Marketing acadêmico: Editora da Unioeste lança livro que discute a relação [dialética] do Homem com a Natureza em Karl Marx

marx natureza

A relação dialética do homem com a natureza: Estudos histórico-filosóficos sobre o problema da natureza em Karl Marx

Autor: Wolfdietrich Schmied-Kowarzik
Tradução: Rosalvo Schütz
Revisão da tradução: Hans-Georg Flickinger

Nessa obra, Wolfdietrich Schmied-Kowarzik trava um debate científico-filosófico sobre a natureza, em que fica evidente que Marx expressa uma preocupação com a natureza, com a terra, com o solo, e isto é evidenciado em sua crítica à produção burguesa de valores que pressupõe o trabalho e a natureza, uma vez que, para ele, trabalho é uma relação metabólica entre o homem e a natureza. Para que haja valores de uso, são necessários dois fatores: o substrato material, que a natureza oferece, e o trabalho, com o qual o homem transforma a natureza para satisfazer as suas necessidades. É pelo trabalho que o homem se apropria dos recursos da natureza, imprimindo-lhes forma útil à sua vida e, atuando assim sobre a natureza externa e inorgânica, ele a modifica e transmuda a si mesmo.

A relação do homem com a natureza, em Marx, no entanto, não deve ser entendida apenas como condição necessária do intercâmbio material entre o homem e a natureza, pois Marx fala, em O capital, que o trabalho envolve: 1) o próprio trabalho, que é também intercâmbio entre trabalho e trabalho (os diversos ramos de trabalho); 2) uma atividade que se aplica à natureza, o objeto universal do trabalho humano; e 3) seus meios, ferramentas, instrumentos, com os quais o homem transforma a natureza. Schmied-Kowarzik pensa a relação homem-natureza de modo outro que aquele das categorias orientadas pelos fins da racionalidade utilitarista das ciências e técnicas modernas.

O autor se opõe àqueles que acusam Marx de não ter se preocupado com os problemas ambientais. Tal acusação não procede, pois a crítica de Marx à sociedade burguesa é, precisamente, porque a lógica de sua produção – sua “racionalidade” – econômica reduz o homem e a natureza a simples objeto de lucro. Essa crítica de Marx significa que, enquanto a sociedade capitalista estiver erigida, não cessarão a degradação humana e a ambiental, ecológica. Do mesmo modo que a produção da economia capitalista visa à produção de mais-valia como resultado da exploração do tempo da força humana de trabalho, promovendo a degradação do ser humano, para Marx, tal produção causa também a degradação da natureza, uma vez que a busca do lucro é realizada a partir da exploração dos recursos naturais, não considerando os limites da natureza. O pensamento de Marx denuncia, pois, a pilhagem da natureza, a destruição ambiental, e antecipa, com isso, muitas ideias do discurso ecológico atual, já que sua crítica à economia política do capital não se manteve desvinculada da crítica à degradação do homem e de suas condições de existência, dadas pela natureza.

Adquira a obra: http://www.unioeste.br/edunioeste/ 

Amazônia concentra 90% da área queimada no Brasil no primeiro bimestre de 2023

Foram 487 mil hectares queimados no bioma; confira os dados do Monitor do Fogo divulgados nesta segunda-feira (13)

Fire Monitoring in the Amazon in July, 2021Monitoramento de Queimadas na Amazônia em Julho de 2021

Queimada feita em uma área de desmatamento recente na Amazônia

A Amazônia foi o bioma mais queimado no Brasil nos dois primeiros meses do ano, com 487 mil hectares atingidos pelo fogo. A área equivale a quatro vezes a capital paraense Belém e representa 90% de tudo o que queimou no país no período. Os dados foram divulgados nesta segunda-feira (13) pelo Monitor do Fogo, iniciativa do MapBiomas em parceria com o IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia).

“O principal fator para o fogo na Amazônia nesse período é a ocorrência do fogo em formações campestres, principalmente ao norte do Bioma. Ainda que seja um número alto para a época de chuvas, é 25% menor que os 654 mil hectares que pegaram fogo no bioma em janeiro e fevereiro do ano passado”, comenta Vera Laisa Arruda, pesquisadora no IPAM responsável pelo Monitor do Fogo.

Entre os estados em todos os biomas, Roraima foi o que mais queimou nos meses de janeiro e fevereiro. Foram 259 mil hectares, ou 48% de toda a área queimada no Brasil. Roraima, Mato Grosso e Pará, os últimos com 90 mil e 70 mil hectares queimados, concentram 79% do fogo ocorrido no Brasil no período.

“O padrão de área queimada em Roraima pode estar relacionado a características climáticas e ambientais únicas do estado. Roraima está localizado no hemisfério norte, enquanto a maior parte dos demais estados se localiza no hemisfério sul. Dessa forma, enquanto o período de seca em boa parte do país ocorre entre os meses de maio a setembro, em Roraima os meses de seca ocorrem entre dezembro e abril”, explica Felipe Martenexen, pesquisador no IPAM e responsável pelo mapeamento da Amazônia no Monitor do Fogo.

Campos, como os lavrados roraimenses, foram o tipo de vegetação mais afetado: na Amazônia, os 266 mil hectares que pegaram fogo entre janeiro e fevereiro de 2023 eram de formações campestres, ou 55% da área queimada no bioma; no Brasil, a proporção chega a 84% .

“As vegetações campestres têm um papel fundamental na manutenção dos ciclos naturais essenciais para a vida, como o do carbono e do nitrogênio, além de contribuírem para a absorção e distribuição de água pelo solo. Por essa relação interdependente e complementar, medidas de proteção da biodiversidade devem considerar ecossistemas como um todo para serem efetivas”, acrescenta Vera Arruda.

