Desmatamento e degradação florestal estão fora de controle na Amazônia, mostram dados do DETER

Desmatamento nos primeiros quatro meses do ano é 70% maior do que em 2021.  É o pior resultado para o mês de abril desde 2016: o DETER registrou uma área de 1.012 km² sob alerta na Amazônia

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Em abril de 2022, o sistema de alertas de desmatamento em tempo real do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), o DETER, registrou uma área de 1.012 km² sob alerta na Amazônia — um aumento de 75% em relação ao mesmo mês de 2021 (580 km²). É o pior resultado para o mês de abril desde 2016. Valor como este costuma ser atingido somente em maio e junho, quando chegamos próximo do pico sazonal de desmatamento. Os Estados em pior situação foram Amazonas (347 km²), Pará (287 km²) e Mato Grosso (242 km²). 

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“O contexto forma uma tempestade perfeita”, explica Raul Valle, diretor de Justiça Socioambiental do WWF-Brasil. “Internamente, temos três anos de impunidade, com redução das ações de controle, fiscalização e autuação, agravados em 2021 por um discurso ainda mais permissivo por causa da temporada eleitoral. E, com a guerra, a escassez de produtos aumenta o valor das commodities e vigora a falsa ideia de que é necessário desmatar mais para produzir mais, o que é um equívoco. A floresta não suportará mais quatro anos com essa pressão.”

É apenas o começo

Entre janeiro e abril, acumulam-se 1.954 km², valor 69% acima do mesmo período em 2021, que registrou 1.153 km². 

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“Esse valor é extremamente alto para esse período, que marca o início do período da seca na Amazônia quando o desmatamento costuma aumentar”, afirma Mariana Napolitano, gerente do WWF-Brasil para Ciências. “É um alerta da imensa pressão que a floresta está sofrendo nesse ano.”

Napolitano explica que, nesse ritmo, os recordes de destruição serão quebrados neste ano: “Esse desmatamento é majoritariamente ilegal, causado principalmente pelo aumento no roubo de terra pública (grilagem), do garimpo ilegal e conflitos cada vez mais intensos na região”.

“Os desmatadores dobraram a aposta em 2022 após três anos de impunidade e em clima eleitoreiro”, diz Raul Valle. “Há redução das ações de controle, fiscalização e autuação nessa gestão federal e, no Congresso, há um pacote de projetos de lei que promovem a destruição. A floresta fica cada vez mais perto de um ponto em que ela não vai conseguir se recuperar.”

Degradação

The most important drivers of forest degradation and deforestation in... |  Download Scientific Diagram

O aumento significativo na área sob alertas de degradação também é um sinal importante de outras formas de pressão sobre a floresta. “A degradação leva em conta áreas que sofreram corte seletivo, por exemplo. O corte seletivo pode alterar a estrutura florestal, mas não é considerado desmatamento. Porém, ele pode ser o primeiro estágio de um processo de remoção completa das árvores de uma floresta”, explica, Napolitano. Em abril, foram mais de 240km² de alertas nessa categoria, somando 506 km² nos primeiros quatro meses desse ano — praticamente o dobro da área observada no mesmo período de 2021 (256 km²).

Congresso Nacional e STF

Em Brasília, deputado federal do AM participa de manifestação contra 'Pacote  da Destruição'

A divulgação dos dados de desmatamento ocorre em meio à votação do “Pacote Verde” no STF (Supremo Tribunal Federal), que ações podem barrar a destruição. Entre os textos analisados pela Corte estão as ADPF 760, que pede a retomada do PPCDAm (Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia) e o cumprimento das metas climáticas do Brasil; e da ADO (Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão) 54, que negligência a administração federal no combate ao desmatamento.

No dia 6 de abril, o julgamento foi interrompido a pedido do ministro André Mendonça, indicado pelo presidente Jair Bolsonaro ao cargo, que solicitou mais tempo para analisar os processos. Segundo o regimento da Casa, o prazo é de 30 dias, mas ainda não há previsão para a análise no plenário.

Na contramão, o Congresso Nacional analisa os projetos do chamado “Pacote da Destruição”, que, se aprovados, vão piorar o desmatamento da Amazônia e ameaçam as populações indígenas e comunidades tradicionais, a exemplo da grave denúncia na Terra Indígena Yanomami. No último dia 25, o caso de uma menina ianomâmi de 12 anos que morreu após ser estuprada por garimpeiros chocou o país. Durante as buscas, a comunidade foi encontrada queimada e não havia mais ninguém.

Petição pública para impedir que a CPI do RioPrevidência acabe em pizza

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✏️ *Assine a petição pública em defesa da CPI do RioPrevidência*
_Não vamos deixar que o relatório da CPI acabe em pizza!_ 🍕🍕🍕
🛑 Saiba o que está acontecendo: http://glo.bo/3LMvVQg
*Estado do Rio de Janeiro mais uma vez sofrendo com os rombos nos cofres públicos*
O *Fórum Permanente dos Servidores Públicos do Estado do Rio de Janeiro (FOSPERJ)* exige que seja votado em plenário o relatório original. 
Não há justificativas suficientes que anulem a legitimidade de um documento aprovado pela Comissão com suporte técnico do TCE e do MP-GAESF. 
📣 *PARTICIPE DO ABAIXO-ASSINADO PARA EXIGIR QUE OS GESTORES SEJAM RESPONSABILIZADOS!*
#DestravaCPIRioPrevidência

Por que os estudantes da Uenf estão protestando?

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Estudante da Uenf protesta contra o fechamento do Restaurante Universitário que está deixando muitos estudantes com fome

A mídia campista noticiou ontem um movimento de protesto no portão principal Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) que reuniu um número indeterminado de estudantes. As razões do protesto parecem prosaicas, mas não são. Afinal de contas, milhares de jovens foram retornados ao modo presencial de aulas sem que lhes tenha sido oferecido o mínimo que foi prometido para que pudessem frequentar suas aulas e atividades de pesquisa e extensão.

Visto de fora o campus Leonel Brizola impressiona, pois reúne um patrimônio arquitetônico único no interior de qualquer estado brasileiro, mas especialmente o Rio de Janeiro. Mas para além dos prédios, a Uenf acumula feitos impressionantes resultantes da atração de uma potente massa de cérebros que estão aqui transformando várias áreas de conhecimento, contribuindo assim (contra todas as ondas contrárias) para o processo de desenvolvimento regional.

