Pesquisa mostra como Amazônia isolada e abastecida a combustível fóssil encarece a conta de luz de todos os brasileiros

Estudo do CPI/PUC-Rio mostra como transição energética na Amazônia seria, além de positiva para o meio ambiente, sócio e economicamente eficiente

amazonia rio
Se, por um lado, a Amazônia se configura como uma grande exportadora de energia para o resto do país, por outro, internamente, parte da sua população está desconectada e esse descompasso reflete no bolso dos consumidores de todo o país. É o que mostra o estudo “Rios de diesel na Amazônia Legal: por que a região com as maiores hidrelétricas do país depende de combustível caro e poluente?”, do Climate Policy Initiative/Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (CPI/PUC-Rio), lançado nesta sexta-feira (03/06). 

Segundo o estudo, mais de 14% da população da Amazônia não tem acesso a energia gerada na região pelo Sistema Interligado Nacional (SIN), um sistema de produção e transmissão de energia elétrica, que liga as usinas aos consumidores do Brasil. Essa parcela da população local, cerca de 3 milhões de habitantes, é abastecida por usinas locais (em Sistemas Isolados), não conectadas ao SIN, em sua maioria termelétricas abastecidas a óleo diesel. Além disso, quase 1 milhão de pessoas vivem sem acesso perene à energia elétrica, contando com apenas algumas horas de energia por dia, por meio de geradores a diesel ou a gasolina. Muitas vezes o transporte do combustível até as usinas ou para ser utilizado em geradores é feito pelos rios e apresenta desafios logísticos.

A geração de energia nos Sistemas Isolados é mais custosa do que a no SIN – por ter como insumo o óleo diesel e apresentar menos economias de escala – e quem paga essa conta são os consumidores de energia elétrica através de encargo na conta de luz, explicam os pesquisadores do CPI. Isso acontece porque, para evitar que os habitantes dos Sistemas Isolados paguem uma conta de luz com valor superior à média nacional, o valor cobrado nessas localidades, excedente à média do custo de energia nacional, é rateado por todo o país por meio da chamada Conta Consumo de Combustíveis. Em 2022, o valor estimado é superior a R$ 10 bilhões, ou seja, um subsídio per capita superior a R$ 3 mil por habitante atendido pelos Sistemas Isolados.

 

Financiamento da CCC é custoso e tem aumentado ao longo do tempo

Contraste

Conforme o estudo do CPI, no Brasil, 82% da composição da geração de energia é renovável, enquanto a média mundial é de apenas 27%. O país tem grandes usinas hidrelétricas e as principais estão localizadas na Amazônia. Mas apesar da Amazônia Legal ter gerado 26% da energia elétrica consumida pelo Brasil em 2020, a região só consumiu 8% do total gerado. Existe um contraste entre o Brasil da energia renovável e interconectado e o Brasil isolado e abastecido a combustível fóssil. Mesmo com a Amazônia Legal gerando muito mais energia do que consome, disponibilizando-a para todo o país, parte da sua população não têm acesso a essa energia. 

De acordo com Amanda Schutze, coordenadora de Avaliação de Política Pública e Energia do CPI/PUC-Rio e coordenadora do estudo, os 3 milhões de habitantes amazônidas que dependem dos Sistemas Isolados moram em localidades remotas, mas também em centros urbanos com maiores demandas de energia. “O SIN, que chega na Amazônia para conectar as hidrelétricas, deixa de conectar várias localidades pela dificuldade de acesso, por questões ambientais, logísticas e econômicas”, explica a pesquisadora.

A análise de indicadores socioeconômicos feita pelo Climate Policy Initiative no estudo revela ainda que os municípios com Sistemas Isolados apresentam piores resultados, em média, em diversas áreas, tanto comparados à média regional quanto às médias de seus respectivos estados em relação aos municípios interconectados. Os municípios da Amazônia Legal com Sistemas Isolados apresentam menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH); menor Índice de Progresso Social (IPS); menor Produto Interno Bruto (PIB) per capita, menor Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) e menor quantidade de estabelecimentos de saúde por habitante.

 

 

Como sanar o problema

Uma transição energética na Amazônia seria uma solução que, além de ser positiva em termos ambientais, também representa uma menor conta de luz para todos os brasileiros.

O estudo ainda traz recomendações práticas para contribuir com a solução do problema de energia na Amazônia, pensando nessa transição, tais como: (I) a criação de condições favoráveis para que iniciativas renováveis de suprimento possam competir nos leilões para concessão do atendimento aos sistemas isolados, a partir da modificação das regras dos leilões. Isso porque o modelo de leilão atual torna muito difícil lances competitivos de iniciativas renováveis, sendo necessário também precificar o impacto ambiental da fonte de energia nos lances do leilão; (II) aprimorar o programa Mais Luz para a Amazônia, que se propõe a promover o acesso à energia elétrica em regiões não atendidas, por meio da criação de metas objetivas, incorporação de fiscalização efetiva e envolvimento das comunidades locais.

Para acessar a íntegra do estudo do CPI, clique aqui.

Políticas atuais trarão colapso climático ‘catastrófico’, alertam ex-líderes da ONU

Três ex-chefes climáticos da ONU dizem que a lacuna entre as promessas do governo e as ações mudará o meio ambiente de forma irreversível

lideres

Ativistas vestidos como líderes mundiais protestam ao lado do canal Forth and Clyde, em Glasgow, contra o aumento do nível da água durante a cúpula da Cop26. Fotografia: Dylan Martinez/Reuters

Por Fiona Harvey, correspondente de Meio Ambiente, para o “The Guardian”

As políticas atualmente em vigor para enfrentar a crise climática em todo o mundo levarão a um colapso climático “catastrófico”, já que os governos não tomaram as ações necessárias para cumprir suas promessas, alertaram três ex-líderes climáticos da ONU.

Há uma grande lacuna entre o que os governos prometeram fazer para proteger o clima e as medidas e políticas necessárias para atingir as metas. Na cúpula da Cop26 em novembro passado , os países concordaram em apresentar planos para limitar o aquecimento global a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais – o limite de segurança, segundo cientistas . Até agora, eles apresentaram promessas que limitariam as temperaturas a menos de 2°C .

