A ponte sobre o Rio Ururaí é uma grave ameaça ao futuro do Assentamento Antônio de Farias

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Por Hermes Cipriano Oliveira

Há poucos dias o Prefeito de Campos dos Goytacazes, Wladimir Garotinho, anunciou a construção de uma ponte sobre o rio Ururaí “ligando os dois lados da Lagoa de Cima”. O que o prefeito não comentou e, portanto, se pressupõe que ele não está levando em consideração, é que existem três comunidades à jusante da ponte que serão diretamente afetadas pela sua construção. A ponte servirá de ligação da Br 101, a partir do Km 84 – na comunidade de Ibitioca, Décimo Distrito de Campos, passando pela comunidade de Pernambuca e pelo Projeto de Assentamento (PA) Antônio de Farias – até à RJ 158, que faz a ligação entre Campos e São Fidelis. A construção dessa ponte irá intensificar o tráfego de veículos nas vias que cortam essas respectivas comunidades. No entanto, o Prefeito não discutiu o assunto com os moradores das mesmas, não anunciou nenhuma obra de melhoramento das vias que serão diretamente impactadas ou consulta pública, ou estudo de impactos sociais e ambientais.

Os moradores do Antônio de Farias realizaram uma reunião no último dia 6 de novembro e querem participar da discussão sobre essa possível obra, através de uma Audiência Pública, e sugerem que todos os possíveis afetados sejam convidados, para discutir os prós e os contras, os benefícios e os malefícios dessa ponte.

Malefícios potenciais: pode se transformar em uma via de acesso sem policiamento para quem não quer passar pela fiscalização da BR, aumentar o fluxo de carros nas respectivas comunidades, provocando acidentes com pessoas e animais de criação, onde existe uma cultura de baixo fluxo de automóveis e de pessoas conhecidas.

Benefícios potenciais: via alternativa para chegar ao lado sul da Lagoa de Cima

Não vemos outros benefícios e isso discutimos na nossa reunião da comunidade a ser afetada, onde discutimos também a ausência do Poder Público Municipal no cumprimento dos compromissos com o do projeto de assentamento. O PA Antônio de Farias é resultado da ocupação realizada pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra no dia 02/12/2000.

Após a ocupação e dadas as condições irregulares da fazenda Sta. Rita do Pau Funcho, que estava com impostos atrasados, em condições de improdutividade, a mesma foi desapropriada pelo INCRA-Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, e foi realizado um convênio/parceria entre os entes federativos, onde cada um ficou com algumas atribuições: a União, através do INCRA, ficou com a atribuição de disponibilizar o crédito de implantação do PA, o crédito de instalação, documentação e fiscalização; o Estado, através do ITERJ-Instituto de Terras e Cartografia do Estado do Rio de Janeiro, ficou com a atribuição de construção das casas, instalação de um sistema de irrigação e prestação de assistência técnica e incentivo à produção; e para o município ficou a atribuição de construção e manutenção das estradas internas, construção e funcionamento do Posto de Saúde e da Escola no interior do assentamento, em uma área que está reservada para isso.

Passados quase 22 anos da criação do PA Antônio de Farias, o assentamento e a região vivem de demandas não cumpridas por parte principalmente do Poder Público Municipal. Na via de acesso ao assentamento, apesar de ser asfaltada, falta manutenção e tem esgoto correndo a céu aberto; a estrada interna do assentamento carece de manutenção, e a construção da Escola é um tabu por parte do município, apesar de na região não ter escola com capacidade de atender à demanda local e de o assentamento ter disponibilizada uma área específica para este fim.

*Hermes Cipriano é  Agricultor e Geógrafo, sendo assentado no PA Antônio de Farias  

Rede de influenciadores de extrema direita usa o YouTube para tachar MST de terrorista

Levantamento exclusivo do projeto Mentira Tem Preço revela como influenciadores bolsonaristas e o presidente usaram plataformas digitais para atrelar terrorismo e violência ao Movimento dos Sem Terra (MST) se o Partido dos Trabalhadores voltasse à presidência.

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Por Eduardo Geraque/InfoAmazonia

Em seu primeiro discurso depois do resultado das eleições, o presidente Jair Bolsonaro (PL), que saiu derrotado com 49% dos votos, disse, a respeito dos manifestantes golpistas que bloquearam rodovias em todo o país: “os nossos métodos não podem ser os da esquerda, que sempre prejudicaram a população, como invasão de propriedade, destruição de patrimônio e cerceamento do direito de ir e vir.”

Durante toda a campanha eleitoral, a invasão de propriedade serviu de ferramenta para políticos e influenciadores bolsonaristas fazerem do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) um de seus principais alvos. O próprio Bolsonaro, em uma coletiva de 18 de julho, rotulou o movimento como “um grupo terrorista que há até pouco tempo era bastante ativo no Brasil”.

 

Pastor Sandro Rocha repercute fala de liderança do MST em vídeo. “Você acha que o MST deve voltar a agir no país? Invadindo fazendas?”, disse. Crédito: Reprodução do YouTube

Os influenciadores da extrema-direita usaram o YouTube como plataforma para reverberar esse discurso. O colunista Paulo Polzonoff, dcanal da Gazeta do Povo, com mais de 800 mil inscritos, chamou o MST de “patrimônio petista” em vídeo de 23 de setembro, que teve 267 mil visualizações.

 O tom subiu especialmente depois da declaração de João Pedro Stédile, dirigente do movimento, de que “a vitória do Lula, que se avizinha, vai ter como uma consequência natural, psicossocial nas massas, um reânimo para nós retomarmos as grandes mobilizações de massas”. O pastor Sandro Rocha, com mais de 264 mil inscritos no canal, disse, sem apresentar provas: “Você acha que o MST deve voltar a agir no país? Invadindo fazendas? Tomando terras de agricultores, matando gado, roubando tratores, que é o que o MST sempre faz?”. O vídeo teve mais de 102 mil visualizações.

Para justificar a suposta violência do movimento, os influenciadores usam exemplos como a invasão da fazenda da família do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (o que realmente aconteceu) e a destruição de um laboratório de vacinas (o que não ocorreu, e sim a de um laboratório de pesquisa de mudas de eucalipto geneticamente modificadas). Em entrevista ao El País em 2018, Stédile afirmou que tanto a invasão de laboratórios privados quanto a da fazenda do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, no passado, podem ser considerados erros cometidos pelo movimento.

A reportagem do projeto Mentira Tem Preço questionou o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) sobre a quantidade de imóveis rurais invadidos pelo MST. Esse número não existe. O que é possível afirmar é que o número de invasões de terra vem caindo no Brasil. Segundo o Incra, a quantidade de imóveis rurais invadidos por ano foi decrescendo continuamente: de 305 por ano nos governos Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) para 246 nos de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010), 162 sob Dilma Rousseff (2011-2016) e 27 na gestão Michel Temer (2016-2018) e 40 na gestão Bolsonaro.

Até Bolsonaro entrou direto na conversa. Em seu canal no YouTube, ele publicou um vídeo em 14 de outubro atacando diretamente o MST (e recuperando frases de Lula sobre o movimento) e outro ressaltando, entre outras coisas, o “recorde em titulações de terra” e o “recorde na produção do agronegócio”.

mst manifestaManifestação do MST no último Dia do Meio Ambiente, em 5 de junho de 2022, em Rondônia. Crédito: Divulgação MST

Essa desinformação já foi desmentida pelo Mentira Tem Preço em reportagem que mostra que muitos desses títulos eram temporários e que a reforma agrária, principal reivindicação do MST, não avançou no Brasil durante o governo Bolsonaro.

 Mesmo assim, a fala foi repetida por canais bolsonaristas no YouTube, como Foco do Brasil (onde o vídeo teve 100 mil visualizações); Folha Política (11 mil visualizações); Francisco Mello, que tem 164 mil seguidores e também postou na plataforma, mas depois tirou o vídeo do ar; e por Kim Paim, com mais de 208 mil views — ele é um dos influenciadores citados na representação que o PT (Partido dos Trabalhadores) fez ao Tribunal Superior Eleitoral por supostamente espalhar desinformação nas eleições de 2022

“O MST mudou, e mudou para melhor. Não tem mais muito espaço para invasões de terras e grandes assentamentos”, explica Antônio Márcio Buainain, professor do Instituto de Economia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e especialista em conflitos agrários do Núcleo de Economia Aplicada, Agrícola e do Meio Ambiente (NEA+) e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento (INCT/PPED).

Ele acompanha há décadas a disputa por terras no país e diz que sempre foi muito crítico em relação ao MST, mas que hoje tem uma visão diferente da de anos atrás, quando considerava o movimento “antidemocrático, desrespeitador das leis vigentes, com práticas que não se justificavam em plena vigência do estado democrático de direito”.

Colheita de trigo em assentamento do MST em Pirituba, São Paulo. Crédito: Manuela Hernandez/MST

“Eles entenderam que, para fortalecer a luta pela reforma agrária, é preciso mostrar que os assentamentos são viáveis, produzem e contribuem para o desenvolvimento do país e para a segurança alimentar”, diz.

Os líderes do MST dizem que não invadem, e sim ocupam terras a partir do conceito de seu uso social. Uma área que não é usada para a finalidade para qual foi criada (como uma fazenda que encerrou suas atividades de plantio ou que possui irregularidades em relação ao trabalho) descumpre essa função da propriedade, e por isso é considerada pelo movimento um local ocioso.

