E agora Juscélio? Relatório técnico do Inea aponta o dedo para a Águas do Paraiba na queda do dique na XV de Novembro

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(Foto: Silvana Rust)

Um relatório preparado por técnicos do Instituto Estadual do Ambiente (Inea) que acaba de ser divulgado pelo jornalista Ralfe Reis em seu blog traz duas possibilidades para o desabamento do dique lateral do Rio Paraíba do Sul nas proximidades do Hotel Palace que ocorreu em meio a uma forte chuva no dia 19 de dezembro.

É que muita gente, inclusive eu mesmo, chegou a estrahar a pressa com que a concessionária “Águas do Paraíba” saiu para explicar que não tinha nada a ver com o peixe, apesar de uma tubulação de sua propriedade ter sido rompida pelo desabamento do dique.

Como essa concessionária é famosa por não cuidar nem dos buracos (milhares deles) que abre nas ruas de Campos dos Goytacazes, a pressa em negar algo que então não lhe havia sido sequer imputado.  Tanta pressa me pareceu, no mínimo, estranha.

O problema é que agora temos um lado oficial sugerindo que a ruptura do dique pode ter duas explicações, uma delas sendo justamente a ruptura da tubulação.  Assim, o que antes parecia ser efeito, agora passa a ser causa. Eu explico: é que o pessoal da Águas do Paraíba sugeriu que sua tubulação foi mais uma vítima infeliz da ruptura do dique que teria sido causada pelo acúmulo da água trazida pelas fortes chuvas. Agora, o relatório técnico do Inea indica que a chuva pode até jogado algum papel, mas o essencial foi a ruptura da tubulação.

Quero ainda acrescentar um detalhe que corrobora a alternativa da ruptura da tubulação como causa. É que aquela região da cidade foi usada fartamente por caminhões ultrapesados que vinham do Porto do Açu e passavam por ali para alcançar a BR-101 até que alguma caridosa resolveu proibir o uso daquela via para este fim.

De todo modo, o que se espera agora é que este relatório do Inea enseje outros estudos mais aprofundados para determinar de vez o papel da tubulação nesse pequeno desastre que causa tormento diário aos campistas.

Quem desejar ler o relatório do Inea, basta clicar [Aqui!].

Empresas aproveitam somente um terço da madeira explorada na Amazônia, aponta estudo

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Juína, MT, Brasil: Toras de madeira extraídas ilegalmente da terra indígena Manoki apreendidas pelo IBAMA. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

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A floresta amazônica é uma das principais regiões que produz madeira tropical no mundo. Para fazer o controle da exploração de madeira ilegal, órgãos ambientais utilizam ferramentas como o coeficiente de rendimento volumétrico (CRV), que é a relação entre o volume da tora de madeira processada e o volume obtido de madeira serrada. Atualmente, esse rendimento é de apenas 35% da madeira explorada. Um estudo de caso feito por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) publicado na revista científica Acta Amazonica nesta segunda-feira (6) propõe que cada indústria de base florestal tenha o seu próprio CRV com um intervalo de confiança, e que haja mais investimento em tecnologia para aumentar o rendimento da madeira explorada.

As análises foram feitas na empresa Mil Madeiras, que fica em Manaus (AM), entre 2015 e 2016, e são parte da dissertação de mestrado de Kauanna de Andrade, que foi aluna do Instituto. Durante a pesquisa de campo, Andrade ouviu relatos de que havia muita dificuldade dos órgãos ambientais em conferir o CRV. Em muitas empresas, o coeficiente não é atingido, o que gera falhas dentro do sistema DOF (Documento de Origem Florestal), que controla a origem da madeira.

Para medir esse coeficiente de fato, as toras de 19 espécies de madeira foram pintadas e o CRV estimado foi de apenas 24,6%, em média. Quando os 35% determinados pelo DOF não são atingidos, a empresa recebe créditos virtuais. Quando esses créditos se acumulam, os empresários enfrentam dificuldades para adquirir novas licenças para exploração. Em alguns casos, para atingir os 35%, é utilizada madeira ilegal sem rastreabilidade. “Quando a indústria faz seu próprio estudo, você evita acúmulo de créditos virtuais, que são alvos muito fáceis de cibercriminosos e que podem ser usados por quem faz exploração ilegal”, pontua Andrade.

Por isso, os cientistas sugerem no artigo que cada indústria tenha seu próprio CRV. “Tem que ter investimento em tecnologia da madeira para aproveitar mais o material que está sendo explorado”, afirma Andrade. “O DOF é importante, mas pode ser melhorado”, avalia. Cada espécie se comporta de uma maneira, segundo a pesquisadora, por isso, o rendimento de cada uma é diferente. O maquinário utilizado no desdobro, o tipo de produto final, a qualidade das toras, o tempo e locais de estocagem da madeira também podem influenciar o rendimento dentro da indústria.

Ao derrubar o CRV padrão e apoiar o investimento em ciência e tecnologia para melhorar o rendimento das espécies, os órgãos ambientais estimulam empresas a produzir de forma mais sustentável. “Sem manejo florestal sustentável, adeus biodiversidade”, observa Adriano José Lima, que também é autor do artigo.


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Este texto foi originalmente publicado pela Agência Bori [Aqui!].

Segundo Seymour Hersh, EUA são responsáveis pela sabotagem do oleoduto Nord Stream

O New York Times chamou isso de “mistério”, mas os Estados Unidos executaram uma operação marítima secreta que foi mantida em segredo – até agora

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 A liberação de gás proveniente de um vazamento no gasoduto Nord Stream 2 no Mar Báltico em 28 de setembro de 2022 em At Sea. ©  Guarda Costeira Sueca via Getty Images

Os oleodutos Nord Stream foram destruídos em setembro passado pelos EUA em uma operação secreta, afirmou o jornalista investigativo  e vencedor do Prêmio Pulitzer Seymour Hersh. O lendário repórter fez a revelação bombástica em um artigo postado em seu blog recém-lançado no Substack na quarta-feira.

Os explosivos foram plantados nos oleodutos em junho de 2022 por mergulhadores da Marinha dos EUA sob o disfarce do exercício BALTOPS 22 da OTAN, informou Hersh, citando uma fonte com conhecimento direto do planejamento operacional.

O jornalista observou que havia procurado a Casa Branca e a CIA para comentar, com ambas rejeitando firmemente a alegação como “totalmente falsa”.

As bombas foram detonadas três meses depois, em 26 de setembro, com um sinal remoto enviado por uma bóia de sonar. A bóia foi lançada perto dos oleodutos Nord Stream por um avião de vigilância P8 da Marinha norueguesa, de acordo com o relatório.