Mas as políticas e medidas aprovadas e implementadas pelos governos levariam a aumentos de temperatura muito maiores, de pelo menos 2,7°C, muito além do limite de segurança relativa, e potencialmente até 3,6°C. Isso teria impactos “catastróficos”, na forma de clima extremo, elevação do nível do mar e mudanças irreversíveis no clima global.

Os três ex-diretores vivos da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas escreveram juntos no Guardian de quarta-feira – a primeira vez que escreveram juntos em um jornal – sobre as consequências desastrosas de não combinar as promessas nacionais sobre o clima com ações e políticas concretas para segui-los.

Eles escrevem: “No acordo de Paris de 2015 , todos os governos concordaram em ‘seguir esforços’ para limitar o aquecimento global a 1,5°C (34,7°F). Temos agora o direito de perguntar onde chegaram seus esforços, para onde estão indo e quão genuínos são. A ciência mostra que a ação nesta década para reduzir todos os gases de efeito estufa é crítica”.

Eles apontam para as conclusões do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, publicado no início deste ano , descrito como um “atlas do sofrimento” que mostrou a devastação generalizada que provavelmente ocorrerá se não combatermos as emissões de gases de efeito estufa com urgência.

“Os inúmeros relatos de clima extremo que testemunhamos em 2022 sugerem que não há tempo a perder”, escrevem eles. “Quanto mais as mudanças climáticas progridem, mais bloqueamos um futuro com colheitas mais arruinadas e mais insegurança alimentar, juntamente com uma série de outros problemas, incluindo aumento do nível do mar, ameaças à segurança da água, seca e desertificação. Os governos devem agir contra as mudanças climáticas e, ao mesmo tempo, lidar com outras crises urgentes”.

As ações dos países desenvolvidos até agora têm sido “decepcionantes”, por não terem conseguido reduzir as emissões com rapidez suficiente e por não disponibilizarem financiamento aos países mais pobres para ajudá-los a lidar com os impactos do colapso climático, acrescentam.

Os ex-altos funcionários da ONU – Michael Zammit Cutajar, Yvo de Boer e Christiana Figueres – ocuparam sucessivamente o cargo de secretário executivo da Convenção-Quadro da ONU sobre Mudança do Clima, tratado pai do acordo de Paris, que foi assinado há 30 anos nesta semana em a histórica Cúpula da Terra do Rio.

Este mês também marca o 50º aniversário da conferência de Estocolmo , quando representantes de todo o mundo resolveram pela primeira vez que o estado global do meio ambiente era motivo de preocupação, e uma ação internacional concertada era necessária para resolver problemas como poluição, perda de espécies, degradação e esgotamento de recursos.

O aniversário deve levar os governos a renovar sua determinação, apesar da geopolítica “gelada”, antes que seja tarde demais, escrevem os ex-funcionários da ONU. “A economia em rápida mudança significa que um futuro seguro para o clima também é mais próspero. A vontade do público – especialmente entre os jovens – de ver as mudanças climáticas restringidas é clara. Ao recordarmos a conferência de Estocolmo , precisamos que os líderes nacionais lembrem o que ela demonstrou sobre o potencial da ação cooperativa mesmo em tempos conturbados. Precisamos ver os líderes cumprindo suas promessas de mudança climática, no interesse das pessoas, da prosperidade e do planeta”.

À medida que os governos lidam com os altos preços da energia e o aumento dos preços dos alimentos, os ex-chefes climáticos da ONU defendem uma mudança rápida para a energia limpa, que agora é economicamente competitiva com os combustíveis fósseis. “A menos que se invista em combustíveis fósseis, agora não há razão para não seguir o caminho da energia limpa. Muitos atores corporativos entendem a necessidade de ação antecipada nessa frente. Mas os governos ainda precisam incentivar a transição”, escrevem.


compass black

Este texto foi originalmente escrito em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [Aqui! ].

O veneno está na mesa: equivalente a 140 carretas cheias com feijão de corda é apreendido no MT por contaminação com agrotóxico proibido

apreensão

Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e Instituto de Defesa Agropecuária do Estado de MT fizeram apreensão de 4,1 mil toneladas de feijão-caupi por contaminação com agrotóxico proibido— Foto: MAPA

Que o brasileiro está sendo servido com um coquetel de agrotóxicos todos os dias não é novidade. Mas agora surgem mais indícios que a contaminação está chegando com mais intensidade do que se reconhecia até recentemente. Um exemplo disso foi a apreensão de  4,1 mil toneladas de feijão-caupi (ou feijão de corda) em  Campo Novo do Parecis, município localizado a 397 km de Cuiabá, em atacadistas e distribuidoras por conterem um agrotóxico proibido para a cultura.

Para que se tenha ideia da dimensão desta apreensão individual é só pensar que seriam necessárias 140 carretas totalmente cheias para transportar essa quantidade de feijão-caupi contaminada por um agrotóxico que os técnicos do Ministério da Agricultura decidiram manter em sigilo. 

Tal sigilo em relação ao agrotóxico que causou a apreensão em Campo Novo do Parecis indica que muito provavelmente a toxicidade do mesmo é alta, e não ocorreu simplesmente porque o veneno agrícola não era destinado ao uso nas plantações de feijão-caupi.

É que, como demonstrado em um dos artigos em que contribui sobre o uso de agrotóxicos por agricultores familiares em Campos dos Goytacazes,  corriqueiramente há um uso cruzado de substâncias aprovadas para uma determinada cultura em outras que o emprego delas não foi autorizado. Assim, para retirarem essa quantidade de feijão-caupi a chance é que a toxicidade do agrotóxico usado de forma incorreta seja alta.

Baião de dois • Ana Maria Braga

Nem o baião de dois escapou da onda de contaminação por uso de agrotóxicos proibidos

De toda forma, como essa apreensão é como uma gota em um oceano de feijão-caupi produzido com agrotóxicos proibidos, o mais provável é que haja muito gente comendo “baião de dois” temperado com altos níveis de agrotóxicos.

 

Após polêmica com ponte, pesquisador da Uenf disponibiliza livro com diagnóstico da Lagoa de Cima

Prof.-Carlos-Rezende

O pr4ofessor Carlos Eduardo de Rezende coordenou a realização em 2006 de um diagnóstico socioambiental da Lagoa de Cima, um importante lacustre localizado na região Norte Fluminense

Após ler o texto publicado neste blog sobre a construção de uma ponte sobre a Lagoa de Cima que foi anunciada pelo prefeito Wladimir Garotinho, o professor Carlos Eduardo de Rezende, que atua no âmbito do Laboratório de Ciências Ambientais enviou uma versão digital do livro “Diagnóstico ambiental da área de proteção ambiental da Lagoa de Cima” que foi por mim mencionado.