“Não cumprir a função social significa dizer que a terra tem degradação do meio ambiente, tem trabalho escravo e/ou não produz. Essa terra, tendo um destes três elementos, ela deve, como a nossa lei manda, ser desapropriada para fins da reforma agrária”, afirma Alexandre Conceição, da coordenação nacional do MST, referindo-se à Constituição.

A reforma agrária, porém, ficou mais distante desde a crise financeira de 2008. “Bancos e fundos de investimento passaram a comprar terras como lastro financeiro, ampliando a especulação imobiliária e aumentando o custo das terras no campo. A alternativa foi propor um outro modelo de agricultura, baseado na agroecologia”, afirma Pablo Nabarrete Bastos, professor do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense e autor do livro “Marcha Dialética do MST”, finalista do Prêmio Jabuti 2022.

“Entre os congressos nacionais de 2007 e 2014, o MST passa por importantes mudanças estratégicas, que culminam na sua proposta de reforma agrária popular. Fazer a reforma agrária distributiva, tradicional e até liberal, nunca aconteceu no Brasil, e ficou caro realizar por razões fundamentalmente econômicas e políticas”, diz.

Segundo Bastos, essa reforma agrária popular envolve produzir alimentos saudáveis e a baixo custo para o trabalhador do campo e da cidade, a partir de matriz agroecológica, sem veneno, se contrapondo à lógica do agronegócio.

 

Loja Armazém do Campo na Lapa, bairro da região central do Rio de Janeiro, com produtos de assentamentos do MST. Crédito: Divulgação MST

“É popular porque interessa principalmente ao trabalhador. De certa maneira, se busca sensibilizar e conscientizar a cidade e o trabalhador urbano de que o modelo funciona. Por isso o foco na mobilização interna, na organização da produção por meio de cooperativas e em projetos como o Armazém do Campo, que vende produtos diversos oriundos da reforma agrária, de assentamentos do MST, em pontos estratégicos de grandes cidades”, explica o pesquisador.

 De certa forma, essa proximidade entre o campo e a cidade cria uma nova linha de ação para o MST, amenizado as necessidades de invasões e de grandes movimentações rurais. Pelas estimativas do MST, existem 160 cooperativas alinhadas ao movimento produzindo alimentos, o que corresponde a menos de 30% da produção feita por assentamentos e acampamentos de forma cooperativa.

Segundo estimativas do próprio MST, em 2021 as cooperativas de todo o Brasil venderam R$ 400 milhões em produtos para alimentação escolar. O exemplo do Armazém do Campo ilustra a expansão da produção entre os assentados. A primeira loja física foi aberta em 2016. Hoje, já são 20 lojas e 40 pontos de comercialização em todo o Brasil, e a expectativa é a de que, até 2025, sejam 140 pontos de venda de produtos pelo território nacional.

Essa reportagem faz parte do projeto Mentira Tem Preço — especial de eleições, realizado por InfoAmazonia em parceria com a produtora FalaA iniciativa é parte do Consórcio de Organizações da Sociedade Civil, Agências de Checagem e de Jornalismo Independente para o Combate à Desinformação Socioambiental. Também integram a iniciativa o Observatório do Clima (Fakebook), O Eco, A Pública, Repórter Brasil e Aos Fatos.

 
COMO FAZEMOS O MONITORAMENTO:
O projeto Mentira Tem Preço, realizado desde 2021 pelo InfoAmazonia e pela produtora FALA, monitora e investiga desinformação socioambiental. Nas eleições de 2022, checamos diariamente os discursos no horário eleitoral de todos os candidatos a governador na Amazônia Legal. Também monitoramos, a partir de palavras-chave relacionadas a justiça social e meio ambiente, desinformação sobre a Amazônia nas redes sociais, em grupos públicos de aplicativos de mensagem e em plataformas.

COP27: há um grande assunto que nossos líderes não tocarão: pecuária

A pecuária está a caminho de devorar metade do orçamento mundial de carbono, então por que os governos têm tanto medo de discutir isso?

pecuaria euaGado é alimentado no estado do Colorado, EUA. Fotografia: Jim West/Alamy

Por George Monbiot para  o “The Guardian”

Aqui estão apenas duas ações necessárias para evitar um colapso climático catastrófico: deixar os combustíveis fósseis no solo e parar de criar animais. Mas, graças ao poder das duas indústrias, ambos os objetivos são oficialmente não mencionáveis. Nenhum deles apareceu em nenhuma das declarações das 26 cúpulas climáticas concluídas até agora.

Surpreendentemente, os próprios setores raramente são mencionados. Trabalhei em todos os acordos finais produzidos pelas cúpulas desde que elas começaram. Os combustíveis fósseis são nomeados em apenas seis deles. Apenas um sugere que se use menos em geral: os outros propõem apenas melhorar a eficiência (que, como sabemos desde o século XIX, pode muitas vezes paradoxalmente aumentar o uso de combustível fóssil), tentar correções técnicas ou, no caso do acordo do ano passado em Glasgow , reduzir gradualmente a queima de carvão “ ininterrupta ”, sem dizer nada sobre a redução de petróleo ou gás. Nenhum deles sugere extrair menos. Se os combustíveis fósseis forem retirados do solo, eles serão usados , independentemente das vagas declarações dos governos sobre o consumo.

A outra omissão é ainda mais gritante. A pecuária é mencionada em apenas três acordos, e a única ação que cada um deles propõe é o “manejo”. Em nenhum lugar há uma palavra sobre redução. É como se os negociadores da não proliferação nuclear tivessem decidido não falar sobre bombas. Você não pode abordar um problema se não o discutir.

O apelo para acabar com a criação de animais deve ser tão familiar quanto o apelo para deixar os combustíveis fósseis no solo. Mas raramente é ouvido. A pecuária, segundo um artigo recente na revista Sustainability Estimativas, responde por entre 16,5% e 28% de toda a poluição por gases de efeito estufa. A grande variedade desses números é uma indicação de quão mal esta questão tem sido negligenciada. Como mostra o mesmo jornal, o número oficial (14,5%), publicado pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, está claramente errado. Todos no campo sabem disso, mas poucas tentativas foram feitas para atualizá-lo.

Mesmo que o número mínimo (16,5%) se aplique, isso é maior do que todas as emissões de transporte do mundo. E está crescendo rápido. Nos 20 anos até 2018, o consumo global de carne aumentou 58% . Um artigo da Climate Policy estima que, até 2030, os gases de efeito estufa da pecuária podem usar metade de todo o orçamento de carbono do mundo, se quisermos evitar mais de 1,5°C de aquecimento global.

Uma análise do Our World in Data mostra que, mesmo que a poluição por gases de efeito estufa de todos os outros setores fosse eliminada hoje, em 2100 a produção de alimentos, em sua trajetória atual, rebentará o orçamento global de carbono duas ou três vezes . Isso se deve em grande parte à criação de animais, que responde por 57% dos gases de efeito estufa do sistema alimentar, embora forneça apenas 18% das calorias.

Esta questão tornou-se ainda mais urgente agora que sabemos que o impacto do aquecimento do metano está aumentando. A pecuária é a maior fonte mundial de metano liberado pelas atividades humanas. No entanto, não há menção a isso na promessa global de metano lançada na cúpula do clima do ano passado.

Os governos não ignoraram essas questões por acaso; eles resolutamente desviaram o olhar. Uma nova análise da Chatham House descobriu que apenas 12 nações nomeiam as emissões de animais de fazenda em seus compromissos climáticos oficiais, e nenhuma busca reduzir a produção pecuária. Apenas duas nações (Costa Rica e Etiópia) mencionam mudanças na dieta: sem dúvida a mais importante de todas as ações ambientais, já que a criação de animais também é a maior causa mundial de destruição de habitat e perda de vida selvagem .

O que explica esse silêncio determinado? Acho que são vários os motivos. O poder cultural do setor pecuário supera em muito seu poder econômico. Nossa conexão com a comida é mais pessoal do que nossa conexão com fontes de energia. A maior parte dos combustíveis fósseis é consumida à distância. Quando usamos eletricidade, por exemplo, não pensamos de onde vem, desde que as luzes permaneçam acesas. Mas pensamos e sentimos muito sobre a comida que comemos. E, em comparação com a negação patrocinada pela indústria de combustíveis fósseis, as alegações enganosas da indústria pecuária dificilmente foram contestadas na mídia.

Um escândalo estourou na semana passada sobre um centro acadêmico na Universidade da Califórnia, Davis, que acabou sendo fundado e financiado por grupos de lobby do gado. Ele minimizou o impacto da pecuária, de maneiras que outros cientistas descreveram como altamente enganosas.

Mas este é apenas um aspecto do problema. Assim como a indústria de combustíveis fósseis, as corporações pecuárias têm investido dinheiro na persuasão pública, usando táticas desenvolvidas inicialmente pelas empresas de tabaco. Parte dessa lavagem verde tem sido altamente eficaz, especialmente as alegações da indústria sobre “ pecuária regenerativa ” e a falsa afirmação de que a criação de carne a pasto sequestra mais gases de efeito estufa do que libera.

Na realidade, a carne alimentada com capim é de longe o componente mais prejudicial de nossas dietas, como resultado de sua enorme necessidade de terra, emissões de gases de efeito estufa e custos de oportunidade ecológicos e de carbono. Apesar de uma infinidade de alegações , não há evidências empíricas de que o armazenamento de carbono em pastagens possa compensar os gases de efeito estufa produzidos pelo gado, muito menos os estoques de carbono destruídos quando os ecossistemas selvagens são convertidos em pastagens.