A operação se concretizou após meses de idas e vindas entre a Casa Branca, a CIA e os militares, com os funcionários se concentrando em como não deixar vestígios do envolvimento dos EUA no ataque. O processo de planejamento começou em dezembro de 2021, quando uma força-tarefa especial foi criada com a participação direta do conselheiro de segurança nacional dos EUA, Jake Sullivan. 

“A Marinha propôs usar um submarino recém-comissionado para atacar diretamente o oleoduto. A Força Aérea discutiu o lançamento de bombas com fusíveis retardados que poderiam ser ativados remotamente. A CIA argumentou que o que quer que fosse feito, teria que ser secreto. Todos os envolvidos entenderam o que estava em jogo”, dizia o relatório.

A fonte disse a Hersh que todos os envolvidos entenderam que a operação não era uma “coisa de criança” e era na verdade um “ato de guerra”. Ao longo de “toda essa trama”, certos funcionários instaram a Casa Branca a abandonar totalmente a ideia. “Alguns funcionários da CIA e do Departamento de Estado diziam: ‘Não faça isso. É estúpido e será um pesadelo político se for divulgado’”, segundo a fonte.

Originalmente, os explosivos deveriam ter um cronômetro de 48 horas e deveriam ser plantados até o final do BALTOPS22, informou Hersh citando a mesma fonte. A janela de dois dias, no entanto, foi considerada muito próxima do fim do exercício pela Casa Branca, que ordenou que a força-tarefa apresentasse um método sob demanda para detoná-los. Este último acabou sendo a ideia da bóia de sonar.

A administração de Joe Biden tem estado “focada” em comprometer os oleodutos Nord Stream – inicialmente por meio de sanções e, finalmente, com sabotagem direta – vendo isso como uma chave para influenciar a Europa sob sua causa em meio ao conflito iminente na Ucrânia, observou Hersh. 

“Enquanto a Europa permanecesse dependente dos gasodutos de gás natural barato, Washington temia que países como a Alemanha relutassem em fornecer à Ucrânia o dinheiro e as armas necessárias para derrotar a Rússia” , escreveu ele. 

Moscou forneceu uma visão semelhante sobre o incidente logo após as explosões, classificando-as como um “ataque terrorista” e afirmando que os EUA foram a nação que mais se beneficiou com isso, acelerando as tentativas da Europa de se livrar do gás russo.


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Este escrito originalmente em inglês foi publicado pelo canal Russia Today [Aqui!].

Poluição agrícola, farmacêutica e de saúde alimenta aumento de superbactérias, alerta ONU

Esgoto, falta de saneamento e falta de regulamentação dão origem à resistência antimicrobiana e ameaçam a saúde global, diz relatório

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Uma série de testes de suscetibilidade à resistência antimicrobiana. Fotografia: Nicolae Malancea/Getty Images/iStockphoto

Fiona Harvey, Editorade Meio Ambiente, para o “The Guardian”

A poluição da pecuária, produtos farmacêuticos e cuidados de saúde está ameaçando destruir um pilar fundamental da medicina moderna, já que derramamentos de estrume e outras contaminações em cursos d’água estão aumentando o aumento global de superbactérias, alertou a ONU.

A pecuária é uma das principais fontes de cepas de bactérias que desenvolveram resistência a todas as formas de antibióticos, devido ao uso excessivo de medicamentos na pecuária .

A poluição farmacêutica das vias navegáveis, das fábricas de medicamentos, também é um dos principais contribuintes, juntamente com a falha em fornecer saneamento e controlar o esgoto em todo o mundo e em combater os resíduos das unidades de saúde. Superbactérias resistentes podem sobreviver em esgoto não tratado.

As conclusões do novo relatório, publicado na terça-feira , mostram que a poluição e a falta de saneamento no mundo em desenvolvimento não podem mais ser consideradas pelo mundo rico como um problema distante e localizado para os pobres. Quando as superbactérias surgem, elas se espalham rapidamente e ameaçam a saúde até mesmo de pessoas em sistemas de saúde bem financiados no mundo rico.

Saneamento e cuidados de saúde deficientes e falta de regulamentação na criação de animais criam criadouros de bactérias resistentes e, como resultado, ameaçam a saúde global, o Programa Ambiental da ONU descobriu no relatório. Até 10 milhões de pessoas por ano podem morrer até 2050 como resultado da resistência antimicrobiana (AMR), de acordo com a ONU, tornando-a uma assassina tão grande quanto o câncer é hoje.

O aumento das superbactérias também terá um custo econômico, resultando na perda de cerca de US$ 3,4 trilhões por ano até o final desta década e empurrando 24 milhões de pessoas para a pobreza extrema.

Inger Andersen, diretor executivo do PNUMA, disse: “A poluição do ar, solo e cursos de água prejudica o direito humano a um ambiente limpo e saudável. Os mesmos fatores que causam a degradação ambiental estão piorando o problema da resistência antimicrobiana. Os impactos da resistência antimicrobiana podem destruir nossos sistemas de saúde e alimentação”.

Ela pediu uma ação urgente para deter a poluição. “Reduzir a poluição é um pré-requisito para mais um século de progresso em direção à fome zero e boa saúde”, disse ela, no lançamento do relatório na sexta reunião do Grupo de Líderes Globais sobre AMR em Barbados na terça-feira.

Simon Clarke, microbiologista da Universidade de Reading, que não participou do relatório, disse que muitas vezes as pessoas não conseguem reconhecer a diferença que o uso de antibióticos fez na medicina moderna. “Devido à eficácia dos antibióticos, talvez tenhamos esquecido o impacto mortal que muitas infecções tiveram no passado. O risco de não fazer nada é que todo ferimento, operação ou viagem de rotina ao hospital acarreta o risco de contrair uma infecção letal.”

No passado, as superbactérias foram associadas a infecções hospitalares, como MRSA. Mas isso está mudando, alertou Oliver Jones, professor de química da RMIT University em Melbourne, na Austrália. “Temos a tendência de pensar na resistência antibacteriana como um problema associado aos hospitais. O que este relatório mostra é que os antibióticos e outros medicamentos que acabam no meio ambiente são um fator importante na disseminação da resistência aos antibióticos e algo ao qual precisamos prestar atenção o quanto antes”, disse ele.

Governos e investidores do setor privado no mundo desenvolvido devem acordar para os riscos e fornecer os recursos para combater a poluição no mundo em desenvolvimento, o que seria de seu próprio interesse, sugeriu o relatório.