O Cerrado foi o segundo mais queimado em janeiro e fevereiro, com 24 mil hectares atingidos pelo fogo. A época de chuva em regiões do bioma dificulta o alastramento dos incêndios. No total, o Brasil teve 536 mil hectares queimados nos dois meses, uma área 28% do que a registrada no mesmo período em 2022

Aumento de trabalhos análogos à escravidão no país preocupa especialistas

Casos recentes demonstram necessidade de mais políticas públicas no combate a cenário que alcançou em 2022 o maior número de denúncias dos últimos dez anos

trabalhador escravo

O início de 2023 trouxe novamente à tona casos de trabalhadores em situações análogas a de escravidão no Rio Grande do Sul e outros estados brasileiros. Segundo o Ministério Público do Trabalho, as 1973 denúncias envolvendo o trabalho de pessoas em condições análogas a de escravidão em 2022 representam o índice mais alto dos últimos dez anos, além de ser o dobro do número apresentado em 2012, quando 857 denúncias foram registradas.

Uma das situações que causam o maior impacto na sociedade brasileira é o de Bento Gonçalves (RS), que possuía cerca de 200 trabalhadores provenientes da Bahia, em sistema de trabalho análogo à escravidão, com condições degradantes nos alojamentos, jornadas de trabalho superiores a 14 horas diárias, além de torturas recorrentes.

“O resgate de trabalhadores não envolve só a retirada do local de exploração, mas também o trabalho conjunto para o respeito a seus direitos básicos, tais como o pagamento das verbas rescisórias, a emissão de guia de seguro-desemprego,  possibilidade de retorno ao local de origem, com o auxílio de centros de assistência social”, explica Izabela Borges, advogada do escritório Aparecido Inácio e Pereira Advogados Associados. 

O que caracteriza as situações de trabalho como análogas a escravidão

Alguns elementos caracterizam a chamada “escravidão contemporânea”, entre eles:

  • Trabalho forçado: ato que envolve a limitação do direito de ir e vir;
  • Servidão por dívida: como ocorre quando há um cativeiro atrelado a dívidas, muitas vezes fraudulentas
  • Condições degradantes de trabalho: quando se nega o respeito à dignidade humana, colocando em risco a saúde e vida do trabalhador;
  • Jornada exaustiva: quando o trabalhador é levado ao completo esgotamento dado à intensidade da exploração, também colocando em risco sua saúde e vida.

Demonstrado qualquer um destes fatores no ambiente de trabalho, o responsável poderá ser condenado na seara criminal, de acordo com art. 149 do Código Penal, que considera crime a redução à condição análoga à de escravidão.

Na esfera trabalhista, as mais importantes punições resultam das Ações Civis Públicas, ajuizadas normalmente pelo Ministério Público do Trabalho, que pleiteiam indenização por danos morais coletivos.

Outra consequência para as empresas é a imagem comprometida no mercado nacional e internacional, como no caso ocorrido em Bento Gonçalves, que apesar de ter sido firmado um termo de ajustamento de conduta, prejudicou de maneira significativa a imagem das empresas envolvidas. 

Denúncias são vitais para resgates

Nos últimos dez anos, mais de 15 mil pessoas foram resgatadas do trabalho análogo à escravidão no Brasil, também segundo o Ministério Público do Trabalho. As denúncias podem ser feitas pelo portal do Ministério Público do Trabalho e há também um site específico para a ação:https://bit.ly/3Yn1ndr, não sendo necessária a identificação do denunciante.

Desde 1995, as fiscalizações e resgates de trabalhadores são realizados pelo GEFM, coordenado por auditores-fiscais do Trabalho, em parceria com o Ministério Público do Trabalho, a Polícia Federal, a Polícia Rodoviária Federal, o Ministério Público Federal e a Defensoria Pública da União, entre outras instituições. 

“É importante que sejam implementadas políticas públicas direcionadas ao combate ao trabalho em condição análoga à de escravo, para que o país possa se orgulhar de combater um ciclo de exploração racial, o qual fora mantida por muitos anos de forma disfarçada pelos interesses econômicos, desinteressados na abolição efetiva da exploração humana”, finaliza a especialista.

Sobre a advogada Izabela Borges Silva

Izabela Borges Silva é advogada do escritório Aparecido Inácio e Pereira Advogados Associados e inscrita na Ordem dos Advogados do Brasil/SP sob o n.º 337.111

Software antiplágio popular promete identificar textos do ChatGPT

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Por Pesquisa Fapesp

A empresa norte-americana Turnitin informou que irá lançar até abril um novo software capaz de detectar textos produzidos por ferramentas de inteligência artificial (IA) generativa como o ChatGPT. A ideia é que a solução seja incorporada ao seu software homônimo de detecção de plágio, que é utilizado por mais de 15 mil instituições de ensino superior no mundo.

Segundo a companhia, a nova ferramenta tem precisão de até 97% e uma taxa muito baixa de falsos positivos, menos de 1 para 100. Desde o lançamento do ChatGPT, em novembro de 2022, empresas de todo o mundo têm se esforçado para desenvolver ferramentas capazes de identificar textos produzidos por IA generativa. Mas muitas soluções lançadas até aqui são imprecisas. “Nosso modelo foi treinado especificamente para redação acadêmica e se baseia em um banco de dados abrangente, que não se restringe a conteúdos disponíveis para o público”, disse Annie Chechitelli, diretora de produtos da Turnitin, segundo o site da empresa.

Mike Sharples, professor emérito de tecnologia educacional da Open University, do Reino Unido, disse à revista Times of Higher Education que o desenvolvimento da ferramenta é fundamental para a Turnitin manter a competitividade de seu software. Adverte, porém, que a baixa taxa de falso positivo ainda precisa ser verificada de forma independente. Taxas elevadas de falso positivo são um dos pontos fracos dos softwares lançados para detectar textos feitos pelo ChatGPT – a chance de que um aluno seja falsamente acusado de usar inteligência artificial para fazer trabalhos escolares põe em xeque a credibilidade das ferramentas. Os testes com o novo Turnitin serão fundamentais para recomendar ou não seu uso. “Será que ele pode ser enganado se houver pequenos ajustes no texto?  E se o usuário passar o texto por outra ferramenta de IA para que seja reformulado?”, indagou Sharples, em sua conta no Twitter.


