendo apresentado à 28ª Conferência das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima, a COP28, em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.

O Global Tipping Points Report (Relatório Global sobre Pontos de Não Retorno) foi produzido por uma equipe internacional de mais de 200 pesquisadores, coordenada pela University of Exeter, no Reino Unido, em parceria com o Bezos Earth Fund. Entre os signatários está o pesquisador Cristiano Mazur Chiessi, professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP).

O relatório é a avaliação mais abrangente sobre o tema já realizada e alerta sobre a “trajetória desastrosa” seguida atualmente pela humanidade. O documento destaca que a urgente eliminação do uso de combustíveis fósseis e a correspondente adoção de soluções capazes de zerar o balanço de carbono de origem antrópica são cruciais para o futuro de bilhões de pessoas.

“Os pontos de não retorno no sistema terrestre representam ameaças de uma magnitude nunca enfrentada pela humanidade”, diz o professorTim Lenton, diretor do Global Systems Institute (GSI) da University of Exeter e coordenador do relatório. “Podem desencadear efeitos dominó devastadores, incluindo a perda de ecossistemas inteiros e da capacidade de cultivo de culturas básicas, com impactos sociais que incluem deslocamentos em massa, instabilidade política e colapso financeiro”, continua.

Transformações qualitativas

“Pontos de não retorno”, ou limiares críticos do sistema climático, ocorrem quando as mudanças se tornam autossustentáveis, levando a transformações qualitativas em seu modo de funcionamento.

Um exemplo é o processo de degradação da Floresta Amazônica. O bioma responde à degradação com a regeneração, mas a degradação pode atingir um tal patamar que, se não for urgentemente interrompida, a floresta tende a chegar, em pouco tempo, a um ponto no qual já não consiga mais se regenerar e manter suas feições próprias. A partir desse limiar crítico, em vez de ser predominantemente uma armazenadora de carbono, a floresta se transformaria em emissora, intensificando o aquecimento global.

Conforme o relatório, “a existência de limiares críticos e a iminência do atingimento de alguns deles concedem a este tema a mais alta importância”.

Com base em uma avaliação de 26 pontos de não retorno negativos, o relatório conclui que “continuar do jeito que está não é mais possível”, com mudanças rápidas na natureza e nas sociedades já acontecendo e outras ainda mais intensas a caminho. Com o aquecimento global na iminência de ultrapassar o patamar crítico de 1,5°C em relação aos níveis pré-industriais, pelo menos cinco pontos de não retorno do sistema terrestre podem vir a ocorrer, incluindo o colapso dos grandes mantos de gelo do planeta.

Circulações oceânica e atmosférica

Chiessi é o coautor dos capítulos 1.4 “Tipping points in ocean and atmosphere circulations” (Pontos de não retorno nas circulações oceânica e atmosférica) e 1.5 “Climate tipping point interactions and cascades” (Interações e efeitos cascata dos pontos de não retorno climáticos). Esses capítulos apresentam intrínseca relação com seu projeto de pesquisa “Perspectivas pretéritas sobre limiares críticos do sistema climático: a Floresta Amazônica e a célula de revolvimento meridional do Atlântico, apoiado pela FAPESP.

“A Célula de Revolvimento Meridional do Atlântico é de especial interesse, pois leva águas superficiais quentes do Atlântico Sul para o Atlântico Norte e traz da porção setentrional para a porção meridional águas profundas e frias. O monitoramento dessa circulação mostra que ela está enfraquecendo e pode ultrapassar seu limiar crítico em um futuro relativamente próximo. Se isso acontecer, uma série de consequências negativas são esperadas, como a diminuição das chuvas sobre o norte da Amazônia e a redução da capacidade de o oceano Austral capturar CO2 da atmosfera”, afirma Chiessi.

Um subtema muito importante tratado pelo pesquisador é o dos efeitos cascata entre diferentes compartimentos do sistema climático que possuem limiares críticos. O efeito cascata ocorre quando um compartimento do sistema que ultrapassou seu ponto de não retorno desestabiliza outro compartimento, que, em consequência, também ultrapassa seu limiar crítico.