A agricultura também deve ser um foco principal, acrescentou Matthew Upton, professor de microbiologia médica na Universidade de Plymouth. “Embora a situação esteja melhorando em algumas partes do mundo, grandes quantidades de antimicrobianos são usadas para tratar e prevenir infecções em animais de produção. A criação melhorada e outros métodos de prevenção e controle de infecções, como a vacinação, devem ser usados ​​para reduzir as infecções e a necessidade de uso de antimicrobianos, o que, por sua vez, limita a poluição ambiental com antimicrobianos, resíduos antimicrobianos e micróbios resistentes. Isso é particularmente aplicável na aquicultura, que será uma importante fonte de proteína aquática até 2050”, disse ele.

Catrin Moore, professora sênior da St George’s, Universidade de Londres, traçou paralelos com o fracasso das companhias de água e do governo do Reino Unido em controlar o lançamento generalizado de esgoto em rios e praias. “Este relatório me lembra que altos níveis de AMR podem estar na minha porta e na água em que nado com dejetos humanos não tratados sendo lançados nos cursos de água locais”, disse ela. “Embora a maior carga de RAM seja encontrada em países de baixa e média renda, e as bactérias resistentes possam se espalhar facilmente, elas não respeitam as fronteiras dos países. Em última análise, se os patógenos resistentes estiverem aumentando em meu ambiente local, reduzir a carga de mortalidade e morbidade devido à RAM será uma tarefa impossível”.


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui!].

Porta-aviões brasileiro afundado pode despejar mais de 300 toneladas de substâncias tóxicas no mar

A decisão de afundar a embarcação, além de prejudicial ao meio ambiente, viola tratados internacionais e ignora parecer do Ibama. A recuperação energética de resíduos, tecnologia que transforma o lixo não reciclável em energia, é uma alternativa ambientalmente mais correta e segura para tratar grandes quantidades de materiais perigosos.

são paulo

O afundamento do casco do porta-aviões São Paulo, realizado na última sexta-feira (3), pela Marinha do Brasil, é visto com grande preocupação pela Associação Brasileira de Recuperação Energética de Resíduos (ABREN).O motivo é que a embarcação pode despejar mais de 300 toneladas de substâncias tóxicas no mar, ignorando, inclusive, parecer do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama), que apontou os riscos ambientais de tal atitude.

Em um primeiro momento, o governo da Turquia havia comprado o porta-aviões, de 265 metros de comprimento, para que fosse reciclado, mas devido a uma série de questões, em agosto de 2022 ele foi devolvido ao Brasil. No entanto, a Marinha brasileira se recusou a dar permissão para o navio atracar com segurança em uma base naval e tomou a decisão de afundar o navio no Oceano Atlântico.

A embarcação, carregada de amianto, pode conter mais de 300 toneladas de materiais carregados de Bifenilos Policlorados (PCB), um Poluente Orgânico Persistente (POP), que pode causar sérios danos à vida marinha devido à sua toxidade crônica. Com o afundamento do navio, o Brasil viola, inclusive, a Convenção sobre a Prevenção da Poluição Marinha por Despejo do Protocolo de Londres de Resíduos e Outras Matérias, de 1996, bem como a Convenção de Estocolmo sobre Poluentes Orgânicos Persistentes.

Para tratar os PCBs, assim como os POPs, de forma ampla, uma das alternativas mais recomendadas em todo o mundo é a incineração por meio de altas temperaturas, a fim de destruir os contaminantes. Esse método possibilita lidar com grandes volumes desse tipo de material contaminado, de maneira segura e eficiente.

No Brasil, inclusive, é recomendada a incineração para resíduos sólidos permeáveis com concentrações acimada de 50 partes por milhão (PPM), desde que seja devidamente licenciado, com Eficiência de Destruição e Remoção (EDR) mínima de 99,9999%.

Atualmente, uma das soluções mais sustentáveis é o tratamento térmico por meio das Usinas de Recuperação Energética de Resíduos (UREs), que podem facilmente lidar com esse tipo material e ainda gerar energia elétrica, de forma limpa e sustentável, para uma grande parcela da sociedade.

Porém, ao contrário do resto do mundo, o Brasil ainda está atrás quanto à utilização dessa metodologia para transformar o lixo não reciclável em energia. Enquanto há mais de 2,5 mil URE’s em todo o mundo, o país está em processo de construção de sua primeira usina, localizada em Barueri (SP). A planta tem previsão de entrar em operação a partir de 2025.

O levante da ciência

cientistas engajados

Por Herton Escobar, jornalista especializado em Ciência e Meio Ambiente e repórter especial do “Jornal da USP”

“Sempre que a ciência for atacada, temos que nos levantar.” Palavras do professor Ricardo Galvão, proferidas em 16 de agosto de 2019, no auditório do Conselho Universitário da USP, poucos dias após ter sido removido pelo ministro Marcos Pontes da cadeira de diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que ele ocupava legitimamente desde 2016. Motivo da exoneração: Galvão se levantou. Fez o que o próprio ministro não teve coragem (ou talvez interesse) de fazer: defendeu a ciência brasileira do negacionismo e das mentiras lançadas contra ela pelo então presidente da República, Jair Bolsonaro.

O caso é bem conhecido. Logo nos primeiros meses do governo, aconteceu o que todo mundo previa que iria acontecer: o desmatamento da Amazônia começou a crescer. Pressionado, o presidente colocou em prática a sua especialidade: negar a realidade. Em vez de demonstrar preocupação e anunciar providências, disse que os dados do Inpe eram “mentirosos” e acusou o diretor do Inpe (Galvão) de estar a serviço de ONGs internacionais, conspirando contra o seu governo. Galvão poderia ter ficado calado para se preservar no cargo, mas não. Rebateu publicamente o presidente, defendeu os dados do Inpe e desafiou Bolsonaro a comprovar suas acusações (o que nunca aconteceu). Depois, ainda enfrentou o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que em diversas ocasiões tentou, também, desacreditar publicamente o trabalho do Inpe.

Galvão perdeu o cargo, mas caiu de pé. Se o objetivo era desmoralizá-lo, aconteceu o contrário. Galvão virou um símbolo de inconformismo e resistência ao negacionismo científico e ao obscurantismo intelectual que permearam os quatro anos do governo Bolsonaro. Um governo que negou a realidade do desmatamento, negou o perigo das mudanças climáticas, negou a gravidade da pandemia (até o final), negou a segurança das vacinas, negou a necessidade das máscaras, promoveu falsos tratamentos e vendeu falsas soluções para todo tipo de problema, na área ambiental, na área social, na saúde, na educação, na segurança pública, e por aí vai. Gastamos quatro anos lutando contra inimigos imaginários — ameaça comunista, ideologia de gênero, banheiro unissex, satanismo — enquanto o vírus, a pobreza, a fome e outros problemas do mundo real eram simplesmente negados ou ignorados.