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Este texto foi originalmente publicado pela Pesquisa Fapesp [Aqui!].

Debate sobre extrativismo: onde chegar se não…

A transição energética e a descarbonização consomem enormes recursos. O fato de virem do Sul Global mostra um padrão de exploração bem conhecido

palm oilEm outros lugares, regiões inteiras precisam abrir caminho para os recursos que uma economia descarbonizada precisa neste país. Como aqui durante a derrubada e queima de uma futura plantação de óleo de palma. Foto: CHAIDEER MAHYUDDIN/AFP

Por Anne Tittor para o Neues Deutschland

A redução das alterações climáticas é agora considerada um dos desafios mais importantes do século XXI. A ação rápida é agora mais importante do que nunca para limitar o aquecimento global. A descarbonização desempenha aqui um papel central, ou seja, a redução das emissões que contêm carbono, em particular, afastando-se dos combustíveis fósseis e dispensando matérias-primas que contenham carbono. A descarbonização é um alicerce necessário e central para atingir as metas climáticas, mas ainda não é um passo suficiente. No entanto, no debate político atual, o foco está principalmente na viabilidade técnica da descarbonização, e não em um grande número de medidas necessárias em termos de uma desejável transformação socioecológica.

Na Alemanha, sob esta palavra-chave, o foco está principalmente na reestruturação da indústria automotiva, na situação social nas áreas de mineração de linhito e nos setores industriais intensivos em energia ou nos eixos de conflito entre diferentes grupos sociais. Mas os conflitos de transformação socioecológica não existem apenas em países altamente industrializados. Assim que a base de matéria-prima é descarbonizada, essa descarbonização afeta também os fornecedores de energia e matéria-prima. Afinal, matérias-primas renováveis ​​também precisam ser produzidas e energia precisa ser produzida. Ambos ocupam grandes áreas de terra. Um terço da terra arável da Alemanha seria atualmente necessário para substituir o petróleo bruto usado na produção de plásticos da Alemanha por matérias-primas renováveis.

Descarbonização do driver de conflito

Transição Energética Ecossocial

A demanda por uma transição energética ecossocial que não mais se aproprie de territórios e matérias-primas do Sul Global de forma colonial e extrativista também está sendo levantada por grupos ambientalistas e ativistas do Sul Global. Por exemplo, no “Manifesto dos Povos do Sul – Por uma Transição Energética Ecossocial” de 10 de fevereiro de 2023, traduzido para o alemão pelo Escritório de Informação da Nicarágua.

Por meio do acesso a matérias-primas, energia e terra, a descarbonização atua como um impulsionador de conflitos socioecológicos (de transformação) no Sul Global. Com base na socióloga argentina Maristella Svampa, os conflitos socioecológicos são entendidos como disputas associadas ao acesso e controle de recursos naturais e territórios. Implicam diferentes interesses e valores num contexto de grande assimetria de poder e expressam-se em diferentes concepções de território, ambiente e natureza. O termo socioecológico enfatiza que a sociedade e a natureza estão inseparavelmente inter-relacionadas. Os conflitos socioecológicos são, portanto, disputas sobre apropriações naturais, sua necessidade com esforços de descarbonização,

O mundo continua a ser caracterizado por relações de poder e dependências estruturais que são uma consequência duradoura do colonialismo e se mantêm no comércio e na política externa. Os países do Sul Global recebem principalmente o papel de fornecedores de matérias-primas. Essas suposições são nitidamente condensadas na frase de efeito do extrativismo. Os processos de descarbonização requerem determinadas matérias-primas (incluindo minérios e metais) e quantidades de energia, bem como acesso a terras para posterior valorização de territórios para o cultivo de biomassa (soja, dendê, madeira, etc.) grandes barragens e parques eólicos). Em suma, a base material da descarbonização tem custos socioecológicos de acompanhamento.

Os processos de descarbonização andam de mãos dadas com a mudança material na base de recursos da sociedade. Uma mudança na base de materiais para longe das substâncias fósseis está sendo buscada e já foi iniciada. No sentido geológico, »fósseis« refere-se a fontes de energia que se desenvolveram em petróleo, gás natural e carvão através da inclusão de restos de animais e plantas das primeiras eras geológicas na rocha. Estes liberam grandes quantidades de CO 2 quando queimados . Estratégias “pós-fósseis” são, portanto, chamadas de estratégias que iniciam um afastamento desses combustíveis e são consideradas fontes de energia com baixo teor de CO 2 ou livre de CO 2 .

Além disso, existem várias matérias-primas metálicas e minerais extraídas por meio da mineração, que não são renováveis, mas também não se qualificam como materiais fósseis. Tudo isso, bem como toda a gama de matérias-primas renováveis, provavelmente continuará sendo necessário à medida que as estratégias de descarbonização ganharem força. A base de recursos da sociedade pós-fóssil não inclui apenas recursos renováveis, mas também depende centralmente de minérios e sais. Exatamente como uma economia e uma sociedade pós-fósseis podem parecer é algo aberto e contestado.