Mas quem vê por fora, não imagina o que está faltando dentro, no melhor estilo “por fora bela viola, por dentro pão bolorento”.    É que mesmo tendo dois anos para se preparar para o fim das medidas mais estritas de isolamento social impostas pela pandemia da COVID-19, a reitoria da Uenf, como os fatos bem demonstram, dormiu em berço nada esplêndido.  Assim, foram perdidas oportunidades preciosas para estar com as coisas melhor situadas, de forma a potencializar um momento único representado pelo centenário de nosso idealizador, Darcy Ribeiro.

É que Darcy dizia que o realmente importante em uma instituição de ensino são as pessoas que estão dentro dela.  Mas, contraditoriamente, muitos estudantes da Uenf estão passando fome porque a reitoria da Uenf esqueceu de que recebê-los com o restaurante universitário funcionando era uma prioridade estratégica.  Além disso, tendo gasto mais de R$ 10 milhões em equipamentos de ponta no final de 2021, essa mesma reitoria esqueceu de fazer a troca de bebedouros ou, mais simplesmente, de filtros que já estavam vencidos mesmo antes da pandemia obrigar o fechamento das salas de aulas por dois anos.  Também se esqueceu que a volta às aulas exigiria salas com fotocopiadoras que permitissem aos estudantes reproduziram materiais e didáticos. E a prometida ventilação de salas de aulas sem janelas? Essa tampouco aconteceu. 

É preciso que se diga que os estudantes da Uenf já exercitaram grande paciência, especialmente quando se lembra que na maioria do ano as temperaturas na cidade de Campos dos Goytacazes são escaldantes. Então imaginemos o que seria assistir aula com fome em meio a condições climáticas dignas da Amazônia?

Essa situação toda, pasmemos todas, foi prevista em uma reunião do Conselho Universitária da Uenf que discutiu o nível de preparação para a volta às aulas presenciais. Nessa reunião, o reitor da Uenf, professor Raúl Palacio, garantiu que tudo estava preparado para retomar as aulas presenciais em condições aceitáveis, e forçou uma votação para obrigar o retorno no dia em que ele desejava. Agora, se vê que a garantia do reitor era vazia.

Por isso, antes que alguém critique os protestos dos estudantes, lembro que muitas vezes é mais fácil quem se movimenta para demandar direitos do que cobrar aqueles que os pisoteiam em primeiro lugar. Nesse sentido, a Uenf, ao contrário do que desejava Darcy Ribeiro, se tornou um reflexo da realidade que a circunda em vez de ser um agente ativo nos esforços para sua transformação.

 

O lucro acima da vida. Barragem sendo construída em Pedreira (SP) é uma espécie de morte anunciada

Relatório aponta 2.088 imóveis sob risco com barragem em construção em Pedreira. Grande barragem a dois quilômetros do centro de cidade na região de Campinas põe em risco creches, escolas, postos de saúde, bancos, fábricas, residências e o movimentado comércio de porcelanas

area-autossalvamento1Um dos mapas do plano de ação emergencial mostra os imóveis (pontos pretos) que seriam atingidos na hipótese de rompimento da barragem de alto risco

Por Cida de Oliveira, da RBA

São Paulo – Em construção a dois quilômetros do centro da cidade e a 800 metros do bairro do Ricci, a barragem de Pedreira, no interior paulista, representa um grande risco para pelo menos 2.088 imóveis na região central do município localizado na região de Campinas. Essas quase 2,1 mil edificações e tudo o que estiver dentro, inclusive pessoas, poderão ser varridos pelos 38 bilhões de litros de água armazenados, caso o futuro reservatório de terra batida tenha uma ruptura em sua estrutura de 52 metros de altura. Apenas o vertedouro será de concreto.

A hipótese está prevista no Plano de Ação Emergencial (PAE) do Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE), vinculado à Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente de São Paulo, ao qual a reportagem da RBA teve acesso. Responsável pelo projeto considerado de alto risco para a população, conforme padrões da Agência Nacional de Águas (ANA), a autarquia foi obrigada a apresentar o relatório à Justiça Federal da 3ª Região, em Campinas, onde tramita desde 2019 uma ação civil pública que pede a paralisação das obras da barragem justamente pelo perigo aos moradores de Pedreira.

Essas edificações estão localizadas na chamada Zona de Autossalvamento (ZAS), definição da ANA para aquelas áreas do vale a jusante da barragem, em que não há tempo suficiente para uma intervenção das autoridades competentes em situações de emergência, ou seja, rompimento da estrutura com extravazamento do conteúdo do reservatório. Em outras palavras, mais um indicador de que o empreendimento está sendo construído perto demais do centro da cidade de 48 mil habitantes segundo o IBGE.

Creches, escolas, postos de saúde, casas

Entre essas construções estão atualmente três creches, duas delas localizadas a apenas um quilômetro da barragem, quatro escolas, dois postos de saúde, parte de um hospital, setores da prefeitura, o escritório do serviço de água e esgoto do município, agências bancárias, clubes, agência dos Correios, dois postos de combustíveis, museu, indústrias de porcelana, dois supermercados. O restante são residências, lanchonetes, restaurantes e o comércio local, com centenas de lojas de louças, porcelanas e artigos de decoração, que atraem semanalmente à “capital da porcelana” cerca de 20 mil visitantes, segundo a administração municipal.

A prefeitura informou à RBA que o seu Departamento de Tributação e Imóveis está realizando levantamento correto da número de imóveis localizados na área de autossalvamento da barragem que está sendo construída no município.

“Não se sabe ao certo quantas pessoas podem estar em cada um desses 2.088 imóveis. Se fossem só casas, com cinco pessoas, seriam 10.440 vítimas. O DAEE precisa ver que sabemos fazer cálculos desse impacto negativo da obra que quer esconder. Não é somente mostrar o número de pessoas que supostamente serão beneficiadas. É preciso mostrar a que preço estamos pagando com essa obra assassina”, disse Paschoal Aparecido Loner, presidente do grupo ambientalista Proteção Ambiental “Mingo Orlandi” e Reflorestamento (P.Amor), de Pedreira, que atua contra a barragem pela segurança da cidade desde 2013, quando o projeto foi anunciado.

Nos estudos de rompimento da Barragem Pedreira apresentados pelo DAEE à Justiça Federal foram identificadas também 1.695 edificações espalhadas pelos municípios vizinhos de Campinas, Jaguariúna, Paulínia, Cosmópolis e Americana.