Quantas vidas humanas foram perdidas sem necessidade na pandemia em função disso? Quantos quilômetros quadrados de floresta foram desmatados impunemente? Quantos indígenas morreram de fome, sitiados pelo garimpo? Quantas armas foram parar nas mãos de pessoas violentas? Quantos jovens tiveram seus sonhos jogados na lata de lixo? Quantas universidades foram sucateadas? Quantos cérebros deixaram de ser formados ou foram embora para nunca mais voltar? Quantas pesquisas importantes deixaram de ser feitas? Quantas crianças deixaram, e ainda deixarão, de ser vacinadas por conta das mentiras e do medo que o governo semeou na mente de seus pais? Quantas decisões erradas foram tomadas, apesar do conhecimento disponível para evitá-las?

O negacionismo científico não é apenas uma questão acadêmica, de caráter teórico; é um problema real, com consequências práticas e nefastas para toda a sociedade, que precisa ser combatido com urgência e com inteligência.

O saldo desses últimos quatro anos foi desastroso para a ciência brasileira: orçamento esmagado, cientistas perseguidos, universidades e institutos de pesquisa abandonados, cérebros em fuga. Mas poderia ter sido muito pior, se Galvão e tantos outras lideranças e organizações não tivessem se levantado contra o desmonte. Entre elas, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), a Academia Brasileira de Ciência (ABC), a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), a Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG) e várias outras entidades que, individualmente ou coletivamente, atuaram para reverter, amenizar, ou ao menos retardar, os impactos dos muitos ataques à ciência e às universidades públicas proferidos nesse período.

Em 17 de janeiro deste ano, Galvão foi apresentado como o novo presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), um dos cargos mais importantes e prestigiados da ciência brasileira. Vai trabalhar de mãos dadas com a nova presidente da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Mercedes Bustamante, professora da Universidade de Brasília, que também atuou fortemente em defesa da ciência e da educação nos últimos quatro anos. Duas indicações qualificadas, do ponto de vista técnico, e carregadas de simbologia.

“Hoje é o dia que se faz justiça à ciência brasileira, o dia em que viramos a página do negacionismo, que não pode ser esquecido, para que não volte a acontecer”, disse a ministra de Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI), Luciana Santos.

Galvão, que é professor aposentado do Instituto de Física da Universidade de São Paulo, se emocionou várias vezes durante a cerimônia, especialmente ao lembrar do seu discurso de 2019 na USP. “Prezada ministra, de fato o povo brasileiro não se calou”, disse. “Essa cerimônia, e a indicação da professora Mercedes Bustamante para a Capes, são a comprovação de que nossa ciência sobreviveu ao cataclisma político promovido por um governo negacionista, que empreendeu um verdadeiro desmonte das políticas públicas em diversas áreas.” E concluiu: “No dia de hoje viramos essa página triste de nossa história, com a convicção de que a ciência voltará a promover grandes avanços para a nossa sociedade”.

Se essa página foi virada, de fato, só o tempo dirá. O negacionismo perdeu a eleição, mas não desapareceu. Assim como o vírus da covid, é um inimigo que chegou para ficar, altamente infeccioso e resiliente, especialmente quando transmitido via WhatsApp, acoplado ao vírus da desinformação.

Desenvolver uma vacina eficaz contra essa doença é um desafio imenso, prioritário e de caráter multidisciplinar, que exige a participação de toda a sociedade — cientistas, professores, médicos, jornalistas, comunicadores, advogados, empresários, poder público. É impossível erradicar o vírus — sempre haverá pessoas dispostas a inventar e disseminar mentiras —, mas, com boa informação, boa educação e um mínimo de bom senso, é possível conter a sua disseminação. Diante desse quadro, só há uma opção daqui para frente: permanecer de pé.

(As opiniões expressas pelos articulistas do Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)


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Este texto foi inicialmente publicado pelo “Jornal da USP” [Aqui!].

Conflitos no campo: Afinal, de quem é a terra?

Dados parciais já indicam aumento no número de assassinato de lideranças

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Não é de hoje que lideranças são ameaçadas por conta dos conflitos existentes no campo. Muitas foram até mesmo assassinadas por não se subordinarem ao “deus” dinheiro.

No Brasil, essa problemática se estende desde o período colonial com o início da distribuição de terras no país. Depois de mais de quinhentos anos tais conflitos têm se intensificado e preocupado órgãos e instituições que acompanham a realidade de lideranças e comunidades. Os que detém a maior quantidade são chamados de latifundiários que fazem uso da terra para o agronegócio e a pecuária, tomando por vezes a força terras pertencentes a indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais e ribeirinhos.

Tal realidade está presente em todas as regiões do país. Contudo, algumas pedem uma atenção redobrada. Na região amazônica, por exemplo, três estados vêm apresentando números assustadores.

Segundo a Comissão Pastoral da Terra (CPT) o estado do Pará apresenta índices alarmantes de violência no campo. Já no Maranhão a violência é direcionada aos povos indígenas e comunidades tradicionais e, em Rondônia, o agronegócio tem sido o motivo de muitos conflitos.

Andréia Silvério, coordenadora nacional da CPT, reforça a importância da comissão e de que forma é feito o acompanhamento dos casos e violações. “É importante a gente pontuar que a CPT foi criada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil ainda na década de setenta justamente em razão do acirramento dos conflitos no campo. […] E ao longo dos anos também a gente teve uma ampliação do trabalho da CPT não só acompanhar casos de conflitos que são decorrentes de processo de luta pela terra como é o caso dos posseiros, dos trabalhadores rurais sem terras, mas a CPT também tem um acompanhamento muito presente, muito marcante junto aos povos e comunidades tradicionais. […]Essa também é uma característica muito forte do trabalho da CPT, sobretudo na Amazônia,” pontuou Andreia Silvério.

Quais os principais motivos desses conflitos? A quem pertence essa terra?  

Muitos são os fatores que direcionam para essa situação. Primeiro ponto: a ausência da justa distribuição de terras no Brasil, agora então, dá-se preferência ao agronegócio. Segundo: impunidade, pois muitos casos de violência direta, ameaças e assassinatos no campo apresentam uma falha no sistema de justiça no momento da investigação e punição. Em algumas situações os inquéritos nem sequer chegam a ser concluídos o que dificulta ainda mais a solução da problemática, abrindo assim, brecha para o surgimento de novos casos.