Muito uso da terra

Além de matérias-primas metálicas, grandes quantidades de energia renovável e a massiva infraestrutura associada, quanto mais a descarbonização avança, mais terra para matérias-primas renováveis ​​ela precisa. Até agora, o uso da terra tem sido analisado principalmente em campos muito específicos, como a política de biocombustíveis. Essas análises mostraram que o cultivo de agrocombustíveis está associado à perda de propriedade da terra por pequenos agricultores, ao enfraquecimento da soberania alimentar e a pressões socioecológicas significativas, como desmatamento, poluição da água e perda de biodiversidade. Embora a discussão sobre agrocombustíveis tenha diminuído no país, no entanto, a produção mundial do mesmo está aumentando ano após ano (com exceção do ano corona de 2020) e um crescimento adicional está previsto na próxima década. Como parte do “Acordo Verde Europeu”, cotas de mistura mais altas da UE estão novamente sendo discutidas, e muitas estratégias de descarbonização incluem significativamente mais agrocombustíveis.

Várias estratégias políticas, incluindo as estratégias de bioeconomia, pretendem usar matérias-primas renováveis ​​não apenas para biocombustíveis, mas também para um grande número de outros usos materiais e energéticos no curso da descarbonização. Até agora, prevaleceu um entendimento de bioeconomia que se resume à substituição de matérias-primas fósseis por renováveis. No entanto, muitas vezes é ignorado que isso é simplesmente impossível porque grandes áreas de terra não estão disponíveis. A terra arável disponível na Terra já é escassa. Além disso, os debates atuais sobre crises socioecológicas são muitas vezes conduzidos separadamente uns dos outros e as áreas da terra são planejadas várias vezes: enquanto os pesquisadores da ETH Zurich querem plantar mais 900 milhões de hectares de floresta por razões de proteção do clima, Especialistas em biodiversidade propõem a designação de 1,7 bilhão de hectares de áreas protegidas para a conservação da biodiversidade. Ao mesmo tempo, os defensores da bioeconomia querem expandir drasticamente a área de cultivo de matérias-primas renováveis.

O fato de que no curso da descarbonização há um aumento acentuado dos conflitos socioecológicos, especialmente sobre a terra, tem a ver com um argumento estrutural: as fontes de energia renováveis ​​consomem muito mais terra do que os combustíveis fósseis, justamente por terem um consumo energético significativamente menor. densidade . O cientista ambiental canadense Vaclav Smil comparou um total de cerca de 50.000 quilômetros quadrados de uso da terra para energia fóssil com um uso de terra de 398.000 quilômetros quadrados para energias renováveis. Isso inclui 263.000 quilômetros quadrados para biocombustíveis modernos, 131.000 para hidrelétricas e 40.800 para eólica.

À data do cálculo, o consumo terrestre de energias renováveis ​​é quatro vezes superior ao das energias fósseis – ainda que as primeiras gerassem apenas 3,8 por cento da energia na altura. Muitas dessas áreas de terra exigidas estão ocupadas no Sul Global. Isso estabelece condições extrativistas em diferentes áreas importantes para a descarbonização. Se houver também um aproveitamento de materiais além do energético, por exemplo, substituindo o plástico à base de petróleo pelos chamados bioplásticos à base de matérias-primas renováveis, o problema torna-se ainda mais agudo. Quanto mais a descarbonização avança, mais extenso extrativismo pós-fóssil e com ele os conflitos de transformação socioecológica ameaçam se tornar.

Um padrão de exploração

O extrativismo pós-fóssil inclui a extração e cultivo de recursos renováveis, que está associado a altos custos socioecológicos, a produção em larga escala de energias renováveis ​​e os requisitos associados de recursos minerais e metálicos. Além disso, há um aumento maciço na demanda por eletricidade. Isso, por sua vez, exacerba os conflitos sobre energias renováveis ​​com seus altos requisitos de terra. Em particular, projetos de barragens e plantações de madeira estão voltando com a descarbonização, apesar de seus efeitos socioecológicos problemáticos. Todos os esforços de descarbonização também exigem a expansão da infraestrutura em grande escala.

O extrativismo é, portanto, seguindo Maristella Svampa, um padrão de divisão transnacional do trabalho no capitalismo contemporâneo, que requer cada vez mais matérias-primas e energia e, portanto, exerce uma pressão cada vez maior sobre os recursos naturais e territórios nas áreas rurais periféricas do mundo . Isso aprofunda a posição desigual dos países no sistema mundial e agrava ainda mais a atual crise socioecológica. Nas regiões mineradoras, o extrativismo aparece como um modelo socioterritorial baseado na superexploração dos recursos naturais e na ampliação dos limites de uso para áreas antes consideradas improdutivas do ponto de vista do capital. Essa compreensão do extrativismo acentua a dimensão territorial um pouco mais do que outras definições e sublinha que

O fenômeno do extrativismo pode ser visto como um padrão na história latino-americana, mas o debate sobre o extrativismo surgiu principalmente na última década. O termo é usado principalmente de forma crítica para se referir aos custos socioecológicos consequentes da extração extensiva de matérias-primas.

Expansão do extrativismo agrário

Durante muito tempo, o debate sobre o extrativismo concentrou-se nos combustíveis fósseis carvão, gás natural e petróleo, além da mineração de metais. Mas, nos últimos anos, surgiram padrões extrativistas em muitos outros campos. Vários trabalhos atuais discutem o conceito de extrativismo agrícola, também em relação aos agrocombustíveis. Inicialmente, o foco estava principalmente em soja e óleo de palma cultivados em grandes plantações, mas recentemente também em cana-de-açúcar, frutas cítricas e flores cortadas. Para o extrativismo agrícola em particular, é importante determinar com mais precisão o que é extraído e como. Por um lado, existem nutrientes no solo que são removidos a tal ponto que não podem mais se regenerar. Em 2015, a ONU declarou que o solo usado para agricultura intensiva é um “recurso não renovável”. Como a qualidade do solo está em constante declínio e o solo está constantemente sendo usado em excesso, grandes quantidades de fertilizantes artificiais são usadas. O extrativismo agrícola é, portanto, na verdade “agricultura mineira” do lado material ou biofísico.