Um artigo da Nature Sustainability descobriu que, se as pastagens de gado permanentes apenas nas nações ricas fossem devolvidas aos ecossistemas selvagens , sua recuperação reduziria 380 bilhões de toneladas de dióxido de carbono da atmosfera, o equivalente a 12 anos de emissões globais de carbono. O Comitê de Mudanças Climáticas do governo do Reino Unido relata que , na Inglaterra, “a transição de pastagens para florestas aumentaria o estoque de carbono do solo em 25 toneladas de carbono por hectare. Isso é adicional às grandes quantidades de carbono que seriam armazenadas na biomassa do próprias árvores.”

Lenta e dolorosamente nos tornamos contadores de energia. Um grande número de pessoas começou a “ fazer as contas ” sobre as emissões de combustíveis fósseis. Agora precisamos nos tornar um contador de alimentos. Uma característica extraordinária desse debate é que quando você apresenta dados, seus oponentes respondem com fotos, geralmente imagens bucólicas de vacas ou ovelhas.

A escrita popular sobre comida é dominada por uma combinação desastrosa de estética e gostos de elite. Autores famosos propõem que todos comam a comida que gostam, promovendo dietas que não poderiam ser dimensionadas a menos que tivéssemos vários planetas e nenhum espaço em nenhum deles para ecossistemas selvagens. Eles nos incitam a usar um sistema de produção neolítico (pastejo) para alimentar uma população do século XXI, com resultados catastróficos .

Precisamos urgentemente deixar essas tolices de lado, seguir e entender a ciência e pressionar nossos governos a se concentrarem nas principais causas da crise climática. Eles tinham dois empregos e até agora não mencionaram nenhum deles.

George Monbiot é um colunista do Guardian


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Este artigo escrito originalmente em inglês foi publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui! ].

Lula promete priorizar clima e ciência em meio à crise

Lula_Brazil_MAINLula da Silva prometeu apoio à ação climática, à ciência. Copyright: Fórum Econômico Mundial , (CC BY-NC-SA 2.0).

Mas reviver a ciência, a tecnologia e a inovação e enfrentar as crises ambientais não será uma tarefa fácil, após vários anos de cortes orçamentários recorrentes em educação e ciência sob o presidente Jair Bolsonaro.

O manifesto de Lula promete acabar com o desmatamento na Amazônia, conter as emissões de gases de efeito estufa, apoiar a agricultura de baixo carbono e a agricultura familiar, reconstruir os órgãos de fiscalização e controle do desmatamento e acabar com a mineração ilegal em terras indígenas.

“Será importante uma estratégia econômica que inclua a promoção da ciência e a exploração sustentável dos recursos naturais.”

Luiz Antônio Elias, ex-secretário executivo do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, Brasil

“O Brasil está pronto para retomar sua liderança na luta contra a crise climática”, disse Lula a apoiadores em São Paulo após sua vitória nas eleições. “O Brasil e o planeta precisam de uma Amazônia viva.”

A política ambiental foi uma grande vítima do governo Bolsonaro, instaurado em janeiro de 2019.

De 2019 a 2022, o desmatamento na Amazônia brasileira cresceu 56% em comparação com o período de 2016 a 2018, segundo artigo de Paulo Artaxo , professor de física ambiental da Universidade de São Paulo.

Houve também um aumento de 80% no desmatamento em áreas protegidas, como terras indígenas e áreas de conservação. Além disso, houve uma escalada recorde de incêndios.

A ciência de forma mais ampla também sofreu um grande golpe sob Bolsonaro. Em 2014, o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico teve um orçamento de cerca de 4,6 bilhões de reais (US$ 900 milhões), enquanto em 2022 esses recursos cairão para US$ 480 milhões no orçamento de seu governo. E mais da metade desse valor foi destinado ao pagamento da dívida pública porque, segundo o governo Bolsonaro, os recursos para a ciência não estavam sendo utilizados.

Além disso, uma medida provisória emitida por Bolsonaro em agosto impõe limites ao uso de parte dos recursos do Fundo, medida que antes era proibida por lei.

“Foram anos de intensa deterioração dos investimentos em ciência e tecnologia, e a vitória de Lula traz a perspectiva de recuperação”, diz Renato Janine, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), ao SciDev.Net .

“No entanto, como [Bolsonaro] promulgou vários mecanismos legais usando o veto presidencial (ou seja, sem possibilidade de alteração pelo legislativo), será necessário revogar essas leis e medidas provisórias.”

O financiamento e o investimento em universidades federais e institutos de pesquisa também caíram por cento desde o fim da presidência de Dilma Rousseff, de R$ 10,3 bilhões (cerca de US$ 2 bilhões) para cerca de US$ 900 milhões, mostram números oficiais.

Os orçamentos das principais agências de fomento à pesquisa do Brasil — o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior — também caíram por cento nesse período, impactando a oferta de bolsas para mestrandos e doutorandos.

A biomédica Helena Nader, presidente da Academia Brasileira de Ciências, diz que as vagas de pesquisa apoiadas são cruciais para o avanço da ciência.

“Mais de 90 por cento da ciência brasileira é feita em universidades e institutos públicos de pesquisa”, disse ela ao SciDev.Net . “Sem educação não há ciência, e o novo governo terá que levar isso em conta.”

Janine diz que o governo Lula terá que tomar decisões difíceis, pois ele herda uma crise econômica. O presidente eleito, que tomará posse em 1º de janeiro de 2023, já disse que sua prioridade será acabar com a fome que assola 33 milhões de pessoas, o equivalente a mais de 15% da população.

“Existe uma expectativa de soluções rápidas, mas infelizmente não podemos esperar que sejam tão rápidas”, disse o presidente da SBPC.

Nader concorda: “O dano é muito grande. Vamos precisar de pelo menos um ou dois anos para nos organizarmos.”

O economista Luiz Antônio Elias, ex-secretário-executivo do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação nos governos Lula e Dilma Rousseff, acredita que será fundamental reconstruir o sistema nacional de ciência, tecnologia e inovação “com uma visão integrada da política científica”.

O “ programa de reconstrução e transformação do Brasil ” de Lula reconhece que a reconstrução do sistema será “pela inovação tecnológica e social, bem como pelo uso sustentável das riquezas do país, pela geração de empregos qualificados e pelo combate às mudanças climáticas e ameaças à saúde pública”.

“Será importante uma estratégia econômica que inclua a promoção da ciência e a exploração sustentável dos recursos naturais”, acrescenta Elias.

Para Janine, aproximar a ciência da sociedade será fundamental. “Precisamos mostrar às pessoas o quanto a ciência é importante para o desenvolvimento do país, e como ela está presente em seus alimentos, roupas e celulares”, disse.

Em seu primeiro discurso como presidente eleito, Lula prometeu a retomada das conferências nacionais, incluindo uma de ciência e tecnologia, para facilitar a participação social no planejamento de políticas científicas.

Este artigo foi produzido pelo escritório da América Latina e Caribe da SciDev.Net e editado para ser conciso e claro [ Aqui!].

No terceiro mandato, Lula terá pouco espaço para seu “Brasil sem classes”, já que a luta entre elas não irá arrefecer

Luta-de-classes

Uma das principais características do período em que o presidente eleito, Luís Inácio Lula da Silva, governou o Brasil por dois mandatos foi a sua quase profissão de fé em torno da criação de um país “sem classes sociais”, pois supostamente o que buscava era cumprir uma fórmula onde todos ganhariam. Entretanto, o que se viu após o fim do último ciclo virtuoso das commodities que embalou Lula e seus governos foi não apenas o rompimento da aliança que deu sustentação aos governos do PT, mas uma opção das elites brasileiras por uma agudização dos ataques aos direitos dos trabalhadores, e que culminou na eleição de Jair Bolsonaro em 2018.

A clara ação de segmentos das elites brasileiras não apenas para tentar eleger Jair Bolsonaro, mas também para promover um golpe militar em face de sua derrota aponta claramente para uma aposta no confronto direto com o novo governo Lula. Essa indisposição para o apaziguamento ficou evidente nos bloqueios das estradas onde a categoria dos caminhoneiros foi usada como bucha de canhão dos donos de transportadoras, estes sim interessados em reverter os resultados das urnas, como sugerem relatos surgidos na imprensa.

A essa indisposição de segmentos que se beneficiaram das regressões perpetradas pelos governos Temer e Bolsonaro de se apaziguarem com Lula é acrescida a movimentação de segmentos minoritários, porém claramente mobilizados, da população brasileira que se sentem contemplados pelo modelo de organização econômica ultraneoliberal. Esses segmentos, apesar de minoritários, certamente se manterão em movimento, mesmo porque não há ganho aparente em se retirarem calmamente da cena política, por mais bizarras que sejam suas posições.

Aos brasileiros que, como eu, votaram em Lula sem ter ilusões com seu futuro governo resta investir em esforços que retirem segmentos da classe trabalhadora das garras da extrema-direita. É que sem esses segmentos da classe trabalhadora, os elementos mais radicalizados da extrema-direita só terão a si mesmos para continuarem em cena, e sozinhos seu impacto na vida política será o que foi historicamente no Brasil, qual seja, praticamente nulo.