“O derretimento das geleiras da Groenlândia, por exemplo, deve causar um substancial enfraquecimento da Célula de Revolvimento Meridional do Atlântico, que, por sua vez, forçará o colapso das florestas tropicais localizadas no norte da América do Sul, da África Equatorial e da Oceania, além do sul da Península Asiática. As reconstituições do clima do passado geológico, que nosso grupo de pesquisa tem realizado, nos mostram claramente que o efeito cascata é uma ocorrência comum e altamente preocupante”, informa Chiessi.

Recomendações

O relatório apresenta seis recomendações-chave: interromper a utilização de combustíveis fósseis e as emissões provenientes de mudanças no uso do solo muito antes de 2050; fortalecer os mecanismos de adaptação e de governança de perdas e danos, reconhecendo as desigualdades existentes entre e dentro das nações; incluir pontos de não retorno no Inventário Climático Global e nas Contribuições Nacionalmente Determinadas; coordenar os esforços políticos para promover pontos de não retorno positivos; convocar uma reunião de cúpula global urgente sobre pontos de não retorno; e aprofundar o conhecimento dos pontos de não retorno.

A equipe de pesquisa apoia convocatórias para um evento especial do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), da Organização das Nações Unidas, sobre pontos de não retorno. “O relatório é resultado de um grande esforço de mais de 200 cientistas dedicados ao tema. Ele faz um alerta urgente aos governos e também chama todos os cidadãos e cidadãs para diminuir as emissões de gases do efeito estufa e evitar que limiares críticos negativos sejam atingidos”, resume Chiessi.

O relatório pode ser acessado na íntegra emhttps://global-tipping-points.org/.


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Este texto foi originalmente publicado pela Agência Fapesp [Aqui!].

Encarregados de combater o desmatamento na Amazônia, agentes ambientais brasileiros protestam contra condições de trabalho sob Lula

torasAgente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis ​​(IBAMA) inspeciona árvore extraída da floresta amazônica, em uma serraria durante operação de combate ao desmatamento, em Placas, Pará, Brasil, 20 de janeiro de 2023. REUTERS/Ueslei Marcelino//Arquivo Foto Adquire Direitos de Licenciamento

Por Jake Spring para a Reuters

DUBAI (Reuters) – Mais de 1.500 trabalhadores das agências federais  que atuam contra o desmatamento no Brasil estão exigindo melhores salários e condições de trabalho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de acordo com uma carta que assinaram e que foi revisada pela Reuters na quarta-feira.

Os agentes ambientais foram encarregados de executar a postura mais dura de Lula em relação ao desmatamento, um elemento-chave de sua campanha para restabelecer o Brasil como líder em mudanças climáticas, através da emissão de multas por infrações ambientais, entre outros meios.

As taxas de desmatamento na floresta amazônica brasileira caíram 50% nos primeiros 10 meses da presidência de Lula, mas os trabalhadores dizem que continuam mal pagos e sobrecarregados de trabalho enquanto Lula apregoa o seu sucesso na Conferência Climática COP28 da ONU, em Dubai.

A Amazônia, a maior floresta tropical do mundo, é vital para conter as alterações climáticas porque absorve grandes quantidades de gases com efeito de estufa que provocam o aquecimento global.

Os trabalhadores do IBAMA, órgão federal de fiscalização ambiental, e do  ICMBIO, agência encarregada de proteger as unidades de conservação,  acusaram Lula de “deslealdade” e disseram que suas condições de trabalho ameaçavam o combate ao desmatamento.

O presidente do Ibama, Rodrigo Agostinho, nomeado por Lula, disse que os servidores tinham razão. “Boa parte dos resultados do desmatamento foram frutos do seu trabalho”, disse Agostinho à Reuters à margem da COP28.

“É uma afirmação justa da parte deles, mas trabalhamos com limitações”.

Agostinho disse que espera poder contratar mais trabalhadores no próximo ano e culpou o Congresso por atrasar as aprovações orçamentais.

O gabinete de Lula, o ICMBio e o Ministério do Meio Ambiente não responderam imediatamente a um pedido de comentário.

As taxas de desmatamento dispararam sob o governo do antecessor de direita de Lula, Jair Bolsonaro, que procurou abrir mais áreas da Amazônia à agricultura e à mineração, argumentando que isso tiraria a região da pobreza.

Jair Bolsonaro enfraqueceu os órgãos ambientais e os criticou abertamente por emitirem multas ambientais.