Reprodução
Barragem é construída a 800 metros do bairro do Ricci e a dois quilômetros do centro de Pedreira, na região de Campinas

Entre outras informações trazidas no Plano de Ação Emergencial está a recomendação de monitoramento sismológico do futuro reservatório de Pedreira antes, durante e após seu enchimento. Isso porque a região está inserida em um contexto de risco sísmico, integrando à Zona Sismogênica de Pinhal. Foi nela que ocorreu o maior abalo em território paulista, em 1922, em Mogi-Guaçu, a aproximadamente 31,5 quilômetros do canteiro de obras.

O PAE fala também em processos causadores de instabilidades nas encostas às margens do reservatório em construção, como escorregamentos em solos residuais, em afloramentos rochosos, bem como queda de blocos condicionados pelas estruturas do maciço rochoso. Podem ainda ocorrer nas encostas processos que levam à erosão e que podem, localmente, evoluir para feições tipo voçoroca (formação de grandes buracos), além de solapamento e desbarrancamento nas margens do reservatório em obras.

A reportagem perguntou ao DAEE quando a população que convive com o medo deverá ser informada oficialmente sobre o conteúdo do PAE, que reivindica há anos. A autarquia respondeu que segue determinações da Agência Nacional de Águas (ANA) que estabelecem os Planos de Segurança de Barragem (PSB) e de Ação de Emergência (PAE) e devem ser finalizados antes do início do primeiro enchimento dos reservatórios. E que os planos de segurança e de Ação de Emergência para a barragem de Pedreira, assim como a de Duas Pontes, estão finalizados. Informou ainda “que o plano de comunicação dos PSBs e PAEs está em elaboração para posterior divulgação para população e demais interessados”.

A presidenta da Subcomissão da Água da Assembleia Legislativa de São Paulo, deputada Monica Seixas (Psol), realizou audiências públicas e concluiu que a construção da barragem representa um risco eminente à população de Pedreira. A parlamentar criticou a falta de transparência e de dados abertos sobre a segurança da barragem à população. E também o fato de o projeto não prever adutoras para abastecer o município. Com isso, Pedreira fica de fora da segurança hídrica, argumento do governo paulista e do Ministério Público de São Paulo, por meio do núcleo PCJ do Grupo de Atuação Especial de Defesa do Meio Ambiente (Gaema), para justificar a construção. Por isso seu mandato propõe uma CPI para discutir a fundo a questão.

“Encaminhei denúncia ao Ministério Público para auditar a obra. A gente nota, em depoimento de populares da cidade, a total falta de transparência. Há também uma grande preocupação com a questão ambiental. Quando se fala em licenciamento ambiental, há mais perguntas que respostas. Restam muitas dúvidas quanto aos interesses por trás da obra”, disse a parlamentar.

Crime ambiental envolvendo a barragem

Monica Seixas está atuando na esfera legislativa e também judiciária, buscando o desarquivamento de ações, processos e representações. É o caso de um um processo movido contra o ex-prefeito de Campinas Jonas Donizette, acusado de crime ambiental por ter alterado, sem consultar o conselho gestor, a lei da Área de Proteção Ambiental de Campinas para permitir o corte de árvores. Acabou arquivado. A parlamentar considera também encomendar um novo Estudo de Impacto Ambiental.

“Uma obra que pode entregar água para as pessoas não pode trazer água de má qualidade ou matar pessoas”, disse, referindo-se à outra barragem do DAEE na região, em Amparo, que pretende represar água poluída.

A barragem de Pedreira começou a ser construída em meados de 2018, com previsão de término e início do enchimento do reservatório neste ano. No entanto, diversos problemas técnicos inesperados, que levaram a mudanças no projeto original, atrasaram as obras. A justificativa do governo paulista é garantir segurança hídrica à população da região de Campinas, mas os críticos apontam a baixa vazão do rio Jaguari e o custo ambiental da obra. Além da destruição de sítios arqueológicos catalogados e do assoreamento do rio Jaguari, há a destruição de parte da Área de Proteção Ambiental (APA) de Campinas e a destruição de boa parte da fauna da região.

Segurança das pessoas não foi considerada

“O risco é gigantesco”, disse a advogada Daiane Mardegan, autora da ação, em audiência à deputada Monica Seixas (assista no final da reportagem). “O aspecto segurança da população não está entre os critérios levados em consideração na escolha do local para construção. Se a segurança e proximidade com núcleos urbanos tivesse sido colocado nesse eixo, não teria sido aprovado. Esse é o nosso principal argumento: a principal questão, de segurança das pessoas, não foi considerada.”

Em 5 de fevereiro de 2019, 11 dias após o rompimento da barragem da mineradora Vale em Brumadinho, que matou 272 pessoas, o então prefeito de Pedreira, Hamilton Bernardes (PSB), foi pressionado pela população a pedir o embargo da construção. A administração alegou que o governo do Estado, por meio do DAEE, não apresentou Plano de Ação de Emergência em caso de desastre, nem estudo prévio de impactos sociais e na infraestrutura. Além disso, não havia sido concedida uma licença municipal. Porém, em 8 de maio do mesmo ano, a juíza Deyse Lemos de Oliveira, da 2ª Vara de Pedreira, indeferiu o pedido de paralisação da construção no Rio Jaguari.

Em nota enviada à RBA, a prefeitura afirma que todo o processo em relação à barragem foi feito à “revelia”, sem o conhecimento, sem qualquer comunicação ao órgão municipal, chegando a caracterizar “litigância de má-fé, por alterar as verdades do fato”, conforme escreveu a magistrada em seu despacho. Mas que a juíza entendeu que o município informou não ter lei de uso e ocupação do solo e nem corpo técnico para o licenciamento ambiental, que ficou a cargo a Cetesb. A gestão recorreu e perdeu de novo.

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Este texto foi inicialmente publicado pela Rede Brasil Atual [Aqui!].

Estudantes da Uenf protestam contra fechamento do Restaurante Universitário

Eles reivindicam ainda por melhorias nas instalações dos prédios e por água potável

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Um grupo de alunos da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, em Campos dos Goytacazes, iniciou uma manifestação na manhã desta quinta-feira (5), na entrada da instituição. Com faixas e cartazes eles protestaram contra o fechamento do Restaurante Universitário. Desde março, quando retornaram as aulas presenciais após dois anos de pandemia, o equipamento não abriu as portas. Os estudantes reclamam ainda sobre falta de água potável e insalubridade nos prédios. O grupo se dirigiu à sede da Reitoria da Uenf. A instituição informou que pretende se reunir com os centros acadêmicos sobre a pauta de reivindicações.