E para quem desejaria voltar a um cenário de hipotética harmonia (a qual realmente nunca existiu no Brasil), quanto mais rápido se reconhecer que a luta de classes está aqui para ficar melhor será.  Afinal, se tivemos o risco da manutenção da extrema-direita no poder, isto se deve em grande parte à falta de entendimento da dinâmica política que estamos vivendo não apenas em nosso país, mas em todo o mundo. E se eu aprendi algo na vida é que a luta de classes não perdoa os ingênuos e desorganizados.

Pesquisa estima que Brasil tem 57 mil mortes por ano devido ao consumo de ultraprocessados

mero é maior do que o total de homicídios no país; se consumo brasileiro desses produtos chegar ao patamar dos Estados Unidos, serão quase 200 mil mortes prematuras anuais

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Por Raquel Torres para o “Joio e o Trigo”

Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), da Fiocruz, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e da Universidad de Santiago de Chile calculou, pela primeira vez, o número de mortes prematuras (de 30 a 69 anos) associadas ao consumo de ultraprocessados no Brasil: são aproximadamente 57 mil óbitos por ano, com base em dados de 2019. Só para se ter uma ideia, isso é mais do que o total de homicídios no país no mesmo período – foram 45,5 mil em 2019, segundo o Atlas da Violência. O estudo foi publicado no American Journal of Preventive Medicine.

Os ultraprocessados são formulações industriais feitas com partes de alimentos e que geralmente contém aditivos sintetizados em laboratório, como corantes, conservantes e aromatizantes: são guloseimas industrializadas, salgadinhos de pacote, refrigerantes, pizzas congeladas, salsichas, nuggets etc.

Existe um conjunto crescente de pesquisas robustas apontando que o consumo desses produtos está relacionado ao aumento de peso e ao risco de várias doenças não transmissíveis, como diabetes, doenças cardiovasculares e câncer. Os autores do artigo partiram desse acúmulo de evidências para construir um modelo que leva em conta os riscos do consumo de ultraprocessados e os associa a mortes em geral. 

Embora estudos de modelagem anteriores tenham estimado os impactos na saúde dos chamados “nutrientes críticos” – como sódio, gordura saturada e açúcar –, ainda não havia nenhum que calculasse as mortes prematuras atribuíveis ao consumo de ultraprocessados em geral.

“Isso é importante porque o problema não está apenas nos nutrientes críticos. Há vários mecanismos pelos quais os ultraprocessados podem afetar a saúde: há discussões sobre mudanças na absorção dos nutrientes, além de evidências de que os ultraprocessados têm mecanismos inflamatórios e de que estão relacionados a alterações na microbiota intestinal.  E há também o que chamamos de neocontaminantes, já que tanto o processo de fabricação quanto as embalagens dos ultraprocessados podem gerar ou introduzir contaminantes químicos nos alimentos”, aponta Eduardo Nilson, pesquisador do Núcleo de Pesquisas em Nutrição e Saúde da USP (Nupens/USP) e um dos autores do trabalho.

Nilson aponta ainda que justamente pelo fato de os ultraprocessados afetarem o organismo de tantas formas, ele e seus colegas optaram por estimar as mortes por todas as causas – e não apenas por doenças determinadas. 

E quando ele diz que o modelo inclui mortes por todas as causas, são todas mesmo, inclusive as não naturais. Isso pode parecer estranho à primeira vista, mas o autor explica: “Essa é uma forma de dimensionar a carga total de determinado fator de risco – nesse caso, o consumo de ultraprocessados – nas mortes totais na população desta faixa etária.” 

“Se não existisse nenhum consumo desses produtos, é claro que ainda haveria muitas mortes, já que pessoas continuariam sofrendo acidentes, sendo vítimas de homicídio, tendo doenças infectocontagiosas e até mesmo desenvolvendo doenças crônicas não transmissíveis, pois há muitos outros fatores de risco para elas. Mas a ideia da pesquisa foi justamente estimar, entre as mortes prematuras por todas as causas possíveis, quantas são associadas ao consumo de ultraprocessados, pois os riscos relativos utilizados nos cálculos incorporam isso”, afirma ele. 

Chegando aos números

Segundo a última Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) do IBGE – que englobou os anos de 2017 e 2018 – em média 19,7% das calorias ingeridas pelos brasileiros vêm de ultraprocessados. Se pensarmos em um consumo de duas mil calorias por dia para uma pessoa, seriam cerca de 400 calorias provenientes de ultraprocessados – o que equivale a um pacote de macarrão instantâneo, por exemplo.

Para criar o modelo que calcula as mortes, os pesquisadores utilizaram as informações da POF junto com dados demográficos e de mortalidade para 2019. Acrescentaram a isso os riscos relativos a cada faixa de consumo de ultraprocessados. Esses riscos, por sua vez, foram calculados com base em uma recente metanálise – uma pesquisa extensa que revisou sistematicamente vários estudos sobre a relação entre o consumo de ultraprocessados e o estado de saúde. “As estatísticas sobre o consumo de ultraprocessados e o risco disponível na literatura científica geraram um percentual que multiplicamos pelas mortes totais, para descobrir quantas são atribuíveis ao consumo”, explica Nilson.

Ao todo, 541,1 mil pessoas de 30 a 69 anos morreram no Brasil em 2019. Desse total de mortes, consideradas prematuras, 57 mil, ou 10,5%, foram associadas ao consumo de ultraprocessados, segundo a estimativa do modelo. A maioria das mortes atribuíveis aos ultraprocessados ocorreu entre homens (60%). Em relação à faixa etária, os óbitos foram mais numerosos entre pessoas entre 50 e 69 anos (68%).

ultraprocessados
 

Os pesquisadores estimaram ainda os óbitos que poderiam ser evitados se o consumo total desses produtos por parte dos brasileiros diminuísse. Caso a população como um todo reduzisse a proporção de ultraprocessados na ingestão total de energia em 10%, 20% ou 50%, seriam poupadas 5,9 mil, 12 mil e 29,3 mil vidas por ano, respectivamente.

São três cenários em que o Brasil já esteve: “Reduzir o consumo em 20% seria retornar ao que tínhamos há apenas uma década. Ou seja, se não tivesse havido aumento no consumo, hoje teríamos 12 mil mortes a menos por ano. Já a redução de 50% equivale ao consumo que tínhamos ainda antes, nos anos 1990. Se nós já tivemos consumo menor, então é factível voltar a isso”, compara o autor.

Só que, em vez de diminuir, nosso consumo de ultraprocessados não para de crescer. “A gente vê uma tendência de crescimento dos ultraprocessados substituindo a dieta tradicional. Há vários motivos para isso, mas um fator determinante é, sem dúvidas, o preço: temos estudos mostrando que há uma tendência de redução nos preços dos ultraprocessados, enquanto o de alimentos frescos, in natura e minimamente processados está crescendo. Isso é muito cruel porque afeta principalmente as populações de menor renda, mais vulneráveis”, analisa o pesquisador. Este ano, pela primeira vez, os ultraprocessados estão se tornando, na média, mais baratos do que os alimentos frescos.

O futuro é logo ali

Em alguns países de alta renda, como Estados Unidos e Canadá, os ultraprocessados já representam perto de metade do total de energia dietética consumida. O Brasil, com seus 19,7%, ainda não está lá. Mas o que acontece se o consumo continuar subindo?

Com o mesmo modelo utilizado na pesquisa, Nilson já fez estimativas nesse sentido. Se o Brasil se igualar ao México, onde a participação calórica de ultraprocessados é de 29,8%, as mortes atribuíveis a esse consumo podem praticamente dobrar, chegando a 113 mil. Se chegarmos ao nível dos Estados Unidos (onde os ultraprocessados já representam em média 57% do consumo calórico), podemos ter todos os anos 194 mil mortes por conta desses produtos. As estimativas foram apresentadas recentemente à Rede INFORMAS (uma rede global de organizações e pesquisadores que estudam sistemas alimentares, obesidade e doenças não transmissíveis).

Em relação às projeções, o modelo tem uma limitação importante: “Assim como outros modelos matemáticos, o nosso ainda não leva em conta o fator tempo”, diz Nilson, ressaltando que uma redução ou um aumento no consumo não leva imediatamente a mudanças no número de mortes – esse é um impacto que demora para se manifestar. “A grande conclusão é que precisamos urgentemente adotar políticas públicas que reduzam esse consumo, o que está em consonância com o Guia Alimentar para a População Brasileira”, ele alerta.

O artigo frisa que, muito além de motivações individuais, o freio no consumo exige múltiplas intervenções e medidas de saúde pública. É preciso haver estímulo para o consumo de alimentos mais saudáveis: “Isso implica políticas de subsídios, compras institucionais de alimentos e fortalecimento da agricultura familiar. E o Brasil já teve políticas muito fortes em relação a isso”, lembra Nilson. Ao mesmo tempo, é necessário desencorajar a ingestão de ultraprocessados. Nesse sentido, entre as medidas citadas pelo artigo estão a regulamentação da publicidade e da venda de ultraprocessados em ambientes escolares, a tributação desses produtos e a implantação de uma nova rotulagem frontal para industrializados, que alerte para seus potenciais malefícios.

Nilson nota que tais medidas já têm sido tomadas, com sucesso, em outros países. Há na América Latina boas experiências de taxação de categorias específicas, como bebidas açucaradas;restrições de publicidade de produtos ultraprocessados;mudanças nos rótulos.

Em relação ao último ponto, o Brasil começou no dia 9 de outubro a implantação do novo modelo de rotulagem definido pela Anvisa, que consiste em um sistema de lupas adicionadas às embalagens para indicar o excesso de sal, açúcar e gorduras saturadas. 