O professor Carlos Eduardo de Rezende também considera que a obra continua atual e merecedora da devida atenção pelos interessados em conhecer melhor o rico ecossistema lacustre da Lagoa de Cima e, por isso, resolver disponibilizá-la via o “Blog do Pedlowski”.

livro lagoa

Quem desejar baixar a obra produzida por uma equipe de pesquisadores da Universidade Estadual do Norte Fluminense, basta clicar [Aqui!].

Saúde em jogo: 49 milhões de usuários de planos de saúde ameaçados de ter tratamentos negados por operadoras

TJ volta a discutir o rol de procedimentos de planos de saúde, a lista de atendimento obrigatório das operadoras; risco é de empresas terem o direito de negar tratamentos mais eficientes

rol

Em uma semana, na próxima quarta-feira (8), o Superior Tribunal de Justiça retoma, em definitivo, o julgamento que pode afetar mais de 49 milhões de usuários de planos de saúde e definir a extensão da lista de cobertura dos procedimentos e tratamentos publicada pela ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar).

O julgamento é decisivo para as pessoas que utilizam esse serviço, as quais podem ter o acesso de tratamentos e medicamentos negados pelas operadoras, tendo que arcar sozinhas com os custos.

“Trata-se de estabelecer a nova e perigosa interpretação de que o Rol de Procedimentos e Eventos da ANS é taxativo e não exemplificativo, como compreende hoje a maior parte da jurisprudência”, explica Ana Carolina Navarrete, coordenadora do Programa de Saúde do Idec. 

Desde a aprovação da Lei de Planos de Saúde, em 1998, o rol de procedimentos foi interpretado pela Justiça como exemplificativo, ou seja, a lista de procedimentos cobertos pelas operadoras é considerada referência mínima. Segundo esse entendimento, a cobertura vai além de seu conteúdo listado, incluindo, eventualmente, outros procedimentos prescritos por médicos que tenham eficácia comprovada. Em oposição, há o entendimento das empresas de que o rol seria taxativo, que delimita a lista de coberturas, não dando margem a outras interpretações.

A limitação da cobertura com o rol taxativo coloca as pessoas usuárias desse serviço em situação de extrema vulnerabilidade diante das operadoras de plano de saúde. O acesso a tratamentos e medicamentos, hoje protegidos pela Lei de Planos de Saúde e pelo Código de Defesa do Consumidor, pode ser negado, mesmo decorrente de  prescrições médicas. 

“A mudança dessa interpretação, como propõem a ANS e as operadoras, colocaria todo o sistema em uma situação de insegurança. Tratamentos diversos poderão ser negados a famílias com respaldo jurídico e o problema repercutirá também no sistema público de saúde com mais sobrecargas”, afirma Navarrete. E completa: “O rol taxativo significa um retrocesso para os direitos conquistados em 1998”. 

Justificativas controversas

O julgamento do caso no STJ teve início em setembro de 2021, mas foi interrompido no mesmo dia por um pedido de vista da ministra Nancy Andrighi. O relator da matéria, o ministro Luis Felipe Salomão, manifestou-se e, em seu voto, acolheu o argumento das operadoras de que coberturas mais amplas gerariam desequilíbrio financeiro no setor. 

Porém, nos últimos 10 anos em que vigorou o entendimento pelo rol exemplificativo, o setor cresceu como um todo. Segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), de 2014 a 2018, os lucros das empresas mais que dobraram. Além disso, a saúde suplementar foi um dos poucos setores que elevou seus ganhos durante a pandemia.

“Os argumentos de equilíbrio econômico das empresas são descabidos, como mostram os números da ANS, e não sustentam o argumento de colapso econômico comumente utilizados em prejuízo da saúde dos pacientes”, diz Navarrete.

Em fevereiro de 2022, o julgamento foi retomado no STJ e a ministra Nancy Andrighi abriu divergência dos argumentos de Salomão. Andrighi sustentou que a ANS não tem a prerrogativa de limitar o alcance das coberturas, quando a própria lei que regula o setor não o faz. A ministra também defendeu que o rol exemplificativo dá proteção ao consumidor contra a exploração predatória das empresas. Além disso, ela ainda utilizou dados do Ipea e da própria ANS para contestar a afirmação de que a manutenção do atual modelo encareceria as mensalidades dos planos.

A proteção de todos os consumidores em jogo

O Idec, enquanto instituição que luta pelos direitos de consumidores e que acompanha de perto o caso há anos, considera a mudança no caráter do rol um imensurável retrocesso aos direitos conquistados há mais de 20 anos. 

Se considerado taxativo, não haverá vitórias para a população, mas prejuízos sem precedentes em benefício de interesses estritamente financeiros por parte de empresas privadas – e com amparo jurídico. 

A instituição conclama o STJ a reiterar o entendimento histórico da própria Corte e de todos os tribunais do Brasil, que são predominantemente favoráveis à interpretação do rol exemplificativo. Para o Idec, é obrigação do Poder Judiciário garantir regras justas, que protejam todos os 49 milhões de usuários de planos de saúde – sejam eles pessoas com deficiências, autistas, com transtornos ou não – diante do interesse das empresas em reduzir suas obrigações e gastos assistenciais.

Caso contrário, o cenário será irreversível e os impactos serão múltiplos. E a ANS precisará arcar com as consequências de sua perda de credibilidade perante a sociedade de protegê-la e de fiscalizar os excessos das operadoras. 

Bela Vista Cultural aborda o protagonismo da sociedade civil em prol do Meio Ambiente em livro sobre as RPPNs do Espírito Santo

Com imagens inéditas do fotógrafo Silvestre Silva, a obra traz informações sobre 35 RPPNs e aspectos histórico-culturais do estado 

A Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) é uma unidade de conservação privada onde o proprietário, voluntariamente, decide proteger uma determinada área em caráter perpétuo. Tal iniciativa contribui em muito para o meio ambiente e permite a realização de ações derivadas, relacionadas à educação ambiental, à pesquisa e ao turismo sustentável, apresentando ao cidadão a importância da conservação da biodiversidade.