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Os alunos relatam que o não funcionamento do Restaurante Universitário tem prejudicado a rotina dos estudos. “Há muitas pessoas que são de outras cidades, moram em repúblicas, e o custo com alimentação ficou alto. Comer no RU ajuda a gente a economizar”, disse uma estudante do curso de Zootecnia. Segundo um grupo de estudantes do Centro de Ciências e Tecnologias Agropecuárias (CCTA), tem faltado água potável para consumo. Segundo eles, há problemas de insalubridade, falta de higiene e ambiente ventilado para estudos e pesquisas. 

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 Eles pretendem obter a adesão de mais estudantes para protestar nesta quinta-feira. A reportagem do Terceira Via entrou em contato com assessoria de comunicação do reitor Raul Palácio. Ainda não havia um posicionamento oficial, mas foi adiantado que será verificado o que os alunos estão solicitando.  Há uma reunião marcada com todos os representantes de alunos para sexta feira (6), às 14h. O encontro é com o Diretório Central dos Estudantes (DCE) e com os representantes dos Centros Acadêmicos.


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Este texto foi inicialmente publicado pelo jornal “Terceira Via” [Aqui!].

Operação Delaware: manobra na Alerj para indultar implicados é notícia em Minas Gerais

O Rio sempre inovador

Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro cogita perdoar os investigados e indiciados pela CPI da RioPrevidência

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Secretário de Fazenda Gustavo Barbosa apresenta estimativa de economia com a Reforma da Previdência
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Foto: Facebook/Reprodução
 
Por Luiz Tito para o jornal “O TEMPO”

O Estado do Rio de Janeiro é um marco de inovação. Óbvio que isso muitas vezes tem custos escandalosos. Uma operação ocorrida durante os governos Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão mandou para fora do país, no paraíso fiscal de Delaware, nos EUA, algo em torno de R$ 20 bilhões, que foram aplicados em fundos de investimentos, todos bem fundos.

Eram valores arrecadados dos royalties do petróleo e do RioPrevidência, para custear uma trampa, conforme apurou a CPI presidida pelo deputado estadual Flávio Serafini, do PSOL, na Assembleia Legislativa do Estado do Rio. Agora, como projeto inovador, surge uma proposição na mesma Alerj para perdoar aqueles que foram investigados e indiciados pela CPI daquela Casa e isentar de punição aqueles que foram fartamente identificados como causadores dos prejuízos aos cofres do RioPrevidência.

Naquela CPI, além dos dois governadores e de outros funcionários da Previdência e do Estado do Rio, está o secretário de Fazenda de Minas Gerais, Gustavo Barbosa.


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Este texto foi inicialmente publicado pelo jornal ” O TEMPO”  [Aqui!].

Operação Delaware: Alerj debate “indulto” aos agentes que causaram prejuízo bilionário no RioPrevidência

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Em abril de 2016, publiquei neste blog a escabrosa história de como o governo de Sérgio Cabral havia realizado uma operação no paraíso fiscal de Delaware que implicou na entrega de recursos dos royalties do petróleo devidos ao fundo próprio de previdência dos servidores estaduais, o RioPrevidência, aos chamados fundos abutres. O custo final desta operação não se sabe com certeza, mas é algo que já deve beirar R$ 20 bilhões, mas poderá chegar a pelo menos R$ 30 bilhões.

A chamada “Operação Delaware” consumiu, e continua consumindo, bilhões de reais que deveriam estar sendo depositados nas contas do RioPrevidência, mas que estão abastecendo as contas dos clientes dos fundos abutres.

Após muita pressão, a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro realizou, sob a presidência do deputado Flávio Serafini (PSOL), uma comissão parlamentar de inquérito que não só confirmou que crimes foram cometidos contra os cofres estaduais, mas também nominou os responsáveis pela Operação Delaware. Entre os arrolados estão os ex-governadores Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão, mas também o ex-secretário de Fazenda e mentor da Operação Delaware, Gustavo Barbosa.

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Após causar rombo bilionário no RioPrevidência, Gustavo Barbosa caiu para cima e virou secretário estadual de Fazenda do Rio de Janeiro

Eis que agora, ficamos sabendo por meio de uma reportagem assinada pelos jornalistas Gabriel Barreira e Marco Antonio Martins que a mesma Alerj que apurou e nominou poderá dar uma espécie de indulto (parece que virou moda) aos que foram identificados como culpados pelos graves prejuízos causados aos servidores públicos estaduais do Rio de Janeiro pela Operação Delaware.

O mentor desse indulto parece ser o deputado estadual Rosenverg Reis que curiosamente (curiosamente?) é do MDB, o mesmo partido que estava no comando da Operação Delaware. Segundo a reportagem, Reis está propondo que o relatório final da CPI não proponha punições para os responsáveis para o rombo bilionário causado por uma operação nebulosa em um paraíso fiscal.

Se a vontade de Rosenverg Reis for confirmada pelo plenário da Alerj não se estará jogando apenas o trabalho da CPI da Operação Delaware no lixo, mas também se criará uma estranha jurisprudência que tornará todas as CPIs realizadas naquela “casa de leis” em meros exercícios de expiação, visto que não haverá consequência judicial para o que for apurado.

Os servidores estaduais e seus sindicatos e associações precisam se mobilizar de forma urgente para impedir que este indulto seja concedido no plenário da Alerj. É que os prejuízos causados pela Operação Delaware não só não cessaram, como continuam ocorrendo. Dar um indulto aos responsáveis é garantir que não haja qualquer chance de que os prejuízos presentes e futuros não acabem causando ainda mais dissabores aos reais donos do RioPrevidência que são os servidores públicos estaduais.

Finalmente, é curioso lembrar que o ex-secretário estadual de Fazenda do Rio de Janeiro e ex-diretor presidente do RioPrevidência, Gustavo Barbosa, é atualmente o chefe da mesma pasta no governo de Romeu Zema (NOVO/MG).  E mais, Barbosa, levou junto outros participantes da Operação Delaware para ajudá-lo na administração financeira de Minas Gerais.  Eu não me surpreenderia se ele estivesse articulando uma operação semelhante contra os servidores estaduais mineiros.  Uma razão a mais para se evitar esse indulto absurdo que a Alerj quer dar a ele e outros (ir) responsáveis pela Operação Delaware.

 

Relatório anual da qualidade da água da “Águas do Paraíba” “esquece” dos agrotóxicos

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Como deve ter ocorrido com muitos consumidores cativos da concessionária “Águas do Paraíba”, recebi ontem minha conta do mês de maio acompanhada do “relatório anual de qualidade da água do sistema de abastecimento ETA Coroa  (ver imagens abaixo).