Mas, como O Joio e O Trigo já apontou, o sistema escolhido pela Agência não era o mais indicado, segundo as melhores evidências científicas disponíveis. Em vez dele, a Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável defendia a adoção de um modelo inspirado no chileno, com figuras de alerta – pois já existem pesquisas mostrando que ele funciona. 

Para Nilson, outro problema da nova rotulagem brasileira é que os critérios para classificação dos alimentos são menos rigorosos do que os recomendados pela Organização Panamericana de Saúde (Opas). Ou seja, menos produtos acabam recebendo a lupa de advertência. Para completar, a implementação será lenta: o novo rótulo só vale para produtos lançados a partir de agora, enquanto os que já estão no mercado terão mais tempo para adaptação.

“PRECISAMOS URGENTEMENTE ADOTAR POLÍTICAS PÚBLICAS QUE REDUZAM ESSE CONSUMO”

Dados que apoiam mudanças

Segundo o autor, o modelo desenvolvido pode vir a ser incrementado para fazer uma série de novas estimativas. Uma das possibilidades é acrescentar o fator tempo, o que vai permitir calcular qual será o impacto real nas mortes daqui a alguns anos caso o consumo comece a ser reduzido hoje ou caso se mantenha a tendência de aumento. 

Também será possível prever os impactos de novas medidas. Os efeitos de uma taxação maior para ultraprocessados, por exemplo, podem ser calculados a partir da relação entre o preço e o consumo. “E dá ainda para quantificar o custo que o consumo de ultraprocessados gera para o Sistema Único de Saúde (SUS), ou mesmo as perdas econômicas para a sociedade em geral, devido à morte ou adoecimento de pessoas em idade economicamente ativa. São inúmeras possibilidades”, antevê o pesquisador.

Tudo isso é importante porque ajuda a embasar a formulação de novas políticas públicas. “Sabemos que o cenário de políticas regulatórias e fiscais é sempre difícil. E muitos dos dados utilizados para provocar mudanças vêm desse tipo de estudo. É interessante pensar no exemplo do tabaco: muito do que se avançou em termos de políticas relacionadas à substância foi por conta da existência de dados robustos, de fatores de risco bem estabelecidos e de cálculos de mortes atribuíveis ao tabaco”, compara Nilson.


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Este texto foi originalmente publicado pelo “Joio e o Trigo” [ Aqui!].

‘Acabou, porra!’ A vitória de Lula da Silva no Brasil injeta esperança na luta climática global

À medida que a cúpula climática da ONU deste ano se reúne, a maior economia da América do Sul está se preparando para deixar seu presidente negador do clima

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O presidente eleito do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, agita uma bandeira brasileira durante um comício em 20 de outubro de 2022, em São Gonçalo, Brasil. BUDA MENDES VIA GETTY IMAGES

Por Travis Waldron, Alexander C. Kaufman e Chris D’Angelo para o Huffington Post

SÃO PAULO ― A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições presidenciais do Brasil no último domingo energizou líderes mundiais, ativistas climáticos e ambientalistas antes da cúpula das Nações Unidas sobre mudanças climáticas deste ano, que começa domingo no Egito.

Em uma eleição que muitos viram como crucial para o futuro da floresta amazônica e evitar o aquecimento planetário catastrófico, o esquerdista Lula, conhecido carinhosamente como “Lula”, derrubou por pouco o presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro, um ferrenho negador das mudanças climáticas que presidiu sobre o desmatamento vertiginoso na floresta amazônica que o transformou em um pária global .

Da Silva, que supervisionou reduções drásticas nas taxas de desmatamento e emissões de carbono durante sua presidência de 2003 a 2010, aproveitou as questões climáticas durante a corrida para pintar Bolsonaro como um outlier global que isolou o Brasil no cenário mundial. Em seu primeiro discurso como presidente eleito, ele prometeu “lutar pelo desmatamento zero” e combater a extração ilegal de madeira, mineração e pecuária que cresceu sob a vigilância de Bolsonaro.

“O Brasil e o planeta precisam da Amazônia viva”, disse Silva, que viajará ao Egito na próxima semana como um sinal antecipado de sua intenção de reassumir um papel de liderança na luta climática, disse na noite de domingo. “Vamos provar mais uma vez que é possível gerar riqueza sem destruir o meio ambiente.”

O Brasil controla a grande maioria da floresta amazônica e também abriga outras regiões ambientais sensíveis que os cientistas consideram cruciais para a batalha global contra as mudanças climáticas. Lá e no exterior, os defensores do clima não mediram palavras quando os resultados das eleições foram claros.

“Acabou porra!” o Observatório Brasileiro do Clima, um think tank com sede em São Paulo, em um comunicado na noite de domingo. “O pesadelo deve finalmente terminar.”

Christian Poirier, diretor de programas da organização sem fins lucrativos Amazon Watch , disse ao HuffPost que uma vitória de Bolsonaro “significaria o fim da Amazônia”. De fato, os cientistas soaram o alarme de que a floresta tropical está se aproximando de um ponto de inflexão além do qual será incapaz de se recuperar.

“A conquista de Lula, particularmente em uma plataforma de preservação ambiental e respeito aos direitos humanos, principalmente os direitos dos povos da floresta e dos povos indígenas, foi uma grande vitória diante da extrema ameaça representada por mais quatro anos de Bolsonaro – a ameaça existencial ”, disse Poirier. “Dada a importância da Amazônia, a importância deste bioma para a estabilidade climática mundial, esta foi a eleição mais conseqüente do planeta.”

Uma vista aérea de uma área queimada na floresta amazônica perto de Porto Velho, no estado brasileiro de Rondônia, em 31 de agosto de 2022. Especialistas dizem que os incêndios na Amazônia são causados ​​principalmente por agricultores ilegais, pecuaristas e especuladores que limpam terras e queimam árvores.

Uma vista aérea de uma área queimada na floresta amazônica perto de Porto Velho, no estado brasileiro de Rondônia, em 31 de agosto de 2022. Especialistas dizem que os incêndios na Amazônia são causados ​​principalmente por agricultores ilegais, pecuaristas e especuladores que limpam terras e queimam árvores. DOUGLAS MAGNO VIA GETTY IMAGES

O ambiente normalmente não desempenha um papel de liderança – ou qualquer papel – nas eleições brasileiras. Mas durante esta campanha, Lula delineou um conjunto ambicioso de propostas que os aliados compararam a uma versão brasileira do Green New Deal que os progressistas nos Estados Unidos promoveram. Ele também prometeu restaurar as proteções para tribos indígenas que acusaram Bolsonaro de “genocídio” e crimes contra a humanidade , prometendo criar um novo Ministério de Assuntos Indígenas e nomear um líder tribal para dirigi-lo.

O caminho a seguir, no entanto, não será fácil. As taxas de desmatamento continuaram a subir nos meses anteriores às eleições, subindo 81% em relação ao total do ano passado em agosto e outros 48% em setembro. Eles devem continuar crescendo pelo menos até o primeiro ano da presidência de Lula, e a recuperação da floresta nos próximos quatro anos está longe de ser garantida.

“Na verdade, o que estamos vendo na Amazônia é um cenário do Velho Oeste”, disse Poirier. “Esse cenário não vai mudar da noite para o dia.”

Uma agenda ambiciosa enfrenta enormes desafios

A Amazônia é apenas uma das principais regiões ambientais que enfrentaram uma destruição desenfreada sob Bolsonaro, mas é um indicativo dos desafios mais amplos que Lula enfrentará ao tentar reconstruir a imagem global do Brasil e remontar um governo capaz de tornar o Brasil um líder do mundo. luta climática internacional novamente.

Bolsonaro passou quatro anos destruindo o outrora robusto regime regulatório ambiental do Brasil e as agências governamentais que o implementaram. Restrições nos gastos federais dificultarão a reconstrução completa dos ministérios ambientais, enquanto um Congresso conservador e uma lista lotada de prioridades podem facilmente impedir o avanço de quaisquer propostas climáticas importantes.

Nas cidades prósperas da Amazônia, onde garimpeiros e madeireiros ilegais buscavam suas fortunas com as bênçãos de Bolsonaro, oficiais federais encarregados de supervisionar a conservação e os direitos indígenas lutavam até para manter os veículos em condições de funcionamento. A falta de fiscalização de Bolsonaro criou um acúmulo de multas não pagas e promoveu uma cultura de impunidade em relação à destruição ambiental.

As redes de crime organizado que prosperaram sob o governo de Bolsonaro e conduziram grande parte da devastação ambiental que ocorreu sob seu comando agora são muito maiores e mais sofisticadas, tecnologicamente experientes e financeiramente robustas do que eram durante os dois mandatos anteriores de Lula.

“O mais difícil vai ser o crime na Amazônia”, disse Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima. “O crime na Amazônia é hoje mais poderoso e tem mais influência política e dinheiro do que nunca.”

Em partes da Amazônia, a reconstrução de um governo capaz de fazer cumprir as proteções ambientais e combater a atividade criminosa será suficiente, disse Astrini. Mas em grandes áreas da região, a falta de oportunidades econômicas formais tornou comunidades inteiras dependentes de redes criminosas, o que significa que Silva e seu governo terão que ajudar a criar empregos, investir em negócios e construir economias locais capazes de quebrar essa dependência.

Crianças se reúnem ao ar livre em Manicore, uma cidade localizada às margens dos rios Madeira e Manicore, na floresta amazônica, no estado do Amazonas, no Brasil, em 6 de junho de 2022.