No Maranhão, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) também tem feito o acompanhamento de violações contra os povos indígenas.  Hemerson Pereira destaca que as iniciativas são feitas in loco, com escuta, assessoria jurídica, intercâmbio e articulação entre os povos indígenas.

“Estamos na luta nos territórios, presente com eles nas aldeias, vivenciando com eles os problemas, discutindo, fazendo formação política, contribuindo com intercâmbios para fortalecer a união e articulação entre os povos indígenas do estado para encontrar alternativas e fazer luta diante desses conflitos. [..] Nosso objetivo é contribuir na formação política dos povos, com nossa assessoria jurídica também e na busca de reivindicação constitucionais dos povos indígenas, afirmou”

Garimpo ilegal, mineração, exploração de madeira, invasão por parte de grileiros, fazendeiros, empresas do agronegócio, agências do próprio estado e violação dos direitos constitucionais dos povos indígenas e das políticas públicas são as principais causas desses conflitos.

Hemerson pontuou ainda que todos os territórios indígenas do Maranhão estão em constante processo de conflitos, sejam eles demarcados ou não.

“Os territórios estão em conflito sofrendo de causas comuns: De invasão do agronegócio, de ameaça de pistoleiros, por parte de atropelamentos, por parte de invasão de garimpeiros, fazendeiros então são conflitos comuns que perpassam todos os territórios indígenas do estado”, reforçou Hemerson.

Vidas ameaçadas!

Sair e não saber se vai chegar viva, temor em ver a família ameaçada, intimidações, não poder nem se quer decidir sobre a própria vida são apenas algumas das objeções de quem vive em constante ameaça nos territórios amazônicos.

Em entrevista a nossa reportagem, Osvalinda Pereira, liderança do Projeto de Assentamento Areia, no município de Trairão (PA), relatou sobre como é viver ameaçada 24h por dia.

“Viver num lugar, um território com tantas ameaças não é fácil. Eu digo que não é fácil, não é fácil pra ninguém. É você não ter vontade própria. A gente tem que fazer o que os outros mandam, o que a equipe e a polícia manda fazer. A pressão é diariamente. A gente não dorme de noite, e sempre na preocupação se a gente vai sair e vai acontecer alguma coisa. [..] A pior parte da vida do ameaçado é conviver com ameaçador e sem poder fazer nada. É como se tivesse numa colmeia e viesse o predador. Não tem pra onde correr. Porque só tem uma saída. É assim que a gente se sente sem saída, e sem resposta do governo”, concluiu Osvalinda.

Muitos são os desafios das comunidades e lideranças diante de atentados, ameaças e intimidações nas mais diversas regiões, em especial, na Amazônia.

Nos últimos quatro anos o Brasil passou por uma grande reviravolta constitucional, social e política. Tal mudança agravou ainda mais os embates já existentes. A parte ambiental foi uma das mais afetadas.

Que ações poderiam diminuir esses índices de ameaças, bem como, assassinatos no campo?

Andréia Silvério afirmou que a garantia de direito das comunidades seria um passo fundamental nesse processo. “A garantia de direitos não só para permanência nesses territórios que já foram estados, mas também avançar para conquista de novas áreas, que sejam destinadas para a reforma agrária, comunidades tradicionais, povos originários e também que seja assegurada a inversão dessa lógica produtiva que é única e simplesmente no incentivo à produção de commodities, mas que o Brasil saiba também priorizar, incentivar a produção de alimentos saudáveis, livres de agrotóxicos, né? Especialmente destinados para aquelas famílias que estão em maior vulnerabilidade. […] Necessidade de monitoramento com relação a atuação de outros poderes da república. [..]Uma atuação do sistema de justiça para garantir uma investigação que seja isenta, imparcial e também para garantir que haja julgamento de todas as pessoas que estão envolvidas nesses casos de crimes no campo. E aí a gente está falando de assassinato mas não só de assassinatos, né? De toda e qualquer forma de violência e de violação de direitos humanos que são praticadas contra esses sujeitos sociais, finalizou Andréia.

Em outubro passado, o relatório parcial da CPT já indicava um aumento nos casos de violência no campo, sobretudo, no número de assassinatos de lideranças. Já em abril deste ano deve ser lançado pela Comissão Pastoral da Terra o Caderno de Conflitos no Campo referente ao período de 2022. Vale ressaltar, que os dados publicados estão em constante atualização.

Frear o quanto antes esses conflitos no campo também será um dos grandes desafios para o novo governo federal, principalmente, nos estados da região amazônica.

Dia Nacional de Luta dos Povos Indígenas: Dificuldades na assistência e desnutrição afetam territórios há anos

Cientista da UFSCar analisa as causas da situação como sendo o antagonismo entre modos de vida de grupos sociais distintos e a complexidade política e socioambiental do País

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(Imagem: Daiany B. Zago)

Hoje, dia 7 de fevereiro, é celebrado o Dia Nacional de Luta dos Povos Indígenas. Embora a data tenha sido estabelecida há 15 anos, em 2008, pela Lei nº 11.696, o Brasil enfrenta situações de dificuldades na assistência e desnutrição desta população em pleno 2023 – e não só na terra indígena Yanomami.

Mônica da Silva Nunes, docente no Departamento de Medicina (DMed) da UFSCar, conta que os problemas enfrentados pelos povos indígenas afetam os territórios há muito tempo. Ela atuou como médica extensionista em áreas indígenas, rurais e ribeirinhas na Amazônia brasileira.

“Meu primeiro contato com a Amazônia foi em 2003, no escopo da minha pesquisa de doutorado, vencedora no Prêmio Capes de Tese. Analisei como ações antrópicas nas florestas geraram proliferação de mosquitos e, por sua vez, crescimento dos casos de malária. A partir de então, passei a estudar como as mudanças ambientais podem impactar na saúde e no bem-estar das populações”, situa a pesquisadora.

Em 2009, começaram suas vivências diretamente com a população indígena no Acre e Amazonas. Além de prestar atendimento médico, ela participou de estudos relacionados à nutrição de pessoas de várias etnias, com medidas de peso, altura e testes rápidos de anemia. Já naquele contexto, da Silva Nunes detectou precariedade na assistência em Saúde para essas comunidades, além de desnutrição, principalmente de mulheres e crianças.

“As aldeias estão situadas ao longo dos rios, e cada uma tem a sua particularidade. Muitas são de difícil acesso; é preciso se locomover de barco e o percurso pode durar mais de dois dias. Eram cinco dias viajando para um dia de atendimento, por isso existia, naquela época, uma dificuldade de encontrar profissionais médicos no serviço de assistência indígena”, relata.