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Curiosamente, este relatório (sic!) não traz qualquer informação sobre medidas feitas para verificar a presença dos chamados micro-poluentes emergentes, dos quais os agrotóxicos são uma das espécies mais preocupantes pelo que a exposição crônica a eles pode causar na saúde humana.

Não custa lembrar que os dados divulgados pelo chamado “Mapa da Água” apontaram a presença de agrotóxicos na água que chega nas torneiras dos campistas. 

Aparentemente a “Águas do Paraíba” acredita que se os seus relatórios não trouxerem dados sobre esses contaminantes emergentes, isso significará que eles não estão sendo servidos na água que o campista recebe diariamente em suas torneiras a um custo nada camarada. O problema é que, como a ciência sempre mostra, a negligência no fornecimento do dado não significa que aquilo que foi medida deixa simplesmente de existir.

Dados sobre fiscalização mostram que impunidade predomina no combate ao desmatamento no Brasil

MapBiomas lança nova plataforma que monitora dados públicos sobre fiscalização do desmatamento pelo governo federal e em cinco estados

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Mais de 97% dos alertas de desmatamento no Brasil verificados pelo MapBiomas desde janeiro de 2019 não possuem registro de ação de fiscalização ou autorização, de acordo com os dados oficiais disponíveis pelo governo federal. Ao analisar cinco estados da federação – Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Pará e São Paulo – encontrou-se uma situação um pouco melhor. O destaque é Mato Grosso, onde a fiscalização já incidiu sobre 29% dos alertas de desmatamento. É o que mostra o primeiro conjunto de dados do Monitor da Fiscalização do Desmatamento – uma nova plataforma online que o MapBiomas lança nesta terça-feira (3/5). Ela apresenta de forma direta, atualizada e transparente os dados de autorizações de desmatamento e ações de fiscalização por parte do governo federal e dos governos estaduais de cinco unidades federativas.

O Monitor da Fiscalização do Desmatamento é uma iniciativa do MapBiomas liderada pelas equipes do Instituto Centro de Vida (ICV) e Brasil IO que recolhe e organiza informações sobre autorizações de desmatamento, autuações de fiscalização e embargo de propriedades rurais emitidos pelos órgãos federais e estaduais de controle. Para isso, são acessadas as bases de dados disponíveis em plataformas digitais dos órgãos como o SINAFLOR e o Portal de Dados Abertos do IBAMA e o Portal de Transparência da Secretaria do Meio Ambiente do Mato Grosso. Todos os dados são então cruzados com os alertas de desmatamento publicados do MapBiomas para identificar o quanto do desmatamento detectado no Brasil tem ações de fiscalização sobrepostas. No momento, o monitoramento contempla o governo federal e cinco estados que já disponibilizam dados geográficos. Ao longo dos próximos meses outros estados serão incorporados à medida que publiquem os dados de fiscalização.

O que os primeiros dados do Monitor da Fiscalização do Desmatamento mostram é que até março de 2022, no caso do governo federal, apenas 2,17% dos alertas tiveram alguma ação de fiscalização. A área com ações de fiscalização registrada alcançou 13,1% do total de desmatamento detectado desde 2019.

No caso dos governos estaduais, a situação varia de estado para estado, mas já mostra dados mais favoráveis em alguns casos:

– Em Minas Gerais, ações de fiscalização da SEMAD ou autorizações emitidas pelo IEF cruzaram geograficamente com 22,4% dos alertas de desmatamento publicados no estado. Os alertas onde foram identificadas ações representam somados 34,6% da área desmatada.

– 29,5% dos mais de 13 mil alertas de desmatamento de Mato Grosso incidiram na ação de fiscalização ou autorização de desmatamento. Após a aquisição de sistema de alertas de desmatamento com imagens de alta resolução, o estado tem fortalecido o combate ao desmatamento ilegal. Quando considerada a área total dos alertas com alguma ação ou autorização o percentual sobe para 41%.

– Paráé o estado com mais alertas de desmatamento validados pelo MapBiomas – mais de 60 mil desde janeiro de 2019. A partir da análise dos dados públicos disponíveis, em 1,8% desses alertas incidem autorizações ou embargos do governo estadual, o que representa 9,8% do desmatamento total publicado.

– Em São Paulo, as ações de fiscalização do SIMA cobriram 21% alertas de desmatamento que ocorreram no estado, ou 26 % da área total desmatada.

– Em Goiás, as ações de fiscalização abrangeram 10,3% alertas de desmatamento que ocorreram no estado que representam 24,8% da área de desmatamento detectada no período.

“O que foi possível constatar com o Monitor da Fiscalização do Desmatamento é que apesar da abundância de informações e evidências de crimes ambientais, as ações de fiscalização ainda estão aquém do necessário para coibir o desmatamento” afirma Ana Paula Valdiones, coordenadora do ICV e uma das responsáveis pela plataforma.

“A aplicação de multas, apreensões, embargos, interdições, entre outras medidas dos órgãos competentes, podem impedir danos ambientais, punir infratores e evitar futuras infrações ambientais”, explica Tasso Azevedo, coordenador geral do MapBiomas. “Existem avanços importantes, especialmente nos estados, mas os dados do Monitor mostram que a impunidade ainda marca o desmatamento ilegal no Brasil”, completa. “Dar transparência e publicidade às ações de fiscalização do desmatamento permite aos tomadores de decisão, especialmente no setor privado e financeiro, uma visão mais clara dos riscos que correm em relação à contaminação da cadeia produtiva com produtos oriundos locais com atividades ilegais de desmatamento”, destaca.

Para construir o Monitor da Fiscalização, a equipe do MapBiomas avaliou a disponibilidade de informações pelos órgãos federais e estaduais. A transparência ativa é um dos gargalos para acompanhamento das ações de combate ao desmatamento ilegal. Por isso, nessa primeira fase do Monitor, só foi possível contar com dados atualizados e em formato adequado de apenas para cinco estados (GO, MT, MG, PA e SP) e do governo federal.

Acesse o monitor da fiscalização aqui.