Devido à forte dependência de substâncias fósseis, essa forma de cultivo exacerba o extrativismo clássico; ao mesmo tempo, apesar das grandes quantidades de insumos fósseis, não pode parar a degradação do solo. O extrativismo agrícola também está associado a uma forma particular de produção praticada pelo agronegócio, voltada para a produção de grandes quantidades de mercadorias para exportação. Essa exportação ocorre com pouco ou nenhum processamento. Além disso, é característica uma alta concentração da cadeia de valor em apenas algumas empresas, ao mesmo tempo em que falta um relacionamento econômico mais próximo com outras empresas locais.

Além disso, o extrativismo agrícola leva à deterioração das oportunidades de trabalho e/ou das condições de trabalho. Ele conta com o uso de equipamentos modernos e tecnologias digitais e assim contribui para a »agricultura sem agricultores«. Os efeitos colaterais são a degradação do solo, poluição da água, perda de biodiversidade, desmatamento e concentração de terras. Devido ao uso generalizado de agrocombustíveis e ao aumento do uso material e energético da biomassa cultivada, é provável uma expansão do extrativismo agrícola no futuro.

Água e florestas

Vários trabalhos também falam do extrativismo no setor florestal, em particular análises do Chile. Ali, paisagens, ecossistemas e relações homem-natureza foram redesenhados dentro de um modelo extrativista em enormes plantações de árvores de empresas privadas. A terra foi outrora utilizada pelos indígenas mapuches para a pecuária extensiva ou agricultura de subsistência e é considerada por eles como seu território histórico. Como resultado, há intensos conflitos pelo uso da terra e da água.

O paralelo com o extrativismo agrário não reside apenas nesses conflitos de uso da terra e da água e na forte e irreversível conversão de grandes áreas de terra para o cultivo de produtos prioritariamente exportados. Este tipo de economia também requer muita terra, mas quase nenhum trabalhador. As comunidades locais estão sendo expulsas, os ciclos ecológicos estão sendo alterados, a produção está sendo estabelecida para o mercado mundial e os padrões coloniais estão sendo ligados. Essas plantações de árvores são frequentemente declaradas como projetos de reflorestamento e, às vezes, cofinanciadas com fundos do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL). Uma vez que a madeira como matéria-prima renovável também está se tornando mais importante como material de construção no contexto da descarbonização e as primeiras usinas a carvão estão agora sendo operadas com lascas de madeira em vez de carvão,

Além disso, grandes usinas hidrelétricas também podem ser classificadas como projetos extrativistas. Aqui também está ocorrendo uma transformação em larga escala e irreversível dos territórios. Cerca de quatro milhões de pessoas por ano são reassentadas por causa das barragens. Embora a água não seja apropriada diretamente, é a energia que é extraída e exportada. A assimetria nas relações de poder faz com que os lucros sejam desviados para lugares distantes, enquanto os locais arcam com os custos socioecológicos. Como as grandes barragens raramente são usadas para abastecimento local de energia e água, mas geralmente fornecem eletricidade principalmente para setores como mineração ou agronegócio, elas fazem parte da “geografia do extrativismo”.

Projetos de grandes barragens foram duramente criticados nas décadas de 1980 e 1990 por causa de seu problemático impacto social e ambiental e desde então foram removidos da agenda política de desenvolvimento. Mas diante da descarbonização, eles foram ajudados a renascer. Enquanto isso, atores como o Banco Mundial e muitos bancos privados – e cada vez mais também o capital chinês – estão financiando projetos de barragens. Este desenvolvimento foi ainda reforçado pelo estabelecimento do MDL. Nesse quadro, os países industrializados podem investir nos países em desenvolvimento, em vez de reduzir as emissões em casa. Setorialmente, os maiores projetos na área de energia eólica e hidrelétrica têm sido os mais financiados – apesar de seus custos socioecológicos problemáticos. Porque há um novo consenso em torno da estratégia de baixo carbono .

Narrativas Verdes

Devido às muitas semelhanças que surgem nos padrões de implementação e nas consequências do agroextrativismo, dos grandes projetos de barragens, das grandes plantações florestais e de biomassa e das infraestruturas associadas, faz sentido trazer esses projetos para um termo comum: »extrativismo pós-fóssil «. Esta é uma estratégia de desenvolvimento que promove a valorização das zonas rurais periféricas com base na terra e em recursos renováveis ​​e de base biológica e contribui para a descarbonização. Isso também inclui a mineração intensiva e em larga escala de matérias-primas metálicas e minerais para as tecnologias correspondentes.

O extrativismo pós-fóssil anda de mãos dadas com uma promessa de desenvolvimento, principalmente de prosperidade e empregos para as respectivas regiões. No local, as justificativas climáticas e ambientais para os respectivos projetos desempenham um papel secundário – contrariando sugestões do debate como “ecoextrativismo”, “extrativismo renovável”, “extrativismo verde” ou “extrativismo alternativo”. Pós-fóssil descreve a base material do extrativismo, o que não altera as formas de fiscalização e os efeitos socioecológicos. Ecológico ou “verde” é apenas a narrativa apropriada que acompanha os projetos.

A esse respeito, não estamos em uma fase de extrativismo pós-fóssil, mas o extrativismo pós-fóssil está aumentando à medida que a descarbonização avança. Até agora, apenas complementou o extrativismo fóssil, porque, embora a eliminação do carvão e do petróleo tenha sido anunciada em mais de 100 países, seus volumes de produção ainda não estão diminuindo em escala global. As energias pós-fósseis têm uma densidade energética menor do que os combustíveis fósseis e a descarbonização requer grandes quantidades de energia (renovável). Portanto, o acesso à terra e, portanto, também os conflitos socioecológicos provavelmente aumentarão acentuadamente à medida que a descarbonização avança, porque a forma de descarbonização praticada até agora requer quantidades consideráveis ​​de matérias-primas e ocupa grandes áreas de terra, especialmente para produção de energia.