Hoje, o Brasil possui mais de 1.600 Reservas Particulares, que representam cerca de 800 mil hectares de áreas protegidas, em todos os biomas do País. No Espírito Santo, onde Mata Atlântica já ocupou praticamente todo o estado, são 57 RPPNs reconhecidas, que abrigam remanescentes florestais resistentes ao povoamento, às plantações, às pastagens para a pecuária e ao desmatamento.

Além da natureza, outro diferencial destas reservas fica por conta das histórias das pessoas físicas e jurídicas que mantêm estas propriedades e estão presentes no livro “Cultura e Natureza – RPPNs do Espírito Santo”, lançamento da editora Bela Vista Cultural, em parceria com a ACPN (Associação Capixaba do Patrimônio Natural).

O livro é o resultado prático de uma expedição realizada em 2021 pela equipe da editora e da ACPN, com a participação do fotógrafo Silvestre Silva, com vasta experiência na área de botânica, que visitou 19 municípios capixabas, registrando imagens inéditas e colhendo informações sobre as RPPNs incluídas na obra. Além de trazer informações, fatos curiosos, histórias de vida e dados sobre a fauna e a flora presentes nestas reservas, o livro também aborda o contexto em que foram criadas e as características humanas, históricas e culturais dos municípios e diferentes regiões capixabas onde estão presentes.

“O trabalho de campo foi muito gratificante. Primeiro pela beleza das paisagens, com suas montanhas, matas, praias e rios. Segundo pelo lado humano – os donos das RPPNs nos atenderam com uma hospitalidade difícil de esquecer. O nosso desafio foi o de retribuir esse carinho e mostrar toda essa riqueza ao leitor”, afirma Sérgio Simões, coordenador editorial da Bela Vista Cultural e membro da equipe de campo.

Apesar de ser o 4º menor estado brasileiro, o Espírito Santo abriga uma variedade de populações, culturas, crenças e costumes traduzidos em danças típicas e festas que fazem parte do seu calendário anual. O livro também faz um passeio por toda essa diversidade cultural, além de destacar o papel do ecoturismo em Reservas Particulares, que pode ser praticado em municípios como Vargem Alta, Santa Tereza, Santa Leopoldina, Piúma, Muniz Freire e Marechal Floriano, entre outros.

A obra faz parte de uma ação mais ampla, realizada por meio da Lei de Incentivo à Cultura, com patrocínio do Grupo Águia Branca e da empresa Decolores, que visa promover a doação de exemplares do livro para escolas públicas e entidades parceiras para disseminar a mensagem preservacionista da proposta. A segunda etapa do projeto ocorrerá no início de junho, quando a equipe voltará a percorrer diferentes municípios capixabas e desta vez visitar mais de 80 escolas e entidades que participarão das ações de divulgação da iniciativa cultural.

Esta é a segunda edição de uma série nacional de projetos culturais sobre este tipo de Reservas Particulares, dando continuidade a uma ação similar que ocorreu em 2018, no estado de São Paulo, que promoveu a doação de livros e apresentações em escolas que abrigavam cerca de 140 mil estudantes.

Sobre a Bela Vista Cultural

A Bela Vista Cultural é uma editora e produtora especializada no desenvolvimento de ações de impacto social voltadas à divulgação de temas urgentes e contemporâneos, em áreas como Cultura, Educação, Meio Ambiente, Artes Plásticas e Patrimônio. As propostas da empresa estão sempre voltadas à difusão dos assuntos trabalhados junto a entidades de ensino e de cultura, estimulando o diálogo e a continuidade das iniciativas abordadas nos produtos realizados.

Sobre a ACPN – Associação Capixaba do Patrimônio Natural

A entidade busca congregar proprietários de RPPN e outras reservas promovendo o intercâmbio de informações entre os RPPNistas, Poder Público, ONGs e sociedade em geral. Estimula a criação de novas Reservas Privadas e divulga todas as suas atividades, contribui com o poder publico na implementação de políticas voltadas à conservação privada e representa os interesses dos RPPNistas na aplicação dos princípios definidos no Programa Estadual Apoio e Incentivo RPPNs

Wladimir Garotinho e sua bizarra ideia de construir uma ponte sobre a Lagoa de Cima

DCIM100MEDIADJI_0647.JPG

Li com alguma incredulidade a informação de que o prefeito Wladimir Garotinho em sua recente à Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) teria anunciado a construção de uma ponte sobre o espelho da Lagoa de Cima, uma unidade de conservação ambiental criada via a Lei Municipal No. 5.394 de 24 de Dezembro de 1992 nos estertores do primeiro mandato de prefeito de Anthony Garotinho, que vem ser o pai mais famoso do jovem alcaide campista (ver imagem abaixo).

lagoa de cima

A ideia de construir uma ponte sobre um ambiente lacustre que já se encontra sob forte pressão me faz pensar que, ao contrário do pai que mostrou em 1992 estar antenado com as preocupações ambientais emanadas naquele ano do interior da  Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro naquele mesmo ano, Wladimir está mais alinhado com as posturas de outro prefeito notório, Zezé Barbosa, que resolveu dividir outra famosa lagoa campista, a do Vigário,  para a construção de uma avenida sobre seu leito. 

A volta ao passado já tinha sinalizada por Wladimir Garotinho quando ele decidiu extinguir a secretaria municipal de Meio Ambiente, mas agora com a proposta de construção de uma ponte (que poderia ser chamada de Ponte Zezé Barbosa) sobre a Lagoa de Cima, a regressão está clara e escancarada.  E desde já sinalizo que essa proposta indecorosa não poderá ser tolerada, seja por quem se beneficia dos serviços ambientais propiciados por aquele importante ecossistema lacustre, mas também pelas autoridades judiciais.

É que não se for tolerada a construção dessa ponte sobre a Lagoa de Cima as consequências ambientais, bem como os prejuízos econômicos e culturais, serão inevitáveis.  O curioso é que no já distante ano de 2006, sob o comando científico do professor Carlos Eduardo de Rezende, dois laboratórios da Universidade Estadual do Norte Fluminense (o de Ciências Ambientais (LCA) e o de Estudos do Espaço Antrópico (LEEA), produziram um estudo detalhado sobre a Lagoa de Cima que foi transformado no livro intitulado “Diagnóstico ambiental da área de proteção ambiental da Lagoa de Cima” (ver imagem abaixo).

diagnóstico lagoa de cima

Essa obra trouxe não apenas informações sobre as características ambientais da Lagoa de Cima, mas uma série de informações importantes para a sua gestão sustentável. Lamentavelmente todas as informações contidas na obra, ainda que entregues em cerimônia pública a gestores municipais e posteriormente ao Ministério Público Estadual, na figura do falecido promotor de justiça Marcelo Lessa, nunca foram devidamente aproveitadas. No entanto, me atrevo a dizer que tanto o diagnóstico como as linhas mestras para o ordenamento e uso sustentável da APA da Lagoa de Cima continuam atuais.