Sobre o MapBiomas Alerta

O MapBiomas Alerta consolida informações fornecidas pelos vários sistemas que monitoram o desmatamento no Brasil, tais como DETER/INPE, SAD/IMAZON, GLAD/Univ. Maryland e SAD Caatinga/Geodatin/UEFS. Cada alerta é validado e gera um laudo com imagens em alta resolução do antes e depois do desmatamento, além dos possíveis cruzamentos com áreas do Cadastro Ambiental Rural (CAR), Cadastro Nacional de Unidades de Conservação (CNUC), Terras Indígenas e outros limites geográficos (ex. biomas, estados, bacias hidrográficas). O resultado é um laudo completo para cada evento de desmatamento detectado no Brasil. Esta documentação é disponibilizada de forma aberta e gratuita para que órgãos de fiscalização, agentes financeiros, empresas e sociedade civil possam agir para estancar o desmatamento ilegal. Desde janeiro de 2019 a dezembro de 2021, já foram publicados mais de 195 mil alertas de desmatamento abrangendo mais de 4 milhões de hectares.

Sobre MapBiomas

O MapBiomas é uma niciativa multi-institucional, que envolve universidades, ONGs e empresas de tecnologia, focada em monitorar as transformações na cobertura e no uso da terra no Brasil, para buscar a conservação e o manejo sustentável dos recursos naturais, como forma de combate às mudanças climáticas. Esta plataforma é hoje a mais completa, atualizada e detalhada base de dados espaciais de uso da terra em um país disponível no mundo. Todos os dados, mapas, método e códigos do MapBiomas são disponibilizados de forma pública e gratuita no site da iniciativa.

O lucro acima de tudo. Sucesso de exportação do agronegócio causa carestia dos alimentos dentro do Brasil

Para o economista José Baccarin, produtor nacional não abre mão de obter, cobrando em reais, mesmos lucros que aufere ao comercializar em dólar. Disparada de gastos com alimentação é turbinada também por fatores externos, como a pandemia e a guerra na Europa. “Mas não basta achar que este é um problema que veio de fora, e contra o qual não se pode fazer nada. Pode-se sim, e deve-se”, defende

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Por Pablo Nogueira para o Jornal da UNESP

A vertiginosa subida nos preços dos alimentos, que vem ocorrendo desde o começo do ano, colocou de novo na pauta dos noticiários assuntos que já se acreditava superados no dia a dia do brasileiro, como inflação alta,   insegurança alimentar e escassez de determinados produtos. Para tornar o cenário mais complicado, essa subida ocorre em meio a uma série de crises e choques que varrem a economia nacional e mundial, incluindo a instabilidade causada pela guerra na Europa entre Rússia e Ucrânia, a desaceleração econômica gerada pela pandemia de covid-19, a subida, igualmente desmedida, no preço dos combustíveis etc. Não é de se admirar, então, que na hora de identificar as causas para a disparada nos preços da comida no mercado interno muitas autoridades estejam apontando o dedo para fora do Brasil.

Porém, como explica o engenheiro agrônomo e economista José Giacomo Baccarin, há outros fatores igualmente importantes atuando dentro do Brasil para inflacionar os preços. Desde 2019, Baccarin, que é professor da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da Unesp, campus de Jaboticabal, está à frente de um projeto de pesquisa, com apoio do Ministério da Saúde, via CNPq, para acompanhar os efeitos da internacionalização da agricultura brasileira sobre os preços dos alimentos ao consumidor. Nesta entrevista ao Jornal da Unesp, ele explica de que forma a condição de grande exportador de alimentos do Brasil contribui para que os preços disparem. E aponta iniciativas que poderiam ser adotadas pelas autoridades políticas e econômicas, de forma a preservar a segurança alimentar no país.

Por que o preço dos alimentos no Brasil explodiu nos últimos meses?

José Baccarin: De fato, estamos passando por um momento muito grave. Não diria só no Brasil, no mercado mundial também. Os índices de preços da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) no mês de março atingiram um patamar recorde, igualando-se a um patamar anterior lá de 1974, e inclusive superando um patamar recente muito alto também que foi de 2011.

Isso repercute muito fortemente no Brasil porque nosso país tem grande participação no mercado internacional. Somos exportadores de vários produtos, estamos envolvidos em várias cadeias produtivas. Em algumas, somos o principal exportador. Por isso o preço internacional acaba refletindo aqui.

Além disso, tivemos um problema muito sério nos últimos anos que foi a desvalorização da moeda nacional, especialmente em 2020. O real foi uma das moedas que mais perderam valor no mundo em 2020. E isso acirra a transmissão dos preços externos para o mercado interno, porque quanto mais desvalorizada estiver a moeda, mais reais os exportadores vão receber por venda em dólar e mais reais os importadores pagam nas compras em dólar. E, portanto, mais reais o consumidor interno acaba pagando pelos alimentos. Então, temos um problema sério no Brasil. Que está ligado à situação internacional, mas também à nossa política cambial, feita sem intervenção nenhuma e que deixou que esta desvalorização fosse repassada ao consumidor interno.

E temos que considerar o poder de compra. O preço está alto para quem é pobre ou muito pobre, para os ricos não. Os mais ricos gastam 5%, 10% da sua renda com alimentação. Entre os pobres o gasto é da ordem de 40%. Esse efeito tem um caráter social muito danoso, que atinge os mais pobres que passam a sofrer de mais insegurança alimentar. Estamos vendo no Brasil uma queda da renda da população, junto com aumento de desemprego, da informalidade no mercado de trabalho. A renda dos brasileiros vem caindo. Isso representa uma dupla pressão sobre a segurança alimentar: preços mais altos e renda em queda.

Isso acirra a transmissão dos preços externos para o mercado interno, porque quanto mais desvalorizada estiver a moeda, mais reais os exportadores vão receber por venda em dólar e mais reais os importadores pagam nas compras em dólar. E, portanto, mais reais o consumidor interno acaba pagando pelos alimentos.

José Baccarin

Há inflação alta em outros setores também, como no preço dos combustíveis. Qual a ligação entre esses fenômenos?

Baccarin: Em parte há sim uma conexão. O combustível, por exemplo, é um fator muito importante no transporte de alimentos no Brasil. Nossa matriz de transporte é muito baseada no caminhão, que usa o  diesel, um derivado do petróleo. Se pegarmos o período entre janeiro de 2020 e março de 2022, o índice de preços ao consumidor amplo no Brasil, o IPCA, subiu 18,7%. No ano passado ele subiu muito, 13%.  Enquanto o IPCA subiu 18,7%, o campo de alimentação e bebidas, que é um dos componentes do IPCA, subiu 29,2%.