Rompimento das relações extrativistas

No que diz respeito às consequências socioecológicas no local – a destruição dos ecossistemas, a impossibilidade de estratégias anteriores de subsistência , a perda da soberania alimentar e da biodiversidade – os vários extrativismos pouco diferem. Os conflitos em torno do extrativismo pós-fóssil já respondem por cerca de 40% dos conflitos socioecológicos em todo o mundo (excluindo o setor metalúrgico).

Vários desses conflitos existem há mais tempo do que o conceito de descarbonização, mas atualmente estão chegando ao auge. Portanto, esses conflitos socioecológicos também devem ser vistos como conflitos de transformação, ao invés de usar esse termo apenas para as disputas sobre as indústrias carbonífera e automobilística neste país. Muitas convulsões sociais – incluindo a descarbonização – andam de mãos dadas com uma relação Norte-Sul específica que não deve ser negligenciada. Além disso, a conceituação como conflitos de transformação sócio-ecológica sublinha que estes não são uma coisa do passado, mas provavelmente se intensificarão no futuro.

Se você descobrir a conexão estrutural entre descarbonização e custos socioecológicos no Sul Global, não estará de forma alguma isentando os governos dos países do sul de sua responsabilidade. Como já foi mostrado ao longo do debate sobre o extrativismo, tanto os governos quanto as próprias classes dominantes têm interesse em aprofundar os projetos extrativistas e os estão promovendo ativamente – seja para gerar receita do Estado ou simplesmente para lucrar. Além disso, há também esforços de descarbonização em países do Sul, que não acontecem apenas por causa das relações de poder internacionais e das condições do mercado mundial, mas às vezes são motivados pelo desejo de soberania energética ou proteção do clima.

Enquanto a descarbonização for projetada para ser apenas uma tentativa de colocar os padrões fósseis em uma base biológica, ela ajudará a perpetuar as relações extrativistas. Porque até agora apenas a base material da economia foi gradualmente alterada, mas as infraestruturas, as relações sociais e as expectativas crescentes não mudaram, também porque atores poderosos tentam segurá-los a qualquer preço. Os conflitos são multiplicados devido à densidade energética estruturalmente maior das substâncias fósseis em comparação com as renováveis ​​ou renováveis. Um projeto socialmente justo de descarbonização teria que levar esse fato em consideração, em vez de sugerir que o atual modelo de produção e consumo pode ser continuado – apenas com uma base de matéria-prima diferente.

Em vez disso, é necessário um projeto político direcionado da transformação socioecológica. Cotas de mistura e reciclagem ou o desenho da lei da cadeia de suprimentos fazem a diferença. Uma reviravolta real no transporte, por exemplo, teria um impacto ainda mais sério – longe da automobilidade individual em vez de uma mera reviravolta. A questão mais importante é se os políticos deste país estão traçando o caminho para uma redução drástica no consumo de energia e matérias-primas. Até agora, porém, não parece.

O artigo é uma versão resumida de »Extrativismo pós-fóssil? A Multiplicação de Conflitos Sócio-Ecológicos no Sul Global através da Descarbonização«, publicado em Prokla 210: Conflitos de Transformação Sócio-Ecológica e Estratégias de Esquerda. 53º ano, número 1, março de 2023, Bertz + Fischer, 196 páginas, 15€.


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Este texto escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

Desmatamento recorde na floresta amazônica mostra o tamanho do desafio de Lula

Satélites mostram destruição recorde para o mês de fevereiro, enquanto o novo governo tenta desfazer os danos causados ​​​​por Bolsonaro

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O desmatamento atingiu a maior alta em 15 anos durante a presidência de Jair Bolsonaro. Fotografia: Ueslei Marcelino/Reuters

Por Constança Malleret no Rio de Janeiro para o “The Guardian”

O desmatamento na floresta amazônica brasileira aumentou em fevereiro para o nível mais alto já registrado para o mês, destacando a escala do desafio enfrentado pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva , que tenta desfazer a destruição ambiental causada pelo ex-presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro.

Satélites do governo mostram que um recorde de 322  km2 de floresta amazônica foi destruído em fevereiro, um aumento de 62% em relação ao ano passado e o maior número para o mês desde o início dos registros.

Lula, que assumiu o cargo em 1º de janeiro deste ano, prometeu acabar com a extração ilegal de madeira depois que o desmatamento atingiu uma alta de 15 anos durante os anos de Bolsonaro.

Com o Ministério do Meio Ambiente novamente comandado pela ambientalista Marina Silva , que liderou a forte queda do desmatamento na mesma função durante o primeiro mandato de Lula, o governo reativou o Fundo Amazônia, ferramenta fundamental para a preservação, e recriou uma sociedade civil conselho do meio ambiente – ambos abandonados no governo Bolsonaro.

Silva também ignorou e atualizou um plano de prevenção e controle do desmatamento que formava a espinha dorsal de suas políticas bem-sucedidas há quase duas décadas.

São passos importantes, mas “a inovação é necessária, pois a Amazônia hoje não é a mesma de 10, 20 anos atrás”, disse o porta-voz do Greenpeace Brasil , Rômulo Batista.

O crime e a violência explodiram no governo anterior, pois o desdém de Bolsonaro pela floresta tropical e pelas pessoas que a protegem encorajou criminosos de todos os tipos, incluindo os assassinos do especialista indígena Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips . Enfrentar a crise exigirá a reconstrução da mão de obra das agências ambientais que foram estripadas pelo populista de extrema direita, um processo que não pode acontecer da noite para o dia, disse Batista.

“O grileiro, o desmatador, o garimpeiro, estão aproveitando esse tempo para correr para derrubar a floresta”, disse Batista.