Além das limitações de deslocamento, ela também relembra uma situação que se escancarou aos seus olhos durante uma pesquisa de campo.

“Em contato com uma família indígena, estávamos nos transportando de barco e havia duas crianças bem quietas – não interagiam e nem brincavam. Imaginei que fosse um comportamento natural, talvez devido à língua, pois não falavam Português. Após o almoço, preparado ali mesmo e que foi compartilhado pela equipe com os indígenas, a mudança de atitude foi nítida: elas passaram a brincar, sorrir e se comunicar. Era fome”, relata, emocionada, a pesquisadora.

Em suas análises ao longo dos últimos 14 anos, ela detecta uma relação direta entre a destruição das florestas e a fome. “A realidade dos povos indígenas brasileiros é muito distinta de outras sociedades. Em várias aldeias da Amazônia, eles vivem da caça e da pesca, e é preciso respeitar a sua cultura. Nas regiões de matas preservadas, víamos indígenas bem nutridos e com abundância de alimentos. Em áreas tomadas por mudanças ambientais, sem qualquer responsabilidade, a realidade é outra. Os rios, ao terem contato com o mercúrio do garimpo, se contaminam, causando diminuição e morte de peixes. As florestas, ao serem tomadas por áreas de pastagem, têm perda da biodiversidade e diminuição de alimentos, antes encontrados abundantemente”, exemplifica.

“O antagonismo entre modos de vida de grupos sociais distintos, junto à complexidade da situação política e socioambiental do País, gerou o cenário atual dessa população.”

Papel dos cientistas e das universidades

Para da Silva Nunes, uma mudança de cenário é complexa e envolve diversos atores da sociedade. “Cada etnia, em cada região geográfica, tem a sua especificidade e que requer intervenções diferenciadas, ao invés de uma solução única.”

No que tange às universidades, é importante uma atuação proativa em questões humanitárias, que envolvem Educação, Saúde e Ambiente.

Ações como o Vestibular Indígena da UFSCar, unificado em 2023 com a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), são um exemplo de inclusão. Na UFSCar, há hoje mais de 400 estudantes de 51 diferentes povos indígenas matriculados nos cursos de graduação. Frequentemente, as pró-reitorias de Graduação (ProGrad) e de Assuntos Comunitários e Estudantis (ProACE) e a Secretaria Geral de Ações Afirmativas, Diversidade e Equidade (SAADE), em parceria com o Centro de Culturas Indígenas (CCI), realizam atividades de acolhimento a esses estudantes. Aliadas ao ensino, ações de pesquisa e extensão também são essenciais.

A docente segue com estudos na área, com estudante de graduação indígena recém-contemplado com bolsa do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Cientifica (Pibic). O projeto analisará justamente a desnutrição dos povos indígenas. Está previsto, para este ano de 2023, também projeto de extensão com o intuito de trazer, para diálogo, questões dos povos indígenas.

Ela também dá continuidade aos estudos sobre a relação entre ambiente e doenças na Amazônia. Em 2 de fevereiro, cientistas do Centro de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (SinBiose), vinculado ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), do qual da Silva Nunes faz parte, divulgou a criação da base de dados Trajetórias. Ela reúne indicadores ambientais, socioeconômicos e epidemiológicos referentes ao período de 2000 e 2017 para todos os 772 municípios de nove estados da região amazonense, conforme publicado em artigo na Nature Scientific Data.

“Nós, cientistas, temos como papel trazer o conhecimento às pessoas e ampliar as suas visões, além de produzir dados e análises que possam auxiliar na formulação de políticas públicas. Só assim será possível encontrar um equilíbrio entre grupos sociais tão antagônicos, para que esses grupos possam coexistir sem conflitos”, finaliza a professora.

10 anos após a morte de Cícero Guedes, a Quiprocó Filmes anuncia novo documentário sobre a vida do líder do MST brutalmente assassinado em Campos

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No ano em que se completam 10 anos do emblemático assassinato do agricultor rural e ex-líder do MST em Campos, Cícero Guedes, a Quiprocó Filmes anuncia a produção, em parceria com o MST-Rio, do documentário “Brava Gente”, com direção e roteiro de Fernando Sousa e Gabriel Barbosa, que abordará por meio de depoimentos e imagens de arquivo, a luta do trabalhador rural pela conquista da terra, pela defesa da educação e da universidade pública, além do seu legado e o pioneirismo no desenvolvimento de técnicas agroecológicas de produção no Norte Fluminense. 

Cícero Guedes foi brutalmente executado com tiros na cabeça e nas costas, numa estrada rural perto do Assentamento Oziel Alves, em Campos dos Goytacazes. Em 2019, em um julgamento relâmpago, o principal suspeito por ser o mandante do crime foi inocentado por um júri composto em sua maioria por estudantes da Faculdade de Direito de Campos por 4 a 2 votos. A morte completará dez anos no dia 26 de janeiro de 2023.

Fernando Sousa, produtor executivo do projeto, foi amigo pessoal do líder agrário e atuou em diferentes frentes de luta com Cícero Guedes, entre 2005 e 2010. Ele o encontrou pela última vez em dezembro de 2012, pouco antes da execução. 

“Cícero Guedes tinha uma enorme capacidade de articulação e mobilização política. Foi uma das principais lideranças do MST no Estado do Rio de Janeiro, influenciou e foi fundamental na formação de estudantes em nível de graduação e pós graduação da UENF e UFF, em Campos dos Goytacazes. Particularmente, destacaria a sua contribuição com o movimento estudantil na luta pela universidade pública e pela construção do Restaurante Universitário, o Bandejão da UENF, que hoje leva seu nome”, diz o cineasta.

Já a deputada estadual Marina do MST, eleita recentemente pelo PT-RJ e dirigente nacional do MST, diz que um documentário sobre o líder é uma forma de manter vivo o seu legado. “Nesse ano, se completam 10 anos do assassinato do companheiro Cícero Guedes. Um documentário que  resgate e registre o legado de Cícero é muito importante,  pois é a maior referência para a juventude e conjunto da  militância, de lutas, mística e  compromisso com o projeto do MST e da Reforma Agrária Popular”, afirma.

A Quiprocó Filmes já produziu documentários premiados como “Entroncamentos”, sobre a ascensão e queda das ferrovias do Sul-Fluminense; “Nosso Sagrado” e “Respeita Nosso Sagrado”, sobre o Acervo de 523 peças sagradas da umbanda e do candomblé que ficou mais de cem anos em poder da Polícia do Rio de Janeiro; e “Nossos Mortos Têm Voz”, com mães e familiares vítimas da violência do Estado na Baixada Fluminense.

