Graças à tatuagem revolucionária feita por Anitta, finalmente descobrimos os meandros do financiamento público da ideologia “agro” na música brasileira

anitta

Para quem achava que apenas as redes de TV serviam como braço ideológico do latifúndio agro-exportador rebatizado de “agronegócio” agora sabe que não.  Tudo isso graças à decisão inoportuna do cantor “Zé Neto” que decidiu partir para cima da cantora Anitta por causa de uma tatuagem que ela fez na sua região anal em 2021. 

O problema é que  Zé Neto (na verdade o paulista José Toscano Martins Neto) tivesse ficado apenas na crítica à região tatuada tudo teria morrido em um momento de empolgação. O problema é que Zé Neto resolveu optar por um ataque tosco (me desculpem o trocadilho infame) sobre uma possível dependência financeira de Anitta (o que está longe de ser verdade) da captação de recursos via a Lei Rouanet que, para começo de conversa, nem deveria ser problema para quem quer seja.

É que graças a uma série de posts do jornalista Demétrio Vecchioli na rede social Twitter, o Brasil ficou finalmente ciente de uma verdadeira orgia com recursos públicos para pagamento de shows que invariavelmente reúnem artistas que são ligados direta ou indiretamente ao agronegócio, e que combinam o engordamento das suas contas bancárias com a divulgação de elementos de uma ideologia que valoriza a monocultura de exportação que está na base, entre outras coisas, do desmatamento da Amazônia, do uso intensivo e abusivo de agrotóxicos e, não raramente , o emprego da mão-de-obra escrava.

O caso é que desde que Zé Neto resolveu vociferar contra Anitta, já sabemos que muito dinheiro que deveria estar sendo usado para financiar educação, saúde e habitação em cidades médias e pequenas estava tomando destino indevido. O maior exemplo desse descaminho de verbas acabou pegando outro astro do sertanejo, o cantor bolsonarista Gustavvo Lima iria abocanhar R$ 2 milhões, sendo R$ 1,2 milhões apenas no show que ele realizaria no município de Conceição do Mato Dentro em Minas Gerais.

Agora ficamos sabendo que um fundo de investimentos ligado ao mesmo Gustavvo Lima, o One7 (quer dizer 17, número eleitoral do PSL que era o partido pelo qual Jair Bolsonaro se elegeu presidente) obteve um financiamento público junto ao BNDES de R$ 320 milhões cuja finalidade era, pasmemos todos,   adiantar “o pagamento de espetáculos a artistas, com desconto, e depois embolsar o valor cheio pago por quem contrata os shows“.

Ivan Valente on Twitter: "O tal de Ze Neto e o tal de Gusttavo Lima são  típicos bolsonaristas. Adoram falar de armas, mas vivem dando tiro no  próprio pé." / Twitter

E a bola de neve das revelações sobre o uso de verbas públicas para contratar shows “sertanejos” não deverá parar de crescer tão fácil, pois vivemos um ano eleitoral em que normalmente chances douradas como essa não são desperdiçadas por quem está na oposição. Fala-se até em uma CPI sertaneja para investigar quanto dinheiro público escorreu para dentro das contas bancárias dos artistas que ajudam a disseminar a imagem de que “O agro é pop”.

No entanto, me parece que o estrago está feito, e as torneiras que vinham jorrando com abundância vão secar, ao menos no momento.  E só por isso temos que agradecer a Zé Neto e, por que não, ao tororó da Anitta. É que por causa da confusão iniciada na pacata Sorriso (que fica no coração do agronegócio mato-grossense), agora sabemos que há sim uma relação umbilical entre o tal “sertanejo universitário” e a naturalização da destruição ambiental causada pelo agronegócio por meio da hegemonia ideológica exercida sobre a programação musical de estações de rádios e de TV de todo o Brasil.  Minhas saudações à Anitta e sua tatuagem que nos trouxeram, ainda que inadvertidamente, revelações tão preciosas.

 

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