E a alimentação no domicílio teve uma subida equivalente a quase o dobro do IPCA: 35,9%. O impacto do preço dos alimentos sobre o IPCA foi maior em 2020. Esse impacto diminuiu um pouco no ano passado mas foi alto ainda. No ano passado outros preços subiram também, especialmente pela pressão dos combustíveis. Isso gera mais um comprometimento da renda das pessoas., Por exemplo, o caso do gás de cozinha: além da comida, o combustível usado para preparar comida em casa fica mais caro. Então alimentação é afetada por outros preços, como o preço do petróleo ou o preço dos fertilizantes.

Mas eu diria que grande parte desse aumento que vemos se deve ao mercado mundial de alimentos, que passou por tantos acontecimentos recentes. Primeiro com a pandemia, e agora a guerra entre Rússia e Ucrânia. Tudo isso tem agravado a situação.

De que forma a pandemia e mais recentemente a guerra estão promovendo essa subida dos preços?

Baccarin: Vamos falar da pandemia. Ainda no começo, houve gente que disse o seguinte, e eu mesmo fui uma dessas pessoas: a pandemia vai produzir uma quebra de renda. As pessoas vão ter menos dinheiro, vão consumir menos. Logo não vai ocorrer pressão sobre o preço dos alimentos.

O que aconteceu é que os preços dos alimentos foram muito pressionados depois que a pandemia começou. Neste século, esses preços haviam atingido um pico em 2011, depois caíram um pouco. O índice da FAO mostra isso: até 2018 os preços vinham se mantendo em um patamar mais baixo, embora mais alto que no começo do século. A partir de 2020, os preços explodiram.

As explicações que temos para os efeitos da pandemia são preliminares ainda. Primeiro houve problemas de abastecimento. As cadeias de suprimentos quebraram, tivemos problemas de transporte devido às restrições de deslocamento entre países. Alguns países começaram a reter produção, seguraram suas exportações. E certos países importadores começaram a aumentar seus estoques de alimentos. Tudo isso gerou um abalo na cadeia de suprimentos. A oferta não cresceu tanto quanto deveria crescer.

E eu penso que aconteceu também outro efeito, que ainda não foi bem medido mas que no Brasil ficou evidente. Durante a pandemia, as pessoas sofreram restrições nas suas possibilidades para gastar dinheiro. Não puderam viajar e ainda ficaram mais em casa. Então, quem manteve a renda transferiu para a alimentação o dinheiro que gastava com outras despesas. Se você pegar os dados das vendas de supermercados em 2020 vai constatar que foram as maiores do século. Elas capturaram dinheiro que antes era gasto com a chamada alimentação fora de casa, em restaurantes. Nesse período os gastos com alimentação em casa cresceram35,9% e a alimentação em bares, restaurantes e lanchonetes cresceu 13,6% apenas. Quase um terço, ou seja, cresceu bem menos. E as pessoas transferiram gastos para a comida.

Isso provavelmente aconteceu em outros países também, essa transferência de outros gastos para gastos em supermercado, para comida. Pode parecer algo um pouco contraditório porque, durante a pandemia, houve crescimento do desemprego no mundo todo. Mas não dá para esquecer que o alimento é um bem essencial. Numa crise, as pessoas cortam outros gastos e tentam manter alimentação, esse é um padrão do consumo de alimentos. Nos tempos de bonança, a tendência é que se aumentem muito os demais tipos de gastos, e as despesas com alimentos cresçam pouco. Nas crises, cortam-se muitos os gastos nas outras áreas, mas os gastos com alimentos pouco diminuem.

Em relação à guerra da Rússia com a Ucrânia, o que temos? Existem hoje dois continentes exportadores de alimentos. As Américas, especialmente os Estados Unidos, Brasil e Argentina. E o outro é a Europa, embora exporte bem menos do que a América. E a Ásia e a África são basicamente continentes importadores.

E no contexto da Europa, Ucrânia e Rússia são exportadores de alimentos. No caso da Rússia isso é recente. Na primeira década do século a Rússia importava muitos produtos alimentícios do Brasil, assim como acontecia com a China. Só que a China continua a ser um grande importador, enquanto a Rússia parou, porque recuperou a sua produção agrícola e começou a produzir muito, assim como a Ucrânia. Ambos são países de grande extensão territorial, e a Ucrânia possui algumas das melhores terras para agricultura do mundo, com alta fertilidade. Eles são fornecedores de alimentos para outras nações da Europa.

Outra questão é a da produção de fertilizantes, pois esses dois países também desempenham um papel importante. O Brasil apresenta uma grande dependência da importação de fertilizantes, o que é um erro. Como é que um setor agrícola tão forte como o nosso pode apresentar uma dependência de 85% da importação do insumo básico para agricultura, que são os fertilizantes? No passado, essa dependência já foi bem menor. No meu modo de entender, a estratégia que o Brasil adotou para essa área foi equivocada.

Nós dependemos da importação de fertilizantes, e dois países que nos fornecem são Rússia e Ucrânia. A guerra afetou essa importação, e o preço do fertilizante ficou mais caro. Além disso, o preço do petróleo também encareceu, algo que costuma acontecer em momentos de crise, e ainda mais considerando-se que a Rússia é um grande produtor de petróleo também, e de gás. Ou seja, os preços da energia subiram também.

Então houve diminuição na exportação de alimentos, na exportação de fertilizantes e um aumento do preço de petróleo e do gás combustível. Tudo isso impactou os custos de produção dos alimentos, trazendo uma pressão adicional. O salto nos preços dos alimentos agora, de fevereiro para março de 2022,  foi impressionante, ficando entre 12% e 15%.

E somando-se à guerra surge um clima de instabilidade mundial. Os países começam a tomar atitudes defensivas, tais como reter produção. O Egito fez isso, reteve a exportação de alguns produtos, por exemplo. Tudo isso acaba gerando impactos, criando instabilidade e aumentando o preço dos alimentos.

Mas o Brasil é um dos principais exportadores de alimentos. Como é possível que o impacto aqui esteja sendo tão forte?

Baccarin: Acho que é justamente por isso. Eu digo aos meus alunos que o problema do preço dos alimentos no Brasil não se deve à falta de produção, mas sim ao fato de que o Brasil tem uma alta produção em muitas cadeias. Exportamos carnes, soja e derivados, açúcar, milho… De maneira geral, nós temos uma produção acima do consumo nacional. ‘Seria possível pensar, então, que isso é garantia de que sempre vai sobrar produto para o mercado interno.

Mas, se não for feita uma intervenção pelo poder público, os preços internos não se desvinculam dos preços internacionais.