Mais sobre Cícero Guedes

Cícero Guedes foi pioneiro na criação de feiras de distribuição e venda dos produtos da reforma agrária, à exemplo da Feira Estadual da Reforma Agrária Cícero Guedes, batizada com o nome do agricultor após o seu assassinato. Natural do interior de Alagoas, ainda criança, Cícero foi submetido ao trabalho análogo à escravidão em monoculturas de cana de açucar. À exemplo de outros milhares de trabalhadores negros e pobres da região, resolveu migrar para o Sudeste e tentar a vida com esposa e filhos. Em Campos dos Goytacazes, voltaria a trabalhar no plantio e colheita de cana no começo da década de 90, em uma maldita profecia que parecia teimar em lhe perseguir. 

O trabalhador rural que chegou ao Rio de Janeiro sem alfabetização formal, acabou tendo contato com a ocupação da reforma agrária Zumbi dos Palmares, nas terras da falida Usina São João, cuja desapropriação e emissão de posse aconteceu em 1997. A trajetória de vida e a leitura de mundo adquirida na luta pela terra forjaram Cícero Guedes como uma das principais lideranças políticas do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra no Norte Fluminense. Cícero também trabalhou como operário nas obras da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, onde mais tarde contribuiria de forma pioneira no desenvolvimento de pesquisas e técnicas agroecológicas. Sua sensibilidade no manejo da terra, tornaria seu sítio uma referência nacional na produção agroecológica, no uso de técnicas sustentáveis de cultivo sem o uso de agrotóxicos. 

Mesmo com a conquista do lote conhecido como Brava Gente, Cícero Guedes continuou contribuindo de forma efetiva na luta pela terra na região, fundou o Comitê Popular de Combate e Erradicação do Trabalho Escravo, engrossou as fileiras do movimento estudantil na defesa da universidade pública e esteve na luta e conquista do restaurante universitário da UENF, batizado com seu nome após a sua execução, no dia 26 de janeiro de 2013.

Sufocado por agrotóxicos perigosos, Brasil tem de avançar na transição agroecológica

País que já era líder no consumo desses produtos recebeu de Bolsonaro a liberação de mais 2.030, 34% proibidos na Europa. Para pequenos agricultores, agroecologia é a salvação, mas requer investimentos

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A maioria dos 2030 “novos” agrotóxicos são destinados ao agronegócio exportador, que lucra e deixa o passivo ambiental, doenças e mortes

Por Cida de Oliveira, da RBA

São Paulo – Líder no consumo de agrotóxicos, o Brasil tem como um dos legados de Jair Bolsonaro (PL) a liberação de 2.030 “novos” produtos. Segundo os ruralistas, que têm interesse econômico nesse processo e que por isso o apoia, trata-se de insumos mais modernos. E que a agricultura brasileira depende deles para ser ainda mais produtiva e dar conta e “alimentar o mundo”.

No entanto, esses agrotóxicos não têm nada de novo nem de moderno. São moléculas antigas, muitas delas lançadas há mais de 40 anos, e que nos países da União Europeia nem sequer chegaram a ser liberados. E os que foram, acabaram banidos depois, justamente pela alta toxicidade à saúde e ao meio ambiente.

São substâncias capazes de causar diversos tipos de câncer, malformações fetais, alterações no sistema endocrinológico que, por sua vez, causam outros problemas sérios no organismo. Há ainda mudanças até no sistema reprodutivo, adiantando a fase reprodutiva, segundo estudos. Sem contar as intoxicações agudas e crônicas, que afetam sobretudo os trabalhadores rurais. E populações expostas às nuvens de veneno das pulverizações aéreas que se espalham por quilômetros a partir da aplicação.

Observatório dos agrotóxicos

O professor e pesquisador Marcos Pedlowski, da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), acompanha essas liberações desde 2019, no início do governo Bolsonaro. Até o final de 2022, sempre sob a batuta da então ministra da Agricultura e Pecuária, Tereza Cristina, a “musa do veneno”. Seu atento trabalho de monitoramento resultou no Observatório dos Agrotóxicos. Clique aqui para acessar a base completa.

Pedlowski compilou dados sobre as formulações, fabricantes, aplicação e posição quanto à liberação em outros países. Além disso, o observatório organiza os atos promulgados pela pasta de Tereza Cristina. Tudo para informar a população e pesquisadores da economia política dos agrotóxicos em nível global e no Brasil. E principalmente, de seus efeitos sobre a saúde humana e o meio ambiente.

Segundo o observatório, 34% desse total de produtos liberados são proibidos na União Europeia. Ou seja, 705 não têm registro ou foram banidos. Há ainda 58 “novos” agrotóxicos compostos por um mix de substâncias, em que parte são autorizadas pelos europeus e parte não, o que elevaria esse percentual.

Classificação da toxicidade é obscura no Brasil

Na avaliação de Pedlowski, esse quesito é de suma importância. E não só porque tal fato se tornaria um problema para a agricultura brasileira. É um tiro no pé dos próprios ruralistas, já que certamente será um entrave futuro para muitas exportações para esses e outros países, já que em sua ampla maioria, os mais de 2 mil venenos aprovados são destinados ao latifúndio exportador de soja e milho, entre outras commodities. Mas há a questão do perigo à saúde e meio ambiente. E isso está camuflado segundo os dados oficiais nos quais o pesquisador se baseou.

Para entender melhor: pela tabela do observatório, a partir de dados oficiais, 141 seriam classificados como “extremamente tóxicos” e 93 como “altamente tóxico”. Na classe “moderadamente tóxico” estariam 279. Entre os “pouco tóxico”, 282. E entre os “improváveis de causar danos”, 554. O restante, segundo o observatórios, seriam aqueles sem classificação ou com o chamado perfil equivalente ao produto de referência.

“Embora a União Europeia também sofra pressões da indústria, a aprovação dos produtos por lá ainda é um parâmetro para analisar as liberações de Bolsonaro, das quais mais de 30% são proibidos lá. Seria um critério mais correto para ter uma ideia da toxicidade do que avaliar pela classificação que a Anvisa passou a adotar. A toxicidade mesmo deixou de ser lida por esse padrão da legislação brasileira, adotada de forma errada em relação ao padrão que dizem que estão adotando”, diz Marcos Pedlowski à RBA, referindo-se à medida do governo brasileiro que, na lei, “rebaixou” a periculosidade dos venenos agrícolas. Ou seja, a “passada de pano” para a lucrativa indústria do setor.