Reportagem de Jake Spring; edição por Miral Fahmy


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pela agência Reuters [Aqui!].

Fundação Heinrich Böll lança versão em português do Atlas Agrotóxicos

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Nas frutas, nos vegetais, no leite materno, no ar e até mesmo nos solos de territórios protegidos – vestígios de agrotóxicos usados na agricultura podem ser encontrados em toda parte. Os agrotóxicos deterioram a saúde humana, a biodiversidade, a água e o solo, mas isso não é, de jeito algum, novidade. Em 1962, por exemplo, tivemos a publicação do livro mundialmente aclamado Primavera Silenciosa, da bióloga Rachel Carson, que descreveu os efeitos nocivos do uso desses produtos. O trabalho foi inovador para o movimento ambiental e levou à proibição de agrotóxicos altamente tóxicos, como o DDT (diclorodifeniltricloroetano).

Porém, sessenta anos após o lançamento do livro de Carson, os agrotóxicos estão sendo usados no mundo inteiro em quantidades cada vez maiores, mesmo com regulamentações de aprovação mais rígidas – e acordos voluntários e obrigatórios sobre o manuseio desses produtos. O cultivo de plantas geneticamente modificadas como a soja, criadas pelas mesmas corporações que estão produzindo agrotóxicos, tem contribuído para o aumento do uso de herbicidas, principalmente em países ricos em biodiversidade. O mercado global de agrotóxicos é altamente lucrativo. Algumas empresas agroquímicas influentes estão expandindo seu controle sobre o mercado e prosperando com lucros cada vez maiores. Na vanguarda: empresas europeias como Bayer e BASF. A União Europeia (UE) é o maior mercado de exportação de agrotóxicos do mundo, e vem investindo cada vez mais em países do Sul Global. As empresas da região exportam agrotóxicos que são proibidos em seus próprios territórios, devido aos seus efeitos nocivos na saúde humana e no meio ambiente.

O Brasil é um dos países mais importantes para esse mercado, ocupando o pódio dos maiores consumidores e importadores de agrotóxicos. O país permite limites de resíduos em água e alimentos muito superiores aos da UE. Isto possibilita o registro cada vez maior de novos agrotóxicos, com recordes sendo batidos a cada ano, além do crescimento da importância das commodities na economia brasileira, a partir da ampliação da área plantada e da produção de culturas mais dependentes desses produtos. Este processo gera uma série de problemas nacionais relativos ao uso de agrotóxicos, que por sua vez são sui generis, como o crescimento dos registros de conflitos no campo envolvendo a contaminação de comunidades da agricultura familiar ou de povos tradicionais.

Em contrapartida ao consumo cada vez maior desses produtos, multiplicam-se também os movimentos sociais e organizações da sociedade civil que pesquisam e denunciam os impactos dos agrotóxicos, para combater o seu avanço e apresentar alternativas a este modelo, como a agroecologia. Pesquisas recentes indicam um aumento no consumo de alimentos orgânicos entre brasileiros durante os últimos anos, o que mostra que as pessoas estão cada vez mais conscientes em relação à importância do acesso aos alimentos cultivados sem o uso de agrotóxicos. O debate sobre os riscos do consumo de agrotóxicos não cresce apenas em solo brasileiro. O tema tem visibilidade mundial, a partir do avanço de graves A União Europeia é o maior mercado de exportação de agrotóxicos do mundo, e vem investindo cada vez mais em países do Sul Global.”

“Diante do papel central do Brasil no debate sobre os impactos dos agrotóxicos, o escritório da Fundação Heinrich Böll considerou fundamental produzir uma edição brasileira do Atlas dos Agrotóxicos. impactos. A morte massiva de abelhas causada por agrotóxicos à base de fipronil em diferentes partes do planeta e a contaminação de escolas por produtos aplicados via pulverização aérea são dois exemplos que ilustram os riscos do uso dessas substâncias. Assim, diante do papel central do Brasil no debate sobre os impactos dos agrotóxicos, o escritório da Fundação Heinrich Böll considerou fundamental produzir uma edição brasileira do Atlas dos Agrotóxicos, publicado originalmente na Alemanha, em 2022. Este material faz um raio-x sobre a questão dos agrotóxicos no Brasil a partir de um conjunto de artigos traduzidos e outros originais, escritos por autores que são referência na pesquisa do tema no Brasil. Todos os textos apresentam dados e fatos sobre o uso e o impacto dos agrotóxicos na agricultura e na saúde humana.