Em função disso tudo é que será necessária uma mobilização urgente para impedir que a ponte Zezé Barbosa jamais saia dos planos mirabolantes de Wladimir Garotinho. Afinal de contas, não é possível que em pleno século XXI ainda se tolere ações que já estão para lá de ultrapassados. Essa ponte para o passado proposta por Wladimir não pode ser tolerada. Simples assim.

E antes que eu me esqueça, uma humilde sugestão ao prefeito: seja mais como seu pai foi, e menos Zezé Barbosa.  A natureza certamente vai agradecer!  Para quem tiver dúvida disso, sugiro que assista o vídeo abaixo que é bem ilustrativo das belezas da Lagoa de Cima.

Quem viveu a idade de ouro dos shows em Campos dos Goytacazes não se choca com a farra sertaneja revelada (sem querer) por Zé Neto

Anitta-e-Ze-Neto

Quem vive em Campos dos Goytacazes há mais de duas décadas como é o meu caso não pode estar  surpreso com o imbróglio envolvendo os shows de artistas sertanejos pagos regiamente com dinheiro público. É que aqui na capital mundial do chuvisco ocorreram nos primeiros anos da década de 2000 shows com os principais artistas brasileiros reunidos no tradicional Jardim São Benedito, sem que se soubesse muito bem quanto estava se gastando, sob o pomposo nome de “Viva Melhor, Viva Música” (ver imagem abaixo).

Políticas públicas de lazer em Campos dos Goytacazes: o que é ruim sempre  pode piorar | Uma edição dominical do “Viva Melhor, Viva Música” no Jardim São Benedito na região central da cidade de Campos dos Goytacazes

O mais interessante é que enquanto a classe média se divertia no Jardim São Benedito com nomes para lá de conhecidos, aos moradores dos bairros periféricos restava a locomoção até o Farol de São Thomé para presenciar shows de artistas locais, muitos dos quais depois passavam um verdadeiro perrengue para receber cachês mais modestos.

Esse acesso diferenciado aos shows foi meticulosamente documentado pela minha orientanda Denise Rosa Xavier que se tornou Mestre em Políticas Sociais após defender com sucesso a dissertação intitulada “Políticas de Lazer e Segregação Sócio-Espacial: o Caso de Campos dos Goytacazes (RJ).

A Telhado de Vidro acabou com a festa campista

O intenso uso de verbas públicas oriundas dos royalties do petróleo continuou firme até meados de 2008 quando ocorreu a famosa “Operação Telhado de Vidro” que resultou na prisão de quatorze pessoas, incluindo empresários, dois secretários municipais e o então procurador-geral do município. A Telhado de Vidro resultou ainda no afastamento temporário do cargo do então prefeito Alexandre Mocaiber. Naquela época a bagatela envolvida foi de alegados R$ 240 milhões de dinheiro público que teria sido desviado para, entre outras coisas, a realização de shows no Farol de São Thomé.

O que muita gente já não deve lembrar é que o nome “Telhado de Vidro” porque uma da empresas envolvidas nos casos de shows superfaturados se chamava “Telhado de Vidro Produções Artísticas” que faria parte de uma espécie de holding de empresas de shows pertencentes ao empresário Antônio Geraldo Seves.

Os shows sertanejos com dinheiro público podem ser o “Telhado de Vidro” da vez, só que em escala maior

Se os preços de shows praticados em Campos dos Goytacazes até a eclosão da “Telhado de Vidro” em 2008 fossem ajustados para os dias atuais não seria de se surpreender que estivessem no mesmo patamar.  Mas a semelhança não pararia por ai, pois se em Campos os shows eram pagos com recursos oriundos dos royalties do petróleo, ao menos no caso do show do cantor Gustavvo Lima que foi cancelado em Conceição do Mato Dentro (MG), os recursos para pagamento do artista viriam do Fundo de Compensação Financeira pela Exploração Mineral (Cfem)  que é pago pelas mineradoras às cidades onde há mineração . Em outras palavras, de roaylties da mineração.

Desta forma, dadas as semelhanças iniciais, não me surpreenderia que no caso de uma apuração mais ampla se descobrisse o uso de todo tipo de recursos que deveriam estar servindo para melhorar a qualidade de serviços públicos essenciais como saúde, educação, transporte e habitação. Aliás, quem quiser vir a Campos dos Goytacazes e se informar sobre a herança trágica deixada pelos shows superfaturados ainda encontrará muitas testemunhas oculares da idade de ouro dos shows turbinados com royalties do petróleo.

 

Do glifosato ao glufosinato: o aprofundamento de um modelo de deterioração socioambiental na Argentina pelas mãos da “geração HB4”

trigo limpo

Por Coletivo Trigo Limpo

Este trigo, projetado para tolerar o estresse hídrico e o herbicida glufosinato de amônio, é um novo recurso técnico-científico para expandir um modelo de agricultura extrativista baseado no objetivo de produzir commodities e ganhar dólares, de mãos dadas com práticas que aumentaram a concentração de riqueza , a exclusão das populações rurais e indígenas, bem como a deterioração da saúde humana e do meio ambiente.

A recente resolução 2022-27APN-SABYDR#MAGYP publicada em 12.5.2022 autoriza a liberação comercial do Organismo Vegetal Geneticamente Modificado (OGM) trigo IND-ØØ412-7 (Hb4).

Este trigo, projetado para tolerar o estresse hídrico e o herbicida glufosinato de amônio, é um novo recurso técnico-científico para expandir um modelo de agricultura extrativista baseado no objetivo de produzir commodities e ganhar dólares, de mãos dadas com práticas que aumentaram a concentração de riqueza , a exclusão das populações rurais e indígenas, bem como a deterioração da saúde humana e do meio ambiente.