Critérios para periculosidade foram afrouxados

Segundo o professor da Uenf, após a flexibilização da legislação, a classificação ficou ainda mais obscura, o que explicaria a grande quantidade de produtos aprovados na categoria “não classificados”. “Nela eles incluem os produtos que consideram pouco tóxico. Não quer dizer que não tenha sido analisado. Além disso há informações incompletas, como “equivalente ao produto técnico de referência”. Mas qual é esse produto? Não aparece. Qual é a toxicidade do produto de referencia? O que eles fizeram foi uma esperteza contra a população, para não sabermos afinal qual a toxicidade desses produtos técnicos”, critica.

Enquanto o Brasil afrouxa os níveis de exigência para os critérios de toxicidade de um produto usado na produção de alimentos, e capaz de contaminar rios e aquíferos, a União Europeia vai no sentido oposto. Conforme Pedlowski, os órgãos reguladores europeus estão constantemente ajustando padrões de segurança e observando datas limites de permissão de determinados agrotóxicos. Isso significa que alguns habilitados para o uso poderão ser proibidos.

“O agronegócio exportador fica com os lucros e benesses. Agrotóxicos são isentos de agrotóxicos. Na exportação, há incentivos, sem pagamento de impostos devido à Lei Kandir. Para a população fica a contaminação da comida, da água, do meio ambiente, do solo, a intoxicação pela exposição e doenças crônicas”, observa.

Embora haja entre as liberações 292 produtos para controle biológico, ele avalia como insuficiente. “Não modifica o modelo. Para resolver a grave situação é preciso implementar o modelo agroecológico, com reforma agrária. Sem isso é só mudar um pouco a ‘cara da química’ usada no país.”

Mudança requer soluções além das palavras de ordem

A transição do atual modelo de produção agrícola brasileiro para a agroecologia, aliás, é uma das estratégias para desenvenenar o Brasil defendidas pelo Movimento do Pequenos Agricultores (MPA). Para a agricultura familiar, que verdadeiramente coloca a comida no prato do brasileiro, é preciso acabar com a monocultura em latifúndio banhada em agrotóxicos. Mas isso depende de mudanças além de discursos e palavras de ordem.

O coordenador do MPA Frei Sérgio Görgen diz que são três as estratégias básicas: promover políticas para a transição agroecológica, aprovar e implementar legislação que controle o uso de agrotóxicos em todo o país e estimular os bioinsumos. “O agronegócio enfrenta problemas sérios com os agrotóxicos. Há resistência dos insetos, das plantas, enfim, de todos os alvos desses produtos. As fábricas não conseguem novas moléculas. Por isso estão trazendo de volta muitos produtos, para usar em outras culturas, com outras finalidades. É o caso do 2-4, D, um dos mais antigos”, disse Frei Sérgio, referindo-se ao produto que entrava na composição de uma arma química chamada “agente laranja”, usada na Guerra do Vietnã. E que hoje tem indicação para plantações de arroz, cana de açúcar, milho, café e pastagens entre outras.

Ingrediente de arma química do Vietnã agora em lavouras

Esse “agente laranja” constitui um veneno considerado o pior existente, a dioxina TCDD. De grande atividade biológica, é reconhecidamente cancerígeno para humanos conforme a Agência Internacional de Pesquisas do Câncer (IARC, da sigla em inglês International Agency for Research on Cancer) e pelo Departamento de Saúde dos Estados Unidos.

Além disso, é teratogênico, capaz de produzir alterações embrionárias e anomalias no desenvolvimento fetal. E também mutagênico, podendo danificar o DNA das células, o que não é reparado no momento da replicação celular e é transmitido para as próximas gerações. Para complicar, é de difícil degradação ambiental. Pode persistir no ambiente por mais de 100 anos.

Conforme a liderança, por princípio a agricultura familiar é contrária ao uso dos agroquímicos. Mas se vê no dilema de, em muitas situações, necessitar de algum insumo agrícola. E não ter à disposição alternativas biológicas.

Embrapa e universidades têm de criar alternativas limpas

“Então como pedir para o pequeno produtor não usar nada se ainda não temos uma alternativa biológica? A Embrapa e as universidades têm de intensificar estudos para avançar nessa tecnologia e ampliar o acesso a ela. Já existem alguns, mas não em escala suficiente para todos. Só a denúncia não resolve. É preciso apresentar alternativas de soluções”, afirma Frei Sérgio.

Segundo ele, uma delas está no Projeto de Lei (PL) 3.668/2021, apresentado pelo senador Jaques Wagner (PT-BA). Estabelece regras para a produção, o registro, comercialização, uso, destino final dos resíduos e embalagens, o registro, inspeção e fiscalização, a pesquisa e experimentação, e incentivos à produção de bioinsumos para a agricultura.

Estão na categoria dos bioinsumos todo produto, processo ou tecnologia de origem vegetal, animal ou microbiana destinados ao uso na produção, no armazenamento e no beneficiamento de produtos agropecuários, nos sistemas de produção agrícolas, pecuários, aquícolas e florestais, que interfiram positivamente no crescimento, no desenvolvimento e no mecanismo de resposta de animais, plantas, microrganismos e de substâncias derivadas.

Veneno chega na frente

Entre eles, promotores de crescimento de plantas, biofertilizantes, produtos para nutrição vegetal e animal, extratos vegetais, defensivos produzidos a partir de microrganismos benéficos para o controle de pragas, parasitas e doenças, entre outros.

O coordenador do MPA critica o fato de que medidas em prol da redução do uso de agrotóxicos se arrastem. É o caso da Política Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pnara), cujo PL 6.670/2016 está pronto para votação desde 2018. E que outras, em sentido oposto, caminhem em passos mais largos, como o Pacote do Veneno. Aprovado no final do ano em comissão especial no Senado, está pronto para votação em plenário.

Para ele, as forças do agronegócio no Ministério da Agricultura deverão pressionar pela aprovação, embora o próprio presidente Luiz Inácio Lula a Silva seja contrário. E haverá pressão do Congresso, ainda mais conservador que antes. “Não dá para aceitar que sejam aprovados agrotóxicos sem a tríplice avaliação. A aprovação não é uma simples questão agronômica, para que somente o Ministério da Agricultura decida sozinha. Com tantas implicações, a Anvisa e o Ibama não podem ficar de fora, como pretende o texto do Pacote do Veneno.”


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Este texto foi inicialmente publicado pela Rede Brasil Atual [Aqui!].