Desde seu lançamento, o Atlas dos Agrotóxicos já foi adaptado e lançado pelos escritórios das Fundação Heinrich Böll em mais de oito países e cinco línguas. Este movimento contribui com as ações para a costura de acordos internacionais que buscam enfrentar o avanço do uso de agrotóxicos. Na União Europeia, a Estratégia Farm to Fork (do campo ao garfo) foi elaborada para pedir que os Estados-Membros reduzam o uso de agrotóxicos e os riscos associados em 50% até 2030. Em paralelo, organizações internacionais como o Programa Mundial de Alimentos (WFP) e a Organização para Agricultura e Alimentação (FAO) enfatizam a necessidade da transição para sistemas alimentares mais sustentáveis.

As mudanças climáticas têm se tornado um tema central em qualquer debate sobre políticas e direitos humanos, e a redução de insumos de agrotóxicos na agricultura é um ponto chave dessa discussão. A Fundação Heinrich Böll já publicou uma série de materiais voltados para os impactos sociais e ambientais dos sistemas alimentares, entre elas o Atlas do Agronegócio, o Atlas da Carne e o Atlas dos Insetos. É crucial que alternativas mais sustentáveis sejam ampliadas, trabalhando com a natureza – e não contra ela. Temos que definir o curso agora. A agroecologia e o manejo integrado de pragas (MIP), além da produção de mais pesquisas com biopesticidas, podem ajudar nesse processo.

Para a Fundação Heinrich Böll e muitos parceiros, comer é um ato político. Porque debater as origens dos alimentos e como eles são produzidos é condição fundamental para que todes tenham garantido o direito ao acesso a alimentos saudáveis e de qualidade. Acreditamos que este atlas fornece material que contribui para um debate dinâmico e para uma transformação em nossa forma de produzir e consumir.

Quem desejar baixar gratuitamente o “Atlas dos Agrotóxicos” basta clicar [Aqui!].


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Este texto foi originalmente publicado pela Fundação Heinrich Böll [Aqui!].

No crepúsculo de 2023, Águas do Paraíba garante Natal feliz às custas da tristeza dos campistas

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Mostrando mais uma vez que quem tem advogado bom não morre pagão, a concessionária Águas do Paraíba garantiu para si um Natal gordo às custas dos seus consumidores cativos em Campos dos Goytacazes. É que segundo o jornalista Ralfe Reis, a concessionária conseguiu derrubar no Tribunal de Justiça (TJ) do Rio de Janeiro o veto do prefeito Wladimir Garotinho ao absurdo reajuste de 9,8%, com efeitoe autoriza Águas do Paraíba reajustar tarifas de água e esgoto, com efeito retroativo a janeiro.

Essa decisão é um tapa na cara e no bolso dos campistas, pois aqui já se paga uma das (senão a mais) tarifas mais caras do Brasil em troca de um serviço, convenhamos, bem meia-boca que não raramente deixa muito a desejar.

Como a decisão do terceiro vice-presidente do TJ veio agora em dezembro e, com certeza, a Águas do Paraíba não vai perder tempo para emitir seus boletos, muitos campistas que estarão viajando de férias ainda perigam receber em suas casas uma cobrança que não estará disponível no sistema online da empresa. Com isso, ainda correrão o risco de terem que pagar as tarifas retroativas com multas e correções monetárias, sob a ameaça de terem seus nomes enviados para o Serasa como aconteceu comigo na última vez que a Águas do Paraíba conseguiu reajustar suas salgadas tarifas no TJ.

O fato é que já passou da hora de rever a situação contratual da Águas do Paraíba para libertar os seus consumidores cativos que somos todos nós.  É que o que a Águas do Paraíba faz com os campistas é uma espécie de escárnio corporativo, pois, na pratica, tira sarro de nossas caras com essas decisões judiciais que desprezam a má qualidade dos serviços prestados em Campos dos Goytacazes.

E cabe ao prefeito Wladimir Garotinho começar o processo de libertação e dar um basta definitivo às atividades da Águas do Paraíba, pois como chefe do executivo municipal ele tem a caneta na mão para revogar esse contrato tão prejudicial a todos nós que aqui vivemos e pagamos os nossos impostos.