As práticas hegemônicas da agricultura industrial estão fortemente relacionadas ao desmatamento e contaminação por agroquímicos (Angelsen e Kaimowitz 2001), com a deterioração da fertilidade do solo, do patrimônio genético, com o despovoamento rural, com maior desigualdade, com a perda da soberania alimentar, e com o aumento dos conflitos territoriais, entre muitos outros problemas que podemos citar.

Na Argentina, segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Pesca (MAGyP), desde a autorização da soja RR em 1996 até a primeira variedade transgênica de trigo aprovada em 2020, foram autorizados 62 eventos transgênicos. Cinquenta deles foram projetados para serem tolerantes a pesticidas. A maioria foi solicitada por 9 empresas transnacionais, lideradas pela Monsato-Bayer, que é responsável por 25 dessas variedades transgênicas. Além disso, é notável o aumento da introdução de caracteres combinados em variedades geneticamente modificadas que foram aprovadas em nosso país (também chamadas de “eventos empilhados” segundo Pilacinski et al. 2011). É o caso de várias variedades transgênicas nas quais foram introduzidos genes de tolerância conjunta ao glifosato e ao glufosinato de amônio. De acordo com o banco de dados MAGyP, existem atualmente 23 eventos transgênicos aprovados com tolerância conjunta a ambos os herbicidas, principalmente em variedades de milho, soja e algodão. Há também eventos de tolerância a outros herbicidas como dicamba e 2,4D, entre outros.

A isso se soma a recente aprovação do trigo transgênico HB4, tolerante à seca e glufosinato de amônio. A República da China aprovou recentemente a comercialização de soja tolerante à seca mais glifosato e glufosinato de amônio, um desenvolvimento produzido entre o CONICET e a empresa Bioceres, previamente aprovado na Argentina em 2018 (base de dados ArgenBio 2022). A notícia teve pouca repercussão na mídia, mas a aprovação da China, maior compradora de soja da Argentina (Sly 2017), sem dúvida resultará não apenas em maior contaminação por agroquímicos, o que por si só já é muito alto e inaceitável, mas também na expansão das lavouras de soja em detrimento dos ecossistemas semiáridos na Argentina. Desmatamento de ecossistemas secos tropicais e subtropicais (Grau et al. 2005; Aizen 2020) é uma prática claramente irresponsável no contexto dramático da mudança climática global que estamos passando (Siyum 2020). Nesse sentido, cabe destacar que os atuais modos de produção e apropriação da natureza em sinergia com as mudanças climáticas derivadas do aquecimento global e a consequente perda da biodiversidade, aproximam perigosamente a biosfera dos limites da possibilidade da própria vida. Por isso, é urgente pensar em novas formas de produzir alimentos saudáveis ​​em contextos socioambientalmente justos, ao invés de continuar repetindo a mesma receita que está gerando tantos problemas. Embora o desenvolvimento do trigo Hb4 seja promovido como uma solução combinada para o problema da seca e da fome, o resultado provável é que servirá apenas para aprofundar ambos os problemas,

Hoje sabemos que os problemas socioambientais que enfrentamos são de natureza complexa, envolvem múltiplos atores e se expressam em várias escalas de espaço e tempo. Por isso, sua abordagem requer um tratamento interdisciplinar e instâncias de participação democrática que possibilitem um diálogo horizontal entre o conhecimento científico e o conhecimento das comunidades e povos indígenas que lidam com esses problemas em seus territórios. Sabemos que a ciência tem contribuído para a melhoria da qualidade de vida das pessoas, mas também destacamos que muitos dos desenvolvimentos técnico-científicos atuais estão impactando negativamente, sendo funcionais ao atual sistema produtivo e grandes responsáveis ​​pela crise ambiental em que vivemos nos encontramos, nos encontramos imersos Ciência e Tecnologia, como qualquer outra atividade humana, não são neutras e, sem dúvida, são atravessadas por valores e interesses. Por isso, suas prioridades e seus significados devem ser objeto de um amplo debate social, que enseje acordos sobre como queremos viver em territórios que produzam alimentos saudáveis, com projeção para níveis mais elevados de equidade e justiça socioambiental . Mas esse debate necessário é notável por sua ausência.

É preocupante a insistente instalação da imagem de cientistas destacados para justificar o desenvolvimento de políticas que nada mais são do que funcionais aos interesses econômicos ligados aos setores concentrados do poder. Apelam-se a visões tendenciosas, setores particulares do campo acadêmico que partem de saberes que são fragmentos e reduções da realidade e que assumem interesses e critérios éticos particulares. Ao contrário, os demais setores que não concordam com essa visão hegemônica são constantemente menosprezados, apresentando-os como obstáculos ao desenvolvimento do país, ainda que o acúmulo de evidências científicas não acompanhe, mas contrarie essas visões hegemônicas, reducionistas e sem licença comunitária.

Após mais de 25 anos de sua instalação e constante expansão, os impactos do modelo soja são visíveis. Os benefícios da semeadura direta para a conservação do solo desmoronaram com a introdução do pousio químico à base de glifosato. Sucessivas evidências de deterioração nos agroecossistemas e na saúde surgiram, detectadas e denunciadas por cidades fumigadas e ilustradas pelos resultados de inúmeras investigações científicas. Também pelo triste destino sofrido nas últimas décadas pelas florestas do Chaco, seus habitantes e sua biodiversidade, devastada pela ganância ilimitada no que diz respeito ao desempenho econômico do agronegócio. Da mesma forma, a promessa de crescimento e bem-estar está em desacordo com os níveis crescentes de dependência econômica, com o aumento escandaloso da pobreza,

O nosso país, submerso numa das suas piores crises económicas, com custos sociais extremamente elevados, e no contexto de uma crise socioeconómica global marcada por interesses geopolíticos, assim como ganância e intolerância, enfrenta desafios profundos, sendo um dos principais a necessária a transição do modelo extrativista para formas de produção e consumo solidárias, amigas do meio ambiente e da saúde de nosso povo, que contribuam para o bem viver. Apesar disso, o governo nacional decide mais uma vez optar pela continuidade da expansão de um modelo agroexportador que aprofunda a primarização da economia, concentra a riqueza e privilegia os retornos de curto prazo de alguns sobre o bem-estar da população. Mesmo multiplicando a bateria de agroquímicos já utilizados: herbicidas, inseticidas e fungicidas, que, somado à aprovação da Hb4 de trigo e soja, autoriza formalmente o uso do glufosinato de amônio. Apesar de vários funcionários e pesquisadores afirmarem desde a primeira instância de aprovação do trigo Hb4 em 2020 que os transgênicos que conferem tolerância ao glufosinato de amônio a esse evento eram apenas marcadores residuais da técnica usada para introduzir tolerância à seca, e garantiram que o glufosinato não seria utilizado em culturas, não há dúvida de que isso não corresponde aos termos da aprovação ou à política de comercialização da empresa Bioceres. Os próprios fundamentos da Res.27/2022 do MAGyP mencionam um parecer que -referindo-se ao glufosinato de amônio-, afirma que “estima-se que isso será uma nova alternativa para otimizar o controle de plantas daninhas na cultura do trigo e aumentar a produtividade em situações de estresse hídrico”. O glufosinato de amônio é um produto químico cujo risco é classificado pelo SENASA como faixa azul (15 vezes mais tóxico que o glifosato catalogado na faixa verde).