Vamos imaginar um produtor brasileiro com uma tonelada de açúcar em estoque. Naquele momento, o preço no mercado internacional seria mil dólares a tonelada. Esse produtor vai cobrar, no mercado interno, o correspondente a mil dólares. Se o câmbio estiver quatro por um, ele vai cobrar R$ 4 mil. Se o câmbio se valorizar, e passar a cinco por um, ele vai cobrar R$ 5 mil. Então, o que ele receber lá fora, repassa aqui dentro. Se o preço lá fora subir, passar de mil dólares para mil e quinhentos dólares, o produtor vai repassar o aumento de preço lá fora aqui dentro.

Esse é o problema geral do consumidor brasileiro: nossa grande vinculação aos preços internacionais pelo lado das exportações. Segundo a racionalidade do empresário, não há por que vender aqui dentro mais barato do que vende lá fora.

Esse é o problema geral do consumidor brasileiro: nossa grande vinculação aos preços internacionais pelo lado das exportações. Segundo a racionalidade do empresário, não há por que vender aqui dentro mais barato do que vende lá fora.

José Baccarin

Existe outro grupo de produtos que são pouco expressivos no mercado internacional. Nós nem os exportamos muito, nem importamos muito. Entram aí o arroz, o feijão, as hortaliças… Nesses casos, pode acontecer uma insuficiência de produção em alguns anos. Estamos passando por isso agora.

O que mais chamou atenção neste começo de ano? Eu vi cenoura, tomate, com preço lá em cima…Isso não se deve ao mercado internacional, são deficiências na produção interna. Às vezes, a recuperação pode ocorrer até no mesmo ano. Daqui a pouco, chega o inverno, os produtores vão plantar mais tomates, mais cenouras, a oferta vai crescer e o preço vai cair.

Então, existe um grupo de produtos cujos preços estão mais vinculados às condições internas. Mas o mais geral, que vejo pelos números que eu analiso, é que o Brasil exporta muito, e o brasileiro não consegue se ver livre dos preços internacionais. Isso não é algo de todo ruim, tem um aspecto positivo.  É uma forma de obter renda, incentivar novos investimentos, fazer a agricultura crescer e tudo mais. Agora, num momento emergencial, quando vemos os preços irem lá para cima, não dá para entender por que o governo não intervém. Eu acho que temos que intervir nos momentos emergenciais.

O que poderia ser feito?

Baccarin: Existem mecanismos para isso, por exemplo, via imposto de exportação, ou via intervenção no câmbio, O Brasil tem reservas internacionais vigorosas hoje. US$ 350 bilhões. É possível valorizar a moeda nacional se ela se desvalorizar muito, como aconteceu em 2020. Ou criar um imposto sobre as exportações, para fazer com que parte do valor a ser recebido pelo produtor lá fora seja retido. Tudo isso está previsto na legislação brasileira. Não seria preciso criar uma lei nova. Nós temos as leis mas não as aplicamos desde a década de 1990.

Não podemos considerar que o agronegócio brasileiro seja um sucesso se ele contribui para aumentar a insegurança alimentar e nutricional do país. Somos de fato um grande exportador de alimentos e não atendemos a população brasileira? Isso está errado.

E os brasileiros estão cortando o consumo de proteínas e consumindo cada vez mais calorias vazias.  Cortam-se proteínas, carnes. A carne bovina foi campeã. Nesse processo de troca de produtos diminui a qualidade nutricional. Até porque os produtos ultraprocessados não subiram tanto quanto os produtos minimamente processados. Então os preços agem também contra a melhoria da qualidade nutricional da refeição.

Então não é falta de produção, é uma grande vinculação ao mercado internacional que é interessante ao longo do tempo mas nesses momentos nós devíamos ter um mecanismo público para impedir que esses aumentos lá fora sejam repassados para o mercado interno.  Algumas pessoas criticam, dizendo que isso implica adotar políticas econômicas que não são liberais. Bom, neste momento todos os países estão adotando políticas não liberais, certo? E o Brasil tem que pensar nos interesses da sua população.

Além disso, deve haver políticas para aumentar a demanda, fazendo com que a renda do brasileiro se recupere. Isso demora mais. O auxílio emergencial, que foi liberado a partir do segundo semestre de 2020, teve um impacto muito forte para o aumento do consumo. A população em situação de pobreza no Brasil caiu de vinte e sete milhões pra nove milhões num prazo de um ou dois meses. Então, há também que se pensar em ações mais contundentes pelo lado da transferência de renda e do aumento da demanda dos brasileiros e brasileiras.

E também controle de preço daqueles produtos que pressionam o custo de produção. O Brasil não tem que seguir o mercado internacional no preço do petróleo. O lucro da Petrobras vem do custo da gasolina e do diesel para o brasileiro. A lucratividade que a Petrobras teve agora em 2021 é recorde mas serviu pra quê? Para novos investimentos na Petrobras? Ou para beneficiar investidores em grande parte moradores dos Estados Unidos? Se controlarmos alguns preços no país, e eu diria que o diesel e a gasolina e o gás de cozinha são os mais importantes, também haveria diminuição de preços de alimentos.

Agora, depende de vontade política, evidentemente. Não me parece que, nesse momento no país, haja vontade de política de agir nessa direção. Mas acho que é nessa direção, e na recomposição da renda do brasileiro, que deveríamos estar trabalhando nesse momento. E não achar que o que está acontecendo é uma fatalidade, um problema que vem de fora, criado por russos e ucranianos, e contra o qual não se pode fazer nada. Sim, podemos fazer algo. E temos que fazer

E lá fora, será que o preço dos alimentos pode baixar novamente?

Baccarin: Vi um artigo recentemente dizendo que o patamar dos preços da alimentação não vai voltar ao que era antes. Eu não diria isso. Em 1974 aconteceu uma subida extrema do preço dos alimentos, como se fosse uma subida de montanha-russa, e depois os preços despencaram igual à descida na montanha-russa. Então não dá para afirmar que atingimos outro patamar nos preços. Entendo que há possibilidades de que o mundo possa voltar a registrar preços bem menores. Vamos tomar um pouco mais de cuidado com essas previsões tão alarmistas. Temos a ciência e a tecnologia para podermos voltar a equilibrar mais a produção com o necessário crescimento do consumo de alimentos pelos mais pobres. Para ocorrer, vai depender de preços melhores.

Imagem acima: Deposit Photos


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Este texto foi inicialmente publicado pelo Jornal da UNESP [Aqui!].