Após dados preliminares apontarem para o aumento da destruição em fevereiro, Silva disse a repórteres no mês passado que os madeireiros estavam trabalhando mesmo durante a estação chuvosa da Amazônia como uma “espécie de vingança” contra a repressão do atual governo.

Os números do desmatamento são tipicamente mais baixos no início do ano, já que a estação chuvosa na Amazônia dificulta o desmatamento e a cobertura de nuvens significa que os satélites têm menos probabilidade de detectá-lo. Por esse motivo, os analistas alertaram contra a comemoração de uma queda no desmatamento em janeiro.


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Este texto foi originalmente publicado em inglês pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Em fevereiro, desmatamento chega a 322 Km2 na Amazônia e bate novo recorde; governo Lula precisa encontrar soluções

A volta do PPCDAm e do Fundo Amazônia pode auxiliar no combate ao desmatamento que registrou em fevereiro um aumento de 61,8% em relação ao mesmo mês no ano passado

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Monitoramento de Desmatamento e Queimadas na Amazônia em 2022 | Foto: Christian Braga / Greenpeace Brasil

São Paulo, 10 de março de 2023 – Fevereiro bateu o recorde de alertas de desmatamento da série histórica, chegando a 322 km², conforme os dados apresentados hoje (10) pelo sistema Deter-B, do Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE). Os dados representam um aumento de 61,8% em relação ao mesmo mês no ano de 2022, que chegou a 199 km² de área desmatada. Os estados que concentram as maiores áreas de alertas de desmatamento são o Mato Grosso com 162 km² (50,3% do total), seguido de Pará e Amazonas, ambos com 46 km² (14.2% do total).

Já no mês de janeiro, o acumulado de alertas de desmatamento foi de 167 km², registrando uma queda de 61% em relação ao mesmo período em 2022. Para Rômulo Batista, porta-voz de Amazônia do Greenpeace Brasil, o aumento dos alertas de desmatamento em fevereiro, comparado ao ano anterior, pode ser interpretado por inúmeros fatores: “Primeiro, é necessário entender a metodologia do programa de monitoramento realizado pelo INPE, que é referência nacional e internacional. Os sistemas são baseados em satélites ópticos e eles não conseguem enxergar abaixo das nuvens. Isso pode ter sido responsável por essas diferenças tão grandes nos dois primeiros meses, tendo em vista que estamos no inverno amazônico que se caracteriza pelas chuvas e coberturas de nuvens muito intensas. Ou seja, parte do desmatamento que foi registrado agora em fevereiro poderia ser do mês de janeiro ou até mesmo de outros meses anteriores, e também não basta olharmos apenas a quantidade de nuvens que temos a cada mês, mas também entender onde elas estão, já que a região sul e sudeste da Amazônia são as fronteiras de desmatamento mais ativos e a cobertura de nuvens não são homogénea na Amazônia”.

A troca no comando do governo federal, considerando que o anterior era favorável ao desmatamento, também pode ser um dos fatores que corroboram esse aumento: “Acabamos de sair de um governo que apoiava o desmatamento. Enquanto a fiscalização e o controle não chegam em todo território, os desmatadores ilegais podem estar aproveitando para expandir esse desmatamento enquanto essas ações do Estado não incidem sobre o território”, salienta Rômulo.

Há uma movimentação por parte do atual governo para redução do desmatamento, como os retornos do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm) e do Fundo Amazônia, este que tem mais de R$ 3 bilhões para financiar ações de fiscalização, ambos foram essenciais para redução do desmatamento entre 2004 e 2012 mas ainda não é o bastante: “Foram iniciativas que já surtiram efeito no passado, no entanto o momento agora é outro. A Amazônia e o Brasil de hoje não é o mesmo de 10, 20 anos atrás. Vai ser necessário muito mais trabalho repondo os quadros de fiscais ambiental e também inovações tecnológicas, legais e infralegais, para combater as queimadas, o desmatamento, a violência contra os povos da florestas e o garimpo ilegal, que não só estiveram fora do controle, como foram apoiados pelo último governo”. Finaliza Rômulo.

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O Greenpeace Brasil é uma organização ativista ambiental sem fins lucrativos, que atua desde 1992 na defesa do meio ambiente. Ao lado de todas as pessoas que buscam um mundo mais verde, justo e pacífico, a organização atua há 30 anos pela defesa do meio ambiente denunciando e confrontando governos, empresas e projetos que incentivam a destruição das florestas.

Cientistas mapeiam ponto em que ecossistemas serão afetados de forma irreversível por mudanças climáticas

geloFOTO: MELISSA BRADLEY / UNSPLASH

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Ecossistemas importantes à vida na Terra, como as camadas de gelo, recifes de corais ou a floresta amazônica podem atingir pontos de ruptura nas próximas décadas, com alterações irreversíveis e catastróficas caso as mudanças climáticas não sejam atenuadas nos próximos anos. É o que observam doze pesquisadores do Brasil, Canadá, China, Estados Unidos e Reino Unido que mapearam as evidências científicas atuais acerca de pontos de não retorno para dez elementos, descrevendo mecanismos, riscos humanos e ecossistêmicos. Ao atingir o ponto de ruptura, tais elementos passam por mudanças drásticas em relação ao seu estado original, que podem iniciar um efeito cascata sobre outros sistemas terrestres, como aponta o estudo publicado na revista internacional “Reviews of Geophysics”.

O artigo de revisão considerou dez elementos com risco de ruptura, incluindo mudanças em correntes oceânicas, liberação de metano do assoalho marinho, perda de grandes camadas de gelo, liberação de carbono de camadas congeladas do solo, mudanças na floresta boreal, alterações em ventos de monções, dispersão de nuvens estrato cumulus, perda do gelo do Ártico no verão, transformações na floresta amazônica e o branqueamento de corais de águas rasas. Tais aspectos permitem prever riscos atuais e futuros, direcionando as ações da sociedade para o combate às alterações climáticas.