Crianças se reúnem ao ar livre em Manicore, uma cidade localizada às margens dos rios Madeira e Manicore, na floresta amazônica, no estado do Amazonas, no Brasil, em 6 de junho de 2022. MAURO PIMENTEL VIA GETTY IMAGES

Apesar dos desafios, da Silva e sua equipe estão confiantes de que podem repetir o sucesso de sua primeira presidência, quando as taxas de desmatamento caíram 70%. Isso, por sua vez, ajudará a reverter um preocupante aumento nas emissões gerais, que aumentaram 9,5% em 2020, ano em que a pandemia fez com que as emissões caíssem globalmente. Isso levou o Brasil muito longe para cumprir as metas estabelecidas no Acordo Climático de Paris.

“O desmatamento é responsável por 70% das nossas emissões. Se reduzirmos o desmatamento, reduziremos as emissões”, disse Marina Silva, que foi ministra do Meio Ambiente durante a presidência de Lula e está entre as candidatas a assumir o cargo no ano que vem, a repórteres em São Paulo dias antes da eleição.

Mas as “ambições” de Lula são maiores do que apenas cumprir as metas de Paris, disse ela.

Durante a presidência de Bolsonaro, grupos ambientais brasileiros estabeleceram parcerias internacionais em um esforço para promover políticas verdes e proteger a floresta nos níveis estadual e local, com algum sucesso. Membros proeminentes da esquerda brasileira, enquanto isso, fizeram conexões com progressistas nos Estados Unidos e na Europa em um esforço para elaborar uma resposta ambiental pronta para que Lula adote e implemente.

Três meses após a posse de Bolsonaro em 2019, Alessandro Molon, líder da oposição do Partido Socialista na Câmara dos Deputados do Brasil, disse ao HuffPost em uma entrevista em seu escritório em Brasília que se inspirou na estrutura do Green New Deal. Bernie Sanders (I-Vt.) e a Deputada Alexandria Ocasio-Cortez (DN.Y.) defendiam na época. O apelido de três palavras foi usado para descrever uma série de ideias progressistas para lidar com as mudanças climáticas e sinalizou uma mudança no pensamento político dominante sobre como reduzir as emissões do aquecimento do planeta longe da precificação do carbono e em direção à política industrial, onde o governo define prioridades econômicas injetando subsídios em setores como energia limpa.

No ano seguinte, Jaques Wagner, senador brasileiro do partido de Lula e ex-ministro da Defesa, apareceu em um painel em Nova York ao lado do acadêmico Daniel Aldana Cohen e da escritora Naomi Klein, dois dos autores ecossocialistas mais influentes da América do Norte.

Wagner elogiou o “grande potencial do Brasil no que chamaríamos de bioeconomia”, ou seja, óleo diesel refinado de plantas e culturas ecologicamente mais eficientes. De acordo com o espírito economicamente populista que animava os primeiros apelos por um Green New Deal, ele disse que a única maneira de obter apoio para reduzir as emissões seria “soluções estruturais” que “construam uma economia que funcione para todos”.

“É absolutamente crucial que vejamos as mudanças climáticas não apenas como o maior desafio, mas também como uma oportunidade de [gerar] soluções para o nosso desenvolvimento.”

– Izabella Teixeira, ex-ministra brasileira do meio ambiente

Molon apresentou a versão brasileira do Green New Deal na COP26 em Glasgow, Escócia, no ano passado. Em junho, ele apresentou o plano diretamente a Silva e sua equipe ambiental, que supostamente concordaram com o conceito básico.

Da Silva mais tarde divulgou uma série de propostas que se baseavam em ideias semelhantes: como a Reuters informou , seus planos exigiam proteções federais mais fortes de grandes áreas da Amazônia e novos investimentos destinados a promover uma economia brasileira mais verde.

Na última vez que Lula foi presidente, ambientalistas o criticaram por priorizar a economia sobre a Amazônia e os direitos indígenas. Foi seu governo que autorizou a construção da represa de Belo Monte, um controverso projeto hidrelétrico na região amazônica, apesar da forte reação dos defensores dos direitos humanos e das tribos.

No entanto, durante o último governo de Lula, o Brasil se destacou de outras economias emergentes como a única grande nação a reduzir o desmatamento, mantendo um crescimento econômico recorde. Nos anos seguintes, o influxo de áreas queimadas e o aumento das temperaturas globais tornaram esse equilíbrio novamente mais difícil, mas os aliados de Lula enfatizaram que seus objetivos climáticos fazem parte de uma agenda econômica mais ampla – um argumento que eles provavelmente usarão em um esforço para conquistar o Congresso brasileiro e o público.

“Esta é uma agenda de desenvolvimento: o clima faz parte da equação de soluções de desenvolvimento no Brasil”, disse Izabella Teixeira, que atuou como ministra do Meio Ambiente de Silva e sua sucessora, Dilma Rousseff. “É absolutamente crucial que vejamos as mudanças climáticas não apenas como o maior desafio, mas também como uma oportunidade de [gerar] soluções para o nosso desenvolvimento.”

A ambientalista brasileira Marina Silva, à esquerda, fala ao lado do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva durante uma entrevista coletiva em São Paulo em 12 de setembro de 2022.

A ambientalista brasileira Marina Silva, à esquerda, fala ao lado do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva durante uma entrevista coletiva em São Paulo em 12 de setembro de 2022. MIGUEL SCHINCARIOL VIA GETTY IMAGES

Essa visão, disse ela, pode ajudar o Brasil a “ligar os pontos” entre o clima e outras grandes prioridades de Lula, incluindo seus planos para fortalecer a economia brasileira, combater a pobreza e reduzir as taxas de fome extrema, um problema que ressurgiu durante a pandemia e agora encabeça a lista de preocupações de da Silva.

“[A fome] é um bom exemplo de como podemos melhorar o desempenho climático”, disse ela. “Somos um dos mais importantes produtores de alimentos do mundo e devemos apresentar soluções para a sociedade internacional. Não é apenas uma grande oportunidade para o Brasil desenvolver equações inovadoras para resolver problemas de desenvolvimento e desigualdades sociais, mas também compartilhar nossa tecnologia e soluções com outros países, principalmente no Sul Global.”

Com os olhos do mundo no Brasil, um novo Brasil olha para trás

Dadas as restrições que Lula enfrentará em casa, o tipo de ajuda internacional que secou sob Bolsonaro provavelmente desempenhará um papel crucial para ajudá-lo a cumprir suas promessas. E depois de quatro anos de Bolsonaro, as principais potências do mundo parecem mais do que felizes em receber o Brasil de volta à luta climática.

Na quinta-feira, o Supremo Tribunal Federal do Brasil ordenou a retomada do Fundo Amazônia , um mecanismo internacional de financiamento para projetos de proteção florestal, em janeiro, quatro anos depois de Bolsonaro encerrar seus programas mais poderosos. A Noruega e a Alemanha, que congelaram os pagamentos ao fundo em resposta às políticas de Bolsonaro e a um surto recorde de incêndios em 2019, disseram que estão abertos a retomar os pagamentos sob Lula.

“Na verdade, o que estamos vendo na Amazônia é um cenário de faroeste. Esse cenário não vai mudar da noite para o dia.”

– Christian Poirier, diretor de programa da organização sem fins lucrativos Amazon Watch

A União Europeia sinalizou seu otimismo sobre a conclusão de um acordo comercial com o Mercosul – um bloco de nações sul-americanas que inclui o Brasil – que estava suspenso em grande parte devido à oposição do presidente francês Emmanuel Macron às políticas ambientais de BolsonaroE o presidente dos EUA, Joe Biden, que discutiu o clima com Lula durante um telefonema de congratulações esta semana, ainda pode estar aberto a elaborar um pacote de ajuda financeira internacional para ajudar a proteger a floresta.

Mas a viagem de Lula ao Egito esta semana não pretende apenas reforçar o apoio internacional à sua agenda. O Brasil já teve um papel único na luta climática global: foi talvez a única nação do Sul Global que tinha poder, influência e uma parcela grande o suficiente de recursos vitais para abrir caminho para uma posição de liderança entre os maiores países do mundo.

Sob Lula e sua sucessora de esquerda, Dilma, o Brasil normalmente usava essa posição para pressionar as nações ricas a fornecer assistência mais ampla aos países de baixa e média renda na linha de frente da crise climática.

Agora, Lula quer recuperar essa posição quatro anos depois de Bolsonaro abandoná-la. Silva, o ex-ministro do Meio Ambiente, disse a repórteres na semana passada que o Brasil pressionará para fornecer mais ajuda financeira não apenas às nações em desenvolvimento, mas também a grupos da sociedade civil e populações indígenas que estão enfrentando as mudanças climáticas de frente. A cúpula do ano passado prometeu mais dinheiro às tribos indígenas, cujo conhecimento e esforços de adaptação assumiram um papel cada vez maior na luta pelo clima. Mas Silva quer pressionar ainda mais.

O Brasil também renovará seus esforços para fazer parcerias com outras nações tropicais – particularmente a Indonésia e as da Bacia do Congo, na África – que abrigam a maior parte das florestas tropicais do planeta, disse Celso Amorim, ex-ministro das Relações Exteriores de Lula, a repórteres. O Brasil também trabalhará em estreita colaboração com outras nações da bacia amazônica para reduzir o desmatamento nas regiões da floresta venezuelana, peruana e boliviana, disse Amorim.