Os donos de carro contra o resto da Humanidade ou a Ditadura dos Cabeças de Biela

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Em protesto contra as novas ciclofaixas, comerciantes incendiaram pneus e fecharam a rua Barão de Miracema em Campod dos Goytacazes (Foto: Redes sociais)

Por Douglas da Mata

Há muito tempo, quando pretendo debater algo que envolva proprietários de veículos e suas relações com os espaços urbanos, me lembro de um hilário desenho animado da Disney, tendo o Pateta como personagem principal (ver vídeo abaixo).

 É o filme chamado Mr Wheeler e Mr Walker, algo mal traduzido em Senhor Volante e Senhor Pedestre, que faz uma adaptação da história de dupla personalidade famosa dos filmes de terror, Dr Jhekyl e Mr Hide, ou o Médico e o Monstro.

No episódio recente que reuniu de um lado os donos de veículos, e de outro, o resto da cidade, ficou claro o nível de semelhança com as alegorias acima, onde motoristas enfurecidos atearam fogo a pneus, berraram nas redes sociais, conclamando a “revolução dos carros”.

Não adianta dizer que o interesse dos carros e da indústria automobilística moldaram os Séculos XX e XXI, onde as cidades foram construídas a partir de um único ponto de vista: o do banco de um motorista.

Com maior ou menor intensidade, sistemas de transportes de massa foram sucateados e orçamentos públicos foram todos desviados para a construção de ruas, avenidas, vias expressas, pontes, viadutos, assim como vários serviços públicos foram empenhados na garantia de ir e vir de quem tem um carro.

Hospitais, resgates, policiais, agentes de trânsito, etc.

 Toda uma rede de equipamentos e serviços dedicada às Vossas Excelências, o dono de carro.

 Isenções fiscais para compra de veículos? Claro!

 Anistia de multas e licenciamentos atrasados? Várias vezes.

 Desse modo, solidificou-se a noção de que o dono de um carro é uma versão menor de dono do Universo, tudo isso estruturado em leis e costumes que garantiram a esse grupo minoritário da sociedade uma gama de privilégios digna das castas indianas superiores ou das mais nobiliárquicas dinastias europeias.

 Nestes tempos recentes, o Prefeito de Campos dos Goytacazes, uma cidade plana e conhecida por seu uso intenso de bicicletas por sua população pobre, e talvez por isso, já que transporte público de massas ela não tem, decidiu intensificar a implantação de ciclofaixas, para dar um mínimo de segurança e ESPAÇO PÚBLICO para as bicicletas transitarem.

Foi o caos!

 Não se tratou de nenhuma desapropriação ou requisição de uso de nenhuma fatia privada do território da cidade, mas sim ESPAÇO PÚBLICO.

Os até então “pacíficos e ordeiros” proprietários de veículos, comerciantes e outras classes de motorizados deixaram vir à tona os monstros que habitam em seus íntimos.

 Como o personagem do Pateta no filme de animação mostrado acima, revelaram sua pior índole, assemelhando seus atos àqueles nomeados como terrorismo.

 Tudo isso para deixarem claro que o não há ESPAÇO PÚBLICO que escape ao “apetite” dos cabeças de bielas.

Irônico também foi a turma do “mas”, ou “tem que ter conversa antes”.

 “Ah, MAS não pode começar pelas ciclofaixas” ou “Ah, porque não conscientizou antes, ou conversou?”.

Uai, mas vai dar espaço para bicicletas começando por aonde, mandando eles subirem as calçadas para disputarem com os já ameaçados pedestres?

“Conscientizar, educar, conversar”? Como assim?

Tratam-se de crianças?

Então o Prefeito tem que pedir ou tentar convencer os bárbaros cabeças de biela que ele vai tentar devolver uma parte da cidade que pertence a todos?

Quem sabem não desejem esse pessoal que o Prefeito divida a cidade em feudos, com cancelas e muralhas, entregando a eles o direito de dizer quem pode ir e vir?

Milhões de mortos no trânsito ao longo dos anos, outros tantos mutilados, prejuízos imensos para famílias e sistemas previdenciários e hospitalares, mas nada disso é suficiente para sensibilizar os cabeças de biela.

Esperemos que o Prefeito faça valer sua autoridade…