“Sobre a perda do recife de coral das águas rasas tropicais, por exemplo, temos nível de entendimento científico muito alto, com uma condição muito boa de prevê-los. Este limiar mostra que se a temperatura aumentar mais que 1.5ºC, os impactos serão dramáticos e severos em uma escala de décadas”, exemplifica Liana Anderson, coautora e pesquisadora do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).

A Amazônia também enfrentará mudanças severas em décadas caso não haja mitigação das mudanças climáticas. Ameaçada pelo estresse climático e pela ação humana, secas extremas, desmatamento, corte seletivo e queimadas levariam à falta da umidade necessária para sua manutenção, em um ciclo de menos chuvas e maior mortalidade de espécies. “A floresta teria esse ponto de não retorno, em que fica pequena o suficiente para não conseguir sustentar sua umidade e vai se transformando em outro tipo de floresta, tendo uma degradação climática, porque não consegue se manter, e não haveria uma forma de voltar ao estado original, ao menos na escala de séculos”, afirma Liana.

Por sua vez, a degradação da floresta amazônica influencia os padrões climáticos ao redor do mundo, mas Liana Anderson acrescenta que ainda há um baixo conhecimento científico sobre o efeito cascata provocado pelas conexões entre estes processos. Porém, sabe-se que seus impactos podem ser duradouros, perdurando por séculos ou milênios, e que ainda é possível minimizar o risco da ruptura, como através de atitudes e políticas públicas para reduzir tanto a pressão por degradação que impactam localmente e na escala regional a floresta quanto as emissões de combustíveis fósseis, que atuam em extremos climáticos e colocam ainda mais pressão nesse ecossistema.

“Essas mudanças podem passar de um determinado limiar em que não vão voltar, e isso vai impactar de modos sem precedentes talvez a nossa geração, mas seguramente  a de nossos filhos e netos. Então é uma responsabilidade muito grande que a gente precisa incorporar como sociedade e como prática diária, de repensar nossas ações, nossas decisões, e isso inclui em quem vamos votar, porque são os representantes políticos em última instância que realmente movimentam e direcionam em grande escala as decisões nacionais”, conclui a especialista.


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Este foi originalmente publicado pela Agência Bori  [Aqui!].

Presidente do IBAMA revoga instrução que previa destruição de equipamentos usados em práticas ilegais, mas “esquece” de apontar novas diretrizes

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O Diário Oficial da União traz hoje a curiosa (na ausência de melhor palavra) Instrução Normativa  Nº 6,  de 6 de março de 2023 que a Instrução Normativa nº 3, de 23 de janeiro de 2018, que estabelece os procedimentos para a aplicação da medida cautelar de destruição ou inutilização de produtos, subprodutos ou instrumentos utilizados na prática da infração ambiental, no âmbito das ações de fiscalização ambiental.

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O problema é que a nova instrução não traz nenhuma instrução sobre será feito com os equipamentos que vierem a ser encontrados dentro de unidades de conservação e terras indígenas sendo usados na prática de crimes. O ideal é que a anulação de uma instrução já trouxesse novas diretrizes na nova, mas não foi o que aconteceu.

Como existem muitas pressões sendo feitas sobre o governo Lula por parte de membros de sua própria base parlamentar para que não haja a devida repressão contra crimes ambientais, a situação criada pela remoção da Instrução Normativa nº 3, de 23 de janeiro de 2018 deverá ser acompanhada de perto. É que se não for colocado nada que explicitamente puna a presença desses equipamentos dentro de terras protegidas, o que teremos é a continuidade da boiada passando para alegria completa de Ricardo Salles e seus antigos colegas do governo Bolsonaro.

A refinaria e as jóias, tudo junto e misturado

Ainda que sirva muito bem para a campanha de limpeza ideológica para erradicar (ou menos tentar) Jair Bolsonaro do posto de “mito”, a história das jóias não declaradas também se presta para não discutir o essencial, que foi o crime de lesa-pátria cometido na privatização da Refinaria Landulfo Alves (Rlam) para o fundo soberano Mubadala por US$ 1,8 bilhão quando avaliadores tinham dito que a unidade valia entre US$ 3 e US$4 billhões.

Ao não determinar imediatamente que sejam tomadas as devidas providências para anular essa venda absurda, o que são os US$ 16 milhões que as jóias apreendidas pela Receita Federal no Aeroporto de Guarulhos equivale ao que os gringos chamam de “saco de amendoins”. 

Aliás, como voltamos a beirar os R$ 6,00 pelo litro de gasolina na cidade de Campos dos Goytacazes, há que se lembrar que uma das promessas de campanha do candidato Lula era rever uma outra situação de lesa-pátria que é o chamado Preço de Paridade Internacional (PPI) é uma política de preço criada em 2016, durante o governo do ex-presidente de facto Michel Temer. É que graças ao PPL que estamos pagando muito mais do que devíamos enquanto país produtor de petróleo, com os principais beneficiários sendo os acionistas minoritários da Petrobras.

Se não houver imediatamente a realização de esforços para anular tanto a privatização da Rlam como a vigência do PPL, o governo Lula estará cometendo um estelionato eleitoral grave, visto que mudanças efetivas na gestão da Petrobras e da política de combustíveis estavam sim entre as promessas de campanha.

Por último, é importante ver se alguma medida vai ser tomada para rever o lote de jóias que passou batido pela Receita Federal em Guarulhos e que hoje estão no acervo pessoal de Jair Bolsonaro. Aliás, pensando bem, o que será mais que passou pela alfândega nas muitas viagens realizadas pelo ex-presidente que hoje estão em seu “acervo pessoal” e não nos depósitos de bens públicos que são os lugares onde esses “regalos” deveriam estar?