Para entender mais claramente qual é a lógica desses desenvolvimentos para perpetuar o agronegócio, é interessante conhecer o depoimento de quem os promove e se beneficia economicamente deles. Durante o 2020 China Formulation Innovation Summit, o diretor de P&D da Dow Chemical Asia Industrial Solutions, Dr. Jeff Mu, fez a seguinte pergunta para os participantes da indústria agroquímica da China: “Qual é o desenvolvimento sustentável da indústria agroquímica da China? A resposta do CEO Rajan Gajaría, vice-presidente executivo de Plataformas de Negócios da Corteva Agroscience, foi contundente “Não temos uma estratégia de sustentabilidade, temos um negócio que é sustentável”. De acordo com a meta para 2030 dessa empresa, sustentabilidade é uma espécie de interação entre sua produção e “soluções” para a sociedade como estratégia de negócios. Uma confissão de partes, retransmissão de provas. Da mesma forma, a empresa Bioceres comercializa seus novos eventos Hb4 soja e trigo como um “pacote tecnológico” que inclui o herbicida glufosinato de amônio, como pode ser visto em anúncios e treinamentos na WEB (ver:https://youtu.be/Jp2fBFJCVJE a partir do minuto 3.05).

Um aspecto fundamental para entender a tecnologia dos eventos empilhados é que, como na maioria das embalagens da agricultura transgênica, eles constituem uma “estratégia de negócios” para a venda cada vez maior de herbicidas e outros agroquímicos, sem levar em conta os danos que causam. causar saúde e meio ambiente. É importante considerar que muitas das empresas de sementes que produzem variedades transgênicas, principalmente as quatro maiores do mercado global (chamadas “Big 4”), também produzem e comercializam herbicidas, multiplicando assim seus lucros ao aumentar a dependência dos produtores ao impor a pacote tecnológico. Os valores éticos, políticos, sociais e ambientais associados a este tipo de lógica mercantilista nada têm a ver com o bem-estar do nosso povo,

No caso do glufosinato de amônio, Tianyu Dong (2020) mostrou que a exposição a esse herbicida durante o período pré-natal gera atividade locomotora reduzida, produzindo mecanismos de memória prejudicados e comportamentos semelhantes ao autismo em modelos experimentais de mamíferos. Outra investigação relevante do ano de 2018, publicada no International Journal of Environmental Pollution da Universidade Nacional Autônoma do México, constata que o glufosinato de amônio altera a qualidade (morfologia, mobilidade) e o DNA do esperma de mamíferos. De fato, a União Européia (Regulamento (CE) nº 1107/2009) determina que esta substância é proibida para todos os usos na categoria de “pesticidas”. Não há muito mais a acrescentar sobre os danos que -se não houver volta- este novo pacote tecnológico causará à saúde, apenas alertar sobre qual é o destino de grande parte das exportações argentinas de trigo: outros países pobres (ou poderíamos chamá-los de zonas de sacrifício). Dada a resposta de que as possíveis consequências deste pesticida se devem ao uso indevido ou à não aplicação de “boas práticas”, basta percorrer a bibliografia disponível para analisar em que locais e grupos de organismos, em que não devem ser encontrados, foram detectados os principais herbicidas aplicados, como é o caso do glifosato.

Por tudo isso, as políticas públicas relacionadas a esse problema fazem nascer a crença de que o Estado Nacional abandona a indelegável responsabilidade constitucional de proteger a população como um todo para proteger os interesses das empresas, em especial do grupo Bioceres e da empresa de serviços pesquisa e desenvolvimento (Indear ).

Consequentemente, solicitamos ao Governo Nacional que revogue RESOL-2022-27-APN-SABYDR#MAGYP. Ao mesmo tempo, tendo aprovado a República Argentina por lei nacional o Acordo de Escazú (Lei nº 27.566), exigimos que ela honre os compromissos assumidos, facilitando o acesso à Informação e possibilitando instâncias para a participação pública nas decisões relacionadas a questões ambientais. sensíveis como os expostos aqui. Além disso, solicitamos que sejam promovidas leis, atualmente atrasadas no Congresso Nacional, que promovam e financiem o acesso a modelos alternativos de produção e consumo condizentes com abordagens agroecológicas, agricultura familiar, acesso à terra, entre muitas medidas que possam pensar como alternativas à pecuária industrial.