Amorim, que também pode ganhar um cargo ministerial no governo de Lula, disse à Reuters em outubro que o Brasil buscaria sediar uma cúpula internacional sobre a Amazônia e disse antes da eleição que o Brasil “lutará” para fortalecer os tratados existentes destinados a proteger a floresta.

A vitória de Lula encerra uma espécie de “maré verde” na América Latina, já que líderes de esquerda que se comprometeram a restabelecer as relações de seus países com a natureza venceram eleições em países que vão do Chile à Colômbia e Honduras. Novos presidentes ambiciosos já encontraram dificuldades para implementar seus planos nessas nações. Mas com a maior e mais importante economia da região a bordo, há pelo menos esperança de que o Brasil possa ajudar a tornar a América do Sul um novo centro de poder nas negociações globais sobre emissões.

“Estou otimista”, disse Astrini, do Observatório do Clima. “Não é apenas melhor que Bolsonaro. É uma situação totalmente nova. Nunca tivemos neste país um presidente falando sobre desmatamento zero, clima e proteção ambiental como estamos vendo agora.”


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Este texto escrito originalmente em inglês foi publicado pelo “Huffington Post” [Aqui!].

Jair Bolsonaro queria imitar Donald Trump. Eis por que ele não pode

As democracias só podem durar se todos os participantes, tanto os vencedores quanto os perdedores, fizerem o que puderem para protegê-las

bolso lossO presidente brasileiro Jair Bolsonaro, em seu primeiro discurso depois de perder por pouco para Luiz Inácio Lula da Silva, não cedeu na terça-feira, mas prometeu seguir a Constituição.Arthur Menescal / Bloomberg via Getty Images

Apesar das previsões em contrário , o presidente brasileiro Jair Bolsonaro parece não ser o negador eleitoral que o ex-presidente Donald Trump é, tornando a democracia no Brasil, por enquanto, mais resiliente do que a democracia nos Estados Unidos.

O presidente brasileiro Jair Bolsonaro parece não ser o negador eleitoral que o ex-presidente dos EUA, Donald Trump, é.

Depois que o direitista Bolsonaro perdeu a eleição presidencial para o esquerdistaLuiz Inácio Lula da Silva no domingo por cerca de 2 milhões de votos dos 119 milhões lançados, as atenções iniciais se voltaram para se o “Trump dos Trópicos”, como ele é chamado, concederia a corrida a um ex-presidente condenado por corrupção. O silêncio durou até terça-feira , mas na quarta-feira Bolsonaro concordou com uma transição de poder (sem um discurso formal de concessão), e na quinta -feira ele pediu o fim dos bloqueios de estradas de seus apoiadores que chegaram às centenas.

O que poderia ter sido o início de uma campanha brasileira “Stop the Steal” esta semana fracassou no final da semana, e é duvidoso que ela tenha crescido tanto quanto a campanha para manter Trump na Casa Branca. No entanto, o acordo de Bolsonaro com uma transferência pacífica de poder não impediu que os negadores americanos da eleição “Stop the Steal” pedissem um golpe militar no Brasil para proteger Bolsonaro.

No domingo, uma vez que ficou claro que Bolsonaro não alcançaria a liderança de Lula, o negador eleitoral de extrema direita Ali Alexander pediuaos “irmãos do Brasil” que “tomassem as ruas” com um “espera militar”, observando no Truth Social, sem nenhuma evidência, de que “a equipe de Joe Biden está atualmente ROUBANDO a eleição brasileira para o socialista Lula. Literalmente um GOLPE.” Alexander estava exigindo uma auditoria da votação, um tropo sem fundamento sendo regurgitado por pessoas como os direitistas Steve Bannon e Tucker Carlson .

“A margem de vitória é inferior a 2%”, disse Carlson na terça-feira em seu programa . “Há muitas dúvidas sobre esta eleição, se todas as cédulas foram contadas, por exemplo. E Bolsonaro não cedeu. Mas questionar os resultados das eleições no Brasil não é mais permitido lá ou mesmo aqui.”

Como uma declaração ainda mais distorcida do destino manifesto, os Estados Unidos têm uma história vergonhosa de esmagar os desejos políticos de seus vizinhos do sul, enquanto o tempo todo se gabam de acreditar na democracia e que a democracia aqui é melhor do que a democracia em qualquer outro lugar. Intrometer-se nos assuntos políticos da América Latina e às vezes apoiar ditadores enquanto finge ser um amante da democracia sempre foi uma óbvia hipocrisia americana. Mas há uma ironia particular aqui em ver os conservadores americanos, que costumavam se gabar de que o principal produto de exportação dos Estados Unidos é a democracia, se reunirem para exportar o negacionismo eleitoral. Essa tentativa da direita de exportar essa ideia antidemocrática de que apenas as vitórias da direita são legítimas é preocupante. Mas há duas razões principais pelas quais é provável que falhe.

Primeiro, diferentemente de Trump, Bolsonaro está isolado. Alguns de seus aliados e apoiadores mais proeminentes já concederam a eleição a Lula, esmagando a possibilidade de inúmeras ações judiciais e falsas alegações que emanaram do Trump World após a eleição de 2020 e levaram a uma tentativa de golpe no Capitólio dos EUA em 6 de janeiro de 2021 .

“A principal diferença é que políticos poderosos de direita, aliados de Bolsonaro, todos se manifestaram assim que os resultados foram anunciados e aceitaram os resultados, parabenizaram Lula, o vencedor, e disseram publicamente que estavam dispostos e ansiosos para trabalhar com o Lula”, disse o professor de estudos latino-americanos de Harvard, Steven Levitsky , ao programa “Meet the Press Now” da NBC na quinta-feira .

Entendendo como funciona a democracia, esses mesmos bolsonaristas podem ser o espinho do mandato de Lula, já que terão poder político no país. Muitos desses mesmos políticos e seus apoiadores tentaram suprimir o voto do campo de Lula, mas uma vez que a eleição acabou, acabou, e eles perceberam a contragosto que haveria um novo presidente, uma percepção que Bolsonaro pode não ter aceitado, de acordo com para Lavitsky, se seus principais aliados não tivessem aceitado.

“Acho que Bolsonaro adoraria disputar a eleição. Bolsonaro adoraria derrubar a eleição, mas ele está sozinho e vai ter que aceitar sua derrota”, acrescentou Levitsky.

Tal admissão de Bolsonaro é realmente boa para o país profundamente polarizado.

O processo eleitoral do Brasil, mesmo com as falsas alegações de fraude de Bolsonaro, se manteve.

Há uma segunda razão pela qual a jovem democracia brasileira pode sobreviver a um de seus maiores desafios desde que foi formada em 1985, após décadas de ditadura militar. O Brasil emprega um sistema de votação eletrônica que leva a resultados e resoluções mais rápidos. Em um esforço para combater processos mais complicados e problemáticos a partir da década de 1990, o processo eleitoral do Brasil, mesmo com as falsas alegações de fraude de Bolsonaro, se manteve . Em contraste com o que os Estados Unidos provavelmente testemunharão durante as eleições de meio de mandato da próxima semana e o que ocorreu durante as mentiras de Trump em 2020, o Brasil parece estar à frente no jogo da democracia.

“Acho que essas eleições realmente mostraram que as instituições brasileiras e nossos sistemas de votação podem resistir à pressão, às críticas”, me disse a diretora de estratégias de contra-desinformação da Equis Research, Roberta Braga, que é brasileira, na Rádio Latino Rebels nesta semana . “As eleições foram conduzidas de maneira livre e justa, com alguns esforços preocupantes para reprimir os eleitores, incidentes isolados no dia, mas não interrupções em massa em escala”.

Mesmo com a esperada onda de desinformação que agora parece fazer parte de todas as grandes eleições ao redor do mundo, o Brasil passou por um grande teste de democracia esta semana. Bolsonaro está definitivamente fazendo um ato de equilíbrio ao reconhecer a frustração e a desconfiança que seus principais apoiadores sentem, mas até agora, mesmo com a direita dos EUA pressionando por um momento do tipo 6 de janeiro no Brasil, a realidade política parece estar se instalando.

As democracias só podem durar se todos os participantes, tanto os vencedores quanto os perdedores, fizerem o que puderem para protegê-las. Bolsonaro não abraçou totalmente a democracia esta semana depois de perder sua eleição, mas fez o suficiente para mantê-la relevante no Brasil. O mesmo não pode ser dito nos EUA, já que “mais da metade” dos candidatos republicanos de meio de mandato estão apoiando alguma posição de negação eleitoral, de acordo com uma nova análise da CBS News.

Isso é perigoso para a democracia nos EUA, e talvez nós, americanos, precisemos recorrer ao Brasil em busca de lições reais sobre como manter a democracia viva.


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Este texto escrito originalmnete em inglês foi publicado pela MSNBC   [Aqui!].