Bibliografia e links consultados

  • Aizen M. 2021. Desmatamento no Gran Chaco: a bomba de carbono que o mundo ignora. Mongabay, Jornalismo Ambiental Independente na América Latina.  https://en.mongabay.com/2021/06/deforestation-gran-chaco-carbon-bomb/
  • Schmidt, M., Toledo López, V., Tobías, M., Grinberg, E., Merlinsky, G.. Conflito socioambiental pelo uso de agroquímicos em Salta, Santiago del Estero e Santa Fe, Argentina. Cien Saude Colet [jornal online] (2021/mar). [Citado em 26/05/2022]. Está disponível em:  http://www.cienciaesaudecoletiva.com.br/artigos/conflictividad-socioambiental-por-uso-de-agroquimicos-en-salta-santiago-del-estero-y-santa-fe-argentina/17986 ? id=17986
  • Schmidt, M. e V. Toledo López. «Agronegócio, Impactos Ambientais e Conflitos pelo Uso de Agroquímicos no Norte da Argentina». Revista Kavilando, Vol. 10, No. 1, Fev. 2018, págs. 162-79,  https://www.kavilando.org/revista/index.php/kavilando/article/view/218 .
  • Angelsen, A. & Kaimowitz, D. (eds.). 2001. Tecnologias Agrícolas e Desmatamento Tropical. Editora CABI, Wallingford, Reino Unido
  • ArgenBio©, 2022. Conselho Argentino de Informação e Desenvolvimento de Biotecnologia. Culturas transgênicas aprovadas na Argentina. www.argenbio.org/cultivos-transgenicos (Acessado em 30 de abril de 2022).
  • Dong, T., Guan, Q., Hu, W., Zhang, M., Zhang, Y., Chen, M., … & Xia, Y. (2020). A exposição pré-natal ao glufosinato de amônio perturba o microbioma intestinal e induz anormalidades comportamentais em camundongos. Journal of Hazardous Materials, 389, 122152.
  • Grau HR, Aide TM & Gasparri NI 2005. Globalização e Expansão da Soja em Ecossistemas Semiáridos da Argentina. AMBIO: A Journal of the Human Environment 34(3), 265-266, (1 de maio de 2005). https://doi.org/10.1579/0044-7447-34.3.265
  • MAGyP, Ministério da Agricultura, Pecuária e Pesca, (acessado em maio de 2022)  https://www.argentina.gob.ar/agricultura/alimentos-y-bioeconomia/ogm-vegetal-eventos-con-autorizacion-comercial
  • Pilacinski W, Crawford A, Downey R, Harvey B, Huber S, Hunst P, Lahman LK, Macintosh S, Pohl M, Rickard C, Tagliani L & Weber N. 2011 Plantas com eventos geneticamente modificados combinados por melhoramento convencional: uma avaliação de a necessidade de dados regulamentares adicionais. Alimento Químico Toxicol. Jan;49(1):1-7. doi: 10.1016/j.fct.2010.11.004.
  • Siyum, ZG 2020. Dinâmica das florestas tropicais secas no contexto das mudanças climáticas: sínteses de drivers, lacunas e perspectivas de gestão. Processo Ecológico 9, 25 https://doi.org/10.1186/s13717-020-00229-6
  • Sly MJH (2017) A parcela argentina da cadeia de commodities da soja. Palgrave Comunicações. 3:17095 doi:10.1057/palcomms.2017.95.

Fonte: Coletivo Trigo Limpo –  colectivo.trigolimpio@gmail.com


compass black

Este texto foi originalmente escrito em Espanhol e publicado pela BiodiversidadLA [Aqui!]

Graças à tatuagem revolucionária feita por Anitta, finalmente descobrimos os meandros do financiamento público da ideologia “agro” na música brasileira

anitta

Para quem achava que apenas as redes de TV serviam como braço ideológico do latifúndio agro-exportador rebatizado de “agronegócio” agora sabe que não.  Tudo isso graças à decisão inoportuna do cantor “Zé Neto” que decidiu partir para cima da cantora Anitta por causa de uma tatuagem que ela fez na sua região anal em 2021. 

O problema é que  Zé Neto (na verdade o paulista José Toscano Martins Neto) tivesse ficado apenas na crítica à região tatuada tudo teria morrido em um momento de empolgação. O problema é que Zé Neto resolveu optar por um ataque tosco (me desculpem o trocadilho infame) sobre uma possível dependência financeira de Anitta (o que está longe de ser verdade) da captação de recursos via a Lei Rouanet que, para começo de conversa, nem deveria ser problema para quem quer seja.

É que graças a uma série de posts do jornalista Demétrio Vecchioli na rede social Twitter, o Brasil ficou finalmente ciente de uma verdadeira orgia com recursos públicos para pagamento de shows que invariavelmente reúnem artistas que são ligados direta ou indiretamente ao agronegócio, e que combinam o engordamento das suas contas bancárias com a divulgação de elementos de uma ideologia que valoriza a monocultura de exportação que está na base, entre outras coisas, do desmatamento da Amazônia, do uso intensivo e abusivo de agrotóxicos e, não raramente , o emprego da mão-de-obra escrava.

O caso é que desde que Zé Neto resolveu vociferar contra Anitta, já sabemos que muito dinheiro que deveria estar sendo usado para financiar educação, saúde e habitação em cidades médias e pequenas estava tomando destino indevido. O maior exemplo desse descaminho de verbas acabou pegando outro astro do sertanejo, o cantor bolsonarista Gustavvo Lima iria abocanhar R$ 2 milhões, sendo R$ 1,2 milhões apenas no show que ele realizaria no município de Conceição do Mato Dentro em Minas Gerais.

Agora ficamos sabendo que um fundo de investimentos ligado ao mesmo Gustavvo Lima, o One7 (quer dizer 17, número eleitoral do PSL que era o partido pelo qual Jair Bolsonaro se elegeu presidente) obteve um financiamento público junto ao BNDES de R$ 320 milhões cuja finalidade era, pasmemos todos,   adiantar “o pagamento de espetáculos a artistas, com desconto, e depois embolsar o valor cheio pago por quem contrata os shows“.

Ivan Valente on Twitter: "O tal de Ze Neto e o tal de Gusttavo Lima são  típicos bolsonaristas. Adoram falar de armas, mas vivem dando tiro no  próprio pé." / Twitter

E a bola de neve das revelações sobre o uso de verbas públicas para contratar shows “sertanejos” não deverá parar de crescer tão fácil, pois vivemos um ano eleitoral em que normalmente chances douradas como essa não são desperdiçadas por quem está na oposição. Fala-se até em uma CPI sertaneja para investigar quanto dinheiro público escorreu para dentro das contas bancárias dos artistas que ajudam a disseminar a imagem de que “O agro é pop”.

No entanto, me parece que o estrago está feito, e as torneiras que vinham jorrando com abundância vão secar, ao menos no momento.  E só por isso temos que agradecer a Zé Neto e, por que não, ao tororó da Anitta. É que por causa da confusão iniciada na pacata Sorriso (que fica no coração do agronegócio mato-grossense), agora sabemos que há sim uma relação umbilical entre o tal “sertanejo universitário” e a naturalização da destruição ambiental causada pelo agronegócio por meio da hegemonia ideológica exercida sobre a programação musical de estações de rádios e de TV de todo o Brasil.  Minhas saudações à Anitta e sua tatuagem que nos trouxeram, ainda que inadvertidamente, revelações tão preciosas.