O troll mais rico do mundo agora controla o Twitter com mão de ferro

Após a aquisição do Twitter, metade da força de trabalho deve ser demitida. Enquanto o discurso de ódio está em alta na plataforma, alguns anunciantes já estão se afastando]

elon musk

Foto: Evan Agostini/Invision

Por  Joel Schmidt para o “Neues Deutschland”

Elon Musk comprou o Twitter. »Não!«, »Sim!« – »Ohh!«, vem à mente o diálogo cult do ator Louis de Funès. O desenvolvimento começou quando Musk se tornou o maior acionista do serviço de mensagens curtas na primavera e depois quis assumir a empresa inteiramente. Pouco depois, ele tentou sair do negócio novamente por conta de números supostamente errados por meio de contas falsas, mas sem sucesso. Depois de pagar US$ 44 bilhões, a pessoa mais rica do mundo não administra mais apenas a Tesla e a SpaceX, mas também o Twitter. Musk começou a transformar a empresa imediatamente depois de se nomear o “chief twit”. Entre os primeiros a perder seu posto foi Vijaya Gadde. Como Chief Counsel, ela foi a força motriz por trás da exclusão permanente do ex-presidente Donald Trump da plataforma no ano passado. Musk posteriormente demitiu o resto da equipe executiva, dissolveu o conselho de administração, colocou-se no comando da empresa como único gerente e a tornou pública. Ele também quer demitir mais da metade dos mais de 7.000 funcionários.

As medidas radicais têm impacto direto no que está acontecendo na plataforma. Musk se descreve como um defensor da liberdade absoluta de expressão– embora no passado ele não tenha tido nenhum problema em restringi-los para vozes excessivamente críticas. Em vez de moderar o conteúdo, essencial para as mídias sociais, seu credo é: o que é permitido de acordo com a legislação nacional pode ser dito. Como resultado, uma verdadeira onda de discurso de ódio já está varrendo o Twitter. Só o uso de termos racistas aumentou 1.700% em uma semana, relata a agência de notícias Bloomberg. Além disso, os funcionários do departamento de “confiança e segurança” da empresa não poderão mais impor sanções aos usuários se violarem as regras sobre discurso de ódio e desinformação. Isso deve ser de particular importância em relação às próximas eleições intermediárias nos EUA na próxima semana.

Musk precisa encontrar maneiras de ganhar dinheiro com o Twitter

Embora Musk valha mais de US$ 200 bilhões, ele também não financiou o acordo com o Twitter com dinheiro em caixa. Em vez disso, ele teve que atrair bancos e investidores e vender suas próprias ações da Tesla. Além disso, o Twitter teve que contribuir com US$ 13 bilhões em novas dívidas para sua própria aquisição, com juros anuais estimados em mais de US$ 1 bilhão. Destaque para uma empresa que nos últimos 16 anos de sua existência não brilhou exatamente com sua lucratividade. Para não ter que pagar do próprio bolso por perdas futuras, Musk precisa encontrar maneiras de ganhar dinheiro com o Twitter. Uma primeira tentativa não foi bem recebida pela maioria dos usuários. Os chamados ganchos azuis, que muitas vezes enfeitam as contas de políticos, jornalistas ou músicos e garantem a autenticidade dos perfis, custará oito dólares por mês no futuro – e pode ser usado por qualquer pessoa, e não como uma espécie de rótulo para fontes confiáveis, como foi o caso até agora agir.

Além das controversas tentativas de monetização, é sobretudo da publicidade que o novo proprietário também confia – afinal, 90% da renda foi alimentada até agora. Logo após a aquisição, Musk garantiu em uma carta à indústria de publicidade que a plataforma não se transformaria em um “inferno tumultuoso” sob sua liderança, “onde tudo pode ser dito sem consequências”. A pouca confiança que os destinatários da carta depositam em um proprietário que gosta de compartilhar teorias da conspiração e não faz segredo de suas visões libertárias de direita é mostrada pelas reações dos principais clientes de publicidade. Enquanto os fabricantes de automóveis General Motors e Volkswagen já se retiraram completamente da plataforma, o IPG, um dos maiores grupos de publicidade do mundo, fez uma recomendação aos seus clientes que

Contas de alto alcance estão sendo retiradas

O processo lembra o jornalista Matt Pearce de aquisições conhecidas da indústria da mídia. No Los Angeles Times ele escreve: “O Twitter é o jornal impresso dependente de publicidade que foi comprado por private equity, agora está pagando suas dívidas e cuja primeira tarefa é vender as propriedades, demitir funcionários, aumentar os custos de assinatura e esperar isso que a clientela principal não percebe que as coisas estão piores do que antes.«

Enquanto alguns dos ditos principais clientes se atrevem a tentar mudar para plataformas alternativas e não comerciais como o Mastodon, a questão permanece sobre o que o próprio Musk pretende fazer com o Twitter. De acordo com um estudo interno citado pela agência de notícias Reuters, a plataforma, com seus 238 milhões de usuários em todo o mundo, vem lutando com o número dos chamados tweeters pesados ​​desde o início da pandemia. Contas de alto alcance que tuitam várias vezes por semana. O explosivo: embora representem menos de dez por cento dos usuários mensais do Twitter, eles geram 90 por cento de todo o conteúdo da plataforma e, portanto, respondem por metade das vendas globais.

Twitter como meio de super app »X«

Após a aquisição, Musk escreveu que não comprou o Twitter para ganhar mais dinheiro. Em vez disso, seu raciocínio era: “Fiz isso para ajudar as pessoas que amo.” Além dessas palavras, ele estabeleceu a meta de aumentar as vendas anuais da empresa para mais de 26 bilhões até 2028. Para efeito de comparação: no ano passado foram cinco bilhões. Considera-se provável que o serviço de mensagens curtas seja um importante alicerce no caminho para o chamado super aplicativo “X”, do qual Musk falou com frequência e com o qual deseja fechar uma lacuna nos mercados ocidentais. Ele usa o WeChat chinês como modelo – um aplicativo com 1,2 bilhão de usuários, que é de grande interesse para os anunciantes porque combina uma ampla gama de opções sob o mesmo teto: incluindo serviços, notícias,

Uma verdadeira base de fãs se desenvolveu em torno de Elon Musk nos últimos anos, em cujos círculos o bilionário é cercado por uma certa aura de infalibilidade. Seja a produção em massa de carros elétricos ou a futura colonização de Marte – muitas coisas que inicialmente pareciam sonhos de repente parecem viáveis ​​graças ao homem de 51 anos. Além dos aspectos financeiros, é sobretudo uma certa confiança básica em sua obstinação empreendedora que se transformou em uma importante marca registrada. Mas com a aquisição do Twitter, ele poderia ter colocado isso em risco. Porque ele não conseguirá transformar a plataforma em um local de absoluta liberdade de expressão sem alienar importantes clientes publicitários.


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Este escrito originalmente em alemão foi publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

Após estímulo do atual governo e das Forças Armadas à destruição da Amazônia, Brasil deve investir na sociobiodiversidade da floresta

rio amazonicoAgência de Notícias do Acre / Flickr

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Há uma visão dominante entre membros do atual governo de que a Amazônia precisa ser ocupada, de forma rápida e através de atividades agropecuárias e extrativistas, para garantir a soberania do território brasileiro. Tais atividades são defendidas pelas Forças Armadas, influenciada por discursos consolidados no período da ditadura militar, de que a proteção viria da exploração. Esta concepção vai na contramão de uma economia de conhecimento da natureza, que poderia trazer diversos benefícios econômicos, sociais e ambientais ao país, incluindo o combate à criminalidade, a valorização da cultura, o aumento de investimentos estrangeiros para preservação e oportunidades de uso sustentável da floresta. Este panorama é descrito por Ricardo Abramovay, professor sênior na Universidade de São Paulo (USP), em artigo publicado na segunda (31) na revista “Estudos Avançados”.

O artigo traz uma narrativa que, nas palavras de Abramovay, funciona quase como uma denúncia. Trechos de discursos evidenciam a visão do governo brasileiro, resumida na fala do vice-presidente Hamilton Mourão no Webinar Brasil 2020 – 200 anos de Independência: “Uma das maiores questões que ameaça a soberania é a sustentabilidade.” O autor descreve o panorama da precariedade da governança florestal no Brasil, ilustrando a visão governamental e as reações da sociedade civil, ativistas, cientistas, empresas e governos estaduais ao aumento da destruição visto nos últimos anos.

Para Abramovay, tal visão vem do desconhecimento aliado a compromissos políticos e resulta na intensa destruição da Amazônia, acompanhada pelo fortalecimento de atividades ilegais e criminosas. Este processo envolve o desvirtuamento da função das Forças Armadas: “Em vez de protegerem a floresta e as populações da Amazônia, estão, sob o pretexto da soberania nacional, protegendo e estimulando a criminalidade, a destruição da floresta, o tráfico de madeira, o garimpo de ouro e a grilagem de terras.”

O pesquisador cita o combate à criminalidade como um dos possíveis benefícios de olhar a floresta amazônica de forma mais sustentável. O combate à emissão de gases emissores de efeito estufa também seria beneficiado pela redução do desmatamento, uma de suas principais causas. Além disso, a grande sociobiodiversidade das florestas tropicais detém alto potencial de geração de renda, luta contra a pobreza e inovação científica e tecnológica: “Estes militares preconizam formas de uso do território que não são capazes de aproveitar conhecimentos de povos da floresta e aquilo que a ciência hoje tem de mais avançado para dizer a respeito do uso sustentável da biodiversidade”, diz Abramovay.

Diante da destruição acentuada nos últimos anos, ativistas, empresários e outros atores relevantes têm se posicionado a favor de um novo olhar para a Amazônia. Para Abramovay, a unidade crescente entre os diversos setores da sociedade é fundamental neste cenário: “As práticas econômicas destrutivas são norteadas por uma cultura, por um jeito de olhar para o território, que tem de mudar e vai mudar, as vantagens de uma nova visão tem de aparecer e isso é fundamental”.


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Este texto foi originalmente publicado pela agência Bori [Aqui! ].